sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Colapso do Populismo no Brasil. Octávio Ianni.

 Em decorrência do curso promovido pelo coletivo de formação da APP-Independente e do NESEF, da UFPR, de formação de lideranças sindicais - "Educação, sociedade e sindicalismo" e da palestra de abertura, dada pelo professor Gaudêncio Frigotto, passei por um novo ciclo de leituras de interpretação da realidade brasileira. O primeiro livro da lista foi o extraordinário livro de Guido Mantega A Economia Política Brasileira, uma bela busca das raízes das tomadas de decisão, ao longo da política brasileira e que inspiraram os diferentes modelos econômicos aqui adotados. Um livro que super recomendo. Entrei em contato com esse livro ao final dos anos 1980 ao participar do curso de formação de quadros, no Instituto Cajamar, curso promovido pelo Partido dos Trabalhadores. Deixo o link da resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-economia-politica-brasileira-guido.html

5ª edição de O Colapso do Populismo no Brasil. Civilização brasileira .1995.


O segundo livro dessa série é o de Octávio Ianni O Colapso do Populismo no Brasil. Com esse livro entrei em contato no ano de 1997, no estudo das disciplinas que faziam parte do mestrado em História e Filosofia da Educação na PUC de São Paulo. O livro, extremamente didático, é uma série de aulas sobre a "crise brasileira", ministradas professor - na Columbia University, de Nova York, entre os meses de fevereiro e maio de 1967, bem no olho do furacão - entre o golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968. Esse livro eu comprei na Livraria da Editora Cortez, nas imediações da PUC., onde eu era freguês com direito a descontos.

Creio que o primeiro termo desse livro a ser esclarecido é o termo do título - populismo. Geralmente ele é acompanhado de uma conotação negativa que lhe é atribuído pelo senso comum. Obviamente, uma conotação eivada de ideologia. Ianni caracteriza bem o termo, nas reflexões que faz ao longo e na conclusão de seu livro: Selecionei dois parágrafos da conclusão: "...Em consequência, o exame dos acontecimentos colocou-nos diante do problema do imperialismo, tanto quanto diante dos papeis da burguesia nacional. As relações de classes surgiram em suas manifestações concretas; obscuras ou claras, de antagonismo ou acomodação. E o populismo, em suas diferentes modalidades (getulismo, trabalhismo, populismo de esquerda, etc.) foi caracterizado e interpretado, no contexto social e econômico em que realmente surgiu. Vejamos, pois, uma síntese desse quadro [...].

"O populismo brasileiro surge sob o comando de Vargas e os políticos a ele associados. Desde 1930, pouco a pouco, vai se estruturando esse novo modelo político. Ao lado das medidas concretas, desenvolveu-se a ideologia e a linguagem do populismo. Ao mesmo tempo que os governantes atendem a uma parte das reivindicações do proletariado urbano, vão se elaborando as instituições e os símbolos populistas. Pouco a pouco, formaliza-se o mercado de força de trabalho, no mundo urbano-industrial em expansão. As massas passam a desempenhar papeis políticos reais, ainda que secundários. Assim, pode-se afirmar que a entrada das massas no quadro das estruturas de poder é legitimado por intermédio de movimentos populistas (Página 176 da 5ª edição. O itálico é  do original).

E o que seria então o fim desse populismo? Em primeiro lugar ele deixa bem claro que isso ocorreu com o Golpe de Estado, militar-civil de 1964. Vejamos Ianni, ainda em suas conclusões: "Prisioneiros dos interesses econômicos e políticos da classe dominante - particularmente aqueles organizados no âmbito das corporações multinacionais - os donos do poder não conseguem resolver os dilemas básicos da sociedade brasileira. Obcecados pela estabilidade e a segurança, para combater qualquer manifestação de vida democrática, permaneçam no plano das aparências, insensíveis aos reais problemas sociais. Por essas razões é que os problemas do operário, camponês, universitário (entre outros) são encarados, antes de mais nada, como problemas relacionados à estabilidade socio-política, ou às conveniências da segurança interna. Por essas razões, ainda, é que às relações tradicionais de dependência estão se acrescentando novas instituições e maior engenho ideológico. Como resultado geral, permanece submersa, ou em segundo plano, a verdadeira essência dos problemas.

Assim, as relações entre as classes sociais adquirem contornos cada vez mais nítidos. À medida que se asfixiam os movimentos das massas (no proletariado urbano e rural), surgem novas manifestações da luta de classes. O populismo terá sido apenas uma etapa na história das relações entre as classes sociais. Nesse sentido é que se pode dizer que no limite do populismo está a luta de classes. Da mesma forma, no limite da ditadura de vocação fascista pode estar a sociedade socialista" (Página 182-3).

Me chamou particular atenção a primeira observação do professor no capítulo XI, A ideologia dos governantes, que bem define o golpe de 1964: "O que singulariza a política econômica inaugurada em 1964 é o fato de que ela substitui a ideologia do desenvolvimento pela ideologia da modernização. Conforme estava sendo posto em prática, o desenvolvimentismo orientava-se no sentido de dinamizar as forças produtivas; implicava a independência política e, em certo grau, impunha a autonomia econômica. A ideologia da modernização, por seu lado, conforme se efetiva depois de 1964, denota um esforço destinado a refinar o status quo e a facilitar o funcionamento dos processos de concentração e centralização do capital" (Página 151).

Para dar um panorama geral do livro destaco as suas três partes e os 12 capítulos. As três partes são as seguintes: Primeira parte: - Política e desenvolvimento. Encontramos aí quatro capítulos: 1. O sentido das crises; 2. Tensões e conflitos; 3. Fases da industrialização e 4. Desenvolvimento agrário. Basicamente são mostrados os processos de industrialização e urbanização promovidos pelo modelo de substituição de importações e os conflitos com os setores oligárquicos vinculados ao latifúndio e à economia agrário exportadora.

Na segunda parte temos - Populismo e nacionalismo, também com quatro capítulos: 5. Getulismo e populismo; 6. Política de massas no campo; 7. A esquerda e as massas e 8. Contradições do desenvolvimento Populista. Essa parte entra no âmago da discussão proposta pelo livro, que é a ideologia que fundamentou o populismo.

Na terceira parte temos - A Política de "interdependência", com mais quatro capítulos: 9. O Golpe de Estado; 10. A Dependência Estrutural; 11. A Ideologia dos Governantes e 12. Ditadura. Como devem ter percebido é o "colapso do populismo", com a substituição da política desenvolvimentista em favor da modernização conservadora, da concentração do capital e do empobrecimento das massas populares. Eis o real sentido do tema abordado nas aulas ministradas pelo professor, na Universidade dos Estados Unidos. O livro tem dois prefácios. Um é destinado à quarta edição, de 1986 e o outro à primeira edição, que é do ano de 1967.

Um livro fundamental para compreender a maior ruptura política que existiu no país e as suas implicações políticas, econômicas, sociais, culturais e atingindo todos os campos da vida brasileira. Tudo em favor do que o autor chama de inserção na "civilização ocidental" que promoveu a dependência estrutural do Brasil ao capitalismo internacional, ditado pelas grandes potências e que nos condena a permanentemente não atingir a nossa autonomia política e econômica. Dá, também, para entender perfeitamente o triste momento vivido pelo Brasil após o novo golpe, o de 2016. Ele tem absolutamente o mesmo sentido. O "populismo" havia voltado com os governos populares do PT.

Também já fiz a próxima opção de leitura. Será A Ideologia da Segurança Nacional - O poder militar na América Latina, do padre belga, que foi professor em Louvain (Bélgica) e em Harvard (Estados Unidos).

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A Economia Política Brasileira. Guido Mantega.

No dia 16 de novembro de 2020, o coletivo de formação da APP-Independente, em conjunto com o NESEF, da UFPR, deram início a mais um trabalho de formação. Dessa vez o curso se destinaria à formação de lideranças para a atividade sindical. O professor Gaudêncio Frigotto fez a palestra de abertura. Essa foi precedida de uma leitura de texto, sob o título de "Estado, educação e sindicalismo no contexto da regressão social". Na palestra, a análise da realidade brasileira ganhou grande destaque, com a indicação de uma série de livros. Isso me fez voltar a um novo ciclo de leituras de interpretação do Brasil.

Na segunda metade da década de 1980 eu ainda me encontrava em Umuarama. Era dirigente regional da APP-Sindicato, fiz minha filiação ao Partido dos Trabalhadores e participei de cursos de formação de quadros do Partido no Instituto Cajamar, uma verdadeira universidade popular. Lá estudamos a formação de partidos políticos, o socialismo e, acima de tudo, a realidade brasileira. Foi ali que eu conheci o Frei Betto, César Benjamin e Edir Sader, entre outros. Me marcaram muito. 

Como consequência desses estudos, comprei muitos livros. Lembro que me enveredei pelas ruas de São Paulo, na busca da rua Barão de Itapetininga, endereço da Livraria Brasiliense. Um dos livros que comprei no ano de 1988 foi o de Guido Mantega A Economia Política Brasileira. Na época, não cheguei a lê-lo. Era um período de muita agitação política, com a redemocratização do Brasil. Tive intensa participação em praticamente todos os movimentos. Só no ano de 1988 estive três vezes em Brasília. Lembrando que 1988 foi o ano da promulgação da Constituição, um verdadeiro Pacto Social, com o qual saímos do período autoritário implantado em 1964. As leituras tiveram que esperar.

Economia Política Brasileira. 4ª edição. Guido Mantega.


Embora o livro não tenha sido citado na fala do professor Frigotto, retomei o meu ciclo de leituras por ele. Que leitura maravilhosa e esclarecedora. O livro busca a origem histórica da economia política brasileira, como nos aponta o título. Ele é uma adaptação de sua tese de doutoramento na USP, no início dos anos 1980. A primeira edição do livro é do ano de 1984, numa publicação da Polis/Vozes. A banca examinadora foi constituída pelos professores Paul Singer, Luiz Carlos Bresser Pereira, Brasílio Salum, Fernando Henrique Cardoso e Gabriel Cohn. Na contracapa do livro lemos a seguinte apresentação:

"Pela primeira vez foram reunidas as ideias de celso Furtado, Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré, Ignácio Rangel, Paul Singer, Maria da Conceição Tavares, Francisco de Oliveira, André Gunder Frank, Luiz Carlos Bresser Pereira e demais pensadores estruturalistas, marxistas e neokeinesianos, e organizadas nas correntes de pensamento que deram origem à Economia Política Brasileira.

Numa linguagem acessível não apenas aos estudantes de Economia, mas a todo o público de Ciências Humanas, Guido Mantega reconstitui os debates teóricos das décadas de 50 e 60, promovidos por esses clássicos do pensamento econômico brasileiro, que participaram da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), do Partido Comunista Brasileiro ou demais entidades do gênero, e produziram o Modelo de Substituição de Importações, o Modelo Democrático-Burguês e o Modelo de Subdesenvolvimento Capitalista". São os temas do livro.

Para quem não tiver tempo para a leitura inteira do livro, indico ao menos da introdução, que oferece um belo panorama do livro. Também tem um belo quadro ilustrativo da árvore genealógica da economia política brasileira. O livro tem cinco capítulos, além da bela introdução, já referida e, por óbvio, a indicação da bibliografia utilizada. Tudo isso ocupa 288 páginas.

Como estímulo para a leitura e propiciar uma melhor antevisão da leitura, dou os títulos e subtítulos dos cinco capítulos: I. O Nacional-desenvolvimentismo: 1. antecedentes do desenvolvimentismo. 2. O pensamento da CEPAL: a deterioração dos termos de intercâmbio; industrialização, intervencionismo estatal e nacionalismo. 3. Ragnar Nurske e o círculo vicioso da pobreza. 4. Gunnar Myrdal e o capitalismo bonzinho. 5. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros. 6. O Nacional desenvolvimentismo e os planos estatais: Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (1951/53), Grupo Misto BNDE-CEPAL (1953/55), O Plano de Metas. Da minha parte  tenho a dizer que é impossível estudar o Brasil sem passar pelos estudos da CEPAL e do ISEB.

II. O Modelo de Substituição de Importações: 1. Celso Furtado e a Teoria do Subdesenvolvimento; desenvolvimento e subdesenvolvimento. Os conceitos básicos do modelo. Luta de classes e democracia capitalista. Os impasses do subdesenvolvimento. 2. Ignácio Rangel e a inflação brasileira: Entre Marx e Keynes. O imperativo das forças produtivas.  Inflação e desenvolvimento. 3. Os herdeiros do Modelo de substituição de importações. Maria da Conceição Tavares e a fundamentação do modelo. Paul Singer e os ciclos conjunturais. Luiz Carlos Bresser Pereira e a nova classe média.

III. Raízes do pensamento econômico marxista brasileiro: 1. Lênin e a Revolução Democrático-Burguesa. 2. Trotski e a Revolução Permanente. 3. A III Internacional e os movimentos nacionais revolucionários. 4. A IV Internacional e o capitalismo atrasado.

IV. O Modelo Democrático-Burguês: 1. O PCB e a Revolução Democrático-Burguesa. A Declaração de Março e a via pacífica. Nelson Werneck Sodré e a consolidação do Modelo. 2. Contradições do Modelo. Dominação capitalista e política econômica. Reforma agrária, salários e mercado industrial. Burguesia industrial, nacionalismo e capital estrangeiro. Burguesia nacional e regime político.

V. O Modelo de Subdesenvolvimento Capitalista: 1. A. Gunder Frank e o desenvolvimento do sub desenvolvimento. Paul Baran e o excedente periférico. As constelações metrópoles-satélites. Deficiências da Teoria do Subdesenvolvimento. Proletariado periférico e revolução socialista. 2. Caio Prado Jr. e o capitalismo colonial. A Revolução Brasileira e a crítica à tese feudal. Balanço da teoria do capitalismo colonial. O capitalismo sem acumulação. 3. Rui Mauro Marini e a superexploração do subimperialismo. Do intercâmbio desigual à exportação de mais-valia. Contradições da Teoria da Superexploração. Superexploração, subconsumismo e subimperialismo. 4. Frank, Marini e a teoria da Revolução permanente.

Foi uma leitura extremamente proveitosa e com o esclarecimento dos temas tratados, como as questões relativas a economia política, ou as deliberações políticas que envolveram a economia e o desenvolvimento brasileiro. E vamos em frente. Já selecionei outro livro, também não citado por Frigotto em sua fala de abertura. Já, já apresento a resenha.


terça-feira, 20 de outubro de 2020

História do medo no Ocidente - 1300-1800. Jean Delumeau.

 No rastro da leitura de A Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff e de História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois, o livro da vez foi História do Medo no Ocidente - 1300-1800, de Jean Delumeau. Um livro impressionante. Que força e poder tem o tal do medo, especialmente, quando se está diante de um período histórico em que se desenvolveram a Guerra dos Cem Anos (1337-1453 - entre a Inglaterra e a França), duas reformas religiosas (a protestante - Lutero - 1517) e a contra reforma (Concílio de Trento 1535-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648 - entre católicos e protestantes). Deixo o link dos dois livros:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-civilizacao-do-ocidente-medieval.html  e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/historia-do-riso-e-do-escarnio-georges.html

O notável livro de Jean Delumeau, História do medo no ocidente - 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado.

Na contracapa do livro encontramos uma síntese quase perfeita do livro: "Ao tomar como objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da ideia de que não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIII ao XVIII - o mar, os mortos, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes (o judeu, a mulher, o muçulmano -, o grande historiador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente".

Vejamos isso de uma forma mais organizada através dos doze capítulos do livro, precedidos de uma introdução e sucedidos por conclusão e pela referência bibliográfica das inúmeras notas. Tudo isso ocupa 471 páginas. O livro se divide em duas partes: Parte um: "Os medos da maioria", com cinco capítulos e a Parte dois, " A cultura dirigente e o medo", com mais sete capítulos. 

Os capítulos da primeira parte, com os respectivos subtítulos são: 1. Onipresença do medo. "Mar variável onde todo temor abunda"; o distante e o próximo; o novo e o antigo; hoje e amanhã; malefícios e adivinhação. 2. O passado e as trevas. Os fantasmas; o medo da noite. 3.Tipologia dos comportamentos coletivos em tempo de peste. Presença da peste; imagens de pesadelo; uma ruptura inumana; estoicismo e desregramentos - desalento e loucura; covardes ou heróis; de quem é a culpa. 4. Medo e sedições I. Objetivos, limites e métodos de investigação; o sentimento de insegurança; medos mais precisos; o temor de morrer de fome; o fisco: um espantalho. 5. Medo e sedições II. Os rumores; as mulheres e os padres nas sedições; o iconoclastismo; o medo da subversão.

Os capítulos da segunda parte, também com os respectivos subtítulos são: 6. "A espera de Deus". Medos escatológicos e nascimento do mundo moderno; duas leituras diferentes das profecias apocalipticas; os meios de difusão dos medos escatológicos; um primeiro tempo forte dos medos escatológicos: o fim do século XIV e o começo do século XV; um segundo tempo forte: a época da reforma; um Deus vingador e um mundo envelhecido; a aritmética das profecias; geografia dos medos escatológicos. 7. Satã. Ascensão do satanismo; satanismo, fim do mundo e mass media da Renascença; O "príncipe deste mundo"; as "decepções" diabólicas. 8. Os agentes de Satã. I. Idólatras e muçulmanos. os cultos americanos; a ameaça muçulmana. 9. Os agentes de Satã. II. O judeu, mal absoluto. As duas fontes do antijudaísmo; papel do teatro religioso, dos pregadores e dos neófitos; as acusações de profanações e assassinatos rituais; converter; isolar; expulsar; uma nova ameaça: os convertidos. 10. Os agentes de Satã. III. A mulher. Uma acusação que data de longe; a diabolização da mulher; o discurso oficial sobre a mulher no final do século XVI e no começo do século XVII; uma produção literária frequentemente hostil à mulher; uma iconografia frequentemente hostil à mulher. 11. Um enigma histórico: A grande repressão da feitiçaria I. O dossiê. A escalada de um medo; uma legislação de inquietude; cronologia, geografia e sociologia da repressão. 12. Um enigma histórico: a grande repressão da feitiçaria II. Ensaio de interpretação. O universo da heresia; o paroxismo de um medo; uma civilização da blasfêmia; um projeto de sociedade.

Como podem ter notado, o cristianismo perpassa praticamente todo o livro. Para mim dois capítulos se revestiram de maior significado, talvez porque chegaram muito fortemente até os nossos tempos, o capítulos 9 e 10, sobre os agentes de Satã, o judeu como o mal absoluto e a mulher. Na década de 1960, eu ainda rezava na sexta feira da Paixão "Oremos etiam pro perfidis judeis". Essa oração foi abolida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). E sobre a mulher então, nem falar. Capítulos muito ilustrativos e cuja leitura eu recomendo muito.

Ainda três parágrafos das orelhas do livro: "'Não temos história do amor, da morte, da crueldade, da alegria...' Essa queixa de Lucien Fabvre em 1948, tão repetida desde então, foi como um manifesto, que definiu o programa de trabalho da disciplina que se chamou a história das mentalidades. Uma das lacunas que o fundador da escola dos Annales deplorava é preenchida é preenchida por este livro de Jean Delumeau: a história dessa paixão primordial que é o medo. Paixão pouco estudada, porque não é nada honrosa. Quem de nós, perguntava Roland Barthes (em 1973), confessa seu medo? Sabemos que a filosofia clássica dividiu, em linhas gerais, as paixões em positivas e negativas: amor e ódio, coragem e medo. É claro que as paixões positivas são mais bem vistas, mas dentre as negativas, a mais vil sempre foi o medo (em suas formas brandas - temor, receio, timidez - ou excessivas: covardia, pusilanimidade). E no entanto, se paixão é pathos, se antes que o século XIX identificasse paixão a amor-paixão ela esteve mais ligada à passividade, ao que sofremos (nos dois sentidos do termo, descritivo e doloroso), o medo talvez seja a paixão em que mais sofremos, isto é, a paixão por excelência.

Que estudo pode, assim, ser mais oportuno que o medo? É um dos grandes temas recalcados de nossa cultura (voltamos a lembra Roland Barthes). Apesar disso, ou por isso mesmo, ele se destaca na estratégia das paixões. Como ler sem notar, no romance, na poesia, no teatro, a força do medo? Como pensar a política sem ver, não só o que os homens deixam de fazer por covardia, mas também o que fazem por medo? Como, enfim, pensar a condição humana sem estes pares primordiais, não só os que mencionei acima, mas ainda outro que vem desde os Antigos, medo e esperança?

Thomas Hobbes, que nasceu de parto prematuro quando o pais fugiam, em 1588, da temida Armada de Felipe II, escreveu na velhice: 'Minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo'. Esta frase se entendeu como significando: o gêmeo do medo se identifica com esta paixão; Hobbes seria o filósofo do pavor. Mas, se os gêmeos são e foram, não dois medos, mas medo e esperança (the old Twins, Hope and Fear, dizia John Donne por essa época) - então muda o sentido de toda a sua filosofia política. E este exemplo vale para a história que faz Delumeau. Conhecer o medo, devassar seus arcanos não é só entender a uma curiosidade particular. É ampliar nossas consciências para reconhecer um fantasma, cuja força está em ser inconfesso". Estes parágrafos são de Renato Janine Ribeiro.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois.

Ao terminar de ler Jacques Le Goff, A Civilização do Ocidente Medieval, decidi continuar na leitura de livros de história. Optei por Georges Minois, História do Riso e do Escárnio. Não é simplesmente um livro de história. É um senhor livro. São 653 páginas de uma memorável pesquisa e que exigiram de seu autor um profunda dedicação e muita erudição. Esta pesquisa passa diversas vezes por toda a história, se detendo, especialmente, nos campos religioso, filosófico, histórico e literário. Também do leitor é exigido bastante. Não é um livro para principiantes.

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP - 2003. Tradução de Maria Elena Ortiz Assumpção.

O livro começa pelos gregos, passa pelos latinos, pela alta e baixa Idade Média, chegando ao Renascimento, ao Esclarecimento, passando pelas reformas religiosas, pelas revoluções, pelas guerras, até chegar ao século XX, parando por aí, uma vez que o livro foi publicado no ano de 2003. Todos os grandes nomes da teologia, da filosofia, da literatura, do teatro e do cinema merecem a análise do autor. Ao todo são 15 capítulos, além da introdução e da conclusão. Depois dou os títulos desses capítulos. O riso e o escárnio é visto em todas as suas formas, quer as maléficas, quer as benéficas. A palavra com a qual mais vezes eu me detive foi a palavra "derrisão". Seria esse o efeito maior provocado pelo riso?

Na orelha da capa lemos a seguinte apresentação: "O ser humano tem duas características que o diferenciam de outros animais: é o único que sabe que vai morrer e que ri. Será que o riso não existe exatamente para consolá-lo dessa amarga tristeza? Essa perspicaz indagação é apenas uma das importantes questões apontadas neste livro pelo historiador francês Georges Minois.

O autor esquematizou a história do riso em três períodos: o riso divino, o diabólico e o humano. No primeiro, associado à Antiguidade clássica, o riso está ligado à suprema liberdade dos deuses. É, portanto, vinculado à recriação do mundo, seja nas sátiras escritas pelo grego Aristófanes seja nas críticas sociais dos comediógrafos latinos Plauto e Terêncio.

O cristianismo, na Idade Média, opõe-se a essa visão. Prega que o homem deve temer o inferno, regido pelo diabo, rei do riso, da zombaria e do escárnio, atitudes toleradas apenas em festas pagãs como o Carnaval. A partir do Renascimento, com o progressivo abalo de todas as crenças, o riso renasce, penetrando nas fissuras do absoluto para questionar a religião, no século XVIII, a monarquia, no século XIX, e o autoritarismo, no século XX.

Em pleno século XXI, para Minois, o ser humano, infelizmente, teria domesticado o poder derrisório do riso. No atual mundo do "politicamente correto", o seu componente agressivo estaria desvitalizado. Embora pareça estar por toda parte - na publicidade, na televisão, nos jornais, nas transmissões esportivas -, o riso não passaria, mais do que nunca, de uma máscara para esconder a profunda agonia do existir".

Na contracapa do livro lemos um parágrafo que certamente pretende ser uma provocação para a leitura: "Estudado durante séculos pelas mais diferentes disciplinas, o riso ainda guarda um grande mistério. Da gargalhada solta dos carnavais medievais à fina ironia dos romancistas vitorianos, a história do riso pode revelar os dilemas de cada época. Neste trabalho de fôlego, Georges Minois enfrenta com bom humor a grande tarefa de criar uma história para o que os antigos gregos consideravam uma das maiores virtudes humanas doadas pelos deuses".

Vamos, para dar uma ideia aproximada dos temas, aos títulos do 15 capítulos: 1. O riso inextinguível dos deuses - os gregos arcaicos e o mistério do riso; 2. A humanização do riso pelos filósofos gregos - Da ironia socrática à zombaria de Luciano; 3. O riso unificado dos latinos - O risus, satírico e grotesco; 4. A diabolização do riso na Alta Idade Média - Jesus nunca riu; 5. O riso unânime da Festa Medieval - A paródia a serviço dos valores; 6. Rir e fazer rir na Idade Média - Humor sagrado e humor profano; 7. O riso e o medo na Baixa Idade Média - o retorno do diabo; 8. A gargalhada ensurdecedora do Renascimento - o mundo rabelaisiano e suas ambiguidades; 9. Acabou-se o riso - a grande ofensiva político-religiosa do sério (séculos XVI-XVIII); 10. O riso amargo do burlesco - a era da desvalorização cômica (primeira metade do século XVII); 11. Do riso polido à zombaria - o poder ácido do espírito (séculos XVII e XVIII); 12. O riso e os ídolos no século XIX - o escárnio nos combates políticos. sociais e religiosos; 13. Filosofia do riso e riso filosófico no século XIX - os debates sobre o riso, do grotesco ao absurdo; 14. O século XX, morrer de rir - a era da derrisão universal; 15. O século XX: a morte do riso? - a desforra póstuma do riso.

Um livro que, creio eu, se destina mais para pesquisadores do que para leitores propriamente ditos. Sei que ele é bastante usados nos cursos de pós graduação em Linguística. Está dada a dica. Valeu muito a leitura. Por razões muito particulares, deixo o link de uma postagem a partir do livro sobre o padre São João Maria Vianney, o padroeiro dos padres seculares. É que eu fui seminarista, lá nos anos 1950-60. https://www.blogger.com/blog/post/edit/2400511981612982468/7887219725086152243


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

São João Vianney - padroeiro dos padres seculares. No livro de Georges Minois.

Nasci no dia 21 de setembro de 1945, em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul. Nasci sob a unidimensionalidade da religião católica. O cônego Oscar Mallmann foi o pastor, de algo em torno de duas mil almas, por mais de cinquenta anos. Terra de padres e de bispos. Ao redor, muitos seminários. Em Salvador do Sul e em Pareci Novo, os dos jesuítas e em Bom Princípio, o dos padres seculares. O cônego Mallmann tinha espírito de jesuíta, mas, ele me destinou para os padres seculares e lá me fui, ainda na tenra infância para o Seminário Menor São João Maria Vianney de Bom Princípio.

São João Maria Vianney, o cura de Ars, é o padroeiro dos padres seculares, destinados a trabalharem nas paróquias, sem formarem uma ordem religiosa, como, por exemplo, os padres jesuítas. Obedecem diretamente ao bispo diocesano. Não fazem o voto de pobreza, apenas os de obediência e castidade, embora a pratiquem. No seminário, pouco ouvimos falar dele. Nenhuma biografia nos foi recomendada. A única coisa que eu lembro, que nos era falada pelos padres, é a de que ele não se distinguiu pela inteligência, mas pela sua grande fé. Era um padre vigário exemplar.

História do Riso e do Escárnio. UNESP. 2003. Tradução de Maria Elena O. Ortiz Assumpção.


Agora me deparei com ele na leitura do monumental livro de George Minois, História do Riso e do Escárnio. Ele não entra na história pelos seus amplos sorrisos, pelo seu bom humor, mas por ser seu feroz combatente. O encontro com o santo se dá no capítulo 12, sob o título de "O riso e os ídolos no século XIX", num subtítulo de "A igreja do século XIX contra o riso", que eu passo a transcrever. Mas antes, duas informações: A primeira, São João Vianney (1786-1859) foi proclamado santo no ano de 1925, por Pio XI. A segunda. Ele inspirou um outro santo, o santo Josemaria Escrivá (1902-1975. Este se tornou santo em 2002, sob o pontificado de João Paulo II. Escrivá é o fundador da poderosa Opus Dei. Santo Deus! Como eu mudei. Mas vamos à descrição:

A fisionomia severa do santo cura de Ars.

"... Mas Lamennais não é a Igreja. Então voltemo-nos para um contemporâneo seu, que foi canonizado: Jean-Marie Vianney, o 'cura de Ars'. Um dos sinais de sua santidade, segundo o processo de canonização, é o fato de ter recebido 'o dom das lágrimas', e há numerosos testemunhos que o mostram chorando por qualquer coisa. Não é bom divertir-se em sua paróquia: 'É a corda com que o demônio lança o maior número de almas para o inferno', diz ele. Ao ver o anúncio de um charivari, sai do presbitério e dispersa todo mundo. Bailes e festas profanas são proscritos, e o bom cura faz reinar um verdadeiro terrorismo moral em sua paróquia: 'Eu o ouvi uma tarde', diz o abade Pelletier no processo de canonização, 'levantar-se com veemência contra a feira de Willefranche, onde a multidão tinha o costume de entregar-se à tentação dos divertimentos profanos. O auditório ficou apavorado'. Os banquetes de casamento são proibidos; quanto às tentativas de tocar instrumentos, ouvir música e rir depois dos trabalhos agrícolas, são execradas no púlpito. Jean-Marie Vianney esforça-se para colocar culpa em seu mundo. Na sexta feira santa, em 1830, alguns dançarinos e músicos se apresentam; ninguém ousa sair. 'Na prece da tarde, o senhor cura fez sua homilia habitual. Ele chorou. Choramos com ele. E vários de nossos jovens desmiolados compreenderam sua idiotice ao ver sua mãe e irmãs chegar com os olhos vermelhos de tanto chorar'.

O cura de Ars controla, igualmente, o vestuário das pessoas. Ele impõe às moças uma horrível touca que esconde melhor seus cabelos. 'Nós tínhamos a aparência de pequenas velhas', revela uma delas. Ele não poupa ironias impiedosas ao mais inocente sinal de coquetismo. 'Um dia', diz Marthe Miard, 'ele me encontrou um pouco mais bem vestida que o comum' (ela usava um vestido de musselina de cor forte). Em vez de me dizer, como sempre, 'Bom dia, minha filha', ele me fez um cumprimento longo acrescentando: ' Bom dia, senhorita'. Eu fiquei com vergonha'.

'A pequena Jeanne Lardet exibia orgulhosamente uma bela gola nova. 'Quer me vender sua gola?', perguntou-lhe o abade Vianney, rindo. 'Eu lhe dou cinco centavos por ela'. 'Para que a deseja, senhor cura?' 'Para colocá-la no seu gato'. A pobre garota também ficou envergonhada.

Durante quarenta anos, o cura tiraniza sua paróquia. Além disso, ele é obcecado pelo diabo, que acredita ver em todos os cantos da rua e até em sua cama. O riso é banido. Contudo, é atribuída a ele uma ' malícia delicada'. Mas em sua boca, diz o abade Trouchu, a própria zombaria é santificada. 'Essas tiradas não ferem ninguém [!], porque a malícia branca que elas encerram é temperada pelo tom cheio de regozijo e pela expressão graciosa do rosto.

Há milhares de de curas de Ars, no século XIX, para quem rir é um crime ou, ao menos, uma presunção de culpa. Eis um caso revelador: em 1883, em Taulé, o reitor Kervennic solicita a troca de seu vigário, o abade Bramoullé. Motivo: ele ri, é alegre, tem sempre um ar de contentamento. Trata-se de uma conduta eminentemente suspeita para um jovem padre de trinta anos a quem foi ensinado, no seminário, ter sempre um ar triste. Ele sorri até dando a comunhão! O reitor comunica ao bispo seu espanto e suas suspeitas, em uma carta que revela muito sobre a mentalidade paroquial da época: 'Percebo que, quanto mais exijo dele (como me substituir perante os doentes, dar uma instrução ou um sermão), quanto mais os fiéis, em grande número, o retêm no confessionário, mais ele fica alegre e contente: nada parece capaz de diminuir seu zelo nem desanimá-lo. ... Ele está sempre contente por pregar, deseja fazer mais do que lhe é pedido; isso não seria vaidade, presunção, vontade desmedida de aparecer? Ele está sempre feliz por assistir meus doentes. ... Isso o faria crer que todo mundo o admira. Daí vem, parece-nos, essa grande necessidade de se produzir... suas maneiras sempre joviais e muito familiares com os fiéis e as muitas palavras indiscretas que diz. Já cansei de dizer que gostaria que ele fosse mais tímido, mais reservado e mais prudente".

Santo Deus! Como eu mudei. Eu não gostaria de ter como padroeiro este São João Maria Vianney. Texto extraído de: MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. UNESP. 2003. Páginas 500-502.



domingo, 4 de outubro de 2020

Dois "Pai Nossos" do fim do século XIV. Paródias sarcásticas. Georges Minois.

 Todo o poder que extrapola os seus limites vira chacota, mesmo quando se trata das coisas tidas como as mais sagradas. É o que podemos verificar com o cristianismo medieval. No século XIV, o cristianismo já estava consolidado em toda a Europa ocidental e em virtude de seus absurdos abusos começou a ser contestado. Como as formas mais explícitas de contestação não eram permitidas, os fatos começam a ocorrer pelas beiradas. Pela ironia, pela sátira e pelas paródias. É o que encontramos na narrativa do fantástico livro História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois.

Como exemplo trago a paródia de dois "Pai nossos". Eles são assim apresentados: "Deus não é poupado pelo riso, nesse fim de Idade Média. A tradição das missas, preces e sermões parodísticos certamente não é nova; mas, nesse caso, também o tom muda. Diante da aparente inércia divina perante as catástrofes, o riso torna-se acusador. Sobretudo, não levanta o dedinho para socorrer-nos. Vós que tudo podeis e que nos amais tanto! Olhai-nos sofrer! Esse é o sentido das preces parodísticas que vêm à luz no século XV. Desta vez, a blasfêmia não está longe, como o testemunham dois Pater Noster do fim do século XIV que, com nuance trocista, felicitam Deus por ficar tranquilamente no céu, enquanto males de toda espécie se abatem sobre a terra e o clérigo furta suas ovelhas. Ninguém sabe o que os homens fizeram para semelhante sorte, mas o Senhor tem toda a razão em ficar longe dela. Essa é a lição do Pater Noster em quartetos:

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP. 2003. Tradução: Maria Helena O. Ortiz Assumpção.

Pater Noster que és bem sábio,                                                                                                                   

tu és digno de todos os louvores,

porque lá em cima fizeste tua morada 

e bem no alto te escondeste - In celis.

Em nosso presente o mal abunda,

Cada um é cheio de orgulho e de ira.

Não há, neste mundo, alguém

de quem se possa dizer - Sanctificetur.

Porque, nos tempos que ora ocorrem,

Aquele que menos sabe

é o que mais pode vangloriar-se na corte

e blasfemar contra ti e desprezar - Nomen tuum.

... Por isso se queres aceitar meu conselho,

Em cima, bem alto, deves ficar,

no paraíso, em nobre glória,

e nunca aqui embaixo descerás - Et in terra.

Eu me admiro e me maravilho

Porque estamos em tal perigo

por aqueles que usam veste vermelha

e só fazem tomar e comer - Panem Nostrum.

Não há uma única vez,

porque não há dia de semana,

em que eles não nos pilhem de tal forma

que mal podemos sobreviver - Cotidianum.

Ora não sei o que fizemos

Nem se pensas que isso vai durar, 

Porque não acredito que exista

Ninguém no mundo que a tanto resista - Sicut et nos.

(Manuscrito da Biblioteca da Universidade de Genebra).

Essa ironia se encontra também no Paternostre de Lombardia, que data da mesma época. 'Lombard' é, então, mais ou menos sinônimo de 'rapace', 'opressor'. A agressividade é patente. 'Não és louco, Pai Nosso, Te escondeste lá em cima, enquanto os diabos nos tomam panem nostrum:

Pater noster tu não és louco,

porque te colocas em grande repouso,

que subsiste alto in celis:

porque, agora, neste país,

não há ninguém que seja sanctificetur

nem que pense no tempo futuro

nem que invoque nomen tuum.

... Só pensas no mal noite e dia

Ora, cuida-te bem in celo

sem te deixar, eu te louvo;

porque os diabos sabidos reinam

e tudo revolvem e tudo tomam

e é inferno et in terra

E são espertos ingleses

que roubam panem nostrum

e nos dão muita pancada.

E aqueles que nos deveriam guardar

Só fazem atormentar-nos

Com sua gula quotidianum,

tiram o nosso sem razão

e nem dizem: da nobis.

... Fazes muito bem ficando aí

porque aqueles que mantêm a guerra

não o fazem por nenhuma terra,

mas só para ter a nostra

Ora, não acredites nisso,

porque se cá em baixo estivesses

e não soubesses te defender,

eles te fariam sicut et nos.

(Biblioteca Santa Genoveva). 

Texto extraído de MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP. 2003. Páginas 253-255.

E hoje em dia, que paródias seriam feitas diante de tantos abusos religiosos existentes. Nunca houve tantos lobos vestidos em pele de cordeiro como nos dias de hoje. O que dizer das chamadas teologias da prosperidade (tanto entre católicos, quanto entre os evangélicos), que pregam virtual e fisicamente 24 horas por dia para recolher o panem nostrum, obtido com o suor de nossos rostos.



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A Civilização do Ocidente Medieval. Jacques Le Goff.

 A curiosidade em torno desse livro, A civilização do ocidente medieval, de Jacques Le Goff, veio de uma espécie de diletantismo em torno do tema da afirmação do cristianismo como ideologia dominante no mundo ocidental, e de um grupo de estudos a respeito do tema. Já tenho três posts sobre o tema neste blog. O primeiro se refere ao ato fundador, com São Paulo, no denominado Concílio de Jerusalém. O segundo se refere ao cristianismo como religião de Estado, através de Edito de Milão e do Concílio de Niceia e o terceiro, já retirado deste livro, sobre a expansão por toda a Europa sob o império de Carlos Magno. 

LE GOFF. A civilização do ocidente medieval. EDUSC, 2005. Tradução: José Rivair de Macedo.


Bem, mas vamos ao livro de Le Goff, numa bela edição da EDUSC, a editora da Universidade do Sagrado Coração, sediada em Bauru. Como introdução ao tema, eu citaria a própria introdução que Le Goff escreve para o seu livro, algo em torno de 5 ou seis páginas. Le Goff centraliza a sua obra entre os séculos 10º a 13, período que ele denomina como Idade Média Central. Da introdução tomo os dois últimos parágrafos, perfeitamente ilustrativos, em que aponta para duas realidades:

"A primeira relaciona-se com a própria natureza do período. A Igreja desempenhou aí um papel central, fundamental. Mas é preciso ver que o cristianismo aí funcionou sob dois níveis: como ideologia dominante, apoiada num poder temporal considerável, e como religião propriamente dita. Negligenciar um destes papéis levaria à incompreensão e ao erro. Além disso, no último período da Idade Média, que ao meu ver começa após a Peste Negra, a Igreja teve consciência de que seu papel ideológico passara a ser contestado, o que a levou ao endurecimento que se exprimiu na caça às bruxas e de modo mais geral na difusão do 'Cristianismo do medo'. Mas a religião cristã jamais esteve reduzida apenas a este papel ideológico e de defensora da ordem estabelecida. Foi na Idade Média que nasceu o impulso para a paz, para a luz, a elevação heroica, um humanismo em que o homem peregrino, feito à imagem e semelhança de Deus, esforça-se na busca de uma eternidade que não está no passado, e sim no futuro.

A segunda realidade é de caráter científico e intelectual.  Provavelmente não há domínio da história mais fragmentário no ensino universitário tradicional, na França com certeza, e em vários outros países. Da história geral propriamente dita foi extraída a história da arte e a arqueologia (esta última em pleno desenvolvimento), a história da literatura (seria preferível falar de literaturas neste mundo bilíngue em que as línguas vernáculas se desenvolvem ao lado do latim dos clérigos), a história do direito (também aqui os direitos, pois o canônico foi se constituindo paralelamente ao direito romano renascente). Ora, nenhuma sociedade, nenhuma civilização nutriu paixão tão intensa pela globalidade, pela totalidade, quanto a Idade Média. Para o melhor e para o pior, ela foi totalitária. Reconhecer sua unidade é antes de tudo restituir sua globalidade".

Em suma, um mundo fechado, que insiste em permanecer fechado, mas que é pressionado por todos os lados para as devidas aberturas, especialmente, no campo da economia e das ciências. É o processo histórico em marcha.

Apresento ainda a orelha da capa do livro, que também foca nessa realidade: "Entre a lenda negra de uma 'idade das trevas' e a lenda dourada da 'belle époque' medieval, existe a realidade de um mundo de monges, clérigos, guerreiros, camponeses, artesãos e mercadores que oscilou entre a violência e a aspiração da paz, entre a fé e a revolta, entre a fome e a expansão. Uma sociedade marcada pela obsessão da sobrevivência que conseguiu dominar o espaço e o tempo e que desbravou as florestas, que se aglomerou em torno das aldeias, castelos e cidades, que inventou a máquina, o relógio, a universidade e a nação.

Este mundo rude e conquistador foi o da infância do Ocidente, um mundo 'primitivo' em que as pessoas atuavam na terra com os olhos voltados para o céu, um mundo que introduziu a razão no universo simbólico, que encontrou o equilíbrio na relação entre a palavra e a escrita, que inventou o purgatório entre o inferno e o paraíso.

Da Escandinávia ao Mediterrâneo, do mundo celta ao eslavo, o sistema feudal coloca em evidência as estruturas, as mentalidades, as contradições, os dinamismos e as inércias que a Cristandade latina legou à sociedade e à civilização ocidental contemporânea".

O livro se divide em duas partes. Na primeira, é mostrado o percurso do mundo antigo à cristandade medieval e na segunda é mostrada a civilização medieval. A primeira parte compreende quatro capítulos, a saber: 1. A instalação dos bárbaros (séculos 5º - 7º); 2.A tentativa de organização germânica (séculos 8º-10º); 3. A formação da cristandade (séculos 14-15). A segunda parte, bem mais longa, é formada por uma introdução, sob o título de gênese e mais quatro capítulos: 5. Estruturas espaciais e temporais (séculos 10º-13); 6. A vida material ( séculos 10º-13); 7. A sociedade cristã (séculos 10º-13); 8. Mentalidades, sensibilidades, atitudes (séculos 10º-13). Seguem ainda orientações e referências bibliográficas. Tudo isso ocupa 399 páginas. Leitura indispensável para compreender a história como um processo construído pelos humanos em suas mais diversas movimentações.

Que é Jacques Le Goof? Le Goff nasceu na cidade de Toulon, em 1924, e desde os tempos do colegial sempre se sentiu atraído pelo estudo da história, lemos na orelha da contracapa. Aí também encontramos a informação de que ele é um dos maiores medievalistas e integra a lista dos grandes historiadores franceses. Sua formação e atividades profissionais se desenvolveram na Escola Normal Superior de Paris. Faleceu no ano de 2014.