quinta-feira, 8 de outubro de 2020

São João Vianney - padroeiro dos padres seculares. No livro de Georges Minois.

Nasci no dia 21 de setembro de 1945, em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul. Nasci sob a unidimensionalidade da religião católica. O cônego Oscar Mallmann foi o pastor, de algo em torno de duas mil almas, por mais de cinquenta anos. Terra de padres e de bispos. Ao redor, muitos seminários. Em Salvador do Sul e em Pareci Novo, os dos jesuítas e em Bom Princípio, o dos padres seculares. O cônego Mallmann tinha espírito de jesuíta, mas, ele me destinou para os padres seculares e lá me fui, ainda na tenra infância para o Seminário Menor São João Maria Vianney de Bom Princípio.

São João Maria Vianney, o cura de Ars, é o padroeiro dos padres seculares, destinados a trabalharem nas paróquias, sem formarem uma ordem religiosa, como, por exemplo, os padres jesuítas. Obedecem diretamente ao bispo diocesano. Não fazem o voto de pobreza, apenas os de obediência e castidade, embora a pratiquem. No seminário, pouco ouvimos falar dele. Nenhuma biografia nos foi recomendada. A única coisa que eu lembro, que nos era falada pelos padres, é a de que ele não se distinguiu pela inteligência, mas pela sua grande fé. Era um padre vigário exemplar.

História do Riso e do Escárnio. UNESP. 2003. Tradução de Maria Elena O. Ortiz Assumpção.


Agora me deparei com ele na leitura do monumental livro de George Minois, História do Riso e do Escárnio. Ele não entra na história pelos seus amplos sorrisos, pelo seu bom humor, mas por ser seu feroz combatente. O encontro com o santo se dá no capítulo 12, sob o título de "O riso e os ídolos no século XIX", num subtítulo de "A igreja do século XIX contra o riso", que eu passo a transcrever. Mas antes, duas informações: A primeira, São João Vianney (1786-1859) foi proclamado santo no ano de 1925, por Pio XI. A segunda. Ele inspirou um outro santo, o santo Josemaria Escrivá (1902-1975. Este se tornou santo em 2002, sob o pontificado de João Paulo II. Escrivá é o fundador da poderosa Opus Dei. Santo Deus! Como eu mudei. Mas vamos à descrição:

A fisionomia severa do santo cura de Ars.

"... Mas Lamennais não é a Igreja. Então voltemo-nos para um contemporâneo seu, que foi canonizado: Jean-Marie Vianney, o 'cura de Ars'. Um dos sinais de sua santidade, segundo o processo de canonização, é o fato de ter recebido 'o dom das lágrimas', e há numerosos testemunhos que o mostram chorando por qualquer coisa. Não é bom divertir-se em sua paróquia: 'É a corda com que o demônio lança o maior número de almas para o inferno', diz ele. Ao ver o anúncio de um charivari, sai do presbitério e dispersa todo mundo. Bailes e festas profanas são proscritos, e o bom cura faz reinar um verdadeiro terrorismo moral em sua paróquia: 'Eu o ouvi uma tarde', diz o abade Pelletier no processo de canonização, 'levantar-se com veemência contra a feira de Willefranche, onde a multidão tinha o costume de entregar-se à tentação dos divertimentos profanos. O auditório ficou apavorado'. Os banquetes de casamento são proibidos; quanto às tentativas de tocar instrumentos, ouvir música e rir depois dos trabalhos agrícolas, são execradas no púlpito. Jean-Marie Vianney esforça-se para colocar culpa em seu mundo. Na sexta feira santa, em 1830, alguns dançarinos e músicos se apresentam; ninguém ousa sair. 'Na prece da tarde, o senhor cura fez sua homilia habitual. Ele chorou. Choramos com ele. E vários de nossos jovens desmiolados compreenderam sua idiotice ao ver sua mãe e irmãs chegar com os olhos vermelhos de tanto chorar'.

O cura de Ars controla, igualmente, o vestuário das pessoas. Ele impõe às moças uma horrível touca que esconde melhor seus cabelos. 'Nós tínhamos a aparência de pequenas velhas', revela uma delas. Ele não poupa ironias impiedosas ao mais inocente sinal de coquetismo. 'Um dia', diz Marthe Miard, 'ele me encontrou um pouco mais bem vestida que o comum' (ela usava um vestido de musselina de cor forte). Em vez de me dizer, como sempre, 'Bom dia, minha filha', ele me fez um cumprimento longo acrescentando: ' Bom dia, senhorita'. Eu fiquei com vergonha'.

'A pequena Jeanne Lardet exibia orgulhosamente uma bela gola nova. 'Quer me vender sua gola?', perguntou-lhe o abade Vianney, rindo. 'Eu lhe dou cinco centavos por ela'. 'Para que a deseja, senhor cura?' 'Para colocá-la no seu gato'. A pobre garota também ficou envergonhada.

Durante quarenta anos, o cura tiraniza sua paróquia. Além disso, ele é obcecado pelo diabo, que acredita ver em todos os cantos da rua e até em sua cama. O riso é banido. Contudo, é atribuída a ele uma ' malícia delicada'. Mas em sua boca, diz o abade Trouchu, a própria zombaria é santificada. 'Essas tiradas não ferem ninguém [!], porque a malícia branca que elas encerram é temperada pelo tom cheio de regozijo e pela expressão graciosa do rosto.

Há milhares de de curas de Ars, no século XIX, para quem rir é um crime ou, ao menos, uma presunção de culpa. Eis um caso revelador: em 1883, em Taulé, o reitor Kervennic solicita a troca de seu vigário, o abade Bramoullé. Motivo: ele ri, é alegre, tem sempre um ar de contentamento. Trata-se de uma conduta eminentemente suspeita para um jovem padre de trinta anos a quem foi ensinado, no seminário, ter sempre um ar triste. Ele sorri até dando a comunhão! O reitor comunica ao bispo seu espanto e suas suspeitas, em uma carta que revela muito sobre a mentalidade paroquial da época: 'Percebo que, quanto mais exijo dele (como me substituir perante os doentes, dar uma instrução ou um sermão), quanto mais os fiéis, em grande número, o retêm no confessionário, mais ele fica alegre e contente: nada parece capaz de diminuir seu zelo nem desanimá-lo. ... Ele está sempre contente por pregar, deseja fazer mais do que lhe é pedido; isso não seria vaidade, presunção, vontade desmedida de aparecer? Ele está sempre feliz por assistir meus doentes. ... Isso o faria crer que todo mundo o admira. Daí vem, parece-nos, essa grande necessidade de se produzir... suas maneiras sempre joviais e muito familiares com os fiéis e as muitas palavras indiscretas que diz. Já cansei de dizer que gostaria que ele fosse mais tímido, mais reservado e mais prudente".

Santo Deus! Como eu mudei. Eu não gostaria de ter como padroeiro este São João Maria Vianney. Texto extraído de: MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. UNESP. 2003. Páginas 500-502.



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