sexta-feira, 17 de maio de 2024

Érico Veríssimo declara princípios básicos. Sociedade e política. Solo de clarineta. Vol. 2.

"Qual deve ser a posição do escritor diante dos problemas sociais, políticos e econômicos de sua época? Essa é a pergunta que continua no ar, sempre atual, e jamais respondida de modo a satisfazer a todos".

Érico Veríssimo responde a esta instigante pergunta em seu livro de memórias Solo de clarineta, volume 2. A resposta é clara e direta e sem subterfúgios ou rodeios. Questão de convicção e de vida militante em favor da democracia, dos direitos fundamentais básicos e da liberdade e contra todos os excessos e arbítrios de poder, seja de direita ou da esquerda. Publico este texto em reverência ao grande escritor e para que seja melhor compreendido entre seus milhares de leitores e também entre os iniciantes na pesquisa. O seu compromisso é "com o homem e a vida". O texto é belíssimo, de um humanismo profundo. Vejamos:


Solo de clarineta - memórias. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

"Para principiar, direi que só quem pode e deve decidir sobre o comportamento político do escritor é ele próprio. Se quiser permanecer alheio a todos esses problemas e inquietações na sua Torre de Marfim e puder viver sem remorsos nessa ausência do mundo, que o faça e tenha bom proveito. Rechaço a ideia de que o escritor deve estar necessariamente a serviço dum partido político, mas aceito a de que ele possa fazer isso, se assim entender. Fala-se muito em literatura engajada. Repito mais uma vez que, o engajamento dum escritor deve ser com o homem e a vida, no sentido mais amplo e profundo dessas duas palavras.

É muito comum ouvir-se ou ler-se que eu jamais me comprometo ou defino politicamente. Ridículo! Creio que durante estes quarenta últimos anos me tenho manifestado claramente sobre problemas e acontecimentos políticos e sociais de maneira que me parece coerente e inequívoca, sempre a favor da liberdade e dos direitos do homem e contra todas as formas de opressão - coisas que nem sempre poderia fazer se fosse obrigado a seguir obedientemente a linha sinuosa e muitas vezes autocontaditória dum partido político.

Não tenho gosto nem talento para a política ativa. Restrinjo-me a princípios de ordem geral. Claro, sei que se eu me aproximar do leito em que um doente agoniza e romper a berrar que amo a saúde e a vida e detesto a doença e a morte - esses protestos ruidosos em nada poderão ajudar o moribundo, que necessita, isso sim, dum medicamento ou de uma intervenção cirúrgica de urgência para salvar-lhe a vida. Parece-me, entretanto, que também é importante não cessar de proclamar a necessidade de curar o organismo enfermo sem mutilações inúteis.

Afinal, em que posição política me encontro? Considero-me dentro do campo do humanismo socialista, mas - note-se - voluntariamente e não como um prisioneiro.

Por que socialista? - hão de perguntar. Porque o extremismo da esquerda e o da direita não passam de faces da mesma moeda totalitária; e porque o centro é quase sempre o conformismo, a indiferença, o imobilismo.

Poderá também o leitor perguntar como pode um homem que tanto preza a liberdade inclinar-se para o socialismo... Ora, é um erro imaginar que socialismo e Liberdade são termos ou ideias que se contradizem. Basta ler o que se escreve  hoje na Polônia, na Tchecoslováquia e na Iugoslávia, em suma, é suficiente inteirar-se a gente do pensamento dos neomarxistas para compreender que Stálin e em certos casos até mesmo Lênin deturparam as teorias de Karl Marx. Como resultado dessa deturpação, na Rússia soviética stalinista criou-se uma nova classe de privilegiados, uma burocracia desumana e inumana, e um novo tipo de alienação de massas, tudo isso em nome da ditadura do proletariado e do futuro do socialismo no mundo.

A dialética marxista é inseparável de seu humanismo. Segundo Marx, uma sociedade não pode ser livre se todos os indivíduos que a compõem não forem também livres. Quando o autor d'O capital falava em 'prática socialista', referia-se especificamente à liberdade. E essa noção de liberdade não foi apenas o ponto de partida de suas ideias, mas também o seu objetivo mais alto.

Karl Marx escreveu também que a teoria não deve separar-se da prática, nem o conhecimento divorciar-se da ação, e que o sistema social não pode ficar alienado dos objetivos espirituais. Segundo ele, só podem existir homens independentes dentro dum sistema social e econômico cujas abundância e racionalidade tenham conseguido liquidar a 'pré-história' e inaugurar a era da 'história humana' que há de redundar no peno desenvolvimento da sociedade.

Não sou sociólogo nem historiador e muito menos economista, mas, com um pouco de intuição  e uma certa dose de senso comum, cheguei cedo à conclusão de que seria absurdo aceitar qualquer sistema político-econômico que exige o sacrifício do homem de hoje em benefício dos chamados 'interesses mais altos do amanhã'.

Segundo o socialismo marxista, o homem como homem não deve ser imolado em benefício da humanidade do futuro. (Tenho escrito repetidamente que o homem é um ser real, a humanidade uma entidade abstrata, e a 'humanidade do futuro' - acrescento - é uma dupla abstração).

Marx, em seus escritos de que o stalinismo preferiu não tomar conhecimento, pois isso não convinha ao seu 'realismo político' - disse que o homem será sempre o objetivo derradeiro da tendência para uma sociedade verdadeiramente humana, tanto na teoria como na prática. E é por isso que os pensadores a que me referi se rebelam contra o pragmatismo burocrático e tecnológico e contra todas as formas de desumanização e alienação do povo.

Outra afirmação curiosa desses escritores neomarxistas é a de que o socialismo não é o objetivo final de Marx, mas uma aproximação. O seu alvo supremo, repita-se, é uma sociedade em que a desumanização cesse e o trabalho do homem se emancipe por completo, fornecendo-lhe todas as condições necessárias à sua autoafirmação.

O sociólogo e filósofo iugoslavo Mihailo Markovic define o humanismo como 'uma filosofia que procura resolver todos os problemas na perspectiva do homem, e que abrange não apenas questões antropológicas, como a da natureza humana, a alienação, a liberdade, mas também ontológicas, epistemológicas e axiológicas'.

Em conversa com amigos muitas vezes lhes disse que, a meu ver, o que faltava à análise marxista da sociedade era uma psicologia. Li com grande satisfação um ensaio em que Erich Fromm levanta essa ideia com sua autoridade e habitual lucidez. Escreveu ele textualmente: 'A teoria de Marx necessita de uma psicologia do homem'.

Acrescenta que os marxistas se convenceram finalmente do fato de que o socialismo tem de também satisfazer à necessidade que a criatura tem dum sistema de orientação e devoção, e que portanto o socialismo tem de tentar responder a perguntas como 'Quem é o homem? Qual o sentido e objetivo de sua vida?'. Acentua Fromm a importância das normas éticas e de desenvolvimento espiritual que ultrapassem frases vazias como 'É bom tudo quanto possa servir à revolução, ao estado proletário, à evolução histórica, etc...etc...etc...'.

Afirmou Marx que a raiz do homem é o próprio homem. Erich Fromm insiste em que uma teoria cujo centro seja o homem não pode continuar como teoria  sem uma psicologia, sob pena de perder contato com a realidade humana.

No mesmo ensaio Fromm refere-se também a um problema que muito me preocupa, principalmente quando me encontro nos Estados Unidos: o do caráter do Homo consumens criado pelas sociedades altamente industrializadas. O objetivo do consumidor não é o de possuir coisas, mas o de consumir cada vez mais e mais, a fim de com isso compensar seu vácuo interior, sua passividade, sua solidão, seu tédio e sua ansiedade. E aí estão as empresas de publicidade, que dispõem de meios cada vez mais insidiosos e engenhosos para criar nas massas necessidades artificiais que acabam por escravizá-las.

Ora, no Brasil o fenômeno apenas começa a esboçar-se. O que me preocupa por ora não é o ainda reduzido número de nossos consumidores, mas sim os muitos milhões de consumidores que nos cumpre libertar da miséria, da fome, da doença e do analfabetismo.

Este não me parece o lugar apropriado, nem eu sou o homem indicado, para propor e desenvolver um programa político econômico para resolver os problemas cruciais do Brasil, nem eu tenho a pretensão de ser portador da fórmula mágica para a nossa salvação.

Achei, isso sim, que devia fazer aqui mais uma vez uma declaração de princípios, e repetir que, se por um lado acredito na necessidade de todos os escritores e artistas terem uma consciência política e social de que não cabe ao romancista apresentar soluções para as crises econômicas, políticas e sociais em que nos debatemos.

E, para encerrar este capítulo, quero transcrever as palavras do professor H. Marcuse, com as quais me encontro de perfeito acordo: 'A realidade humana é um sistema 'aberto'. Nenhuma teoria, seja marxista ou outra qualquer, pode 'impor-lhe' uma solução'". Páginas 262-266.

Toda a obra de Veríssimo debate estas questões, através de seus personagens que encarnam as diferentes posições. Creio também que no Solo de clarineta, vol. 1, quando Érico relata suas viagens por Portugal, na época salazarista, essas suas posições estão afirmadas com muita clareza. Deixo a resenha:


Deixo ainda as resenhas de Solo de clarineta - memórias. vol. 2, do qual foi retirado este texto:


e dos sete volumes de O tempo e o vento:


terça-feira, 14 de maio de 2024

"A minha posição em face de Deus". Solo de clarineta (vol. 2). Érico Veríssimo.

Creio que os leitores sempre têm muita curiosidade em torno das crenças dos escritores. Isso não foi diferente com os leitores de Érico Veríssimo. Ele mesmo aborda a questão, na parte final de Solo de clarineta - memórias. São apontamentos deixados por Érico e incluídos no livro por seu organizador, Flávio Loureiro Chaves. Isso foi necessário visto que este segundo volume é uma obra póstuma. Também creio que a abordagem desse tema ajuda na melhor compreensão do extraordinário autor. As anotações de Érico são as seguintes:

Solo de clarineta - memórias. vol. 2. Érico Veríssimo. Companhia das letras.

"Tenho encontrado certa dificuldade em explicar a amigos e leitores a minha posição em face de Deus. Repetirei que sou um agnóstico, isto é, um homem que não se encontra na posse de provas convincentes que lhe permitam negar ou afirmar a existência dum Criador.

Posso, no entanto, afirmar que não sou destituído de sentimento religioso, pois tenho uma genuína, cordial reverência por todas as formas de vida, e um horror invencível à violência.

Sinto grande afeição e admiração pela figura histórica de Cristo e acredito sinceramente em que, se a ética cristã fosse realmente posta em prática, as criaturas humanas poderiam resolver os seus problemas de convivência num mundo que cada dia se complica mais e mais, pois leva à solidão e à agressividade. Infelizmente o que vemos em certos círculos religiosos é um grande farisaísmo, um cristianismo puramente de fachada. Citando, com a devida licença do autor, uma personagem de ficção (o dr. Leonardo Gris d'O senhor embaixador), direi que certos homens de negócio que se dizem piedosos conseguiram erguer uma parede de concreto entre suas igrejas e seus escritórios comerciais, de maneira que assim podem não só obedecer ao preceito bíblico segundo o qual a nossa mão direita nunca deve procurar saber o que a esquerda faz, como também lhes torna possível acariciar ao mesmo tempo com uma das mãos o Cordeiro de Deus e com a outra o Bezerro de Ouro. E, quando algum escritor denuncia essa prática hipócrita, a primeira ideia que ocorre a esses donos do poder é denunciar o 'escritor subversivo' à polícia. ('Para isso pagamos impostos').

Não aceito as fábulas bíblicas da Criação nem ideias como a do Paraíso, o pecado original, a Santíssima Trindade e outras tais. Acima de tudo não acredito no Inferno e na danação eterna. Creio que os cristãos que admitem essa monstruosidade estão insultando o seu Deus, que deveria ser logicamente a encarnação da suprema bondade e da mais alta justiça, isso para não falar na sua capacidade de perdoar. Por outro lado parece-me que aceitar o mito de que os que se comportam bem na vida terrena ganharão o Céu, onde permanecerão por toda a Eternidade fantasiados de anjos, entre nuvens cor-de-rosa, tocando lira e cantando - seria fazer pouco, muito pouco da imaginação do Ente Superior que teve capacidade e imaginação para criar o Universo com tudo quanto nele há - o que, convenhamos, é realmente um feito prodigioso.

Não, meus amigos, na minha opinião um problema da tremenda magnitude desse que envolve o mistério do Universo, de nossa vida e de nossa morte, merece, ou, melhor, exige uma explicação menos simplória e pueril do que essa que as Escrituras nos oferecem como chave do grande Enigma.

O curioso, entretanto, é que não raro me comovo ante a serena grave beleza de certos templos - principalmente das velhas igrejas e mosteiros românticos. (Este claustrófobo ama os claustros!) Quando visitei a basílica de São Francisco, em Assisi, senti a presença do Poverello. Em Gênova, numa meia-noite de Sábado de Aleluia, assisti a um serviço religiosos numa antiga igreja gótica, que me deslumbrou pela sua colorida pompa litúrgica. Numa memorável manhã de domingo, em Paris, na catedral de Notre-Dame, no momento em que o grande órgão acompanhado de fanfarras rompeu numa tocata de Bach, senti um arrepio em todo o corpo e tive a impressão de levitar no ar numa experiência quase mística, que quero crer tenha sido mais de natureza estética do que propriamente religiosa". Páginas 261-262.

Deixo ainda a resenha do segundo volume de Solo de clarineta, livro que contém este texto: 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/05/solo-de-clarineta-vol-2-memorias-erico.html

Também deixo a resenha dos sete volumes de O tempo e o vento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html

quarta-feira, 8 de maio de 2024

É Érico Veríssimo um escritor erótico ou pornográfico? Uma autodefinição.

No Solo de clarineta, vol. I., na apresentação do livro, José Otávio Bertasso, diretor da Editora Globo de Porto Alegre, levanta a polêmica entre o Ginásio Anchieta e Érico Veríssimo. O padre L. F. (Leonardo Fritzen) ataca o escritor: "...Pouco valem as leis de higiene se o veneno que corrompe a nossa juventude continua exposto nas vitrines". No texto do jesuíta, a pureza de São Luís Gonzaga era invocada (páginas 9 a 14).


Solo de clarineta - memórias. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

Lembremos que a vontade de destruição de livros, e em épocas mais exaltadas, também os seus autores não é nenhuma novidade. Ah, os safados guardiões da moralidade. Jeferson Tenório, de O avesso da pele, apenas para citar o caso mais recente, que nos conte. Não, me desculpem. Existe algo mais atual. Agora, em meados de abril de 2024, a prefeita de Canoinhas, SC., Juliana Maciel, jogou no lixo dois livros da biblioteca do município, dizendo tratar-se de porcaria. Ao mesmo tempo instigou a outros prefeitos a fazerem o mesmo. Entre os livros, estava As melhores do analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo. Poucos dias depois, a prefeita se encontrou com Bolsonaro, que sempre afirmou o seu gosto pelo livro de Brilhante Ustra. Creio que muitos dos prefeitos não poderão atender ao pedido da prefeita. Estão presos por corrupção. Dezoito no total, me diz a página do Google. Parece que já são 22. O número também parece significativo, pelo seu simbolismo.


Pois bem, na parte final de O solo de clarineta, em - O escritor e o espelho - Érico Veríssimo fala sobre os temas afeitos a vida de um escritor. Pela beleza dessas reflexões peço especial licença para apresentá-las. Entre os temas está o da sexualidade, erotismo e "palavras feias".

"Confesso que sinto uma sadia, cordial inveja dos escritores que têm uma real, autêntica intimidade com a terra, as árvores, os ventos, os bichos e principalmente com as criaturas humanas que também estão perto das raízes profundas da vida. Às vezes chego a pensar - por mais ridícula que a imagem possa parecer - que sou uma planta do asfalto, mas planta de papel...

Em geral, quando termino um livro, encontro-me numa confusão de sentimentos, num misto de alegria, alívio e essa vaga tristeza que vem após o ato do amor físico, satisfeita a carne. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso assim: 'Não era bem isso que eu queria fazer'.

Chegamos assim a um assunto que eu gostaria de discutir com mais vagar. Sou habitualmente apontado como um escritor erótico ou mesmo pornográfico.

Por que - perguntam-me às vezes - tenho tanta preocupação com o sexo? Ora, respondo, decerto é porque no fundo sou um puritano. Mora dentro de mim um pastor protestante a pregar interminavelmente um sermão apolíptico contra o pecado da carne, e eu não posso consentir que esse homenzinho emascule as minhas personagens ou a mim mesmo.

Por outro lado quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto e... saúde. Muitas vezes fico alarmado ao pensar que, relativamente falando, um leitor sente menos indignação ao tomar conhecimento do assassínio de 6 milhões de judeus nas câmaras de gás asfixiante dos campos de concentração nazistas, ou do lançamento da bomba atômica em Hiroshima que redundou na morte de mais de 100 mil pessoas, ou ainda ao saber que mais de dois terços da população do Brasil vive numa miséria abjeta - do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza.  O que quero dizer é que noto uma desproporção absurda, direi mesmo monstruosa, entre a natureza e a intensidade desses dois tipos de indignação.

Falando com a maior sinceridade, para mim pornografia mesmo é a crueldade do homem para com seu semelhante, a exploração do homem pelo homem; obscenidade é a guerra e o genocídio. Os mocambos do Recife, as favelas do Rio e de outras centenas de cidades da nossa terra constituem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira.

Acho que os verdadeiros pornógrafos da história - já que uma pessoa realmente adulta só poderá sorrir das grotescas fantasias do Marquês de Sade - foram homens como Tamerlão, Nero, Calígula, Mussolini, Hitler - para mencionar apenas os primeiros nomes que me brotam na mente.

Quanto a questão dos 'nomes feios', creio que não existe nada mais ridículo que esse supersticioso temor a certos vocábulos que, afinal de contas, não passam de sinais ou símbolos convencionais. Tomemos por exemplo a famosa palavra de quatro letras que designa a mais antiga das profissões. Conta-se que Rui Barbosa descobriu dezenas de sinônimos, entre os perfeitos e os imperfeitos, para o termo prostituta, de maneira que não temos nenhuma desculpa quando usamos a palavrinha tabu. No entanto em toda essa história o que importa mesmo, o realmente deplorável e melancólico, é a experiência da prostituição, o que não parece preocupar muito as pessoas mais sensíveis às palavras do que às coisas que elas representam.

Isso nos dá uma ideia da terrível importância da linguagem. Vivemos tolas e terríveis ilusões semânticas. Por causa de palavras ou frases matamos ou morremos, sentimo-nos desgraçados ou infernizamos a vida de nossos semelhantes. Qualquer ato ou fato, por mais reprovável que seja, de acordo com paradigmas morais rígidos, perde a sua força, a sua natureza pecaminosa, e tende a ser ignorado ou esquecido quando não verbalizado, principalmente em romances. Fazer, pois, não é tão importante, tão grave, quanto dizer ou escrever. Quantas vezes transferimos a culpa duma situação vergonhosa - que na realidade cabe a um regime político-econômico ou a uma conjuntura social - para cima dos ombros do jornalista ou do ficcionista que ousou reproduzi-la numa reportagem ou num romance?

E é exatamente por causa da exagerada importância que damos às palavras que nós muitas vezes resolvemos nossos problemas apenas no papel, isto é, de maneira verbal, e vamos dormir tranquilos. Porque, se ninguém jamais pronunciar ou escrever a palavra puta (desculpem, que se me escapou o 'nome feio'!), a prostituição deixará de ter existência real" (Páginas 259-261).

Deixo a resenha deste segundo volume de Solo de clarineta:


E também a resenha dos sete volumes de O tempo e o vento:




quarta-feira, 1 de maio de 2024

Solo de clarineta. vol. 2. Memórias. Érico Veríssimo.

Vamos começar o nosso post, mais uma vez, com a contracapa do livro: "O segundo volume de Solo de clarineta foi publicado postumamente, em 1976. Aos textos deixados por Érico Veríssimo, Flávio Loureiro Chaves reuniu outros, esboçados pelo escritor em seu roteiro para memórias.

Solo de clarineta. memórias. vol. 2. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

Depois de evocar a fase final da criação de O tempo e o vento, Érico relembra as viagens marcantes de sua vida: Grécia, Portugal e Espanha. Nada parece escapar a seu olhar atento e à pena elegante do debate com estudantes politizados em Coimbra à recepção onde conhece um descendente de Eça de Queirós; do mar Egeu e da colina da Acrópole a uma busca quase obsessiva pelo local onde teria sido assassinado Federico Garcia Lorca.

A segunda parte dessas memórias, embora inconclusa, ilumina de forma inesquecível o extraordinário cidadão do mundo que foi Érico Veríssimo".

Diria mais. Um cidadão que se empenhou na defesa da democracia e dos direitos fundamentais do ser humano e que, com a mesma obstinação e riscos, combatia todas as formas de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda.

O segundo volume está dividido em duas partes: Vejamos os títulos: Parte I: 1. O arquipélago das tormentas; 2. Sol e mel; 3. Entra o senhor embaixador; 4. Mundo velho sem porteira. Parte II: 1. Nota do organizador; 2. Espanha; 3. Caminho de Sevilha; 4. Granada: em busca do menino Federico; 5. Holanda; 6. O escritor e o espelho. É nesta segunda parte que entra mais a mente e a mão do organizador.

No item de número 1 da primeira parte, - O arquipélago das tormentas, Érico expõe uma parte conturbada de sua vida. As tormentas são uma referência aos seus graves problemas cardíacos, que quase lhe ceifaram a vida. Mas, em meio as tormentas, também há as bonanças, como o casamento de Clarissa, os netos e o começo da escrita de O arquipélago. Em 1962 dará este trabalho como encerrado.

No item de número 2 - Sol e mel, ele relata a sua viagem para a Grécia, onde aprofunda o seu legado humanista. De Péricles acentua uma frase: "Escravo é aquele que não pode dizer o que pensa". Neste sentido, Érico nunca foi um escravo. Mesmo nas condições mais adversas sempre disse o que pensava, especialmente em Portugal, onde dava caneladas na ditadura de Salazar. Da Grécia vai em viagem de cruzeiro até Istambul. Em Creta presta uma reverência a Níkos Kozantzakis, aquele do Zorba, o grego. (Também de O Cristo recrucificado). E, em Atenas, entre as suas belezas naturais, culturais e históricas, faz também uma bela referência ao Grêmio, que tinha andado por lá.

No item de número 3 - Entra o senhor embaixador, temos mais cenas de sua vida, como a morte da mãe, o namoro e o casamento de Luís Fernando, o primeiro neto oriundo deste casamento e, de maneira toda especial, a gênese de O senhor embaixador.

No item de número 4 - Mundo velho sem porteira, Érico se solta pelo mundo, sem antes falar do belo significado de - um mundo sem porteiras. Portugal  é o seu primeiro destino. Trata-se de um belo e culto guia turístico e cultural. Primeiro ele viaja para o norte e depois para o sul. Em Portugal, segue uma rotina meio oficial, junto com o seu editor, entre conferências, autógrafos, almoços festivos e homenagens e furtivas caminhadas por becos recônditos de rara beleza. Essa viagem tem forte teor político, de defesa da democracia. E, um dado fundamental da estrutura histórica do país: os minifúndios, ao norte e os latifúndios, ao sul. Coimbra, Porto, Braga, Guimarães e Évora são as cidades que ganham um destaque maior. É a parte mais longa do livro (No plano original de Érico, Solo de clarineta teria um terceiro volume. Creio que os demais países europeus seriam descritos à semelhança com esta descrição de Portugal). Este capítulo vale o livro. Um hino à liberdade, à democracia e aos direitos fundamentais e um anátema às ditaduras.

A segunda parte é bem mais breve, começando com as explicações do organizador. No tópico - Espanha, temos o relato de uma divergência familiar. Érico queria visitar oito países e Mafalda queria concentrar mais em torno de Roma e de Paris. Ao todo, o casal Veríssimo fez quatro viagens para a Europa, além da de 1959. 

Os títulos - Caminho de Sevilha e - Granada: em busca do menino Federico -, estão escritos, praticamente de maneira definitiva. De Sevilha o grande destaque vai para a descrição dos festejos da semana santa, que os desalojou do hotel. Uma grande festa em que as confrarias disputam a sua real grandeza. Outro destaque vai para as danças flamencas. De Granada, o destaque também vai para a religiosidade da cidade, mas a obsessão maior é Lorca e o seu assassinato pela cruel ditadura de Franco. De Granada tomo uma frase que foi decisiva, ao menos na primeira fase de minha vida. Se eu fosse escrever as minhas memórias, ela seria uma bela introdução e começo. Trata-se, nos conta Érico, da prece de uma mãe católica: Dios, dame un hijo sacerdote.

O título - Holanda, vai para muito além de suas tulipas. Tem uma bela comparação entre a pintura italiana e a holandesa. A Holanda é calvinista, é burguesa. Uma civilização que exalta as coisas e não a alma. Ah, a prosperidade!. Uma reconfiguração religiosa completa de muitas e profundas consequências.

E o escritor e o espelho, o título final do livro, também vale o livro. É uma preciosidade rara. Dela vou retirar três posts específicos, que definem Érico Veríssimo em toda a sua profundidade. Tenho, mais ou menos delineados os posts: É Érico Veríssimo um escritor pornográfico? Sua visão religiosa e sobre Deus e uma definição de princípios sobre sociedade - liberdade - socialismo.

Deixo ainda mais dois posts. Sobre o primeiro volume de Solo de clarineta:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/solo-de-clarineta-vol-i-erico-verissimo.html

E outro - com a resenha de cada um dos sete volumes de O tempo e o vento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Solo de clarineta vol. I. Érico Veríssimo. Memórias.

Ao terminar a releitura de O tempo e o vento, decidi também reler Solo de clarineta, o livro de memórias de Érico Veríssimo. O objetivo era o de ter um contato maior com o escritor para ter uma melhor compreensão de sua obra. Ao término do primeiro volume já me confesso por satisfeito. Veríssimo é também um grande memorialista.

Como nos livros da trilogia de O tempo e o vento, também na contracapa de Solo de clarineta existe uma pequena mas ilustrativa síntese da obra. Vamos a ela: "Livro de memórias peculiar, Solo de clarineta entrelaça a vida do escritor e sua obra. Nele, Érico Veríssimo reflete sobre as raízes de sua criação literária, confrontando-a com sua própria vida.

Solo de clarineta vol. I. Memória. Companhia das Letras.

Neste primeiro volume, que é também um testemunho sobre a história brasileira e mundial na primeira metade do século XX, Érico rememora sua vida desde a infância até a criação da saga O tempo e o vento. O leitor acompanha as lembranças do processo de formação de vários de seus personagens inesquecíveis e se familiariza com o dia-a-dia desse grande contador de histórias: editor, criador de coleções editoriais decisivas na formação intelectual brasileira, tradutor, autor de livros infantis e juvenis, radialista, diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana e incansável paladino da liberdade". Lembrando que Érico Veríssimo nasceu em Cruz Alta no ano de 1905 e morreu em Porto Alegre em 1975.

O primeiro volume de Solo de clarineta é do ano de 1973. Tem apresentação de José Otávio Bertaso, da Editora Globo e seu ex patrão e Prefácio de Hildeberto Barbosa Filho, mestre e doutor em Literatura Brasileira. A apresentação de Bertaso é muito interessante e fala da recepção da obra do escritor junto ao clero, este representado por um padre jesuíta.

Este primeiro volume tem seis títulos: l. Álbum de família; 2. A primeira farmácia; 3. A ameixeira-do-Japão (nêspera); 4. A segunda farmácia; 5. Em busca da casa e do pai perdidos; O mausoléu de mármore. Ao final são apresentadas cronologias cruzadas e uma pequena biografia do escritor. As memórias são apresentadas de forma mais ao menos linear, do nascimento até os anos de 1950. O resto fica para o segundo volume.

No tópico de número 1, a família Veríssimo é apresentada: os avós paternos e maternos, o pai e a mãe e os seus desentendimentos. muitas páginas são preenchidas com o traçado de um perfil de seu pai, Sebastião Veríssimo. Um dado a destacar - ele possuía em sua casa - uma biblioteca com mais de dois mil exemplares. Isso na provinciana Cruz Alta daqueles tempos. A maioria dos personagens de O tempo e o vento procedem desse período. São personagens muito próximos à família.

A primeira farmácia, o tópico de numero 2, é a farmácia de Sebastião Veríssimo, que só teve fôlego financeiro enquanto o pai de Sebastião, o Dr. Franklin, lhe cobria as duplicatas vencidas. Depois da ruína financeira veio também a ruína do casamento. Abegahi, com a sua máquina Singer, entra em cena. A farmácia tinha uma estrutura meio hospitalar. Era um grande ponto de encontro, dos "intelectuais" de Santa Fé, digo, de Cruz Alta. Outros tantos personagens tem ali a sua construção. Neste tópico encontramos uma das mais belas passagens da obra de Veríssimo, quando ele põe diante de si a função de escritor: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender uma lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto" (página 65).

A ameixeira-do-Japão, título do terceiro tópico, é um retorno seu à sua mais remota infância. A ameixeira-do-Japão é um pé de nêspera que existia no terreno onde se situava a farmácia de seu pai. Lembranças e a construção do imaginário. Nesse tempo adquiriu os princípios básicos de sua formação, como o valor do trabalho e o equilíbrio financeiro entre ganhos e gastos. Vizinhança e os primeiros namorinhos são lembrados, além das questões do despertar da sexualidade. Lembra de suas leituras e do cinema, dos filmes que lhe deram a visão sobre o homem americano, branco, anglo saxão e protestante. A infância ainda o remete à Primeira Guerra Mundial, à sua ida a Porto Alegre e o internato no Colégio Cruzeiro do Sul e uma reprovação em matemática. Enquanto estava em Porto Alegre, em casa as coisas só pioravam; falência da farmácia e a derrota de seu pai para a bebida. Isso fez com que ele tivesse que voltar para Cruz Alta. No internato teve a sua formação literária bem iniciada. Era a sua área de interesse.

A segunda farmácia, título do tópico número 4, ela já é de sua propriedade. Teria que fazer alguma coisa para ajudar a mãe nas despesas do sustento da família. Tinha a farmácia em sociedade. O fiado levou também esta à ruína. Além da rotina da farmácia, dava aulas de literatura e de inglês e terá os seus primeiros artigos publicados. 1930 leva seu pai para São Paulo e ele para Porto Alegre, mesmo sem um destino. Arrumara também uma namorada, Mafalda Volpe, com quem se casaria em breve.

No quinto tópico, em busca da casa e do pai perdidos, o encontramos em Porto Alegre, onde irá trabalhar na revista O Globo. Problemas de saúde o impedem de ser um bom freguês do bar Antonello e sua rodinha de intelectuais. Na editora Globo encontra, em um de seus donos, Henrique Bertaso, uma amizade de vida inteira. Vem o casamento e os filhos e o primeiro livro Fantoches. Passará a trabalhar apenas no departamento editorial da editora e os livros seguem já em série. Olhai os lírios do campo, o tornará um escritor já meio consagrado. Lembra da Segunda Guerra Mundial e os seus reflexos em seu ânimo, estes expressos no livro Saga.  Depois da guerra empreenderá a sua primeira viagem aos Estados Unidos, para onde voltará mais tarde num cargo diplomático na União Panamericana. O ano de 1956 o trará de volta ao Brasil. Um bom espaço das memórias é dedicado à concepção e gênese de O tempo e o vento. A ideia é antiga, de 1935, ano do centenário da Revolução Farroupilha. A escrita começa em 1947. Os personagens são construídos ao longo desse tempo e eles ganham a sua primeira descrição.

O mausoléu de mármore, título do sexto tópico, é uma referência ao local de seu trabalho por cerca de três anos na sede da União Panamericna, em Washington. A palavra mausoléu, certamente é um indicativo de seu ânimo para com o trabalho burocrático, à frente do departamento de cultura dessa entidade. Fala do seu cotidiano de trabalho, de suas viagens e de seus discursos. Conclui afirmando, em mais uma demonstração de pouca afeição ao trabalho burocrático, que "Lázaro saiu do mausoléu". Neste tempo já iniciara a escrita de O arquipélago, a terceira e última parte de O tempo e o vento. O resto vem no volume de número 2.

Deixo ainda um post com a resenha de cada um dos sete volumes da trilogia:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html


sexta-feira, 19 de abril de 2024

Os sete volumes de O TEMPO E O VENTO. Uma resenha de cada um deles.

Li, pela primeira vez O tempo e o vento em 2006, quando ainda me encontrava em sala de aula. A leitura me marcou profundamente. Agora, na qualidade de "administrador de tempo livre", eu reli a obra. Só tenho a dizer que ela é monumental e um milhão de adjetivos a mais. É difícil ter uma obra mais formativa do que esta. A estratégia usada pelo autor para externar as mais diferentes visões de mundo é a de dar voz aos personagens que são adeptas dessas diferentes visões. Assim temos visões religiosas, de livre pensadores, de agnósticos, de comunistas, de anarquistas, de positivistas, de conservadores... Eles, em ardorosos debates, que geralmente ocorrem no Sobrado da família Terra-Cambará, analisam os principais fatos da história local (Santa Fé), do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo, a partir da formação do continente sulino do Rio Grande.

Missões, Guerras contra os castelhanos, Revolução Farroupilha, Guerra do Paraguai, abolição, imigrações, Revolução Federalista, em que maragatos e chimangos se degolaram, Coluna Prestes, a Revolução de 1923, a de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder, a constitucionalista de 1932, as tentativas de golpes dos comunistas e dos integralistas, a Primeira Guerra Mundial, a ascensão dos regimes autoritários na Europa e o Estado Novo no Brasil, além da Segunda Guerra Mundial. São algo em torno de 2.500 páginas, que -, creio, ser o nosso Guerra e Paz, a fabulosa obra de Tolstói. A finalidade do presente post é deixar em um só lugar o acesso aos sete volumes da obra:

1. O tempo e o vento (parte I). O continente (vol. 1):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-1-o-continente-vol-1.html

2. O tempo e o vento (parte I). O continente (vol.2):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-i-o-continente.html

3. O tempo e o vento (parte II). O retrato (vol. 1):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-ii-o-retrato.html

4. O tempo e o vento (parte II). O retrato (vol. 2):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-ii-o-retrato_27.html

5. O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. 1):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/o-tempo-e-o-vento-parte-iii-o.html

6. O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. 2):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/o-tempo-e-o-vento-parte-iii-o_13.html

7. O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. 3):

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/o-tempo-e-o-vento-parte-iii-o_17.html 

Meus amigos, minhas amigas. Boa leitura. De preferência a obra por inteiro. 

quarta-feira, 17 de abril de 2024

O tempo e o vento (parte III). O arquipélago vol. 3. Érico Veríssimo.

Mais uma vez inicio um post com o escrito na contracapa do livro. Trata-se agora, do terceiro volume de O arquipélago, ou do sétimo e último dos volumes de toda a obra de O tempo e o vento: "A trilogia O tempo e o vento chega ao fim. Os caudilhos gaúchos se rebelam, tomam a capital federal e inauguram uma nova era política no Brasil.

O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. 3). Companhia das Letras.

Na cidade fictícia de Santa Fé, a família Terra Cambará é abalada por novos conflitos. Toríbio rompe com o irmão e vai ao encontro de seu inapelável destino. Nessa atmosfera tumultuada, Sílvia, a amada do escritor Floriano, revela seu mundo num diário surpreendente, impregnado pela época sombria da Segunda Guerra Mundial. Tudo converge para uma encruzilhada de tempos e memórias: Rodrigo Cambará tem um acerto de contas definitivo com o filho, Floriano, que começa a escrever o grande romance de sua vida".

O tempo histórico retratado é o da Revolução de 1930, a que levou Getúlio Vargas ao poder. Continua com a Revolução Constitucionalista de 1932, que terá um soldado Cambará em suas fileiras - o Toríbio, mesmo contra Rodrigo, o seu irmão e figura em ascensão dentro do getulismo. A discórdia na família será total e a ruptura definitiva ocorrerá com a decretação da ditadura Vargas pelo "Estado Novo", ao qual Rodrigo irá aderir. A parte histórica terá continuidade até 1945, com destaque para a política internacional, com uma análise da Segunda Guerra Mundial. 

Os grandes personagens deste último volume, possivelmente o mais introspectivo (creio que dá para dizer - psicanalítico), continuará com Rodrigo sendo o protagonista, secundado, de perto pelo filho Floriano, o aprendiz de escritor e que agora já tem traçado todo o plano para o seu grande livro. Outros personagens estão em ascensão, com destaque para Sílvia, esposa de Jango, o fazendeiro, com o seu amor dividido entre o marido (o sexo) e os sentimentos e afetos voltados para Floriano. Que drama! São ainda personagens, os outros filhos de Rodrigo: o comunista Eduardo e a fútil Bibi e o marido Sandoval, além dos personagens tradicionais do Sobrado, entre eles Terêncio Prates, o sociólogo conservador formado pela Sorbonne, às voltas com a interpretação do Rio Grande do Sul e Stein o ardoroso defensor do comunismo, porém, na sua vertente trotskista. Por essa razão lhe estará reservado um final trágico. E ainda, o irmão Zeca, um filho de Toríbio, um religioso marista. Estes personagens interpretarão os fatos históricos, de acordo com as suas visões de mundo. Uma riqueza extraordinária nos diálogos estabelecidos.

Os títulos do livro são os seguintes: 1. O cavalo e o obelisco; 2. Reunião em família V; 3. Caderno de pauta simples; 4. Noite de Ano-Bom; 5. Reunião de família VI; 6. Caderno de pauta simples; 7. Do diário de Sílvia; 8. Encruzilhada.

O grande tema do primeiro tópico será a Revolução de 1930, que mais uma vez levantou o Rio Grande em rebelião, junto com outros estados aliados. Desta vez serão vitoriosos. Entre os vitoriosos estará Rodrigo Cambará, que segue junto com Vargas, no mesmo trem, para o Rio de Janeiro. Amarrarão os seus cavalos no Obelisco. Mudanças profundas no Brasil e também na família Cambará. Rodrigo se transformará num personagem urbano, adotando as  suas formas de comportamento. Segundo Rodrigo, a finalidade do Estado Novo era a de garantir a melhoria de vida do povo brasileiro e a busca de uma autonomia econômica. Justificava assim a sua adesão.

Na reunião de família V - Rodrigo, Floriano e Terêncio Prates, o sociólogo conservador, discutirão os temas do momento, ou seja, os do fim dos anos trinta e os primeiros da década de 1940. Floriano dará uma aula extraordinária sobre a evolução política do Rio Grandes do Sul (Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e o positivismo) e os conflitos entre chimangos e maragatos. Me parece não ser um erro afirmar que o espírito maragato sempre esteve presente na história do Rio Grande e nunca conseguiu ser abafado pelo situacionismo chimango positivista. A ascensão dos regimes autoritários na Europa terão acaloradas discussões e as simpatias de Terêncio. No Brasil o destaque irá para a Revolução Constitucionalista de 1932, para a qual Toríbio se bandeou; para a Constituição de 1934; para as tentativas autoritárias de comunistas e integralistas e a decretação do Estado Novo, em 1937.

Em itálico, no terceiro tópico, Floriano tece as linhas mestras para o seu grande romance. Para tal recorrerá a Maria Valéria e a memória dos Terra. Ana Terra, Bibiana, Luzia, a teiniaguá e mãe de Licurgo. Além disso serão rememoradas as conversas com o tio Bicho, e ainda serão buscados recortes de jornal da época assim como serão ouvidas outras vozes para a reconstituição desse período. O grande romance de Floriano já tem a sua elaboração mental.

A noite de Ano-Bom, o quarto tópico, na realidade não foi uma noite tão boa. O fato da noite foi o anúncio do contrato de casamento entre Sílvia e Jango, um casamento que por suas incompatibilidades jamais poderia dar certo. Também há a perturbadora presença de Floriano nessa relação. Na festa também será lembradas a ida de Stein para combater na Guerra Civil espanhola. Mas o destaque mesmo serão os debates em torno do Estado Novo. Toríbio não aguenta os discursos em seu louvor e se retirará bruscamente do Sobrado, arrastando consigo o jovem Floriano. O final da noite será marcado por uma terrível tragédia na família Cambará. A tragédia ocorrerá num baile de chinas, no Buraco do Libório.

A próxima reunião de família, a de número seis, será marcada pelos debates entre Rodrigo, Floriano, Tio Bicho e Terêncio Prates, o sociólogo da Sorbonne. O tema será o livro de Terêncio - Tradição e hierarquia -, em que o autor defende a sua visão da formação histórica do Rio Grande e a "natural" distribuição de suas terras. A reforma agrária será o grande tema, nesse momento do debate. Trata-se de um rico capítulo sobre a formação histórica do Rio Grande. Ainda há a evocação da lembrança da expulsão de Stein do Partido Comunista.

No caderno de pauta simples Floriano incorpora às suas reflexões a experiência vivida nos Estados Unidos. Belíssimas análises sobre a economia e a cultura calvinista desenvolvida naquele país, bem como seu modo de vida, o famoso American way of life. As reflexões mais profundas, no entanto, estão voltadas para a Segunda Guerra Mundial e para os horrores das execuções nazistas nos campos de concentração. E, ao final do capítulo, uma pergunta: O que os Estados Unidos tem a oferecer ao mundo?

Possivelmente o capítulo das anotações do diário de Sílvia se constituem num dos mais importantes capítulos da literatura brasileira. Toda a obra de O tempo e o vento é marcada por encontros e desencontros entre pessoas. O capítulo sobre os escritos de Sílvia são, no entanto, marcados por encontros consigo mesma. Um capítulo sobre casamento, sonhos, desejos, anseios e frustrações que doem na alma feminina. Ah Jango! Ah Floriano! Ah as convenções! Ah, o mal-estar gerado pela cultura! Tudo escrito sob o ferrolho de sete chaves. E um único leitor possível: Floriano.

Ah, as mulheres do Érico Veríssimo. Ana Terra, Bibiana Terra, Maria Valéria, Flora Quadros. Mulheres esteio, mulheres fortes. mulheres afirmadas e estagnadas na impermeabilidade do culto às tradições. Sempre sofrem caladas! As dores da alma! Que estudo fantástico não seria este - o da visão da alma feminina em Veríssimo. Grande diário de Sílvia. E que mistura fantástica é esta - a da constituição da família Terra - Cambará e, com a incorporação de Flora, Os Quadros. E a fantástica recomendação de Rodrigo ao filho Floriano: "De vez em quando solta o Cambará". Ele, Floriano, um Terra-Cambará-Quadros.

Encruzilhada é o capítulo Final. Um capítulo de acerto de contas. Mais um capítulo profundamente psicanalítico. Stein não suportou a sua expulsão do Partido Comunista. Pior que a expulsão, a acusação de traidor. Tio Bicho lhe dará o funeral e o sepultamento. O irmão Toríbio, apesar das circunstâncias, não lhe recusará a encomendação cristã. Os personagens do Sobrado lhe farão as despedidas. O fato é escondido de Rodrigo. O ponto alto do livro e de toda a obra é o acerto de contas entre Rodrigo e Floriano. Uma reconciliação em alto estilo. Profundamente catártica, profundamente libertadora. Ao final tudo estará quitado entre eles. Rodrigo tem melhoras em seu quadro de saúde e a sua transferência para o Rio de Janeiro está sendo preparada. É a melhora da véspera. Sobra a encruzilhada da divisão da herança. Lembrem-se que nessa divisão há um comunista e um oportunista.

E o aprendiz de escritor começará a escrever a sua grande obra, a grande dívida do escritor Floriano Cambará, mais Terra-Quadros do que Cambará. É um acerto com a sua própria história, com a sua Santa Fé, com o seu Rio Grande do Sul, com o seu Brasil e com o mundo todo, na busca de um grande significado para a vida, entre tantas possibilidades.  E não esqueça: "De vez em quando solta o Cambará.

Terminei a leitura dos sete livros de O tempo e o vento em 6 de janeiro de 2006. Ainda estava em sala de aula. Terminei a fantástica aventura da releitura em 12 de abril de 2024. Foi uma longa e maravilhosa viagem. Deixo com vocês as resenhas. Aqui, como de hábito, a do livro anterior, o vol. 2. de O arquipélago.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/o-tempo-e-o-vento-parte-iii-o_13.html


  

sábado, 13 de abril de 2024

O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. 2). Érico Veríssimo.

Como nos volumes anteriores, procedo da mesma forma com este. Tomo, da contracapa do livro, a sua pequena síntese: "No segundo volume de O arquipélago, os conflitos delineados no primeiro se adensam. A revolução de 23 chega ao fim e o Rio Grande do Sul é pacificado, mas por pouco tempo. As novas contradições do Brasil chegam à família Terra Cambará: guarnições militares das Missões se rebelam e Toríbio, o irmão mais velho de Rodrigo, une-se a elas na formação de uma coluna revolucionária que tem "um ilustre desconhecido" à frente, um certo capitão Luiz Carlos Prestes... No plano da memória, em 1945, o escritor Floriano Cambará se deixa tomar por sua paixão pela cunhada, desenhando um conflito ameaçador na já precária paz familiar".

O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (volume 2). Companhia das Letras.

É a década de 1920 que está sob análise. Tudo está fermentando. Tudo está em ebulição. As insatisfações populares já não mais conseguem ser contidas. Setores médios também se rebelam. É a revolução dos tenentes, clamando por uma nova ordem política, puxada pelas transformações econômicas e sociais que estão em curso. O país sofre os impactos da industrialização e da urbanização. Cultura e costumes também estão inscritas nesta ordem das coisas. Novos atores sociais, comerciantes e industriais também estão em busca de protagonismo social. Já os estancieiros vem perdendo poder, além de verem as suas famílias se desintegrarem, como é o caso da família Terra Cambará.

Vejamos os títulos desse segundo volume: 1. Lenço colorado (Continuação). É o lenço maragato da descentralização e da autonomia dos estados federados; 2. Reunião de família III; 3. Caderno de pauta simples; 4. Um certo major Toríbio. É o Bio na marcha da Coluna Prestes; 5. Reunião de família IV; 6. Caderno de pauta simples.

O tópico número 1 - uma continuação do primeiro volume - lenço encarnado (capítulos 18 a 37) - é dedicado à revolução de 1923. É Assis Brasil contra Borges de Medeiros. Borges terá a seu lado nomes como os de Flores da Cunha e Osvaldo Aranha. Licurgo será o comandante das forças revolucionárias de Santa Fé. Agora ele peleará ao lado dos maragatos, situação esta, que ainda lhe dá muitos constrangimentos. Rodrigo e Toríbio também participam. Eles chegam a tomar Santa Fé, mas a ocupação não se sustenta e eles batem em retirada. Nessas escaramuças Licurgo será a grande baixa dos revolucionários de Santa Fé. A revolução dura todo o ano de 1923 e a paz será selada pelo acordo de Pedras Altas. Em ato heroico, Licurgo é levado ao Angico, para ali receber sepultura digna.

O segundo tópico - Reunião de família III, foi para mim, uma das passagens mais significativas de toda a obra. Tio Bicho e Floriano serão os dois grandes personagens desse momento do livro. Floriano, lembram, é o aprendiz de escritor, enquanto que o Tio Bicho é o grande autodidata da obra, uma espécie de anarquista, meio pacifista, se é que isso existe (Que o diga Don Pepe). Quando fiz a resenha do outro livro de Veríssimo, O Incidente em Antares, eu fiz uma referência, dizendo que com este livro eu iniciei a introdução de textos de literatura em minhas aulas, lá pelo final dos anos 1970. Agora devo dizer que, com O tempo e o vento e, em particular, com este segundo volume de O arquipélago e, mais especificamente ainda, com este - Reunião de família III, eu obtive o meu maior e melhor êxito neste tipo de trabalho. Eram alunos e mais alunos repetindo os questionamentos com os quais Tio Bicho fez Floriano se fazer as interrogações fundamentais diante de uma vida. Uma experiência simplesmente inesquecível.

Estes questionamentos são retomados no tópico de número 3, acrescidos de uma experiência que Floriano teve ao viver por alguns anos nos Estados Unidos. O aprendiz de escritor faz assim interessantes reflexões sobre a cultura dos Estados Unidos. Como escritor ele decide manter, em sua obra, um encontro consigo mesmo, com a sua Santa Fé e com o seu Rio Grande do Sul. Mais uma vez um arcabouço de O tempo e o vento.

Um certo major Toríbio, o tópico de número 4, mostra o mesmo, mais uma vez envolvido em um processo revolucionário, desta vez como integrante da Coluna Prestes. É o mais longo tópico do livro, que inicia com a prematura morte de Alicinha, para o desespero de Rodrigo, que não cansa de se culpar. Aliás, como a culpa, o remorso e o arrependimento acompanham a vida de Rodrigo! Passa também pela vida da pacata cidade de Santa Fé e pelas conversas no Sobrado, onde serão debatidos os grandes temas mundiais e brasileiros desse período histórico. Os personagens serão o Tio Bicho, Floriano, o intelectual, ideologicamente indefinido, Eduardo, o filho comunista de Rodrigo e o irmão Toríbio, o filho assumido por Toríbio, que se tornou irmão marista. Mas, o grande tema do Sobrado será a coluna Prestes, da qual Toríbio, em sua volta para a cidade, será o grande narrador. Prestes, o Cavaleiro da Esperança, é o grande candidato a se transformar no primeiro herói brasileiro.

Floriano será o grande personagem do tópico de número 4. Nele serão mostradas as suas grandes perturbações que o acompanham, especialmente, a sua obsessão impossível por Sílvia, a cunhada. Mas o grande momento dessa reunião em família será uma espécie de acerto de contas com o pai. Este, por sinal, terá uma recaída em sua saúde, pelas emoções causadas com a passagem de Sônia em frente do Sobrado, atendendo a um pedido seu. Floriano também comparece à inauguração de um busto em homenagem ao cabo Lauro Caré, por sua participação na campanha da FEB, na Itália, na Segunda Guerra Mundial. É mais um membro da família Cambará, não de sua linhagem oficial, mas da paralela. No busto do cabo Lauro se leem marcantes traços de Licurgo Cambará, que ao longo de sua vida teve em Ismália Caré, a sua eterna amante.

No - caderno de pauta simples - mais uma vez encontraremos Floriano como o seu grande personagem, num acerto de contas consigo mesmo e num encontro com as suas memórias: a sua adolescência, sua sexualidade, encontros e desencontros com o pai e as revelações inesperadas (seriam surpreendentes?), de seu tempo de internato no colégio em Porto Alegre. Os sonhos com a Salamanca do Jarau, da busca da fortuna sexual pairam sobre todo o tópico.

Deixo ainda a resenha do primeiro volume de O arquipélago.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/o-tempo-e-o-vento-parte-iii-o.html


terça-feira, 2 de abril de 2024

O Tempo e o vento (parte III). O Arquipélago (Vol. 1). Érico Veríssimo.

Com O arquipélago, a trilogia de O tempo e o vento, chega à sua parte final, ou melhor, ao início de sua parte final. Vejamos a pequena síntese que encontramos na contracapa do primeiro volume: "O arquipélago, última parte da trilogia O tempo e o vento, encerra a saga da família Terra Cambará. Neste primeiro volume, o Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Fé se modernizam. Não cabem mais nos planos das oligarquias tradicionais. Os Cambarás retiram o apoio ao governo e aderem à revolução libertadora em 1923: retomam o caminho das armas e das coxilhas ao lado dos maragatos, antes arquiinimigos.


O tempo e o vento (parte III). O arquipélago (vol. I). Companhia das Letras. 

As peripécias e paixões da luta são narradas pela perspectiva do escritor Floriano Cambará, que em 1945, com a queda de Getúlio Vargas, relembra os passos de sua vida, o tempo que perdeu e a memória que conquistou". Um país e uma família em transformação. Um arquipélago de ilhas desconectadas? Seria?

Vejamos os títulos desse primeiro volume: 1. Reunião de família I; 2. Caderno de pauta simples; 3. O deputado; 4. Reunião de família II; 5. Caderno de pauta simples; 6. Lenço encarnado. O período de abrangência é o de 1920, até o fim do governo Vargas. Embora Rodrigo Terra Cambará ainda seja o personagem central, junto com Flora, Licurgo, Toríbio e Aderbal Quadros, a centralidade vai se transferindo para os filhos, para a nora e para o genro do novo quadro familiar. A família deixa de ser a tradicional família patriarcal. Jango e Sílvia, Floriano, Eduardo, Alicinha, Bibi e Sandoval, aos poucos, são transformados em protagonistas. Roque Bandeira, o Tio Bicho é um personagem que vai ganhando grande ascendência, assim com o irmão Toríbio, um filho, como diríamos, extraviado de Toríbio.

A reunião de família I, ocorre no Sobrado, no dia 25 de novembro de 1945, quando Rodrigo tem o seu quadro de saúde agravado por um edema pulmonar agudo. O fato teria ocorrido após um encontro com Sônia, vinda do Rio de Janeiro para Santa Fé. Rodrigo era incorrigível. Da reunião de família fazem parte Rodrigo e Flora, Maria Valéria ( a consciência viva do Sobrado) os filhos Jango e a nora Sílvia, com Jango metido a fazendeiro, Floriano, um aprendiz de escritor, Eduardo, o filho comunista, stalinista e prestista e Bibi, a filha e o seu marido Sandoval, louco para usufruir de uma boa herança a ser gasta com a deliciosa vida no Rio de Janeiro e a doce, e predileta de Rodrigo, Alicinha. É a reunião de uma família já totalmente desestruturada.

O caderno de pauta simples são os ensaios de Floriano, o aprendiz de escritor, em busca de afirmação em sua almejada carreira. Em Santa Fé havia a Lanterna de Diógenes, a livraria da cidade, onde em seus tempos de infância, Floriano comprava os tais cadernos de pauta simples que o aproximaram e familiarizaram com a escrita. Que profissão danada. Tio Bicho o aconselha para que ele promova um grande encontro seu com as suas raízes em Santa Fé, com o Rio Grande e com o Brasil. Seria o projeto de O tempo e o vento?

O terceiro título - O deputado - é o mais longo do livro. Rodrigo é o deputado, deputado estadual que marca o rompimento da família Terra Cambará com o oficialismo, ou seja, com Borges de Medeiros, o eterno governador do Rio Grande do Sul. Aqui vale lembrar, que em 1893, quando começa a Revolução Federalista, começa também a narrativa de O tempo e o vento. No Sobrado, encontramos Licurgo Cambará, resistindo bravamente, cercado pelos federalistas, os maragatos de lenço vermelho. Para Licurgo esta tarefa não foi nada fácil. Ela implicava em reconciliações praticamente impossíveis de se realizarem. A passagem do deputado Rodrigo por Porto Alegre enseja a Érico veríssimo fazer uma atenta observação da política e da vida na capital do Rio Grande do Sul. O deputado Rodrigo e os seus ímpetos!

A reunião de família II é simplesmente uma continuação, onde são narrados os acontecimentos dos dias 27 e 28 de novembro de 1945. O estado de saúde de Rodrigo melhorou. Em Santa Fé ocorre um comício em favor do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN à presidência, atrapalhado, e sob grande torcida dos Cambarás, por uma chuva torrencial. No Sobrado, a reunião é marcada pelas profundas divergências ideológicas entre os componentes da família, com acaloradas discussões.

Os ensaios do futuro escritor também tem continuidade. Floriano agora se dedica às memórias do Sobrado, com destaque para a peste bubônica e as histerias em torno da caça aos ratos.

Lenço encarnado é o belo capítulo final deste primeiro volume de O arquipélago. O Rio Grande do Sul está farto dos seguidos mandatos de Borges de Medeiros (Acabara de ganhar o quinto mandato). Os ideais federalistas de 1893 novamente se erguem, agora sob o comado de Assis Brasil. É janeiro de 1923. Um ano inteiro de escaramuças, mas longe da violência de 1893-1895. Borges havia rompido com o governo de Artur Bernardes, mas como este não intervém em favor dos federados, seus ideais revolucionários arrefecem. Saudosos, os velhos revolucionários estão a lamentar os tempos em que se fazia Revolução de verdade. E se interrogavam: Covardia ou avanços do entendimento civilizatório? O lenço encarnado tem continuação no segundo volume.

Deixo a resenha do volume anterior, o volume número dois de O Retrato.




quarta-feira, 27 de março de 2024

O Tempo e o Vento (parte II). O Retrato. Vol. 2. Érico Veríssimo.

Como no volume anterior, vamos também neste, apresentar a síntese aposta na contracapa. "O Retrato vol. 2, conclui a segunda parte de O tempo e o Vento. A trilogia - formada por O Continente, O Retrato e O Arquipélago - percorre um século e meio da história do Rio Grande do Sul e do Brasil acompanhando a saga da família Terra Cambará.

Em 1915, Rodrigo Terra Cambará constrói uma imagem de político popular e generoso, enfrentando as contradições de seus afetos privados e reafirmando sua inteireza ética e sua coragem. Com o advento do Estado Novo, muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1945, com a queda de Vargas e bastante enfermo, volta para sua pequena Santa Fé.

No fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, a família Terra Cambará não se reconhece no país que ajudou a construir".

O tempo e o vento (parte II). O Retrato. (vol. 2). Companhia das Letras.

Este segundo volume é praticamente todo ele dedicado ao personagem de O Retrato. Mas, antes, vejamos os seus títulos: 1. Chantecler (continuação); 2. a sombra do anjo; 3. Uma vela pro Negrinho. No primeiro volume de O Retrato, Chantecler tinha 14 capítulos. Agora, neste segundo volume, teremos os capítulos 15 a 23. A sombra do anjo terá seis capítulos, enquanto que - uma vela pro Negrinho - terá apenas um. No primeiro título teremos todos os esclarecimentos.

Logo no início, às paginas 23 e 24 temos explicitações em torno do título - Chantecler. Vejamos: "Não sei se vocês leram esta notícia... Edmond Rostand acaba de levar à cena no teatro Porte Saint-Martin a sua nova peça, Chantecler, na qual trabalhou durante doze anos. Diz o jornal que não se fala noutra coisa em Paris. As confeitarias fazem bolos, tortas e pastelões com efígie de Rostand, e a imagem de seu herói, o Chantecler, anda por todos os cantos, nas vitrinas, nas revistas, nos jornais, no coração do povo parisiense. O que se sabe sobre essa peça dá para encher toda uma biblioteca". Mais adiante teremos mais esclarecimentos sobre a peça: "Mas, afinal de contas [...] em que consiste a peça? -  Originalíssima! imaginem vocês que as personagens são quase todas animais domésticos: galos, galinhas, cães, faisões...". A descrição da peça continua, com a exaltação do galo e do "Hino ao Sol". Com certeza, Rodrigo, o Chantecler de Santa Fé.

Este Chantecler não mereceria a perenidade ou a imortalidade? Sim. Ela virá com O Retrato. Don Pepe, o anarquista e pintor espanhol se propõe esta tarefa? "Rodrigo, me gustaria pintar tu retrato de cuerpo entero... No! De alma entera". Mais adiante Don Pepe exclama: " - Chantecler! Sí, tú eres el Gallo. Tu canto ha hecho el sol alzar-se en el horizonte, y ahora el sol te acaricia el rostro. Es la mañana de tu vida..." E depois de muito tempo, depois de muitas tentativas Don Pepe, num certo dia se chega a Rodrigo, lhe trazendo o quadro. Veríssimo assim descreve a perplexidade de Rodrigo:

"Ao ver a própria imagem na tela, Rodrigo sentiu como que um soco no plexo solar. Por um momento a comoção dominou-o, embaciou-lhe os olhos, comprimiu-lhe a garganta, alterou-lhe o ritmo do coração. Quedou-se por um longo instante a namorar o próprio retrato. Ali estava, nas cores mesmas da vida, o dr. Rodrigo Cambará, todo vestido de preto (Pepe explicava que o plastrão vermelho era uma licença poética), a mão esquerda metida no bolso dianteiro das calças, a direita a segurar o chapéu-coco e a bengala. O sol tocava-lhe o rosto. O vento revolvia-lhe os cabelos. E havia no semblante do moço do Sobrado um certo ar de altivez, de sereno desafio. Era como se - dono do mundo - do alto da coxilha ele estivesse a contemplar o futuro com os olhos cheios duma apaixonada confiança em si mesmo e na vida". E um pouco mais adiante:

" - Caramba! Pepe, palavra que nunca pensei...

Tornou a contemplar o quadro. Havia naquela figura uma poderosa expressão de vitalidade. Era o retrato de alguém que amava a vida, que tinha ânsias de abraçá-la, de gozá-la totalmente e com pressa. Sim, ele se reconhecia naquela imagem: a tela mostrava não apenas sua aparência física, as suas roupas, o seu "ar", mas também seus pensamentos, seus desejos, sua alma. Como era que o diabo do espanhol tinha conseguido tamanho milagre".

Este era o Rodrigo Terra Cambará. Um retrato de um momento de extrema e pura vitalidade. Estava aí impassível e perene. O Rodrigo real era, porém, cheio de afetos e paixões. Nele, força e fraqueza se equilibravam. Tinha noção clara de seus compromissos, porém, na real ele fraquejava. O retrato o advertia. Diante dele, ele se examinava. Busca em Flora e no casamento a estabilidade em sua vida, mas não conseguia suportar os seus limites. E isso lhe trazia problemas e repreensões, especialmente as dele próprio, diante de seu retrato.

Antônia (Toni) aparece em sua vida. Tinha 20 anos e educação europeia. Ela era austríaca. Por imposições do destino veio parar em Santa Fé. Pertencia a família filarmônica dos Weber. Falava com Rodrigo, de igual para igual, sobre música, sobre literatura e sobre os mais diferentes compositores e autores. Uma explosão tórrida de paixão! E... alguns dias de recolhimento no Angico. E... as torturas da culpa e do remorso. É o título A sombra do anjo. A morte paira nas páginas desse capítulo.

Uma vela para o negrinho é a parte final desse segundo volume. É Maria Valéria, já aos 85, que ascende esta vela para o negrinho do pastoreio. Ela assiste a desintegração da família, reunida no Sobrado, tendo Rodrigo como agonizante e seus filhos divididos por diferentes credos políticos, além de um genro espertalhão, ávido à espera da herança, que lhe asseguraria uma boa vida, no Rio de Janeiro. Não sei se a vela daria conta disso tudo, mas a obra de Érico estava aberta para os três volumes seguintes de O arquipélago.

Os grandes personagens desse volume são, Rodrigo, por óbvio, além de Don Pepe, o autor do retrato, Licurgo, Toríbio e Maria Valéria, que permanecem do primeiro volume e de Flora, mais uma das personagens femininas fortes de Veríssimo. E deixo ainda uma síntese da colonização de O Continente, ou do Rio Grande do Sul, nas palavras de Eduardo, o filho comunista, stalinista, prestista de Flora e Rodrigo: 

"Eduardo voltou-se para o Retrato de Rodrigo Cambará que pendia da parede da sala, dentro de sua moldura cor de ouro velho.

Ali está o símbolo das coisas que nós comunistas combatemos. O dono da vida, o moço do Sobrado, o morgado, a flor de várias gerações de senhores feudais, muitos dos quais começaram como ladrões de gado e foram aumentando seu patrimônio por meio do saque, do roubo, da conquista à mão armada e à custa do suor e do sangue do trabalhador rural. Olha só a empáfia, a vaidade... Parece que ele está dizendo: 'Eu sou o centro do mundo, o sal da terra'"! Era de matar o pai doente! Já Floriano, o outro filho, é aprendiz de escritor... uma promessa de escritor...

Deixo ainda a resenha do volume I de O Retrato.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-ii-o-retrato.html


quinta-feira, 21 de março de 2024

O tempo e o vento (parte II). O RETRATO (VOL.I). Érico veríssimo.

O primeiro volume da segunda parte de O tempo e o vento, O Retrato, de Érico Veríssimo, apresenta na sua contracapa a seguinte síntese: "O Retrato é a segunda parte da trilogia O tempo e o vento, que percorre a história do Brasil e do Rio Grande do Sul acompanhando a trajetória da família Terra Cambará. Aqui Rodrigo Cambará, neto do heroico capitão Rodrigo, homem sedutor, sobranceiro, torna-se líder populista, amante das causas populares - e da própria imagem. Seu projeto é modernizar tudo - da casa onde vive à cidade inteira - e proteger os pobres. Depois de aderir ao governo de Getúlio Vargas, muda-se para o Rio de Janeiro durante o Estado Novo. Em 1945, com a queda de Vargas e já muito doente, Rodrigo volta à cidade natal para um ajuste de contas com a família". A primeira edição data do ano de 1951.

O tempo e o vento (parte II). O Retrato. (vol. I). Companhia das Letras.

Como devem ter percebido, Rodrigo Terra Cambará será o personagem absolutamente central de toda a segunda parte da trilogia. "Amante de sua própria imagem", deve ter um significado todo especial. Deve ter relação com o título O Retrato. Os personagens da primeira parte, os do Sobrado, ainda estão presentes, como Licurgo, o pai, Toríbio, o irmão e Maria Valéria, a tia e madrinha (uma nova Bibiana!). Já Rubin, um tenente nietzschiano, o coronel Jairo, o militar positivista e o fantástico Don Pepe, o espanhol anarquista serão os novos personagens que darão força para a pluralidade de posições nos diferentes debates.

Este O Retrato (vol. I), tem apenas dois títulos; 1. Rosa-dos-Ventos e 2. Chantecler. Este segundo é bem mais longo que o primeiro e está subdividido em 14 capítulos. Chantecler terá continuidade no segundo volume. Rosa-dos-Ventos é um teco-teco, com o qual Rodrigo Cambará sobrevoa a sua Santa Fé, quando em 1945 volta do Rio de Janeiro para a sua cidade, depois da queda de Vargas e fim do Estado Novo (1937-1945). Rodrigo chega a Santa Fé, duplamente mal, com a queda de Vargas e os seus problemas do coração. Além disso vê o seu sogro, que de grande estancieiro, se vê agora reduzido a pequeno arrendatário. Seus filhos aderem a diferentes posições políticas. Prestes e o queremismo serão os temas em debate.

Depois de ter situado Rodrigo em Santa Fé, com a sua volta à cidade em 1945, começa a sua história, em retrospectiva até o ano de 1909, quando triunfante chega à sua Santa Fé, com o seu título de doutor. Formara-se no curso de medicina, em Porto Alegre. Junto com o seu diploma, o acompanham muitos sonhos, planos de modernização, de revolução social e dedicação a causas humanitárias. Julgava o fato de ser admirado como a suprema felicidade do ser humano. Tinha seus vinte e poucos anos. Um Dom Quixote a querer mudar o mundo. Este é o segundo capítulo que tem por título: Chantecler.

Acima de tudo, Rodrigo chega absolutamente inconformado à sua cidade, com a arbitrariedade na política e as injustiças nas estruturas da sociedade. A cidade é dominada pelos latifundiários, categoria à qual ele própria pertencia, por alguns homens que com eles trazem a indústria e o comércio e por toda uma legião de peões e operários. O lugarejo cresce e se transforma em cidade, com a sua elevação a condição de sede de municipalidade. A família Trindade a domina politicamente. Rodrigo será oposição, com o apoio de Licurgo, seu pai e Toríbio, seu irmão. Quer mudar completamente seus hábitos, dedicar-se à clínica médica e ser um cidadão influente e exemplar em sua cidade. Toríbio, incrédulo e irreverente o observa.

O grande valor desse primeiro volume de O Retrato, é o de dar continuidade à formação histórica e política do Rio Grande do Sul (O Continente) e fazer uma minuciosa análise de sua estruturação social com a definição das diferentes camadas sociais, das que frequentam os salões do Clube Comercial até os moradores da periferia da cidade e das colônias Alemã (Pomerânia) e italiana (Garibaldina). O que mais o revolta é a permanência das instituições e a sua impenetrabilidade. As transformações são praticamente impossíveis.

O grande tema político dessa época são eleições de 1910. É o marechal Hermes da Fonseca contra Rui Barbosa. Rodrigo é defensor ardoroso de Rui Barbosa. A derrota foi acachapante. E com muita violência. Rodrigo odiava a presença dos militares na política. Na parte teórica os grandes personagens serão o tenente Rubin, adepto de Nietzsche, de sua vontade de poder e de super-homem, do coronel Jairo e o seu positivismo, do qual o Rio Grande do Sul está totalmente impregnado. 

Mas, disparadamente o personagem mais fantástico é Don Pepe, o espanhol basco. Não bastava apenas ser espanhol, tinha que ser basco. Bakunin sempre está em seu pensamento, assim como também Tolstói. Pepe esconjura padres e militares, os que dão sustentáculo ideológico para a burguesia. Só que ele é ativista apenas em sua mente, embora seja corajoso e destemido. Ele é pintor e terá ainda grande importância ao longo da obra. Será de sua autoria o tal do Retrato, aquele que não desfigurará. Com a vitória do marechal Hermes termina este primeiro volume de O Retrato.

E, como estamos vivendo (estou escrevendo no dia 15 de março de 2024) uma nova e profunda era de obscurantismo no Brasil e especialmente no Paraná, do governador Rato Júnior, que recolheu o livro de Jeferson Tenório O avesso da pele, para efeitos de análise, para ver se concede o nihil obstat e o imprimatur, deixo uma frase forte do livro e que é, seguramente o motivo da recolhida para efeitos de análise, ou então, claramente, vergonhosa censura: "Depois que a gente lê certos livros, os horizontes do espírito se alargam". Página 211. Por óbvio, a frase só poderia ter sido proferida pelo Rodrigo.

Deixo também a resenha dos dois primeiros volumes, os de O Continente.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-1-o-continente-vol-1.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-i-o-continente.html


domingo, 17 de março de 2024

A abolição. Pelos personagens de O Continente. Vol. 2. Érico Veríssimo.

Creio que uma das maiores virtudes de Érico Veríssimo como escritor, é o fato de dar voz aos seus personagens. E como os personagem sempre são vários, está garantida a pluralidade de vozes e de opiniões. Como o segundo volume de O Continente, da trilogia de O tempo e o vento se ocupa do final do Segundo Reinado, os temas da República e da abolição da escravidão estão onipresentes. Por isso, o post especial.

O tempo e o vento. (parte I). O Continente (Vol. 2). Companhia das Letras.

No ano de 1884, a localidade de Santa Fé é elevada a condição de cidade, sede de municipalidade. Os festejos serão enormes. Uma das solenidades ocorrerá no Sobrado da família Terra Cambará, agora sob a liderança de Licurgo, que dará manumissão aos seus escravos. A descrição que Érico Veríssimo faz é riquíssima em seus detalhes e me fez lembrar o grande abolicionista Joaquim Nabuco de que - não bastaria abolir a escravidão, seria também necessário abolir a sua obra -. A escravidão permanecerá entranhada na mente até dos próprios abolicionistas, mesmo daqueles que se anteciparam ao ato oficial do 13 de maio de 1888, como ocorreu na solenidade do Sobrado.

Como creio ser um tema candente, mesmo com tanto tempo após a abolição, tomo a liberdade de pedir licença ao Érico para uma pequena transcrição do momento em que se dá a solenidade no Sobrado, que bem mostra o indicativo de Joaquim Nabuco de que a obra da escravidão estaria ainda longe de ocorrer, ou melhor, ainda não ocorreu, mesmo nos dias de hoje. Existem, isso sim, inúmeros disfarces. Mas, vamos ao texto:

"A entrega dos títulos de manumissão foi feita no meio dum silêncio grave e comovido. Os escravos estavam no quintal, junto da porta da cozinha, e entravam à medida que seus nomes iam sendo chamados. Sob o espelho da sala de visitas, os títulos empilhavam-se em cima do consolo de mármore. Toríbio Rezende lia a lista de nomes: 'Antônio Tavares! Marcolino Almeida! Terêncio Rodrigues!', e muitas vezes Licurgo tinha que soprar-lhe ao ouvido o apelido do negro chamado, pois muitos daqueles homens já haviam esquecido os nomes de batismo. 'Maneco Torto'!, gritava Toríbio, 'Dente de Porco! Inácio Moçambique!' Por entre alas de convidados os pretos entravam na sala, piscando os olhos à luz forte, e acanhados, de cabeça baixa, sem ousarem olhar para os lados, aproximavam-se de Licurgo, recebiam o título e beijavam-lhe a mão; alguns ajoelhavam-se depois diante da cadeira em que Bibiana estava sentada e levavam aos lábios a fímbria de sua saia. Retiravam-se, estonteados, buscando aflitamente a porta da cozinha. Muitos dos escravos choraram ao receber a carta de alforria. Houve, porém, um deles que entrou de cabeça erguida, olhou arrogante para os lados, como num desafio, recebeu o título e, sem o menor gesto ou palavra de agradecimento, fez meia-volta e tornou a voltar para o quintal, impassível como um rei que acaba de receber a homenagem a que tem direito. Licurgo acompanhou-o com um olhar furibundo. Era o João Batista! Merecia uns bons chicotaços na cara. Sempre fora assim altivo e provocador. Era um bom peão, um bom domador, um trabalhador incansável, mas tinha um jeito tão atrevido, que por mais de uma vez Licurgo estivera prestes a 'ir-lhe ao lombo'.

A chamada continuava. Negros entravam e saíam. Havia entre eles homens e mulheres, moços e velhos. Licurgo começava a irritar-se. A cerimônia não só se estava prolongando demais, como também não oferecia metade da emoção que ele esperava: era uma coisa tão lenta e aborrecida como uma eleição. 'Bento Assis', gritou Toríbio. E, como o preto chamado não aparecesse, ele repetiu em voz mais alta: 'Bento Assis!'. O peão que estava à porta da cozinha gritou para fora: 'Bento Assis!'. Nenhuma resposta veio. Licurgo, que sacudia a perna nervosamente, bradou de repente: 'Bento Burro! Onde está esse animal?. 'Bento Burro', repetiu o peão. Então uma voz soturna saiu do meio dos escravos que esperavam, no sereno: 'Pronto, patrão!'. E entrou na casa.

E o desfile continuou. Licurgo mal podia conter sua impaciência. Não conseguia convencer-se a si mesmo de que aquela era uma grande hora - uma hora histórica. Não achava nada agradável ver aqueles negros molambentos e sujos, de olhos remelentos e carapinha encardida a exibir toda a sua fealdade e sua miséria naquela casa iluminada. E como eram estúpidos em sua maioria! Levavam a vida inteira para atravessar a sala e depois ficavam com o papel na mão, atarantados, sem saber que fazer nem para onde ir. Era preciso que ele gritasse: 'Agora vá embora. Não! Por ali. Volte pro quintal.

O pior era que o Sobrado já começava a cheirar a senzala.

Foi com um suspiro de alívio que entregou o último título.

E quando o último escravo desapareceu na cozinha, houve um momento de silêncio e imobilidade, como se os convidados esperassem de Licurgo algumas palavras. Mas quem falou primeiro foi a velha Bibiana:

- Agora abram as janelas para sair o bodum!

Licurgo mandou erguer as vidraças. Estava meio decepcionado. Esperava durante meses por aquele instante e no entanto ele não lhe trouxera a menor emoção. De repente viu-se cercado por amigos que lhe apertavam a mão e o abraçavam efusivamente. Um deles gritou: 'Viva o Clube Republicano! Viva o nosso correligionário Licurgo Cambará!'. Os outros gritaram em coro: 'Viva!' E começaram a bater palmas estrepitosamente. Os gaiteiros que estavam no vestíbulo romperam a tocar uma marcha. Licurgo, então, sentiu com tamanha força a beleza daquele instante, que esteve quase a rebentar em lágrimas. Foi com esforço que se conteve. Entregou-se passivamente àqueles abraços, alguns dos quais chegavam a cortar-lhe a respiração. Não ouvia as palavras que lhe diziam. Só sabia que aquele momento era glorioso, raro, grande. Com um gesto de suas mãos tinha dado liberdade a mais de trinta escravos! Lá fora estava acesa uma grande fogueira ao redor da qual os negros - agora homens livres, felizes e dignos - iam dançar, cantar, comer e beber!.

Uma preta de turbante vermelho, os dentes arreganhados, andava por entre os convidados com uma bandeja cheia de copos de cerveja. Alguém deu a Licurgo um copo, que ele apanhou e levou avidamente aos lábios, bebendo-lhe todo o conteúdo dum sorvo só, Ficou depois lambendo distraidamente os bigodes, a olhar em torno, meio zonzo, sentindo um calor e um tremor de febre, as ideias confusas e sempre aquela vontade absurda de chorar. Bibiana aproximou-se dele e abraçou-o e - pela primeira vez em muitos anos - seus lábios úmidos pousaram na face do neto num beijo chocho.

- Deus te abençoe, meu filho - balbuciou ela.

Licurgo inclinou-se, encostou uma das faces na cabeça da avó e rompeu a chorar como uma criança. Bibiana arrastou-o para o vestíbulo e depois para o escritório, cuja porta fechou apressadamente. Não queria que os convidados vissem aquele acesso de nervos de seu rapaz.

- Que é isso, Curgo? Vamos, enxugue as lágrimas. Ora, já se viu?

Licurgo passava o lenço nos olhos e nas faces e fungava, furioso consigo mesmo por ter fraquejado, e já com uma vaga vontade de brigar. Mas brigar com quem e por quê?

- Vamos botar essa gente na mesa! - exclamou de repente. - Devem estar morrendo de fome.

Puxou bruscamente a avó pelo braço, e sempre fungando, com vontade de dizer nomes feios a seus convidados e ao mesmo tempo de abraçá-los, voltou para a sala, exclamando:

- Vamos comer, minha gente! Vamos pra mesa! esta casa é de vassuncês!". Páginas 354-356.

Deixo também a resenha do vol. 2:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/o-tempo-e-o-vento-parte-i-o-continente.html