quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Porto Alegre. Na ARENA do GRÊMIO.

Como já fazia um bom tempo que eu não ia mais para Porto Alegre, desta vez, visitando meu irmão, cunhadas e meus sobrinhos, resolvi ir. Eu estava em Tupandi, na casa do meu irmão. Fui de carro até São Sebastião do Caí e, de lá, repeti um dos trajetos que mais fiz nos meus tempos de juventude, ir de ônibus, do Caí até Porto Alegre e vice versa. Quase me atrapalhei no Caí, pois, a velha rodoviária não estava mais no seu lugar de sempre.

Em Porto Alegre revi alguns dos pontos mais tradicionais, como a Praça da Matriz, que considero profundamente simbólica, pois ali estão aglutinados os quatro grandes poderes: o poder religioso, representado pela majestosa Catedral; o poder político com o portentoso Palácio Piratini e o Farroupilha, sedes do executivo e legislativo, respectivamente; o poder cultural, representado pelo Teatro São Pedro e o Palácio da Justiça, sede do poder judiciário. Tudo ao redor da mesma praça. Também fiz a caminhada pela famosa rua da Praia, passando pelo Correio do Povo (seria o poder da mídia - ou já foi?) e fui também fazer uma visita para o Mário Quintana e para a Elis Regina, em sua casa.
O ticket para fazer o tour na ARENA do GRÊMIO.

Como não conheço a geografia do Bairro Humaitá, peguei um táxi para ir até a ARENA do GRÊMIO, a nova casa do "imortal tricolor", pois, nos meus tempos de Porto Alegre, o nosso campo de vitórias e de glórias era o velho Estádio Olímpico. Não sou velho o suficiente para lembrar dos tempos da Baixada, no Bairro Moinhos de Vento, um estádio de madeira, onde começou a verdadeira história da imortalidade do tricolor. O novo estádio é uma verdadeira fábula. Certamente e, sem favor nenhum, um dos maiores e melhores estádios (Arena multiuso) do mundo.
O pomposo título na ARENA - GRÊMIO CAMPEÃO DO MUNDO.

A primeira vista é de tirar o fôlego, tanto do estádio, quanto do complexo viário dos arredores. Para situá-lo, ele se localiza entre as pontes do rio Guaíba e o aeroporto Salgado Filho, num bairro bem pobre da cidade, assim como era o Bairro da Azenha, onde ainda está, certamente por um breve tempo, o Estádio Olímpico. A Azenha é hoje área nobre. Não convém nem falar do Moinhos de Vento. Nas proximidades da Arena está também o novo centro de treinamento.
Já foi na Baixada e no Olímpico. Agora o palco de triunfos e glórias é a ARENA do GRÊMIO.

Como a visita é guiada, ela tem hora marcada. A minha turma foi a das 14:30 horas. Como sobrou um tempo, dei uma volta ao redor, espaço destinado para lojas comerciais. Ali está a GRÊMIO MANIA, o setor de relacionamento com os sócios e a agência de viagens. Impressiona o letreiro que dá o nome ao estádio ARENA do GRÊMIO e o portentoso anúncio, GRÊMIO - CAMPEÃO DO MUNDO. Também aparece o mascote, o famosos mosqueteiro. A visita começa no hall principal de entrada. Ali tem placa de inauguração, homenagem a todos os presidentes e um enorme e extraordinário painel que lembra os três grandes momentos da história do clube, pelos seus três diferentes estádios: O velho Pavilhão da Baixada, um estádio de madeira no Bairro Moinhos de Vento, o Estádio Olímpico no Bairro da Azenha e a ARENA do GRÊMIO, no Humaitá.
Vista do gramado a partir das cabines de imprensa. Altura equivalente a um prédio de 18 andares.


A visita começa por uma pequena preleção com exaltação ao espírito gremista e de ser torcedor deste time grandioso. Antes que eu esqueça, o tour tem um preço de R$ 30,00. Os velhinhos pagam meia. Os elevadores levam os visitantes ao ponto mais alto do estádio, onde estão as cabines de imprensa e os painéis de controle.A altura equivale a um prédio de 18 andares. A vista é maravilhosa. Logo abaixo ficam os ambientes corporativos, que servem também como camarotes para os jogos. Mais abaixo estão as cadeiras mais inclinadas, o máximo permitido pela FIFA. Aí é que cabe o número máximo de torcedores e onde ficam os torcedores visitantes.
Sala de imprensa. Aí são feitas as entrevistas e a apresentação de novas contratações. No dia da visita ocorreu a contratação do ano.

Abaixo ficam as cadeiras GOLD e as câmaras da televisão, para a tomada de imagens. Percebe-se que é o espaço nobre do estádio. Ali também estão os espaços da reunião da diretoria, do conselho deliberativo e a sala de entrevistas e de apresentação dos jogadores quando contratados. Abaixo tem mais um lance de cadeiras e o famoso espaço de arquibancada, para lembrar como é que se assistia futebol antigamente. Ali ficava a torcida que fazia a tradicional avalanche. Depois vem a visita aos vestiários e o tour se encerra num clima de entrada dos jogadores em campo, no túnel de acesso ao estádio. Aí tem som ambiente, lembrando a entrada em grandes jogos e painéis comemorativos dos maiores jogos e conquistas, com os grandes capitães erguendo as taças.
Na saída do túnel para a entrada no gramado, a lembrança da imortalidade.


A visita termina à beira do gramado no local reservado aos técnicos e aos jogadores reservas, já à beira do gramado. O ingresso nele não é permitido. A visita termina mesmo com a possibilidade de tirar uma fotografia junto com a taça da Libertadores, em foto oficial. Não é permitido fotografar particularmente. A foto também é possível no local de entrevistas do técnico e da apresentação de jogadores. O total da duração da visita é de aproximadamente uma hora e meia. Muita emoção e muitas lembranças. Mas a coisa mais linda da visita é o entusiasmo das crianças e a certeza de que teremos bons gremistas ainda por um longo tempo., ou por toda a eternidade. Eternidade não combina com imortalidade?  A capacidade total de público é de 60.540 torcedores.
Só para lembrar. A maior torcida do sul do Brasil. E, a mais fanática. No dia do tour, havia a presença de uma turista da cidade de Barcelona. No mesmo dia, o Grêmio teve uma importante vitória sobre o Atlético Mineiro, em Belo Horizonte, por 2X0.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Alienista. Machado de Assis.

O alienista, de machado de Assis não é apenas um conto. É o primeiro conto do realismo brasileiro. E, para dizer a verdade, que conto! Quanta erudição. Se eu ainda estivesse em sala, eu complementaria uma aula sobre o iluminismo, sobre a evolução da racionalidade e do cientificismo, com este conto. Ele vai fundo na descrição psicológica dos indivíduos e usa da ambiguidade, tão peculiar em toda a obra machadiana. Sabemos, pelo Aurélio que o alienista é um médico especialista que se ocupa de doenças mentais. O livro foi publicado em 1882, grudado, portanto, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O Alienista. O primeiro conto do realismo brasileiro. Afinal de contas, quem é  louco?

No conto, o médico é o Dr. Simão Bacamarte, cientista renomado e requisitado pelo rei português para ser reitor em Coimbra, universidade pela qual se formara, ou ser o médico da corte em Lisboa. A sua missão, no entanto, o retém em Itaguaí, o seu universo, para se dedicar em tempo integral aos estudos da ciência. Tinha como missão ajudar a população com os avanços da ciência. O campo escolhido é o da mente humana.

O Dr. Bacamarte, aparentemente, leva uma vida normal, casa-se com dona Evarista, uma jovem viúva, sem muitos predicados de beleza, que mesmo depois do casamento, continua se sentindo viúva, pois o Dr. só tinha olhos para a ciência. O Doutor também vivia em perfeita consonância com o boticário, Crispim Soares, que jamais o contradizia, certamente, por uma questão de interesses. Padre Lopes era um padre muito ponderado. A cidade era administrada por um Conselho Municipal, formado por nobres conselheiros, fiéis a sua majestade, o rei.
Bela capa representando o Doutor Simão Bacamarte.

Os problemas começam quando o Dr. Bacamarte idealiza o seu plano de fundar na cidade uma casa que se ocupasse com o internamento e o tratamento de pessoas com perturbações mentais, digamos assim, para usar um termo brando.  O Dr. Bacamarte simplesmente interna todas as pessoas que ostentam contradições em suas vidas. A Casa Verde, ou a Casa de Orates, logo se tornou pequena para as suas funções e foi ampliada. A princípio ela cobrava os internamentos mas também recebia verbas públicas. Ares de insatisfação começaram a tomar conta da cidade, à medida que cresciam as internações, cada dia mais frequentes.

Porfírio era um dos barbeiros da cidade. Atento, ele percebeu que as insatisfações poderiam satisfazer suas ambições, se as transformasse em revolta. Tornou-se o líder. Quando ele já se sentia quase derrotado aconteceu o inusitado. A força pública, que fora destacada para abafar o movimento rebelde, aderiu à rebelião e, assim, o barbeiro Porfírio foi empossado como o  novo presidente do Conselho. A rebelião recebeu o nome de revolta dos canjicas e a Casa Verde foi considerada como a "bastilha da razão humana". Crispim Soares, depois de breve doença, trai o Dr. Bacamarte e adere ao movimento revolucionário, fato que lhe custará uma futura internação.
O alienista também pode ser encontrado nessa coleção de contos.

O novo comandante de Itaguaí vai à casa do Dr. Bacamarte, mas não o prende. Pretende com ele estabelecer um pacto de governabilidade, que passa a ser aceito. O Dr. ficou pasmo ao saber do saldo da rebelião: 11 mortos e 25 feridos. Entre os presos, o grande destaque será a esposa do Doutor, que após uma viagem à cidade do Rio de Janeiro, voltou com "mania suntuária". Também foram presos um vereador e o boticário. Um novo motim ocorrerá na cidade. O outro barbeiro, João Pina, derruba Porfírio e a ordem é restabelecida. Todos os presos são soltos e os internamentos passam a ser regulamentados. Foi quando o doutor Bacamarte inverte as suas teorias e passa a internar as pessoas mais coerentes. Seguem histórias de muita ironia.

Ao final o Doutor chega a conclusões ambíguas. Não havia loucos em Itaguaí e, ainda, que não havia um único cérebro que fora consertado. Um abalo moral toma conta do ilustre cientista, que se interna, mais uma vez, em nome da ciência. "A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática". Procurou a cura de si mesmo mas, de acordo com os cronistas "ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegaram ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade".
Machado explora a tênue fronteira entre a loucura e a normalidade


Afinal de contas, que é o louco em Itaguaí? Esta é a grande pergunta que deve acompanhar a leitura de O Alienista. Vejamos uma observação de Maria Tereza Faria na apresentação do Livro: "A relativização, marca dos textos de Machado, é o tema central do conto O Alienista, quase uma novela graças à sucessão de eventos que o compõe. Todo ele é uma interrogação sobre a fronteira entre a normalidade e a loucura, o que implica uma crítica ao cientificismo do final do século XIX. O enredo, além de discutir esse tênue limite, coloca em pauta a questão do poder. A "Casa Verde", hospício criado pelo eminente doutor Simão Bacamarte em Itaguaí, para onde afluem todos os demais personagens - Dona Evarista, o padre Lopes, o boticário Crispim Soares, o barbeiro Porfírio -, nada mais é do que a personificação do pessimismo, de sua filosofia que traduz um profundo senso do relativo". O narrador buscou as fontes para a sua narrativa nas crônicas existentes sobre a cidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Máquina da Lama. Roberto Saviano.

A minha aproximação com Roberto Saviano se deu através da FLIP, a grande feira literária de Paraty, na sua edição de 2015. Ele era o convidado especial do evento, mas não pode comparecer por questões de segurança, ou melhor, por absoluta falta de condições de segurança. O escritor é jurado de morte pela máfia italiana, principalmente a de Nápoles, que ele descreveu minuciosamente em seu livro Gomorra - A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana. A edição italiana é de 2006 e a primeira edição brasileira é de 2008. No Brasil o livro já está na nona edição.
O livro de Saviano que o tornou famoso e jurado de morte.

 Ao tomar conhecimento de seu não comparecimento me decidi por encontrá-lo. Comprei três livros seus: Gomorra, A Máquina da Lama e Zero Zero Zero. Iniciei a leitura com Gomorra, uma narrativa muito vigorosa do mundo do crime que toma conta da economia mundial, mas o considerei muito detalhista para nós brasileiros, que não acompanhamos o dia a dia dos noticiários italianos. A minha segunda leitura foi para A Máquina da Lama - Histórias da Itália de hoje. Uma surpresa mais do que agradável. O livro relata a incursão do autor na televisão italiana, através de uma programa com o título de Vieni via con me (Vem embora comigo), uma série de programas apresentados na TV estatal italiana. A primeira edição italiana é de 2011 e a brasileira de 2012.
A Máquina da lama. As incursões de Saviano na televisão italiana.

A máquina da lama é  simplesmente a televisão italiana. O tema me interessou sobremaneira. Vejamos uma parte da apresentação, escrita por Maurício Stycer, na orelha do livro: "Em matéria de mau gosto e baixaria, a televisão italiana não é muito diferente da brasileira. O que a distingue é o modelo de exploração, já que ela é ancorada numa estrutura pública, formada por três canais, loteados entre diferentes forças políticas, inclusive da oposição. A despeito de suas muitas imperfeições, esse modelo sempre garantiu alguma diversidade. Com Berlusconi no poder, no entanto, acumulando o controle das três principais redes privadas de tevê e também com ingerência sobre as públicas, a diversidade praticamente virou pó. Uma a uma, as vozes independentes da RAI foram colocadas de lado, viram seus projetos serem engavetados ou deixaram a emissora".

Foi o caso de Roberto Saviano. Vem embora comigo foi projetado para contar histórias da Itália de hoje, como lemos no subtítulo do livro. Nem todos os programas contavam histórias da máfia. A série foi um sucesso de público, com audiência superior a de jogos de futebol e a do Grande Fratello, o Big Brother italiano. Pelo enorme sucesso, os programas da série teriam que acabar. Saviano afirma que eles não eram destinados a um público, mas para cidadãos italianos.
A força jovem de Roberto Saviano.

O livro está dividido em duas partes. A primeira Vieni via con me, descreve os programas feitos para a televisão e a segunda, Camorra, são três artigos escritos para o jornal La Repubblica. Porém, o prefácio à edição brasileira merece um destaque todo especial e ocupa nada mais, nada menos, que vinte páginas. Começa citando Jorge Amado, o seu livro Navegação de cabotagem e fala da relação entre Brasil e Itália que vai para muito além do futebol. Fala sobre as peculiaridades da censura italiana na televisão, sobre a sua experiência nela como um penetra, e se entusiasma com a descrição de seus programas, em que diz ter apresentado uma Itália que sonha e na qual nem todos são iguais, como a televisão tradicional tenta fazer ver. Diz ainda que a Itália ou os italianos não são como os vemos, mostrados pela grande mídia. Faz ainda uma lista das dez coisas que mais gostaria de fazer. Só este prefácio já vale pelo livro.

Na primeira parte relata oito histórias do Vem embora comigo. Em Juro - fala sobre os ideais da Giovine Italia, e com muita emoção fala do espírito que moveu os precursores da unificação italiana e os contrapõem à arrogância da Liga Norte, dos dias de hoje. Em A Máquina da Lama, narra a história do principal juiz anti máfia, Giovanni Falcone, assassinado em 1992, quando se tornou heroi nacional. Antes  a máquina da lama o difamava. Em A 'Ndrangheta no norte relata a infiltração da máfia calabresa a comandar os negócios do rico norte italiano, na região da Lombardia. Piero e Mina é uma impressionante história de amor, em que Piero, acometido de distrofia muscular progressiva, escolhe a hora de dispensar os excessos terapêuticos e escolher a hora de morrer.
O grande nome do jornalismo investigativo italiano. Alto preço.

Em Detritos e Venenos se ocupa do lixo ilegal e tóxico da qual Nápoles é vítima. O tema tem um capítulo especial em Gomorra. Domínio total da máfia. Em A maravilhosa habilidade do sul Saviano conta a história de padre Giácomo que vai trabalhar no sul e relata as dificuldades enfrentadas nos trabalhos de assistência, em função da máfia. Em O terremoto em L'Aquila é mostrada a máfia da construção civil, tão ou mais culpada por mortes, quanto a ação dos terremotos e em A democracia vendida e o navio a vapor, apresenta a constituição como uma palavra viva. É um grande convite aos cidadãos honestos de participação na vida política.

Os três artigos da segunda parte são: O autorretrato de um chefão: o livro-razão da Camorra, onde é relatada a história de um ex chefe mafioso, Maurício Prestieri, que responde na justiça por seus crimes, em uma espécie de delação premiada. Ele faz revelações estarrecedoras; Em Grand Hotel Camorra, é narrada a vida luxuosa dos chefões da máfia, entre hotéis de luxo, cassinos e mulheres nas cidades de maior glamour do mundo; Já o artigo A Camorra nas urnas: os chefões donos do voto é narrado o envolvimento da máfia na política, bem como as suas formas de atuação.

Uma observação final. Como falei no início, Roberto Saviano não pode participar da festa literária de Paraty por ser uma espécie de "Salman Rushdie italiano na luta infindável contra o crime organizado". Por isso ele é jurado de morte pelas máfias italianas. Na narrativa de A Máquina da Lama existem duas referências muito sensíveis a uma morte com dignidade, as mortes de Sócrates e de Giordano Bruno. Não seria isso a manifestação de uma visível preocupação com a sua própria morte? Estaria o autor também preocupado com um final de vida digno de um grande batalhador, de um grande homem? O livro é uma declaração de amor à democracia e um grande convite à participação. A propósito, seguem as palavras derradeiras de Giordano Bruno:
No Campo de' Fiori, a estátua em homenagem a Giordano Bruno.

"Eu lutei, e muito: acreditei poder vencer (mas aos membros foi me negada a força do ânimo), e tanto a sorte quanto a natureza retiveram o estudo e os esforços. [...] No que me concerne, fiz o possível [...]: não temi a morte, não cedi em constância a nenhum dos meus semelhantes, preferi uma morte animosa a uma vida pusilânime". Muito parecido com a escolha de Sócrates.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os fundadores do pensamento liberal. 4. John Stuart Mill.

Com este post termino a série de quatro, sobre os fundadores do pensamento liberal. A referência mais uma vez é John Dewey e o seu livro Liberalismo, liberdade e cultura, em seu primeiro capítulo que versa sobre a história do liberalismo. Lembrando que nos posts anteriores abordamos John Locke, Adam Smith e Jeremy Bentham. O que John Stuart Mill efetivamente acrescentou ao pensamento liberal para ser incluído entre os seus fundadores?
O clássico de 1935, de John Dewey.

Mill já pertence a um outro cenário histórico que o de seus antecessores. O seu nascimento ocorre em 1806 e a sua morte em 1873. Neste cenário ele observará o alastramento das revoluções burguesas, a evolução da produção industrial e o surgimento de novas visões de mundo sobre a realidade e os resultados provocados pela nova ordem mundial. Já em meados do século XIX, o seu século, o capitalismo sofre as suas grandes críticas e as suas mazelas ganham vivas cores em sua descrição. A filosofia e a literatura romântica observam a insuficiência da racionalidade e de sua fria lógica utilitária e instrumental. Os românticos o influenciam profundamente. Vejamos Dewey falando a respeito.

"A carreira intelectual de John Stuart Mill foi uma luta valente, embora insucedida, para reconciliar as doutrinas, que recebera quase desde a infância de seu pai, e o sentimento de vazio que elas lhe davam, quando comparadas com os valores da poesia, das instituições históricas duradouras e da vida interior retratada pelos românticos". Isso o tornou um homem sensível ante a realidade, que assim via e descrevia. "Agudamente sensível à brutalidade da vida em torno dele e ao seu baixo nível intelectual, percebia a coincidência entre esses dois traços". Assim chegou a preconizar a chegada de um tempo, é Mill falando,"em que a divisão do trabalho (...) seria feita de acordo com um reconhecido princípio de justiça". Antes, o mérito individual se sobrepunha à justiça.
John Stuart Mill. Grandes modificações no pensamento liberal.

Como podem observar, uma profunda mudança no interior do pensamento liberal. Vejamos mais. "Afirmou que as instituições existentes eram apenas provisórias, e que as 'leis' que governam a distribuição da riqueza não eram sociais, mas arranjos do homem, que ao homem cabia alterar". Uma guinada muito forte. Para a política cabe a tarefa de: - 'ao homem cabe alterar' -, que marca a precedência do político sobre o econômico. As leis já não seriam naturais. Passaria a ser uma construção humana e histórica e com finalidades determinadas pelo humano e pelo social. Vejamos: "O único fim pelo qual a humanidade, individual e coletivamente considerada, tem o direito de interferir na liberdade de ação de qualquer pessoa é o da própria proteção". Observem a presença da palavra interferir - para proteger

Mill e outros pensadores já defendem explicitamente que o todo social é a condição primordial para o desenvolvimento de todas as capacidades dos indivíduos. Também a ideia do bem comum começa a aparecer fortemente. "Somente pela participação comum e partilhando do propósito comum em seu trabalho para o bem comum, podem os seres humanos individuais realizar suas próprias individualidades e se tornarem verdadeiramente livres. O Estado é apenas um órgão entre muitos do Espírito e da Vontade que mantém todas as coisas unidas e torna os seres humanos membros um do outro". É a força de valores éticos e morais se impondo aos princípios do mercado.
Este livro fez parte de meus estudos de mestrado na PUC/SP.

Estes novos liberais ampliam o leque das funções do Estado. "Negativamente, sua tarefa é a de remover os obstáculos que estão no caminho dos indivíduos em busca da consciência de si mesmos e do que são; positivamente, é a de promover a causa da educação pública". Dewey continua a caracterizar este novo Estado em suas funções positivas. "Esses novos liberais nutriam a ideia de que o Estado tem a responsabilidade da criação de instituições, pelas quais os indivíduos possam efetivamente realizar as potencialidades de que são portadores". E isso é inimaginável sem a educação e sem a saúde públicas.

Dewey aponta para as contradições entre os pensadores fundadores, e agora os novos, provocaram no interior do liberalismo. "Devido a essa divisão interna do liberalismo, a sua recente história é hesitante e confusa". Lembramos que o livro foi escrito em 1935. O autor termina o capítulo afirmando que diante das crises desse período o liberalismo do primeiro período ressurgirá como "uma compacta força agressiva". O que são os tempos do chamado neoliberalismo? Dewey não viu esta realidade mas parecia antevê-la em sua violência.
Frase de extrema atualidade. Mill foi um inovador.

Stuart Mill é considerado o precursor do que se chamou de neo capitalismo, social democracia ou ainda, o Estado de bem-estar social. Este movimento ganhou teóricos e práticos. Entre os práticos deve ser estudada a unificação alemã, sob o governo de Bismarck, e entre os teóricos se destacarão John Maynard Keynes e o Lord Beveridge. A social democracia terá grande força após a Segunda Grande Guerra e os neoliberais, ao final dos anos 1970 e, especialmente ao longo dos anos 1980. Atingem a América latina nos anos 1990 e sofrerão uma reversão na entrada do novo século, especialmente na América latina. Mas isso já é outra história. Isso é todo um programa de ciência política.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Os fundadores do pensamento liberal. 3 Jeremy Bentham.

Depois de ter apresentado John Locke e Adam Smith como fundadores do pensamento liberal, vamos apresentar mais um, de suma importância, Jeremy Bentham. Ele foi, além de teórico, um homem prático ou um homem de Estado, um governante que deu ao Estado a sua fisionomia liberal, isto é, adequou as novas ideias econômicas, jurídicas e políticas ao Estado, na sua forma concreta de atuação. Poderíamos dizer que foi o grande organizador da superestrutura do Estado Liberal. A fonte mais uma vez é o livro de John Dewey, Liberalismo, liberdade e cultura.
O livro de John Dewey, um clássico de 1935.

Vamos situá-lo. O pensador da organização jurídica e administrativa do Estado nasceu em 1748 e morreu em 1832. Assim, assistiu de perto os grandes fenômenos históricos de seu tempo como as revoluções burguesas da guerra da independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789). Assistiu também o grande progresso impulsionado pela Revolução Industrial. A sua contribuição teórica está no aspecto moral do sistema e pode ser assim formulado, de uma forma bem simples, "evitar a dor e buscar a felicidade". É a doutrina do utilitarismo.

No que consiste o seu utilitarismo? Bentham toma como base de seu pensamento as liberdades individuais e a sua aplicação ao mundo da produção e das trocas de seus antecessores e as projeta sobre os efeitos na sociedade. Estes novos princípios deveriam desentranhar o velho sistema da sociedade fechada e promover, não apenas o progresso geral, mas também um bem-estar moral. Os entraves no mundo da produção e das trocas afetavam diretamente a felicidade dos indivíduos. Dewey assim expressa essa situação.
Bentham e o ordenamento jurídico e administrativo do estado liberal.

"Bentham abordou a situação não do ponto de vista da liberdade individual mas do efeito dessas restrições sobre a felicidade dos indivíduos. Cada restrição de liberdade era ipso facto uma fonte de sofrimento e uma limitação do prazer que, de outro modo, podia ser gozado". Bentham atacava diretamente "a tudo que na lei e processo judiciário vigentes infligisse pena desnecessária e limitasse o gozo de prazeres pelos indivíduos". Além dos aspectos morais acrescentou também elementos psicológicos à doutrina liberal. Vejamos.

"Além disso, pela sua psicologia, o impulso de cada um para melhorar a sua condição - princípio em que se fundara Adam Smith - na doutrina de que o desejo de prazer e aversão à dor constituíam as forças únicas que governam a ação humana". Tudo isso se revestiu também de um importante elemento para a evolução de uma ideologia liberal. "Deste modo, a teoria psicológica, implícita na ideia de indústria e comércio controlados pelo desejo de ganho, foi desenvolvida nos seus aspectos políticos e jurídicos, pondo-se, com a expansão constante da manufatura e do comércio, a força de um poderoso interesse de classe a serviço da nova versão do liberalismo". A doutrina está em busca de legitimação.
Ainda prevalece o individualismo nas teorias de Jeremy Bentham.

O trabalho mais conhecido de Bentham é Principles of Morals and Legilation. Nele, ainda segundo Dewey, havia uma única grande preocupação. "A sua preocupação era com a moralidade da lei, da ação política em geral e a sua norma era simples e única: a da determinação do seu efeito sobre a maior felicidade possível do maior número possível de indivíduos". Dewey ainda o considera como "o primeiro grande expurgador das mazelas da lei" e, ainda, como um grande inventor no campo do direito e da administração. Ainda lhe confere grande merecimento histórico. "A história das mudanças na lei e na administração da Grã-Bretanha na primeira metade do século dezenove é sobretudo a história de Bentham e de sua escola".

Uma coisa a mais é destacada no texto de Dewey, que considero extremamente importante e que representa uma guinada no pensamento liberal. "O próprio Bentham clamou por uma grande extensão da educação pública e por ação a favor da saúde pública". Bentham abre assim a perspectiva das ações positivas do Estado em favor dos indivíduos, negando assim a ideia de um Estado Mínimo. Entramos assim num campo teórico que encheu as bibliotecas de livros que marcam as diferentes posições. A principal crítica a Bentham está ligada ao utilitarismo e a um hedonismo barato de usufruto da riqueza, aquilo que Marx viria a chamar de materialismo vulgar.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os fundadores do pensamento liberal. 2 Adam Smith.

Este post, faz parte de um grupo de quatro, sobre os fundadores do pensamento liberal. A fonte é um clássico do ano de 1935, Liberalismo, Liberdade e Cultura, de John Dewey e mais precisamente, o primeiro capítulo, que tem por título A história do liberalismo. No primeiro post focamos John Locke, o grande teórico  político e jurídico do liberalismo. Agora vamos ao pensador que deu a base econômica, o livre mercado. Adam Smith.
Uma boa fonte para o estudo do tema. Um clássico.

Vamos começar pela contextualização. O pensador inglês, ou escocês, mais precisamente, nasceu em 1723 e morreu em 1790. Por dois motivos escolheria a data de 1776, como a mais importante para melhor situá-lo, pois nesta data ele publicou A Riqueza das Nações e também porque nesse ano ocorreu a independência dos Estados Unidos, que viria a ser a maior nação a se guiar por seus conceitos. O seu grande feito está ligado ao fato de interligar os conceitos de indivíduo e liberdade, ao mundo da produção e da troca das mercadorias.

Por usar termos muito precisos cito o essencial da análise de Dewey: "Sustentou que a atividade dos indivíduos, libertos tanto quanto possível de restrições políticas é a principal fonte do bem-estar social e a fonte última do progresso social. Sustentou que havia uma tendência 'natural' ou nativa em cada indivíduo de melhorar a sua própria condição por seu esforço (trabalho), a fim de satisfazer suas necessidades naturais".
As leis naturais devem governar. A liberdade dos indivíduos.

Esta tendência nativa estava em todos os indivíduos, razão pela qual haveria um grande estímulo para o progresso, pelo acúmulo dos esforços que resultariam em um grande bem-estar social. Vejamos: "O bem-estar social resulta do efeito cumulativo, conquanto sem propósito nem plano, da multidão de esforços individuais convergentes para o aumento dos bens e serviços cria novas necessidades ou desejos e leva a novos modos de esforços para a produção. Não é apenas o impulso nativo para a troca. É que a troca liberta os indivíduos do trabalho para atender todas as necessidades e cria a divisão do trabalho e, a divisão do trabalho aumenta enormemente a produtividade. O livre jogo dos processos econômicos dá, assim, origem a uma espiral  sem fim de mudanças crescentes e os esforços dos indivíduos para seu avanço social e ganho pessoal, guiados por uma 'mão invisível'".
Adam Smith, os fundamentos econômicos do liberalismo.

Eis a teoria do livre mercado. As chamadas leis naturais, em contraposição com aquelas feitas pelo homem e pela sua associação, ou seja, o Estado, imediatamente foram aplicadas à livre produção industrial e à livre troca comercial. Historicamente estas teorias ocorrem junto com as invenções e descobertas da técnica e a sua aplicação ao processo de transformação de matérias primas, fenômeno que conhecemos como a revolução industrial, fenômeno que ocorre primeiramente na Inglaterra que, antes dos demais países fez os ajustes políticos e jurídicos necessários para que isso acontecesse. Definitivamente ingressava-se, a passos largos, no que convencionou-se chamar de sociedade aberta, marcada pela possibilidade de mobilidade, fato que não ocorria nas modalidades anteriores de sociedades fechadas, imobilizadas, ou pelo nascimento, ou pelas restrições impostas por governos ligados ao mercantilismo.

Adam Smith foi fortemente influenciado pelos pensadores econômicos da França, os chamados fisiocratas, aqueles do laissez faire, laissez passer. Fisiocratas, de fisis, isto é, natureza, ou leis naturais. As leis econômicas são as verdadeiras leis naturais. "Numa sociedade ideal, a organização política devia moldar-se pelo padrão econômico estabelecido pela natureza". Todas as ações artificiais, isto é, todas as ações governamentais, as ações políticas deveriam ser afastadas para não prejudicar o caminho natural para o progresso.
A economia livre de amarras impulsionou a revolução industrial.


Estão assim lançados os fundamentos econômicos do liberalismo, do livre mercado e de suas leis naturais originárias da mão invisível, do valor do trabalho como fator primordial para a produção e de sua divisão para alcançar maior produtividade. A não interferência do Estado por intervenções econômicas, será conhecida por Estado mínimo, e é a fonte de todas as teorias que sobrepõem e subordinam o político ao econômico.. Não existe espaço para as políticas de planejamento. O resultado será a satisfação dos indivíduos e, mais ainda, da soma total destes indivíduos, em busca de um bem-estar geral maior.

Desta forma, a doutrina ganha também um caráter moral, em que a busca deste bem-estar se transforma num imperativo. Mas Adam Smith também tinha dúvidas com relação a toda a sua formulação teórica e isso pode ser sentido em outro livro seu, A Doutrina dos sentimentos morais.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Os fundadores do pensamento Liberal. 1. John Locke.

Para realizar boas pesquisas são necessárias boas fontes. Há algum tempo publiquei um post no blog sob o título "Os princípios gerais do liberalismo", a partir de um texto do livro Educação e Desenvolvimento social no Brasil, de Luiz Antonio Cunha. Como a repercussão foi boa e como o liberalismo é um tema que precisa muito ser estudado, resolvi postar mais quatro textos sobre o tema, enfocando os fundadores do pensamento liberal. A fonte é um clássico, Liberalismo, liberdade e cultura, de John Dewey, autor de minha grande devoção. Os textos datam de 1935, mas fique tranquilo, que jamais serão ultrapassados ou superados.
Um clássico. Um livro com o qual aprendi muito.

Vou abordar John Locke, Adam Smith, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. A fonte é única. As ideias são retiradas do primeiro capitulo do livro de Dewey, que tem como título - A história do liberalismo. Ao final me reservo o direito de fazer algum comentário. Indo às fontes do pensamento liberal podemos ter uma mais fácil compreensão do pensamento econômico atual, o chamado neoliberalismo, que nada mais é do que a retomada dos princípios do liberalismo originário. Estes quatro posts nos dão bem uma ideia de sua construção histórica, de suas modificações e contra modificações e entendê-lo como ele se apresenta hoje, sem que se tenha chegado a nenhum tipo de unanimidade. Mas vamos a John Locke.
John Locke, papel fundamental na instituição política e jurídica do sistema liberal.

Vou sempre começar por situar e datar o autor para inseri-lo em seu contexto histórico. John Locke nasceu na Inglaterra em 1632 e morreu em 1704. Se tivesse que escolher uma data importante neste seu interregno de vida, sem dúvida, escolheria o ano da Revolução Gloriosa, de 1688-89, a primeira das grandes revoluções burguesas. Para situar sua importância, ele foi o grande teórico das próximas revoluções burguesas, quais sejam, a Independências dos Estados Unidos (1776),  e a maior e mais famosa de todas, a Revolução Francesa (1789). O seu grande livro foi o Segundo Tratado do Governo Civil (1690).

John Locke é o grande pensador dos chamados direitos naturais individuais e será ele que dará a significação básica para dois conceitos que integram os chamados princípios gerais da doutrina liberal, as palavras liberdade e indivíduo, ou juntando-as, a liberdade individual. Dois outros conceitos seus são também básicos. Os direitos naturais e os governos como instituições criadas pelos indivíduos. Assim os direitos naturais são anteriores a organização do Estado e a este, subordinam a sua função primordial, a salvaguarda dos direitos naturais. É um pensador contratualista, isto é, a sociedade celebra um contrato. Neste contrato os indivíduos consentem com a criação do Estado, mas este, por ser posterior aos indivíduos, terá como função atender, exclusivamente. os interesses dos criadores do Estado, ou seja, os indivíduos. Em outras palavras, os interesses são individuais, nunca coletivos.
 Locke, o pensador do jusnaturalismo, dos direitos naturais individuais.
Outro conceito chave em seu pensamento é a palavra propriedade, mais uma vez associada às palavras indivíduo e liberdade. O conceito de propriedade é bem avançado para o seu tempo, por incluir a propriedade de si, associado com a ideia de liberdade, no sentido de dispor do corpo livremente para empreender. Assim pela livre disposição do meu empreender, isto é, do meu trabalho, eu me torno proprietário de algo até então não apropriado. Assim, é pelo meu livre trabalho que eu me torno proprietário e esta propriedade será um dos direitos individuais inalienáveis dentro do sistema que está emergindo e que terá como função primordial, a sua defesa, seja pelos instrumentos políticos, bem como os jurídicos. A propriedade será um resultado do mérito do trabalho.

O seu pensamento causou grande impacto político e norteou os princípios do chamado direito natural, em contraposição com o direito positivo. A organização da sociedade tem por fim, e é por isso que ela se organiza, a proteção dos direitos naturais, assim consagrados como os direitos "à vida, liberdade e busca da felicidade", esta alcançada, especialmente, pela propriedade. É John Locke que confere a índole individualista ao capitalismo, celebrando o primado do indivíduo sobre o Estado, o grande inimigo, quando este tenta se sobrepor ao indivíduo.
O indivíduo é anterior ao Estado e é o seu criador. Sua função é a de atender aos interesses dos indivíduos.

A posse incluía a vida, a liberdade e as possessões ou ainda, a posse de si, da vida e das atividades. Em seu pensamento permaneceu muito mais preocupado em garantir a posse da propriedade do que com a produção da riqueza. Creio que a elucidação destes conceitos também ajuda a entender a concepção do liberalismo como a formação de uma sociedade aberta, em contraposição  à sociedade fechada e estática do mundo medieval. Não existem mais direitos naturais inatos, ninguém mais nasce nobre ou servo (o homem nasce tabula rasa). Todos nascem iguais, na chamada igualdade civil, e o trabalho será o grande fator da mobilidade, da construção individual do êxito, ou do fracasso. Enuncia claramente o trabalho como a fonte do direito de propriedade e da riqueza. Ah! Quantas questões você consegue antever...?

Agora intervenção minha. Não estaria aí a origem da teoria da meritocracia e a fonte de todas as palestras sobre motivação, as potencialidade do indivíduo, da dinâmica do livre empreender. Não estaria aí a fonte da teoria educacional do chamado capital humano, que afirma ser o teu corpo uma máquina na qual você deverá investir para produzir com intensidade? Seria isso a qualificação ou a reciclagem dos recursos humanos, relegando o termo formação? Não seria aí que a senhora Tatcher se inspirou para dizer que a sociedade é uma mera soma de indivíduos? Não estaria aí a fonte da sacralização do privado e da demonização do público? Termino aí, deixando aberto o debate para outras conclusões ou, preferencialmente, hipóteses.
O Segundo Tratado do Governo Civil, a grande obra de Locke.


É inegável que Locke foi o grande teórico do Estado e de sua instituição jurídica, com a defesa dos chamados direitos naturais, ou o jusnaturalismo. Se ele não é tão aclamado como outros fundadores, talvez isso deva ao princípio de rebelião. Quando o Estado extrapola as suas funções, quando vai além da defesa dos interesses dos indivíduos que o constituíram, estes tem, não só o direito, mas o dever de lutar contra ele e instituir outro que se atenha às suas finalidades. Isso está explícito na Declaração da Independência dos Estados Unidos.


Quincas Borba. Machado de Assis.

A grande tríade de livros da fase realista de Machado de Assis são Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, escritos nessa ordem mesmo, em 1881, 1891 e 1900. O Quincas Borba é o único que tem narrador em terceira pessoa. Quem leu Memórias Póstumas de Brás Cubas deve lembrar que ele fora amigo de infância de Brás Cubas, que o encontrou mendigo e fundador de uma pobre filosofia chamada humanitismo. Passados dez anos, ele está de volta.
A tríade dos romances realistas de Machado de Assis. Da LPM.

Quincas Borba, o homem, aparece apenas nos capítulos iniciais do livro, mas nele permanece até o final,como o fiel cachorro por quem tem um zelo todo especial e a quem condiciona o usufruto de sua rica herança. Então os personagens principais do livro serão outros. O herdeiro único e universal, Rubião será o protagonista, secundado pela família Palha, Cristiano e Sofia. Sofia, por sugestão de amigos, seria personagem de um livro especial mas ele considerou, não ser isso necessário, pois, ela estava ali, inteira em Brás Cubas. São personagens, ainda, o advogado e jornalista Dr. Camacho e o casal Teófilo e Fernanda, ele um conceituado político, além de outros, menores em importância, mas precisamente colocados.

Rubião é um modesto professor da cidade mineira de Barbacena, que do dia para a noite vira um grande milionário. Depois de confirmado como herdeiro da fortuna de Quincas Borba, muda-se para o Rio de Janeiro, para a corte. Já na viagem de trem se torna amigo de Cristiano Palha e de sua bela mulher, Sofia, que lhe são muito amáveis. Rubião passa a frequentar a casa dos Palha, em Santa Tereza. Com Cristiano ensaia negócios e com Sofia amores. Cristiano "decotava" a sua mulher. Rubião lhe declara seus encantos e amores. Será... Sofia é uma das mulheres machadianas... Nunca se sabe.
Machado de Assis. O mulato pobre, erudito e talentoso a observar e descrever o seu país.

Sofia conta as cenas do jardim para Cristiano. Este prefere não romper com o amigo. Estaria o dinheiro falando mais alto do que a moral e os bons costumes? Seria Sofia uma das causas que levará Rubião aos delírios e à loucura. Ah! a noite no jardim, as estrelas, o cruzeiro, o olhar conjunto. Cristiano prospera nos negócios que tomam todo o seu tempo. A amizade e as visitas continuam mas Rubião se contrai em seus afetos, alimentando suas dúvidas. E o Carlos Maria?

Outro amigo será o advogado e jornalista, o Dr. Camacho. Este é dono de um jornal. Rubião vira uma espécie de sócio e até dá palpites sobre algumas palavras em um artigo. Capacidade para escrever, não tem. Entre jantares, bailes e com os amigos, Rubião vai gastando a sua fortuna. A loucura dá o seu grande sinal, quando salta no cupê de Sofia, nele se instala, lhe faz juras de amor e a nomeia com títulos de nobreza. Depois desse incidente, a sua situação só piora, enquanto as situações dos outros personagens vão se resolvendo. Teófilo e Fernanda entram na história por conta de Sofia e as suas ações de benemerência e por conta de sua sobrinha Maria Benedita, que Cristiano pretendera antes, "arranjar" para o rico herdeiro. Negócios em família.
O que sobraria dos conflitos? Ao vencedor, as batatas!

A gravidade da situação de Rubião faz com que as damas, Sofia e Fernanda o internassem. O médico que o trata promete cura, mas acha a sua história muito louca. Rubião lhe contara sobre Sofia. As dissimulações... Será que... Sofia e Fernanda também conseguem internar, junto com o dono, o seu cachorro. A história chega ao seu final, com a fuga de Rubião e de Quincas Borba, o cachorro. Seria interessante voltar para Memórias Póstumas de Brás Cubas, para a cena em que ele explica a sua filosofia ladeado de cães a disputar um osso. Rubião, nas cenas finais, é encontrado em Barbacena, onde é atendido pelo mesmo médico que atendera a Quincas Borba, o humanitista, em sua agonia final. Quincas Borba, o cachorro morre três dias após o seu dono.

O narrador encerra a sua história com um final bastante provocativo. Transcrevo todo o capítulo CCI (eu traduzo - 201 - Ah! bendita herança árabe). "Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro - questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens".
Capa da primeira edição. 1891.

Mais algumas observações. A primeira é com relação a data de publicação. Foi em 1891. Portanto já estávamos vivendo a República e, a escravidão já fora abolida. Os fatos narrados ainda são da monarquia e da escravidão. A segunda é um comentário, escrito numa espécie de posfácio do livro, por Carla Vianna, uma doutoranda em literatura da UFRGS., que fala da vida agitada deste período histórico, final do século XIX, do qual Machado foi atento observador. Diz assim:

"Daí surgem interpretações como a de John Gledson, para quem a loucura de Rubião era 'uma expressão do sentido histórico do Brasil'. Rubião não era uma personagem a simbolizar uma classe apenas, mas sim uma nação inteira orientada por ideias 'fora do lugar', como diz a famosa tese de Roberto Schwarz, num país movido economicamente pela produção agrícola e até 1888 pelo regime escravista, ostentando ao mesmo tempo o discurso liberal, numa composição de difícil convivência". Meus Deus! Como este livro é atual!

Mais duas passagens: "Mas estamos tratando de Machado de Assis, e nada nele é preto no branco: a conversa aqui é sobre um escritor de nuances, tendo em vista que, em suas páginas, o amor é também ciúme, traição, vontade sublimada; a bondade é febre de nomeada, carência afetiva, cinismo, interesse financeiro. O que faz rir na literatura de Machado também inspira a reflexão". Tudo isso em meio a um cenário como o descrito no parágrafo acima. E o que sobrou para o vencedor ou aos vencedores: "- Ao vencedor, as batatas!" -.
Roberto Santos levou Quincas Borba ao cinema.


Sobre o narrador em terceira pessoa é necessário lembrar que o estado mental de Rubião não lhe permitia ser ele o narrador. Ele "demonstra-se incapaz de racionalizar os acontecimentos, tendo que outro assumir a tarefa: um narrador em terceira pessoa, que se identifica como o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou seja, uma voz que não faz parte da história narrada, mas de outra, da história de um mulato pobre que através de sua erudição e de seu talento, registra no branco do papel a tinta negra de um país que estava aprendendo a contar suas histórias".   

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Gomorra. Uma história real. Roberto Saviano.

Qual é a imagem que você faz da economia, da economia como um sistema completo e complexo? Roberto Saviano procura expor o DNA dessa economia, em seu livro Gomorra, que é apresentado como "a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana". A imagem que Saviano faz está assim descrita: "Foi assim  que imaginei o DNA da economia, suas operações comerciais, as subtrações e as somas dos comerciantes, os dividendos dos lucros: como essa enorme montanha. Uma cadeia montanhosa imensa que - como se tivesse explodido - se dispersou, sua maior parte no sul da Itália, nas primeiras quatro regiões com o mais alto número de crimes ambientais: Campânia, Sicília, Calábria e Puglia. As mesmas de quando se fala dos territórios com os maiores criminosos, com a maior taxa de desemprego e com a maior participação de candidatos nos concursos para voluntários do exército e das forças policiais"
Gomorra, a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana. A publicação italiana é de 2006.

O livro como consta na capa, numa espécie de subtítulo, trata da máfia de Nápoles e que está presente em todos os setores da economia e espalhada pelo mundo todo. O relato é de alguém que, como consta neste subtítulo, está infiltrado nessa máfia. A descrição parte de uma observação participante. Mário Vargas Llosa assim se referiu ao livro: "Gomorra é uma extraordinária reportagem sobre as máfias que agem em Nápoles e em toda a Campânia, a qual se lê com tanta fascinação quanto espanto e incredulidade".

Entrei em contato com o livro por causa da FLIP, a feira literária de Paraty. Saviano era o principal convidado para a edição deste ano de 2015. Não participou por motivos de segurança. Ele é jurado de morte e conforme o New York Times, Saviano é "uma espécie de Salman Rushdie italiano na luta infindável contra o crime organizado". O grande valor do livro, além de uma narrativa aprimorada é o seu caráter de denúncia.
Roberto Saviano, o jornalista napolitano, escrevendo sobre a máfia que atua em sua cidade.

O livro tem 349 páginas, divididas em duas partes, a primeira com cinco capítulos e a segunda, com seis. Os títulos da primeira parte são, o porto, que obviamente é o porto de Nápoles, Angelina Jolie, uma referência a um vestido usado pela famosa, numa apresentação do Oscar, confeccionado pela máfia, O sistema, uma descrição do funcionamento das máfias, Secondigliano, um dos mais famosos chefes mafiosos, possivelmente o S., a quem ele dedica o livro, acrescentando ao S. - "maldito seja" e Mulheres, sobre a sua participação nos esquemas.
O cinema inspira muitos comportamentos da máfia da Camorra.


Os capítulos da segunda parte são, Kalihsnikov, uma descrição da mais mortal das armas, o AK- 47 e o fascínio que ela desperta, Cimento armado, uma descrição de toda a região. Dom Peppino Diana, um religioso assassinado por causa de seus ensinamentos verdadeiramente cristãos e, assim, anti mafiosos, Hollywood, sobre as mansões dos chefes camorristas e as influências do cinema sobre os seus costumes, Aberdeen, Mondragone onde é relatada a extensão dos negócios da máfia na cidade escocesa e Terra dos Fogos, um impressionante capítulo sobre o destino do lixo, do qual a região é uma das depositárias.
Nem todos em Nápoles pertencem a Camorra. Eu e meu amigo Sérgio Marson, comendo uma pizza.

Rodrigo Fonseca, de O Globo foi extremamente generoso na apresentação do livro, na contracapa do mesmo. "Com uma prosa que lembra Euclides da Cunha em um detalhismo que abrange até o odor das ruas por onde a Camorra espalha seus negócios, Roberto Saviano se firma como um dos maiores nomes do romance investigativo contemporâneo". Eu imagino os italianos lendo o livro, com a riqueza de detalhes que o livro apresenta. Para nós, que não temos as mesmas informações cotidianas, estes mesmos, se tornam um tanto cansativos.

Há tempos estou impressionado com uma observação que consta do livro A grande transformação, de Carl Polanyi. Ele mostra que não vivemos mais apenas uma economia de mercado, mas uma sociedade de mercado, isto é, todos os valores que regem a sociedade são pautados pelos valores e princípios do mercado. Observem Saviano descrevendo o seu amigo chinês, Xian, e me digam se isso não é verdade: "Euro, dólar e iuane. Eis a minha tríade. Xian parecia sincero. Nenhuma outra ideologia, nenhuma espécie de símbolo e paixão pela hierarquia. Lucro, negócios, capital. Nada mais". Dinheiro, competição...
Mais uma bela vista de Nápoles, a terra de uma das máfias mais violentas.


E... uma observação final. Para quem pensa que a operação "Mãos Limpas", livrou a Itália dos crimes praticados pela máfia, tem no livro uma forte narrativa de sua continuidade. Assim podemos estabelecer um paralelo com a operação brasileira "Lava Jato", que muitos imaginam que possa erradicar a corrupção no Brasil. A corrupção é endêmica ao sistema que tem no dinheiro o seu valor supremo. E o sistema está contaminado por uma metástase que, no entanto, nunca entra em fase terminal. Uma espécie de fígado que se renova permanentemente.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Quinze. O ano da grande seca. Rachel de Queiroz.

Quando li Vidas Secas (1938) de Graciliano Ramos e Seara Vermelha (1946) de Jorge Amado, procurei ler também O Quinze, de Rachel de Queiroz. Não o encontrando na época, passei para outras leituras. Estes dias, distraidamente, passando por uma livraria, encontro em exposição uma bela edição do livro. Me chamou a atenção uma anotação na contracapa. Edição comemorativa. Deduzi que é comemorativa, em virtude dos cem anos da grande seca de 1915, que é o tema deste romance, o primeiro da grande escritora. Os três livros formam a grande tríade de livros sobre as terríveis secas do nordeste. Rachel foi pioneira. A primeira edição do livro é de 1930.
A edição de número 100 de O Quinze, que numa tradução francesa recebeu o título de O ano da grande seca.


A escritora nasceu em Fortaleza no ano de 1910 e já em 1930 publica o seu romance, um clássico da literatura brasileira. Nunca mais parou de escrever. Logo depois da publicação do livro veio morar no Rio de Janeiro, exercendo conjuntamente, as profissões de escritora e jornalista. Sempre manteve um pé no nordeste, no seu Ceará, na cidade de Quixadá, onde ficavam as propriedades da família. Foi a primeira escritora brasileira a entrar na Academia Brasileira de Letras, isto em 1977. Faleceu no Rio de janeiro em 2003, aos 92 anos de idade.
Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Outro grande livro que aborda a seca.


O livro vem com apresentação de sua companheira de Academia, Nélida Piñon. Como uma espécie de posfácio é mostrada uma síntese da obra e uma pequena biografia da autora. Na contracapa temos outra pequena síntese da obra, escrita por Antônio Torres. Nela se lê: "Numa prosa simples, viva e comovente, Rachel de Queiroz tece o seu relato em duas linhas de força: a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar seu gado; e a dramática marcha à pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas".
Seara Vermelha, de Jorge Amado completa a grande tríade sobre a seca.


Já Nélida Piñon, em sua apresentação assim mostra o romance: "O tecido romanesco gravita em torno da trágica seca de 1915. Seu emaranhado de episódios e de condutas pungentes, protagonizados por Conceição, Vicente, o vaqueiro Chico Bento, cada qual vivendo sua sorte, impulsiona uma ação que compromete a comunidade rural. Vicente e Conceição padecem de inconclusa história de amor, e o vaqueiro transita em meio à miséria e à dor". A dor de Chico Bento´é dor mais física, enquanto que a de Vicente e Conceição é mais simbólica, se é que é possível separar a dor dessa forma. Dor é dor em todas as suas formas.

Em recente viagem à cidade de Diamantina, percebi que o ciclo das chuvas, mais lá para cima, é bem definido. O maior evento cultural da cidade, que lotas hotéis e pousadas da cidade, é a Vesperata. Ela ocorre duas vezes por mês, entre os meses de abril e outubro. Já entre os meses de novembro até março esta festa está suspensa em virtude das chuvas. As chuvas, portanto, iniciam em novembro e terminam em março. Em O Quinze, o povo estava à espera da chuva e fazia as renovadas preces para São José. São José é festejado em 19 de março, como me diz a minha formação de seminário. Se até março as chuvas ainda não ocorreram, elas deverão vir apenas na temporada seguinte em novembro, como de fato ocorre no romance, quando Vicente observa, mesmo após um finados de morte, os primeiros pingos da chuva, já desacostumado dela.
A casa de Rachel em Quixadá, no Ceará. O sertão foi o grande cenário de O Quinze.


O desespero é total. O que pode ser vendido é vendido e o povo passa a ser retirante, a maioria morrendo pelo caminho. Poucos teimosos, como Vicente, insistem em ficar, num jogo de sorte com poucos sobreviventes, entre gado e gente. Conceição mora na cidade, onde acode tia Inácia. Conceição é a grande alma generosa da história. Com Conceição se inicia a saga das mulheres na literatura de Rachel. Conceição lia romances franceses, cujos temas assim explicava para Inácia: "Trata da questão feminina, da situação da mulher, dos direitos maternais, do problema..." Em resposta, tia Inácia mandava Conceição se casar. Reclusos, embora se gostassem, Conceição e Vicente sempre trilharam caminhos solitários, sempre mais áridos.

O vaqueiro Chico Bento é o retirante. Homem bom, que não encontrando mais trabalho, decide a busca de melhor sorte na Amazônia. É de uma generosidade ímpar, dividindo a comida do amanhã com quem não a tinha hoje. Pelo caminho encontrou mais desamparo que amparo, perdendo os filhos para a morte ou para o mundo até chegar no acampamento dos retirantes e acudido por Conceição, que lhe arruma trabalho e passagens para São Paulo, ficando com o pequeno Manuel, seu afilhado.
Rachel de Queiroz, a grande escritora brasileira.


Três anos depois do terrível 1915 o povo já está novamente em festa de quermesse no natal. O homem e o meio já tinham se reencontrado novamente, encontrando jeito de conviver, o que não ocorreu com Vicente e Conceição que não se encontraram nem nas amenidades do amor. Seriam mesmo amenidades? Sobrevivência e vida longa teve mesmo o romance. A edição que tenho em mãos é de número 100. Talvez o Edição comemorativa possa se referir a este fato. A edição é da Editora José Olympio.
Edição de nº 100. Edição comemorativa.


Selecionei um trecho que achei significativo para o universo de uma pessoa com 19 para 20 anos. É a descrição de um procissão em homenagem a São Francisco, pedindo chuva. As chuvas que começam em novembro, naquele ano de 1915 não tinham vindo. A última data era o dia de São José (19 de março) e se não viessem até essa data só viriam no novembro seguinte. São Francisco é celebrado em 4 de outubro. Enquanto a cantoria aclamava o santo "Cheio de amor, cheio de amor! as chagas trazes do Redentor, Rachel escrevia: "E no andor, hirto, com as mãos laivadas de roxo, os pés chagados aparecendo sob o burel, São Francisco passeou pela cidade, com os olhos de louça fitos no céu, sem parecer cuidar da infinita miséria que o cercava e implorava sua graça, sem nem ao menos ensaiar um gesto de bênção, porque suas mãos, onde os pregos de Nosso Senhor deixaram a marca, ocupavam-se em segurar um crucifixo preto e um grande ramo de rosas". Eu, com a mesma idade dela, me alimentava apenas de certezas. Não havia espaço para a dúvida. Questões de formação.