sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Rio Azul. Natureza, cultura e economia. Um artista único.

Uma das regiões do Paraná que eu menos conheço é a região do centro para o sul, ou a sua região sudeste. Tive a oportunidade de conhecer um pouco desta região agora, quando recebi um convite do núcleo de Irati, da APP-Sindicato, para participar das suas atividades de planejamento para o ano de 2014. Estas atividades se realizaram na pousada Vila Vitória, na cidade de Rio Azul. As atividades se realizaram, primeiramente com os dirigentes do núcleo, envolvendo em torno de 20 pessoas e numa segunda etapa, com os dirigentes sindicais municipais, das diversas cidades da região, envolvendo em torno de 40 pessoas. A minha participação foi no sentido de trabalharmos a conjuntura da realidade brasileira, sob a ótica da classe trabalhadora, obviamente. Comentarei estas atividades, num post específico.
Registro de uma das atividades junto às professoras e professores, em Rio Azul.

Meus hospedeiros foram as professoras Tatiana, moradora de Inácio Martins e presidente do núcleo sindical de Irati, e Manoela Carneiro, da cidade de Rio Azul. Fui muito bem tratado. Me acomodaram no melhor chalé da pousada (mordomia) e me proporcionaram um tour pelas atrações da cidade, em companhia da linda jovem Janaína, estudante de turismo no campus da UNICENTRO, de Irati. Tive os meus privilégios.

Em ninhas viagens sempre levo a curiosidade como companheira e, por isso mesmo, ao manifestar o desejo de conhecer um pouco da realidade regional e da cidade, ganhei até cicerone. Janaína me mostrou a capela do Senhor Bom Jesus, única, uma cachoeira junto a uma gruta, o Parque da Pedreira, com uma bela cachoeira, a maior atração natural da cidade, e uma visita a Framora, uma pequena agro-indústria de frutas vermelhas.

Rio Azul é um município de 14.093 habitantes, com renda per capita de R$ 12.000,55 e IDH de 0.738. A agro-pecuária se constitui na sua principal atividade econômica, com destaque todo especial para as lavouras de fumo. Milho e soja o acompanham. O fumo é uma lavoura que me reporta à minha infância. Meu pai fazia as contas, das dívidas a pagar no ano, e elas determinavam o tamanho da roça de fumo que plantaríamos. Era renda certa. Nós produzíamos fumo de corda. Lembro que era um trabalho que eu não gostava. Ele é meloso e grudento em todas as fases de seu trabalho. A economia é complementada com as atividades madeireiras e a agro-indústria.
A maior atração de Rio Azul. A pintura da capela do Senhor Bom Jesus, do artista nativo, Antônio Petrek.

Seguramente o cidadão mais ilustre de Rio Azul, ou que, ao menos deveria sê-lo, é o senhor Antônio Petrek, uma figura ímpar e única. Artista inigualável e, na qualidade de artista, uma pessoa engenhosa, de difícil trato. A solidão era a sua grande oficina de trabalho. Não gostava da presença de pessoas ao seu redor, nem para lhe levarem comida. Esta era deixada em lugares determinados, donde ele a recolhia. Dormia de dia para trabalhar de noite, quando ninguém o perturbaria. Na sua juventude conviveu com um pintor russo, que lhe deve ter ensinado as lições básicas de pintura. Deve ter superado o seu mestre. Transportou a pintura das pêssankas ucranianas para as paredes das igrejas. A fórmula de suas tintas era original, segredo que levou consigo. Misturava uma espécie de cal natural, com tintas, com leite fervido, com couro de boi. Cores únicas. Pintava centímetro por centímetro, excluindo apenas o piso. Assim que alguém se aproximava, imediatamente parava o trabalho.

Petrek nasceu em Rio Azul e viveu na região uma vida absolutamente solitária, até completar 81 anos, em 2011, ano de sua morte, no asilo de velhinhos de sua cidade natal. Pintou várias igrejas na região. Em Rio Azul, sua grande obra é a capela do Senhor Bom Jesus, à qual  dedicou cinco anos de trabalho. Os quadros destacam o final da vida de Cristo e uma via sacra. Todas as paredes foram revestidas de pintura.Viveu da pintura, sem nunca ter cobrado um centavo sequer. Duas eram as suas exigências. Alimento e solidão. A RPC (Rede Globo de Curitiba) lhe dedicou um programa Meu Paraná. Vale a pena conferir. Regina Pegoraro, proprietária da pousada Vila Vitória também produziu um vídeo com o nome de  O Dom de Deus.

A visita à agro-indústria Framora também foi muito interessante.Fomos recebidos pelos proprietários, o senhor Guilherme e a sua esposa, Da. Maria. Amabilidades em pessoa. Em menos de cinco minutos já fomos agraciados com um saboroso suco de amora. O senhor Guilherme contou toda a história da sua vida, venturas e desventuras. De uma grande frustração de safra foi para a cultura das frutas vermelhas, amora moranguinho e framboesa. A frustração da safra foi de batata, de uma semente, que em vez de germinar, simplesmente apodreceu. E lá se foram os tratores e outros pertences. Os filhos tiveram que vir para Curitiba. A ideia foi fazer algo diferente. A sua agro-indústria vai bem. Os filhos já estão de volta. Moram na propriedade que é um mimo, bem cuidada. Trabalham com frigorificação e assim nada se perde.
Produtos da terra, da agro-indústria de frutas vermelhas Framora, framboesa, amora e moranguinho.

Polpas, geleias, licores e frutas conservadas in natura são os produtos comercializados. As frutas in natura são o carro chefe e são consumidas como ornamento de bolos e pratos. É um mercado que não conhece crise. A felicidade do casal está desenhada em seus semblantes. As plantas são cultivadas do lado da casa. Observar o seu ciclo de produção, do plantio ao desenvolvimento da brotação, da floração, da maturação e da colheita lhes dá uma satisfação enorme. E o dinheirinho da comercialização não faz mal a ninguém. De um lugar desses dá dó de ir embora. Trouxe geleia e licor, o licor vai para a minha coleção de licores e cachaças.

Foto da Pousada Vila Vitória.

Por último, quero falar da Pousada Vila Vitória. Da pousada em si, não. Ela é simples e aconchegante em um ambiente muito agradável. É formada por chalés. Se não quero falar da pousada, quero falar do senhor Marco e da dona Regina, o casal proprietário. Marco tem descendência espanhola e, se não é um anarquista, herdou muito de seu espírito. Seria a teoria política perfeita, se fosse exequível. O seu espírito libertário é contagiante. Dona Regina exerce forte liderança comunitária, está onipresente. Desde as atividades comerciais, de benemerência, até as culturais. Percebeu a importância de Antônio Petrek, como ícone histórico e cultural e produziu um vídeo documentário sobre a sua vida e obra, O dom de Deus. A pousada é um ótimo local para você fazer um tour pela região.

Em suma, passei três dias maravilhosos em Rio Azul. Modestamente, creio que dei uma pequena contribuição para a formação continuada dos professores, no espírito da frase de abertura do meu blog e ampliei horizontes, conhecendo pessoas e estabelecendo relações humanas, simplesmente enriquecedoras. Vidas simples, no complexo das relações humanas. Trabalho gratificante que me dá a certeza do valor do meu atual trabalho, que é o da administração de tempo livre. A todos registro os meus agradecimentos.


Tolstói - A Biografia. Rosamund Bartlett.

No ano de 1968, nas disciplinas pedagógicas da minha licenciatura em filosofia, eu tive que fazer um trabalho sobre as ideias pedagógicas de Liev Nikoláievitch Tolstói (1828- 1910). Lembro que me deu bastante trabalho. Encontrei o material necessário na Biblioteca Pública de Porto Alegre. Encontrei literatura para a realização do trabalho apenas em francês, mas isto não era problema. Relembrando isso, me parece que desaprendi muita coisa ao longo da minha vida. Guardo este trabalho, em meus arquivos, até hoje. Num outro momento, querendo saber dos grandes romances que envolvem as mulheres, li Anna Karênina possivelmente o seu melhor romance.
Tolstói, a Biografia - Rosamund Bartlett (8525054852)
Capa do livro de Rosamund Bartlett, Tolstói. A biografia.

Agora, recebendo e-mail da Travessa, vejo o livro Tolstói - A Biografia, de Rosamund Bartlett em oferta, com 50% de desconto e frete grátis. Como adoro biografias, não tive dúvidas. Comprei e ainda o tirei da fila de espera de minhas leituras, passando-o para o primeiro lugar. Li as suas mais de 600 páginas de um fôlego só. Como sempre, aprendi muito. Contextualizei toda a história russa da segunda metade do século XIX e a primeira década do XX e ainda fiz uma maravilhosa e inédita incursão no mundo da igreja ortodoxa e as suas relações com o poder russo, nos tempos dos tzares. É difícil imaginar uma personalidade mais complexa do que a de Tolstói. Quero contar alguma coisa do que eu li, mas me encontro em dificuldades. Vou começar com uma exortação sua, que talvez represente uma síntese de seu pensamento, mais ou menos definitivo.

Uma das imagens características de Tolstói. Seria o monge de Iasnaia Poliana?

"Vocês sabem que aquilo que vocês pregam sobre a criação do mundo, sobre a inspiração divina da Bíblia e sobre tantas outras coisas não é verdade. Como é que então têm a coragem de pregar esses ensinamentos às criancinhas e aos adultos ignorantes que procuram vocês em busca de esclarecimento? [...] Sejam vocês quem forem - papas, cardeais, bispos, arcebispos, superintendentes, sacerdotes ou pastores - pensem nisso. Se vocês pertencem ao clero (que em nossos dias é infelizmente numeroso, e cujas fileiras não cessam de engrossar), que sabem claramente o quanto os ensinamentos da Igreja são obsoletos, irracionais e imorais, mas que, mesmo sem de fato acreditar neles, continuam a pregá-los por motivos pessoais (seu salário de sacerdotes e bispos), não se consolem com a suposição de que suas atividades se justificam por qualquer tipo de utilidade para as massas, que ainda não compreendem o que vocês compreendem" (488).

Por outro lado, vou mostrar o pensamento de uma seguidora sua, que em seu diário, assim descreve o que significa ser uma seguidora do pensamento de Tolstói, 50 anos após a sua morte e com toda a oficialização de seu pensamento pelo regime do chamado socialismo real soviético. É uma professora que assim escreve:

"Hoje se completam cinquenta anos da morte de L. N. Tolstói, meu querido pai e professor para a vida. Ele ajudou-me a purificar os ensinamentos de Jesus Cristo das superstições que lhes foram sendo acrescentadas ao longo dos séculos. Ele ajudou-me a encontrar amigos queridos, uma família espiritual que, se não tem laços de sangue, é melhor, mais forte e mais genuína. Graças a Tolstói, eu me mudei da cidade para o campo, para viver em meio aos que lavram a terra, e ao mesmo tempo comecei a praticar o trabalho braçal na horta e no jardim, o que aprendi a amar. Tolstói ajudou-me a encontrar a verdadeira bondade na vida. Ele mostrou-me as falhas e defeitos que dividem as pessoas, e por vezes chegam até mesmo a destruir a vida humana. O grande e ainda subestimado Tolstói!" (551)

O livro Ana Karênina, de Leão Tolstói. Da coleção Os Imortais da Literatura Universal, nº 20. 749 páginas de letrinhas. Da Abril Cultural. Publicação de 1971.

Entender Tolstói não é uma tarefa fácil. A pergunta a se fazer seria certamente esta, qual Tolstói? O Tolstói de que fase? Conta-se que cada fase de sua vida durava sete anos. A cada sete anos ele se reformulava e refazia todo o seu modo de pensar. Em sua vida, encontramos também, profundos poços de contradições. Por nascimento pertenceu a alta nobreza russa, proprietária de terras. Conviveu com o latifúndio sem sentir, no início de sua vida, a grave situação social de seu país. Quase dispersou toda a fortuna que herdara no vício do jogo. Sem explicações e, assim de repente, parou de jogar. Casou-se e impôs duras regras a Sônia, sua esposa. Creio que foram felizes e infelizes. ter filhos era tanto uma obsessão sua, quanto uma imposição. Era absolutamente contra a contracepção. Era filho todo ano.

Não vou falar do romancista. Seus romances Guerra e Paz e Anna Karênina, são inquestionáveis e figuram em todas as listas como entre os melhores do mundo. Intercalava a sua vida de escritor com as diferentes obsessões em sua vida. Assim largou a literatura para se dedicar à educação. Estudou os sistemas educacionais e métodos pedagógicos em voga e passou a criar o próprio método, que aplicou em suas escolas. As ideias libertárias foram amadurecendo e são a grande marca de seu pensamento educacional. O seu ideal libertador vai amadurecendo contra as outras formas de dominação que oprimiam o povo russo. Foi tomando para si a dor dos camponeses. Lutou para libertar o povo da dominação religiosa. A igreja ortodoxa russa, aliada fiel do tzarismo tornou-se o próximo alvo de suas lutas. Podemos dizer que já era um anarquista, um livre pensador ou um pensador libertário. Evidentemente que entrou em conflito com todo mundo. Com a esposa, com os filhos e com o regime. Na mesma medida ganha discípulos. É um precursor das doutrinas pacifistas e da não violência do século XX.

Guerra e Paz, edição da LPM - Pocket, em três volumes.

Terminou fugindo de casa, numa aventura de final trágico. Morreu aos 82 anos de idade, em 1910, com o regime tzarista já em plena decadência. Para isso ele muito contribuíra. Rosamund Bartlett compara Tolstói com Roussou, de quem herdou muitas influências. Melhor, Bartlett estabelece a relação de que assim como Rousseau esteve para a Revolução Francesa, Tolstói esteve para as Revoluções Russas de 1917. Os Bolcheviques tentaram se apropriar de sua doutrina. Lênin foi o mais compreensivo, embora visse em seu pensamento todo o idealismo, bem como, condenava o seu pacifismo. O socialismo real conviveu com o Tolstói dos romances, mas expurgaram todo o seu pensamento educacional e especialmente o religioso e, por falar em religião, uma última notinha interessante, Tolstói foi excomungado pela igreja ortodoxa em 1901.

Biografia das mais ricas sobre um personagem tão complexo. Vale muito a sua leitura para conhecer o grande escritor, o grande formador de opinião e de uma grande legião de seguidores pelo mundo inteiro. Se tivesse que defini-lo, em seu pensamento, ao final de sua vida, com uma única palavra, prontamente eu responderia: foi um anarquista.




segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa.

"Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:
'O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!'
Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale respondeu:
'Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...'
E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O rio de São Francisco - que de tão grande se comparece - parece um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia".

Eis o romance, eis a história e acima de tudo, eis um jeito de contar. 608 páginas, da Nova Fronteira.

Assim termina a história contada por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Se você percebeu a existência de mistério neste final do livro e, se você se propuser a lê-lo, prepare-se. Este mistério perpassa a obra inteira. É uma história de jagunços e uma história de amor. Não é uma grande história, grande, muito grande, é o modo de contar, único. Não há nada igual, nada que se compare. Riobaldo conta a história diretamente para você. Além do dito, tem que prestar atenção no não dito, naquilo que vai além. Naquilo que transcende.

Vamos primeiro ao título do livro Grande Sertão: Veredas. Vamos ao Aurélio ver primeiro o significado de sertão:1."Região agreste, distante das povoações ou de terras cultivadas, 2. Terreno coberto de mato, longe do litoral, 3.Interior pouco povoado". O significado se repete. O longe, o despovoado é o sertão das Minas Gerais. Agora vamos ver veredas: 1."Caminho estreito, senda, 2. Atalho, 3. Rumo, caminho, direção". Agora vamos juntar Grande Sertão: Veredas. O sertão é viver. No sertão existem muitos caminhos. No sertão existem muitos labirintos. O sertão é a vida e a vida é travessia. Travessia é viver e...viver é muito perigoso. Deus e o diabo. O bem e o mal. O amor e o ódio. A ternura e a vingança.

Quem conta a história é Riobaldo, Rio... de travessia. Ele se embrenha no sertão, nos introduz nos principais temas, e se encontra com o grupo de Joca Ramiro, ao qual ele passa a integrar. Antes encontrara Zé Bebelo, mas é contra ele que passam a lutar. O julgamento de Zé Bebelo é um dos primeiros momentos em que a narrativa ganha um sabor maior. As leis do sertão. Ele vai embora para Goiás, para só voltar após a morte de Joca Ramiro. Neste meio se dá o encontro ente Riobaldo e Diadorim e um grande amor acontece. Um amor impossível de se manifestar, mas incomparável em sentimento e em grandeza. Joca Ramiro é jagunço vencedor.

Foto do grande escritor. Maneira única de escrever. O seu tema é o sertão, a travessia.

A história avança com a traição dentro do grupo. Joca é morto pelo personagem do mal, Hermógenes. Para vingar-se dele, faria pacto com o diabo, mas o diabo não seria o próprio Hermógenes? Toda a narrativa vai agora no encalço de Hermógenes e seu bando. Zé Bebelo, após a morte de Ramiro, também está de volta. Ele será o chefe. Riobaldo desconfia e assume ele a chefia. Riobaldo é tatarana. Riobaldo é urutu branco. Riobaldo não conhece medo. Mas, viver é muito perigoso. Com Riobaldo no comando só resta o grande confronto final. Entre as histórias de Riobaldo está o seu casamento com Otacília, a Penélope distante, para a ciumeira de Diadorin. Ficam um longo tempo no sertão, pois sertão é o mundo, um retrato do mundo, uma tensão com o mundo.

O embate final demora a vir, será no Tamanduá-tão. Sempre fugindo do perigo... para o perigoso e, Riobaldo, vendo o seu sorriso na boca de Diadorin. O tiroteio será feroz e no saldo final se contabiliza a morte de Hermógenes, mas também a de Diadorin. Este com valentia mata o Hermógenes, se vinga de seu pai. Joca Ramiro era o pai de Diadorin. Riobaldo está ferido e entra em delírio. Ao final de seu delírio, com a sua recuperação todas as verdades se revelam.

Riobaldo casa-se com Otacília. Em casa de Ornelas, fazendeiro amigo, recebe a visita de seu Habão, já visto tantas vezes na história. Seu Habão lhe traz o testamento, deixado por seu padrinho, recentemente falecido, Selorico Mendes, que orgulhoso dos atos heroicos do sobrinho lhe deixava as suas duas melhores fazendas. Da matriz de Itacambira, do batistério se trouxe um papel, onde se lia, registrado assim, nos idos de 1800 e tantos...Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins - "que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...Reze o senhor por essa muinha alma. O senhor acha que a vida é tristonha?" Era Reinaldo, era Diadorin.

Além do sertão e de jagunços, uma grande história de amor, amor impossível. Riobaldo e Diadorin.

Depois as coisas vão se acertando. O amor por Otacília também brota imenso e no sertão vai vivendo com os seus perguntares e com os seus perigos. Zé Bebelo também aparece, mas esse quer é viver na cidade, e ganhar muito dinheiro. Riobaldo prefere o sertão, que o sertão é do tamanho do mundo. O Ser Tão. Depois seguem as conclusões pelas quais eu comecei e, também, termino "Amigos somos. Nonada.O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia". Humano, travessia...

Ao ler o livro tive muitas curiosidades. Para ajudar a situar. Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo MG e morre no Rio de Janeiro, morte súbita, em 1967. Morre três dias após assumir a sua cadeira na Academia Brasileira de Letras. Em seu discurso de posse declarara que "a gente morre para provar que viveu". A sua indicação para o Nobel de literatura foi suspensa com o seu falecimento. Guimarães Rosa foi médico de formação, além de naturalista e botânico, o que o ajudou a escrever de forma tão peculiar sobre o sertão. Em sua infância, o pai lhe escrevia cartas, contando causos do sertão. Em sua homenagem foi criado o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Formoso, Chapada Gaúcha, na divisa de Minas Gerais com a Bahia.. Deu vontade de conhecer. Passeios pelo São Francisco em Pirapora,  e a cachaça de Januária e, muito mais. Em Cordisburgo tem museu e leituras.

Para terminar, coisa de professor. Localizei aquela célebre frase que contrapõe o ensinar e o aprender. Ela está assim: "Pergunto coisas ao burití; e o que ele responde é: a coragem minha. Burití quer todo azul, e não se aparta de sua água - carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Isto está nas páginas 309-10, no livro da edição de 2006, da Nova Fronteira.

  


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Gravidade. O Filme de Alfonso Cuerón.


"Do ponto de vista  cultural, há mudanças nas formas de produção, circulação e consumo da cultura dentro de um remapeamento e uma contestação dos ideais modernistas da racionalidade, da totalidade, da verdade, do progresso, de uma razão universal sobre o lugar do indivíduo na história e na sociedade. Segundo a interpretação de Braudillard, citado por Giroux, os signos substituem a lógica da produção e do conflito de classe. Há uma proliferação de significados, gerando uma sociedade em que imperam as simulações, num mundo de imagens e fantasias eletrônicas. É uma sociedade saturada de mensagens da mídia que não tem correspondência com conteúdos modernos tais como valores humanos, dignidade, luta política, ação do sujeito, ideologia etc. Não há nada que se assemelhe a uma apreensão da essência do real, a uma leitura em profundidade do real. Nada que requeira uma epistemologia que assegure a validade da verdade. Ao contrário, a realidade está na superfície, no espetáculo, nos simulacros, providos por novas fontes de tecnologia e informação"(pág.145).
Cartaz de divulgação do filme Gravidade.

Já usei, várias vezes, este texto para ilustrar o que seria a pós-modernidade do seu ponto de vista cultural. O texto é de José Carlos Libâneo, e faz parte de um artigo que leva por título Pedagogia e modernidade: presente e futuro da escola. Faz parte do livro organizado por Paulo Ghiraldelli Jr., intitulado Infância, Escola e Modernidade. Neste texto a pós-modernidade também é explicada do ponto de vista filosófico, econômico e político.

Bem. Fui assistir o filme com o maior número de indicações para o OSCAR de 2014, Gravidade, que junto com Trapaça, tem dez indicações cada um. O filme tem como tema uma aventura espacial, sei lá. É ficção científica e, definitivamente, descobri que ficção científica não é a minha praia. O filme é uma sucessão de cenas em que a sobrevivência seria algo totalmente impossível. Deixo para o site do Adoro Cinema, dar a síntese do filme.

"Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que fez com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana". Eu diria mais, completamente desconhecido para o público.

Isto faz com as sequências do filme sejam de difícil compreensão. Você não sabe o que está acontecendo e nem consegue imaginar saídas lógicas. É uma sequência de situações limite, que sempre dão certo. Afinal Sandra Bullcok sempre sobrevive. Em condições normais ela teria morrido mil vezes. Mas este é o mundo da ficção científica, do mundo do imaginário. Tudo é possível. Agora vamos ao que o filme tem de maravilhoso. Imagens, as mais lindas possíveis. O universo é realmente espetacular e fantástico.

Outra característica importante do filme é que ele é um filme solo. Só aparece Sandra Bullock. Tirando as cenas iniciais, em que ela contracena com George Clooney, é só ela. E sempre em situações limite, sempre acossada pela perspectiva da morte iminente. São 90 minutos de filme, show de técnica e de imagens, mas que para mim, particularmente, demoraram mais do que as três horas de O Lobo de Wall Street. A cena dela voltando à terra...

Cena constante no filme. Sandra Bullock lidando com os equipamentos espaciais.

Sempre nas tentativas de auxiliar na interpretação procurei recursos me colocando na situação do diretor, do roteirista, procurando ver a sua intenção, ver as contextualizações, ver os objetivos e as possibilidades e só consegui explicações mesmo, no texto de abertura deste post. É um filme espetáculo, show de técnica, de imagem, de fotografia e de som, com uma dupla de atores mais do que consagrados. Sandra Bullock tem a indicação para a melhor atriz. Vamos ainda observar as demais indicações para o OSCAR. São dez ao todo. Um recorde junto com Trapaça.

Gravidade concorre como melhor filme (sem a minha torcida), melhor atriz (Sandra Bullock), melhor diretor (Alfonso Cuarón), melhor trilha sonora (Steven Price), melhor edição, melhores efeitos visuais, melhor fotografia, melhor desenho de produção, melhor edição de som e melhor mixagem de som. Como podem observar, a maior parte das indicações, são indicações de ordem técnica. A crítica, de maneira geral recebeu muito bem o filme, mas é um filme que vai passar rapidamente, ao menos pela sua história e pela sua mensagem. Observem que não tem indicação para roteiro. Ainda em tempo. O filme ganhou rasgados elogios de James Cameron e figura na lista dos 10 melhores filmes de 2013, elaborada por Quentin Tarantino.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street.

Foi só ver o primeiro filme da temporada dos indicados ao Oscar e já tenho o meu preferido, para a indicação de melhor filme. Trata-se de Wall Street, do diretor Martin Scorcese e tendo como ator no principal papel, Leonardo Di Caprio. São três horas de humor, de sátira e de ironia. Eu ia dizer, de humor e ironia inteligente, mas me contive, porque sem inteligência não faz nem humor, nem sátira.
O Lobo de Wall Street
Cartaz de O Lobo de Wall Street. Leonardo Di Caprio.

Wall Street é economia americana. É Bolsa de Valores. Já tinha visto o filme anterior sobre Wall Street, o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone e interpretado por Michael Douglas, que tem cena de suicídio e o uso extraordinário do quadro de Goya, de Cronos, numa imagem magnífica de Poder e tempo. Este Lobo de Wall Street é totalmente diferente. Não mostra a tensão da Bolsa de Valores. Mostra como as pessoas são enganadas ao comprarem ações. O desejo de ganhar dinheiro fácil, se tornar famoso e obter sucesso permeia todo o filme.

O filme é uma pesada crítica a toda a cultura americana, a todo o sistema capitalista e especialmente ao momento atual deste sistema, em seu estágio de capitalismo improdutivo, financeiro e parasitário e, poderíamos ainda dizer, virtual. Jordan Belfort, o protagonista do filme, num certo momento diz aos seus corretores que o único dinheiro real que circula na Bolsa é o dinheiro das comissões, que em alguns casos, chegam a 50%.  Outra lição importante de Jordan Belfort é a de que na Bolsa não existem amigos. Só assim você mantem a coragem de continuar fazendo o que você faz.

O Lobo de Wall Street (Foto: Divulgação)Cena do filme 'O Lobo de Wall Street' (Foto: Divulgação)


O O O O Oritmo das três horas do filme é avassalador. Inicia mostrando a Bolsa de Valores e as aulas sobre ela e o seu jogo, dadas pelo corretor professor, para Jordan Belfort. Quando este inicia os seus trabalhos como corretor, a Bolsa tem um momento de crise e o experto Jordan redireciona então os seus negócios para ações de pequenas empresas e de alto risco, vendidas para investidores incautos, porém crédulos, que são vítimas de corretores bem treinados. Acima de tudo são vítimas de sua desmedida ambição.

Cenas que me avivaram a memória são as que mostram o treino dos corretores na habilidade de vender. Me lembrei de muitas palestras em universidades, em que picaretas exímios se travestiam de motivadores e que, mediante boa remuneração, entregavam, de bandeja, todos os segredos do mundo do empreendedorismo, da liderança, do sucesso, da prosperidade e da felicidade, em um momento mágico. Alguns até eram apresentados como verdadeiros filósofos. Filósofos pregadores dos templos  e dos tempos neoliberais. Um vazio intelectual naquilo que deveria ser o templo do saber.

Jordan Belfort levava uma vida simples de vendedor. Era alimentado pelo desejo de enriquecer. Em vez de mercadorias passou a vender papéis. Nem sempre os compradores ganhavam. Escrúpulos e remorsos da consciência foram superados pelas alegrias dos ganhos fáceis. Sarcasticamente prega aos seus corretores que eles tem duas opções em suas vidas: Ou se tornam bons corretores ou então contentem-se com seus salários e empregos no Mc Donald's, com as suas compras efetuadas em lojas de departamentos e com os seus carros populares. São bofetadas violentas no sistema, que mal e mal permite esta segunda inserção na sociedade.
O que fazer com tanto dinheiro? Como transportá-lo?

O ritmo alucinante do filme e da vida de Jordan praticamente não permitem questionamentos de ordem moral. É negócio em cima de negócio e é trapaça em cima de trapaça. No mais é festa em cima de festa e festas com muita mulher e com todos os símbolos fluidos deste sistema, como iates, corrupção e contas bancárias na Suíça. As relações sólidas como o casamento, logo se desmancham. É um filme sem pudores, um filme do qual estão ausentes todos os princípios da moral. A felicidade, aparentemente é total. Alguns probleminhas acontecem, como casamento e filhos. O que existe em excesso são os remédios para aliviar. Cocaína e drogas sintéticas, usadas em todas as circunstâncias e quantidades ilimitadas, no limite do humano.

Para todos aqueles que imaginam que a corrupção é algo limitado ao mundo da política e dos políticos, encontram neste filme uma aula maravilhosa de como este sistema, o do capitalismo em seu estágio financeiro e parasitário, funciona. É ele todo um sistema amoral, totalmente destituído de princípios e valores ou então, e melhor, tudo passa a ser subordinado ao valor do dinheiro, inclusive os valores da política e da justiça e acima de tudo, da ética. 

Nunca tive aula de cinema e por isso pouco entendo da parte técnica. Mas a crítica recebeu muito bem este filme. Uma aula de cinema, vi em um comentário. Particularmente me impressionou a velocidade e a vitalidade do filme. Você não percebe o tempo passar. Tive curiosidade de ver a idade de Scorcese. 71 anos. É a experiência e a vitalidade de um velho mestre, que continua jovem, para ainda, muitas e maravilhosas lições Outra parte elogiadíssima pela crítica é trilha sonora. Ela é simplesmente fantástica, lindamente percebida.

O filme tem cinco indicações ao Oscar. Indicações substanciosas. Melhor filme. Melhor diretor (Martin Scorcese). Melhor ator (Leonardo Di Caprio). Melhor ator coadjuvante (Jonah Hill) e melhor roteiro adaptado ( Terence Winter). O original é a autobiografia de Jordan Belfort. Vale a pena conferir este livro, pela crítica à cultura americana, crítica esta, que talvez o prive do OSCAR de melhor filme. A minha torcida vai toda para ele, embora isso signifique muito pouco.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A Colônia Cecília. O seu inspirador. Franco Cenni.

Ideias libertárias sempre são sedutoras e fascinantes. Uma das mais belas e fortes doutrinas libertárias foi a dos anarquistas. Tenho duas indicações para fazer a respeito. História das Ideias e Movimentos Anarquistas, vol. 1. A ideia e História das Ideias e Movimentos Anarquistas, vol. 2. O movimento. Ambos são de autoria de George Woodcock e editados pela L&PM Pocket.

Lendo o livro de Franco Cenni, Italianos no Brasil "Andiamo in 'Merica" encontro uma coisa fabulosa, que é um encontro com Giovanni Rossi, um anarquista italiano. Rossi é simplesmente o idealizador da Colônia Cecília, uma experiência que não deu muito certo, realizada aqui no Paraná, nas proximidades da cidade de Palmeira. Rossi era um botânico que pensou em transferir experiências das plantas para os humanos. Em 1900 Rossi homenageava a cidade de Blumenau, por ocasião dos festejos de sua fundação. Vejam o encanto da poesia:
Livro de Franco Cenni Italianos no Brasil. A presença das ideias anarquistas de Giovanni Rossi.

"Se o teu verão é ardente e chuvoso, o teu inverno é tépido como uma primavera da Itália. Tão doce que a videira, apenas perdida as folha, os brotos já repontam, túrgidos, como mamilos de púbere precoce, desejosa de amor. Os teus montes são majestosos com seu esqueleto de granito e seu manto soberbo de florestas virgens, perenemente toucadas com todos as inimagináveis tonalidades do verde. os teus vales são férteis, banhados pelos afluentes do largo e pitoresco Itajaí, que te beija, e ao mesmo tempo te ameaça, e algumas vezes te invade, amigo infiel e caprichoso, ó gentil cidade de Blumenau! (...) Os teus bosques são ainda preciosos tesouros pelas madeiras que escondem, pelo húmus que acumulam,pelas fontes que conservam. tenha piedade delas a bárbara foice do colono..." E termina com um toque bem ao estilo e ao conceito doutrinário que professa. Faz, simultaneamente, a denúncia e o anúncio:

"Mas as tuas flores mais belas e mais gentis, ó Blumenau, não são as orquídeas de tuas florestas; são as moças dos teus lares, que todas as flores vencem em beleza, na doce primavera da vida; são os recém-nascidos nos teus berços, são as crianças de tuas escolas que, sobre as ruínas da nossa civilização decrépita e mentirosa, ainda verão, um dia, talvez, esplendor o futuro".

Rossi nascera em Pisa em 1860. Aqueles eram os tempos em que os conservadores olham com desdém os pensadores que abalavam o mundo (Nietzsche, Marx, Bakunin, Engels) mas os temiam. Cenni assim descreve os tempos do visionário: "O socialismo era ainda uma vasta nebulosa, e anarquia apenas sinônimo de atentados e desordens, quando ao contrário, deveria significar somente falta de governo, 'interregno em que com os Trinta Tiranos se passou um ano sem arcontes'". E, Cenni anuncia o sonho visionário: "Negação da autoridade, também,  que poderia processar-se sem violências, assim como se deu na Colônia Cecília, situada entre Palmeira e Santa Bárbara, em terras do Paraná".  

Cenni passa então a narrar as tratativas de D. Pedro II, casado com Tereza Cristina, do reino das Duas Sicílias, a fundação da colônia. Vejam a descrição: "Foi assim que um monarca estendeu a mão à anarquia... Uma anarquia, repetimos absolutamente pacífica que em 1890 despejaria da proa do vapor Città di Roma, em terras brasileiras, alguns homens e uma única mulher (intelectuais, operários e camponeses). Havia entre eles um ladrão regenerado que viria a ser o mais hábil e o mais voluntarioso trabalhador do grupo. Depois de uma breve sesta em Ponta Grossa, dirigira-se para as terras da colônia experimental, incultas e desertas, onde operaram um comprido carretão, à beira de um córrego. Aquele era o cenário natural em que o homem deveria voltar à sua vida primitiva, não fazendo nada que não fosse por ele expressamente desejado, esquecendo preconceitos e abatendo todas as barreiras típicas de uma civilização rançosa que ainda pretendia apoiar-se em sanções a fim de exigir deveres. O necessário para uma existência frugal, não mais, deveria ser tirado do amanho da terra, enquanto o resto seria descanso, estudo, amor... Trabalho livre, vida livre, amor livre"...

Mas os vícios "do velho" falaram mais alto e impediram o aflorar do novo: "Mas não se pode construir novos mundos com o concurso de homens velhos, roídos por taras milenárias que fazem aflorar, na primeira ocasião, incompreensões profundas". Logo após veio a proclamação da República e com ela o fim do sonho que já estava fazendo água.

Outra indicação de leitura sobre a Colônia Cecília podemos encontrar em Zélia Gattai, a grande memorialista, no Città di Roma, o navio que trouxe para o Brasil, entre outros, os anarquistas que viriam realizar o sonho da fundação da colônia anarquista. Neste navio vieram, com destinos diversos, os nonnos de Zélia. Os Gattai viriam para a colônia:  http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/03/citta-di-roma-zelia-gattai_7.html

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Indicações para o Oscar 2014.



O mundo cinematográfico sempre aguarda o mês de janeiro com enorme expectativa. A abertura da temporada inicia com as premiações do Globo de Ouro e segue, alguns dias depois, com as indicações para o Oscar, feitas pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas. Para os que gostam de cinema é um belo período, pois, começam as ser lançados os principais filmes com indicações ao prêmio. O favoritismo neste ano vai para os filmes Trapaça e Gravidade, ambos com dez indicações e seguido de perto por 12 Anos de Escravidão, com nove indicações. Hoje forneço a lista completa das indicações e vou comentando os filmes, assim que os vejo no cinema. O Brasil não foi contemplado na relação de melhor filme estrangeiro. Eis a relação completa das indicações: 
Melhor Filme:
"Trapaça"
"Capitão Phillips"
Clube de Compras Dallas"
"Gravidade"
"Ela"
"Nebraska"
"Philomena"
"12 Anos de Escravidão"
"O Lobo de Wall Street"
MELHOR ATOR
Matthew McConaughey, por "Clube de Compras Dallas"
Bruce Dern, por "Nebraska"
Chiwetel Ejiofor, por "12 Anos de Escravidão"
Leonardo DiCaprio, por "O Lobo de Wall Street"
Christian Bale, por "Trapaça"
MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett, por "Blue Jasmine"
Meryl Streep, por "Álbum de Família"
Judi Dench, por "Philomena"
Sandra Bullock, por "Gravidade"
Amy Adams, por "Trapaça"
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barkhad Abi, por "Capitão Phillips"
Bradley Cooper, por "Trapaça"
Jared Leto, por "Clube de Compras Dallas"
Michael Fassbender, por "12 Anos de Escravidão"
Jonah Hill, por "O Lobo de Wall Street"
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong'o, por "12 Anos de Escravidão"
Jennifer Lawrence, por "Trapaça"
June Squibb, por "Nebraska"
Julia Roberts, por "Álbum de Família"
Sally Hawkins, por "Blue Jasmine"
MELHOR DIRETOR
David O. Russell, por "Trapaça"
Alfonso Cuarón, por "Gravidade"
Alexander Payne, por "Nebraska"
Steve McQueen, por "12 Anos de Escravidão"
Martin Scorsese, por "O Lobo de Wall Street"
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Trapaça", escrito por Eric Warren Singer e David O. Russell
"Blue Jasmine", escrito por Woody Allen
"Clube de Compras Dallas", escrito por Craig Borten e Melisa Wallack
"Ela", escrito por Spike Jonze
"Nebraska", escrito por Bob Nelson
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"12 Anos de Escravidão"
"O Lobo de Wall Street"
"Antes da Meia-Noite"
"Capitão Phillips"
"Philomena"
MELHOR ANIMAÇÃO
"Os Croods"
"Meu Malvado Favorito 2"
"Ernest et Célestine"
"Frozen: Uma Aventura Congelante"
"Vidas ao Vento"
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Alabama Monroe" (Bélgica)
"A Grande Beleza" (Itália)
"A Caça" (Dinamarca)
"The Missing Picture" (Camboja)
"Omar" (Palestina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
"O Ato de Matar"
"The Square"
"Cutie and the Boxer"
"Guerras Sujas"
"A Um Passo do Estrelato"
DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
"CaveDigger"
"Facing Fear"
"Karama Has No Walls"
"The Lady in Number 6: Music Saved My Life"
"Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall"
TRILHA SONORA
John Williams, por "A Menina que Roubava Livros"
Steven Price, por "Gravidade"
William Butler e Owen Pallett, por "Ela"
Alexandre Desplat, por "Philomena"
Thomas Newman, por "Walt nos Bastidores de Mary Poppins"
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Alone Yet Not Alone", de "Alone Yet Not Alone" - Música: Bruce Broughton; letra: Dennis Spiegel
"Happy", de "Meu Malvado Favorito 2" - Música e letra de Pharrell Williams
"Let it Go", de "Frozen" - Música e letra de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez
"The Moon Song", de "Ela" - Música de Karen O; letra de Karen O e Spike Jonze
"Ordinary Love", de "Mandela: Long Walk to Freedom" - Música de Paul Hewson (Bono), Dave Evans (The Edge), Adam Clayton e Larry Mullen; letra de Paul Hewson (Bono); interpretada por U2
FIGURINO
"Trapaça"
"O Grande Mestre"
"O Grande Gatsby"
"The Invisible Woman"
"12 Anos de Escravidão"
CABELO E MAQUIAGEM
"Clube de Compras Dallas"
"Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha"
"O Cavaleiro Solitário"
MELHOR CURTA

"Aquel No Era Yo" (em inglês, "That Wasn't Me")
"Avant Que De Tout Perdre" (em inglês, "Just Before Losing Everything")
"Helium"
"Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa?" (em inglês, "Do I Have to Take Care of Everything?")
"The Voorman Problem"
MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
"Feral"
"É Hora de Viajar"
"Mr Hublot"
"Possessions"
"Room on the Broom"
MELHOR EDIÇÃO
"Trapaça"
"Capitão Phillips"
"Clube de Compras Dallas"
"Gravidade"
"12 Anos de Escravidão"
EFEITOS VISUAIS
"Gravidade"
"O Hobbit: A Desolação de Smaug"
"O Homem de Ferro 3"
"O Cavaleiro Solitário"
"Além da Escuridão: Star Trek"
FOTOGRAFIA
"O Grande Mestre"
"Gravidade"
"Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum "
"Nebraska"
"Os Suspeitos"
DESENHO DE PRODUÇÃO
"Trapaça"
"Gravidade"
"O Grande Gatsby"
"Ela"
"12 Anos de Escravidão"
EDIÇÃO DE SOM
"Até o Fim"
"Capitão Phillips"
"Gravidade"
"O Hobbit: A Desolação de Smaug"
"O Grande Herói"
MIXAGEM DE SOM
"Capitão Phillips"
"Gravidade"
"O Hobbit: A Desolação de Smaug"
"Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum"
"O Grande Herói"

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Fundação da Sociedade Palestra Itália. Contada por Franco Cenni em Italianos no Brasil. 1914.

Em outro post, comentando o livro de Franco Cenni, Italianos no Brasil, "Andiamo in 'Merica", comentei que o livro é um monumento para quem tem curiosidade. Um mundo inteiro é atingido pela abrangência deste livro. Como estamos no ano de 2014, ano da comemoração do centenário da Sociedade Esportiva Palmeiras, dou aqui a descrição de como o historiador viu a fundação da Sociedade Palestra Itália. A inserção se encontra no capítulo VIII Passaporto Rosso, em que o autor fala do surgimento das diferentes instituições italianas no Brasil, começando pelas instituições de benemerência até chegar às instituições esportivas. Na abertura lemos o seguinte:
Um livro para satisfazer mil curiosidades. Os Italianos no Brasil, de Franco Cenni.

"No terreno das sociedades esportivas, as iniciativas italianas não foram muito numerosas, mas em compensação das mais importantes, pois algumas grandes agremiações, em particular paulistas, têm sua origem em sociedades fundadas por italianos que logo haviam aberto suas portas a quantos se interessassem pelo mesmo esporte". Pág. 300.  A seguir, conta do surgimento das sociedades ligadas ao remo. Vejam:

"A prática do remo em São Paulo foi introduzida pelo Clube Esperia, Hoje (o livro foi originalmente publicado em 1960) Associação Desportiva Floresta". Depois conta sobre a primeira partida de futebol realizada em São Paulo em 14 de abril de 1895, por iniciativa do inglês Charles Miller, que um ano antes desembarca no Brasil com duas bolas, dois uniformes, uma bomba e um enfiador, além de grande entusiasmo pelo esporte bretão. Ao chegar ao campo de jogo, o primeiro trabalho dos participantes da partida foi enxotar os animais que ali estavam pastando. Em seguida se alinharam os quadros do The Team do Gás, integrado por empregados daquela companhia e The S.P. Railway Team constituído de funcionários dessa empresa. Venceu por 4x2 o quadro do S.P.R., e pouco depois o futebol era oficialmente incorporado às atividades do clube inglês São Paulo Athletic. Mais tarde, outro quadro se formava entre os alunos do Mackenzie College, e aquele esporte começou a atrair as atenções populares. As várzeas povoaram-se de jogadores e começou-se a realizar encontros internacionais com times ingleses, uruguaios, argentinos e até sul-africanos". Pág. 301-2. A partir desta introdução sobre o futebol, dando as origens deste esporte no Brasil, o autor centra a sua narrativa na criação da Sociedade Palestra Itália. Vejamos:

O símbolo da então Sociedade Palestra Itália.

"Foi em 1914 que apareceram os primeiros jogadores provenientes da Itália, a esquadra do Torino F. B. C., que no campo do Parque Antártica, então pertencente ao S. C. Germânia, ganhou uma seleção formado (sic) por jogadores da Liga Paulista de Foot-Ball. Pode-se afirmar com segurança que essas e outras vitórias conquistadas pelos jogadores grenás do Torino despertaram o entusiasmo da numerosa coletividade italiana por um esporte que muitos italianos já praticavam com sucesso em clubes locais. A ideia de fundar uma sociedade de nome italiano e com jogadores italianos, ao lado das outras sociedades de caráter patriótico, assistencial ou cultural, tomou vulto. Num primeiro tempo pensou-se em criar uma seção de futebol no Clube Esperia, que contava, além de uma ótima sede, com terrenos apropriados, mas, não sendo possível chegar a um acordo, certo dia (pela história: 13 de agosto de 1914), Vicente Ragognetti enviava ao Fanfulla, (o jornal dos italianos no Brasil) uma carta em que pedia hospitalidade para expor o desejo de conhecidos jogadores de futebol italianos de fundar um clube de peninsulares ao lado dos já existentes, sociedades alemãs, inglesas, portuguesas e nacionais. Cinco dias depois, o mesmo jornal publicava um comunicado da formação de uma sociedade, que se chamaria Palestra Itália e que, além de um time de futebol formado exclusivamente por italianos, contaria também com uma seção de filodramática e recreativa. Na noite de 1º de setembro, no salão Alhambra da praça Marechal Deodoro, 37 pessoas, em sua maioria estudantes e comerciários, se reuniam sob a presidência de Ezequiel Simoni para concretizar o grande sonho. A primeira diretoria foi assim constituída: presidente: Ezequiel Simoni; vice-presidente: Luigi E. Marzo; secretário: Luigi Cervo; vice-secretário: Antônio Aulicino; revisores de contas: Guido Gianetti, Orestes Giangrandi e Armando Rebucci. A estreia dos palestrinos foi contra o S.C. Savoia, de Sorocaba, e constituiu a primeira de uma série de grandes vitórias. O craque alviverde que sacudiu as redes com o primeiro pênalti foi certo Bianco, que se tornou imortal pelo clube". Pelo visto, o sangue italiano do autor, já o fez tomar partido. A narrativa continua:
Palmeiras: símbolo de hoje e de ontem.

"Muito embora contasse com uma sede condigna na rua Líbero Badaró, a sociedade precisava de um campo de jogo. Não havia muito dinheiro em caixa, pois a joia não passava de cinco mil réis e a mensalidade era de três. Assim mesmo, certo dia Vasco Stella Farinello apresentou-se aos senhores Zerenner e Bulow, fundadores e diretores da Companhia Antárctica Paulista, proprietária do enorme Parque Antarctica da Vila Pompeia, para os primeiros entendimentos a respeito da possível aquisição daquele terreno... 'Quinhentos contos de réis', foi a resposta.  Era bastante dinheiro, mas o entusiasmo não era certamente menor: Muitos palestrinos, cuja família já era bem numerosa, entraram com grande parte do dinheiro para garantir o pagamento da primeira prestação de 250 contos, fato que foi comemorado com uma das maiores chopadas de todos os tempos". Pronto. Eis a história do palestra Itália contada por um historiador, que certamente também era um palestrino. Cenni ainda conta da mudança do nome para Sociedade Esportiva Palmeiras:

"Por força das circunstâncias da Segunda Guerra Mundial, o nome da sociedade foi mudado para Palmeiras, mas por ocasião de sua visita ao Brasil o presidente Gronchi descobriu a targa que dava a seu majestoso estádio o nome tradicional do grêmio: Palestra Itália. Os 37 que o fundaram são hoje algumas dezenas de milhares em cujas veias corre, em grande parte, sangue italiano". Págs. 302-3. Longa vida ao glorioso Palmeiras.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Italianos no Brasil. Franco Cenni. Dificuldades.

Muitas vezes temos uma visão muito romantizada em torno das imigrações que se fizeram no Brasil. Neste momento estou lendo sobre a imigração italiana, que a partir de 1875 se tornou massiva, inicialmente no Rio Grande do Sul e um pouco depois em São Paulo. Nos demais estados ela atingiu menor escala. Estou lendo Italianos no Brasil, de Franco Cenni, livro que teve a sua primeira edição em 1960. A que tenho em mãos é de 2003, da Edusp. Escolhi duas passagens para mostrar as dificuldades pelas quais eles passaram, ambas do Rio Grande do Sul. Vejamos a primeira, de 1925 e tirada de um discurso do eterno governador deste Estado, proferido na inauguração da Exposição Colonial Italiana de Porto Alegre, realizada naquele ano.
O belo livro Italianos no Brasil, de Franco Cenni. Edição EDUSP de 2003.

"Na partilha do solo riograndense, foi a colonização italiana a menos afortunada, porque encontrou já ocupadas as melhores terras de cultura. Reservou-lhe o destino a posse da região aspérrima das altitudes, ao norte do Estado e das colônias alemãs, onde uma natureza montuosa e selvática profundamente rochosa, cortada de vales apertados e de correntes impetuosas, habitada de silvícolas nômades, devia ser o majestoso cenário da raça forte dos nossos povoadores.

Distanciados dos centros urbanos e sem vias de comunicação francas e diretas, quase insulados no sertão bravio, tais foram os largos anos que atravessaram eles em luta pertinaz com a 'selva selvagem', desbravando a ferro e fogo a floresta, abrindo picadas, afugentando o gentio, perseguindo as feras. Durante esse penoso período, a produção era quase limitada às necessidades da subsistência, o comércio rudimentar e difícil, os transportes precários e morosos. Viviam as colônias esquecidas e desprotegidas dos governos da época"!
Borges de Medeiros, o governador do Rio Grande do Sul falando das dificuldades encontradas pelos imigrantes italianos.

A outra narrativa é mais dramática. Ela é relatada pelo jornalista Arquimedes Fortini, que recolheu o depoimento de um velho colono a um sacerdote. Isto ocorreu em 1950, por ocasião da comemoração dos 75 anos da imigração.

"De dia, trabalhávamos com muito medo de ser atacados pelos bugres quando procurávamos derrubar algum pedaço de mato para tirar lenha para o nosso consumo ou para armar algum galpão ou construir alguma cerca. À noite, alguns dos colonos eram destacados a montar guarda, a fim de dar alarma num caso de agressão. Porém, os bugres nunca nos molestaram e também nunca os vimos.
Uma típica casa de colonos italianos em Antônio Prado, a mais italiana das cidades brasileiras.

Ah!, se não fossem os pinhões não sei como teríamos sobrevivido, porque somente em princípios de 1877 começaram as primeiras colheitas de produtos essenciais à nossa alimentação. Quando, porém, veio a bendita safra, constatamos que ela era disputada por muitos pretendentes, entre os quais macacos, papagaios e outros animais e aves que em grande número investiam contra as plantações. Se nos prejudicavam, justiça devemos confessar que muitos deles, apanhados e mortos, mais de uma vez encheram nossas panelas, proporcionando-nos um caldo e uma carne mais do que saborosa. Quanto aos porcos, não nos contentávamos em afastá-los por meio de tiros de espingardas, disparadas ao cair da noite nos lugares das plantações onde desejávamos apanhá-los. Outro estratagema era o abrir buracos, cobertos de folhagem e, quando por ali passavam, neles caíam, havendo assim muita facilidade em apanhá-los; depois de mortos eram transportados para nossas casas. Uma outra praga era dos ratões, em quantidade incrível, roendo caixões, sapatos, trazendo, à noite, verdadeiro sobressalto aos que estavam dormindo. No Campo dos Bugres, a diretoria da Colonização auxiliou-nos numa empresa para sua exterminação, pagando quinhentos réis a quarta (oito quilos). Porém, depois de dois meses de trabalho, encontramos suas tocas, no meio de bambus e, com o emprego de venenos, terminamos com a terrível praga.
A tradição italiana no Campo dos Bugres, atual Caxias do Sul. Já houve tempos mais difíceis.

Sr. reverendo! faça ideia do trabalho tido para buscar qualquer artigo de primeira necessidade! Precisávamos caminhar um dia inteiro, enlamear-nos até os olhos para vencer uma distância que agora se faz comodamente em pouco tempo. Mais de um pobre colono precisou caminhar meio dia, com um saco de milho no ombro, para conduzi-lo ao local onde haveria um simulacro de moinho". Págs. 149-50. O Campo dos Bugres acima referido é a atual cidade de Caxias do Sul.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Italianos no Brasil. "Andiamo in 'Merica. Franco Cenni.,

Antônio Cândido indica e a Estante Virtual me põe em contato. Descobri o livro pelas indicações de Antônio Cândido. Dez livros para compreender o Brasil. Entre eles, sobre o tema da imigração italiana, está este livro Os Italianos no Brasil - "Andiamo in 'Merica", de Franco Cenni. Como a última edição do livro data de 2003, o jeito para comprá-lo é recorrer à Estante Virtual. O livro tem a edição da EDUSP. A primeira edição do livro é de 1960, quando Cenni ganhou o prêmio Itália, promovido em honra da visita do presidente italiano, Gionanni Gronchi, ao Brasil. Entre os jurados para a escolha do prêmio estava o próprio Antônio Cândido.
O livro de Franco Cenni, Italianos no Brasil. A primeira edição foi de 1960. Esta é de 2003, da EDUSP.

É difícil imaginar um livro com tamanha abrangência. Ele começa pela influência dos navegadores italianos nas viagens do descobrimento da América e do Brasil e termina com as últimas influências culturais italianas sobre o Brasil, nos anos 1950. Constitui-se de uma retrospectiva histórica, na primeira parte do livro, passando depois a um relato das influências italianas sobre a formação do povo brasileiro, nos mais amplos setores em que poderiam ter influenciado. O livro é, acima de tudo, um grande livro de história do Brasil, com força total para as contextualizações.

Como não tenho a intenção de fazer um resumo do livro, missão que seria absolutamente impossível e, como também é muito difícil fazer uma resenha, darei um passeio por seus capítulos, indicando os temas abordados, tendo como objetivo motivar para a leitura. São 14 capítulos espalhados pelas 535 páginas do livro.
Franco Cenni também era pintor. Óleo sobre tela de típica cena de colonos italianos.

No primeiro capítulo, intitulado Quando Havia Caravelas e Capitães de Ventura, o foco são os inúmeros navegadores italianos que navegaram a serviço dos descobrimentos. Merecem destaque Américo Vespúcio e os genoveses irmãos Adorno.

No segundo capítulo, intitulado No Tempo do Império, merecem destaque a influência italiana no primeiro florescimento cultural brasileiro nos campos da botânica, da medicina, na literatura e na imprensa. Outro destaque é dado ao casamento de D. Pedro II, com a princesa Tereza Cristina, do reino das duas Sicílias e a aproximação de Pedro II com a cultura italiana.

No terceiro capítulo, intitulado Carbonários de Além-mar, é narrado um belo capítulo da história do Rio Grande do Sul em seus tempos de Revolução Farroupilha e as influências que o movimento da Giovane Itália exerceu sobre os revolucionários farroupilhas. São contadas as epopeias de Tito Lívio Zambecari e de Garibaldi e o seu encontro com Anita. Grande destaque é dado aos barcos transportados por terra, ideia que Garibaldi tirou de suas leituras de Plutarco sobre as guerras do Império Romano.

No quarto capítulo, intitulado A Colonização italiana no Rio grande do Sul, merecem destaque as dificuldades de toda ordem encontradas pela colonização italiana, tardia com relação aos alemães, tanto pelas condições da natureza e da qualidade das terras. É mais um capítulo da história do Rio Grande do Sul.
Italianos no Rio Grande do Sul.

No quinto capítulo, intitulado Italianos nos Estados, são focados os estados do Paraná, de Santa Catarina, de Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso e nos estados do Norte. No Paraná ganha destaque a localidade de Alexandra, esta das margens da BR 277, já próxima a Paranaguá, na entrada para as praias.

No sexto capítulo, intitulado O Rei café e a Grande Imigração, o estado de São Paulo será o grande foco. É um dos capítulos centrais do livro e que recebe uma belíssima contextualização sobre a substituição da mão de obra escrava pela mão de obra do imigrante, que atingiu o seu auge entre os anos de 1886-88. A narrativa deste capítulo abrange, desde a experiência pioneira do senador Vergueiro, até o relato de mais de um milhão de imigrantes que chegam num período de 20 anos. Aí também encontramos a história do rei do café, o poderoso Geremia Lunardelli.

No sétimo capítulo, intitulado Evolução Industrial, o tema é óbvio. Neste capítulo se estabelece a relação entre a imigração italiana e a evolução industrial brasileira, no estado de São Paulo. A do Rio Grande do Sul já fora abordada no capítulo referente àquele Estado. Nomes como o de Crespi e Matarazzo afluem ao natural. Também as crises da economia cafeeira ganham destaque.

No oitavo capítulo, intitulado Passaporto Rosso, começa a análise das heranças italianas recebidas pela cultura brasileira. Salienta que todos os imigrantes vieram sob um denominador comum, que era a falta de dinheiro. Destaca depois o espírito criativo dos italianos e a fundação de suas agremiações, tanto de benemerência, quanto esportivas, culturais e educacionais. É contada a história do surgimento do Palmeiras, que contarei num post em separado.
Placa em Antônio Prado, anunciando a cidade mais italiana do Brasil.

No Nono capítulo, intitulado Agitadores de Ideias, o grande destaque é dado para o amor à liberdade, expressa pela liberdade de pensamento, especialmente o de sua expressão. Neste capítulo não poderiam faltar as ideias anarquistas que acalentaram a formação da Colônia Cecília. O sonho de seu idealizador, Giovanni Rossi, é magnificamente explicitado.

No décimo capítulo, intitulado Ciência e Cultura são expostas as influências italianas na constituição do Direito no Brasil, bem como na filosofia e na medicina. Livros e livreiros também são abordados. Giuseppe Bertaso, da editora Globo, de Porto Alegre, ganha uma referência especial. O livro não aborda mas é bom lembrar que Bertaso deu o primeiro emprego a Érico Veríssimo e lhe editou os seus livros.

No décimo primeiro capítulo, intitulado Arquitetura, começa narrando as influências dos jesuítas italianos na construção dos templos dos sete povos das missões, indo depois para o Rio de Janeiro e para São Paulo. Ganham destaque desde os construtores mestres de obra até os arquitetos. Entre as obras os destaques vão para o Museu do Ipiranga, para o Teatro Municipal de São Paulo e o edifício símbolo do progresso de São Paulo, o edifício Martinelli.

No décimo segundo capítulo, intitulado Teatro, Música, Pintura e Escultura, o destaque vai para a ópera italiana e para as companhias italianas que a trazem para cá. É relatada a inauguração dos Teatros Municipais, tanto o do Rio de Janeiro, em 1909 e o de São Paulo, em 1911. Na pintura Anita Malfatti e Cândido Portinari são lembrados.

Portinari. Os italianos na pintura. Os italianos e o café. A substituição da mão de obra escrava pela imigração.

No décimo terceiro capítulo, intitulado Contribuição Civilizadora, Científica e Cultural de Religiosos, o grande destaque vai para as ordena religiosas, com destaque para jesuítas, para os capuchinhos, para os Missionários de São Carlos e para os salesianos. Para quem interessar, aqui em Curitiba andou um padre, de nome Pietro Cobachini, responsável por pinturas em igrejas de diversos bairros. Antonil (ou Andreoni) e o seu livro Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas também ganha referência. O livro foi proibido logo após a sua publicação em 1711, para não despertar a cobiça dos europeus sobre as nossas drogas e minas. Também a descrição do local de uma futura cidade, feita por D. Bosco é destacada. A futura cidade será Brasília.

No décimo e quarto e último capítulo, intitulado Da Primeira Guerra Mundial até Nossos Dias, o destaque vai para as medidas restritivas impostas, tanto pelos países que recebem imigrantes, quanto pelos que cederam suas gentes para a emigração. Volta ainda para as mais recentes influências culturais e termina com uma belíssima exortação em favor da humanidade, que recentemente havia se perdido na xenofobia dos nacionalismos.

Um livro absolutamente recomendável. É uma viagem maravilhosa e que abre mil possibilidades para a satisfação de nossa curiosidade com relação ao povo italiano e as suas aventuras aqui no Brasil. De aperitivo deixo a frase final do Livro:

"...Porque inquestionavelmente latina é esta América em que, mesmo no crisol de tantas raças diferentes, italianos, portugueses e espanhois se identificam com os nacionais numa mesma tradição humanística, numa mesma religião, numa reação idêntica frente aos mesmos problemas, no desejo comum, que se constituiu numa das mais peculiares características do brasileiro, de fazer com que ninguém se sinta exilado nesta terra".