segunda-feira, 31 de março de 2014

1964. A modernização conservadora autoritária.



Recebi um pedido para escrever um artigo para um determinado jornal. Algo em torno de 2.000 caracteres. Atendi o pedido e o publico também no blog. Segue o texto. É mais ou menos, dentro dos limites, a explanação do título.

Dois modelos político-econômicos estavam em disputa, nos idos de 1964. Um era fundado na modernização progressista e popular e o outro, na modernização conservadora e autoritária. Um golpe de Estado interrompeu o primeiro As forças ligadas ao golpe eram heterogêneas, com a predominância dos militares.

A interrupção que era para ser breve, se tornou longa e as intervenções, que eram para ser leves, se tornaram profundas. Como um golpe sempre é um ato político, é sob este aspecto que os fatos devem ser julgados em primeiro lugar. Neste sentido o Estado democrático de direito foi profundamente desrespeitado por atos institucionais e por um simulacro de Constituição, que poderia funcionar, ou não, de acordo com a vontade dos generais. Para combater a oposição, a tortura foi instituída como prática e política de Estado. Muitas inteligências foram tolhidas pela prisão, exílio ou morte.

Outro aspecto, sempre importante, é o econômico. Nele não houve linearidade. No primeiro governo, as doutrinas do internacional livre mercado foram dominantes. Foi um fracasso que, inclusive, levou ao recrudescimento autoritário, aos anos de chumbo. Paradoxalmente, estes anos também corresponderam aos anos de ouro na economia. Os anos do milagre. Aí está o caráter modernizador. Industrialização, infra-estrutura e agro-negócio dinamizaram a economia. Isso seu deu fora do alinhamento aos Estados Unidos e dos princípios liberalizantes, com um retorno ao nacional-desenvolvimentismo, lembrando Vargas e JK.

Este crescimento tinha um freio: “desenvolvimento com segurança”. É nesse sentido que se somam as três palavras do título. Este viés tolheu esta modernização em seus benefícios sociais. A renda crescia e se concentrava. A segurança era apenas para o capital e o lucro. As reivindicações sociais eram tolhidas pela violência. As vozes, a poesia e a ternura foram postas a ferro.

Veio a volta aos quartéis, apesar de tentativas de permanência. O fim dos anos 1970 e a década de 1980 foram os anos de aprendizado democrático, de cidadania participante, vertical, de baixo para cima, de intensa organização e participação popular. Anistia, eleições diretas e uma constituinte, passaram a ser as reivindicações para a restauração do Estado democrático de direito, que veio com a Constituição de 1988, ano em que efetivamente se reinaugurou uma jovem e bela democracia.


Qual é o legado? A ordem política autoritária só deve ser lembrada para nunca mais ser repetida. Já da ordem econômica, podemos aproveitar as bases de sua modernização para estender os seus resultados para todos os brasileiros e assim construirmos uma Nação, politicamente democrática e socialmente justa.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ditadura e democracia no Brasil. Daniel Aarão Reis. 1964 - 50 anos depois.

"Este livro pretendeu apresentar uma narrativa crítica sobre a história da ditadura mais recente: como se instaurou, se vertebrou e alcançou um certo apogeu, para declinar e se retirar, em boa ordem. É certo que, no período final, os capitães que estavam no leme se sentiram ultrapassados, pilotando um processo que lhes fugia ao controle, inclusive porque muitos dos seus camaradas pulavam do barco, a engrossar forças oposicionistas cada vez mais diversas. Depois, houve longa transição, consumada por uma nova Constituição que forjou um estado de direito democrático tendo, em seus flancos (ou em seu coração?), legados indeléveis fixados ou consolidados no regime ditatorial".
Capa do livro Ditadura e democracia no Brasil,  de Daniel Aarão Reis, lançado pela Zahar. 2014.

Assim Daniel Aarão Reis encerra o seu livro Ditadura e democracia no Brasil, que integra a coleção 1964 - 50 anos depois. Depois desta síntese ainda faz uma advertência final, sobre o que quis efetivamente dizer: "não há como se libertar da ditadura sem pensar nela. Nos medos dos quais ela foi produto, nas marcas, visíveis a olho nu, que ela gravou - com ferro em brasa - no lombo da sociedade. O pensamento crítico pode constituir a melhor defesa da democracia, à maneira de um antídoto às tentações autoritárias, sempre à espreita, prontas a ressuscitar tão logo reapareçam no horizonte novas crises e outras ameaças à ordem".

Comprei o livro num pacote de promoções da livraria da Travessa, sobre os 50 anos do golpe militar-civil, perpetrado contra as instituições democráticos do Brasil de 1964. Tanto o autor, quanto a editora merecem todo o meu crédito e foram o motivo para a minha escolha. De uma certa maneira o meu trabalho de apresentar uma pequena resenha está totalmente facilitada, ou já feita, pois o próprio autor se encarregou de fazê-la ao final de seu livro. O mesmo ele também o faz, com relação aos objetivos do livro. Estão aí dois parágrafos muito ilustrativos. Sobre o tema existe farta literatura e, isto provocaria para a questão, da necessidade do livro.
Foto recente de Daniel Aarão Reis, historiador da UFF e autor do livro.

Apresentaria como mérito principal, a sua capacidade de síntese e a clareza dos fatos em sua apresentação. Ele me fez lembrar do tempo em que eu ainda estava em sala de aula, na busca de material didático para apresentar. Não teria dúvidas em indicá-lo como livro didático sobre os temas que ele aborda. Ele é formado por sete capítulos e uma breve conclusão, uma espécie de posfácio, distribuídos ao longo de 191 páginas. Vejamos os temas abordados em cada um dos capítulos: 1. Ditadura no Brasil: uma incômoda e contraditória vitória. Este capítulo é uma espécie de introdução a cada um dos outros seis capítulos. 2. A gênese da ditadura (1961-1964). É óbvio que neste capítulo  ele traça um panorama da conjuntura internacional e nacional daquele momento histórico. O modelo do nacional-estatismo ganha força nesta análise, como o modelo derrotado.

3.Ditadura ou democracia: a busca de uma identidade (1964-1968). Este capítulo passa por uma análise da chegada de Castelo Branco ao poder e as tentativas de remoção do modelo nacional-estatista e a sua substituição pelo internacional-liberalismo, de alinhamento incondicional aos interesses dos Estados Unidos. Envereda ainda pelos caminhos trilhados até chegar à declaração aberta de uma ditadura. 4. Os anos de ouro e de chumbo: a retomada do nacional-estatismo (1968-1974). O capítulo está explicitamente enunciado. Nele se trata do período tido e glorificado pela ditadura como os anos do milagre econômico, com o crescimento inusitado do PIB, sob a batuta do Estado e tendo como contrapartida os duros anos de repressão, que dizimaram completamente as reações contra o regime, especialmente as opções em torno da luta armada. Mostra ainda o desalinhamento da política internacional, antes totalmente controlada pelos Estados Unidos.

 5. O Governo Geisel e os planos de uma nova institucionalização da ditadura (1974-1979). Este capítulo é extremamente interessante. O novo se refere a uma volta ao período de Castelo Branco, em que se pretendia instituir um governo forte, mas sem medidas de exceção, uma espécie de democracia controlada. A conjuntura internacional se torna desfavorável com a crise do petróleo e o decantado milagre econômico faz água. Para se manter no poder Geisel faz largo uso de medidas de exceção, destacando-se o "pacote de abril", que promoveu o alijamento político das oposições em ascensão.

6. A transição democrática (1979- 1988). A transição fora estabelecida por Geisel e seria comandada pelo general Golbery do Couto e Silva. Para isso sepultaram-se as pretensões do general Sílvio Frota e o estabelecimento de João Batista Figueredo como o novo ungido do poder. Passa pelas últimas reações da extrema direita, pelo estabelecimento da Anistia (agosto de 1979), pelo movimento das Diretas já, pelo novo pluripartidarismo, pelo surgimento do PT e desembocando na  Assembleia Nacional Constituinte. 7. A Constituição de 1988 e a restauração da democracia. Mostra as grande linhas ideológicas presentes, o trabalho da Comissão de Sistematização e a grande liderança exercida pelo então progressista senador Mário Covas e, ainda, os atropelamentos do executivo, com a formação do Centrão.

Momento histórico da promulgação da Constituição de 1988. O país volta à normalidade democrática.

É também muito interessante a análise que faz da vitória na Constituinte do modelo do nacional-estatismo, num momento em que o mundo enveredava dez vez para o internacional liberalismo, ou pelo neoliberalismo, como então já era chamado, e que se constituía na grande  força  no mundo de então. Aponta ainda as grandes conquistas, especialmente as dos campos dos direitos sociais e individuais. Ulisses Guimarães em um de seus arroubos, encarna Rousseau para anunciar "o primado da sociedade sobre o Estado" e a Constituição cidadã.

Em seu posfácio: reflexões sobre ditadura e democracia no Brasil, faz uma análise mais abrangente, dos anos 1960 a 2014 e constata grandes, para não dizer, enormes transformações em todos os campos. Foram feitas mudanças tão significativas, que em outros países levaram séculos para serem feitas. Aí envereda para as reflexões finais, com as quais começamos este texto.

terça-feira, 25 de março de 2014

O Dinheiro. Marx, Goethe e Shakespeare. Uma execração.


Um dos mais belos e profundos textos de Marx são os seus Manuscritos Econômico-filosóficos. Um dos temas neles abordados é o dinheiro. Quando a ele faz as suas execrações, recorre a Goethe e a Shakespeare. Marx o considera como um senhor onipotente. Vejamos Marx: /XLI/
Marx em suas análises sobre o onipotente dinheiro.

 "Se as sensações, paixões, etc., do homem são apenas determinações antropológicas em sentido estrito, mas sim na verdade afirmações antropológicas do ser (natureza) e se só se afirmam realmente pelo fato de que seu objeto é sensível para elas, então é claro: 1.º) que o modo de sua afirmação nem é em absoluto um e o mesmo, mas que, muito mais o modo diverso da afirmação constitui a peculiaridade de seu modo de existência, de sua vida; o modo pelo qual o objeto é para elas, é o modo particular do seu gozo; 2.º) ali onde a afirmação sensível é superação direta do objeto em sua forma independente (comer, beber, elaborar o objeto, etc), é esta a afirmação do objeto; 3.º) enquanto o homem é humano, enquanto é humana sua sensação, etc., a afirmação do objeto por outro é, da mesma forma, seu próprio gozo; 4.º) só por meio da indústria desenvolvida, isto é, pela mediação da propriedade privada, constitui-se a essência ontológica da paixão humana, tanto em sua totalidade como em sua humanidade; a própria ciência do homem é, pois, um produto da auto-afirmação valente do homem; 5.º) o sentido da propriedade privada - desembaraçada da sua alienação - é o modo de existência dos objetos essenciais para o homem, tanto como objeto do gozo, quanto como objeto da atividade.

 "O dinheiro, enquanto possui a propriedade de comprar tudo, enquanto possui a propriedade de apropriar-se de todos os objetos, é, pois, o objeto por excelência. A universalidade de sua qualidade é a onipotência de sua essência; ele vale, pois, como ser onipotente (...) O dinheiro é o proxeneta entre a necessidade e o objeto, entre a vida e os meios do homem. Mas o que me serve de meio para minha vida, serve também de meio para o modo de existência dos outros homens para mim. Isto é para mim o outro homem. Aí segue a citação de Goethe:
"Não são minhas as tuas forças"? As indagações de Goethe.

"Que diabo! Claro que mãos e pés
e cabeça e traseiro são teus!
Mas tudo isto que eu tranquilamente gozo
é por isso menos meu?
Se posso pagar seis cavalos,
não são minhas tuas forças? Ponho-me a correr e sou um verdadeiro senhor,
como se tivesse vinte e quatro pernas". Goethe, Fausto (Mefistófeles).

Goethe só poderia ter posto estas frases na boca de Mefistófeles. Mas Marx emenda imediatamente com Shakespeare, em Timão de Atenas:
A mais violenta das execrações do dinheiro, sobre a sua capacidade de tudo subverter.

"Ouro! amarelo, reluzente, precioso ouro!
Não, deuses, não faço súplicas em vão (...)
Assim, um tanto disto tornará o preto branco,
o repugnante belo, o errado certo, o vil nobre, 
o velho jovem, o covarde valente(...).
Por que isto arrancará vossos sacerdotes e 
servidores de vossos lados, arrebatará coxins
de sob a cabeça de homens corpulentos: este
escravo amarelo tecerá e despedaçará religiões;
abençoará os amaldiçoados; fará a alvacenta
lepra adorada; levará ladrões, dando-lhes
título, reverência e aprovação, ao banco
dos senadores; isto é o que faz a desgastada viúva casar-se novamente; a ela, para quem
o lazarento e ulcerosas feridas abririam
a goela, isto perfuma e condimenta para
o dia de abril novamente. Vem, elemento
danado, tu, vulgar rameira da humanidade,
que instalas a disputa na multidão de 
nações (...)".

E mais adiante:

"Ó tu, doce regicida e caro divórcio entre
filho e senhor! tu, brilhante violador do
mais casto leito de Hímen! Tu, Marte valente!
Tu, sempre jovem, loução, amado e delicado
sedutor, cujo rubor derrete a neve
consagrada que jaz no regaço de Diana!
tu, deus visível, que soldas impossibilidades
e fá-las beijarem-se! que falas com toda língua
para todo propósito! ó tu, contato de corações!
pensa, teu escravo, o homem se rebela, e
por tua virtude eles entram em tais confusas
disputas, que as bestas poderão ter o mundo
sob império".

Aí seguem as explicações. Dou a fonte: MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos - e outros textos escolhidos. - São Paulo: Abril S.A. Cultural.  1985. Coleção Os pensadores. As páginas da citação são 28 a 30 e as explicações seguem até a página 32.


segunda-feira, 24 de março de 2014

A Menina que roubava livros. O filme.


Em agosto de 2012, no dia dos pais, recebi de presente o livro a menina que roubava livros, do australiano Markus Susak. Imediatamente comecei a sua leitura. Confesso que tive uma surpresa, e diga-se, muito agradável. Desconfio destes livros transformados em best sellers. Mas a este, eu me rendi completamente. A sua força maior está na temática abordada. A menina se faz pela leitura dos livros que ela rouba, num ambiente absolutamente hostil. Até o termo roubar ganha um significado muito bonito. Ao menos um destes livros, ela rouba como um sobrevivente das famosas queimas promovidas pelos fanatizados nazistas.

Para alguém que teve a sua vida inteira ligada à educação, como foi o meu caso, também não passou despercebido o fato, de que a educação também é tema deste livro, embora não, o seu tema central. A menina se construiu pela leitura, que aprendeu sozinha, com a ajuda de Hans e de Max. Com Max ela também aprendeu o ofício de escrever e, ainda, instigada por Max, ela também desenvolveu a imaginação. Estão aí os grandes componentes de uma educação de qualidade. A leitura, a escrita e a imaginação. Ela contava de forma diferente. Está aí a presença da imaginação, da criação.
Leslie e o seu novo pai Hans. Uma relação de uma profunda ternura. Com ele aprende a ler.

O filme está em cartaz há várias semanas. Não o priorizei, exatamente por conhecer o tema e eu ainda não tinha visto todos os filmes com indicações para o Oscar de melhor filme. Mas chegou a oportunidade. O mesmo maravilhamento que eu tive com a leitura do livro, eu o tive ao ver o filme. O filme passa muita emoção e ternura e, para mim, particularmente, um desejo de uma mudança profunda nas relações humanas, que, como consta no final do filme: Elas são assombrosas. Assombrosas, é um termo, no mínimo suave, para expressar o horror que foi o sistema do nazismo, o cenário e o tema sob o qual a história do filme se desenvolve.

Vejamos a sua história. Uma mãe perseguida pelos nazistas, por ser comunista, leva seus filhos a uma família que os adotaria. O menino morre ao longo da viagem até a aldeia onde fixariam morada. Sobra Liesel Maminger (Sophie Nélisse) que encontra no casal Hubermann, os seus novos pais. Hans, um pai bonachão (Geoffrey Rush) e Rosa, uma verdadeira madrasta rabugenta (Emily Watson). No filme ela me pareceu bem mais boazinha do que no livro. A família aumenta com a proteção dada a Max Vandenburg (Ben Schnetzer), a cuja família Hans devia obrigações. Max tem que ficar absolutamente escondido e, em absoluto sigilo. Creio que fica fácil imaginar o enredo do drama, se você lembrar que isto tudo ocorreu sob a fúria do nazismo. Um outro personagem central aparece logo nos primeiros dias de sua ida a escola, o seu colega Rudy (Nico Liersch). Liesel e Rudy se afeiçoam ternamente.
Cartaz promocional do filme.

O roubo de livros começa já no enterro do irmãozinho, quando o coveiro deixa cair o manual de instrução de sua profissão. O segundo roubo ocorre após uma queima de livros, organizada pelos nazistas, em estado de delírio. É uma cena que pelo seu significado vale todo o filme. Sobra um livro. Ela o salva, sem compreender direito os riscos de seu ato. Depois os roubos são generosamente consentidos pela senhora do prefeito. Nestes livros ela tem o seu aprendizado de leitura, primeiro com a ajuda de Hans e depois de Max. Com Max a relação é ainda mais profunda. Ela o mantem vivo com as suas leituras. Max também a inicia na descrição do que se passa no seu imaginário e ela dá assim, os seus primeiros passos na escrita.

Na medida em que a guerra avança, avançam também as dificuldades dos principais personagens. O pai de Rudy é convocado para a guerra. É impossível continuar escondendo Max, Rosa vai perdendo seus clientes na sua profissão de subsistência de todos, como lavadeira e até o próprio Hans recebe a convocação para a guerra. Chegam os bombardeios. A destruição é total e, ganha força no filme, o significado das perdas. Leslie perde todo o seu mundo de afeições, Hans, Rosa e Rudy. Em compensação lhe é restituído Max, quando os horrores da guerra e do nazismo, finalmente já tinham acabado.

Enquanto os nazistas queimavam livros, Leslie se empenhava em salvar ao menos um único deles.

O filme não foi bem recebido pela Academia, nem pela crítica. Ganhou apenas uma única indicação para o Oscar, o de melhor trilha sonora. A crítica, obviamente não condena a narrativa do filme, mas por coisas do cinema, especialmente em suas questões técnicas e de direção. Eu tendo a ser condescendente com o filme, pela temática e pela mensagem que ele contem. Deveria haver, na concessão do Oscar, um prêmio para os filmes de maior benemerência, para aqueles que fazem bem pelo seu conteúdo, de luta contra injustiças e de suscitar temas históricos, de atrocidades contra a humanidade, de avivamentos de memória para fatos como estes, que serviram de cenário para o filme, não mais se repitam.

Capa do livro que inspirou o filme. O livro se transformou em best seller mundial. No Brasil foi lançado pela Intrínseca.

Saí do cinema com um sensação de um profundo bem-estar, proporcionado pela menina que se construiu e se constitui com o roubo de livros e que, apesar de todas as adversidades em seu meio, construiu ao seu redor, laços de profundo cuidado e de ternura.  Vale o livro e vale o filme. Confesso, no entanto, que fiquei profundamente decepcionado em não ver Leslie e seus novos pais falarem alemão, a sua língua. Um erro apontado pela crítica, com o qual eu concordo inteiramente.

quinta-feira, 20 de março de 2014

a máquina de fazer espanhóis. valter hugo mãe.

Já devem ter estranhado as minúsculas no título deste post. Não é erro meu, não. É a maneira que Valter Hugo Mãe encontrou para homenagear a igualdade e eliminar a hierarquia entre as palavras, dividindo-as em maiúsculas e minúsculas. Esta forma de escrever ele usou em seus primeiros quatro romances, que formam a tetralogia que percorre a vida humana, em seus diversos momentos, desde a infância até a velhice. o nosso reino (2004), o remorso de baltazar serapião (2006), o apocalipse dos trabalhadores (2008) e a máquina de fazer espanhois (2010). Este último retrata a velhice.

Depois desta tetralogia ele voltou a escrever normalmente, isto é, com maiúsculas e minúsculas. Ainda, depois desta tetralogia escreveu, O filho de mil homens, possivelmente o seu mais bonito livro, embora, pelo visto, o autor não goste de classificações. Vi-o pessoalmente, explicando no programa Roda Viva, da TV Cultura, do dia 6 de janeiro de 2014, explicando que pós ter escrito a máquina de fazer espanhois,  ele sentiu a necessidade de escrever algo que levantasse o seu próprio astral. E o fez de forma magnífica. O filho de mil homens é um encontro constatante com o outro, que vai completando o ser humano e lhe dando novos significados.
A edição portuguesa de a máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe. Comprei este livro numa das mais belas livrarias do mundo, a Lello, na cidade do Porto.

Ler Valter Hugo Mãe é tarefa para leitores, como nos adverte António Lobo Antunes, na contracapa da edição portuguesa do livro. "A maior parte dos livros são escritos para o público; este é um livro escrito para os leitores". Os seus livros são uma provocação permanente para a reflexão, para os problemas existenciais do ser humano. Não são propriamente livros que contam uma história. São livros em que o autor usa a imaginação, criando personagens incríveis, profundamente humanos, mas que também deixam aberturas para que o leitor faça complementos com a sua própria imaginação.

a máquina de fazer espanhois é um livro sobre a velhice. António Jorge da Silva, o seu personagem principal, após a morte de Dona Laura, a sua esposa e companheira por 48 anos, com 84 anos, vai para o Feliz Idade, viver a disciplina destrutiva da morte. No Feliz Idade, convive com outras 92 pessoas, procurando ainda, encontrar um sentido para a sua vida. O número 93 é praticamente um número fixo, tal é a rapidez da substituição das pessoas ao morrerem. Existem no Feliz Idade dois pavilhões distintos, um voltado para os jardins e outro para o cemitério. Todos sabiam qual era o significado de trocar de pavilhão. António Jorge da Silva, o Silva chega ao Feliz Idade, absolutamente casmurro.
Foto do escritor português, Valter Hugo Mãe, nascido em Angola. Um dos maiores nomes da literatura portuguesa.

O encontro que tem logo após a morte de Dona Laura, é com outro Silva, Cristiano Mendes da Silva, o Silva da Europa, este com "o peito inchado de orgulho como se tivesse conquistado tudo sozinho". Os Silvas mantem um interessante primeiro diálogo: "somos todos silvas neste país, quase todos. crescemos por aí como mato, é o que é, como os silvas. somos silvestres, disse eu, obrigado a sorrir já como quem suplica uma trégua. exactamente, concordou, assim do mato, grassando pelo terreno fora com cara de gente, mas muito agrestes, sem educação nenhuma". A essa observação o Silva retrucou que eram todas pessoas educadas, ao que o Silva da Europa contrapôs o tipo de educação, "mas a educação tem sido apertada neste país, à paulada [...] e ele insistiu, já no limite, mas somos bons homens, podemos acreditar no que quisermos, seremos sempre bons homens, nós os portugueses, somos mesmo, ponha isso na sua cabeça, colega silva,". 
E a conversa continua:

"E a mim ninguém me apanha diminuído como outrora, somos europeus, eu sou um silva da europa, isso é que ainda há muitos que não o são, só porque ainda não o aceitaram ou não o perceberam. mas, sabe o que lhe digo, é inevitável. vai chegar a todos. é tempo, é tempo. um dia seremos cidadãos de um mesmo mundo. iguais, todos iguais e felizes nem que seja por obrigação".

Esta é uma bela introdução, encontrada já no primeiro capítulo, que tem como tema "o fascismo dos bons homens". O romance, ou o livro foi escrito em 1910, mas ele retrocede no tempo, na história de Portugal e na alma portuguesa. Retrocede aos tempos de  ditadura, que passou a régua sobre os indivíduos, tornando a todos bons cidadãos e vai até o Silva da Europa, aos tempos da União Europeia. Passa pelos temas da política, do futebol com as rivalidades entre o Benfica e o Porto, da educação, da família e de seus problemas, das doenças e, acima de tudo, como o tema é a velhice, por ainda encontrar um sentido para a vida, que aos 84 anos se prepara disciplinadamente para a morte, evidentemente, com a ajuda da virgem de Fátima.
Cosac Naify
Capa da edição brasileira de a máquina de fazer espanhois, da Cosacnaify.

O passo mais bem sucedido nesta busca é o encontro com o seu Esteves, o homem sem metafísica, que completou cem anos, para depois morrer. A última noite de seu Esteves, passada com seu Silva, é das páginas mais belas do livro. Duas pessoas a se confortarem. O jogo do homem sem metafísica, tirada de Tabacaria de Álvaro de Campos, está presente em toda a obra, para dizer, essencialmente, que a ditadura é a máquina que rouba a metafísica dos homens. 

Evidentemente que o grande tema de um livro sobre a velhice tenha como tema constante a morte, embora a vida sempre apresente grandes expectativas, mesmo, segundos antes de morrer, quando ocorre a grande retrospectiva da consciência, num fugaz turbilhão da memória. As últimas palavras se referem à transcendência, ou seria sobre a metafísica? "só acredito nos homens. e espero que um dia se arrependam. bastava-me isso, que um dia genuinamente se arrependessem e mudassem de conduta para que fosse possível acreditarem uns nos outros também. mais do que isso, sinto apenas angústia".

Uma última palavra sobre o título a máquina de fazer espanhóis. Talvez o título seja mais compreensivo para os portugueses. Portugal é a grande máquina de fazer espanhóis, talvez por estarem inconformados com o isolamento de Portugal, na ponta da península e num sonho de serem cidadãos do mundo e que isso talvez fosse mais fácil se Portugal nunca tivesse se separado da Espanha. O capítulo 17 tem por título, o próprio título do livro e é o mais curto de todos e a frase mais explícita é esta: "Ó senhor, ainda há disto? Estávamos bem era a falar castelhano, com salários castelhanos e uma princesa bonita para as revistas. Que filha da mãe de erro este de proclamarem soberania nos arremedos de uma península!" A frase foi dita por um inspetor português e em resposta a um espanhol, que se considerava português, para se ver livre da ditadura de Franco.

terça-feira, 18 de março de 2014

O Velho e o Mar. Ernest Hemingway.


Livro para ser lido de um só fôlego. Um pequeno livro, mas profundo em seus significados. É livro que ganhou o prêmio Pulitzer (1953) e de um escritor premiado com o Nobel de literatura, o prêmio de 1954. Logo depois, portanto, da publicação de O Velho e o Mar (1952). Uma obra da maturidade de Ernest Hemingway. A solidão do velho Santiago, a sua amizade com o menino Manolin, os diálogos com os peixes e as aves do mar, em particular com o grande espadarte fisgado, os seus sonhos movidos pelas lembranças de um homem velho e experiente, que se afastam mais rapidamente que as nuvens do céu e, acima de tudo, a sua grande tenacidade em provar, que mesmo depois de velho, ele não pode e não aceita ser considerado como um fracassado. Realiza esforços sobre-humanos, na luta com o espadarte fisgado para provar isto. Em troca recebe o reconhecimento dos companheiros pescadores, mesmo não tendo sobrado nada do peixe, comido pelos tubarões.
Capa do livro O Velho e o Mar. O livro ganhou o prêmio Pulitzer de literatura. Hemingway foi premiado com o Nobel de literatura de 1954.

A história é simples e quase já está contada em único parágrafo. Santiago é um velho e experiente pescador, pelo jeito já meio apartado de seus companheiros, pois, por quase três meses, nada mais pesca de significativo. Só lhe resta a perseverança e a amizade do menino Manolin, a quem ensinara a pescar. Manolin se afeiçoa ao velho, mas como deve obediência ao pai, ele é obrigado a trabalhar em outros barcos, mais produtivos. O velho sente  e sofre com isso, mas não o condena. Mas muito menos ainda, ele entrega os pontos. Depois de exatos 85 dias, pois 85 é o número da sorte, ele novamente se lança ao mar, lamentando não poder acompanhar os resultados do beisebol.

Com o mar mantem uma estreita relação, com o mar, com as aves e com os peixes. O mar em espanhol (ele escreveu o romance em Cuba, antes estivera na Espanha) é feminino, é La mar. Apenas os novos pescadores, ricos e jovens e com altas tecnologias de pesca o chamam de El mar. Mas o mar, como as mulheres é afetado pela lua e é capaz de praticar selvagerias e crueldades. Tem dó das aves, pela difícil vida que levam, exceto as aves de rapina e as mais fortes. Uma das forças do livro são estes diálogos, que estão presentes ao longo de toda a obra. São as suas conversas com a natureza, em sua solidão. Um desses diálogos, possivelmente o mais belo e digno, é o que se dá na luta final com o seu espadarte, este é o nome do peixe fisgado, peixe raro e entre os mais apreciados e de alto valor. A sorte do número 85. O diálogo persiste ao longo de umas dez páginas, e obedece aos movimentos do peixe, em sua busca por liberdade. Vejamos estes diálogos em sua parte final:
Imagem retratando a luta de Santiago com o espadarte fisgado.

"Consegui.Talvez consiga agarrá-lo desta vez. Puxem, mãos. Aguentem, pernas. Faça-me o favor de conservar-se lúcida, cabeça. Aguentem para me fazer um favor. Nunca me traíram. Desta vez vou agarrá-lo. Não, desta maneira não consegue nada. Desta vez tenho de trazê-lo para junto do barco. Já não sou capaz de aguentar muitos outros círculos.  Sim, você pode. Pode aguentar durante toda a vida. Você está me matando, peixe. Mas tem o direito de fazê-lo. Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui. Já agora, velho Santiago, você está ficando com a cabeça muito confusa. Você precisa conservar-se lúcido. Conserve-se lúcido e aprenda a sofrer como um homem. Ou como um peixe".

Mas depois do peixe sob controle, devidamente amarrado ao barco, começa a luta contra os tubarões. Nesta luta perde todas as suas poucas armas e solta outra preciosidade: "Sim você devia ter trazido muitas coisas. Mas não as trouxe, velho. Agora não é o momento de pensar naquilo que você não tem. Pense antes no que pode fazer com aquilo que tem". A luta contra os tubarões é enigmática. Não seria uma alusão ao fato de que todos os resultados do esforço humano acabam sendo abocanhado pelos tubarões?

O velho Santiago e o menino Manolin. Muita afeição e ternura, no aprendizado da pesca.

Mas finalmente o velho Santiago chega ao porto, apenas com a carcaça do peixe. Todos o ajudam, em sinal de respeito ao velho e bom pescador, mesmo que já despojado do resultado do seu trabalho. Existem outras virtudes e qualidades para serem admiradas. Manolin cuida do velho. Lhe providencia café e não permite que os outros pescadores lhe venham perturbar o sono, nem que seja em gesto de congratulação. O livro termina com uma cena de ternura: "O que é aquilo? - perguntou ela (uma turista americana) ao garçom, apontando para o longo esqueleto do grande peixe, que agora não passava de lixo à espera de ser levado pela maré.
-Tiburón - respondeu-lhe o garçom, tentando explicar, em espanhol, o que sucedera. -Tubarões.
-Não sabia que os tubarões tinham caudas tão belas e tão bem formadas - comentou a mulher.
-Eu também não - replicou o companheiro.
Lá em cima, na cabana, o velho estava dormindo de novo, com o rosto escondido no monte de jornais que lhe servia de almofada. O garoto estava sentado a seu lado, observando-o. O velho sonhava com leões".

Ah, sim. Também tem uma lição básica de economia no livro: "-Isso é fácil. Qualquer pessoa me empresta dois dólares e meio", diz Manolin, ao que Santiago retruca: "-A mim também emprestavam. Mas não quero pedir emprestado a ninguém. Primeiro pede-se emprestado. Depois pede-se esmola". Mas deixa eu sair desse campo da economia, senão alguns inescrupulosos palestrantes vão usar estes esforços da persistência de Santiago em suas palestras corporativas de motivação, pretendo aumentar vendas...,ou coisas parecidas.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Grande Beleza. Paolo Sorentino.

Na contracapa da edição portuguesa do livro de Valter Hugo Mãe, a máquina de fazer espanhois, lê-se o seguinte: "A maior parte dos livros são escritos para o público; este é um livro escrito para leitores". O mesmo pode-se dizer com relação ao filme de Paolo Sorentino, a Grande Beleza. Seguramente não é um filme para o público. É um filme para quem gosta de cinema e para quem tem, ao menos, uma mínima compreensão de mundo. A Grande Beleza só poderia falar da beleza e, ela começa com a cidade de Roma e depois vai continuando em sua busca permanente. Encontrá-la não é fácil e nem o filme pretende indicar caminhos. Existe uma cena inicial de um turista que desmaia, diante dos encantos da cidade.


Cartaz de divulgação do filme A Grande Beleza, vencedor de Oscar 2014, de melhor filme estrangeiro.

O filme inicia com um convite, de Céline, escritor meio maldito em função de seu anti semitismo, retirado do livro Viagem ao fim da noite: "Viajar é útil, exercita a imaginação. Aliás à primeira vista todos podem fazer o mesmo. Basta fechar os olhos. É do outro lado da vida". A viagem sugerida é a de um grande olhar sobre a cidade de Roma, sobre a Itália e sobre o mundo. Um olhar não convencional, um olhar de quem se cansou das futilidades do mundo. Do mundo italiano de um Berlusconi e dos outros personagens de um mundo globalizado e pós-moderno. Mas não se preocupe, eles não aparecem no filme. É uma crônica do mundo contemporâneo e de seus valores. O efêmero consagrado do pós-moderno.

O grande personagem do filme é Jep Gambardella, um escritor, que fez enorme sucesso com um único romance O Aparelho Humano. Pelo sucesso do livro e pela sua riqueza a fama e os convites para as festas lhe são garantidos. Este é o cenário para a crônica da vida contemporânea. Tudo é uma única grande festa, tudo é muito grande para que o vazio se instale. Mas este vazio também tem os seus limites, e estes limites passam a ser muito bem explorados. Existe uma frase muito enigmática de Jep, quando este abandona o leito de uma mulher fácil e fútil, afirmando que aos 65 anos, ele não pode mais fazer coisas que ele não queira mais fazer.

Toni Servillo, em magnífica interpretação do escritor Jep Gambardella.

Depois das cenas iniciais, com cenários de Roma e com canto gregoriano na trilha sonora, iniciam as baladas, as festas da alta sociedade italiana e as críticas ferozes e mordazes ao seu estilo de vida e, especialmente, aos seus gostos estéticos. Nada lhe escapa. A vida familiar, representada por uma mãe que quer reconhecimento, às concepções artísticas, com uma atriz nua, a bater a cabeça contra a parede e uma menininha jogando tinta e a esparramando sobre as telas, à religião com a figura da madre de 104 anos, que só se alimenta de raízes porque as raízes são muito importantes, e acima de tudo com a figura do cardeal, candidatíssimo à papa, e preocupado apenas com comidas. Foge a qualquer pergunta que lhe possa  causar incômodos.

Jep trabalha para uma revista dirigida por uma anã. A presença da anã não é em vão. Sempre enxerga o mundo da altura do ponto de vista das crianças, isto é, de homens que não cresceram. Metáforas. Metáforas exigem inteligência. As entrevistas entediavam o próprio Jep. Jep é cobrado por novos romances de valor. Roma, representada pela sua alta sociedade e o mundo dos valores dominantes o ocupam tanto e o impedem na continuidade da carreira. As críticas são inteligentes e ultrapassam a simples ironia, alcançando o escracho. São agressivas, mas nunca chatas. São suscitadas e sugeridas, mas para a sua solução, um único caminho é apontado, a busca da beleza.


Jep Gambardella, com o seu grande amigo Romano.

Desde o lançamento o filme recebe comparações com  a Dolce Vita de Fellini. Esta foi uma das primeiras sensações que senti ao assistir o filme, embora sentindo a falta da Fontana di Trevi e outras paisagens de Roma. Para validar a comparação é apontada a crítica à sociedade italiana como o tema principal e até a atuação de Toni Servillo, o Jep, é posta à altura de um Marcelo Mastroiani.. A comparação com Fellini também remonta aos grandes tempos do cinema italiano no pós guerra, que retornaria, agora neste cenário horrível do mundo globalizado e pós-moderno. O filme não me sai da cabeça. Pretendo assisti-lo numa segunda vez, e sob a iluminação da crítica, perceber novos detalhes.

O filme não é unanimidade. Como afirmei no início, um mínimo de compreensão do mundo é necessário para o assimilar. Se não for assim, atentem para dois comentários que eu li: "Uma bosta, não entendi nada", afirmou uma pessoa  ou então, esta outra afirmação: "É um filme chato, sem ligações. É uma história boba, em um cenário esplêndido". É um filme de autor. Paolo Sorentino é simultaneamente o diretor e o roteirista do filme. Uma coisa da práxis.

E como comecei citando Valter Hugo Mãe, termino também com ele. Além do que já apontei de comum entre o escritor e Paolo Sorrentino, de que eles não atingem o público, também a abordagem do filme e do livro a máquina de fazer espanhois tem como tema a velhice. Jep tem 65 anos  e seu silva, vai para o feliz idade com 84 anos. Jep busca a beleza. Esta é representada por Roma e, acima de tudo, pela beleza de sentimentos puros, como os que tivera em sua juventude. Já seu silva encontra beleza e significado com a amizade que trava com seu esteves, de cem anos de idade.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Vidas Secas. Graciliano Ramos.

Tenho muito orgulho da minha formação. Ela, no entanto, em seus anos iniciais, foi mais doutrinação do que formação propriamente dita. Havia muito zelo para que não houvesse desvios. Ela obedeceu os limites de um currículo. Algumas coisas estavam incluídas e, outras excluídas e muito bem excluídas, entre elas a leitura. Eram os limites que o seminário nos impunha. Como diria Érico Veríssimo, em suas brigas com o clero gaúcho, que eles eram formados para serem vigários nas colônias alemãs e italianas. Depois trabalhei e, trabalhei muito. Praticamente três períodos, a vida toda. Pouco espaço sobrou para a literatura.
 O livro de Graciliano Ramos, da Editora Record. Posfácio de Hermenegildo Bastos. 

Se não me engano, foi com Alberto Manguel que aprendi um truque para não passar tanta vergonha, quando o assunto é literatura. Em vez de dizer que não li, a gente fala, eu preciso reler, ou este eu reli recentemente. Confesso que não uso o truque. Com relação a Vidas Secas, tenho muito de suas imagens em minha memória, não sei bem se da leitura do livro ou de ter visto o filme. Só isso já é suficiente para dizer que o livro é muito forte, deixa profundas impressões. Creio que se a nossa escola realmente ensinasse a ler e se, efetivamente, os alunos lessem, o Brasil seria um país muito mais plural, muito mais tolerante e acima de tudo, muito menos preconceituoso. A leitura, acima de tudo, humaniza.

A cada livro que se lê de Graciliano Ramos parece que se encontra um Graciliano diferente. Se em Angústia tudo está centrado no narrador, em Vidas Secas ele está menos presente, mais distante. Em Vidas Secas a linguagem volta a ser mais seca e árida do que o próprio sertão. Na literatura de Graciliano, muita coisa está oculta. Ele interage e provoca o leitor, como o faz todo o bom escritor. O sertão reificado é o grande tema deste romance. De tão reificado, os personagens humanos, praticamente são seres naturais e com a natureza eles se confundem, como o que ocorre com a cachorra Baleia. Ali sim, dá para dizer, o que se ouve muito, hoje em dia. Ela era como se fosse um membro da família. Para a família ela inclusive deu uma sobrevida, nas duras andanças pelo sertão.
Capa da primeira edição de Vidas Secas, no ano de 1938.

Cinco são os personagens do âmago do livro. Mas ele não se encerra neles. Todo um mundo de relações de dominação da opressiva sociedade capitalista estão presentes. Os cinco personagens são: Fabiano, o retirante, ou o vaqueiro, sinhá Vitória, a de muita sabedoria, os dois filhos, o maior e o menor e Baleia, de muitas falas e de muitos silêncios. O papagaio não conta, ele fora jantado, mas isso não importa, pois, ele não falava... Os demais personagens são os da opressão: o patrão e os tais de juros, pelos quais os acertos de conta nunca batiam, o soldado amarelo, que pôs Fabiano na cadeia, privando-o de liberdade, o dono da venda que o roubava nas medidas, e o fiscal da prefeitura que lhe queria extorquir impostos. Sentia, no entanto, que o mundo não mudaria, se ele matasse o soldado amarelo e todos os que o oprimiam. Teria que matar os chefes deles. A opressão vinha sob a forma de um sistema. Mas a possibilidade do cangaço e, por ele o justiçamento, sempre lhe rondava a imaginação.

O Brasil já foi descrito por outros escritores como uma visão de paraíso. Este romance seguramente é pós edênico. A natureza, em vez de ser generosa e benfazeja, é quase tão hostil, quanto o sistema de relações estabelecidas na sociedade. A natureza não é mera paisagem. Ela é hostil e, sociedade e natureza se juntam para suprimir a liberdade humana. O livro vem acompanhado de um posfácio muito erudito. Examina mais o escritor e procura situar esta obra dentro do universo de Graciliano. Ele aponta que Graciliano tenta mostrar com Vidas Secas, o aprisionamento da liberdade, em um mundo reificado. Este aprisionamento atinge tanto os personagens do livro, como a do escritor, enredado nos cânones literários. Os dois precisam de transformação libertadora. Em Graciliano sempre está presente a ideia de um estética emancipadora. Até para o narrador, as saídas são difíceis dentro de um mundo reificado.

O grande escritor Graciliano Ramos.

Vidas Secas é estruturado em capítulos. Cada um dos cinco personagens tem um. Os outros são para as situações mais marcantes. A crítica costuma atribuir a Graciliano uma visão de mundo muito pessimista. Vidas Secas procura mostrar, no entanto, que só conhecendo todos os limites que um mundo reificado impõe, é que os homens podem alimentar sonhos para além dele, com a sua transformação. Transformação revolucionária, obviamente. Nunca é demais lembrar que Graciliano Ramos era comunista.

Outra coisa notável. O sonho e o desejo está presente ao longo de toda a obra. Os personagens desejam a sua transformação para melhor. Os desejos e os sonhos são pequenos, aparentemente possíveis, se não fosse o mundo reificado. Veja como sinha Vitória se anima fácil: "Outra vez sinha Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro [...] Tinha de passar a vida inteira dormindo em varas?  Bem no meio do catre havia um nó, um calombo grosso na madeira. E ela se encolhia num canto, o marido no outro, não podiam estirar-se no centro. A princípio não se incomodara. Bamba, moída de trabalhos, deitar-se-ia em pregos. Viera, porém, um começo de prosperidade. Comiam, engordavam. [...] e eram quase felizes. Só faltava uma cama".

Até Baleia sonhava: "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E  lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes". Todos alimentavam os seus sonhos, tão pequenos mas praticamente  impossíveis.
Uma biografia maravilhosa - O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, de autoria de Dênis de Moraes.

A imagem da cama como sonho é recorrente em Graciliano. Vejam o encerramento de Angústia: "Acomodavam-se todos. 16.384 (o sonho do bilhete de loteria). Um colchão de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Era uma figurinha insignificante e mexia-se com cuidado para não molestar as outras. 16.384. Íamos descansar. Um colchão de paina." Um colchão de paina e uma cama de lastro de couro. Era tudo o que desejavam.

Vidas Secas, junto com Seara Vermelha, de Jorge Amado e O Quinze, de Rachel de Queiroz formam a grande trilogia brasileira dos romances que apontam as mazelas do latifúndio e das relações econômicas e sociais do sertão nordestino. Também apontam a inclemência da natureza que se manifesta pela seca, pela caatinga, pelo sol e pelos animais peçonhentos. Em Jorge Amado há um descrição fabulosa da caatinga e dos sermões dos beatos, contrastado com o sermão conciliador e acomodador dos padres. O Quinze se refere a uma das maiores secas havidas no sertão. Em comum, os três romancistas professavam o credo e a visão de mundo marxista.

Veja a descrição da caatinga, a hostilidade da natureza, em Seara Vermelha, de Jorge Amado. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-caatinga-seara-vermelha-jorge-amado.html e veja também a resenha do livro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/seara-vermelha-jorge-amado.html
  


quarta-feira, 12 de março de 2014

Angústia. Graciliano Ramos.


Eu estou bem. Não se preocupem comigo. Terminei de ler Angústa, de Graciliano Ramos, uma história de autopunição. Tormentos da consciência. Como o Graciliano sabia fazer bem isso. Lembre-se do dia mais sombrio que você já teve e, nem de longe, você estará perto daquilo que Graciliano apresenta como tormentos da consciência. Já em São Bernardo os ciúmes atormentam Paulo Honório, mas agora, em Angústia, ele se supera. O personagem Luís da Silva, o narrador, consegue aplicar à sua consciência tormentos inigualáveis de sofrimento sem par. Li o livro em duas etapas. Consenti um intervalo, que julguei  extremamente necessário.

Graciliano Ramos. A bela edição da Record.

Já no início do livro o grande tema de que se ocupa fica explícito. De imediato transparece um ódio mortal para com dois personagens: contra Marina, a pessoa de seus amores e, contra Julião Tavares, aproveitador e que lhe rouba a esperança de sua vida, embora, ao que tudo indica, ela jamais o faria feliz. Em linguagem atualizada, diríamos que ela era apaixonada mesmo, pelo cartão de crédito de seu Luís. Mas o de Julião Tavares era mais consistente. O livro expressa a imaginação enraivecida de um ser humano ingênuo, porém apaixonado.

Um dilema me acompanha ao longo da vida. "Vá direto à leitura, interprete você mesmo", me dizem uns, enquanto outros me aconselham buscar interpretações de especialistas. Tive dificuldades em ler o livro. Depois vi a crítica de Antônio Cândido, que considerava Angústia, "um livro excessivo" e me conformei em ter encontrado essa dificuldade. Muito me ficou esclarecido a partir da leitura do comentário do posfácio, escrito por Silviano Santiago. Raras vezes li um texto tão esclarecedor. Em 12 páginas atinge uma profundidade inigualável. Me convenci que Angústia é realmente um livro muito singular, único em toda a literatura brasileira. Não é por nada que atribuem ao velho Graça comparações como o Dostoievski do sertão ou o Tolstoi brasileiro. Silviano faz comparações de técnicas usadas no cinema, que Graciliano teria usado para escrever a sua obra.

Capa de Angústia, em sua primeira edição, pela José Olympio. 1936.

O livro faz duas retrospectivas históricas. Uma da memória recente, em torno de um ano e meio, da atormentada vida do narrador na cidade Maceió, e outra que reconstroi a sua infância, com as atribulações da vida que levara no sertão. O coronel da vida política e familiar o faz abandonar o campo e lhe provoca o desestruturamento e o desenraizamento na vida urbana. A constituição das relações sociais na vida humana é muito pobre. Se reduz a um número mínimo de pessoas, ligadas ao seu mundo de trabalho e ao círculo de suas vizinhanças. Tanto na primeira retrospectiva, quanto na segunda Luís da Silva sempre fora um exímio observador.

Luís até que vivia bem como funcionário público, especialmente, se comparado à miséria ao redor. A vinda para a cidade era para operar verdadeiras transformações revolucionárias. A sua tormenta, no entanto, começa quando conhece Marina, frívola e fútil, até pelas palavras do pai dela. Estas características eram bem visíveis, mas quem domina os seus sentimentos. O ódio para com Marina se estabelece através de um outro personagem, Julião Tavares, um playboy, também em linguagem atualizada. Um rico parasita, a infelicitar meninas pobres, mas sonhadoras. Uma tragédia está anunciada. Uma corda entra e permanece em cena, até a perpetração do crime. Luís da Silva enforca Julião Tavares. Aí começa uma nova história no livro, a da autopunição, a tortura do remorso, a tortura da consciência.
Uma das últimas fotos de Graciliano Ramos em vida.

Não é um livro linear. As memórias se entrecruzam permanentemente, sendo tudo sempre canalizado para a angústia dos desencontros da vida real, de um passado distante, agravado no tempo presente. A felicidade que não conseguiu dar a Madalena, é representada por um bilhete de loteria. Quem quiser arriscar, o número é 16.384. Ele não conseguiu. A sua impotência perante a realidade está assim expressa: "Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino". É o livro mais pessimista do camarada Graciliano.

As quatro últimas palavras de Angústia são reveladoras: "Um colchão de paina". Se o mundo tivesse dado as condições de materialidade ao sonho de Luís, ele teria dado a Marina "um colchão de paina", mas a absoluta irracionalidade da organização econômica do mundo impediu que este sonho se realizasse. Paina é uma fibra semelhante ao algodão, oriundo da paineira. Em linguagem do sul, seria o tradicional colchão de palha de milho, no qual eu dormia na minha infância. Convenhamos que não era muito. Sonhar. Mas este luxo se complementava: "Marina dormiria num colchão de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços".
A magnífica biografia de homem profundamente angustiado.

Silviano ainda traça paralelos entre Angústia (1936) e os outros romances tenentistas, como ele chama os romances que na década de 1930, retratam a vida de jovens que abandonaram a vida rural em busca da vida desenraizada das cidades emergentes. Os outros livros são: O Amanuense Belmiro (1937) de Cyro dos Anjos  e Caminhos Cruzados (1935) de Érico Veríssimo. Os três jovens vivenciaram esta realidade, trocando o interior por Maceió, Belo Horizonte e Porto Alegre, respectivamente.

A transformação da sociedade também passaria pelos conceitos da estética, preocupação permanente em Graciliano. Em Angústia, Luís da Silva critica a frase de Marx e Engels, que encerra o Manifesto, por ela estar gravada sem vírgula e sem traço: Proletários Uni vos em vez de Proletários, uni-vos. Em cada livro, um mundo por descobrir!.



segunda-feira, 10 de março de 2014

O Ateneu. Raul Pompeia

Seguramente uma obra prima incômoda, escrita por um homem atormentado. Creio que esta seria uma forte caracterização em torno desta obra de Raul Pompeia, O Ateneu. Algumas coisas tem que ser ditas para a compreensão da obra. Se tem uma coisa que eu aprendi, é esta, de sempre diante de uma situação ou fato, procurar se situar. Se situar implica fundamentalmente em ver quando este fato - situação, ou no caso, o livro - ocorreu e qual era o contexto histórico deste mesmo período. Segue então a primeira informação. O romance ou "a crônica das saudades" foi escrito em 1888 e o Ateneu era um colégio particular, em que estudavam os filhos da elite do Rio de Janeiro.
O Ateneu, da Penguin&Companhia das Letras. Edição de 2013.

1888, aqui no Brasil, lembra o conturbado período histórico do fim do império, da abolição da escravidão e da proclamação da República. Mundo afora, imperavam as ideias decorrentes da ilustração, do avanço das ciências, do progresso indefinido e da impossibilidade de não surgir um mundo melhor, embora vivêssemos em diferentes estágios deste processo civilizatório. Aqui, a República praticamente foi uma continuidade das mazelas do império. Se a escravidão foi abolida, não foi abolida a sua obra e a mentalidade escravocrata impregnava a mente de, praticamente, todos os pais dos alunos do colégio. No mundo, se anteviam as tragédias do "século breve", que estava por começar. 

O colégio, a escola ou a educação, de uma maneira mais geral, seria a grande propulsora a anunciar os tempos de prosperidade e progresso material e a modeladora do homem moral para este novo e promissor tempo. Imbuído desse espírito um pai leva Sérgio, o narrador, para o colégio. Aristarco o recebe. Aristarco será a figura que encerrará todas as contradições vividas neste período. Um homem simultaneamente gentil e afável, moralista e autoritário, conforme exigia a ocasião. Em Aristarco estão contidas todas as contradições de uma pedagogia bruta.
Cópia da edição da Moderna. A primeira edição data de 1888.

"A crônica das saudades" é um rito de passagem, de um tempo em que se rompe o escudo protetor da família e um tempo de provações, de temperar, moldar e forjar o caráter do futuro homem, necessário ao presente estágio civilizatório. O romance é uma obra prima incômoda, pois, todo ele é uma brutal rejeição à chamada instituição escolar. É um rito de passagem de um sujeito em formação. Se o mundo do final do século XIX era um mundo de certezas, sobre ele também se abre um novo mundo de dúvidas e, perante elas, as certezas se esvaem.

Estão presentes no romance interrogações muito significativas. Pedro Meira Monteiro, na introdução ao livro, assim as manifesta: "[...] 1888, quando O Ateneu veio a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente de forças que nos ultrapassam? Mas de onde  viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza"?


Capa de uma edição portuguesa de O Ateneu.

O livro é estruturado em doze capítulos, que seguem uma lógica do tempo. Começa pelo seu ingresso, como um menino muito bom, o seu começo solitário, de um "Dante sem seu guia Virgílio" e termina com o incêndio de O Ateneu. O incêndio produz a ruína financeira de Aristarco e o fim do colégio, simbolizando certamente, o fim de todo um mundo de valores, em torno dos quais colégio se centrava. A descrição é bela, numa linguagem até barroca, como chegou a ser qualificada. Conta em detalhes, as aulas, os professores, os colegas, as festas, as solenidades de premiações, as beatitudes e, principalmente as mazelas, sempre presentes em maior número.

O livro tem um erudito posfácio escrito por José Paulo Paes, que faz a relação entre o romance escrito e as ilustrações que o próprio Raul Pompeia desenhou para o livro, que são uma bela seta que serve de guia para a leitura. Correlações semióticas. José Paulo Paes centra a condução do romance no rito de passagem entre a criança que aos onze anos entra no colégio, quando rompe com o escudo protetor da família, passa pela proteção dos colegas mais fortes, aos quais se afeiçoa, passa depois por uma relação edipiana com Ema, a esposa de Aristarco, até estar preparado para o mundo pós colégio. É uma obra muito apreciada pelos psicanalistas.

Uma imagem do escritor Raul Pompeia.

Volto à introdução, para a conclusão, ao último parágrafo de Pedro Meira Monteiro: "Talvez, O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha". Sete anos depois de O Ateneu, ou aos trinta e dois anos de idade, Raul Pompeia pôs fim às suas atribulações e tormentos, recorrendo ao suicídio. Que escritor nós perdemos. Ao menos sob o ponto de vista da erudição, o colégio e as suas instituições funcionaram. Mas educação, como formação do ser humano...

De uma coisa o colégio não pode ser acusado, a da formação intelectual ou erudita de seus alunos. Eles conheciam toda a literatura clássica do mundo. Um livro altamente recomendável para todas as pessoas que se preocupam com educação.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Doze Anos de Escravidão. Solomon Northup. O livro.

Na minha infância e juventude, mesmo sendo os anos de minha formação escolar, pouco ouvi falar sobre a escravidão. Esse tema não fazia parte do currículo escolar dos seminários em que eu estudei. Nem os lamentos e clamores de Castro Alves chegaram até nós. Em compensação, dê-lhe declinações de latim e de grego e leitura de vida de santos. Currículo é uma questão de escolhas, de seleção.

Depois, ao longo de minha vida militante e acadêmica, vieram as aproximações. A leitura mais significativa que eu fiz foi o livro de Joaquim Nabuco, O Abolicionismo e os comentários sobre a obra de Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes. Até escrevi a respeito. Obviamente que também passei pelo magnífico Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre e por Darcy Ribeiro e seu maravilhoso O povo brasileiro - a formação e o sentido de Brasil. Recentemente Antônio Cândido me pôs em contato com Kátia de Queirós Mattoso  e o seu imprescindível livro sobre o tema, Ser Escravo no Brasil. 

Solomon Northup e o livro Doze anos de escravidão, com sobrecapa promocional, lançado pela Penguin&Companhia das Letras.

Agora, com o lançamento do filme e a sua indicação para o Oscar de melhor filme, e mais outras oito indicações e a parceria firmada entre o meu blog e a Companhia das letras, assisti ao filme e li o livro, narrado por Solomon Northup, Doze Anos de Escravidão. Como já comentei o filme, fico agora com o livro. O que ele tem de único e particular? Ele é um livro narrado, não por quem estudou e pesquisou sobre o tema, ele é uma narrativa de quem viveu e sofreu os horrores da escravidão em sua pele, principalmente, as dores provocadas pelas chibatadas, além, evidentemente, das dores morais e simbólicas provocadas pela privação da liberdade e do sentimento de impotência na luta pela libertação. Neste sentido, é obra única.

Logo após a introdução ao livro, ao original publicado em 1853, aparece uma espécie de subtítulo, nos seguintes termos: Narrativa de um cidadão de nova York sequestrado em Washington em 1841 e resgatado em 1853 de uma plantação de algodão perto do rio Vermelho, na Louisiana. Este cidadão nascido livre, sequestrado em Washington, às sombras da Casa Branca, e resgatado em Louisiana é Solomon Northup. O período entre o seu sequestro e a sua venda  para o sul escravista, em 1841 e o seu resgate em janeiro de 1853, são os doze anos pelos quais ele passou pela escravidão. E esta é a narrativa do livro, contada em 22 capítulos. Cada capítulo é um pouco da desventura de um homem, nascido livre e transformado em escravo.
A capa do livro Doze anos de Escravidão, o testemunho vivo de Solomon Northup, sobre os anos em que ficou escravizado.

Como homem livre Solomon teve formação escolar. Portanto, sabia ler e escrever. Era casado com Anne e tinha duas filhas e um filho. Caiu numa armadilha, quando buscava trabalho. Relacionava-se bem, nos locais em que trabalhava e isso foi fator decisivo para o seu resgate. A grande preocupação de Solomon é relatar a verdade, com absoluta precisão. A sua capacidade de observar e descrever o observado faz com o livro seja uma magnífica descrição da terrível realidade. A história é dominada pelas chibatadas que esfolavam as carnes de Solomon e dos outros negros. A escrita obedece a uma linearidade sucessiva dos tempos, o que facilita a compreensão.

Solomon, na sua vida de escravo, ganha uma nova identidade sob o nome de Platt Hamilton. Este Platt tinha que ser analfabeto e jamais ter experimentado a liberdade, se um dia quisesse voltar a ser livre. Muito cedo entendeu esta triste realidade. Trabalhou para diversos proprietários, especialmente nos primeiros anos. O primeiro foi W. Ford, um pastor batista, que o tratava bem. Foi vendido para Tibeats, um brutamonte, com quem trava horríveis batalhas. os últimos dez anos ele trabalha para Edwin Epps, um bêbado temperamental, conhecido como "domador de negros". Cada bebedeira, uma irracional desavença, não só com ele, mas com todos os escravos. A vítima maior de seu destempero, no entanto, era Patsey, uma bela e ágil escrava, vítima dupla, tanto da insânia de Epps, quanto dos ciúmes de sua esposa. A maior de todas vítimas.

As descrições são preciosas. As fazendas de algodão, do preparo da terra à colheita, o mesmo acontece  também, com a cana de açúcar. Da mesma forma as casas de escravos, sobre as impossibilidades de fugas e sobre as festividades de natal, em que eram dados de três a seis dias de folga, dependendo do proprietário. Com o mesmo vigor que afirma haver diferença entre diversos proprietários, também se posiciona contra o sistema da escravidão, que a todos embrutece. Impossível entender a escravidão como um sistema amparado tanto pela lei, quanto pela religião. Recusa terminantemente qualquer tipo de justificativa para a escravidão e lamenta que ela tenha ocorrido, exatamente no país que proclama o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
12 Anos de Escravidão : Foto Chiwetel Ejiofor
A musicalidade africana e o violino lhe abrandaram alguns sofrimentos.

Um tributo especial é prestado a Bass, o carpinteiro que trabalhou para Epps e que era abolicionista. Por intermédio dele e da sua postagem de cartas para o norte é que a libertação se tornou possível, com a ajuda do próprio poder do Estado. Depois da libertação, Northup dedicou sua vida às campanhas abolicionistas, especialmente dando palestras, mas os anos finais de sua vida permaneceram desconhecidos. Este e outros dados preciosos são encontrados no posfácio do livro. Ele é de autoria de Henry Lois Gates Jr., que durante a vida inteira pesquisou histórias de afro-americanos, e foi consultor na realização da adaptação desta história para o cinema, sob a direção de Steve McQueen.

Se ao menos a leitura do posfácio pudesse ser feita antes de assistir ao filme, a sua compreensão ficaria extremamente facilitada. Mas o filme e o livro se complementam. O filme tem recursos mais impactantes que a simples escrita mas, da escrita nunca escapam os detalhes, por mínimos que sejam. Esta é a primeira resenha que faço para a Companhia das Letras e vai aí a ficha do Livro: NORTHUP, Solomon. Doze anos de escravidão. São Paulo: Companhia das Letras. 2014. O maior mérito do livro é, só para destacar, o seu caráter testemunhal, vivo, triste, dolorido, vibrante e ternamente significativo. Nem a lei e, muito menos Deus, podem servir de justificativa para o sistema escravidão. O livro tem uma bela dedicatória: "A presente narrativa, que corrobora A Cabana do Pai Tomás, é respeitosamente dedicada a Harriet Beecher Stowe, cujo nome é identificado em todo o mundo com a abolição da escravatura".






Os Vencedores do Oscar 2014.


Melhor filme: Doze anos de escravidão.
Melhor ator: Matthew McConaughey. Clube de Compras Dallas.
Melhor atriz: Cate Blanchet. Blue Jasmine.
Melhor ator coadjuvante: Jared Leto. Clube de Compras Dallas.
Melhor atriz coadjuvante: Lupita Nyongo'o. Doze anos de escravidão.
Melhor diretor: Alfonso Cuarón. Gravidade.
Melhor roteiro original: Ela. Spike Jonze.
Melhor roteiro adaptado. Doze anos de escravidão.
Melhor animação: Frozen - Uma aventura congelante.
Melhor filme estrangeiro. A Grande Beleza. Itália.
Melhor documentário. A um passo do estrelato.
Melhor documentário de curta metragem. The Lady in Number 6: Music Saved My Life.
Melhor trilha sonora. Steven Price. Gravidade.
Melhor canção original. Let it Go. Frozen.
Melhor figurino. O grande Gatsby.
Melhor cabelo e maquiagem. Clube de Compras Dallas.
Melhor curta. Hellium.
Melhor curta de animação. Mr. Hublot.
Melhor edição. Gravidade
Melhores efeitos visuais. Gravidade.
Melhor fotografia. Gravidade.
Melhor desenho de produção. O grande Gatsby.
Melhor edição de som. Gravidade.
Melhor mixagem de som. Gravidade.

O mais premiado foi Gravidade. Prêmios técnicos. Não gostei do filme. Justo e merecido o prêmio para Doze anos de escravidão, como melhor filme.