terça-feira, 25 de março de 2014

O Dinheiro. Marx, Goethe e Shakespeare. Uma execração.


Um dos mais belos e profundos textos de Marx são os seus Manuscritos Econômico-filosóficos. Um dos temas neles abordados é o dinheiro. Quando a ele faz as suas execrações, recorre a Goethe e a Shakespeare. Marx o considera como um senhor onipotente. Vejamos Marx: /XLI/
Marx em suas análises sobre o onipotente dinheiro.

 "Se as sensações, paixões, etc., do homem são apenas determinações antropológicas em sentido estrito, mas sim na verdade afirmações antropológicas do ser (natureza) e se só se afirmam realmente pelo fato de que seu objeto é sensível para elas, então é claro: 1.º) que o modo de sua afirmação nem é em absoluto um e o mesmo, mas que, muito mais o modo diverso da afirmação constitui a peculiaridade de seu modo de existência, de sua vida; o modo pelo qual o objeto é para elas, é o modo particular do seu gozo; 2.º) ali onde a afirmação sensível é superação direta do objeto em sua forma independente (comer, beber, elaborar o objeto, etc), é esta a afirmação do objeto; 3.º) enquanto o homem é humano, enquanto é humana sua sensação, etc., a afirmação do objeto por outro é, da mesma forma, seu próprio gozo; 4.º) só por meio da indústria desenvolvida, isto é, pela mediação da propriedade privada, constitui-se a essência ontológica da paixão humana, tanto em sua totalidade como em sua humanidade; a própria ciência do homem é, pois, um produto da auto-afirmação valente do homem; 5.º) o sentido da propriedade privada - desembaraçada da sua alienação - é o modo de existência dos objetos essenciais para o homem, tanto como objeto do gozo, quanto como objeto da atividade.

 "O dinheiro, enquanto possui a propriedade de comprar tudo, enquanto possui a propriedade de apropriar-se de todos os objetos, é, pois, o objeto por excelência. A universalidade de sua qualidade é a onipotência de sua essência; ele vale, pois, como ser onipotente (...) O dinheiro é o proxeneta entre a necessidade e o objeto, entre a vida e os meios do homem. Mas o que me serve de meio para minha vida, serve também de meio para o modo de existência dos outros homens para mim. Isto é para mim o outro homem. Aí segue a citação de Goethe:
"Não são minhas as tuas forças"? As indagações de Goethe.

"Que diabo! Claro que mãos e pés
e cabeça e traseiro são teus!
Mas tudo isto que eu tranquilamente gozo
é por isso menos meu?
Se posso pagar seis cavalos,
não são minhas tuas forças? Ponho-me a correr e sou um verdadeiro senhor,
como se tivesse vinte e quatro pernas". Goethe, Fausto (Mefistófeles).

Goethe só poderia ter posto estas frases na boca de Mefistófeles. Mas Marx emenda imediatamente com Shakespeare, em Timão de Atenas:
A mais violenta das execrações do dinheiro, sobre a sua capacidade de tudo subverter.

"Ouro! amarelo, reluzente, precioso ouro!
Não, deuses, não faço súplicas em vão (...)
Assim, um tanto disto tornará o preto branco,
o repugnante belo, o errado certo, o vil nobre, 
o velho jovem, o covarde valente(...).
Por que isto arrancará vossos sacerdotes e 
servidores de vossos lados, arrebatará coxins
de sob a cabeça de homens corpulentos: este
escravo amarelo tecerá e despedaçará religiões;
abençoará os amaldiçoados; fará a alvacenta
lepra adorada; levará ladrões, dando-lhes
título, reverência e aprovação, ao banco
dos senadores; isto é o que faz a desgastada viúva casar-se novamente; a ela, para quem
o lazarento e ulcerosas feridas abririam
a goela, isto perfuma e condimenta para
o dia de abril novamente. Vem, elemento
danado, tu, vulgar rameira da humanidade,
que instalas a disputa na multidão de 
nações (...)".

E mais adiante:

"Ó tu, doce regicida e caro divórcio entre
filho e senhor! tu, brilhante violador do
mais casto leito de Hímen! Tu, Marte valente!
Tu, sempre jovem, loução, amado e delicado
sedutor, cujo rubor derrete a neve
consagrada que jaz no regaço de Diana!
tu, deus visível, que soldas impossibilidades
e fá-las beijarem-se! que falas com toda língua
para todo propósito! ó tu, contato de corações!
pensa, teu escravo, o homem se rebela, e
por tua virtude eles entram em tais confusas
disputas, que as bestas poderão ter o mundo
sob império".

Aí seguem as explicações. Dou a fonte: MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos - e outros textos escolhidos. - São Paulo: Abril S.A. Cultural.  1985. Coleção Os pensadores. As páginas da citação são 28 a 30 e as explicações seguem até a página 32.


4 comentários:

  1. Embora não tenha entendido bem, agradeço o comentário.

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  2. No meu entendimento, o núcleo da questão está na ignorância, alheia, sobre o outro do qual a unidade de valor se metamorfisa sob a total singularidade, tentado; -"só tentando". Enganar a verdadeira intensao hominidia. -A vontade de poder sobre o outro.

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  3. Alteridade é uma palavra fundamental da filosofia.

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