quinta-feira, 12 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 28. Minha formação. Joaquim Nabuco.

 Este é o vigésimo oitavo trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha de Maria Alice Rezende de Carvalho, historiadora, socióloga e professora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), do livro Minha formação de Joaquim Nabuco. A resenha encontra-se em  Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico de Joaquim Nabuco, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, volume II, nas páginas 219 a 236. É o terceiro comparecimento de Joaquim Nabuco na seleção desses livros de Introdução ao Brasil. Isso, por si só, mostra a sua importância. O livro foi publicado no ano de 1900. Ele se constitui de 26 capítulos, que anteriormente já haviam sido artigos de jornais, escritos ao longo dos anos 1893 a 1899.

Minha formação. Joaquim Nabuco. O livro aqui resenhado.

O livro reflete as decepções do autor com a incipiente República, decepções que o afastaram do cenário político para um retiro em Petrópolis, onde escreveu essas suas memórias. Elas são um chamamento ao país, para um estudo sobre o seu passado e uma projeção para o seu futuro. Como veremos, era um monarquista convicto e a sua decepção com a República tinha causas específicas. A militarização e o caráter violento e personalista que a afetou, além do não cumprimento das reformas que ele havia proposto em O Abolicionismo, para acabar, não só com a escravidão, mas também com a sua obra.

No prefácio ele mesmo apresenta o teor do livro; "havendo nele ideias, modos de ver, estados de espírito de cada um desses anos" (1893 a 1899). Inicialmente não teve grande repercussão, mas ele se afirmou posteriormente. A resenhista qualifica o livro como um livro de persuasão. Ele tenta persuadir a elite brasileira da necessidade da continuidade das reformas do Segundo Reinado e, assim evitar o perigo dos caminhos revolucionários. Temia a República por considerá-la impregnada do racionalismo jacobino dos franceses. Queria evitar uma condução afoita do país. O autor, logo nos primeiros capítulos, procura mostrar a origem de suas convicções. Considero essa busca algo fascinante quando se estuda a questão da formação.

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. Nesse livro, a resenha em questão.

Ele confessa que na juventude vacilou. Deixou-se encantar por autores republicanos franceses e pelos princípios da Revolução. Era ela que iluminava o mundo. Mas este é o momento em que volta os seus estudos para a monarquia inglesa. Ela representava uma garantia para a democracia sem os perigos da Revolução. Por óbvio, uma monarquia constitucional, uma adaptação da política aos ditames do mundo moderno. O seu espírito reformista foi uma herança recebida de seu pai, influente político do Segundo Reinado. Nota-se em sua formação, uma verdadeira anglofilia. Segundo ele, foi a monarquia inglesa que melhor se adaptou na incorporação dos princípios democráticos do mundo liberal. Superior, portanto, aos feitos dos franceses e dos Estados Unidos. A firmeza de sua convicção monarquista lhe veio através do pensador inglês, Bagehot (1826-1877 - estudioso das relações entre o Parlamento e a Monarquia), discípulo de Montesquieu. Vejam a força da influência das leituras. O seu espírito reformista almejava uma sociedade não hierarquizada, não cristalizada em estamentos, regida pelo equilíbrio provocado pela prosperidade que seria gerada pela execução dos princípios liberais.

Muito cedo conheceu o mundo. (o seu programa "Ciência sem fronteiras"). O peso da sapientia mundi caiu sobre ele. Vivenciou por dentro os princípios da cultura ocidental. Ele assim relata essa experiência: "Em 1873 [...] a minha ambição de conhecer homens célebres de toda ordem era sem limites; eu tê-los-ia ido procurar ao fim do mundo. Do mesmo modo com os lugares. O que eu queria ver eram todas as vistas do globo, tudo o que tem arrancado um grito de admiração a um viajante inteligente. Nessa qualidade de câmara fotográfica, só lastimava não ter o dom da ubiquidade". Esses anos foram descritos como anos de muito "prazer, da embriaguez do viver, da curiosidade do mundo". Assim ele consolidou uma visão aristocrática da vida, e o espírito revolucionário se esvaiu por completo. Na Itália entrou em contato com o senso estético e na França com as letras, com o convívio social e a boemia. O cosmopolitismo europeu lhe firmara as crenças liberais e a convicção de que a literatura e a política caminhavam juntas. Também lhe marcou a sua identidade de um intelectual do mundo periférico.

As viagens faziam parte de uma tradição familiar. No velho mundo buscou as "reminiscências da trajetória humana" e dividiu a sua imaginação: "de um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação europeia". Para ele: "as paisagens do Novo Mundo, a floresta amazônica ou os pampas argentinos, não valem um trecho da Via Appia, uma volta na estrada de Salerno a Amalfi, um pedaço de cais do Sena, à sombra do velho Louvre". Um viver como imaginação, na busca da integração entre o regional e o universal. E um grande não ao nativismo romântico do Segundo Reinado (José de Alencar).

Essa é a trajetória de formação do grande intelectual, intelectualidade formada no convívio com os mais famosos nomes do mundo cultural e a vivência em cidades como Paris, Londres e Nova York. A sua preferência é explicitamente manifestada em favor de Londres, por seu apreço à liberdade e pela ordem. Dos Estados Unidos ele nos traz duas interessantes constatações. A primeira é sobre o excesso de preocupação com o mundo material, constatação que ele atenua em razão de ainda viverem na fase de sua juventude. A segunda, diz razão à liberdade individual, totalmente voltada ao business. Também criticou o tratamento dado a seus vizinhos México e Cuba.

A parte final do livro é destinada ás suas convicções religiosas e às memórias de sua infância no engenho Massangana (Cabo de Santo Agostinho). Ali se formaram suas convicções morais e o seu repúdio às relações escravistas. Vejamos a descrição de uma cena de sua infância: "Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça a meus pés, suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi esse o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava".

Essa foi a sua infância. Foi vivida entre a beleza da vida no engenho, junto à indignidade da escravidão. A indignação lhe veio primeiramente pelo sentimento, depois pela razão. Adquiriu, conforme diz, uma dívida contraída em menino. Em 1884 volta a se eleger deputado, sendo deputado de uma causa só, a causa da abolição. Era o suficiente. A abolição foi o grande tema de sua vida e de O abolicionismo, o seu grande livro. Ele formou a quarta geração de uma família dedicada à política. O seu grande legado foi o de implantar aqui, o espírito pacífico das reformas sociais oriundas da monarquia inglesa e não as do espírito revolucionário jacobino dos franceses. Creio que a principal questão, a do Porquê ele ser monarquista e reformista está bem detalhada. E, aqui, até hoje, apenas reformas conservadoras no interesse de uma elite, A elite do atraso, como nos mostra Jessé de Souza.. Deixo aqui dois links. O primeiro, da resenha de O abolicionismo

 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-26-o.html 

O segundo, como de hábito, a última resenha publicada - História da literatura brasileira de Sílvio Romero. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-27-historia-da.html

Em tempo, um terceiro link, que são as memórias de sua filha Carolina, Oito décadas. Vale muito ver.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/8-decadas-carolina-nabuco.html


Um banquete no trópico. 27. História da literatura brasileira. Sílvio Romero.

 Este é o vigésimo sétimo trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Benjamin Abdala Júnior, professor de Estudos Comparados de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo, da obra História da literatura brasileira, de Sílvio Romero. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, volume II, nas páginas 191 a 217. O livro aparece logo após a proclamação da República e, muito mais do que apenas literatura, ele nos dá um amplo panorama de toda a cultura brasileira do período. O livro manifesta o pensamento da época e, por isso mesmo, extremamente polêmico. Ah! A tese do branqueamento.

História da literatura brasileira. Sílvio Romero. O livro aqui resenhado.

Antes de mais nada, algumas considerações sobre a resenha. Mais uma vez, ela traz algumas páginas a mais do que o comum das resenhas do livro. É fácil de compreender. O tema é de muita complexidade e pode levar a interpretações preconceituosas com relação ao autor. Pelo que eu entendi, ele reconhece o valor do negro e do índio, mas defende o branqueamento pela via da miscigenação. Assim o povo brasileiro, mestiço em sua identidade, adquiriria cada vez mais a marca da cultura "superior" europeia, com a marca da sua cor branca. São as crenças raciais da época, do século XIX, tomadas pelas teorias evolucionistas. Um tema de difícil abordagem sob os olhares de hoje. O resenhista é cauteloso na análise.

Ele começa citando Ariano Suassuna. Com ele faz a abordagem inicial sobre o autor. Suassuna fala dos erros cometidos por Euclides da Cunha e que persistiram em Gilberto Freyre. Eles afirmaram a superioridade racial dos portugueses aos africanos e indígenas. Ele atribui esses erros a uma herança recebida de Sílvio Romero, de sua convicção e valorização do "branqueamento". Suassuna, porém, lhe reconhece méritos, pelo reconhecimento de que negros e ameríndios constituem, sim, a identidade do povo brasileiro. Seria, assim, o começo de uma superação do reacionarismo da superioridade racial eurocêntrica, dominante ao longo do século XIX, com prolongamentos ainda ao século XX. 

O resenhista, em seguida, apresenta o objetivo da sua resenha. Mostrar as ambiguidades de Romero e, historicizá-las. Essas ambiguidades são provenientes das convicções de uma época e, por isso, não anulam os grandes subsídios que o livro trouxe para os estudos da formação do caráter nacional. Seus erros são os erros de toda uma elite dominante. Assim o livro também é uma fonte para se estudar esse pensamento dominante. Também destaca méritos metodológicos e a síntese dos fatos que é apresentada. Para efeitos de facilitar o acompanhamento da resenha, dou os títulos dos temas que o resenhista apresenta: 1. um polemista; 2. a ideia de sistema; 3. um sentimento de missão; 4. os períodos; 5. o período de formação; 6. a transformação romântica; 6. a mestiçagem como critério de unidade; 7. branqueamento, a máscara da mestiçagem: 7. as influências estrangeiras; 8. a cultura popular; 10 nacionalidade; 11. Cruz e Sousa e Euclides da Cunha; 12. Hibridismo, uma questão nacional.

Vamos pelos tópicos: 1. Um polemista. A polêmica era o seu método. Provocava o movimento do pensamento, em busca do aperfeiçoamento. Provinha de suas convicções do naturalismo evolucionista. A obra literária é como um corpo em evolução com tendências à uniformidade. Antônio Cândido vê nele um pensador não linear, mas com idas e vindas. Ele tem algo de dialético em busca de sínteses satisfatórias. Jogava pedras, mesmo injustificadas, para dar continuidade aos debates dos temas em questão. O seu ponto de observação da cultura brasileira era a partir do Rio de Janeiro, onde se estabeleceu. Ele nasceu em 1851 na cidade de Lagarto (SE), se formou em Direito em Recife e, na vida profissional exerceu sempre intensas atividades culturais, como promotor, como professor do Colégio Pedro II e como político. É um dos fundadores do grupo "Escola do Recife".

2. Uma ideia de sistema. A sua obra é uma evolução natural de sua personalidade, de sua vida. Seguiu os modelos biológicos, de acordo com suas convicções. A literatura é assim vista como um produto cultural subordinado aos fatos históricos, a determinações político-sociais. Vejamos, de acordo com o próprio autor: "Não resta a menor dúvida que a história deve ser encarada como um problema de biologia; mas a biologia aí se transforma em psicologia e esta em sociologia; há um jogo de ações e reações no mundo objetivo sobre o subjetivo e vice-versa; há uma multidão de causas móbeis e variáveis capazes de desorientar o espírito mais observador". 

3. O sentimento de missão. Ele escreve como um dever que se impôs. Era preciso romper com as visões tradicionais. Os feitos do povo negro não poderiam ser apropriados pelas elites. Vejamos: "Singular destino da raça negra no Brasil. Alimentou o branco, deu-lhe dinheiro durante quatro séculos e agora por último dá fama aos gananciosos de nomeada fácil, dá glória aos espertos". Aí aborda a questão da abolição com a pergunta de quem foram os seus autores. Vejamos a sua resposta, nas palavras do resenhista: "A abolição, segundo ele, veio da pressão do conjunto, que já ia libertando os escravos nas fazendas e nos Estados - a tal ponto chegou que, se os políticos não o fizessem logo, não encontraria mais a quem libertar. Coloca como vitória de um sistema evolutivo: a abolição progressiva, espontânea, popular". Queria transmitir, a quem se dirigia, sentimentos de libertação. Antônio Candido assim o descreve: "libertação do peso das raças 'inferiores', libertação da inclemência do clima, libertação do ensino jesuítico e retórico, libertação dos vícios políticos coloniais, libertação do servilismo à França, libertação dos exageros românticos". Pretendeu fazer uma fusão entre o materialismo e o idealismo, um pseudo naturalismo. Os fatos sociais iam para além de cristais de rocha. O possibilismo venceria o determinismo.

4. Os períodos da literatura brasileira. O primeiro destaque do resenhista vai para o conceito mais amplo de literatura que o autor defende. Ele inclui economistas, publicitários, juristas, linguistas, moralistas, biógrafos e teólogos. Hoje não. Hoje há os vários campos do conhecimento. O grande livro da história da literatura virá posteriormente com Antônio Cândido. Apresento o link ao final do parágrafo. A classificação de Sílvio Romero nos apresenta  como o primeiro período, o de sua formação - primeira época (1500-1750). Nela é narrada a adaptação do homem aos trópicos, começando com José de Anchieta e os demais jesuítas. O grande nome do período é, no entanto, para ele, Gregório de Matos, o fundador da literatura brasileira, por causa de seu caráter nacionalista. Detesta o padre Antônio Vieira, que ele considera como pedante e arrogante. Uma segunda fase ocorre com os mineiros do ciclo do ouro (1750- 1830). É a poesia patriótica. O link do livro de Antônio Cândido Formação da literatura brasileira. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico17-formacao-da.html

5. O quinto tópico - período de transformação romântica e reações antirromânticas é considerado como a terceira fase e ganha várias subdivisões. É um período de grande presença de portugueses e franceses. Cita alguns nomes e lhes apresenta as características. Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo...  Tece pesadas críticas a Machado de Assis, totalmente infundadas, segundo o resenhista. Vejamos: "O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem". Segue depois o período antirromântico.

6. No sexto tópico defende o unitarismo contra o federalismo e critica a cópia dos modelos norte americanos. O federalismo permite a formação das oligarquias regionais. mas a grande ideia do tópico é a defesa da mestiçagem, da qual vem a força da unidade nacional, numa unidade de sangue e de língua. Forma-se o genuíno brasileiro. Vejamos a descrição: "Constituímos uma nação de mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e prevalecerá; quero dizer apenas que o europeu aliou-se a outras raças, e desta união saiu o genuíno brasileiro, aquele que não se confunde mais com o português e sobre o qual repousa o nosso futuro". Este genuíno brasileiro é formado pelo português, pelo negro, pelo índio, pelo meio físico e pelas imitações estrangeiras.

7. O branqueamento seria, segundo Sílvio Romero uma consequência do tempo. Ele viria com o fim do tráfico e pelo desaparecimento das populações indígenas. O legítimo brasileiro adquiriria a feição branca. Hoje é um conceito totalmente superado. Está em voga o caráter multicultural do povo brasileiro. Sílvio Romero chegou a negar a latinidade da nossa cultura.

8. A nossa cultura é uma transformação da cultura europeia. Afinal, foram três séculos de domínio colonial. Adaptamos a cultura da metrópole e das influências que ela recebeu da cultura francesa e pelos franceses, das demais culturas europeias. Miramos mais para fora do que para dentro. Tudo em prejuízo do nacional. Por essas influências somos um país em ruínas: "lavoura decadente, comércio na mão dos estrangeiros e uma atmosfera de opressão social contra os proletários rurais.

9. Pelas razões do item 8, ele era um grande admirador da cultura popular e um grande pesquisador da mesma. São as roupagens de um povo. Suas recolhas inspiraram Mário de Andrade. Vejamos uma visão sua: "Romances e xácaras se nos deparam por este Brasil em fora que são casos irrefragáveis dessa espécie de hibridização. São produtos recentes de nossas atuais populações mestiçadas, moldados sobre velhos elementos tradicionais, inteiramente transformados pelos cantores modernos, caipiras, tabaréus, matutos ou sertanejos. São as genuínas manifestações da nacionalidade. 

10. Faz a defesa do pensar nacional, do pensar por conta própria. Faz belas exaltações à cultura nordestina, a popular, e não a que provem dos latifúndios. Ele lança um olhar citadino, de alguém que ascendeu socialmente, pela via das profissões liberais, que rechaça as oligarquias provenientes dos latifúndios.

11. A exaltação a Cruz e Sousa e Euclides da Cunha, procedentes da poesia e da prosa. Eles são, em detrimento de outros, exaltação aos ideais da mestiçagem, que eles reconhecem. São almas cândidas, homens síntese do povo brasileiro.

12. Em hibridismo - uma questão atual, o resenhista volta à defesa do autor. Vejamos; "Para concluir, convém relevar o significado histórico-cultural da História da literatura brasileira, uma obra que vale como uma síntese da literatura e da cultura do país, publicada nos inícios da República. Era esse momento de sonhos libertários e de defesa de uma metodologia científica para as ciências humanas que imprimiu as motivações de fundo para o projeto de Sílvio Romero. Um projeto que não se fechava em si, pois que o autor tinha consciência de sua historicidade, revisando-a, reformando-a. Conformada sua estrutura, a obra tornou-se contexto, isto é, ponto de partida crítico para outros estudiosos da literatura e da cultura do país".

Outro reconhecimento que lhe devemos é o do pioneirismo de seus estudos sobre a cultura brasileira e a inserção nela dos temas da mestiçagem e do hibridismo cultural. Isso, em muito perdoa seus erros e suas ambiguidades. É também uma herança sua o voltar-se para dentro, para os grandes temas nacionais. Volto a dizer, um pensador extremamente complexo e polêmico, pioneiro em muitos dos temas abordados. E, um belo e erudito trabalho do resenhista. E, como de hábito, a análise do trabalho anterior, de Joaquim Nabuco, O abolicionismo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-26-o.html


Um banquete no trópico. 26. O abolicionismo. Joaquim Nabuco.

 Este é o vigésimo sexto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus Araraquara, da obra O abolicionismo, de Joaquim Nabuco. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume IIlivro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 167 a 190. O abolicionismo aparece no fervor das lutas em favor da libertação dos escravizados, oferecendo subsídios para as campanhas, no ano de 1883. É considerado o mais importante livro sobre o Brasil, escrito ao longo de todo o século XIX. Na minha modesta concepção, trata-se de um dos mais importantes livros, entre todos os que buscam explicações para o Brasil do passado e o Brasil de hoje. Grande Joaquim Nabuco. Ele nasceu no Recife (1849) e morreu em Washington (1910). 

O abolicionismo. Joaquim Nabuco. O livro da resenha.

O resenhista começa o seu trabalho fazendo uma contextualização da época de sua escrita, o ano de 1882 (a publicação é de 1883). O movimento abolicionista estava em crise, atravessando uma fase de profundo marasmo e calmaria e mesmo de indiferença. Era, no entanto, um momento favorável à causa, em virtude da conjuntura internacional, em meio a uma racionalidade industrial e de trabalho livre. A escravidão no Brasil era, portanto, uma instituição fora do tempo, já que o Brasil também estava dando seus passos em busca da mesma racionalidade. No plano abstrato, todos eram abolicionistas, mas na efetividade dos fatos, o Imperador e o Parlamento titubeavam e os republicanos se esquivavam. Temiam perdas. O próprio Nabuco, em 1881, perdera a sua cadeira no Parlamento.

Aos 30 anos bradava: "A grande questão para a democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão". Os escravocratas ainda detinham muito poder e os abolicionistas careciam de fundamentos teóricos e pragmáticos para embasar a campanha. No prefácio assim ele apresenta o livro: "sementes de liberdade, direito e justiça". E faz a convocação para que todos formem "uma só legião" para "apressar, ainda que seja de uma hora, o dia em que vejamos a Independência, completada pela Abolição e o Brasil elevado à dignidade de país livre". Faz, portanto, uma crítica às instituições escravagistas, uma defesa apaixonada da libertação, oferecendo para isso a qualificação dos discursos. A escravidão a tudo degradava.

Introdução ao Trópico - Um banquete no trópico. Nesse livro a resenha em questão.

A forma da apresentação da resenha está focada em quatro grandes tópicos, tidos como os alicerces contra a escravidão. 1. A escravidão como fato global; 2. A escravidão como um veto à liberdade; 3. A abolição deveria se fundamentar em indignação ética e pragmatismo político; 4. O abolicionismo deveria vir acompanhado de uma ampla reforma da sociedade. Esse quarto tópico é assim sintetizado em um discurso seu, em sua campanha de 1884: "Não nos basta acabar com a escravidão; é preciso destruir a obra da escravidão". O livro não é longo. O exemplar de que disponho tem 183 páginas, divididas em 17 capítulos. Os tópicos alinhavados pelo resenhista não são títulos de capítulos.

No tópico sobre a escravidão como fato global são mostrados os estragos causados pela instituição da escravidão, do fato de ela existir. Ela deturpa a nacionalidade, o território, a população, a sociedade e a política. Ela além de ilegítima e ilegal, promove também a ruína econômica e impede o avanço do progresso. "Habitua o país ao servilismo, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias, desvia os capitais de seu curso natural, excita o ódio entre classes, produz uma aparência ilusória de ordem, bem-estar e riqueza, a qual encobre os abismos da anarquia moral, miséria e destruição". A escravidão forma "uma nação de proletários". E ainda, "O caráter de sua cultura é a improvidência, a rotina, a indiferença pela máquina, o mais completo desprezo pelos interesses do futuro, a ambição de tirar o maior lucro imediato com o menor trabalho possível, qualquer que seja o prejuízo das gerações seguintes". Quanto ao território, a escravidão extenua o país e quanto ao tecido social, suga todas as energias dos envolvidos. Forma o inexistente cidadão brasileiro. Fechava as portas para uma sociedade plural, sob a aparência de um governo livre e de uma paródia de democracia. Assim, liberal como era, fez a denúncia de um liberalismo mentiroso. Escravidão é sinônimo de degradação total e de tudo.

O segundo tópico, um veto ao povo e à liberdade, não é menos incisivo. O hábito da escravidão gera o desprezo pela liberdade, impede a autonomia e faz abdicar das funções cívicas, da preocupação política e da responsabilidade social. Em sua campanha de 1844 era categórico em afirmar os resultados da escravidão nesse campo. "Ela só pode ser administrada com brandura relativa quando os escravos obedecem cegamente e sujeitam-se a tudo; a menor reflexão destes, porém, desperta em toda a sua ferocidade o monstro adormecido. É que a escravidão só pode existir pelo terror absoluto infundido na alma do homem". Por isso mesmo a campanha da abolição só podia ser dirigida a homens livres. Caso fosse feita pelos escravos, levaria à insurreição. Nabuco pregava a reforma que interessava a todos. Em suma, "a escravidão  corrompia os governos, tornava egoísta a sociedade e bloqueava a iniciativa da massa escrava, forçando-a à ignorância, à passividade e à resignação. Como então acabar com ela? Quais seriam seus sujeitos, seus protagonistas, seus animadores.

O terceiro tópico, o da indignação ética e pragmatismo político, se relaciona com a administração da abolição. Os estragos da escravidão, por si só, deveriam garantir a luta pela abolição. Ela prejudicava a todos, especialmente, os mais envolvidos: Coroa, latifundiários e, obviamente, os escravos. Pela conjuntura internacional ela não mais viveria em paz. Ela teria que corromper e corromper-se. Aí passa a analisar a administração da abolição por uma série de medidas protelatórias. Define a Lei do Ventre Livre (1871) e a dos Sexagenários (1884) como leis de berço e de túmulo. Elas não atingiam ninguém. Essas medidas eram como a Divina Comédia, amputada do Paraíso. Só tinham Inferno e Purgatório. Foram mais de dez anos de protelações. A campanha deveria se fazer por meio de uma agitação permanente, por uma frente que envolvesse a todos, especialmente, os agentes políticos. A campanha deveria ser assumida por todos como "a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política". Ela deveria ser feita pelo Poder, pela Coroa, tendo o Parlamento como a sua tribuna.

No quarto tópico, o abolicionismo como reforma social, aparece o seu programa de emancipação dos escravos libertos. Aí aparece uma das frases mais marcantes de Nabuco, pronunciada na sua campanha de 1884. "Não basta acabar com a escravidão; é preciso destruir a obra da escravidão". Era preciso um trabalho completo para efetivar a emancipação, da qual a abolição era apenas a tarefa mais imediata. Para ela ser completa anuncia o seu programa de reformas sociais. Para apagar o vestígio de trezentos anos, a primeira medida seria a do "derramamento universal da instrução". As reformas deveriam ser profundas com a alteração de todas as "estruturas da sociedade, os hábitos e as hierarquias, as instituições e os valores". Seria inimaginável conceber a abolição sem uma reforma agrária, que seria a constituição da democracia rural", pela difusão da pequena propriedade do campo, na qual hoje, em contraposição ao agronegócio, se firma a chamada agricultura familiar. Além disso, uma legislação trabalhista e previdenciária seriam necessárias para completar esse quadro de reformas. Esse processo jamais se daria por geração espontânea. Deveriam ser medidas induzidas pelo Estado.

Ao não se fazer essas reformas, abolindo apenas o fato da existência da escravidão, seria "manter um foco de infecção moral permanente no meio da sociedade, tornando endêmico o servilismo e a exploração do homem pelo homem". As reformas decisivas "não poderão ser realizadas de um jacto, aos aplausos da multidão, na praça pública". Terão de ser executadas "dia por dia, noite por noite, obscuramente, anonimamente, no segredo de nossas vidas, na penumbra da família, sem outro aplauso, nem outra recompensa, senão os da consciência avigorada, moralizada e disciplinada, ao mesmo tempo viril e humana". Só assim teríamos "um povo forte, inteligente, patriota e livre. Só assim seria possível "suprimir efetivamente a escravidão da constituição social".

Anuncia ainda os resultados finais da primeira etapa da abolição. 8 de maio - apresentação da proposta; 9 de maio, aprovação na Câmara; 11 de maio, aprovação no senado; 13 de maio, aprovação por Lei Extraordinária, em pleno dia de domingo. Com a não implementação de seu plano de reformas e com a proclamação da República, num "espírito jacobino" e "militarismo plebeu", Nabuco se afasta da vida política, continuando como um "monarquista ortodoxo e melancólico", na classificação dada pelo resenhista. Em 1899 volta ao governo para cumprir missões diplomáticas.

Na coleção de livros Grandes nomes do pensamento brasileiro, publicado pela Folha de S.Paulo, por ocasião das comemorações dos 500 anos do "descobrimento", O abolicionismo está incluído. É a edição que tenho. Dela seleciono dois parágrafos da apresentação, escrita por Leonardo Dantas Silva, da Fundação Joaquim Nabuco. O primeiro é uma citação do estudioso das questões pernambucanas, Evaldo Cabral de Mello. "Ele foi, com efeito, o primeiro a articular uma visão totalizadora da nossa formação histórica, fazendo-a a partir do regime servil. Nessa perspectiva, a escravidão não constitui um fenômeno a mais, inegavelmente relevante mas devendo ser levado em conta em igualdade de condições com outros, como a monocultura ou a grande propriedade territorial. Segundo Nabuco, foi a escravidão que formou o Brasil como nação, ela é a instituição que ilumina nosso passado mais poderosamente que qualquer outra. A partir dela, é que se definiram entre nós a economia, a organização social e a estrutura de classes, o Estado e o poder político, a própria cultura. O abolicionismo fez assim da escravidão o protagonista por excelência da história brasileira, instituição que tem sido longamente explorada por historiadores, sociólogos e antropólogos, embora raramente reconheçam esta dívida intelectual". 

A segunda é do próprio Nabuco, feita num pronunciamento no Recife, em 1884 e que hoje estão contidas no livro Campanha abolicionista no Recife; eleições de 1884. "A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado da pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado. Eu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões - a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão. [...] Sei que falando assim, serei acusado de ser um nivelador. Mas não tenho medo de qualificativos. Sim, eu quisera nivelar a sociedade, mas para cima, fazendo-se chegar ao nível do art. 179 da Constituição do Império que nos declara todos iguais perante a lei".

Deixo mais dois links. O primeiro é o de um trabalho sobre Nabuco, para publicação em revista. Posteriormente também o publiquei no meu blog. O texto foi produzido no ano de 2009. Tem por título - Após cem anos - a atualidade de Joaquim Nabuco. O Patrono da raça negra. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/06/apos-cem-anos-atualidade-de-joaquim.html

O segundo é o de hábito nesse projeto. É o trabalho anterior, de Oliveira Lima - D. João VI no Brasil.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-25-d-joao-vi-no.html

Em tempo. Ao ler a resenha sobre Minha formação - também de Joaquim Nabuco, não considerei justo não transcrever um parágrafo, já da parte final do livro, quando ele faz um relato de seus tempos de juventude, do encontro com um jovem escravizado. Vejamos: "Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça a meus pés, suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida. Foi esse o traço que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava".




 



quarta-feira, 11 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 25. D. João VI no Brasil. Oliveira Lima.

Este é o vigésimo quinto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha de Guilherme Pereira das Neves, professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, do livro D. João VI no Brasil, de Oliveira Lima. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 143 a 166. A primeira edição do livro data do ano de 1909 e é a grande referência da historiografia brasileira sobre o tema.

D. João VI no Brasil. Oliveira Lima. O livro aqui trabalhado.

O resenhista começa o seu trabalho nos apresentando uma ideia geral do livro, cuja primeira edição surgiu em 1909. A terceira edição, de 1996, tem 30 capítulos e quase 800 páginas. Oliveira Lima caracteriza D. João VI como um rei popular, que D. Pedro I se impunha pela energia e pela bravura e que D. Pedro II inspirava veneração e fervor. Wilson Martins, no prefácio da segunda edição, de 1945 afirma ser o livro "um clássico da historiografia brasileira", sendo reconhecido também como o melhor livro sobre o tema do estabelecimento da família real no Brasil e a sua permanência ao longo de 13 anos. São os antecedentes de nossa emancipação política. As suas fontes são os arquivos oficiais.

Após essa primeira visão do livro, o resenhista nos apresenta o seu autor.  Oliveira Lima nasce em Recife no ano de 1867. Após rápido enriquecimento com o comércio, sua família retorna a Portugal, onde ele então viverá os seus anos de formação. Profissionalmente ele dedicará sua vida à diplomacia, estabelecendo-se em Washington, após a aposentadoria. Ali morre em 1928, deixando a sua biblioteca de quarenta mil volumes para a universidade católica local. Em sua lápide pediu que se firmasse a seguinte inscrição: "Aqui jaz um amigo dos livros". Era tido como um diplomata muito competente.

O resenhista segue a sua análise sob o título: "A obra: a dimensão política e diplomática". Ela é apresentada em sequência cronológica. O que impressiona é a conjuntura ou a contextualização em que os fatos aconteceram. É o mundo moderno, que tomou formas, após a paz de Westfália (1648), quando começaram a se formar os estados nacionais, quando, na sequência, ocorreram enormes transformações nos transportes e nas comunicações, quando ocorreu a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas. O mundo ganhou a sua configuração com a qual chegou até à Segunda Guerra. 

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. Nesse livro, a resenha em questão.

Desde a Restauração do Império Português (1640) Portugal sempre vivera a situação de um país periférico aos países centrais da Europa e que ganhou alguma proeminência sob Pombal. Formou um enorme Império colonial, sempre vulnerável e sempre assolado pelo temor dos ideais libertários que assolavam o mundo, especialmente os ideais revolucionários dos franceses. A Espanha sempre foi a mais temida. 

Com Napoleão, os acontecimentos se precipitam. Em sua obsessão por isolar a Inglaterra, avança sobre Portugal. Oliveira Viana assim descreve a Europa sob as ameaças de Napoleão: "O rei da Espanha mendigando em solo francês a proteção de Napoleão; o rei da Prússia foragido da sua capital ocupada pelos soldados franceses; o Stathouder, quase rei da Holanda, refugiado em Londres; o rei das Duas Sicílias exilado da sua linda Nápoles; as dinastias da Toscana e Parma, errantes; o rei do Piemonte reduzido à mesquinha corte de Cagliari [...];  o Doge e os X enxotados do tablado político; o czar celebrando entrevistas e jurando amizade para se segurar em Petersburgo; a Escandinávia prestes a implorar um herdeiro dentre os marechais de Bonaparte; o imperador do Sacro Império e o próprio Pontífice Romano obrigados de quando em vez a desamparar seus tronos que se diziam eternos e intangíveis" Nessas condições, que decisão deveria tomar a corte portuguesa? Vejamos o resenhista:

"Nessas condições, após sucessivas tentativas de apaziguar a França, que abalaram a aliança inglesa, a decisão de partir para o Brasil, com raízes no passado remoto, e longamente ponderada, revelou-se muito mais 'como uma inteligente e feliz manobra política do que como uma deserção covarde'". Assim se formou um novo império, o império luso-brasileiro. As antinomias do período foram os antecedentes de 1822. Com a corte instalada no Rio de Janeiro Dona Carlota Joaquina já sonhava em ser uma Isabel ou uma Catarina. Quis estender as fronteiras até o Prata e comprou brigas com a Espanha. Essa contextualização é o cerne do livro, segundo o resenhista: "Trata-se, em suma.  de analisar a posição da monarquia sediada no Rio de Janeiro em relação ao cenário internacional, após a paz na Europa, e de verificar o complexo xadrez de interesses, que a transmigração de 1808 produzira no interior do império luso-brasileiro". Ainda faria sentido, no pós Napoleão, manter a corte no Brasil? D. João já poderia regressar? Que posições defender no Congresso de Viena?

Em Viena, Portugal tinha três interesses especiais: ocupar o Uruguai, disputar com a Espanha a região de Olivença e, de maneira toda especial, a manutenção do tráfico negreiro. Uma reaproximação com a Áustria marcou o casamento de D. Pedro com a princesa Leopoldina (coitada dela!). No Congresso, Portugal obteve relativos êxitos. Quando tudo indicava pela permanência de D. João no Rio de Janeiro, ocorre a revolução no Porto e a exigência da volta. O abatimento tomou conta do rei, que queria se manter à frente do Império, mas a "discórdia criada entre as duas metades da monarquia, das quais uma reclamava a sua dinastia, sob pena de fazer voar o trono em estilhaços, e a outra timbrava em conservar a investidura recebida de cabeça do império". Assim, 1821 foi um ano português e 1822, um ano brasileiro. Não houve como conciliar.

Depois segue a análise da obra, agora em sua dimensão social e cultural. Esta é considerada como a melhor parte, aquela que lhe dá densidade. Vejamos a descrição da chegada da corte: "O desembarque da família real portuguesa no Rio de Janeiro, aos 8 de março de 1808, foi mais do que uma cerimônia oficial: foi uma festa popular. Os habitantes da capital brasileira corresponderam bizarramente às ordens do vice-rei conde dos Arcos e saudaram o príncipe regente, não simplesmente como o estipulavam os editais, respeitosa e carinhosamente, mas com a mais tocante efusão. D. João pode facilmente divisar a satisfação, a reverência e o amor que animavam seus súditos transatlânticos nos semblantes daqueles que em aglomeração compacta se alinhavam desde a rampa do cais até a Sé, que então era a igreja do Rosário; os sacerdotes paramentados de pluviais de seda e ouro, incensando-o, ao saltar da galeota, com hissopes de ouro, tanto quanto os escravos humildes que de precioso só podiam ostentar num riso feliz as suas dentaduras nacaradas".

A essa contradição entre o fausto da corte e a miséria dos escravos, uma herança que nos foi legada por Portugal, Oliveira Lima a atribuía a uma fragilidade da civilização ocidental. Atenta também para o fato dos enormes melhoramentos culturais trazidos pela corte, a começar pelo tratamento dado aos estrangeiros. Eles se sentiam como "cidadãos do mundo". O Estado praticava uma espécie de socialismo, uma vez que os indivíduos sozinhos não davam conta de tão gigantescas tarefas. Em 1808 o Brasil se abria para o mundo. A cultura, paralisada desde 1759 com a expulsão dos jesuítas, teve uma grande retomada. Não vingou a ideia da criação de uma universidade, mas vingou a criação da imprensa régia, de vários periódicos, de escolas profissionalizantes, do incremento do comércio de livros, teatro, música, que, mais desvinculados do caráter religioso promoveram uma verdadeira emancipação intelectual.

Os capítulos sobre os indígenas e a escravidão não apresentam novidades. Repetem os preconceitos da época. Ressalta também a contribuição da corte com a interiorização do país, destacando porém as mazelas dessa colonização. Vejamos uma citação que o autor toma de Euclides da Cunha sobre essa colonização: "Dom João VI a encontrou e a deixou sob a forma de um desbravar empírico, exercido a ferro e fogo, sem o aparelho apropriado nem sombra de fundamento científico. Traduzia-se, como hoje ainda, pelas derrubadas e queimadas que, a pretexto de alargarem a zona de cultivação, estendiam, com a supressão das matas, a área das secas para nela vegetar, sobre um solo que de fértil passava a estéril, 'e decaída pelo impaludismo, tão característico das regiões incultas, uma população de mestiços lamentáveis, agitantes num quase deserto'". Antecipou assim, considera o resenhista, Sérgio Buarque de Holanda que  afirmou que "o português é por temperamento muito mais um explorador do que um colonizador".

Já o 1817 pernambucano merece do historiador uma descrição, tida como sóbria, do afloramento de um sentimento impulsivo de liberdade, que somou frades democratas com senhores de engenho, rebelados contra os "mascates" portugueses. O movimento carecia de base popular. Quando as forças opressoras do império chegaram, a rebelião já havia sido debelada.

Dois capítulos são dedicados à descrição das festas da corte. De novo ganha destaque a desproporção entre a corte e as ruas. Vejamos o resenhista citando o autor:  era "sobretudo a população de cor que emprestava à capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves o seu aspecto estranho e único na monarquia". Estes davam "uma ideia bastante precisa do que era o carnaval perpétuo dessa cidade sob muitos aspectos ainda colonial, sob outros, não menos abundantes, exótica e apenas cortesã por algumas, mais raras, feições. E após descrições precisas de quem e como se movimentava a população na busca pela sobrevivência o historiador ainda acrescenta "as mulatas da vida airada" e as "sacerdotisas do amor fusco, fornecendo ocasião e pretexto para as elegâncias femininas e as pompas das irmandades". Segue a descrição de uma procissão de Corpus Christi, uma verdadeira coisa do outro mundo, no pleno sentido da expressão. Se via o fausto europeu nas ruas do Rio de Janeiro. O casamento de D. Pedro com a princesa Leopoldina deve ter feito inveja às festas de Viena.

As últimas duas páginas da resenha são dedicadas à atualidade da obra. Vejamos o resenhista: "Oliveira Lima não escreveu a biografia de um rei, mas compôs, sob a forma de um drama, o retrato de uma época, em que o monarca assumiu o papel de protagonista. Na 'essência um rei absoluto, mas na forma um rei constitucional'. D. João". Destaca que Oliveira Viana demonstrou grande humanidade no julgamento de seu personagem, fato que é um bônus para o historiador. Vejamos ainda o seu parágrafo final:

"Ou seja, esse livro de um pensador notável pela inteligência curiosa, penetrante e compreensiva, escondido sob a figura de um historiador minucioso, oferece a possibilidade de repensar, como é próprio às grandes obras de história, as tradições das quais brotamos. Em particular, de um ponto de vista mais estritamente histórico, ele nos faz indagar por que o Brasil não nasceu, em 1822, das reivindicações de um sentimento compartilhado pela maioria da população, mas, sim, de uma série de circunstâncias e de acontecimentos fortuitos, manipulados por interesses restritos, sob a égide de um anjo torto, desses que vivem na sombra, vaticinando que a nação haveria de ser gauche na vida". Deve ser um livro muito precioso. Cheguei a pô-lo no carrinho de compras da Amazon, a um custo de R$ 72,68. E como de hábito, a resenha anterior, Vida e morte do bandeirante, de Alcântara Machado.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-24-vida-e-morte.html  

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 24. Vida e morte do bandeirante. Alcântara Machado.

 Este é o vigésimo quarto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha de Laura de Mello e Souza, professora do Departamento de História da USP, do livro Vida e morte do bandeirante, de Alcântara Machado. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, volume II, nas páginas 123 a 142. O livro de Alcântara Machado data do ano de 1928 e é profundamente inovador, tanto pelo uso dos inventários como fonte de pesquisa, quanto pela visão crítica que apresenta. O povo simples, pelo seu cotidiano, é o protagonista da história. 

Vida e morte do bandeirante. Alcântara Machado. O livro sob análise.

Inicialmente a resenhista apresenta alguns dados biográficos do autor, que nasceu em Piracicaba, no ano de 1901. Ele é um "rebento de velhos troncos paulistas" dos aqui chegados em São Vicente no ano 1532. Formou-se em Direito, na famosa Faculdade de São Francisco e teve morte prematura, numa crise aguda de apendicite, em 1935, no Rio de Janeiro. 

A resenha da professora Laura é dividida em cinco tópicos: 1. Os inventários; 2. A vida material; 3. Instituições e práticas socioeconômicas; 4. O homem e o meio; 5. Vida e morte do bandeirante. Uma resenha didaticamente bem apresentada.

Ao final do primeiro tópico, a resenhista assim nos apresenta o livro: "O livro começa justamente pela descrição da fonte - 'laudas amarelecidas pelos anos e rendadas pelas traças' -, revelando que o historiador tinha consciência do quanto era pioneiro no seu uso. Depois, os capítulos se sucedem numa ordem lógica, que parte dos aspectos mais propriamente econômicos e materiais - fortunas, hábitat, mobílias, baixelas, roupas - para atingir os costumes, as crenças e as instituições". São quatrocentos desses documentos amarelecidos, que vieram a público nessa época, que são esmiuçados pelo pesquisador e é nisso que está a sua grande novidade. Ele apresenta as banalidades do cotidiano. Nem exaltação e nem uma visão essencialmente crítica. Esses inventários abrangem os anos de 1578 a 1700. Mostra sentimentos e sensibilidades, a valorização das pequenas coisas, medíocres aos olhares de hoje, mas extremamente consideradas na época. 

Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico. Nesse livro, a resenha em questão.

No segundo tópico, sobre a vida material, a pobreza merece o maior destaque. A situação começa a melhorar, apenas, a partir da metade do século XVII. O que efetivamente tinha valor nessa época? As miudezas caseiras, como as roupas, os móveis, as cortinas. Elas, pela dificuldade de consegui-las, valiam mais do que as terras e as casas e havia justificativas para tal: "Que vale a terra sem gente que a povoe e aproveite". Vejam a descrição de um antecessor seu, Frei Gaspar da Madre de Deus: "O que falta aos paulistas não é o chão, que aí está, baldio e imenso, à espera de quem o fecunde. Faltam-lhe, sim, a ferramenta, o vestuário, tudo quanto a colônia não produz". As adversidades tornaram essas mercadorias muito valiosas: o mar, os piratas e a subida das serras. Os sítios de roça valiam mais que os povoados. Na roça é que estavam as mostras de status e poder, onde estavam as coisas valiosas. O mundo rural era autossuficiente, constituíam um mundo em miniatura. Nos latifúndios então... "No espaço em que se faz sentir a influência do latifúndio, não há lugar nem para o comércio, nem para a indústria, elementos geradores das aglomerações humanas". Vestimentas e joias também indicavam status.

No terceiro tópico, sobre as instituições, a principal marca é a precariedade. Onde tudo está por fazer, as instituições ficavam em segundo plano, constatou o pesquisador. Não há escolas, não há mestres, não há médicos, poucos magistrados e muito poucos livros. Quando precisavam de algum serviço, recorriam aos jesuítas, aos práticos, aos curandeiros e benzedeiros e à flora indígena. Ou então, às orações mágicas. Cabia aos próprios leigos exercerem o poder judiciário. Relata os hábitos das transmissões de posses e neles mostra o inusitado dos costumes pretéritos, como o pagamento das custas por meio de produtos. Era um "tempo feliz, em que bastava um cevado para saciar a ganância de um homem do foro". As mercadorias eram as próprias moedas, na ausência dessas. A palavra tinha a força da lei. E a instituição familiar (Ah! a família). Toda a autoridade cabia ao Pater familias. Era ele que zelava pela família e pelos casamentos para evitar a miscigenação: "Por isso mesmo e porque são poucas as pessoas dessa limpeza e qualidade, os casamentos se fazem num círculo muito limitado, e as famílias andam em São Paulo tão travadas umas com as outras que abundam as uniões consanguíneas". Contudo, à margem dessa família, havia outra. A família tida como ilegítima com a prole bastarda. Toda a mestiçagem se talhava na bastardia. Sobre os filhos, em muitas ocasiões, prevalecia "o que as mães disserem". Muitos eram aceitos nos círculos familiares e outros se transformavam nos jagunços a serviço.

No quarto tópico, o homem e o meio, é abordada a mais delicada das questões, a escravidão indígena. Todas as leis contrárias a ela, na prática, perderam o seu valor e com o passar do tempo, a situação só piorava. Os paulistas acabaram criando "um estado intermediário entre a liberdade e a escravidão, que tivesse desta a substância e daquela as aparências". As situações mais dramáticas ocorreram entre os anos de 1628 a 1632, quando, sob Raposo Tavares, promoveram o cerco a Guairá. Aos índios cabia o único recurso de se refugiarem cada vez mais para o interior. Por causa do elevado custo, raros eram os escravos negros. Os paulistas não temiam nem ao rei, nem aos jesuítas e nem mesmo a temível Inquisição. Também a corrupção dos padres ganha relevância. O único temor era o da morte. Ela estava onipresente. Ela gerou muitos testamentos com doações e transmissão de bens. Todo o imaginário do bandeirante era movido a sertão. Eles estavam para o sertão como os navegadores estavam para o mar. O enriquecimento rápido promovia o desaparecimento dos temores. Os objetivos do viver se resumiam ao tráfico vermelho e à mineração. A escravidão indígena atraía até as ordens religiosas, como a dos carmelitas. O dia a dia de uma bandeira também ganha minuciosa descrição.

O livro de Alcântara Machado destoa da maioria dos livros da época que promoveram a mitologia do bandeirante, heroico, destemido, corajoso e arrojado. Alcântara Machado mostrou as dificuldades do cotidiano e o embrutecimento humano que essas dificuldades causaram.

No quinto e último tópico o teor do livro é retomado. Também a sua recepção. Um de seus méritos foi o de reconhecer que a história do paulista bandeirante se forjou nas dificuldades do cotidiano, nas suas miudezas. E, a resenhista nos conta, "sem julgar o passado - pois não compete ao historiador fazê-lo -, alertou que a pobreza da capitania poderia se transformar em categoria explicativa da sua história, e abriu caminho para o estudo dos mecanismos culturais e econômicos da expansão paulista". Hoje a visão sobre a pobreza de São Paulo ao longo dos séculos XVI e XVII tem outras explicações e, conforme vários historiadores, o seu alardeamento, tinha uma estratégia. Vejamos o final da resenha: "A alardeada ausência de alternativas econômicas justificava, por um lado, o apresamento dos índios; por outro, fundamentava o não pagamento de impostos e dívidas. Por fim, o significado que o historiador - no caso, Alcântara Machado - atribui à pobreza não é obrigatoriamente o mesmo atribuído pelos contemporâneos. O destes, aliás, pode ser mais de um, e talvez uma compreensão mais acurada da pobreza só possa surgir quando levar em conta sua provável polissemia - máscara sob a qual se ocultaram várias visões historiográficas.

O fato de ser contestado não significa que Vida e morte do bandeirante deixe de ser um marco. Significa, sim, que os que vieram depois - Sérgio Buarque de Holanda, John Manuel Monteiro - ultrapassaram-no, ou seja, passaram por ele e foram além. Nesse sentido, todo grande livro de História como Vida e morte do bandeirante, tem de ser ultrapassado um dia". Sabe, me deu uma enorme vontade de ler esse livro. Me bateu uma enorme curiosidade. Deixo ainda a resenha do trabalho anterior, inclusive sobre a mesma temática, História geral das bandeiras paulistas.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-23-historia.html


 


sábado, 7 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 23. História geral das bandeiras paulistas. Afonso d'Escragnolle Taunay.

Este é o vigésimo terceiro trabalho do presente projeto. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha de Wilma Peres Costa, professora de Política e História Econômica do Instituto de Economia da UNICAMP, do livro História geral das bandeiras paulistas, de Afonso d'Escragnolle Taunay. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 97 a 121. Polêmica à vista. O explosivo tema dos bandeirantes. São onze volumes, escritos entre os anos de 1924 e 1950.

História geral das bandeiras paulistas. O livro em questão.

A resenha, depois de uma rápida apresentação da obra, traz os dados biográficos do autor, filho de escritor e político influente do Império. Afonso nasceu em Florianópolis em 1876, filho do governador do estado e escritor Alfredo d'Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay, autor de A retirada de Laguna e Inocência. O pai conhecera fortuna e infortúnio financeiro, mas isso não abalou a vida do filho. Afonso formou-se na escola Politécnica do Rio de Janeiro, tornando-se "engenheiro sem vocação". Influenciado por Capistrano de Abreu, voltou-se para os estudos de história, onde se caracterizou por exposições longas e detalhadas, vasculhadas em fontes e documentos oficiais. Seguindo tendência da época, os tipos humanos entram nos palcos da história, ocupando os espaços que antes pertenciam apenas a reis e generais. O tipo humano estudado foi o bandeirante. Era concunhado do presidente Washington Luís, que antes fora governador de São Paulo. Este detalhe não pode passar despercebido. Ele, também estudioso da história, o impulsionou em cargos públicos, como o de diretor do Museu Paulista, decisivo em seus destinos de historiador. Antes já trabalhara no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

Quanto à temática e o conteúdo da obra, a resenhista, depois de alertar para a dificuldade de seu trabalho, pois não se trata de um livro, mas de onze livros, publicados ao longo dos anos de 1924 e 1950 e de apresentação exaustiva de documentos, ela foca o seu trabalho nos principais eixos temáticos da obra, como a expansão interiorana de São Paulo, a caça ao indígena, voltada à sua escravização e o traçar um perfil do bandeirante. Vejamos alguns destaques: "A tônica principal da obra é o papel primordial atribuído aos sertanistas da capitania de São Paulo, na incansável exploração que resultou na ampliação do território da América portuguesa para as dimensões continentais que foram legadas à nação brasileira". "Nunca São Paulo coube dentro de suas fronteiras", afirmou solenemente em seu discurso de posse no IHGSP. Nesse sentido, uma exaltação aos desobedientes da metrópole portuguesa.

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. Nesse livro, a resenha do livro de Taunay.

Ruy Barbosa, na apresentação do segundo volume ressalta essa questão: "Não fora o valor e o arrojo desses caçadores de homens [...] e a costa do Brasil ao sul do Paranaguá seria hoje espanhola, espanhóis veríamos os sertões de Mato Grosso e Goiás, outro povo ocuparia as nossas melhores zonas, respiraria os nossos ares mais benignos, cultivaria as nossas mais desejadas terras".

O segundo tópico, o da escravidão, ocupa a maior parte de sua obra. Os sete primeiros volumes são dedicados à "caça ao índio". Os outros quatro, à "caça ao ouro". Toda essa ferocidade, que tantas intrigas causou, junto à Coroa, com a Espanha e com os jesuítas, deveu-se especialmente ao custo elevado do negro escravizado. O terceiro tópico, a descrição do bandeirante ocupa todo o terceiro volume. E esse tópico necessariamente o levou à análise da questão racial, que permeia toda a obra. Afinal, o bandeirante nela está umbilicalmente intrincado: "Sua preocupação é a de encontrar a especificidade étnica da população paulista, tanto no que se refere ao tipo de reinóis que nela vieram habitar, como aos grupos indígenas que, mesclados aos primeiros, propiciaram um caldeamento original. Esse caldeamento seria responsável pela virilidade, pelo caráter prolífico, pelo espírito de iniciativa e aventura dos habitantes do planalto".

A miscigenação do reinol com as indígenas foi facilitada, segundo o pesquisador, pela aceitação delas, na busca da ascensão social. Reconhece que a escravidão indígena foi uma página violenta de nossa história, mas toma as dores do bandeirante contra aqueles que os condenam por tais atos por razões humanitárias. Em sua defesa contrapõem atrocidades ainda maiores cometidas na colonização da Ásia e da África e nas guerras. A escravidão era um preço a pagar. A escravidão é inseparável de nossa história. Ela foi uma consequência da colonização. Suas críticas também atingem os jesuítas e a sua defesa às populações indígenas. Minimiza as influências africanas em nossa cultura e traça um quadro comparativo entre a escravidão negra e a indígena. A escravidão indígena/bandeirante foi integradora e a negra foi fragmentadora, contrária à formação da nação, pela formação de quilombos e pela sua preferência pelo suicídio ao cativeiro. Apoiando-se em Nina Rodrigues se manifesta contra Palmares:

"Acima [...] desta incondicional idolatria pela Liberdade deve pairar o respeito pela cultura e a Civilização". "Serviço relevantíssimo foi pois o do nosso governo colonial, tenaz e previdente, destruindo de vez a maior das ameaças jamais havidas à civilização e ao futuro do Brasil numa situação que a subsistência de Palmares teria implementado". E para tal houve a grande contribuição do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, que garantiu a vitória contra o quilombo. É... A formação do povo brasileiro tem heranças...

Na parte final da resenha Wilma Peres Costa destaca as virtudes do historiador e de sua obra. "A história se faz por documentos". Além do que é preciso livrar-se dos preconceitos do tempo presente. É preciso policiar-se contra os preconceitos do presente para que não interfiram nos julgamentos emitidos. Aí é que residem os problemas do historiador. Vejamos a resenhista: "Não obstante as dificuldades em manter-se fiel a este último princípio, devemos sublinhar alguns aspectos, dentre os muitos, em que esta obra sobreviveu ao tempo. Em suas variadas dimensões, a temática bandeirante adequava-se de maneira privilegiada à busca de forjar um 'destino manifesto' para o estado de São Paulo que, com algumas mutações, ainda permanece vivo em nossos dias. O bandeirante fruto da miscigenação entre o europeu e o ameríndio, produziu uma espécie de passado 'eugênico', que, interrompido pela afluência de sangue africano na segunda metade do século XIX, vinha agora recuperar a sua pureza pela progressiva arianização trazida pela imigração europeia". E aí segue com o tema da expansão cafeeira. É o trato das questões regionais e as suas vicissitudes.

Vejamos ainda os dois últimos parágrafos da resenha: "Em Taunay essas múltiplas dimensões estão superpostas a serviço de uma militância intelectual e política específica. Olhada como testemunho de uma época, sua obra é a expressão desse processo de formação de uma identidade pela elite paulista, para com ela convencer o conjunto da nação. Essa problemática, em uma época de globalização traz consigo, contraditoriamente, a exacerbação das diferenças, não pode ser considerada ultrapassada.

A História geral das bandeiras paulistas é referência obrigatória para a pesquisa sobre a questão da escravidão indígena. Em sua busca exaustiva de documentação e em extensas transcrições a obra permite uma visão bastante acurada do processo de apresamento e tráfico dos índios, das diferenças da legislação sobre a escravidão na América portuguesa e espanhola, nas nuances de posições entre as distintas ordens religiosas, na especificidade do 'projeto' jesuíta de catequese. A obra é muito importante também para os estudiosos das dimensões políticas no período colonial - relações Igreja-metrópole-colonização; relações centro-administrativo-autonomia das câmaras municipais. Para o leitor atual, entretanto, pode-se dizer que esse trabalho ajuda sobretudo a compreender os paradoxos de nossa construção nacional. Assim, sua contribuição mais relevante, embora isso signifique frequentemente ler essa obra em sinal contrário, é a de estabelecer o nexo perverso entre colonização e escravidão e entre escravidão e construção do território em nossa história". Deixo ainda o trabalho anterior, História geral do Brasil, de Francisco Adolfo de V'arnhagen.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-22-historia.html

 

 


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 22. História geral do Brasil. Francisco Adolfo de Varnhagen.

 Este é o vigésimo segundo trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha escrita por Lúcia Maria Paschoal Guimarães, professora de historiografia brasileira da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pesquisadora da USP, da obra História geral do Brasil, de Francisco  Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto Seguro. A resenha encontra-se em  Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 75 a 96, do volume II. O livro, importante e polêmico, teve a sua primeira edição lançada em Madri, no ano de 1854. 


História geral do Brasil. Francisco Adolfo de Varnhagen. O livro aqui resenhado.  

A resenha começa com a apresentação de dados biográficos. Varnhagen nasceu em Piracicaba em 1816, filho de um coronel, engenheiro militar alemão, que trabalhava para a Coroa portuguesa e que cumpriu uma missão no Brasil. Varnhagen fez os seus estudos no Real Colégio Militar de Lisboa, mas desde cedo mostrou inclinação pelos estudos de história. Radicado no Rio de Janeiro, irá trabalhar no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, com subsídios imperiais. Tornou-se próximo do imperador. Cumpriu várias missões diplomáticas, fato que lhe permitiu viagens e acesso a muitas fontes para as suas pesquisas. Morreu no ano de 1878 em Viena.

O passo seguinte da resenha é a apresentação da obra e uma análise de seu conteúdo. É uma obra longa, que com o tempo e as revisões foi se tornando mais enxuta. A sua delimitação vai dos descobrimentos até a proclamação da independência. O autor segue a ordem cronológica dos fatos e o Brasil é visto como uma continuidade da história de Portugal, começando pela viagem de Cabral. O tratamento dado aos indígenas foi a parte da obra que mais recebeu críticas, mas ele não a alterou em nada. A visão que tem deles é absolutamente negativa. São mostrados como selvagens, "falsos, infiéis, desconfiados e ingratos". O livro registra a origem do nome, derivado da primeira riqueza comercial aqui encontrada, o pau-brasil. A descrição continua com a apresentação das características territoriais, acidentes geográficos, clima, paisagens, a flora e as imensas florestas. E também os índios e a sua língua.

Mas onde o historiador se dá melhor é na análise dos documentos oficiais. A colônia será vista como uma herança portuguesa do Tratado de Tordesilhas, pelo qual o mundo foi dividido entre os Avis e o Reino de Castela. Reconhece que houve navegadores anteriores a Cabral, mas que este teve um plano de viagem, com a finalidade da instalação de feitorias no oriente. Transcreve também a carta dos descobrimentos, a carta de Caminha. A descrição segue mostrando o pouco interesse português nos primeiros anos, em virtude dos interesses concentrados na Índia e que a mudança de atitude só ocorreu em virtude da presença dos francesa e a sua celebração de alianças com os indígenas. Assim recebemos, com Martim Afonso de Sousa, o primeiro empreendimento colonizador. Capitanias hereditárias foram doadas, com imensas vantagens para a Coroa. Celebra-se o Pacto Colonial.

Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico. Vol. II. Aqui a resenha em questão.

Depois das questões institucionais, a descrição continua com os relatos da vida cotidiana. Aparece a sua visão tendenciosa contra os indígenas e condizente com os colonizadores, reconhecendo porém, uma série de influências que eles exerceram sobre a vida dos colonos, que em muito facilitaram suas vidas e lhes asseguraram a própria sobrevivência. Com exaltações celebra a sobrevivência e o domínio dos hábitos europeus, especialmente os da vida religiosa. As relações de trabalho também recebem a sua atenção e, mais uma vez, manifesta a sua visão preconceituosa. Foi a indolência dos índios que forçou a escravidão dos negros africanos. A crítica também será pesada contra os padres jesuítas pela sua proteção aos indígenas e os acusa de quererem formar um Estado dentro do Estado.

A escravização dos negros em massa, que só ocorreu após a proibição da escravidão indígena, não era estranha a Portugal. Já a praticavam, junto com o tráfico, na Ilha da Madeira e nos Açores. Deplorou as condições do tráfico e da escravidão, embora a considerasse muito mais branda que a dos Estados Unidos. Reconheceu a sua importância para a economia brasileira em toda a sua extensão, da lavoura canavieira até a cafeeira. A cor negra deveria desaparecer com o tempo, através da miscigenação. Também critica a vida dos colonos e atribui os excessos praticados, às necessidades de povoamento. Essa necessidade foi também a responsável pelo grande afrouxamento moral. Infratores de toda ordem foram aqui tolerados.

A narrativa segue com a implantação dos Governos Gerais. Por eles deveria ser assegurada a posse dos territórios, bem como promover a sua expansão, se possível até o Peru, na busca do cobiçado ouro. Nessa parte as invasões estrangeiras ganham destaque, especialmente, a dos holandeses. Essa parte é reconhecida pelos historiadores como uma das melhores de seu livro. Também faz um balanço geral das guerras do açúcar e ressalta que a expulsão dos holandeses provocou um primeiro sentimento nativo e sedimentou a unidade de três raças em torno de uma única causa. Daí em diante, segundo a resenhista, a obra perde fôlego. Os temas abordados são os da ocupação do interior, bandeirantes, Colônia do Sacramento e os quilombos.

Ainda segundo a resenhista, a obra retoma o seu fôlego com a entrada no século XVIII, com a descrição do ciclo do ouro e o grande deslocamento de populações para as minas, quando "O Brasil é povoado de um só golpe", numa expressão de Capistrano de Abreu. Ainda, na expressão desse historiador, o século XVIII "é o século das minas, das guerras espanholas, das demarcações de fronteiras, da expulsão dos jesuítas, das tentativas de independência". Capistrano considerava que Varnhagen não tinha estofo intelectual para examinar esse período. Varnhagen considerou arbitrárias as ações da Coroa, relativas ao ciclo do ouro, com destaque para a proibição da instalação de manufaturas e a derrama. Isso provocou, segundo ele, a "prematura" ação de Tiradentes.

O livro termina com a vinda da família real ao Brasil e a instalação da corte no Rio de Janeiro. D. João VI é descrito como um homem de "bondoso caráter, pio, dotado de felicíssima memória, e sem maiores ambições políticas". Em torno dele teria se formado uma certa corte intelectual, com destaque para José Bonifácio. Ao traçar o panorama cultural da colônia, fala das nefastas influências do iluminismo e da presença de escritores subversivos "infectados dos abomináveis princípios franceses". Aqui chegaram as chamas incendiárias da Revolução Francesa e das rebeliões negras de S. Domingos (Haiti) e até ideias socialistas, como na Conjuração dos Alfaiates, na Bahia, em 1798. Desmereceu a Revolução Pernambucana, classificando-a como um motim de quartel, de militares insubordinados.

O livro não termina com a independência, causada fundamentalmente pela Revolução do Porto, mas com o relato positivo de viajantes que por aqui passaram. Aí a resenhista, depois de apresentada a obra, parte para as suas apreciações finais, destacando duas questões: a extrema lealdade do historiador a D. Pedro II e a má recepção de sua obra, lançada em Madri (1854 - 1857 - em 2 volume), aqui no Brasil, por parte do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em virtude da visão preconceituosa contra os indígenas, ainda mais, em tempos do romantismo.

A resenhista conta que a reabilitação veio com Capistrano de Abreu, que nos apresenta um pesquisador incansável, passível de críticas, extremamente erudito e de absoluto rigor no trato com as fontes. Assim ela termina a sua análise: " A História geral do Brasil, com suas páginas cheias de referências luso-brasileiras, retrata também a atmosfera de uma época. Escrito no início da década de 1850, o livro reflete a problemática do processo de consolidação do Estado nacional. Se a discussão acerca das raízes da nacionalidade dividia as opiniões dos letrados, não havia dúvidas quanto às origens do Estado. Essa questão já estava bem definida, sobretudo no âmbito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que desde 1838 vinha construindo a memória do país recém-independente, dotando-o de um passado adequado às pretensões da monarquia instaurada. Memória marcada pelo traço da continuidade, em que o Estado estabelecido em 1822 constituía-se no legítimo herdeiro e sucessor do Império ultramarino português. Legado que se sustentava desde o idioma de Camões até a presença de um representante da dinastia de Bragança no Trono brasileiro. E não resta dúvida de que Varnhagen foi o autor que melhor desenvolveu essas premissas". Deixo ainda a resenha do trabalho anterior, da obra de Serafim Leite.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-21-historia-da.html

domingo, 1 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 21. História da Companhia de Jesus no Brasil. Serafim Leite.

 Este é o vigésimo primeiro trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por João Adolfo Hansen, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, da obra História da Companhia de Jesus no Brasil, de Serafim Leite (1890-1969), um padre jesuíta português. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 43 a 73. O livro de Serafim Leite foi escrito entre os anos de 1938 - 1950. Tinha dez volumes e 5.136 páginas. UFA!

História da Companhia de Jesus no Brasil. 10 volumes. A obra sob análise.

Imaginem o trabalho do resenhista! Ele foi bem sistemático e dividiu o seu trabalho em onze tópicos. A sua resenha ocupou dez páginas a mais do que o normal, dos outros trabalhos. Plenamente justificável. Mas vamos aos tópicos:

Tópico I. É apresentada a obra, a estrutura, o conteúdo e as finalidades. A sua vasta obra tinha por objetivo mostrar a atuação missionária, catequética e educacional da Companhia de Jesus na Bahia (1549) e no Maranhão e Grão-Pará (1615) até o ano de 1759, ano da sua expulsão, pelo marquês de Pombal, ministro de D. José I. São 210 anos de história, com quadros geográficos, narrativas de conflitos e tensões dos padres da Companhia com os indígenas, com os colonos, com a Coroa, com os padres seculares e com as outras ordens religiosas. Apresenta ainda os temas específicos de cada volume e, para terem uma ideia, havia três tomos reservados para anotações e bibliografia. Observem bem, a obra missionária, catequética e educacional. É uma obra em louvor!

Tópico II. Creio que caracterizar Serafim Leite como um padre jesuíta português é a observação mais importante a ser feita. A obra é uma defesa da corporação. Na qualidade de padre jesuíta, teve acesso a fontes que só mesmo ele poderia ter. Buscou essas fontes em Portugal, Espanha, Itália, França, Bélgica, Holanda e no Brasil, privilegiando relatórios e cartas. Tudo é narrado sob a ótica da defesa da Companhia e do seu princípio ad maiorem Dei gloriam, tanto nas ações históricas narradas, quanto as do tempo de sua escrita. Os jesuítas portugueses sempre foram "bons, caridosos, justos e injustiçados". Não expõe os argumentos dos adversários. Seus procedimentos historiográficos são discutíveis, mas trata-se de um grandioso trabalho. É história eclesiástica.

Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico. Volume II. Aqui, a resenha sob análise.

Embora se considere neutro em seu trabalho, quem escreve é um padre jesuíta, sob a premissa da verdade, da verdade católica. Nas atividades dos padres da Companhia pode ter havido excessos e omissões, mas não na sua essência metafísica. O primeiro imperativo era o de que almas deveriam ser salvas e, fora do catolicismo não haveria salvação. Era a visão da Contra Reforma e do Concílio de Trento. Quanto aos índios, ele os via pelo aspecto religioso e não pelo lado antropológico. Para Serafim Leite, os padres jesuítas sempre foram humanistas e os portugueses sempre praticaram uma colonização branda. Como podem observar, era também um nacionalista. A obra é uma defesa dos interesses conservadores, nacionalistas e colonialistas de Portugal. Fez também a defesa dos grandes nomes da Companhia, como Anchieta, Nóbrega e do padre Antônio Vieira. Os não portugueses, como Andreoni (Antonil), não tiveram a mesma sorte. 

Tópico III.  O resenhista apresenta o século XVI. Ao longo desse século aconteceram os chamados anos heroicos (1549-1570), quando a Companhia se instala no Brasil. Na Bahia, em São Vicente e no Espírito Santo. No primeiro momento o grande nome é o padre Manuel da Nóbrega, do qual apresenta dados biográficos. Narra a fundação dos primeiros colégios e descreve as formas pedagógicas de atuação. Depois entra em cena o padre José de Anchieta. Fala também dos recursos que financiavam as suas atividades, provenientes em sua maior parte, da criação do gado. Também recebiam subsídios da Coroa. Os colégios seguem modelos europeus.

Tópico IV. Essa parte é dedicada a descrição de como os padres se relacionavam com os indígenas. De modo geral isso se dava pelos aldeamentos. Os padres eram os delegados do governador. É notável a defesa da Companhia contra a escravidão indígena, razão de inúmeros atritos com os colonos.

Tópico V. São mostrados os limites do Brasil no século XVI, que já iam do Amapá até a Colônia do Sacramento. Um vasto sertão do interior foi conquistado em favor da "conquista espiritual". A partir dos colégios eram organizadas as expedições para o interior, as conhecidas "Entradas". O destaque todo é dado para a expansão territorial pela ação dos padres da Companhia.

Tópico VI. São mostrados os serviços que a Companhia prestava ao povo. É interessante lembrar os objetivos que os trouxeram para a Colônia, a ação missionária, catequética e educacional. Aqui temos uma preciosa página da história da educação brasileira em seus primórdios. A organização dos colégios é descrita com muitos detalhes. O que se ensinava, a organização em séries, os modelos pedagógicos, a organização de bibliotecas, os livros que não poderiam faltar nelas. O padre também se empenha em mostrar a defesa que eles faziam dos índios contra a escravidão e a concepção que deles tinham como seres humanos, dotados de memória, inteligência e vontade.

Tópico VII. É o momento da descrição do conceito de educação, bem como o das suas finalidades. Ensinavam a devotio moderna da Contra Reforma, ou seja, o ensino da fé católica, depois da divisão protestante, pelos princípios do Concílio de Trento. Era um ensino de evangelização e de combate aos inimigos hereges. Quanto à catequese, ela se justificava pela necessidade de oferecer aos índios a possibilidade da salvação de suas almas, possível apenas, após a conversão. A escravidão poderia até ser suportada, a perda das almas, jamais. A conversão dos gentios fora a principal missão confiada à Companhia pelo rei D. João III.

Tópico VIII. Nesse tópico é mostrada a ação da Companhia no Maranhão e Grão Pará. Lá a situação sempre fora mais tensa entre os colonos e a Companhia por causa da escravidão indígena. O padre Antônio Vieira dedicou vários sermões ao tema. Houve até amotinação da população contra o padre e ele definitivamente perdeu a questão com a sua expulsão e a proibição de sua volta.

Tópico IX. Voltamos a ter uma página da história da educação brasileira, com a abordagem da questão dos colégios e o que se ensinava neles. Havia internatos e externatos e, também, já havia a preparação para a formação de padres. No básico, se ensinava a ler, a escrever e o latim. Nas fases mais avançadas entravam as artes, a teologia e a moral. A Summa Theologica, de Tomás de Aquino, era dissecada, junto com a filosofia aristotélica. Coimbra servia de modelo a ser copiado. Quanto às crianças, não tinham apenas aulas de catequese. também aprendiam a ler e a escrever. A frequência era livre.

Tópico X. É um aprofundamento da questão anterior, quanto a organização das atividades nos colégios, a partir de 1599. Vejamos o resenhista: "Depois de 1599, todos os colégios brasileiros passaram a ser organizados pelo Ratio studiorum atque Institutio Societatis Jesu. O Ratio é um conjunto de normas que definem saberes a serem ensinados e condutas a serem inculcadas, e um conjunto de práticas, que permite a transmissão desses saberes e a incorporação de comportamentos, normas e práticas [...]. Na situação contra-reformista do século XVII, a intervenção não podia dissociar-se da prática das virtudes cristãs. Logo, o sentido das normas e práticas do Ratio studiorum de 1599 é o da ortodoxia católica, seguindo-se no ensino, com a máxima fidelidade, a tradição e os textos canônicos fixados e autorizados a partir do Concílio de Trento". E por aí segue a descrição, que avança com a apresentação dos conteúdos.

Nos estudos inferiores ensinava-se gramática, humanidades e retórica e nos superiores, filosofia e teologia. O estudo dos clássicos permeava toda a formação. Havia, porém, autores excluídos. Outro componente onipresente era a oratória. O ensino tinha finalidade essencialmente prática, a utilidade. O curso de filosofia durava três anos e o de teologia quatro. Na filosofia estudava-se Aristóteles e Tomás de Aquino. Quanto à metodologia, privilegiavam-se as preleções e os exercícios de memória. As exigências eram enormes. Do Colégio de Salvador cobrava-se equivalência a Coimbra e Évora.

Tópico XI. Por óbvio, ainda falta um tema. A expulsão em 1759, pelo marquês de Pombal. Serafim Leite considerou o ato como um ato despótico e o atribui aos inimigos da ordem. Primeiramente aos jansenistas, instalados em Roma, junto ao alto clero e ao poder papal. Outro fator importante foi o Tratado de Madri (1750). Este provocou a rebelião indígena dos Sete Povos e, aos jesuítas foi atribuída a culpa. Eles teriam insuflado o movimento. Também houve problemas no norte, como também foram acusados de sedição em Portugal. João Adolfo termina a sua resenha com uma resposta de Serafim Leite à questão da expulsão. Se foi um bem ou um mal? A resposta, segundo o padre, é fácil para quem é sinceramente cristão e católico:

"Mas como nem todos o são no mesmo grau, ou mesmo em grau nenhum, a resposta poderá ser outra, quando se decidir se a sociedade há-de ter Religião, ou não ter religião, se o Espiritual há-de prevalecer sobre o Temporal, ou, na lógica e última consequência desta matéria, se a sociedade há-de ser com Deus ou sem Deus". E o resenhista conclui: "Provavelmente, aqui o leitor partidário da total separação de Igreja e Estado discordará de Serafim Leite. Mas, por ser leitor democrático, certamente também não concordará com os exílios em massa e as crueldades contra os padres".

Uma consideração final, pessoal minha. Em meus anos de formação fui rodeado de jesuítas por todos os lados. Eu nasci em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro (RS). O padre vigário, embora secular, tinha três irmãos padres, todos jesuítas. Ele encaminhava jovens seminaristas para os colégios dos jesuítas. Na minha vez, mandou para os padres seculares. São momentos decisivos em uma vida. Os jesuítas tinham seminários em Salvador do Sul e em Pareci Novo, tudo nas proximidades de Harmonia. São Leopoldo e a hoje UNISINOS, ficava a uns cinquenta quilômetros. Mas eu fui encaminhado para Bom Princípio, Gravataí e Viamão. Em Viamão fiz três anos de filosofia. Ainda restavam quatro de teologia. Saí quando terminei a filosofia. Se, talvez, tivesse sido encaminhado para os jesuítas, a trajetória de minha vida poderia ter sido diferente. Os estudos sempre me fascinaram muito. Talvez...

Deixo ainda a resenha de um importante livro sobre a presença dos jesuítas no sul do Brasil. A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp, SJ.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html. E, como de hábito, o último trabalho do presente projeto, Visão do paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-20-visao-do.html