quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Fátima Bezerra. A Única governadora eleita em 2018.

O caráter patriarcal da sociedade brasileira se manifestou fortemente no processo eleitoral de 2018. A misoginia dominou a campanha da eleição para presidente e, apenas uma mulher venceu a eleição para um governo estadual. Foi Fátima Bezerra, na terra natal de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte. Fátima é paraibana, mas muito cedo tomou o rumo da cidade de Natal, em busca de estudo e  oportunidades. Fátima é a entrevistada do mês da revista CULT, número 241, dezembro de 2018.
CULT 241, dezembro de 2018. A entrevista com Fátima Bezerra.


Da entrevista, em que falou bastante sobre o projeto "Escola sem Partido", considerado por ela como "um desserviço à educação brasileira", me chamou particular atenção a matéria de apresentação, uma espécie de introdução para a entrevista. Nela é destacada a sua trajetória de vida. Fátima é paraibana, de Nova Palmeira, filha de pai pequeno lavrador e de mãe parteira, que realizava os partos gratuitamente. Nesta eleição, pela primeira vez o Rio Grande do Norte ultrapassou a casa dos seis dígitos numa eleição para governador. Mais de 1,2 milhões de votos. Mas vamos a sua trajetória.

Fátima é pedagoga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Já em seu tempo de estudante participou do congresso de construção da UNE, em Salvador, no ano de 1979, ainda em pleno regime militar. Como pedagoga, a escola foi o seu local natural de trabalho, nas redes municipal de Natal, e estadual do Rio Grande do Norte. Da atividade estudantil passou rapidamente para a atividade sindical. Foi duas vezes presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Rio Grande do Norte, cumpriu dois mandatos de deputada estadual, três como deputada federal e um como senadora, este interrompido com a eleição para o governo do Estado. Uma carreira só de êxitos

O Rio Grande do Norte é um estado um tanto paradoxal. É considerado o Estado pioneiro na participação política, pois "vieram de lá o primeiro voto feminino, em 1927, com a professora Celina Guimarães Vianna; a primeira prefeita da América Latina, Alzira Soriano, em 1929, e o maior número de governadoras na história da redemocratização - Bezerra é a terceira, precedida por Wilma de Faria (PSB) e Rosalba Ciarlini (DEM). Mas é também o estado com maior número de mortes de mulheres e casos de estupro registrados do Sistema Único de Saúde.

Para esses números negativos, ela aponta a cultura do patriarcado, que alimenta a causa machista, como a sua grande causa. Convoca ainda as mulheres para uma mais efetiva participação na política, condição absolutamente necessária para a consolidação de nossa frágil democracia. "Precisamos de mais mulheres na política", afirma. A entrevista acompanha a sua trajetória política, além de se ocupar com temas candentes da atual política brasileira, como o "Escola sem Partido", sobre a questão do feminismo no Rio Grande Norte, a terra de Nísia Floresta, a primeira educadora feminista, e obviamente, sobre Jair Bolsonaro, o presidente eleito.

Com a leitura desta matéria uma questão passou a me intrigar muito. Também no Paraná temos pessoas que militam no Sindicato dos Trabalhadores em Educação, na Central Única dos Trabalhadores e no Fórum Estadual dos Servidores Públicos e que também participaram e participam do processo político eleitoral e o máximo que se conseguiu foi a eleição de um deputado estadual. A questão que me intriga é a seguinte. Por que os nossos representantes não conseguem os mesmos êxitos de Fátima Bezerra? Será que o problema está na qualidade da representação ou na formação política da base destas entidades? Deixo a questão para a reflexão e para o debate.








segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O ódio como política. III. Precisamos falar da "direita jurídica". Rubens Casara.

Um dos mais brilhantes textos contidos no livro O ódio como política - a reinvenção das direitas no Brasil, é o de Rubens Casara, que leva por título "Precisamos falar da "direita jurídica". O autor é doutor em direito e juiz do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Rubens Casara é, portanto, revestido de autoridade (de autor) para falar com propriedade sobre o tema.
Entre outros, o necessário texto do Doutor Rubens Casara.

Casara inicia o seu texto com uma afirmação precisa: "O direito, entendido tanto como um sistema normativo quanto como um conjunto de teorias e práticas, costuma ser apresentado como um obstáculo à transformação social. Isso porque as formas jurídicas (e o Estado é a principal "forma jurídica") servem à manutenção das estruturas de poder". E continua: "Ao produzir a norma a ser aplicada a um determinado caso concreto, os atores jurídicos partem (ou deveriam partir) dos textos legais, que são produtos culturais condicionados pelos valores dominantes no contexto em que foram produzidos. Há, portanto, um evento comprometido com o passado que não pode ser ignorado. E isso, por si só, permite afirmar a tendência conservadora do sistema de justiça".

A partir desta constatação inicial, outras análises. A primeira delas é a questão da inserção da justiça à realidade brasileira, que mesmo com as tendências democratizantes a partir da Constituição de 1988, ela está inserida dentro de uma tradição absolutamente autoritária. Assim se manifesta a naturalização e a normalização da desigualdade e a hierarquização das pessoas, reflexo de uma herança escravocrata, nunca superada. Ademais, além dessas heranças mais longínquas, os atores jurídicos brasileiros são remanescentes ou se formaram dentro do espírito autoritário de 1964. E ainda mais, o judiciário brasileiro se reproduz a si próprio. Assim, "nos concursos de seleção e as promoções nas carreiras ficam a cargo dos próprios membros dessas instituições". O mito da neutralidade não consegue esconder esta situação.

Outra importante observação parte da importância histórica adquirida pelos sistemas judiciários, que no pós - segunda guerra, passaram a custodiar o chamado Estado Democrático de Direito, que se caracterizou pela imposição de limites rígidos no seu exercício, a fim de se evitar a barbárie. "Não funcionou", atesta categoricamente. Os limites da atuação rapidamente foram relativizados, abrindo-se espaços para a pós democracia. Os atores jurídicos não dissociam a sua atuação da tradição em que estão inseridos, o que no caso brasileiro é bastante agravado. Vejamos:

"Pode-se apontar que, em razão de uma tradição marcada pelo colonialismo e a escravidão, na qual o saber jurídico e os cargos no Poder Judiciário eram utilizados para que os rebentos da classe dominante pudessem se impor perante a sociedade, sem que existisse qualquer forma de controle democrático desta casta, gerou-se um sistema de justiça marcado por uma ideologia patriarcal e patrimonialista, constituída por valores que se caracterizam por definir lugares sociais e de poder, nos quais a exclusão do outro e a confusão entre o público e o privado somam-se o gosto pela ordem".

Assim o sistema de justiça não pode ser fonte de esperanças. Sob o mantra da neutralidade e das decisões técnicas, a atuação é em favor da manutenção da ordem, como agências seletivas a serviço daqueles capazes de deter poder e riqueza. A estas forças se somam, ainda, outras forças com a atuação de setores da mídia, na construção da imagem de "um bom juiz", aquele que "considera os direitos fundamentais como óbices à eficiência do Estado ou do mercado". Muitas decisões obedecem ou são consonantes com a "Opinião Pública".

Uma das características dos tempos atuais é a força da ideologia do neoliberalismo, doutrina que sustenta que o "livre mercado" não aceita a imposição de limites de qualquer natureza. O neoliberalismo é a base sob a qual se assenta o Estado penal, pós democrático. E esta racionalidade econômica também recebeu a adesão do mundo jurídico. Por esta adesão " o Poder Judiciário, à luz da razão neoliberal, passa a ser procurado como um mero homologador das expectativas do mercado ou como um instrumento de controle tanto dos pobres, que não dispõem de poder de consumo, quanto das pessoas identificadas como inimigos políticos do projeto neoliberal". Ao menos, para mim, ficou claro que o motivo pelo qual Lula está na prisão é por ser ele um "dos inimigos políticos do projeto neoliberal".
A destruição do Estado de bem-estar, ou democrático de direito.


O texto conclui com uma importante análise das características da personalidade autoritária, definidas por Adorno, e a constatação de que este autoritarismo latente na potencialidade fascista destas personalidades não recebe, por parte do judiciário, qualquer tipo de limitação. Na magistratura brasileira podem ser identificadas as características que definem uma personalidade autoritária. Recomendo muito a íntegra deste texto.Rubens Casara é também autor de um livro maravilhoso Estado pós-democrático - Neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, do qual eu deixo uma pequena resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/01/o-estado-pos-democratico-neo.html

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O ódio como política. II. Da esperança ao ódio: a juventude periférica bolsonarista

Trago hoje a resenha de mais um dos textos do livro O ódio como política - a reivenção das direitas no Brasil, livro da Boitempo, organizado por Esther Solano Gallego. Trata-se do texto "Da esperança ao ódio: a juventude periférica bolsonarista", de autoria de Rosana Pinheiro-Machado e Lúcia Mury Scalco. O texto parte de um dado inicial, a constatação em pesquisa de 2017, de que 60% dos eleitores de Bolsonaro tem entre 16 e 34 anos. Jovens, portanto. A partir deste dado, as pesquisadoras se voltam para o Morro da Cruz, a maior periferia de Porto Alegre.
Uma bela coletânea de textos.

A pesquisa vem sendo realizada desde 2009 e atenta para dois momentos da política e da economia brasileira: o momento do crescimento econômico e o da sua entrada em colapso, a partir de 2013. Este fenômeno afetou tanto as condições materiais destes jovens e de suas famílias, quanto o seu self individual. A trajetória da esperança para o ódio foi quase instantânea. Assim como, também, a busca por saídas.

O Brasil resiste a crise mundial de 2008 e atinge o índice do crescimento do PIB de 7,5% no ano de 2010. As chamadas "novas classes médias", a classe C, se afirmou pela via do consumo, e o verbo "brilhar" passou a integrar os desejos do cotidiano. A invisibilidade e a humildade de subalternos se transformou em orgulho e autoestima. As pessoas pobres passaram a "brilhar". Eis alguns depoimentos: pudemos "levantar a cabeça", ao trocar o elevador de serviço pelo social; vesti a "capa de super-herói" e passei a dizer "eu tô podendo" ao usar um boné de marca; "eles (os brancos) vão ter que me engolir" dizia a empregada negra usando óculos Ray-Ban.

Porém, este fenômeno apresenta uma dupla perspectiva. O processo mostrava uma ambiguidade: "De um lado havia um mercado - e, agora, também um governo - dizendo que todos podiam consumir. De outro, permanecia uma sociedade que escancarava o "não", atualizando os marcadores simbólicos da diferença. O ápice dessa contradição neoliberal se materializava nos "rolezinhos" que os "bondes" (gangues juvenis) davam nos shopping centers da cidade. Os jovens percebiam essa contradição entre o ato de consumir e um mundo que os mantinha segregados, um mundo "violento, racista e desigual". Mesmo consumindo continuavam a ser vistos como "pobres", "favelados" e até como "bandidos"", observam as pesquisadoras.

As pesquisadoras voltaram ao morro no final de 2016, no auge da ocupação das escolas. Queriam ver se os rolês eram germes de revolta, ou não. A primeira constatação: os dos rolês desprezaram as ocupações, consideradas por eles como coisa de vagabundos. O pêndulo revolucionário passara a pender para a direita. Bolsonaro, assim como a Nike ou a Adidas, passou a ser uma marca, uma grife. Já em 2017 eram raros os meninos que não admiravam o candidato, a sua agenda moral conservadora, o punitivismo no combate à violência urbana e à corrupção. O consumismo, no seu longo prazo, se tornara insustentável. Um sentimento generalizado de desamparo social tomou conta.

Junto com a crise, a ocupação das escolas trouxe também um outro fenômeno. Os meninos perderam a sua condição de protagonistas. As meninas adolescentes ganharam visibilidade, junto a outros movimentos, como os coletivos de negros, LGBTs e feministas. Autonomia, descentralização e horizontalidade passaram a ganhar fortes significados. Estava em marcha o fim de um modelo de hegemonia da masculinidade. Isso gera uma reação. A adesão ao "mito".  "Um dos fatores que nos parece decisivo para a formação da juventude bolsonarista é justamente  essa perda de protagonismo social e a sensação de desestabilização da masculinidade hegemônica. Isso fica bastante evidente em nossas rodas de conversa mais descontraídas, quando os meninos chamam algumas meninas de "vagabundas" e "maconheiras"", constataram as pesquisadoras. Essa masculinidade também é desafiada  no dia a dia pela violência urbana, que sobrevive graças a um sistema penal e prisional muito frouxo e que por isso ninguém o respeita. E como praticamente todos já foram vítimas da violência, ansiosos aguardam uma solução.

Aí entra a figura militar de Bolsonaro e os valores do "pulso", da "ordem", da "disciplina", da "mão forte", da "autoridade" e da fé no armamento da população. Embora todos sejam contra a tortura e a censura e sejam críticos das ações policiais, veem na imagem do militar o "último recurso" para uma situação caótica. A Bolsonaro associam também a imagem de Deus, através das igrejas evangélicas neopentecostais. E uma conclusão importante. Estão profundamente abertos ao diálogo: "em todos os nossos debates, quando os meninos foram expostos a argumentos mais longos, houve mudança de posicionamento". "Sou fã do cara, mas tenho medo dele, ele é extremista", dizia um dos jovens. Seria Bolsonaro um modismo juvenil que logo logo estará perdendo a sua força?

Quero ainda deixar registrados os primeiros parágrafos do belo texto de Ferréz, "Periferia e conservadorismo". Vamos lá:
"Dobrar qualquer argumento infundado não deveria ser difícil, mas por aqui é.
Armados somente com o diz-que-me-diz e com o que a televisão vomita, a ala reacionária está cada vez maior.
Quando o buchicho ganha mais vida que qualquer conhecimento, ele vira verdade de quebrada em quebrada, e uma certeza não vale mil verdades.
Tudo bem que é um discurso fraco, que não se mantém, mas cansa ficar contra-argumentando, tentando espelhar casos e, pior, tentando mostrar que a pessoa está na situação de vítima dos argumentos usados e não por cima deles.
Ninguém se declara pobre, pobre é sempre o outro, que tem menos, assim como o rico, que sempre diz que rico é o outro, que tem mais. Sem aceitar o que somos, como ter argumentos para o que não somos?"

Do mesmo livro veja também: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/12/o-odio-como-politica-i-reemergencia-da.html

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O ódio como política. I. A reemergência da direita brasileira. Luis Felipe Miguel.

Tenho prestado muita atenção nas publicações da Boitempo. Estão espetaculares. A mais recente obra publicada pela editora que eu entrei em contato é O ódio como política - a reinvenção das direitas no Brasil. O livro é organizado por Esther Solano Gallego e é uma coletânea de quase vinte textos, tendo cada um em torno de cinco páginas. Como consta no título, o ódio é o grande mote do livro e este ódio é algo intrinsecamente ligado à direita, à direita brasileira, mas as suas fontes são mundiais. Vou resenhar alguns textos do livro.
Fundamental para entender o que se passa no Brasil de hoje.

O primeiro destes textos, que é também o primeiro do livro, é de autoria de Luis Felipe Miguel e tem por título A reemergência da direita brasileira. Luis Felipe afirma que esta direita se reestruturou, especialmente, a partir do governo de Dilma Rousseff em movimentos organizados por extremistas de direita e pelos constantes deslocamentos dos tucanos para a direita. Aponta para a existência de três grandes eixos ou fontes, que tem em comum, o ódio ao PT. Estes três eixos são as doutrinas ou ideologias do libertarianismo, os fundamentalismos religiosos e, ainda, o velho anticomunismo.

O libertarianismo tem as suas origens no próprio liberalismo, mas como ele teve muitas ressignificações, o de hoje se fundamenta nas reações a um de seus movimentos internos, que foi a social democracia, o Estado de bem-estar ou então o Estado Democrático de Direito. É uma forte reação à intervenção estatal na economia, surgida a partir da doutrina de Hayek, em O Caminho da servidão e que ficou conhecida como neoliberalismo. Hayek ganhou novos contornos com Friedamn e a sua escola de Chicago, que espalhou mundo afora, os seus Chicago boys. Este ultra liberalismo ganhou novos contornos dentro da escola austríaca, que, cada vez mais à extrema, apresenta novos nomes como os de Murray Rothbard e Hans Herman Hoppe. Um maior relato pode ser encontrado em http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html. Chegam ao ponto de negar qualquer tipo de solidariedade social, oriunda a partir de políticas públicas.

A sua defesa da liberdade atinge até os campos da moral, admitindo o princípio da liberdade individual, que no campo religioso seria o livre arbítrio, para questões como o uso das drogas e da  estruturação familiar. Se somam, no entanto, ao fundamentalismo religioso, na manutenção da autoridade patriarcal. Mas o seu grande alvo será sempre o impedimento de ações positivas do Estado em favor da cidadania. O destrinchar de regulamentações é um de seus grandes princípios, levando tudo para a esfera dos contratos celebrados entre as pessoas, em suas condições de igualdade e de livre negociação. Um cinismo sem tamanho.

A segunda grande vertente é a do fundamentalismo religioso, que brota e jorra, especialmente, a partir das igrejas evangélicas neopentecostais, ligadas às denominadas "teologias da prosperidade. Para entrar nesse campo recomendo muito a leitura de Os demônios descem do norte, de Délcio Monteiro de Lima, do qual apresento uma pequena resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/12/os-demonios-descem-do-norte-delcio.html

Mas o fato novo é que estas denominações começam a entrar diretamente no campo da política, a partir dos anos 1990, formando a chamada bancada evangélica. A estas bancadas se aliaram setores do catolicismo conservador, anulando toda a ação de católicos e evangélicos progressistas. O seu fundamento se encontra na verdade revelada, na oposição à descriminalização do aborto, no culto à homofobia e na aversão ao que chamam de "ideologia de gênero". Em nome da moral cristã, impõem toda uma pauta conservadora no campo da política, dos direitos civis, das chamadas liberdades individuais. O PT procurou se aproximar desta bancada. Se no começo teve algum êxito, se viu logo abandonado, no surgimento da primeira crise.

A terceira fonte é a do velho anticomunismo, que marca uma volta às práticas do macarthismo, da guerra fria e da ideologia da segurança nacional, todas presentes no golpe civil militar de 1964. Embora o comunismo, em seu estilo stalinista ou do socialismo real, não mais exista, ele foi e está sendo ligado ao PT. Hoje, tentam emplacar a ideia de que o comunismo e o PT são absolutamente a mesma coisa. O filósofo e astrólogo (Contradictio in terminis) Olavo de Carvalho é o seu grande representante. A defesa da cultura ocidental, capitalista e cristã, e a não dissolução da família tradicional, com os valores do patriarcalismo, são seus grandes motes de atuação.
Com Luis Felipe Miguel, em autógrafo no livro Dominação e resistência - Desafios para uma política emancipatória.

Seus locais de pregação são os lugares tradicionais, acrescidos pelas novidades das redes sociais. O seu discurso também ganhou novos componentes com o discurso anti corrupção (do PT), contra os direitos humanos, que protegem bandidos, da satanização das políticas públicas pró cidadania, que destroem os valores da meritocracia, substituindo-os por uma preguiça e indolência atávicas. Como resultado visam e estão alcançando êxitos na desregulamentação das leis do trabalho, na limitação do acesso ao ensino superior, na limitação do direito de aposentadoria, no senso de justiçamentos sumários e na demonização geral das políticas públicas como instrumentos da cidadania. Qual será o resultado final de todo este processo?

Deixo ainda os próximos textos, na sequência: Neoconservadorismo e liberalismo, de Sílvio Luiz de Almeida; A nova direita e a normalização do nazismo e do fascismo, de Carapanã; As classes dominantes e a nova direita no Brasil contemporâneo, de Flávio Henrique Calheiros Casimiro: O boom das novas direitas brasileiras: financiamento ou militância, de Camila Rocha. Sobre os outros textos eu volto em outras postagens. Recomendo muito toda a leitura, que traz nomes, instituições e formas de ação destes seres e entidades na defesa de seus escusos e nada solidários interesses.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A Importância do ato de ler. Paulo Freire.

Em comemoração aos 50 anos da Pedagogia do oprimido, o grupo de oposição a atual direção do sindicato, a APP-Independente promoveu um ciclo de leituras da obra de Paulo Freire. Para tal, grupos de leitura foram formados em todo o estado do Paraná, especialmente nos núcleos em que o grupo é direção. Esta iniciativa contou com o apoio do Nesef e do Deplae, da UFPR. O Nesef certifica a participação e o Deplae ajudou na escolha dos livros a serem lidos, bem como na orientação das leituras. Em torno de 50 grupos foram formados. A fase de leituras está se encerrando.

Particularmente tomei a decisão de ler e de reler a obra de Paulo. Na condição de professor trabalhei bastante as primeiras de suas obras, A Educação como prática da liberdade e a Pedagogia do Oprimido. Também tive a enorme alegria de conhecê-lo pessoalmente. Como integrante do grupo de leituras de Campo Largo, nos coube ler A educação na cidade, no qual Paulo narra a sua experiência como secretário da educação na cidade de São Paulo, na gestão de Luísa Erundina. Dei uma passada nos demais livros relacionados e me detive no A importância do ato de ler. O título tem um complemento: em três artigos que se completam.
A leitura de mundo precede a leitura da palavra. A palavra/mundo.

O primeiro destes artigos tem por título, o próprio título do livro. Trata-se de uma palestra, na verdade, a leitura de um texto preparado para um evento da UNICAMP, o Congresso Brasileiro de Leitura, em novembro de 1981. O segundo, Alfabetização de adultos e bibliotecas populares - uma introdução, foi uma palestra apresentada no XI Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, realizado em João Pessoa, em janeiro de 1982 e o terceiro, O povo diz a sua palavra ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe. Esta terceira parte está dividida, sendo que a primeira trata da transcrição de um artigo publicado na Harvard Educational Review e a segunda, faz uma transcrição e análise dos Cadernos de Cultura Popular, da etapa de pós alfabetização. Uma análise do método, em cheio. Alfabetização mais conscientização.

O primeiro texto, doze páginas, é uma retrospectiva extraordinária de sua vida, do ponto de vista da formação. Nele encontramos a famosa frase de que a leitura de mundo precede a leitura da palavra. Relê os primeiros momentos de sua prática, na casa da família no Recife, o seu primeiro mundo, entre as copas das árvores, os pássaros, os animais domésticos, as flores e os frutos. O mundo que precedeu a palavra, no qual se alfabetizou, antes da sua escolarização: "O chão foi o meu quadro-negro; gravetos o meu giz", afirma. A curiosidade o impulsionou para a leitura. Fala do gosto com que leu Gilberto Freyre,, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Adquiriu até gosto estético com estas leituras de palavra/mundo. Em suas memórias surgem também as suas primeiras aulas dadas, nas quais destrinchava a arqueologia do ato de ler. Gostei de uma afirmação. Os livros não são importantes de acordo com o seu volume e cita como exemplo As teses sobre Feuerbach, de apenas duas páginas e meia. Este texto deveria fazer parte, já na formação inicial de todos os professores. Ter por hábito a reflexão sobre a prática docente e responder as questões básicas sobre o ato de educar, por meio de palavras grávidas de mundo, de realidade a ser transformada deveria ser o grande norte de todos os educadores.

O segundo texto se ocupa, obviamente, da leitura e da escrita e do ato político de educar. A questão do poder jamais pode estar dissociada da educação. O libertar-se não é um ato que vem de cima para baixo. O educar é lidar com sujeitos no e com o mundo, junto com os outros, e todos com o direito à palavra. O ato de educar sempre será um ato em aberto e inconcluso. Encontramos aí também uma afirmação categórica: "Ninguém sabe tudo e ninguém tudo ignora". E como não é mais admissível um texto fora de contexto, estimula a formação de bibliotecas populares, com escritores populares, estimulados por encontros de leituras nestas bibliotecas populares. Encontros de estímulo para a leitura e também para a escrita.

No terceiro texto, diante de folhas em branco, medita sobre o ato de alfabetização de adultos. A realidade prática é que determinará como este processo se dará, fora dos parâmetros da neutralidade. A alfabetização, assim como todo o ato de educar, é um ato político, no qual a neutralidade não cabe. É o relato da fase em que assessora países recém independentes, que romperam com os terríveis vínculos da colonização portuguesa. Um processo de dominação a toda prova. São Tomé e Príncipe, independentes a partir de 1975, com algo em torno de 74.000 habitantes. O projeto previa a alfabetização ao longo de quatro anos. A segunda parte, simplesmente extraordinária, põe o leitor em contato direto com o método que foi utilizado, com as palavras geradoras próprias à realidade de um pequeno país, de duas ilhas, recém liberto do jugo português. São apresentados os Cadernos de Cultura Popular que se seguiram ao processo de alfabetização. Os textos são ensaios de leitura de mundo, necessários a este momento histórico. Neles são feitas análises do processo de produção, do trabalho oriundo da simultaneidade entre entre o pensar e o fazer, e portanto, criativo, das tradições culturais, do estabelecimento de relações justas e de liberdade exigidas pela da realidade deste novo momento histórico. Os cadernos, segundo o próprio Paulo, são compostos de materiais desafiadores e não domesticadores. Em suma, propostas desafiadoras para pensar o sentido da educação e do ser educador. Caminhos de formação humana, igualitária e justa.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Memórias da casa dos mortos. Fiódor Dostoiévski.

"As cadeias caíram. Eu as apanhei... Queria tê-las nas minhas mãos, olhá-las pela última vez. Admirava-me agora que ainda há um instante as trouxesse nos pés.
- Bom, vão com Deus! Com Deus! - Diziam-me os presos com vozes roucas, entrecortadas, mas nas quais me parecia vibrar agora um pouco de alegria.
Sim, com Deus! Liberdade, vida nova; ressurreição de entre os mortos! Que momento glorioso!"
Box com dois livros. O Idiota e Memórias da casa dos mortos, ou seja, a prisão.

Assim Dostoiévski termina o seu Memórias da casa dos mortos, a sua primeira grande obra. O livro é totalmente autobiográfico, retratando os quatro anos de prisão em Omsk, na Sibéria. Ali sofreu a privação da liberdade, passou fome e frio, passou por trabalhos forçados e inúteis, sofrendo maus tratos e tendo a solidão como companheira mais constante. Passou este tempo em absoluta conformação e reconhecendo, inclusive, como justa esta sua prisão. Ela representou uma total transmutação na vida do grande escritor.

A Rússia, neste tempo, convivia com um dos regimes mais retrógrados dos tempos modernos. A prisão de Dostoiévski se deu por motivos políticos, de rebeldia contra o regime, especialmente contra a censura. A prisão se deu no ano de 1849 e a pena foi a capital. Quando esteve para ser executado, a pena foi comutada por prisão, com trabalhos forçados, por dez anos, na Sibéria. Lá chega em  janeiro de 1850 e saindo em março de 1854. A liberdade plena e a volta a Rússia se dará apenas a partir de 1859. O livro começa a ser escrito em 1855 e a publicação aparecerá em 1861.

Acima de tudo, o livro é uma grande reportagem literária. Driblou a censura fazendo-se passar por um criminoso comum, por assassinato de sua esposa. Na verdade, ele era um preso político. O livro não se constitui de denúncias, mas de descrição fiel do ocorrido na prisão e na força da descrição psicológica de seus companheiros, presentes e caracterizados em seus grandes romances. Na convivência com estes criminosos traçou o perfil exato destes personagens, donde lhes vem toda a força e autenticidade.

O livro começa por uma descrição da Sibéria e de uma análise das possibilidade de atração deste longínquo lugar. Salários dobrados e terras de muita fertilidade atraem funcionários e colonos. Na "Casa dos mortos", ou na prisão ele aprendeu a ser paciente e a tudo se habituou. Ali havia 250 presos que haviam cometido toda a série de crimes. Ali fez as suas primeiras constatações, como esta, de fundamental importância: os castigos físicos não melhoram as pessoas. Ocorre sim, o seu contrário, degenerando quem castiga e quem é castigado. A ausência do trabalho, em seu significado verdadeiro, e não no forçado se constitui no principal fator de degradação. A aguardente, por contrabando, está onipresente, assim como angustiantes gritos e delírios noturnos.

Três capítulos são destinados às sua primeiras impressões. Vários presos são descritos bem como a natureza de seus crimes. De maneira geral, os presos, constata, foram pessoas muito mimadas na infância. Os agentes penitenciários são os grandes candidatos a ocuparem novas vagas. Eis outra constatação. Alguns presos, especialmente os que lhe foram mais próximos, merecem descrição particular. É emocionante a cena em que Ali, um dos presos, é alfabetizado. Para isso, depois de terem arranjado papel, tinta e pena, usam do Evangelho. Vejam o seu agradecimento: "Fizeste mais por mim", dizia, "do que o meu pai e minha mãe juntos; fizeste de mim um homem. Deus há de pagar-te e eu nunca te esquecerei". Os fonemas da alegria.

A descrição continua com dois capítulos dedicados ao primeiro mês e um a aquisição de novos conhecimentos, ocupados, essencialmente, na descrição dos colegas da prisão. A descrição de um judeu e uma festa da noite de natal ganham também grande destaque. Me chamou particular atenção, no entanto, um capítulo sob o título de "O espetáculo". Trata-se de uma apresentação teatral. Dostoiévski não contém a admiração: " Quantas energias e quanto talento se perdem às vezes, aqui, na Rússia, inutilmente, no cativeiro e nos trabalhos forçados".

Três capítulos são ocupados com a descrição do hospital. São deprimentes. São descritos os castigos físicos e o atendimento médico que recebem os vergastados, após a aplicação dos castigos. Os verdugos são descritos em sua deprimente função e que, normalmente, cumprem com satisfação, chegando até o entusiasmo. Quem quiser ver sobre a profissão de algoz ou de verdugo, recomendo o capítulo O Hospital - Conclusão (páginas 251- 271).

Em suas observações não passa despercebido a necessidade da força física e moral. Em função disso até os trabalhos forçados adquirem um certo gosto. E a força moral vem com a perspectiva da liberdade, nunca ausente: "E quem sabe que o processo psicológico se operaria então na sua alma! Sem um objetivo pelo qual tenha que esforçar-se, nenhum homem pode viver. Quando perdeu a sua finalidade e a sua ilusão, o homem transformou-se muitas vezes, com o aborrecimento, num monstro. O fim para todos nós era a liberdade e a saída do presídio" (Página 322). Eis a origem de seus grandes personagens criminosos.

A descrição passa por praticamente todos os aspectos possíveis de ocorrerem num presídio. As relações com a hierarquia, as relações entre os pares, as relações com os animais, pelos quais nutrem grande afetividade, pelas tentativas de fuga e, obviamente a perspectiva do grande dia da saída, da reconquista da liberdade. "Sim, com Deus! Liberdade, vida nova; ressurreição de entre os mortos! Que momento glorioso!", como já vimos na frase final do livro e de abertura desta resenha. E uma grande questão, para encerrar. Foi a prisão - que transformou Dostoiévski no grande escritor que ele foi?