quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Dez Interpretações de Brasil. Indicações de Antônio Cândido.

Creio não incorrer em erro ao apresentar Antônio Cândido, como o maior intelectual vivo, da atualidade brasileira. A revista Teoria e Debate, a revista teórica do Partido dos Trabalhadores, solicitou a ele, lá nos idos do ano 2000, a indicação dos dez livros que melhor interpretam o Brasil. Ele topou a parada, embora com algumas indicações a mais. Antes da indicação ele definiu os fatores que deveriam ser levados em conta, para que merecessem a indicação. Esta indicação dos fatores a serem considerados são um verdadeiro programa de um curso de cultura ou de realidade brasileira. As suas indicações, segundo ele próprio, seriam assim para um jovem iniciante.
Antonio Candido, recentemente no filme sobre a vida e a obra de Sérgio Buarque de Holanda
Ninguém melhor indicado para nos fornecer a lista de livros que melhor interpretam o Brasil. Antônio Cândido.

Ao apontar o que efetivamente conta, ele levanta os seguintes tópicos: "os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que dominou o país". Segundo ele, isto nos daria uma ideia básica. A partir destes tópicos e, de acordo com os mesmos, ele então passa a fazer as indicações. Mas em vez de dez, ele amplia a lista para onze, sendo o primeiro, uma espécie de introdução geral.
O livro de Darcy é apontado como uma introdução geral aos estudos de interpretação do Brasil.

Para a introdução geral ele apresenta o livro de Darcy Ribeiro: O Povo Brasileiro (1995). Sobre ele, ele diz não conhecer outro melhor, por suas ideias originais e pelo estilo movimentado e atraente expresso em seu subtítulo: A formação e o sentido de Brasil. Já trabalhei os seus capítulos aqui no meu blog. Depois desta introdução, começa então a indicação de um livro, para cada um dos temas propostos.

Livro número um: Sobre a caracterização do português e sobre a natureza do povo brasileiro e de sua sociedade a partir da incorporação de sua herança indica: Sérgio Buarque de Holanda com o livro Raízes do Brasil, livro lançado em 1936 e que mostra a transfusão cultural e social, de Portugal para o Brasil.

Livro número dois: Em relação às populações autóctones deixa de fora os clássicos para apontar um livro exemplar tanto na concepção quanto na execução: História dos Índios no Brasil. O livro foi organizado por Manuela Carneiro da Cunha e escrito por especialistas. O livro data de 1992.
Sobre a formação do Brasil, desde seus tempos de colônia, o livro de Caio Prado Júnior.

Quanto ao livro de número três, lamenta não ter livro semelhante ao dos índios para indicar sobre os negros. Assim indica, por critérios etnográficos e de folclore o livro escrito em francês e para estrangeiros tomarem conhecimento da escravidão no Brasil, o livro de  Kátia de Queirós Mattoso, lançado em 1982 Ser Escravo no Brasil. Diz ainda ter inclinações para indicar, O Abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, A Escravidão africana no Brasil de Maurício Goulart e o grande clássico sobre a exclusão social no Brasil, que é o livro de Florestan Fernandes, A Integração do negro na sociedade de classes, de 1964.

Como livro de número quatro para a interação dos povos formadores aqui no Brasil, sob o domínio absoluto do português, a indicação recai sobre um dos nossos maiores clássicos, que segundo Antônio Cândido tem golpes de gênio e escrita admirável. Trata-se de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Com sua genialidade é mostrada a fusão inevitável das raças e das culturas. A obra é data de 1933.

O livro de número cinco versando sobre o mesmo tema da sociedade colonial fundadora, mas com um olhar mais econômico e com destaque para a nossa expansão geográfica e a organização social e política, a indicação recai sobre Caio Prado Júnior, e o seu Formação do Brasil Contemporâneo - Colônia, datado de 1942.
O livro de Bomfim, possivelmente o livro menos conhecido das indicações mas, o mais vibrante.

O livro de indicação número seis - sobre a formação da sociedade colonial diz que a sua tendência inicial era a de indicar os dois clássicos de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil 1909) e O Movimento da Independência ( 1922), mas fica com Manoel Bomfim e o seu A América Latina - Males de Origem. A escolha se deve por sua visão socialista, que lhe permitiu enxergar melhor as nossas desigualdades e toda a opressão, não só no Brasil, mas em toda a América Latina. O livro é 1905.

O livro número sete - seria sobre o Brasil imperial, a tendência seria indicar Um Estadista do Império,de Joaquim Nabuco, mas como ele está muito centrado na figura de seu pai a indicação recai sobre Sérgio Buarque de Holanda com o seu Do Império à República, que enfoca a mudança do regime e integra a coleção História Geral da Civilização Brasileira. O livro é de 1972.
O Brasil da miséria e do isolamento e ao mesmo tempo da força do sertanejo. Os Sertões.

Já a indicação de número oito, sobre o Brasil Republicano, Antônio Cândido destaca o surgimento de brasis diferentes: um, o do isolamento e da miséria, gerador de violência e conflito e o outro, o da civilização urbana. Para este primeiro Brasil indica um livro cheio de observação e de indignação social, que é o livro de Euclides da Cunha, Os Sertões. O livro é de 1902.

Para o período que vai de 1889 até 1930 e que forma a chamada república velha, vai a sua indicação de número nove. Destaca que este período foi marcado pela oligarquia dos proprietários rurais e a sua atuação como chefes regionais. A indicação recai sobre o livro de Vitor Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto. O livro data de 1949.

Sobre o período da modernização, da passagem do poder para a burguesia urbana, de base industrial e as reivindicações das bases populares e os ajustes ocorridos vai a sua indicação de número dez. A indicação é  A Revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, livro lançado em 1974.

Eu não sei o que eu fiz na contagem, mas eu estou chegando na indicação de número onze, que recai sobre o tópico da imigração. Lamentando não haver uma grande obra a respeito, indica, para a colonização alemã, A aculturação dos alemães no Brasil, de Emílio Willems, lançada em 1946. Para a imigração italiana faz duas indicações: a de Franco Cenni, de 1959, Os italianos no Brasil ou então Do outro lado do Atlântico, de Ângelo Trento, livro datado de 1989.

No parágrafo final, uma aplacação para o seu remorso de indicações não feitas, tanto de velhos autores, como Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo e Nestor Duarte, e mais novos, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho e Evaldo Cabral de Mello. E para aplacar ainda mas segue um monte de etc.............

Me atrevo ainda a uma outra indicação, que já me foi muito útil. Uma publicação que saiu nas comemorações dos 500 anos do descobrimento: Um Banquete no Trópico - Introdução ao Brasil. Volumes 1 e 2. Lourenço Dantas Mota é o organizador. O livro foi editado pela editora do SENAC - São Paulo. Mais adiante eu comento.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Arapongas. 13ª Sessão do Fórum Permanente de Controle e Fiscalização dos Recursos da Educação.

Realizou-se nos dias 17 e 18 de outubro de 2013, na cidade de Arapongas, a 13ª. Sessão do Fórum Permanente de Controle e Fiscalização dos Recursos da Educação. Os recursos da educação são hoje vinculados e regulados pelo FUNDEB - o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação, criado pela Emenda Constitucional nº 53, em substituição ao FUNDEF, considerado pelo profissionais da educação, como a reforma neoliberal da educação, no então governo de Fernando Henrique Cardoso. O FUNDEB viabilizou o financiamento para todas as etapas e modalidades do ensino básico e valorizou a todos os profissionais que atuam nas escolas públicas, em todo o país. A abrangência do FUNDEF incluía apenas, o então denominado ensino fundamental, com as marcas características da exclusão, das políticas neoliberais.
Vista panorâmica dos participantes do Fórum.

Na programação do evento constavam uma análise de conjuntura da realidade brasileira, uma palestra sobre Carreira e Financiamento da Educação e Piso Salarial Profissional e outra sobre Controle e Fiscalização dos Recursos da Educação e ainda a apresentação do relato da experiência do município de Arapongas com relação a questão do financiamento da educação. Dois dias repletos de atividades. mais de 40 municípios estavam representados e mais de 800 participantes estavam inscritos. 

O evento teve como organizadores a Prefeitura Municipal de Arapongas, através da Secretaria Municipal de Educação e Esportes, da APP-Sindicato, pela sua Secretaria dos Professores Municipais e pelos mandatos dos deputados Tadeu Veneri e do professor Lemos. A cidade de Arapongas é um dos mais progressistas municípios paranaenses, que além de sua riqueza tradicional, originária da agricultura e da pecuária, possui na indústria moveleira a sua principal atividade econômica. Arapongas é hoje o segundo polo moveleiro do Brasil. Tem em torno de 105.000 habitantes. O seu prefeito é hoje a popular pessoa do padre Antônio José Beffa.

A mesa de autoridades, com destaque para o deputado, prof. Lemos.

Fui ao evento na qualidade de palestrante convidado, cabendo-me fazer uma análise de conjuntura do momento atual da realidade brasileira. Essencialmente fizemos uma contraposição entre a concepção de Brasil como um mercado emergente, sob a ótica dos tempos da hegemonia neoliberal e a recuperação do conceito de Estado/Nação/Pátria nos dez últimos anos de governo no Brasil e as enormes repercussões sociais que estas concepções compreendem. A concepção atual vê no ser humano um cidadão e para ele são dirigidas as políticas públicas, sob a concepção de - direitos do cidadão - deveres do Estado, contra a concepção neoliberal de que o Estado nada deve a ninguém e que cabe ao indivíduo a busca dos serviços ligados à cidadania, como a educação, a saúde, a previdência, no mercado, no âmbito do privado.
Uma apresentação musical feita pelos alunos da APAE da cidade anfitriã.

A palestra sobre Carreira e Financiamento da Educação e Piso Salarial Profissional Nacional coube ao professor Milton Canuto de Almeida. Milton é de Alagoas e ocupa hoje a vice presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e é considerado a maior autoridade brasileira em financiamento da educação. A sua fala foi a de um especialista mas que não perdeu a visão da totalidade. A sua fala contemplou temas como a situação tributária brasileira e a sua estrutura perversa, na tributação das pessoas mais pobres, uma comparação com a tributação em outros países, sobre os recursos destinados à educação e toda a legislação que estabelece os parâmetros para a mesma e os pactos federativos necessários para a sua implementação. A fala abrangeu ainda uma análise da evolução dos conceitos na educação, na definição de quem são os profissionais da educação, sobre a situação do atual Plano Nacional de Educação e o rumo na direção do Sistema Nacional de Educação.

A palestra serviu inclusive como um alento, por saber que estamos efetivamente trilhando um caminho para definir educação como um direito e um meio de elevação de cidadania e que vem recebendo medidas efetivas de valorização dos professores, os profissionais da educação. Isto é tão verdadeiro, que existe uma verdadeira cruzada, organizada pelos governadores, para que as conquistas do Piso e Carreira não sejam efetivadas. 
Junto com professoras e professores organizadores e participantes do Fórum.

Não participei das atividades do segundo dia, mas a palestra sobre o Controle e Fiscalização dos Recursos da Educação, esteve a cargo do Ministério Público e do Tribunal de Contas, enquanto que a experiência de Arapongas foi relatada pela Promotoria de Justiça da cidade, pela Secretaria Municipal de Educação, pelo Conselho Municipal de Arapongas e pelo Conselho Municipal do FUNDEB.

Voltei muito satisfeito do encontro. Além de rever muitos amigos, fico com a certeza de que a educação está sendo levada a sério, que a legislação educacional relativa ao financiamento e à valorização profissional está melhorando muito e, o que é muito importante, estão se implantando organismos populares de controle e fiscalização no sentido de que o cumprimento desta legislação se trone algo efetivo, o que por si só, representa uma grande conquista para a tão jovem democracia brasileira.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Interpretações de Brasil. Darcy Ribeiro e a obra de Manoel Bomfim II.

Qualquer texto de Darcy Ribeiro sempre é muito qualificado. Não é diferente a apresentação que ele faz do livro de Manoel Bomfim, América Latina. Males de Origem. O livro foi publicado originalmente em 1905 e foi praticamente escondido dos leitores brasileiros por sua contundência na denúncia dos abusos cometidos em nossa colonização, tanto pelos portugueses, quanto pelos espanhóis. Cheguei ao livro por uma indicação do Antônio Cândido.
Um livro diferente, praticamente escondido da formação e dos leitores brasileiros. Uma visão original sobre os males de nossa colonização.

Na apresentação Darcy, que entrou em contato com o livro no Uruguai, em seu exílio, exalta o livro por estar cheio de indignação e ao mesmo tempo de esperança, pela certeza de que este país é um país viável. O seu ocultamento se deve as teses originais que defende, contra o todo o pensamento dominante na época. A sua descrição de portugueses e espanhóis passa por uma profunda análise da formação histórica destes povos, destacando a questão moura, na guerra da reconquista, quando os povos ibéricos se tornaram povos guerreiros e saqueadores e incapazes de se dedicar a qualquer tipo de trabalho. Uma frase de seu livro, posta em epígrafe, que bem pode sintetizar o espírito tanto do primeiro rei português, quanto do espanhol, D. Afonso Henriques e Pelayo, respectivamente. E de todos os outros também. Observemos a frase.

"O ladrão -... E vós mesmo, que tendes feito até hoje?
Alexandre - Tenho vivido como um herói: o mais bravo entre os bravos, o mais nobre dos soberanos e o mais poderoso dos conquistadores... E tu, ladrão miserável?
O ladrão - Mas que vem a ser um conquistador?... Não percorrestes em pessoa toda a terra, como um gênio mau, destruidor de belos frutos do trabalho e da paz... pilhando, matando, sem lei e sem justiça, simplesmente para satisfazer uma sede insaciável de domínio? Tudo que fiz, com centenas de homens, num pequeno recanto, vós o fizestes com centenas de milhares, sobre nações inteiras. Onde a diferença?... Nisto: o nascimento fez de vós um rei, e de mim um simples particular; sois um ladrão mais poderoso do que eu".
Um dos grandes livros de interpretação do Brasil, não obstante o seu olhar europeu.

O livro é escrito com este tom e é precedido de uma nota de advertência, que é um verdadeiro libelo contra a neutralidade. É impossível que as suas posições sejam mais claras. Por estes motivos o livro não ganhou divulgação, tendo ganho isso sim, fortes adversários, como Darcy nos mostra. Darcy nos conta que ele teve muitos predecessores, o que não teve foi sucessores. Os nossos pensadores eram servis demais para romperem com a tradição que apenas valorizava pensadores europeus. "Entre nós", diz Darcy, "a cultura não constrói, como em toda parte, pela superposição de tijolos nas paredes de um edifício que se levanta coletivamente. Aqui, cada pedreiro está olhando para a casa alheia e só deseja contribuir com seu grão de areia exemplificativo ou seu tijolinho de lisonjas ao pensador estrangeiro que mais o embasbaca. As gerações, assim, não se concatenam. Cada qual se atrela, se ancila, aos moinhos de ideias lá de fora".

O que diziam então estas ideias copiadas dos pensadores europeus? Elas atribuíam o atraso do nosso progresso ao clima, à raça ou à religião católica mas no pensamento de Bomfim eram "mistificações urdidas para disfarçar ações hediondas. O que se tomava por sabedoria científica é, a rigor, a ideologia do colonizador, consagradora de suas façanhas". Darcy dá o exemplo de alguns destes pensadores que viam o Brasil com o olhar das teorias europeias: Sílvio Romero, Joaquim Nabuco, Oliveira Viana e o próprio Euclides da Cunha. Outros que já viam o Brasil a partir de um olhar brasileiro, não tinham, no entanto a clareza da compreensão de Manoel Bomfim.

Sílvio Romero chegou a desancá-lo com uma obra que tinha por intenção única a sua desclassificação. procurou mostrar que era um completo idiota, mas como diz Darcy: "idiota era o Sílvio, coitado. Tão diligente no esforço de compreender o Brasil, mas tão habitado pelos pensadores europeus em moda que só sabia papagaiá-los. O considerava como um 'manoelzinho' que fazia leituras mal digeridas.
Até os nossos melhores escritores estavam cheios de preconceitos, especialmente eram contra a mistura de raças.

Até o grande Joaquim Nabuco, que tanto lutou pela abolição da escravidão e contra toda a obra por ela deixada, se ufanava de que pensava em francês e só tinha olhos para as belezas europeias. Vejam esta manifestação sua: "O sentimento em nós é brasileiro; a imaginação é europeia As paisagens todas do Novo Mundo, a Floresta Amazônica ou os pampas argentinos não valem para mim um trecho da via Appia, uma volta da estrada de Salermo e Amálfi, um pedaço do cais do Sena à sobra do Louvre".

Darcy ainda considera que o mulato Oliveira Viana "viveu sua vida sem se olhar no espelho", sucumbindo à suposta sabedoria de Gobineau ou Lapouge. Vejam uma frase sua: "O Brasil nasceu sob a regência de fidalgos e cortesãos lusitanos habituados à vida dos paços reais e aos seus prazeres e galas. Nos trazem os hábitos, tão surpreendentes aqui, da sociabilidade, da urbanidade e do luxo. A ouriçaria esfervilhante dos latifúndios, uma massa de mestiços ociosos e inúteis, é uma ralé a degradar pela corrupção, pela miséria e pela mestiçagem a pureza de sangue e de caráter".

Sobra até para o Euclides da Cunha, um dos nossos escritores maiores, que tão bem sabia ver a energia do sertanejo, não obstante defender a ideia de que a "a mistura de raças é danosa, de que o mestiço é um desequilibrado, o mulato, quase um estéril". Sobra ainda para Nina Rodrigues e até para Gilberto Freyre, que retoma estes temas, quando estas teorias já não faziam mais sentido e, mesmo assim, se mostra encantado com a bondade do senhor do engenho. A leitura do livro é uma aventura fantástica, começando com a teoria do parasita.




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Interpretações de Brasil. Darcy Ribeiro e a obra de Manoel Bomfim I.

Em minha formação acadêmica e continuada nunca tinha ouvido falar de Manoel Bomfim. Até que um dia vi a lista de livros, no blog da Editora Boitempo, recomendada pelo Antônio Cândido, para interpretar o Brasil, que originalmente fora publicado na Revista Teoria e Debate, de 30.09.2000. A revista solicitou a Antônio Cândido que fizesse a relação de dez livros que melhor interpretam o Brasil. Teoria e Debate é a revista editada pelo Partido dos Trabalhadores.

Antônio Cândido não obedeceu integralmente a solicitação da revista, pois deu onze, e não dez livros. Deu o livro de Darcy Ribeiro O povo brasilçeiro - A formação e o sentido do Brasil, (Companhia das Letras) como introdução geral, para daí sim, listar os dez livros. A grande surpresa da lista, foi para mim, o livro A América Latina - Males de Origem, (Topbooks) de Manoel Bomfim. Quanto aos outros livros não houve surpresas. Em outro momento eu listo os dez livros. Imediatamente comprei o livro por via eletrônica. O consegui na Americanas.
13.05.17_Antonio Candido_10 livros para conhecer o Brasil
Antônio Cândido, indica dez livros que melhor interpretam o Brasil. Entre eles está: A América Latina. Males de Origem, de Manoel Bomfim.

O livro original data de 1905. A versão atual é a edição de centenário, portanto, de 2005. Esta versão tem um prefácio de uma edição de 1937, escrita por Azevedo Amaral. A edição atual tem duas apresentações, uma de Darcy Ribeiro e outra de Franklin de Oliveira. A apresentação de Darcy Ribeiro aliviou a minha consciência pelo seu desconhecimento. Darcy assim se refere ao desconhecimento do autor: "Teve predecessores, é certo, que cita copiosamente, dos quais se quis fazer herdeiro e continuador. Não teve foi sucessores, porque jamais existiu, de fato, na bibliografia brasileira. A culpa não é de Bomfim, é nossa. Não porque ele fosse adiantado demais, mas sim porque nossos pensadores são servis demais. Entre nós, a cultura não constrói, como em toda parte, pela superposição de tijolos nas paredes de um edifício que se levanta coletivamente. Aqui, cada pedreiro está olhando para a casa alheia e só deseja contribuir com seu grão de areia exemplificativo ou seu tijolinho de lisonjas ao pensador estrangeiro que mais o embasbaca".

Darcy encontrou o livro quando esteve exilado em Montevidéu, estudando a América Latina. Com Bomfim descobriu que a identidade latino americana era comum "feita com as mesmas vicissitudes vividas pelos povos que construíram, aqui, com carne e com a alma dos índios e dos negros que os brancos caçaram e encurralaram para produzir suas riquezas". Descobriu mais, "que o nosso descompasso histórico é feito de papagaios da sabedoria alheia ou parlapatões". Fui ver o significado exato de parlapatão: homem cheio de vaidade, mentiroso, impostor, fanfarrão, me esclareceu o Aurélio. E toda a sabedoria deles se reduz, segundo palavras de Bomfim, "a sentenças invariavelmente condenatórias".
Este é o livro de Manoel Bomfim. América Latina. Males de Origem. É a edução do centenário do livro, editado em 1905.

Darcy continua situando o pensamento de Bomfim: "Penetrando no nevoeiro das aparências" ele desmascara o que ele chamava o "parasitismo europeu" como causa real de nossas desgraças. Praticavam uma economia insensata para nós, mas racionalíssima para eles. "Algumas centenas de escravos e um chicote" foi o estilo civilizatório europeu de homens brancos, cristãos e civilizados. E toda a literatura produzida em nome da ciência teve, na verdade, como real finalidade, encobrir o papel real do homem branco como dizimador e genocida dos povos que tratou ou consumiu os escravos como carvão humano, para produzirem o que não consumiam.

Darcy constata mais: "Só Manoel Bomfim, naqueles anos, teve olhos para ver que as teorias europeias do atraso e do progresso, que os atribuíram ao clima, à raça, à religião católica, são, de fato, mistificações urdidas para disfarçar ações hediondas. O que se tomava por sabedoria científica é, a rigor, a ideologia do colonizador, consagradora de suas façanhas". Assim o racismo foi uma técnica ideológica para justificar a dominação e a escravização.

Na sequência Darcy apresenta algumas visões de intérpretes do Brasil consagrados, que eu apresentarei em outro post, e a sua visão sobre a realidade brasileira, que não incorporaram em suas visões o olhar de Bomfim. As teses do autor de A América Latina - Males de Origem são as de que as ditas taras do criouléu não vinham da raça, mas da escravidão, do caráter classista e intrinsecamente tirânico e espoliativo do Estado brasileiro. Que as condições de existência, a situação de casta do escravo, são as conformadoras do caráter e do temperamento de cada segmento de um povo e nunca determinações de uma raça. Que é absolutamente desonesto confundir "alternativas históricas dos povos" com a suposta "inferioridade definitiva das raças".
O livro de Manoel Bomfim tem apresentação de Darcy Ribeiro. O livro de Darcy é a melhor introdução aos estudos de interpretação do Brasil, segundo Antônio Cândido.

Encerro este primeiro post com o que Darcy mais admira em Bomfim: "O aspecto com que mais me identifico na obra de Manoel Bomfim é aquele que o opõe a todos os antigos e modernos pensadores coniventes com os grupos de interesse que mantêm o Brasil em atraso. É sua extraordinária capacidade de indignação e de esperança. É sua certeza de que esse é um país viável. É sua convicção de que construiremos aqui uma civilização solidária e bela, assim que retirarmos o poder de decisão das mãos de nossas classes dominantes, infecundas e infiéis".

Eu, da minha parte, já estou satisfeito com a compra do livro só com a apresentação do Darcy. São 11 páginas que já pagaram o livro. Mas a minha expectativa em torno do livro e das outras apresentações é grande. Eu volto a esta apresentação do Darcy, mostrando autores renomados e os seus erros de visão, por pouco olharem ao seu redor, por serem apenas, parlapatões das ideologias do colonizador.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nota de Falecimento. Um Retrato da Política.

Está no ar, nas rádios, um informe de um sindicato, se não me engano, dos funcionários do INCRA, que anuncia um falecimento, o da reforma agrária. Isso me remeteu a uma outra nota de falecimento, que consta num livro que comprei no Segundo Fórum Social Mundial, em 2002, em Porto Alegre. O livro é do Pablo Gentili e do Chico Alencar e que tem por título Educar na Esperança em tempos de desencanto. É uma publicação da editora Vozes, de 2001. Dou e insisto na data, 2001, pois é necessário datar as coisas e associá-lo ao título, aos "tempos de desencanto". Era quase ao final do longo e interminável governo de Fernando Henrique Cardoso, no auge das práticas políticas neoliberais, causadoras do desencanto. Mas vejamos o anúncio:
O belo título do belo livro de Pablo Gentili e Chico Alencar. A contraposição entre desencanto e esperança.  
NOTA DE FALECIMENTO:

"Brasília, um dia qualquer desta primeira década do século XXI - Pereceu hoje, na capital da República, Dona Política Democrática do Bem Comum, após lenta agonia. Causa mortis: falência múltipla dos órgãos, após septicemia generalizada. Nesta etapa terminal, seu Executivo só executava a sangue frio, o Legislativo legislava apenas em causa própria, e o Judiciário tardava e falhava. A infecção no regime representativo era crônica. Dona política, alguns anos antes de morrer, já exalava, em seu bem equipado quarto de moribunda, um cheiro insuportável. As despesas com a longa internação e o sepultamento foram pagas por grandes conglomerados privados, a maioria do setor financeiro.

Ao velório de Dona Política compareceram altas autoridades do país. O Presidente da República deu animada entrevista para correspondentes estrangeiros, dizendo conhecer a indigitada desde os tempos da Grécia Antiga, quando era considerada amiga fiel de todos - à exceção dos escravos, das mulheres e dos estrangeiros.

Senadores de sábias cabeças brancas, contristados, confabulavam no velório. O momento de nojo (como eles continuam a denominar o luto) fez com que notórios adversários de ocasião, que tinham protagonizado recente duelo para provar quem era mais canalha, ficassem lado a lado e até trocassem algumas ideias.

Alguns representantes da esquerda também compareceram. As lágrimas sinceras pelo passamento de Dona Política Democrática não duraram muito: logo foram secando e a perplexidade deu lugar a um inusitado conformismo, na linha do "a vida é assim mesmo" e "Deus sabe o que faz". "O jeito é seguir em frente e nos acostumaremos com sua ausência", disse um deputado que fora líder estudantil há trinta anos, com seu corpo trinta quilos mais pesado.

Coroas de flores abarrotavam a capela. As mais vistosas eram as assinadas pelo FMI e pelo Banco Mundial. O Presidente dos EUA enviou mensagem, afirmando saber o que os brasileiros estavam sentindo, pois seu país vivera essa perda há muito, levando o povo norte-americano a reagir com o consumo compulsivo de hambúrgueres, coca-colas, drogas, sexo e credit card. Comunicadores de elevada audiência, através da TV, explicavam que a morte era esperada, pois Dona Política, idosa e "jurássica como a ideia de Nação", já não cumpria função relevante no mundo globalizado do capital volátil, dos fluxos especulativos sem fronteira e dos internautas egocentrados do ciberespaço.

O sepultamento será no jazigo perpétuo da família Camaleão (aquela oligarquia pluriétnica, que muda de cor conforme a situação, e sub-ética, com moral de ocasião), no poder há 500 anos.

A nota dissonante das exéquias foi a invasão da capela, quando a tarde caía, por um menino maltrapilho, que circulou entre os presentes assoviando a música "O que será", de chico Buarque, para constrangimento geral. Retirado por seguranças, ele sumiu na noite que chegava.

No livro de condolências, encontrou-se sem assinatura, uma estranha mensagem: "Há erro de pessoa aqui. Esta política que já vai tarde não é a Democrática e do bem Comum. É uma contrafação dela, nascida no ventre neoliberal da cultura narcísica, da desconstituição da pessoa como agente da História. Quem morreu, sem merecer choro nem vela, foi a política despolitizada da delegação, da desinformação, da submissão do povo como massa de manobra dos bandidos de colarinho branco. Dona Política Democrática do Bem Comum está viva e foi vista, cheia de energia, num acampamento dos sem terra, na boa luta sindical, nas comunidades pobres que se organizam, nas escolas da educação popular, na solidariedade com os desvalidos, naqueles que mantém a utopia comum de novas e fraternas relações humanas e sociais".

Chico Alencar quando anuncia esta Nota de Falecimento o faz no intuito de, pela educação "ajudar a viabilizar a ressurreição da política", tal como está descrita no último parágrafo da nota. Quem quer a morte da política, bem o vimos nas manifestações de rua de junho, é a direita reacionária e golpista, que queria excluir das manifestações, a representação popular, organizada pelos partidos políticos. Sociedade sem a mediação da política é sociedade autoritária. Bela nota de falecimento. Proporciona muitas reflexões e análises de conjuntura.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Bahia de Todos os Santos. Jorge Amado.

Já estive três vezes na cidade de Salvador. A primeira vez foi nos anos 70. Permaneceram na memória, obviamente, os cenários do Pelourinho e o seu entorno e a bela lagoa de Abaeté. Na segunda vez, estivemos apenas de passagem. Lembro-me que fomos até Itapuã. Pela terceira vez permaneci na cidade por uma semana e fizemos algumas explorações mais profundas. O Pelourinho e o seu entorno ficou mais bonito, e creio, até mais seguro (de dia - não me aventurei em incursões noturnas). Almocei no restaurante do SENAC e visitei a Fundação Casa de Jorge Amado. Fui a Itaparica, lembrando de João Ubaldo Ribeiro. E me senti muito incomodado com o assédio de vendedores na Igreja do Senhor do Bonfim. Conservo ainda o sabor das moquecas do Barravento, no Farol da Barra.

As três vezes em que fui, eu não tinha lido o livro de Jorge Amado sobre a Bahia ou, mais precisamente, sobre Salvador. Bahia de Todos os Santos - guia de ruas e mistérios. Posso assegurar que é muito mais do que um guia de ruas e de mistérios. É um penetrar no âmago desta cidade, conhecendo de sua história, de seus costumes e de sua cultura. E acima de tudo, com o fantástico olhar de um ser humano maravilhoso, como o foi Jorge Amado. É o seu grande poema para a sua cidade e um grande convite para a conhecer ou então voltar a ela. Este é o meu caso. Nunca senti tanta vontade de voltar a Salvador, como agora, aproveitando as dicas e as indicações de Jorge.
Bahia de todos os santos. Guia de ruas e mistérios. Uma exaltação de amor a Salvador e a sua gente.

O livro foi originalmente escrito em 1944. Paloma Jorge Amado conta da feitura do livro, em seu posfácio. O próprio Jorge o considerava um "Canto de amor à Bahia" e, fala mais: "um canto de amor a esta cidade, contando da história, da gente, do sentir, da beleza, dos grandes personagens ali nascidos e criados e, sobretudo, da maneira de ser única e original dos seus habitantes".  Paloma também conta que Jorge nunca revisou ou reescreveu os seus livros. A exceção recaiu sobre este livro, que recebeu várias revisões, ou melhor, atualizações, com a incorporação de novos dados e novos nomes. Assim o livro foi atualizado em 1960, em 1966, em 1970 e em 1986, quando ganhou a sua forma definitiva. Jorge ainda pedira para que Paloma fizesse mais uma atualização no ano 2000, mas ela recusou e, segundo ela, o pai compreendeu as  suas razões.
O vivente aqui, mais João Ubaldo Ribeiro. Seria um irmão mais novo de Jorge?

Creio que todos sabem do envolvimento que Jorge Amado teve com o Partido Comunista, pelo qual se elegeu, inclusive, deputado Constituinte, por São Paulo, em 1946. Por sua atuação como constituinte se inscreveu na Constituição o princípio da liberdade religiosa, e que ainda está na atual Constituição, tal qual Jorge o deixou lá, nos idos de 1946. Creio que este dado é próprio de Jorge Amado e que se confunde com o seu próprio ser. Somente um homem criado em Salvador, admirador de uma religião sem males e aberta ao sincretismo e que via a perseguição policial contra os terreiros - o que lhe causava uma dor profunda - poderia apresentar e se empenhar tanto pela aprovação deste princípio. Jorge escreve a respeito em sua auto biografia Navegação de cabotagem. Os seus anos de estudos na faculdade, na Faculdade de Direito, nesta cidade de Salvador moldaram profundamente a sua maneira de ser, construindo-se nele uma grande figura humana e com um olhar humano sobre o mundo.
Um dos cenários mais cantados no livro de Jorge.

Jorge escreveu a sua auto biografia, ou as sua memórias. Navegação de cabotagem - apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei. Por ele penetramos na intimidade de Jorge Amado. Esta intimidade também está contada nos livros de Zélia Gattai. Mas creio que ela também é mostrada neste seu livro, único escrito e reescrito, em particular no capítulo em que fala de suas amizades, o mais volumoso do livro. Sobre estas amizades é especialmente interessante o livro de Zélia A Casa do Rio Vermelho.

Seria muito difícil falar do livro inteiro, ou mesmo destacar algumas partes. Por isso opto por mostrar os seus diferentes capítulos. Ele começa por: Atmosfera da cidade do Salvador da Bahia de Todos -os-Santos, onde procura comprovar a sua tese de que - ser baiano é uma estado de espírito -. Continua por Ruas, becos e encruzilhadas, onde nos mostra toda a cidade, mas especialmente, a geografia das ruas do Pelourinho, que denomina como a grande Universidade Popular do Brasil. Depois envereda pelas Igrejas, anjos e santos, onde caminhamos pelo largo da Sé e pelo Pelourinho e chegamos até a Igreja do senhor do Bonfim. Um destaque é dado para a destruição de uma igreja, na Sé, igreja em o padre Antônio Vieira fazia os seus sermões. O povo em festa, é o capítulo em que Jorge dá o calendário de todas as festas populares de fundo religioso da cidade, todas levando a bela marca do sincretismo. Continua com O mundo mágico do candomblé, uma pequena introdução a este maravilhoso mundo e ao conhecimento de seus grandes personagens. A parte mais volumosa do livro é dedicado aos Personagens de ontem, de hoje, de sempre, com dedicação especial aos dois grandes e inseparáveis amigos, creio os maiores, que foram Carybé e Dorival Caymmi. O livro termina com a volta ao canto de louvor da Terra, Mar e Céu. Deste eu dou o trecho final.
Uma das maiores presenças da cidade. As baias e os seus tabuleiros.

"Adeus moça! Viste a Bahia, escutaste sua fala doce, sentiste seu perfume de mel, oriental. Ruas, becos e ladeiras, as novas avenidas, os velhos quarteirões, o Pelourinho, o Terreiro de Jesus, as Portas do Carmo, agora te pertencem, levarás contigo nos olhos e no coração a lembrança da cidade e do povo, da beleza e da civilização. Regalaste a vista no ouro da Igreja de São Francisco e a entristeceste na pobreza do povo. Adoraste a comida baiana nos restaurantes do Mercado e um saveiro te levou até o Forte do Mar. Agora chegou a hora de partir. [...] Vais deixar minha cidade. Não quis te mostrar apenas a beleza, o mistério, o pitoresco, a poesia. Abri todas as portas para que passasses, as largas e as estreitas, mostrei o bom e o ruim, o limpo e o sujo, a flor e a chaga, nada escondi da curiosidade dos teus olhos para que assim teu coração possa amar a Bahia inteira. Aqui ficaremos nós, o povo baiano, cordial, resistente e bom. Um dia a miséria não mais manchará tanta beleza, tanta poesia, o mistério da cidade de Salvador da Bahia de Todos-os-Santos. Nas encruzilhadas de Exu, para o futuro, sobem as ladeiras da Bahia. Axé, moça".









quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Último Discurso. Charles Chaplin.


Revolvendo antigos arquivos meus, me deparo com o Último Discurso do Charles Chaplin. Lembro até da forma como ele chegou a mim. Eu ainda era professor do Colégio Estadual de Umuarama e uma aluna me deu este texto. Lembro da inteligência e da beleza desta menina, embora não consiga lembrar mais o seu nome. Também não tenho a mínima ideia do que a sorte e o destino lhe reservaram. Mas certamente deve estar muito bem, ao menos, se a inteligência for um requisito para se ir bem.
O filme de Chaplin, em que ele faz o discurso. 

Creio que todo mundo conhece o filme O Grande Ditador. É neste filme que Chaplin faz este discurso. Tenho uma versão do filme, ainda em VHS, e com uma apresentação do mesmo nos seguintes termos: "Chaplin lançou-se, mais uma vez, contra a enlouquecida sociedade moderna, fazendo uma crítica mordaz em que caricaturiza a ânsia de poder e glória de um ridículo ditador chamado Hynkel , alter-ego de Hitler, de cujos exaltados discursos Chaplin realiza uma memorável imitação. Já o humano Carlitos é, nesse filme, um barbeiro judeu que sofre de amnésia, ainda que continue a ser o indeciso e distraído personagem de sempre e que, por acaso, se converte no heroi da trama". O discurso que faz é o oposto do discurso de Hitler. Um dos mais belos discursos do humanismo.Vejamos:

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar se possível - judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo não para o seu infortúnio. Porque havemos de odiar - desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: 'Não desespereis!' A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. É assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos!

Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos deste poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados tem subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência.Lutemos por um mundo de razão um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à aventura de todos nós.

Soldados! Em nome da democracia unamo-nos!

Hannah, estais me ouvindo? Onde te encontras, levanta os olhos! Vês hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos Hannah!

A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos Hannah. Ergue os olhos!"

terça-feira, 8 de outubro de 2013

1889. Sobre o fim da Monarquia e a proclamação da República. Laurentino Gomes.

Com o 1889, Laurentino Gomes completa a sua trilogia sobre a história do Brasil. Embora os títulos de seus livros se foquem em datas, 1808, 1822 e 1889, o teor dos mesmos é uma maravilhosa contextualização de época. Vejamos os subtítulos de cada uma dessas obras: 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. Percebe-se facilmente que o personagem do livro é D. João VI e o cenário é a transferência da corte portuguesa para o Brasil.
O livro que completa a trilogia de Laurentino Gomes: 1889. Os outros são 1808 e 1822.

O segundo livro, 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado. Também é fácil perceber que o personagem do livro é D. Pedro I e o cenário é o da independência. Já o terceiro livro 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a proclamação da República do Brasil. É óbvio que o personagem é D. Pedro II e o grande cenário é o fim da monarquia e as causas que levaram à proclamação da República.

Uma palavra sobre Laurentino Gomes. Ele é jornalista de profissão. Portanto, não é um historiador. Este fato faz com que sofra algumas restrições. Como é que um jornalista entra em campo tradicionalmente ocupado pelos historiadores. Ele próprio explica: "Como obra de cunho jornalístico, este livro não pretende, nem poderia, oferecer respostas para questões mais profundas envolvendo a história republicana, sobre as quais inúmeros e bons estudiosos acadêmicos já se debruçaram com diferentes graus de sucesso ao longo dos anos". Quero destacar que estes estudiosos estão presentes ao longo da obra. Em especial, destaco dois deles, que nós estudamos no mestrado, na disciplina de História da Educação Brasileira: Emília Viotti da Costa e José Murilo de Carvalho. O que ele pretende então?
As bases do pensamento positivista: Augusto Comte na França e Benjamin no Brasil. Forte influência na proclamação da República. 

De novo, ele mesmo responde: "O objetivo é tão somente relatar sob a ótica da reportagem alguns dos momentos mais cruciais daquela época, de maneira a retirá-los da relativa obscuridade em que se encontram hoje na memória nacional".  E ainda: "Acredito que, escrita em linguagem adequada, a história pode se tornar um tema interessante, irresistível e divertido, sem, contudo, resvalar na banalidade". E Laurentino Gomes, nascido em Maringá e formado na Universidade Federal do Paraná é um grande contador de histórias. O primeiro contato que eu tive com ele foi através do programa Roda Viva da TV Cultura e, me pareceu uma pessoa de bem com a vida, um quesito que eu considero fundamental para a boa comunicação.
Uma das grandes dificuldades para a consolidação da República. Gaspar Silveira Martins. A Revolução Federalista.

O livro tem 24 capítulos. O cenário é a queda da Monarquia e a consequente proclamação da República, mas o personagem principal é D. Pedro II. Por isso se faz uma bela retrospectiva de todo o Segundo Reinado. Uma das coisas que sempre me chamou muito a atenção é a de como este país foi construindo o alicerce de suas instituições e neste período histórico, mais especificamente, a maior maravilha a ser constatada é o fato de como este país manteve a sua unidade territorial, de como nos diferentes Brasis, foi se construindo efetivamente um único Brasil. Creio que estamos consolidando isto apenas nos dias atuais. Digo tudo isso para falar das abordagens que o livro faz das diferentes tentativas separatistas ocorridas no período. Iniciativas normalmente tomadas pelas populações mais pobres e por isso mesmo resolvidas com o trucidar destas populações. Exceção foi a Revolução Farroupilha, que foi uma briga entre elites, briga entre proprietários.
O Marechal de Ferro. A consolidação da República.

Outra bela abordagem é a da guerra do Paraguai, com a retirada de Caxias do cenário desta guerra e a entrada, em seu lugar, do Conde d'Eu e os atos de injustificável violência praticados. Afinal o conde precisava mostrar serviço. Os outros destaques são dados para aquilo que os manuais escolares apresentam como causas da queda da monarquia, como a questão militar (manutenção da unidade e da disciplina nas forças armadas) a questão religiosa (a relação impossível da interação entre a Igreja e o Estado - agravadas pela questão dos padres maçônicos) e a mais complicada de todas as situações que foi a abolição da escravidão.

Um ponto forte do livro é a caracterização dos personagens. Nesta lista entra D. Pedro II, a princesa Isabel, o marechal Deodoro e o professor Benjamin Constant. D. Pedro II já estava visivelmente alquebrado fisicamente, sendo que se afastou do posto em três oportunidades para tratamentos de saúde na Europa. Na interinidade ficava Isabel, a quem coube a decisão sobre a abolição. D. Pedro II não esboçou reações e se comportou passivamente diante dos fatos da proclamação da República. O marechal Deodoro, por sua vez, era um monarquista convicto. Nos acontecimentos da Proclamação se temia mais a sua morte do que o ato de rebeldia. Inesperadamente ele ficou bom e conseguiu reunir energias não só para a Proclamação, como também tomar a frente do Governo Provisório da República. Outro personagem influente do período e muito bem caracterizado é o professor Benjamin Constant.
A República brasileira e acima de tudo a unidade territorial brasileira são uma espécie de milagre, tamanho era o caos. Cena da proclamação da ordem constitucional republicana.

O livro termina mostrando os problemas da novel República, com os novos movimentos de insurreição popular e o governo do outro marechal, o de ferro, o marechal Floriano Peixoto. Termina mesmo, com a "eleição" de Prudente de Morais e o início da hoje chamada República Velha. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Tempo e o Vento.

Não é feio confessar que a parte mais deficiente em minha formação foi a literatura. Na base de minha formação, nos anos do ginásio e do ensino médio, no Seminário São José em Gravataí, RS. - a literatura não fazia parte. Muito latim e muita gramática era a nossa rotina de aulas e de estudos sérios e controlados. Algumas vezes tínhamos os chamados estudos livres. Nestes espaços líamos, mas quase sempre histórias piedosas das vidas de santos. Ler Érico Veríssimo seria algo inimaginável. Érico travou épicas batalhas com os padres e é compreensível que não se entendessem. A maior crítica de Érico recaía sobre a formação dos seminaristas.
O cena do casamento do capitão Rodrigo com Bibiana. O amor rompendo costumes e tradições.

Assim, conheci Érico Veríssimo por leituras esparsas de seus principais personagens e mais precisamente um livro seu que é Incidente em Antares. Tomei conhecimento de O Tempo e o Vento, de forma sistemática, quando a Companhia das Letras reeditou a obra de Érico Veríssimo e aí sim, li de um fôlego só, os seus sete volumes e com um grande lamento ao seu final, de a obra ter acabado. É das coisas mais lindas que li em minha vida. Érico se ombreia com os maiores nomes da literatura mundial, sem sombra de dúvidas. Os dois primeiros volumes de O Tempo e o Vento, - O Continente, foram melhor recebidos do que os outros cinco que o compõem: o Retrato (2 volumes) e o Arquipélago (três volumes). Não consigo concordar com isso.
Os dois volumes de O Tempo e o Vento, dos quais saiu o filme.

Agora fui ver no cinema o filme de Jaime Monjardim. É impossível não fazer um bom filme com os ricos personagens que Érico nos deixou. São personagens fabulosos e que encerram dentro de si toda uma mística da forma de ser gaúcho, este ser humano mesclado pela herança indígena, portuguesa e espanhola e, ao menos neste período, em menor influência, da cultura negra. A saga missioneira foi uma herança, que até hoje marca fortemente o Rio Grande do Sul. Assim os grandes personagens são os iniciais do livro, como Pedro Missioneiro e Ana Terra e de Bibiana Terra, a neta de Ana, que se casa com o personagem mais fantástico da literatura do Rio Grande do Sul, que Rodrigo Cambará, ou o um certo Capitão Rodrigo, que aparece ao final do primeiro volume. Assim se forma a origem da família Terra Cambará, que será a inimiga mortal dos Amaral.

Os dois volumes de O Continente se centram no Sobrado. O Sobrado é o casarão dos Terra Cambará na cidade de Santa Fé, já nos idos dos anos 1895, ao final da chamada Revolução Federalista, uma guerra muito mais entre as tradicionais famílias do Rio Grande do Sul, do que por causas de maior profundidade. Por uma cena no sobrado sitiado, Érico começa a contar a sua história e também Jaime Monjardim, o seu filme. Na Revolução Federalista a família Terra Cambará está ao lado do governador Júlio de Castilhos e do presidente Marechal Floriano Peixoto, enquanto que os Amaral estavam ao lado das forças de Gaspar Silveira Martins, que foram os revoltosos derrotados. De todas as guerras existentes no Rio Grande do Sul, esta foi a mais violenta e na qual ficaram famosas as degolas.
O mapa do Rio Grande, da forma como ele está traçado nas páginas de abertura de O Continente.

Do sobrado sitiado, Érico volta aos anos de 1745, buscando os seus personagens nas guerras de demarcação de fronteiras entre Portugal e Espanha, que só terminaram com o Tratado de Madri, em 1750, quando houve a troca dos Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento. Mesmo assim as rixas continuaram. Os primeiros grandes personagens que aparecem tanto no livro quanto no filme, são os de Pedro Missioneiro, índio oriundo das missões e que é acudido pela família Terra. Costumes, valores e a força da tradição são aí retratados. Pela figura de Pedro Missioneiro, fruto das missões jesuíticas, Érico mostra o que significaram as Missões na formação histórica do Rio grande do Sul. Do amor proibido e punido nasce Pedro, que fica sob os cuidados da mãe, a grande figura de Ana Terra. Ana terra e o menino Pedro serão os únicos sobreviventes de um massacre praticado pelos espanhois.

Forasteiros os socorrem e os levam a Santa Fé, uma cidade fundada e comandada pelos Amaral, onde de repente chega o forasteiro - um certo capitão Rodrigo, seguramente o personagem destes dois primeiros volumes. Rodrigo se enamora de Bibiana Terra, neta de Ana Terra. Aí ocorrem as melhores páginas do livro e as melhores cenas do filme, com retratos fabulosos de valores e costumes da época. Os diálogos do capitão com o padre são cenas de humor e ironia refinadíssimas. É assim que se forma a família Terra Cambará e começa a rivalidade entre o Capitão Rodrigo, que não teme ousar desafiar o poder dos Amaral. Rodrigo, porém, morre na guerra e Bibiana com os seus familiares continuam a saga da briga contra os Amaral, que vão terminar nas lutas narradas e vistas nas páginas iniciais do livro ou vistas no filme, do sobrado sitiado, numa situação de limites, que, no entanto, não são rompidos pela força da rivalidade e da tradição.
A árvore genealógica da família Terra Cambará. Este quadro ajuda muito para que ninguém se perca na longa história de mais de 200 anos. 

O filme optou por um reencontro entre Bibiana e o seu grande amor, o capitão Rodrigo, que vem encontrá-la no sobrado e, na memória, fazem a reconstituição de toda a história. De uma maneira geral o público recebeu bem o filme. A crítica nem tanto. É muita história. É para mini série, dizem as críticas. As interpretações são quase uma unanimidade de elogios. Os maiores são para Fernanda Montenegro, a Bibiana, que em sua velhice recebe o Capitão para as rememorações, para Thiago Lacerda, o Capitão Rodrigo, para Marjorie Estiano, a Bibiana jovem, linda e maravilhosa, que se enamora do Capitão e também para Cléo Pire que faz o papel de Ana Terra.

Se me permitirem um conselho, lhes direi: Não percam. O filme é muito lindo. Embora seja uma adaptação livre da obra do Érico Veríssimo, é impossível não fazer um belo trabalho com personagens tão fantásticos como Ana Terra, Bibiana e o capitão Rodrigo. Mas se eu puder mesmo dar um conselho, eu pediria que lessem o livro, ou os sete livros. que compõem toda a obra. A grandeza dos personagens, a riqueza dos diálogos, as contextualizações são fortes e envolventes demais para serem levadas para as telas com a mesma perfeição do que as letras e a escrita do livro. Na continuidade do livro aparece outro personagem, que já aparece fantasticamente numa das cenas finais do filme,ainda menino, que é Rodrigo Terra Cambará. Por este personagem a história, os valores e os costumes do Rio Grande serão trazidos até 1945. Obra fantástica e maravilhosa.




sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Conservatória V. Tem Paixão e tem Cachaça.

Onde tem céu estrelado e noites de luar, certamente também tem histórias de muita paixão. E possivelmente também tenha uma cachacinha bem brasileira. Em Conservatória conta-se de uma história de amor que vale muito a pena ser contada. É a história de um fazendeiro de cidade vizinha apaixonado por uma moça da cidade. Vejam só do que o amor é capaz. A história está no site dos violeiros de Conservatória:
Chorinho e serestas se complementam com sedução e apaixonadas histórias de amor.

"Música e grandes paixões sempre estiveram de mãos dadas em Conservatória e geraram muitas histórias de amor. Certa vez, em 1938, Antônio Castello Branco, um abastado fazendeiro de Santa Isabel, distrito vizinho, que vivia uma paixão não correspondida por uma moça de Conservatória, resolveu demonstrar seu amor conforme a tradição. Colocou seu piano de cauda em cima de um caminhão e percorreu mais de 20 quilômetros em estrada de terra esburacada, só para tocar e cantar sob a janela da amada. Consta que o seu gesto deu resultado e a moça aceitou o fazendeiro como esposo". Depois desta história você continua lendo no site sobre os encantos e o enfeitiçamento da cidade.
O belo casario de conservatória, fiel ao período do Segundo Reinado.

"Conservatória exprime uma das formas de reação contra as consequências da urbanização acelerada que caracteriza nossa etapa  de desenvolvimento como país capitalista, mantendo suas características bucólicas de arraial, pacata e tranquila, cujos moradores de fala branda, afáveis e educados preservam seus costumes e se reúnem, vez por outra, para manter a tradição das festas juninas, da dança, da música, das quadrilhas e principalmente das serestas que tornam seu pequeno vilarejo um polo de atração no Estado do Rio de Janeiro. Em Conservatória, o culto às serestas, o casario colonial e as famílias tradicionais são ainda vestígios do século passado".
A Ponte dos Arcos que nos remetem à triste lembrança dos tempos da escravidão.

A tradição da seresta é realmente muito forte.A seresta que percorre às ruas, após a serenoite, já às 23:00 horas não falha nunca. Um de seus participantes, o Edgar, que tem vários CDs gravados, fala orgulhosamente de 104 serenatas, das quais participa todos os anos. Isto significa que em nenhuma sexta feira e em nenhum sábado ele falha. Estão ali, faça noite estrelada e de lua cheia, como em noites escuras como o breu. O caráter romântico e bucólico destas serenatas é algo encantador.

Conservatória também tem as suas atrações turísticas e o seu artesanato. Entre as atrações destacam-se a rodoviária que é a antiga estação ferroviária e a locomotiva 206. Estas atrações remetem ao Segundo Reinado e aos tempos de riqueza proporcionada pelas lavouras de café. Outras duas atrações também remetem ao mesmo tempo histórico, pelo seu lado negativo e triste dos tempos da escravidão. Na estrada para Santa Isabel existe um túnel, o túnel do Capoeirão e uma ponte, a Ponte dos Arcos construídas pelo trabalho escravo. Nesta mesma estrada para Santa Isabel você encontra um mirante, onde você admira a Serra da Beleza. O lugar também se relaciona com a ufologia. Os passeios se completam com a visita a fazendas da época áurea do café, em fins do século XIX. O casario colonial da cidade também é muito apreciado e serve de cenário para filmes e novelas de época.
Olhem aí as cachaças de Conservatória. Até os nomes lembram o tranquilo Vilarejo e a Seresta.

Depois da decadência do café, que foi algo economicamente desastroso, as terras foram ocupadas com o plantio de milho e da cana. E se houve o cultivo da cana, também devem existir ali alambiques e uma boa cachaça. Pois é. A cachaça não falta em Conservatória. Existem dois alambiques maiores. Um até integra o circuito turístico da cidade, aberto a visitação, a demonstração e a degustação. É o alambique que produz a cachaça Vilarejo. Na estrada entre Conservatória e Ipiabas existe outro, que produz as cachaças Seresta e a Cachaça da Fazenda. Mas a sede do município, Valença, não fica para trás. Também produz a sua, a JB Valença. Além disso existem ainda outras cachaças artesanais, que nem rótulo tem.

As maravilhas e os encantos de Conservatória estão muito próximos de você.

Termino os meus posts sobre Conservatória fazendo o convite para todos os que tiverem um compromisso com a alegria e a música, para reservarem um final de semana de suas vidas, para elevar o tom, subir uns 500 metros acima das preocupações do cotidiano e ajudar a pulsar este coração brasileiro que tão garbosamente cultiva a sua arte, a sua música e a sua tradição. Se você não for... Você se privará, com certeza, de uma grande alegria e de um momento de muita felicidade em tua vida.  


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Conservatória IV. Programações Especiais e Atrações Turísticas.


No post anterior eu fiz comparações entre Conservatória e Paraty. Hoje faço mais uma. Nos grandes eventos em Paraty, como na FLIP e no Festival da Cachaça é preciso fazer reservas nas pousadas com muita antecedência. O mesmo acontece em Conservatória, ao menos no seu principal evento, que é a realização do Carnaval Antigo, um carnaval de rua, com muitas máscaras, que se realiza no mês de outubro. A exemplo de Paraty, Conservatória também tem o seu calendário de atividades. E tem festa o ano inteiro. Vejamos:
Em Conservatória existem diversos museus relacionados à seresta e aos seresteiros.

Assim em abril tem o Circuito do Café, Cachaça e Chorinho - além da Noite da Valsa.
Em maio tem o Festival da Seresta Sílvio Caldas, a Noite da Bossa Nova e o Dia do Seresteiro.
Em junho tem a Festa de Santo Antônio.
Em julho tem a Caminhada da Natureza, a Festa Caipira e o Festival Vale do Café.
Em agosto tem o Festival Eu também sei Cantar e o Encontro de Seresteiros.
Em setembro tem o Cine Música - As Noites de Choro e o Encontro da Melhor Idade com a Passeata e o Festival - Eu também sei Dançar. Foi este As Noites de Choro que nós tivemos a oportunidade de participar.
Em outubro tem o Carnaval Antigo e o Festival de Poesias.
Em novembro tem a abertura da Feira Natalina e o Encontro de Corais.
Em dezembro tem o Auto de Natal.

As Noites de Choro são um evento grandioso. Tem patrocínio forte e é gratuito para o povo. Desta vez o artista principal foi Ronaldinho do Cavaquinho. Fez um show extraordinário e altamente profissional. Iniciou cantando Ave Marias, lembrando Waldir Azevedo, depois fez uma turnê  Brasil afora, demorando mais no nordeste e em Minas Gerais. São Paulo também foi contemplado. Ronaldinho é um showman. Cantou e tocou em meio ao público, contou histórias e piadas exalando um humor de quem está realmente de muito bem com a vida. Até comprei um DVD seu.
Ronaldinho do Cavaquinho é figura conhecida em Conservatória. É considerado como o herdeiro musical de Waldir Azevedo.

O show começou com duas apresentações de abertura. No primeiro, uma ainda menina e já inúmeras vezes premiada, a Carol, tocou solo de flauta, que disse ter aprendido com o avô, ainda vivo e lúcido e que aos 90 anos ainda continua tocando flauta. A segunda foi a de um músico nativo, da vizinha Apiabas, que apresentou dois solos de violão. Artistas prontos para se apresentarem em qualquer palco do mundo. Depois começou, já em altíssimo astral o show principal, do Ronaldinho do Cavaquinho. No meio do show, surpresas. De repente apareceu o Caubi Peixoto. Logo deu para perceber que era um cover seu, que depois soubemos ser o cover oficial. Ele anunciou, inclusive, que agora em outubro será lançado o filme sobre a vida do grande artista. É evidente que cantou Conceição. Depois se apresentou uma cantora que apresentou algumas músicas das cantoras do rádio. Como podem perceber, saudosismo puro em uma regressão no tempo fantástica.
Na praça desta igreja, dedicada a santo Antônio é que que ocorrem as Noites de Choro. Mas Ronaldinho do Cavaquinho fará um show dentro da igreja, agora em outubro. Certamente Ave Marias e homenagens a Waldir Azevedo.


O show de Ronaldinho é revestido de um misticismo religioso muito bonito, cheio de sincretismo e parece não gostar muito da mistura que a religião faz com a prosperidade, a tal da teologia da prosperidade. É evidente que ele não falou isso mas deixou entender. Ele tem verdadeira paixão por Ave Marias, tendo um CD inteiramente dedicado a elas. É um artista talentoso e jovem e de muito futuro. Vejam a declaração de Olinda Azevedo, a viúva de Waldir Azevedo sobre o artista: "Considero que Ronaldinho, como músico tenha tudo para alcançar o sucesso. Particularmente, para mim, uma viva presença do Waldir". É de ficar vaidoso. O nível do show, para terem uma ideia, o percussionista que o acompanha é o próprio percussionista de Dona Ivone Lara.
Olha os temas do site dos seresteiros de Conservatória.

Mas vamos a mais um pouco de história de Conservatória, desta vez enfocando a origem da sua ligação com a música. E vamos buscar dados no site dos seresteiros de Conservatória, num item apresentado como Serenata e Paixão:

"A prosperidade econômica do final do século passado deu início a outra tradição na vila: a das serenatas - a música cantada sob o sereno - que hoje atraem mais de mil pessoas a cada fim de semana para a cidade, vindas  dos mais diversos recantos do país e do exterior.
Outro dos museus homenageando seresteiros em Conservatória.

Um dos grandes motivadores da tradição da música na cidade é o museu da seresta, que tem o maior acervo de músicas de seresta do país - e um dos maiores do mundo -, criado pelos irmãos Joubert e José Borges. O museu mantem viva uma página da cultura musical brasileira, reunindo os seresteiros às sextas feiras e sábados à noite, que de lá saem para cultivar o hábito, raramente quebrado, de cantar pelas ruas da cidade.

Em 1998 Conservatória comemorou 120 anos de serenatas. Conta a história que a tradição nasceu com um romântico professor de música e tocador de violino, Andreas Schmidt, que, em uma noite enluarada no silêncio do vilarejo, atraiu expectadores, e o professor Andreas passou a ter como rotina tocar seu violino na praça, nas noites estreladas. Aos poucos, músicos de outros lugares passaram a acompanhar as serestas do professor, e essa virou uma característica incorporada ao lugar".
E vejam o nome da cachaça de Conservatória. Seresta e Serestinha.

Amanhã eu conto mais. Histórias de paixão mais ardente que a Romeu e Julieta ali teriam acontecido. Depois da decadência do café vieram as culturas da cana e do milho. E se tem cana deve ter cachaça. Isto veremos amanhã.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Conservatória III. O que fazer num final de semana.

Conservatória me fez lembrar de Paraty, embora eu não goste muito de comparações. Gosto das identidades que os lugares tem e preservam. Mas a lembrança me veio. O que fazer? Conservatória não tem uma FLIP, mas tem festivais de poesia. Conservatória não tem tantos e tão antigos casarios como Paraty, mas tem um casario padronizado no estilo do Segundo Império. Conservatória não tem as cachaçarias de Paraty, mas as tem também, embora sem a mesma sofisticação, colocando no mercado cachaças artesanais, mesmo sem rótulo. Conservatória não tem os passeios de mar que tem em Paraty, mas nos oferece os encantos da Serra da Beleza. Mas em uma coisa Conservatória ganha de Paraty, que é a sua música e o envolvimento de seu povo com os visitantes. A possível explicação para isso é que Conservatória é bem menor do que Paraty. Me perdoem as comparações, mas é que eu gostei demais destas duas cidades.
A igreja de Santo Antônio, onde em todo quarto domingo do mês se celebra a missa dos seresteiros, a partir das 9:00 horas.  

Hoje eu vou contar o que se faz em Conservatória num imperdível final de semana. Dou a programação. É música por todos os lados. E música da melhor qualidade. É seresta e chorinho, música popular brasileira da melhor qualidade. Nos dias da semana, imagino que a cidade se prepara para receber os seus visitantes. Deve ser um sossego total. Bom para um merecido descanso em aprazível lugar. Mas quando chega o final de semana é pura festa, com envolvimento total. É absolutamente impossível permanecer passivo. Por mais rígido que seja o teu corpo, ele começa a se movimentar. Então vejamos o que se faz nesta cidade:
A música é uma tradição que já completou 120 anos em Conservatória.

 Na sexta feira tem duas programações oficiais. A primeira começa às 20:30 horas, na rua de lazer, que é a Serenoite - com chorinho e canções. Depois a festa continua, por volta das 23:00 horas, que é quando acaba a serenoite e começa a serenata, que percorre as ruas, até depois da meia noite. É um verdadeiro show e os artistas são os moradores do local. Muitos vem morar na cidade, atraídos que foram pela música. Na serenata observei várias pessoas jovens. Depois fui saber que uma professora vem semanalmente de São Gonçalo, trabalhar com eles. Maravilhoso. Isso faz com que, por mais 130 anos, se tenha a garantia de serenatas nas ruas de Conservatória. A longevidade também é uma característica da cidade. Na serenata são intercaladas a música com a poesia. E também aparecem as meninas nos balcões das casas. Se não no real, ao menos na imaginação.
Cena dos artistas no chorinha na praça.

No sábado a programação começa cedo. Às 11:00 tem chorinho na praça. Algo memorável. Os mesmos músicos que ficaram até altas horas com os turistas pelos bares e restaurantes, já estão a postos novamente. E os visitantes também. Os músicos que se atrasam ganham uma bronca. Durante o espetáculo são vendidas cervejas e aperitivos, camisetas, CDs e canecas. Com o dinheiro arrecadado se compram cadeiras para o público se sentar confortavelmente nas apresentações. Os artistas basicamente são sempre os mesmos. De noite a apresentação da sexta se repete, ou seja - às 20:30  a serenoite e às 11:00 a serenata. Depois da seresta todo o movimento se transfere para os bares e restaurantes, onde as comidas servidas tem um inacreditável sabor caseiro. Neste momento a interação entre o povo e os visitantes é total. É o momento das conversas e da satisfação das curiosidades. Você conhece os moradores e o seu encanto com o lugar.

A programação continua no domingo, quando às 11:00 horas acontece na rua de lazer a solarata, quando inclusive se canta o luar do sertão. Com esta solarata se encerram as programações oficiais. Os shows são entremeados de muito humor, de brincadeiras que os artistas fazem entre si. Neste domingo, em particular, apareceu até uma baronesa, que como se sabe, não existem mais, uma vez que os títulos concedidos no Brasil, nunca foram hereditários. Mas ela assim foi apresentada e não sentiu constrangimento com isso. E tirou de letra: "Já que não existem mais, agora somos nós os barões e as baronesas" e foi cantando uma música em que ela dava o seu endereço. Depois do almoço a cidade volta a sua tranquilidade dos dias de semana, se preparando para receber novos turistas.
Olhem a baronesa cantando e dando o endereço da sua fazenda.

Nesta solarata vi algo que precisa ser contado. Antes da apresentação são distribuídos banquinhos para as pessoas se sentarem e assistirem mais confortavelmente ao espetáculo. Quando alguém reservava um banquinho para alguém, um senhor do grupo dos artistas, muito educadamente lembrava que os banquinhos pertenciam aos visitantes. Não havia esta possibilidade da reserva. Este mesmo senhor também contou que os banquinhos foram uma doação de um turista, que quis proporcionar maior conforto aos expectadores. Vejam como tudo é maravilhoso neste magnífico lugar.

Mas, afinal de contas, quem são os moradores deste lugar. Na conversa que eu tive com o Sorriso, este é o seu sobrenome, ele contou a sua história. Ele está na cidade a três anos e é professor. A sua esposa também é professora na UERJ. Estão próximos da aposentadoria. Vieram morar na cidade atraídos pela música e os seus filhos adoram vir para Conservatória, passar os finais de semana. Assim como tem professores, tem advogados, veterinários, engenheiros, comerciantes e gente de outras profissões, que tem algo em comum que é o gosto pela música. E assim vai se conservando uma tradição que já dura mais de 120 anos.
A música não está apenas na praça e nas ruas. Também está nos bares e restaurantes.

Conto ainda a história de dois engenheiros. Um é o dono do restaurante A Taberna. Ele trabalhou junto com Niemeyer, em seu escritório. No seu restaurante existem várias fotos, registrando a presença do arquiteto famoso e um dos pratos da casa homenageia a figura ilustre: filé à Niemeyer. O outro engenheiro é um japonês que trabalha na Petrobrás, que está se aposentando agora e, que aprendeu a tocar cavaquinho. A escolha deste instrumento se deve ao seu tamanho. Ele trabalhava em plataformas e então o instrumento mais fácil de carregar era o menor deles. E ainda brincou. É um instrumento que se pode tocar, mesmo estando algemado. Percebem que o humor sempre acompanha este povo encantador. Eu ainda vou contar de um show que eu assisti e de outras atrações que a cidade oferece a seus visitantes. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Conservatória II. Um Final de semana.

Você já foi à Bahia, nega?
Não!
Então vá... (Dorival Caymmi).

Com esta frase em epígrafe Jorge Amado abre o seu maravilhoso livro de cantos em louvor à sua querida Bahia de todos os santos - guia de ruas e mistérios.  Peço licença aos dois, não para dizer que não devam ir para a Bahia, mas para irem sim, também para Conservatória. Então o verso ficaria assim:

Você já foi à Conservatória, nega?
Não!
Então vá...
A antiga estação ferroviária, que hoje é a rodoviária de Conservatória. O prédio antigo a dar boas vindas.

E continuo com Jorge Amado. Agora tomando a sua primeira frase."E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro, na rua trepidante da cidade mais agitada, não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. [...] Se vieres eles tocarão mais alto ainda". Conservatória não tem ruas agitadas e, provavelmente, não tocarão mais alto se vieres. Mas mesmo assim eles te enfeitiçarão completamente. Se você não quiser se apaixonar por este lugar, então não vá. Mas se quiseres sentir o teu coração em alta elevação do cotidiano e te refazeres, venha para este lugar, onde "vive-se muito, rastejando a longevidade por 80 e 90 anos", como contava o historiador Noronha Santos, já pelos idos de 1928, em seu livro A Conservatória dos Índios - um arraial esquecido.
A locomotiva 206, dos tempos da ferrovia que transportava o café. Hoje você pode tirar uma fotografia de época.

Mas o que existe de tão especial nesta cidade, que aliás, nem cidade é. Não é cidade, por não ser sede de município, por ser um distrito de Valença. Mas neste local pulsa um coração que faz os corações arderem em encanto e paixão, com as dores gostosas da vida, das paixões correspondidas e perdidas, com ou sem culpa, por causa de novos amores, sempre multiplicados. Ali pulsa uma cidade que não deixa a música morrer, a autêntica música brasileira, dos tempos em que, uma cantada correspondia a um jogo de sedução e não uma vil e ascosa grosseria. Ali ainda se vê a lua e as noites cheias de estrelas, apenas e sem nenhuma finalidade a mais, do que "enfeitar a noite do meu bem".

Isto é sábado. Dez horas da manhã. Chorinho na Praça. Para abrir o apetite.

Quem são estas pessoas que se dedicam ao ócio e que nos intervalos de suas músicas nos lançam a questão do por que trabalhar? Que compõem músicas para o Zeca Pagodinho cantar e que se divertem com ousadas apalpadas pelo corpo da mulher, mas em que o pudor não permite chegar até as partes tidas como as mais pudendas. Que povo é este que canta para o povo até após a meia noite na rua e depois ainda nos bares, para no dia seguinte, já cedo, cantarem novamente para o povo reunido e, esperando ansiosamente, na praça. Donde provem tanta vitalidade, que faz com que senhores com visível avanço em idade, terem a resistência de jovens e serem os últimos a abandonarem a noite alta e os primeiros a abraçarem a manhã, só para agradar os visitantes?
Isto é domingo. Onze horas da manhã. Solarata na rua de lazer. Quem canta é seu Olavo, que já ficou viúvo por três vezes e está a procura da quarta esposa. Dizer ter um dote extraordinário. Entendam... um bom contracheque.

Quem é este povo que está por toda parte, te mostrando as belezas da Serra da Beleza, o saudosismo das fazendas centenárias dos tempos áureos do café, ainda sob os chicotes da escravidão? Quem é este povo das tantas pousadas familiares, que aumentaram as suas casas e as dotaram de um maior conforto, para te receberem com tanta devoção e carinho? Quem são estas pessoas, que nos restaurantes e bares te esperam para trocarem o contar de histórias, das suas e das nossas, em meio a comidas tão saborosas que guardam com toda a certeza, tantos e tão antigos saberes, carinhosamente recebidos em herança?

Sim, posso assegura-vos. Este lugar existe. Já se chamou de santo Antônio do Rio Bonito, mas que ostenta o belo nome de Conservatória, lembrando um verdadeiro conservatório musical. Conservatória tem entre 4 e 5 mil habitantes, aos quais se somam mais mil, nos finais de semana para prestigiar as serestas feitas pela sua população nativa. Está distante da sede do município - Valença - 34 quilômetros e a 28 da Barra do Piraí, que é a melhor referência para os viajantes que chegam, normalmente pela rodovia presidente Dutra. Conservatória está 370 quilômetros distante de São Paulo e 142 do Rio de Janeiro.
A beleza do casario. É lei. Precisa ser como era nos tempos do Segundo Reinado. Muitas casas são hoje aconchegantes pousadas.

Se você quiser se inebriar de paixão e elevar o seu espírito a 500 metros acima do nível de suas preocupações cotidianas, vá a Conservatória. Lá a cena mais comum é ver alegria estampada no rosto das pessoas e num lugar muito próximo de você alguém estará cantando uma canção da mais pura e autêntica música popular brasileira. Ah, sim. Apesar de você estar no Rio de Janeiro, você não precisa ter nenhum receio com problemas de segurança. Amanhã eu conto o que se faz num final de semana em Conservatória. E... para terminar - como começamos;
Você já foi à Conservatória, nega?
Não!
Então vá...