domingo, 31 de agosto de 2014

Bonito. MS. - Roteiro de uma viagem. O segundo dia.

Depois do café da manhã no hotel Wetiga (Uetirrá), nome indígena Kadiweu, que significa pedra, fomos para o nosso primeiro passeio. O hotel Wetiga, hotel de natureza, foi construído a partir de um conceito, de integração entre a hospedagem, a natureza e a cultura local. As suas colunas principais são de aroeiras mais do que centenárias, enquanto que colunas secundárias são de bálsamo e cabreúva. Estas árvores foram ricamente trabalhadas. Toda a decoração do hotel foi feita a partir da cerâmica indígena local, com destaque para os Kadiweus. Os quadros que ornam as paredes também retratam a cultura indígena e foram pintadas por artista pertencente a família Izumi.
Natureza e cultura regional presentes no hotel. A cerâmica indígena.

O passeio constante do pacote da hospedagem, deve ser a principal atração de Bonito. A gruta do Lago Azul.O acesso é feito por uma estrada de terra, de boa conservação. Na mesma estrada, um pouco antes, estão as grutas de São Miguel e, mais adiante, o Abismo Anhumas. Os passeios, de uma maneira geral, são caros e não incluem o transporte. Este deve ser feito em carro próprio ou então ser pago separadamente.  A visita é feita por grupos, com hora previamente agendada. O passeio dura aproximadamente duas horas. O lago que se forma no fundo da gruta é de encantar. As diversas tonalidades do azul da água é um fenômeno de rara beleza.
Já no interior da gruta, bem no fundo, a maravilha de suas águas azuis.

O passeio ao interior da gruta é feito com todo o cuidado. A descida não é perigosa, mas exige cautela. Pode-se escorregar. Sempre e necessariamente ela é acompanhada de um guia, que além dos cuidados com o grupo, te dá aulas de geografia e de história. Estalactites, estalagmites, milhares de anos, expedições de pesquisadores, achados paleontológicos, minúsculos camarões, calcário, mar, a ilusão de ótica... Tudo isso faz parte das falas do guia. O nosso era muito bom, exigia e cobrava atenção. Se fosse professor, seria daqueles bem exigentes. Era o Li Glauber. O guia também tira fotos do grupo todo e dos grupos menores, que depois podem ser comprados em CD.
Águas maravilhosamente azuis, numa ilusão de ótica maravilhosa. Pesquisadores do mundo inteiro já vasculharam este lugar.

Algumas dicas importantes dadas pelo Li Glauber. O melhor horário para o passeio é o da primeira hora, as 7:00 horas. Isto se dá por causa da magia da luz, dos primeiros raios de sol e a subida de brumas e vapores. A melhor época para a visita é no verão. Mas aí existe o inconveniente da alta temporada. É muita gente. O guia também nos deu importantes dicas para selecionar passeios. A grande atração de Bonito é a água, os rios e as grutas. Dois rios são os principais: O Formoso e o Sucuri. Falei em seleção de passeios, pois as atrações são muitas, em torno de 40, e muitas são, com pequenas variações,  sempre repetitivas, especialmente a dos balneários ou praias.

Na hora do almoço nos encontramos com a Sílvia e o Leo, amigos dos tempos de Umuarama. Sílvia é filha de meus compadre e comadre, Jair e Imeir, de saudosa memória. Hoje eles moram em Campo Grande e possuem uma fazenda em Bodoquena. Conhecem bem a região e foram os nossos guias para o passeio da tarde. O local escolhido foi o Balneário Ilha do Padre, no rio Formoso, por sinal, um lugar muito bonito, com várias cachoeiras, águas límpidas e muitos peixes. Vale a pena entrar na água para um banho na companhia dos peixes.
O balneário da ilha do Padre, no rio Formoso. Cachoeiras e banho rodeado de piraputangas.

Seguem as minhas observações sobre a visita a estes balneários ou praias. Você paga R$ 35,00 de entrada e carrega dinheiro no cartão do ingresso para o eventual consumo. Não existe a menor possibilidade daquela visita rápida, apenas para olhar. São propriedades privadas. Os banhos são a grande atração. Você nada rodeado de piraputangas. Estes passeios são incrivelmente caros, diante do que te oferecem. R$ 35:00 de ingresso é significativo. Nos outros passeios ainda existe o guia ou o canoeiro, que precisam ser pagos. Mas nos balneários, nada. No dia seguinte fomos ao Balneário Municipal, que é público, e deixamos R$ 25:00 de ingresso, cada um.  São olhares e apenas olhares, que custam muito caro.
Outra vista do balneário da ilha do Padre. Uma beleza de encher os olhos.

Após banho e passeio e um breve descanso no hotel, ainda com os nossos amigos, fomos ao Taboa Bar. De novo um bom atendimento e boa música. Uma das marcas do Taboa Bar é marcar a tua visita, ou nas mesas, ou nas paredes. Isso não é apenas permitido, é, inclusive, incentivado. O Taboa é uma marca na cidade de Bonito. Eles tem também a fábrica de sonhos, onde produzem artesanatos, destacando-se a cerâmica e a de taboa, que é uma planta típico de beiras de rio e brejos, de cuja fibra se faz uma artesanato de palhinha. Uma das especialidades do uso da taboa é a de empalhar a cachaça que recebe a marca da empresa e da palhinha.
Um belo artesanato em cerâmica, próprio para tomar caldinhos. Um produto da Taboa.

Depois disso o recolhimento. O dia seguinte nos reservaria um passeio na barra do rio Sucuri, um passeio de barco e flutuação. Uma onda de frio fez a temperatura baixar violentamente. Vivemos clima curitibano na cidade.


sábado, 30 de agosto de 2014

Franz Kafka. Por Louis Begley.

Termino a leitura do livro mais gostoso que li nos últimos tempos. Talvez o meu gosto por biografias tenha influenciado neste julgamento. Sempre aprendo muito. Quando se estuda um autor, se estuda uma época, se estuda um contexto histórico, uma cultura e acima de tudo, uma vida. Outro componente para o meu julgamento é, obviamente, a qualidade do biografado. Franz Kafka (1883-1924). Não me atreveria ler Kafka, hoje, sem um bom guia para a sua interpretação. Louis Begley pode ser considerado um desses guias com o seu magnífico Franz Kafka - o mundo prodigioso que tenho dentro da cabeça. Um ensaio biográfico.
A maravilhosa biografia de Franz Kafka. A autoria é de Louis Begley.
Já ao final do livro encontramos uma frase de Nobokov. Ela diz o seguinte: "Os únicos leitores verdadeiros são os que releem". Depois que li esta biografia não hesito em dizer que, embora tendo lido, nunca li nada de Kafka. Somente agora me considero mais ou menos preparado para iniciar, digo, iniciar a leitura, ou reler com alguma possibilidade de êxito na sua compreensão. Toda a sua escrita é feita de metáforas e parábolas, que sempre tem a sua própria vida como tema. Uma vida sem paralelo, de tantas complicações. O que era ser judeu na Europa na virada do século XIX para o século XX e, ainda, mais precisamente, na Praga do império austro-húngaro e, ainda, ser filho de um pai, que embora tivesse ficado rico, permaneceu extremamente ignorante e autoritário, Acho que cometi um pleonasmo!
O pai e a mãe de Kafka. A relação com o pai foi um terror. A relação está registrada em Carta ao Pai.
O livro, após uma pequena introdução, é estruturado em cinco capítulos, a saber: 1. A vida é meramente terrível; 2. O que eu tenho em comum com os judeus; 3. O reino mais profundo da verdadeira vida sexual está fechado para mim...; 4. Sou feito de literatura, não sou nada além disso e 5. O machado para o mar congelado dentro de nós. A abordagem do livro leva em conta aspectos de sua vida particular, familiar, afetiva e sexual e termina com uma análise de sua literatura. Percorrer este caminho é algo muito bonito onde se penetra em profundos mistérios.

Sobre a vida lhe ser terrível, as suas duas primeiras grandes prisões que o atormentam, são a sua condição de ser judeu no império austro-húngaro, o que significa ser odiado e sofrer mil restrições em todos os campos de sua vida. A segunda prisão vem da relação com o pai, que mesmo sendo judeu, conseguiu enriquecer através do comércio, mas permanecendo absolutamente ignorante e autoritário. Em seu pai nunca encontrou um mínimo gesto de afeição ou ternura. Kafka não tinha a mínima vocação para os negócios e por isso era comparado a um tio que também não se interessava e, assim, eram considerados como os dois bobos da família. A relação com o pai está expressa na  Carta ao pai, que se destinava a ferir. A relação com a mãe, de sobrenome Löwy, era bem melhor.
As fotos da infância daquele que viria a ser um dos maiores escritores de todos os tempos.

O ambiente em sua casa era simplesmente constrangedor. Além das constantes humilhações que sofria por parte do pai, o ambiente era totalmente depressivo. Sofria com a falta de privacidade e reclamava do seu quarto, que muito mais que quarto, era um corredor de passagem. O seu trabalho, apesar de lhe conferir uma certa estabilidade de emprego, não o satisfazia. Era um trabalho absolutamente burocrático e, por isso mesmo, nada criativo, além de lhe exigir muito esforço e dedicação. Era numa companhia seguradora. A última frase desse primeiro capítulo diz assim: "A claustrofobia do mundo retratado em sua ficção espelha a de sua própria existência".

O segundo capítulo mostra as outras prisões em que o escritor ficou recluso: a sua aversão ao risco e a de não tomar nenhuma atitude em relação à aversão aos judeus. Assim ficou trabalhando a vida inteira num serviço burocrático e mal remunerado e, constantemente, se perguntava sobre o por quê de não tomar uma atitude frente ao ódio que lhe era dirigido pela sua condição de judeu. A emigração e o suicídio eram consideradas como possibilidades. Nem em um, e nem no outro caso ele tomava qualquer providência. Permaneceu tanto no emprego, quanto continuou morando em Praga. Embora essa sua condição, a frase final vem em seu auxílio e para o conforto de sua situação como escritor. O capítulo termina assim: "Em sua ficção ele transcendeu sua experiência judaica e sua identidade de judeu. Ele escreveu sobre a condição humana".
Eis a última foto de Franz Kafka, de 1923. 

O terceiro capítulo fala de sua sexualidade, "um mundo fechado para mim". Só teve desventuras. O relacionamento com Felice foi o mais prolongado. Sobre ela, assim ele se refere: "Seria bom nos encontrarmos; no entanto, não devemos fazê-lo [...] eu não poderia trazer-te nada além de decepções, monstro de insônia e dores de cabeça que sou". A impotência sempre rondou a sua vida.

O quarto capítulo trata de suas doenças e do desenlace final. Sua vida foi muito curta. Nasceu em 1883 e veio a morrer em 1924. Foi lentamente devastado pela tuberculose. Deixo para Milena, outra pessoa com quem teve desventuras, um dos mais belos depoimentos sobre ele: "Aqui poucos o conheciam, pois ele era um recluso, um homem sábio com medo da vida. [...] Ele escreveu em uma carta: quando o coração e a alma não podem mais suportar, o pulmão assume metade do fardo, para que este distribua mais equilibradamente - e assim foi com sua doença. Ela lhe emprestou uma ternura quase milagrosa e um refinamento intelectual quase horrivelmente inflexível [...] Ele era tímido, ansioso, meigo e gentil, e no entanto os livros que escreveu são aterradores e pungentes. Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis a dilacerar e destruir seres humanos indefesos. Ele era clarividente, demasiado inteligente para ser capaz de viver, e demasiado fraco para lutar..."
Milena Jesenká. Uma das mulheres com quem Kafka se relacionou. Ela dá um dos mais belos depoimentos sobre a sua vida.

O último capítulo é dedicado a análise de suas principais obras, algumas delas inconclusas, como o Castelo e Amerika. Castelo estava destinada a ser a sua obra prima, se tivesse sido concluída. Creio ainda ser muito importante dizer que Kafka publicou muito pouco em vida e, antes de morrer pediu insistentemente a Max Brod, o amigo de toda a sua vida, para que destruísse a sua obra. Brod, felizmente, não atendeu este pedido do amigo. Com isso, aos poucos, outras pessoas se sentiram animadas e toda a sua correspondência também foi publicada, exceto aquela que já fora extraviada.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Getúlio. 1945-1954 - Da volta pela consagração popular ao suicídio.

Se Getúlio ainda não tinha uma grande biografia, agora ele tem. A trilogia de Lira Neto é uma obra grandiosa. São três volumes, retratando três momentos da vida da maior figura da política brasileira de todos os tempos, e como diz o biógrafo: "Ele é incomparável e irrepetível". O primeiro livro, 1882-1930 - Dos anos de formação à conquista do poder, trata do período menos conhecido do presidente. Merece destaque a sua formação positivista. Este dado é fundamental para a compreensão do personagem. O segundo livro, 1930-1945 - Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, retrata o período de sua chegada ao poder e a forma de exercê-lo. Ele não tinha escrúpulos em ser um ditador. É o período sempre lembrado pelos seus detratores.  O terceiro livro, que acaba de sair, 1945-1954 - De volta pela consagração popular ao suicídio, talvez seja o mais revelador dos três volumes. Merece destaque o linchamento sofrido pelo presidente, por parte da mídia conservadora e pelo poder militar, que o leva ao suicídio, a forma encontrada para ficar para sempre na memória do povo.
Em três volumes e mais de mil páginas é contada a história de uma vida, de uma época e a constituição de um Estado/Nação.

O terceiro volume está estruturado em 18 capítulos que retratam os últimos quase dez anos da vida do presidente (1945- o ano de sua deposição - a 1954 - o ano de seu suicídio). Após a deposição, um humilhado Getúlio, volta para a sua terra natal, a cidade de São Borja, já na fronteira com a Argentina, nas barrancas do rio Uruguai. Leva consigo, além da humilhação a que fora submetido, muitos remédios, a perspectiva do suicídio e, também, uma vontade muito forte de, ainda mais uma vez, voltar ao poder. Também leva muita amargura, especialmente aquela que lhe é causada pela imprensa de sua época. " Lançaram sobre mim, através de uma imprensa sem categoria moral, a conhecida campanha de ódios e difamações", lamenta ele.
O charuto e o sorriso foram marcas registradas na vida do presidente.

O primeiro grande dilema que enfrenta em seu retiro é a questão da sucessão presidencial. Deve ficar neutro e, assim, favorecer o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, ou apoiar o marechal Dutra, seu ministro da guerra no Estado Novo, e um dos líderes de seu afastamento do governo. Dutra não decolava. Isto só aconteceu na reta final da campanha, quando recebeu o apoio de Getúlio. No governo, Dutra abandonou os ideais nacionalistas de Getúlio, fez um governo praticamente junto com a UDN e se alinhou incondicionalmente à política externa dos Estados Unidos. Obviamente, para a total decepção de Vargas. Getúlio, sem campanha, se elege deputado federal pelo PTB, por seis estados e senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul. Como ele não se definia por qual cargo a ocupar, a justiça eleitoral determinou que assumisse o posto de senador pelo seu estado natal. Foi um eterno ausente, tanto da constituinte, quanto das atividades parlamentares. Vivia tirando licenças.

Além das decepções com o governo Dutra, especialmente, a sua opção pelo livre mercado em detrimento da, por ele chamada, - democracia planificada, havia as questões familiares. Já havia perdido um filho para a poliomielite, para agora enfrentar os dissabores com o irmão Benjamin e o filho Lutero, dissabores que o acompanharão até o último dia de sua vida. Eles serão acusados como  envolvidos diretos com o atentado a Carlos Lacerda, que provocará o ocaso, tanto de seu governo, quanto de sua própria vida.
O presidente com Dona Darcy, a esposa distante e a filha Alzira, confidente e articuladora política.

De seu retiro, em São Borja, Getúlio se envolve pessoalmente nas campanhas das eleições estaduais, preparatórias para a eleição presidencial de 1950. Os candidatos que receberam o seu apoio, quase todos colheram grandes fracassos. A sua volta ao poder acontece de forma absolutamente inesperada. Na Santos Reis, a Estância da família, muitas coisas da vida nacional são articuladas. Recebe muitas visitas, entre elas a de Ademar de Barros, quando se sela a aliança para a sua volta ao poder. O inimaginável e o impossível acontece. Ademar de Barros passa a apoiar Getúlio. Este apoio é decisivo. Getúlio compreendeu bem que esta sua volta ao poder passaria necessariamente por São Paulo. O livro também revela um dado relativamente novo na biografia de Vargas. A importante e competente articulação política de sua filha Alzira, desde a articulação de sua volta ao poder, até o desfecho final. Ela cumprirá, tanto o papel de filha, quanto o de conselheira política. O livro traz como fonte a correspondência trocada entre os dois

Getúlio vence a eleição com 3.849.040 votos que representavam 48,73% do total dos votos. O brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN recebeu 2.342.384 votos e o candidato da situação, Cristiano Machado, do PSD ficou com 1.697.193 votos. Sob a alegação de não ter atingido maioria absoluta, Lacerda, o eterno encrenqueiro, tenta impedir a sua posse pela via da justiça eleitoral. Esta crise é um prenúncio de todo o seu governo, que tem o desfecho com o atentado a Carlos Lacerda. As acusações do atentado foram parar diretamente no presidente, envolvendo a guarda pessoal e familiares seus. Sem este atentado, toda a história poderia ter sido outra.

O governo foi marcado por dificuldades de ordem política e econômica. Vargas, septuagenário, já não era o habilidoso negociador que fora e a economia se defrontou com os seus eternos dois fantasmas: o não crescimento e a inflação. O grande feito deste governo ocorreu em agosto de 1953 quando é aprovada a lei que cria a Petrobras, como uma empresa estatal, genuinamente nacional, sem a participação do capital estrangeiro. Também merece atenção o fato de João Goulart ter sido nomeado para o ministério do trabalho, dele ser demitido - por haver anunciado o reajuste de 100% do salário mínimo, que mesmo assim, foi concedido pelo presidente, após a demissão. Jango seria o grande herdeiro do legado de Vargas.
A abertura provocada pela bala atirada contra o seu próprio coração.

Nos capítulos finais é descrita a agonia do presidente. Não lhe sobravam alternativas. Ou renunciaria, o que implicaria em um mundo de humilhações, ou enfrentaria uma guerra civil, que seria deflagrada com um golpe militar. Getúlio perdeu, ou nunca teve a seu lado, a aeronáutica. Perdeu a marinha e o seu ministro da guerra tinha um comportamento, no mínimo, duvidoso. Getúlio optou pelo suicídio, nos deixando as razões de tal atitude em sua Carta Testamento, um dos maiores documentos de nossa história. "Saio da vida para entrar na história". O suicídio foi o seu último ato heroico.
A comoção social. A participação popular no funeral do presidente.

Lira Neto não faz uma análise do legado de Vargas. Certamente daria um quarto volume. Tomo a liberdade de tentar escrever sobre isso, num único parágrafo. Sem enumerar por ordem de importância eu destacaria a concepção de Estado que o presidente teve, bem como a sua organização. Getúlio bem compreendeu que o livre mercado num país de capitalismo tardio não daria certo. Por isso a sua "democracia planificada", com a qual o Estado seria o grande indutor da economia. Disto surgiu o que se chama de Estado nacional desenvolvimentista. Também criou as estruturas do Estado para gerir o seu projeto. Outro destaque vai para a legislação social trabalhista. Junto com o processo de industrialização vem a Consolidação das Leis do Trabalho, uma espécie de nova Abolição. Um terceiro fator importante a considerar é uma decorrência de sua concepção de Estado. O Estado assume o papel de promover a infraestrutura necessária para gerar o processo de industrialização. Dentro desta visão estratégica surge a siderurgia, a Petrobras e o projeto da Eletrobras, este não consolidado, em função de sua trágica entrada para a história.

É por tudo isso que Getúlio é o grande personagem da história brasileira  Tão odiado ou tão amado e nunca tratado com indiferença. Esta aula de história, dada pelo Lira Neto, é uma aula extremamente prazerosa.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Primeiro Ranking da Cúpula da Cachaça.

No engenho/alambique que produz a cachaça Companheira ganhei a revista Cachaça em revista. uma revista especializada em temas relacionados com o produto. A revista é bem interessante. Ensina o caminho das pedras para os pequenos produtores, dá importantes dicas sobre a qualidade do produto, bem como estabelece as principais diferenças entre a cachaça e o rum. Mas a revista também fornece um ranking bem interessante e conta, em detalhes, como se chegou a ele. Acho que vale a pena ver como se chegou a estas premiadas cachaças.
O ranking das dez primeiras da Cúpula da cachaça, em fotografia da revista Cachaça em revista. Só não tenho em minha coleção particular a de número 4 e 6.

A revista é uma publicação da Cúpula da Cachaça. esta cúpula é formada por 12 especialistas, cachaciers, como são denominados. Eles se autodenominam de "os doze cúpulos. O concurso foi realizado em fevereiro de 2014, na cidade de Analândia, em São Paulo e que teria no caderno Paladar, o suplemento gastronômico de O Estado de São Paulo, o grande órgão divulgador. O ranking passaria por três etapas diferentes: a votação popular, a seleção feita por especialistas e, finalmente, a degustação às cegas.

A consulta popular atingiu expressivos 5.322 participantes, dos quais saíram as primeiras indicações. depois os especialistas chegaram a sessenta marcas e a partir daí começou a chamada degustação às cegas, feitas pelos cúpulos. Fichas com os principais descritores foram detalhadamente preparadas e divididas em quatro grandes seções (visual, olfativo, gustativo e final). A revista assim descreve a parte final deste concurso:
A Vale Verde e a Magnífica, a primeira e a segunda colocadas do ranking da Cúpula da cachaça. Da minha coleção particular.

"As 60 cachaças foram foram divididas em oito grupos por similaridade (brancas, bálsamo, carvalho e por aí afora) e, a cada bateria, cuja duração era de entre 40 a 60 minutos, eram degustadas de seis a 12 cachaça uma de cada vez, bien entendu. Não eram permitidos comentários entre os cúpulos durante a degustação. A concentração era absoluta e Cintia (Estadão) testemunhava todo o processo. No fim da tarde de sábado, terminou a quarta e última bateria do dia. A missão estava cumprida e as notas dos cúpulos começaram a ser computadas, tarefa que se estendeu até a noite. Apenas o coordenador da degustação soube do veredito. Os demais cúpulos saberíamos da mesma forma que todos os ansiosos produtores, apreciadores sedentos e corneteiros alertas. Por meio do Pladar/Estadão, na quinta feira seguinte".
 Terceira e quinta colocadas: Boazinha e Anísio Santiago. Da minha reserva particular.

A revista publica as dez vencedoras, mas publica também um ranking das cinquenta preferidas. Eis o ranking das dez vencedoras:

Primeiro lugar: Vale Verde - doze anos - Edição especial. Esta cachaça é produzida em Betim, na grande Belo Horizonte e figura praticamente em todos os rankings.

Segundo lugar: Magnífica Soleira. É produzida em Miguel Pereira no Rio de Janeiro.

Terceiro lugar: Boazinha. Para surpresa geral. É produzida em Salinas (MG), por um produtor folclórico, Antônio Rodrigues.

Quarto lugar: Reserva do gerente, que é produzida em Guarapari, no Espírito Santo.

Quinto Lugar: Anísio Santiago. Esta cachaça também figura em todos os rankings. É produzida em Salinas (MG) pelo famoso produtor da lendária Havana.

Sexto lugar: Leblon. Maison Leblon. Signature Merlet. É produzida em Patos de Minas (MG).

Sétimo lugar: Companheira. Extra Premium. Esta é produzida em Jandaia do Sul, no Paraná, no engenho que eu visitei.
Sétima e oitava colocadas. Companheira e Germana Heritage. Também da minha coleção particular.

Oitavo Lugar: Germana Heritage. É produzida em Nova União (MG) e também frequenta praticamente todos os rankings.

Nono lugar: Weber Haus. Extra Premium. A cachaça produzida em Ivoti, no Rio Grande do Sul.

Décimo Lugar: Canarinha. Esta também é produzida na lendária Salinas, em Minas gerais.
A nona e a décima colocadas. Weber Haus e Canarinha. também da minha coleção. Entre as de minha coleção, talvez seja diferente a embalagem ou o envelhecimento.

A revista ainda traz a publicação da lista das cinquenta vencedoras. Estão aí as dez vencedoras, apenas para matar a curiosidade. Entre as 50 vencedoras, além da paranaense Companheira (7) também a Porto Morretes - Ouro, de Morretes consta da lista, ocupando a 14ª posição.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

11 de agosto. O dia do advogado. Os caminhos da humanização.

No Brasil o dia do advogado é comemorado no dia 11 de agosto. A data se deve a criação dos dois primeiros cursos de Direito no Brasil. Em 1824 o Brasil ganhou a sua primeira Constituição e em 11 de agosto de 1827, com a criação das duas faculdades, foram criadas as possibilidades da viabilidade desta Constituição. O decreto de D. Pedro tinha o seguinte enunciado "Crêa  dous cursos de sciencias jurídicas e Sociaes, um na cidade de S. Paulo e outro na de Olinda. Os cursos teriam a duração de cinco anos, com 9 cadeiras, que hoje chamaríamos de disciplinas.
A origem do dia do advogado no Brasil, está ligado a ordem constitucional e a criação dos cursos de Direito. E direito significa direito. Deverá ser ele o grande fator humanizador de uma sociedade.

Todas as definições da profissão relacionam o advogado com a função de mediação das relações sociais existentes. Ora, se existe a necessidade da mediação nestas relações é porque, fundamentalmente, elas são complexas e conflitantes, nunca lineares, na relação simples de causa e efeito. Embora a mediação sempre tenha existido, a institucionalização da Justiça e do Direito são um fenômeno do mundo moderno, com profundas raízes na sociedade grega e romana. Ao longo do mundo medieval, doutrinas do direito divino e de caráter absoluto foram se afirmando e assim elas chegaram até o mundo moderno.
 O advogado é uma profissão de intelectual. A leitura dos clássicos e intérpretes dos clássicos deverá fazer parte de sua formação.

Este mundo moderno foi se configurando através de uma série de fatores essencialmente econômicos, na transformação de uma sociedade auto suficiente e fechada para uma sociedade dinâmica e aberta. Mobilidade seria uma palavra fundamental, para romper com os estamentos medievais, marcados pela desigualdade do nascimento. Coisas de sangue azul e de sangue comum. O mundo moderno se construiu através de uma série de revoluções, as chamadas revoluções de caráter burguês. As principais, a saber, foram a Revolução Gloriosa (1689) e o Bill of Rigths, a Declaração da Independência dos Estados Unidos (1776) e a posterior ordem constitucional deste novo país e a Revolução Francesa (1789) e a consequente afirmação de Direitos Universais que a seguiu.

Um complexo campo teórico precedeu e movimentou todo este longo processo histórico. Esta teoria foi ganhando consistência com pensadores políticos como Maquiavel, Thomas Hobbes, John Locke, Monstesquieu, Rousseau, Kant e Hegel, para citar os principais e, fortes constestações, com as teorias de Marx e Engels. Além destes pensadores que se ocuparam mais com os temas políticos, também houve os pensadores econômicos, com destaque para Adam Smith, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. No direito também surgiram os grandes mestres com suas especificidades e alinhamentos com esta nova ordem revolucionária.
A essência da profissão do advogado é fazer a mediação numa sociedade de conflitos. Isso requer uma sólida formação humanística para compreender o mundo dos direitos e da cidadania.

Os fundamentos do liberalismo ou da sociedade aberta, a sua principal característica, se baseiam no indivíduo, na liberdade, na propriedade, na igualdade e na democracia. Estes princípios se inter relacionam, mas poderiam ser assim resumidos: uma sociedade de homens livres e iguais, que vivem num mundo de oportunidades. Estas oportunidades seriam encontradas no mercado e este seria regido por leis naturais. O que seriam estas leis naturais? O que é natural e o que é cultural? Destes embates surgem, já com Adam Smith, as teorias do  livre mercado e do Estado Mínimo. Sobre as leis naturais, do mercado invisível, não poderia haver interferências humanas, ou seja. a economia se auto regularia pelo livre mercado. O principal princípio que move o mercado é a competição e, convenhamos, em qualquer processo de competição existirão vencedores e perdedores, estes os excluídos, como os chamamos hoje.

É neste campo de embates que o Estado, e em consequência, a instituição do Direito e da Justiça, se constitui. Mais uma vez as divergências, em virtude da enorme complexidade, se manifesta. O primeiro diagnóstico de uma sociedade fundada na competição foi dado por Thomas Hobbes. Homens livres e iguais, que competem entre si, se matam. O homo homini lupus, ou a guerra de todos contra todos. Para o diagnóstico monstruoso, uma solução mais monstruosa ainda, O Estado Leviatã.
 John Dewey. Um clássico interpretando clássicos. Um dos meus preferidos.
Como a competição necessariamente forma vencedores e perdedores, os teóricos do Estado foram elaborando suas teorias. O coletivo precede o individual, (Hegel) o Estado tem tarefas positivas para proporcionar meios para competir, abrindo assim os caminhos para o estado assumir compromissos com a educação e a saúde (Bentham), até se chegar a responsabilização do Estado com a questão da justiça social e da distribuição de renda (Stuart Mill). Vejam que não estou saindo do campo das teorias liberais. Também quero lembrar que Adam Smith escreveu um outro livro, por sinal, pouco lembrado. A teoria dos sentimentos morais.

Assim foi se construindo a modernidade e este tema encheu as bibliotecas de livros e as academias de teses. Na antítese das teorias do livre mercado surgem as teorias dos direitos. Estes direitos, segundo Marshal, evoluíram na seguinte ordem: primeiro os direitos civis (integridade física, igualdade perante a lei e as liberdades de pensamento e de expressão) os direitos políticos (organizar partidos, votar e ser votado) e os direitos sociais ( saúde, educação, trabalho, previdência, moradia etc.) num volume sempre crescente, na exata medida da efetiva democratização da sociedade, sendo esta cada vez mais organizada, reivindicativa e participativa. É a contrapartida às desigualdades provocadas pelo mercado.
Mais clássicos interpretando clássicos. Leituras para os advogados, para os juristas.

O mundo moderno é conhecido pelos seus grandes conflitos, as chamadas guerras. A visão hobbesiana da guerra de todos contra todos se confirmou e, especialmente, após a segunda grande guerra, os dirigentes mundiais passaram a se preocupar, cada vez mais, em evitar estas guerras. Surge a social democracia ou o Estado de bem-estar. Este Estado cria estruturas para o atendimento aos chamados direitos da cidadania, que o Estado Mínimo, por falta de vontade política, jamais será capaz de atender. Isto gerou uma reação violenta. Os defensores dos livres mercados se tornaram fundamentalistas e, quais novos cruzados medievais, com métodos que ignoram qualquer processo civilizatório, aplicaram verdadeiras doutrinas de choque, em favor da acumulação dos capitais financeiros e em detrimentos das ações de cidadania. Sua palavra de ordem, para impor o poder oriundo do livre mercado, é desregulamentar. O que significa desregulamentar? Desregulamentar é a eliminação de toda a legislação oriunda da mediação do Estado, para deter o poder de força oriundo da acumulação de capital e de poder. É voltar a uma sociedade primitiva, a estágios pré civilizatórios. Lembremos ainda uma frase pronunciada por Hayk, o fundador do pensamento neoliberal, pronunciada junto ao ditador Pinochet, no Chile, por onde os fundamentalismos de mercado começaram a ser implementados na América Latina. "Se tivermos que escolher entre a liberdade política e a liberdade de mercado, sempre escolheremos a liberdade de mercado". Estava apenas referendando uma das mais cruéis e sangrentas ditaduras.

Este é o quadro em que o advogado atua. Desde o início já definimos que a sua grande função está ligada a mediação. E a mediação se torna necessária quando uma sociedade se assenta em princípios conflitantes. Assim o advogado também é uma profissão ligada aos direitos, direitos estes que se afirmaram ao longo do processo histórico, pelo qual chegamos ao que modernamente chamamos de  Estado Democrático de Direito, que terá como principal característica, o respeito às leis e a luta pelo seu aperfeiçoamento, para que melhorem a convivência humana. É também a isso que chamamos de sociedade civilizada, em oposição a selvageria, que, por sinal significa, lei da selva.
A formação de um advogado vai para muito além de uma mera formação técnica reducionista. O verdadeiro advogado deverá aspirar sempre ser um grande jurista e a sua consagração virá com a formação humanista.

Os seres humanos são muito complexos e se são complexos também o será o mundo das relações que entre eles estabelece. Jamais será o reducionismo de uma mera soma de indivíduos (Tatcher). Num mundo de relações complexas não cabem pensamentos fundamentalistas ou dogmáticos. A paz ou a convivência harmoniosa somente será atingida com mentes abertas e plurais, na luta contra todo o tipo de preconceitos, inclusive sobre as causas geradoras da pobreza e a sua criminalização. De abertura para o humano, para o social, para o justo, para o solidário e pela convivência na pluralidade e das divergências. Que este seja o mundo do Direito e da Justiça. Que este seja o mundo que povoa a mente e os horizontes do advogado. Que a sua voz se levante contra as monstruosidades provocadas por teorias que exaltam a violência da competição no lugar da solidariedade e do humano. Este também será o mundo em que seres humanos terão mais chances de serem felizes.
Entre os meus preferidos, a minha preferência absoluta. Fábio Konder Comparato.

Não sou advogado, mas já trabalhei na área política em cursos de direito. Neles sempre pautei a minha ação pelos princípios aqui afirmados. A minha saudação a todos os advogados, especialmente aos três filhos advogados que tenho, além de uma nora e outra possível futura nora. Junto com os parabéns aos que exercem esta profissão, o meu mais profundo desejo, de que jamais um advogado receba uma repreensão sequer, por ter se afastado da esfera dos direitos consagrados em lei, pois este é o seu campo de atuação.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Em Jandaia do Sul. Em busca da "Companheira".

É impressionante a força com que se movimenta o mercado da cachaça. Além do fator econômico, a cachaça é marcada fortemente por traços culturais, de poderes ocultos e transcendentais que a água ardente representa. Borbulhas e vapores, como em Delphos. Hoje ela é também um importante fator turístico. Muitos encontros e feiras movimentam milhares de pessoas, em torno da tal da aguardente.

Minas Gerais e o Rio de Janeiro  são os estados brasileiros que mais marcam a tradição e os negócios da cachaça. São os estados detentores das marcas mais famosas. Uma das formas que produz a fama das marcas é a realização de festivais, que movimentam os produtores, os apreciadores e os especialistas na bebida. A elaboração de rankings ganha cada dia mais sofisticação e mais competitividade. Existem os rankings nacionais e também os estaduais. Ter a marca incluída num ranking é, praticamente, uma certeza de bons negócios.
As modernas instalações do engenho/alambique de Jandaia do Sul. Ali é produzida a Companheira.

Embora o Paraná não tenha uma história e uma tradição tão forte como a do Rio de Janeiro (Paraty) e Minas Gerais (Salinas), os negócios ligados à cachaça já se constituem numa ótima forma de negócios e de ganhar um bom dinheiro. Este mercado tem no Paraná o seu centro de gravitação em torno da cidade de Morretes. Jandaia do Sul, Santa Mariana, Planalto, Francisco Beltrão, Rolândia, Assaí, além de outras, também já figuram neste mapa.

Hoje eu quero falar de uma cachaça produzida em Jandaia do Sul. O alambique está localizado no Km 4 da BR 369, na área rural, na rodovia que liga Jandaia do Sul a Bom Sucesso. O alambique é relativamente novo, datado de 1994. Ele foi o sonho do engenheiro químico Natanael Carli Bonicontro, quando ele ainda trabalhava na Universidade Estadual de Maringá. Hoje, suas filhas tocam o empreendimento e não tem do que se queixar, como conta Sara de Brito Bonicontro, que hoje é a diretora comercial dos negócios da família.
Na loja de venda da cachaça Companheira, dos licores e da linha coquetel. Junto com Sara, a diretora comercial do empreendimento.

A preocupação com um produto de qualidade acompanha o engenho/alambique desde a sua fundação. Além desta preocupação, altos toques de marketing, também estão presentes no empreendimento, especialmente no que se refere ao quesito da beleza da embalagem. As garrafas recebem um artístico design, e assim - Companheira - esta é a marca - começa a ser bebida também com os olhos. Outra estratégia de marketing é a constante participação nos principais eventos que o mercado da cachaça produz. Assim - Companheira - ganha divulgação e a marca, a necessária visibilidade.
Com a minha amiga, professora Maria Inês, presidente do Núcleo Sindical da APP de Mandaguari.

Por ocasião do I Ranking da Cúpula da Cachaça, sobre o qual falarei em outro post, Companheira ganhou o seu maior prêmio de reconhecimento. A Companheira Extra Premium conquistou a sétima posição neste seletivo ranking, no qual foram testadas mais de 250 marcas, após a realização de uma 'consulta popular'. O engenho passa hoje por um processo de modernização em suas instalações, um evidente sinal de prosperidade.

A minha visita ao engenho se deu a partir de uma viagem que fiz a Mandaguari, para ali participar de uma Conferência de Educação, promovida pela APP-Sindicato, pelo núcleo regional desta cidade. Minha amiga e presidente deste núcleo, Maria Inês foi a minha anfitriã. Nas instalações fomos atendidos pela diretora comercial, Sara de Brito Bonicontro.
Duas amostras da Companheira. Uma Extra Premium e outra envelhecida. A Extra Premium alcançou o sétimo lugar, como melhor cachaça do Brasil, no ranking da Cúpula da Cachaça.

Além da cachaça artesanal, no engenho também é produzida uma linha de licores e de coquetel. Na cachaça se distinguem a Extra premium, a Envelhecida, a Emburana e a Prata. Os licores contemplam os de jabuticaba, de jabuticaba com cravo e canela, açaí, pêssego, banana, tangerina, laranja, limão e abacaxi. A linha coquetel ganhou marca própria: Amelinha. Enfim, o engenho/alambique, onde é produzida a Companheira, é um belo recanto, em meio a imensos canaviais e gente que faz o seu trabalho com uma intensa paixão. Foi neste ambiente que eu encontrei, em Jandaia do Sul, uma companheira.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Esta é a verdadeira história do paraíso. Millôr Fernandes.

Como é a primeira vez que eu faço uma resenha de um livro do Millôr, o que não é tarefa fácil, acho oportuno recorrer a apresentação que Antonio Prata faz deste livro - Esta é a verdadeira história do Paraíso-, mas que vai para além deste livro, aplicando-se também para o humor em geral e para o humor do Millôr, em particular. Também abrange a forma com que o Millôr expressa o seu humor. E vai, desde já, uma advertência. Humor não é coisa fácil, nem de escrever, nem de ler. E se então cair em terrenos não próprios, aí então, o desastre passa a ser total. Me lembro de uma frase que começava assim:" Nunca faça humor perante..., e listava uma série de pessoas que eram enquadradas. Prefiro deixar para o seu imaginário. 
O humor de Millôr é expresso em prosa, verso, traço e cores. O original desta história é de 1963, que agora está sendo relançado pela Companhia das Letras.

Mas vamos ao Antonio Prata. Ele conta que Millôr se considerava como o inventor do frescobol, na praia de Copacabana, fato do qual ele se orgulhava muito. Este orgulho provinha do fato de que o frescobol era um dos três esportes em que não há competição, os outros dois eram o humor e o sexo. Millôr se orgulhava de ser o pai da mais fraterna das atividades desportivas, ignorando-se porém quem teria sido a mãe. A metáfora do frescobol é muito bonita. Vejamos Prata falando: "É natural que o nosso maior humorista, capaz de bater bola por mais de sete décadas com centenas de milhares de leitores, espraiando o seu talento em prosa, verso, traço e cores". Esta é a primeira observação que eu gostaria de fazer. É preciso ter olhos para ler, ver, interpretar e apreciar a prosa, o verso o traço e as cores, pelas quais Millôr se expressava.
Millôr foi o grande homenageado da FLIP - 2014. Este foi o ensejo para reeditar muito de sua obra.

Depois Prata continua no campo do humor. Após citar Confúcio, com a sábia frase de que "cada empate é um empate" ele assim caracteriza estes três esportes: "No frescobol ele é contínuo, no sexo é pontual e no humor ele é duplo". E continua com esta maravilha: "Ao rir das próprias misérias e da falta de sentido das coisas, o humorista se irmana com o leitor, fazendo com que ambos baixem a guarda. Assim empata também com a vida, tirando sarro de seus percalços. E como não tirar? Se o 'homem é um animal inviável', condenado a pelejar neste 'pau de sebo com uma nota falsa em cima', um Sísifo (e bota sifú nisso) obrigado a rolar para cima uma pedra que sempre rolará para baixo". Depois Antonio Prata envereda pelo humor de Millôr:

"Para escrever, o humorista deve escolher sempre o assunto mais sério, mais triste ou mais trágico. Só um falso humorista escreve sobre assuntos humorísticos". Ainda toma do próprio Millôr, outro princípio fundamental do humor: "Pretendemos meter o nariz exatamente onde não fomos chamados. Humorismo não tem nada a ver e não deve ser confundido com a sórdida campanha do 'Sorria sempre'. Essa campanha é anti-humorística por natureza, revela um conformismo primário, incompatível com a alta dignidade do humorista. Quem sorri sempre ou é um idiota total ou tem a dentadura mal ajustada".
Adão e Eva e o seu armário de roupas. Uma ilustração do livro.
Mais uma coisa para situar a obra. Ela foi escrita em 1963, às vésperas do golpe militar e da"Marcha da Família com Deus pela Liberdade". Neste cenário é que Millôr meteu o nariz. Creio que todos conseguem imaginar a reação à Esta é a verdadeira história do paraíso. Um pouco desta reação o próprio Millôr conta no como um prefácio. Diz que eles tinham elevado a venda da revista O Cruzeiro, na qual ele publicou a sua peça de humor, de 11.000 para 750.000 exemplares. Quando Millôr esteve em viagem pela Europa, ele simplesmente foi demitido pelos editores da revista, em editorial da própria. Com estes dados já não deu mais vontade de ler esta verdadeira história?

Eu, da minha parte, a estou lendo, agora, pela primeira vez, pois em 1963 eu me encontrava absolutamente blindado contra este tipo de leitura, pelos ofendidos com a 'verdadeira história', pois estes tinham uma outra história, muito mais verdadeira, dogmática até, e que era sagrada, a verdade da Bíblia, da palavra de Deus.

Como para o humor é preciso ler, ver, interpretar e apreciar eu deixo esta tarefa para o leitor. Dou apenas o aperitivo de um parêntesis: "E, ao pensar nisso, choro de frustração, imaginando o sexo que nós perdemos. Sim, irmãos, pois se a maçã, tão sem gosto, corresponde ao sexo que temos, vocês já imaginaram o sexo que teríamos se a primeira dama nos tivesse tentado com um tamarindo bem maduro, desses de dar água na boca".
Contra capa de Esta é a verdadeira história do paraíso. Depois que Millôr a conta, ao final, vários outros humoristas também apresentam as suas versões.

Este é mais um trabalho que eu estou fazendo para a Companhia das Letras. Vai aí a referência do livro: FERNANDES, Millôr. Esta é a verdadeira história do paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Uma excelente sugestão de livro para presentear alguém, especialmente se este alguém for bastante religioso! Sim, em tempo ainda, para a epígrafe do livro: "Sempre desprezei Adão por ter precisado da tentação de Eva (como esta precisou da tentação da serpente) para comer o fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal. Eu teria devorado todas as maçãs assim que o dono virasse as costas". George Bernard Shaw.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Uma crônica para o dia dos pais.

No livro de Ana Maria Bahiana - Almanaque 1964 - Fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo (e nem sempre para melhor), encontramos uma bela crônica, escrita por José Carlos Oliveira, no Caderno B do Jornal do Brasil, referente ao dia dos pais, intitulada "De pai para filhos". Sempre é gostoso estabelecer paralelos de tempo.

Esta crônica é conjuntural ao ano de 1964 e, conforme o autor, a sua paternalidade abrange o Brasil e o mundo. As duas conjunturas mudaram bastante, especialmente a do Brasil, que, apesar de tudo, vive um de seus mais longos períodos de democracia e em que houve, embora sob os fortes impactos da lei da gravidade social, uma forte movimentação social, de caráter ascendente em sua estrutura, fenômeno sempre raro e duramente contestado.
Neste magnífico livro, no mês de agosto do almanaque, encontramos esta crônica para o dia dos pais.

Também houve alteração na conjuntura internacional. A bipolaridade e a guerra fria deram lugar a uma política global de unilateralidade, o que tornou o mundo ainda mais intolerante e o mercado global, especialmente o de armamentos, continua se movimentando com frenesi, tendo como suas principais vítimas, gente absolutamente inocente como crianças, por exemplo, como sempre. Mas vamos a esta bela crônica, lá dos idos dos anos de 1964.

(Dia dos pais) [...] Minha paternalidade abrange o Brasil, o mundo. Digo ao presidente dos Estados Unidos e ao primeiro ministro da União Soviética e ao primeiro-ministro da China vermelha: 'Meus filhinhos, hoje quero sossego. Não perturbem o meu silêncio com explosões muito estrondosas. [...] Sou um pai à moda antiga, de modo que não gosto de ver crianças brincando com fogo. Não brinquem. Fiquem lá na ONU discutindo enquanto a mamãe estiver fora. A vossa mãe chama-se paz e é uma senhora algo inconstante: muitas e muitas vezes trocou-me pela Guerra. Mas eu lhe sou fiel: acho que o pai deve ficar tomando conta dos filhos para que estes não cresçam neuróticos, transviados, sedentos de Paz.

 [...] Digo aos brasileiros: 'Meus filhinhos, vamos botar a casa em ordem, pois mamãe não demora. A vossa mãe se chama prosperidade, tem andado muito doente (doença de nascença), mas os seus novos médicos confiam em que serão capazes de curá-la. tenho minhas dúvidas, mas... [...] Muitos de vós me renegaram, ergueram a mão contra os familiares e depois foram levados para a prisão, ou então escolheram o exílio. Os outros estão por demais prepotentes, orgulhosos, querendo tomar conta da casa, perseguindo os mais fracos."

Da minha parte, não quero entrar nem em conjuntura nacional e nem internacional. Quero apenas dedicar este post, ao grande número de pais e filhos que tiveram e tem os seus encontros interrompidos pela mais estúpida das guerras, se é que este massacre dos palestinos pode ser chamado de guerra.  Então presto - muito mais a minha solidariedade do que a minha homenagem às crianças e aos pais palestinos, que vivem (ou pior, já não vivem) na mais plena das angústias, na Faixa de Gaza. E deixo uma frase, que vi recentemente como momento para a reflexão: "A dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores".

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Temas eleitorais. 5. Um modelo brasileiro de desenvolvimento?

Ouvi pela primeira vez referências a modelos de desenvolvimento com a leitura de Celso Furtado. Lembro que ele falava em capitalismo tardio. O Brasil é um desses países onde o capitalismo se desenvolveu muito tardiamente. Neste ano, lendo sobre os 50 anos da ditadura militar brasileira, me deparo com o livro, organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, A ditadura que mudou o Brasil. No primeiro capítulo deste livro, o próprio Daniel Aarão Reis analisa a cultura política nacional-estatista. A tese do autor é a de que este modelo é uma espécie de modelo próprio, de desenvolvimento brasileiro, caracterizado pela intervenção do Estado, exatamente em um país que tem as marcas de um capitalismo tardio, que precisa fazer frente à velocidade do livre mercado.
Neste livro encontramos o texto de Daniel Aarão Reis, A ditadura faz cinquenta anos: história e cultura política nacional-estatista.

A gênese desta cultura política nacional-estatista está no Estado-Novo de Getúlio, quando este enfatiza o declínio do individualismo e do liberalismo e afirma a nova fase de prevalência do Estado regulamentador. Como se vê, toda a movimentação da história do período das crises entre as guerras, se fará presente aqui no Brasil. O autor aplica a este modelo algumas marcas próprias, a saber: a) um Estado centralizado e integrador do nacional; b) um ideário nacionalista e unificador; c) o seu esteio nas forças armadas; d) a realização de amplas alianças sociais; e) uma concepção de modernização e de industrialização e f) se orientar por uma política externa de afirmação nacional.

Acima de tudo, pairava no horizonte, uma visão positiva do país como estado/Nação, superando todas as visões negativas, oriundas no clima e na mistura das raças, (as doutrinas da eugenia) que nos condenavam a um eterno inferno da dependência. Todas estas teorias começaram a ser superadas nesta época, embora muitos preconceitos permanecessem e estão enraizados em nossa cultura até hoje.

Esta cultura política nacional estatista se encravou em nossa história e foi a grande responsável pelos saltos de crescimento econômico, e, inclusive, social que tivemos. Esta cultura esteve presente no período do desenvolvimento auto-sustentado do modelo getulista, no desenvolvimento dependente, dos 50 anos de crescimento em cinco anos de governo, sob JK., nos anos de chumbo do milagre econômico, na ditadura militar, especialmente nos governos Médici e Geisel e, mais precisamente ainda, nos governos Lula e Dilma, em que funcionou o binômio do crescimento econômico com a distribuição de renda.
O pós neoliberalismo se afirma por um novo ciclo de intervenções do Estado em favor da cidadania, construída a partir dos espaços públicos.


Esta cultura política nacional estatista sempre teve o feroz combate da ortodoxia liberal. Mas quando esta ortodoxia dominava as forças políticas no poder, os desastres econômicos e sociais vinham na sua esteira. Assim, na própria ditadura militar, as tendências liberalizantes do governo Castelo Branco tiveram que ser abandonadas, com os custos políticos, que são de triste memória. O golpe dentro do golpe, em 1968. Nos anos 1980 e 1990, uma nova onda liberalizante, marcada pelo neoliberalismo e pela globalização se instalou no país, especialmente, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.

As consequências mais uma vez se fizeram sentir desastrosamente. Inflação acima dos dois dígitos (12,6%- no último ano de governo FHC), desemprego beirando os 20%, baixo índice de crescimento do PIB e três constrangedoras visitas ao Fundo Monetário Internacional foram feitas, sendo então aplicadas as políticas do Consenso de Washington. A memória política de - e sobre - o seu governo lhe confere uma imagem muito negativa.
Se as doutrinas do livre mercado geraram a seleção e, em consequência, a exclusão, as ações positivas do Estado passaram a ser responsáveis por políticas de inclusão social e de cidadania.


Em 2002, com a vitória de Lula, o modelo do livre mercado foi novamente substituído pelo modelo da cultura nacional estatista e um novo surto de crescimento econômico com distribuição de renda ficou estabelecido, com milhares de pessoas saindo da condição da miséria absoluta e outras tantas ascendendo ao fenômeno, bem ou mal designado, da nova classe média. Também se rompeu com a ditadura dos agentes econômicos internacionais. De devedor do FMI, passamos a ser seu credor.

Para encerrar e, como já estamos vivendo o período eleitoral, deixo uma frase de Friedman, que creio, ajuda a entender a situação de catástrofe - que a mídia tenta passar sobre a atual realidade da economia brasileira, com claros e evidentes objetivos eleitorais. "Só uma crise, real, ou percebida como tal, produz uma mudança verdadeira. Quando esta crise ocorre (ou assim for percebida) as ações empreendidas dependem das ideias vigentes. esta é, acredito, nossa função básica: desenvolver alternativas para as políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável". Só lembrando, que Milton Friedman é o principal teórico das doutrinas neoliberais. Não podemos cair nesta cilada e, para isso, precisamos recorrer à história e à memória, mesmo que seja de fatos ainda recentes.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Temas eleitorais. 4. O Consenso de Washington.

Com o crescente endividamento dos países em vias de desenvolvimento, os países credores procuraram tornar mais eficientes os seus mecanismos de cobrança e assim obterem êxito no retorno de seus créditos. Para isso não tiveram dúvidas em acionar os antigos mecanismos internacionais, até então mais vinculados à cooperação, para fazer deles, instrumento do retorno dos capitais investidos. Assim o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, se transformaram em instituições "cães de guarda" do capitalismo financeiro internacional. Os seus principais diretores, assim como os dirigentes políticos dos países credores, todos, indistintamente, já professavam o credo neoliberal. O mesmo ocorreu com os dirigentes dos países endividados.
Neste livro são enunciados os princípios do neoliberalismo, ou os caminhos do livre mercado.

O fenômeno do endividamento se tornou mais agudo ao longo dos anos 1980. Diante da absoluta situação de carência dos países endividados, estes já não se habilitavam mais a empréstimos privados, tendo esperanças, apenas, nas instituições de crédito oficiais. O Banco Mundial aproveita esta situação para promover um verdadeiro ajuste de contas. De agora em diante, novos empréstimos somente seriam concedidos, mediante uma série de condicionalidades. Estas eram as exigências do poderoso G-7. Assim o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional receberam a missão de, além de serem os gestores da crise, promoverem a reestruturação neoliberal dos chamados países em desenvolvimento.
Milton Friedman propagou os princípios neoliberais através dos Chicago boys. Depois, estes princípios passaram a ser a doutrina de choque dos organismos financeiros internacionais.

Secaram-se assim todas as fontes de financiamento alternativos. E como todos estes países estavam endividados, para saldarem as suas dívidas, recorriam a estes organismos e se tornaram reféns de suas cláusulas draconianas. Naomi Klein chama a isto de A Doutrina do Choque - A ascensão do capitalismo de desastre. Deste livro me chamou especial atenção a sua parte número 1 em que é estabelecido um paralelo entre dois doutores do choque. Vejam apenas os títulos destes dois capítulos desta parte do livro. 1. O laboratório de tortura: Ewen Cameron, a CIA e a obsessão por apagar e refazer a mente humana e 2. O outro doutor do choque: Milton Friedman e a busca pelo laboratório do laissez faire. O mundo inteiro capitulou. A acumulação especulativa festejou. A exclusão social se multiplicou.

As condicionalidades impostas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional ficaram conhecidas pelo nome de "Consenso de Washington", nome conferido a estas condicionalidades pelo economista inglês John Williamson. No livro O Banco Mundial e as políticas educacionais, de Lívia de Tommasi, Mirian Jorge Warde e Sérgio Haddad (PUC/SP - Cortez  e Ação Educativa -SP. 1996), já no primeiro capítulo, sobre o banco, a autora, Maria Clara Couto Soares, aponta cinco eixos fundamentais deste consenso imposto:
Este livro contem interessantes análises sobre a aplicação dos princípios neoliberais, através do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

1.   equilíbrio orçamentário, sobretudo mediante a redução dos gastos públicos;
2. abertura comercial, pela redução das tarifas de importação e eliminação das barreiras não-tarifárias;
3.  liberalização financeira, por meio da reformulação das normas que restringem o ingresso do capital estrangeiro;
4.  desregulamentação dos mercados domésticos, pela eliminação dos instrumentos de intervenção do Estado, como controle de preços, incentivos, etc.;
5.  privatização das empresas e dos serviços públicos.
As análises mais mordazes estão neste livro de Naomi Klein.

Naomi Klein, no seu já citado livro, sintetiza estas cláusulas em três eixos fundamentais, o famoso triunvirato neoliberal de Milton Friedman: na privatização, na desregulamentação/liberação do comércio e nos cortes drásticos dos gastos públicos. Quem ainda tiver dificuldades de entender o significado do que foi e do que representou o "Consenso de Washington" basta fazer uma retrospectiva histórica e ver as políticas de "ajustes estruturais do Estado", feitas ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso.