quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Coringa. Todd Phillips.

Coringa, ou Joker no original, é um filme altamente polêmico. Ele está totalmente centrado no personagem Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, um palhaço, que está diante dos problemas que o mundo lhe apresenta, agravados por graves distúrbios mentais, originários tanto na sua estrutura individual, quanto dos gerados pelo seu convívio social. A primeira cena já apresenta Arthur como problemático, o que é evidenciado pela sua irritante e desconcertante risada, diríamos, totalmente desprovida de sentido.
Cartaz promocional do filme.

A origem dos problemas de Arthur então começam a ser mostrados. Ele faz tratamento psíquico, complementado com o uso de medicamentos. Tanto o tratamento quanto os remédios lhe são cortados em função de ajustes econômicos feitos pelo Estado. O filme remonta ao final dos anos 1970 e na sua transição para os anos 1980. Há comentaristas que remetem esse fato para uma crítica ao neoliberalismo, que começa a ser implementado com força.

Os problemas de Arthur passam a ser explicitados, com destaque para o relacionamento com a sua mãe e a sua paternidade. O ricaço da cidade, Thomas Wayne, fora a grande paixão de sua mãe. Esses desajustes são marcados também pelo desemprego e pela precariedade do exercício de sua profissão. O palhaço tem que se dedicar à alegria e felicidade dos outros, sem ninguém se importar com a sua. Também o desemprego grassa em Gotham city, a cidade dos acontecimentos. Os desajustes de Arthur desembocam em atos de violência.

Os comentaristas veem no filme um tributo a Martin Scorsese, fato que teria levado ao convite para que Robert de Niro interpretasse Murray Franklin, e aos filmes de Batman. Não tenho condições de entrar nesses méritos.

Vamos a uma sequência de fatos que envolvem o conturbado personagem. Ele sofre agressões quando tem a sua placa de publicidade furtada. Reage a agressões sofridas no metrô, partindo para a vingança e matando os seus três agressores. Mata a sua mãe, sufocando-a no hospital. Procura tirar satisfações com Thomas Wayne e lhe faz ameaças, que envolvem também o seu filho. É óbvio que passa a ser perseguido pela polícia, que é apresentada em sua forma toda trapalhona. Mata um colega de profissão e se prepara para ir a um famoso programa de televisão do apresentador Murray Franklin. Antes, em casa, já fizera simulações ou ensaios sobre como seria a sua participação.

É nesse ponto que o filme atinge o seu ponto máximo. Nada dá certo. O apresentador se vê em apuros, já que o convidado em nada colabora para que a entrevista desse certo. Os diálogos mostram as amarguras e os ressentimentos de Arthur, que culminam com a cena de violência explícita de tiros frontais no apresentador. É o momento também que exige a maior concentração do expectador para captar o teor dos diálogos desse momento.

Depois disso o caos se instaura na cidade em função de uma rebelião popular contra os ricos da cidade. Será o momento em que Arthur, mais uma vez consegue despistar a perseguição policial e fazer o seu último ajuste de contas com o ricaço da cidade, Thomas Wayne. Seriam os acertos com o suposto pai, nem que adotivo?

Inicialmente o filme foi muito bem recebido, tanto pela crítica, quanto pelo público. Mais tarde apareceram críticas e dúvidas sobre o filme, sem dúvida, uma grande crítica à estrutura econômica e social desse nosso mundo. Ele incitou a luta de classes? Sim ou não? Ou seria apenas uma explosão de violência individual, fruto de muitos desajustes? O filme é uma incitação à violência, ao uso de armas, no país que consagra o seu uso? Seria um convite para fazer ajustes sociais com as próprias mãos?

Com certeza que é um filme diferente e que certamente receberá prêmios, com possibilidades de Oscar para melhor filme e ator. A direção é de Tod Phillips e roteiro escrito pelo diretor em companhia de Scott Silver. Merece também uma atenção especial a trilha sonora de Hildur Guonadótor, em especial a sua letra, que reflete os problemas do personagem central e fazendo interrogações sobre o sentido da vida. Deixo ainda espaço para os adjetivos usados pelo Omelete. Perigoso, problemático, violento, inconsequente, irresponsável e polêmico. Bom filme!

O filme mereceu onze indicações ao Oscar, o maior entre todos:
Melhor filme
Melhor ator
Melhor fotografia
Melhor figurino
Melhor direção
Melhor montagem
Melhor cabelo e maquiagem
Melhor trilha sonora original
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som
Melhor roteiro adaptado.

Recebeu dois Oscar. O do cobiçado melhor ator e o de melhor trilha sonora.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Dois papas. Fernando Meirelles.

Assim que soube que o filme, Dois papas, estava em cartaz, fui imediatamente ao cinema. Cine Passeio, um belo espaço cultural na cidade de Curitiba. Tenho verdadeira veneração pelo papa Francisco e pouca, pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Os motivos são óbvios. O caráter humanitário e a preferência pelos pobres, por parte de Francisco e pelo reacionarismo e conservadorismo dos outros dois. Essas marcas estão fortemente presentes no filme.
Cartaz promocional de Dois papas.

A Civilização Ocidental é profundamente cristã e capitalista. Esses princípios estão em nós, pelas entranhas. Respiramos os seus valores. A sua influência sobre nós é até maior do que pensamos. Muitas vezes eu paro para refletir sobre a forma, sobre o como eu me constituí. Nasci em meio a uma família muito pobre, que imaginava ser muito feliz. A religião, no caso, o catolicismo foi o grande responsável por isso. Vivíamos sob a proteção de Nossa Senhora de Fátima, que nos protegia do nosso maior inimigo, o comunismo, que nem sequer conhecíamos.

Pensando sobre as mudanças em minha vida, mais uma vez a religião foi a grande responsável. Fui para o seminário na mais tenra idade e, um pouco mais crescido, veio o papa João XXIII e o Concílio Vaticano II. Depois veio Paulo VI. Aprendi então que a religião é muito mais presença no mundo do que espiritualidade. Presença humanizadora, para não desfigurar a criatura, criada à imagem do Criador. Por tudo que olhava, só via desfiguração. Mudanças na maneira de pensar e de ver o mundo foram tomando conta de mim. Passei a acreditar que a não desfiguração do humano passava muito mais por políticas públicas do que por orações, jejuns, confissões e similares.

Bem, mas vamos ao filme. Dois papas, um filme do grande cineasta brasileiro Fernando Meirelles, com roteiro escrito pelo biógrafo do papa, Anthony McCarten, é extraordinário. Leve, profundo e muito bem humorado. Os dois papas tem seus traços de personalidade revelados. E, acima de tudo, o filme é muito respeitoso e humano. Bento é alemão, um intelectual introspectivo, pouco dado ao debate e ao diálogo. Não gostava de ser contestado. Francisco é argentino, extrovertido, hábitos simples, de bem com a vida e extremamente popular.

A questão do papado é o tema central do filme. Como conduzir a Igreja em tempos de profunda crise. A missão foi confiada ao cardeal Ratzinger, um dos expoentes da igreja conservadora e autoritária. No filme chega a ser xingado de papa nazista. Ele não se dá bem na condução e a Igreja só vai perdendo fiéis e ele não vê culpa sua nisso. O cardeal Bergoglio o adverte sobre a questão, além de outras questões a mais, como os escandalosos abusos sexuais de pedofilia de padres que são ocultados, assim como relações de homosexualidade no Vaticano, além de questões financeiras. Na cabeça de Bento, ocultar seria preservar. E a idade avança.

Bergoglio também vê a idade avançando. Chega aos 75 anos e pensa em ir a Roma e solicitar para Bento a sua aposentadoria, assumindo apenas uma pequena paróquia em Buenos Aires. Ao mesmo tempo em que pensa ir ao Vaticano, Bento o chama para uma conversa. Essa se dará em Castel Gandolfo, o palácio de verão dos papas. Bento anuncia predisposição para a renúncia. Bergoglio reage. Isso não existe na Igreja. Bento lhe fala da renúncia de Celestino V. Sugere que Bergoglio o suceda.

Essa renúncia de Celestino V mereceu uma menção nada airosa por parte de Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, em que o papa renunciante não está nem no paraíso, nem no inferno. Por vacilar, nem Deus e nem o demônio o quiseram.  Mas, caso à parte, Bergoglio rejeita a indicação e aponta os motivos. É o momento em que o filme atinge o seu ponto máximo. Os dois papas fazem o acerto de contas com o seu passado. Bento fala de seus problemas, enquanto que Bergoglio rememora o seu passado e a sua ligação com a ditadura militar Argentina. Esse passado o atormenta. Em cena grandiosa, os dois se confessam e se absolvem mutuamente.

Além dos problemas à frente da Igreja, Bento vai envelhecendo e começa a fraquejar fisicamente. A cegueira o atinge em um de seus olhos. A renúncia passa a ser realidade. Bergoglio, que já tivera votos no conclave anterior, será o novo papa escolhido, inclusive, como uma indicação de Bento. Bergoglio se transforma em Francisco. Na abertura do filme aparece a imagem do jovem São Francisco recebendo de Deus a missão de reformar a sua igreja. E não era a igreja que Francisco frequentava. Era a reforma da própria Igreja como instituição. É a missão que aguarda Francisco.

Os dois papas ficam amigos e Bento dialoga constantemente com Francisco. Ele chega até a ser contagiado por alguns hábitos de vida de Francisco. Em cena memorável, os dois assistem juntos a partida decisiva entre Alemanha e Argentina, pela Copa do Mundo de 2018. E uma coisa notável. Bento se afasta completamente das decisões do Vaticano, agora confiadas a Francisco. A existência de dois papas não é uma ameaça à unidade da Igreja. 

Enfim, o filme é grandioso, misturando história e ficção. Ele atinge o humano em suas melhores partes e momentos. E o que dizer dos atores que dão vida aos personagens. Anthony Hopkins como Bento XVI e Jonathan Pryce, como Francisco. Uma produção da Netflix. Oscar à vista?

E uma última referência. Francisco é realmente uma bênção de Deus. Uma das únicas vozes, com poder de fala, numa época em que o mundo capitalista mergulha profundamente em trevas, que podem levá-lo à autodestruição. E que Francisco, assim como João XXIII e Paulo VI influenciaram um menino de outrora, que agora, Francisco inspire outros meninos a trilharem os seus passos.

O filme mereceu três indicações ao Oscar:
Melhor ator
Melhor ator coadjuvante
Melhor roteiro adaptado.

Não logrou nenhuma estatueta.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

À espera dos bárbaros. J. M. Coetzee. Nobel de Literatura - 2003.

Uma passada pelos Nobel de Literatura me fez encontrar com o sul-africano John Maxwell Coetzee, laureado com o prêmio no ano de 2003. O livro dele que mais mereceu a minha atenção foi o À espera dos bárbaros, uma publicação do ano de 1980. A primeira edição brasileira veio, certamente, na esteira do Nobel, no ano de 2006. A edição é da Companhia das Letras e a tradução é de José Rubens Siqueira. A edição que eu li é de 2018. Estava envolvido em leituras sobre o colonialismo. Uma intuição me fez crer que este seria o grande tema do livro. Eu estava certo.
A edição brasileira de À espera dos bárbaros.

A edição brasileira não tem apresentação, nem do escritor, nem do livro, a não ser as rápidas notas das orelhas do livro. Também não encontrei muitas referências em outras fontes. Sua leitura me causou um profundo mal-estar, certamente, pelos dias que estamos vivendo no Brasil de hoje, uma era de tributo à ignorância e de cultivo ao anti intelectualismo. Creio que o meu mal-estar já era anterior à leitura, apenas ele aprofundou situações que, ao menos para mim, são absolutamente visíveis e nada boas. Ignorância e arrogância sempre caminham juntas. No livro sobrou para o coronel Joll e a um subtenente. Isso me levou a pensar sobre a pretendida disseminação das disciplinadoras escolas militarizadas. 

Na contracapa temos uma transcrição que se refere ao fim da vida tranquila que o magistrado, ou  o administrador de uma distante colônia nos confins do império levava. Foram trinta anos de muita paz: "Eu não queria me envolver nisto. Sou um magistrado da roça, um funcionário responsável a serviço do Império, servindo meus dias nesta fronteira preguiçosa, esperando para me aposentar. Recolho o dízimo e os impostos, administro as terras comunais, cuido de que não falte nada para a guarnição, supervisiono os funcionários juniores, que são os únicos funcionários que temos aqui, fico de olho no comércio, presido o tribunal duas vezes por semana. De resto, vejo o sol nascer e se pôr, como e durmo, e estou contente. Quando morrer, espero merecer três linhas em letra miúda na gazeta imperial. Não pedi nada mais que uma vida tranquila em tempos tranquilos.

Mas no ano passado começaram a nos chegar da capital histórias de inquietação entre os bárbaros". A minha surpresa foi a de que essa passagem consta já das primeiras páginas do livro. Posso adiantar também que o "magistrado da roça" também cometia uns pecadinhos, aqueles que certamente você já está adivinhando. Elas foram prato cheio para os seus moralistas acusadores. Volto à apresentação, agora na orelha do livro:

"Num lugarejo da província ocidental de um império sem nome, um magistrado cumpre seus deveres cotidianos, à espera da aposentadoria próxima e do obituário em letra miúda na gazeta oficial. É um funcionário correto, exemplar sem ser fervoroso. Em nome de uma ordem que não lhe cabe questionar, recolhe impostos, dita sentenças e vez por outra afugenta os bárbaros maltrapilhos que habitam o deserto escaldante. Seus pensamentos mais íntimos e melancólicos ele sabe guardar para si, para as horas em que se dedica a escavar as ruínas vizinhas, cobertas pela areia.

Seus dias de modorra moral chegam a um fim abrupto pelas mãos de um certo coronel Joll, oficial da misteriosa Terceira Divisão da Guarda Civil (um corpo de guardas do Estado, devotos da verdade e doutores do"interrogatório", que vem da capital para investigar e reprimir, por todos os meios, um suposto movimento de sedição entre os bárbaros que vivem além das fronteiras imperiais. Os rumores a respeito são mais do que tênues, o que não impede o coronel de torturar prisioneiros e silenciar dissidentes - entre os quais o magistrado, que não soube tapar os ouvidos a tempo..

Partindo desses elementos mínimos, À espera dos bárbaros, livro de 1980, revela o radicalismo das preocupações éticas que fazem a força de toda a prosa do sul-africano J.M. Coetzee. Mas engana-se quem quiser ver aqui apenas uma alegoria da vida sob o apartheid. Os dilemas sul-africanos, que certamente estão na origem do romance, servem de veículo para uma profunda meditação sobre a natureza do poder, da censura, do compromisso e da moral em tempos difíceis. Ao narrar as tribulações do magistrado, Coetzee compôs uma fábula que reúne ecos da grande literatura modernista (Kafka, Buzzatti e o Kaváfis do poema "À espera dos bárbaros") e lança sua sombra sobre os impérios do presente".

Perfeito. O coronel Joll também é um perfeito retrato da força do termo "banalidade do mal", de Hannah Arendt. Ele executava burocraticamente, com a ausência total de qualquer sensibilidade, as mais horripilantes e inimagináveis torturas. E os guardas e até as crianças já participavam das "brincadeiras". Um subtenente era o seu discípulo imediato. E por falar em Hannah Arendt, também me lembrei de Adorno, em sua palestra de rádio "Educação após Auschwitz", quando pergunta quem poderiam ser as próximas vítimas dos holocaustos. Quem seriam os novos bárbaros? Os novos Aussländer, os novos habitantes para além das fronteiras. Ah sim! Ainda é preciso lembrar que nenhuma ideologia funciona se não criar um poderoso inimigo para combater.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Duas imagens do colonialismo. América e Escrava Anastácia. Retratos civilizatórios.

Ao longo de 2019, em minhas leituras e estudos, dois livros, em particular, me chamaram mais a atenção. Sobre o autoritarismo brasileiro, de Lília Moritz Schwarcz e Memórias da plantação - Episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba. Vendo a questão das outras linguagens, dois quadros, ou duas fotografias, estampadas nesses livros mereceram a minha atenção. No primeiro, América, de Theodor Galle, de 1580, uma gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York e no segundo, Retrato da "Escrava Anastácia".

O livro da Lilia,  Sobre o autoritarismo brasileiro, possui 8 capítulos, que são os fundamentos desse autoritarismo, a saber: 1. Escravidão e racismo; 2. Mandonismo; 3. Patrimonialismo; 4. Corrupção; 5. Desigualdade social; 6. Violência; 7. Raça e gênero e 8. Intolerância. A figura América aparece no sétimo capítulo. Vamos vê-la e depois ver a interpretação que a Lília lhe dá:
Theodor Galle, América, c. 1580, gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

"Uma das primeiras gravuras conhecidas da América, datada de cerca de 1580, também tratou de imaginar um "amistoso" encontro entre o Velho e o Novo Mundo. Nela, o europeu é representado como um homem branco que domina uma série de símbolos ligados à civilização: o astrolábio, as caravelas, o estandarte, os sapatos e os excessos de roupas. América, por sua vez, surge no corpo de uma mulher, praticamente nua e deitada numa rede, mostrando que o novo mundo andava preguiçoso e lânguido, apenas aguardando a chegada do Velho. As associações com a barbárie são igualmente óbvias: a falta de vestimentas a cobrir o corpo de América, os pés descalços, os animais exóticos a rodeá-la e sobretudo as cenas de canibalismo ao fundo. Mas há outro detalhe significativo: ela estende um dos braços na direção do conquistador, como se desejasse a "invasão" e o convidasse para essa". Páginas 188-9. Deixo ainda a resenha do belo livro da Lília.

O livro da Grada Kilomba, Memórias da plantação - episódios de racismo cotidiano, versa sobre duas categorias, em particular. As plantations, ou seja, o sistema de colonização fundado nos princípios do latifúndio, da monocultura, do trabalho escravizado e exportação, nada muito diferente do agronegócio do Brasil de hoje, e a escravidão. O livro analisa 28 cenas de "racismo cotidiano", na percepção de duas mulheres negras que vivem na Alemanha, Alícia, uma afro-alemã e Katlheen, uma afro-estadunidense. Grada, à luz da psicanálise, interpreta essas situações. Um livro fantástico e extremamente provocador, de pró vocare. Chamar para. Vamos à máscara.
Nas páginas 35-6 do livro há uma longa explicação: "Esta imagem vai de encontro à/ao espectadora/ espectador transmitindo os horrores sofridos pelas gerações de africanas/os escravizadas/os. Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma família portuguesa.  Após o retorno dessa família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana de açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condição de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido.

Anastácia foi o nome dado a ela durante a escravização. Segundo todos os relatos, ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara facial que a impedia de falar. As razões dadas para esse castigo variam: alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas de "outras/os escravizadas/os; outros dizem que ela havia resistido às investidas sexuais do "senhor" branco. Outra versão ainda transfere a culpa para o ciúme de uma sinhá que temia a beleza de Anastácia. Dizem também que ela possuía poderes de cura imensos e que chegou a realizar milagres. Após um longo período de sofrimento, ela morre de tétano causado pelo colar de ferro ao redor de seu pescoço.

O retrato de Anastácia foi feito por um francês de 27 anos chamado Jacques Arago, que se juntou a uma "expedição científica" pelo Brasil como desenhista, entre dezembro de 1817 e janeiro de 1818. Há outros desenhos de máscaras cobrindo o rosto inteiro de escravizadas/os, somente com dois furos para os olhos; estas eram usadas para prevenir o ato de comer terra, uma prática entre escravizadas/os africanas/os para cometer suicídio. Na segunda metade do século XX a figura de Anastácia começou a se tornar símbolo da brutalidade da escravidão e seu contínuo legado do racismo.  Ela se tornou uma figura política e religiosa importante em torno do mundo africano e afrodiaspórico, representando a resistência histórica desses povos. A primeira veneração de larga escala foi em 1967, quando o curador do Museu do Negro do Rio de Janeiro erigiu uma exposição para honrar o 80º aniversário da abolição da escravização no Brasil. Anastácia também é comumente vista como uma santa dos Pretos Velhos, diretamente relacionada ao Orixá Oxalá ou Obatalá - orixá da paz, da serenidade e da sabedoria - e objeto de devoção no Candomblé e na Umbanda (Handler e Hayes, 2009). (Páginas 35-6)

Vejamos a interpretação de Grada: "Quero falar da máscara do silenciamento. Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos. Ela era composta por pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito negro, instalado entre a língua e o maxilar e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanas/os escravizadas/os comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os ": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar? (Página 32). Quem pode falar? é o título do capítulo 2 do livro. Vejamos ainda a resenha do livro.

Mais interpretações ficam a seu cargo. Deixo ainda a capa dos dois livros.
Sobre o autoritarismo brasileiro.
Memórias da plantação - Episódios do racismo cotidiano.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano. Grada Kilomba.

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano, de Grada Kilomba foi o livro mais vendido na FLIP - 2019, pela livraria da Travessa, a livraria oficial do maior evento literário brasileiro. Foram 648 livros vendidos. O livro demorou dez anos para chegar ao Brasil. Originalmente escrito em inglês, ele foi lançado em Berlim, em 2008. No Brasil ele foi lançado pela Editora de Livros Cobogó. O livro é a sua tese de doutoramento pela Freie Universität Berlim, a Universidade criada por Berlim Ocidental, após a divisão da cidade nas suas duas partes.
O livo da Grada Kilomba, da editora Cobogó, R.J. - 2019.

Grada nasceu em Lisboa, com raízes em Angola, São Tomé e Príncipe. Em Lisboa estudou psicologia e psicanálise. Atualmente mora em Berlim, tendo sido professora no Departamento de Gênero da famosa Humboldt Universität, a histórica e laureada universidade de Berlim, que conta com 29 prêmios Nobel em seus quadros. Na orelha da contracapa lemos mais sobre Grada. "Na esteira de Frantz Fanon e bell hooks, a autora reflete sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo, e sua obra estende-se a performance, encenação, instalação e vídeo. Kilomba cria intencionalmente um espaço híbrido entre as linguagens acadêmica e artística, dando voz, corpo e imagem aos seus próprios textos". O seu espaço de apresentação é o mundo todo.

O título do livro Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano nos dá as primeiras pistas sobre os temas abordados. Talvez mais o subtítulo do que o próprio título, a não ser que mantenhamos o título no original inglês, plantations. A tradutora do livro, Jess Oliveira, em nota de rodapé, nos dá a definição de Plantation - "plantação em português, foi um sistema de exploração colonial utilizado entre os séculos XV e XIX, principalmente nas colônias europeias nas Américas, que consistia em quatro características principais: grandes latifúndios, monocultura, trabalho escravizado e exportação para a metrópole. Esse sistema criava ainda uma estrutura social de dominação centrada na figura do proprietário do latifúndio, o senhor, que controlava tudo e todas/os ao seu redor". Dá para perceber que não é muito diferente do agronegócio que hoje domina a agricultura brasileira.

Bem, agora já está claro, o tema do livro se compõe de duas categorias fundamentais: o colonialismo e o racismo, absolutamente indissociáveis. O subtítulo nos leva às cenas do racismo cotidiano. Cenas essas que tem origem num passado, que insiste em permanecer. São os depoimentos de duas mulheres negras, que vivem na Alemanha, Kathleen e Alícia, uma com ascendência estadunidense e outra, afro alemã. Elas foram as escolhidas, entre outras, pela riqueza de seus depoimentos. Grada faz a análise sob a luz da psicanálise. A tese mereceu, da exigente universidade alemã, um raro Summa cum Laude.

A edição brasileira ganhou uma carta de apresentação extremamente significativa. Grada conta um pouco de sua história e depois versa sobre as categorias básicas com as quais ela trabalhou no livro. Confesso que foi pela primeira vez que me deparei para refletir sobre a palavra sujeito na perspectiva de que, em nossa língua, ela não tem a forma feminina. Será que é uma alusão à impossibilidade de as mulheres se tornares sujeitos? Eita patriarcalismo. 

A introdução vale o livro. Ela tem, como frase em epígrafe o seguinte pequeno poema, pelo qual Grada mostra a sua preferência.

Por que escrevo?
Porque eu tenho de
Porque minha voz, em todos seus dialetos, 
tem sido calada por muito tempo.

Uma bela razão para escrever. No primeiro capítulo, A máscara, ela fala da "escrava Anastácia", de sua máscara, mais precisamente. A máscara a impedia de comer a cana de açúcar e os grãos de cacau, "mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?  Seria a máscara uma espécie de "Língua sem partido"?
A máscara da escrava Anastácia. A imposição do silêncio. 

Como não é tão extenso, tomo do próprio livro, de sua introdução, uma espécie de resenha: "O capítulo 1, A Máscara: colonialismo, Memória, Trauma e Descolonização,começa com a descrição de um instrumento colonial, a máscara, como um símbolo das políticas coloniais e de medidas brancas sádicas para silenciar a voz do sujeito negro durante a escravização: Por que a boca do sujeito negro deve ser amarrada? E o que o sujeito negro teria de ouvir? Esse capítulo aborda não apenas questões relacionadas à memória, ao trauma e à fala, mas também à construção da negritude como "Outra".

O capítulo 2, Quem pode falar?: Falando no Centro, Descolonizando o Conhecimento, discute questões similares no contexto acadêmico ou de erudição em geral: Quem pode falar? Quem pode produzir conhecimento? E o conhecimento de quem é reconhecido como tal? Neste capítulo, examino o colonialismo na academia e a descolonização do conhecimento. Em outras palavras, estou preocupada aqui com a autoridade racial e com a produção de conhecimento: O que acontece quando nós falamos no centro?

O capítulo 3,  Dizendo o indizível: Definindo o racismo.  Como se deveria falar sobre o que tem sido silenciado? Aqui, começo analisando o déficit teórico acerca do racismo e do racismo cotidiano e examino o que para mim é a metodologia adequada para falar sobre a realidade experienciada do racismo cotidiano de acordo com relatos de duas mulheres da Diáspora Africana: Alícia, uma mulher afro-alemã, e Kathleen, uma mulher afro-estadunidense que vive na Alemanha. Ambas narram suas experiências de racismo cotidiano a partir de suas biografias pessoais.

O capítulo 4, Racismo genderizado: "(...) Você gostaria de limpar nossa casa?" - Conectando raça e Gênero, é uma abordagem genderizada do racismo. Aqui, examino a interseção entre "raça" e gênero, bem como o fracasso do feminismo ocidental de se aproximar da realidade de mulheres negras no tocante ao racismo genderizado. Ademais, apresento os objetivos do feminismo negro.

Os capítulos seguintes constituem o verdadeiro centro deste trabalho. Aqui, as entrevistas com Alícia e Kathleen são analisadas em detalhes na forma de episódios e divididos nos seguintes capítulos: Capítulo 5: Políticas Espaciais; Capítulo 6: Políticas do Cabelo; Capítulo 7: Políticas Sexuais; Capítulo 8: Políticas da Pele; Capítulo 9: A palavra N (Neger) e o trauma; Capítulo 10: Segregação e contágio racial; Capítulo 12: Suicídio; Capítulo 13: Cura e Transformação. (Ao todo são examinadas 28 situações desse racismo cotidiano).

O livro conclui com o Capítulo 14, Descolonizando o Eu, no qual reviso e teorizo os tópicos mais importantes que vieram á tona neste livro, e também como possíveis estratégias de descolonização. Deixo as duas últimas frases: ... "Somos eu, somos sujeito, somos quem descreve, somos quem narra, somos autoras/es e autoridade da nossa própria realidade. Assim regresso ao início deste livro: torna-mo-nos sujeito.

Para terminar, mania de professor. Leitura obrigatória, como tarefa de humanização. Tem ainda seis páginas de referências bibliográficas sobre os temas abordados.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Histórias da gente brasileira. 4. República. Testemunhos (1951-2000). Mary del Priore.

História, memória ou lembranças? Ou tudo isso! Creio que sim. Esse é o belo quarto livro da coleção Histórias da gente brasileira. República. Testemunhos (1951-2000). Foi muito boa essa intuição da Mary del Priore, de contar a história recente desse nosso país através de testemunhas de historiadores, jornalistas, economistas, sociólogos e antropólogos, entre outros. As datas limítrofes dos anos de 1951 a 2000 nos mostram que foram anos de profundas mudanças, sob todos os aspectos da vida humana. Enquanto lia o livro, um filme/memória acompanhava a minha leitura, de um tempo, que com certeza, acompanhei de muito perto.
Completando a coleção: 4. República: 1951 - 2000.

Na orelha do livro lemos uma especie de síntese: "... O golpe que destituiu Jango foi mesmo um golpe? Ou, como preferem alguns, revolução? E como ficou o Brasil nas duas décadas de regime militar - ou ditadura? Os anos de chumbo foram mesmo tão pesados? Ou as condições econômicas favoráveis do período aplacaram o que, para muitos, era privação de liberdade e tortura?

O filme da vida é cheio de percalços, mas também de novidades e surpresas! Há embates com as sempre rígidas posições da Igreja: pílulas, não! Sexo é para procriação. As mulheres vão deixar passar essa chance de libertação? Para casar, tem de ser virgem? A família brasileira perde sua organização tradicional. O corpo 'pecado', aos poucos, começa a buscar os ventos da moda, a atender aos apelos do sol e do ar livre até virar corpo 'prazer'..."

Por essa pequena sínteses já dá para perceber a amplitude da obra. Ela é dividida em três grandes partes: I. Anos de chumbo e anos de ouro, seguidos de treze capítulos; II. Morar, comer, brincar, viver e sobreviver, com mais oito capítulos e III. O filme da vida: começo, meio e fim. Além disso tem prefácio, grandeza e pequenez da vida humana e conclusão, pontos de vista, pontos de vida. E ainda, preciosas referências bibliográficas. Tudo isso ao longo de 450 páginas, fartamente ilustradas.

A primeira parte cuida dos fatos políticos: Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"?; 2. O passado tão presente; 3. O vermelho e o medo; 4. A luta contra o mapa vermelho; 5. A revolução ou o golpe: duas faces da mesma moeda; 6. Marchas, orações e credos: "vermelho bom, só o batom; 7. Reações&resistência; 8. Repressão à "guerra suja"; 9. Os anos de chumbo e os anos de ouro; 10. Em transição...; 11.Diretas já; 12. A redemocratização; 13. A primeira crise "a gente não esquece". Em outras palavras, tudo o que se refere à modernização conservadora, ocorrida no Brasil nesse período.

A segunda parte foca nas grandes mudanças: na urbanização, na industrialização e nos hábitos. Vejamos os oito títulos: 1. Urbanização e seus novos atores: condomínios, apartamentos, favelas e shopping centers; 2. Paisagismo: verde que te quero verde; 3. Uma odisseia no espaço doméstico; 4. "Como, logo existo"... Mudanças nas panelas; 5. Em toda parte e em todo lugar (a televisão); 6. O apelo do sol e do ar livre; 7. Jovens, belos e saudáveis: do corpo "pecado" ao corpo "prazer" e 8. Os ventos da moda ou as modas ao ventos. 

A terceira parte enfoca a própria vida em suas diferentes fases e as modificações sofridas ao longo desse tão pouco tempo, sobre os costumes. Vejamos os seis títulos finais: 1. A guerra das pílulas; 2. Meu filho, meu tesouro; 3. De teenagers e "aborrecentes"; 4. Casamentos: começo, meio e fim...; 5. Nas margens: "mulé pelada", bichas, travestis, "pisteiras" e outros e 6. O fim do filme..., que obviamente trata da morte.

A conclusão é um tanto pessimista. Houve realmente uma metabolização dessas transformações todas, ou prevalece a frase de Millôr Fernandes, lembrada pela autora na conclusões: "O Brasil tem um enorme passado pela frente".E o que dizer, se estendêssemos a data de análise até o presente ano de 2019, passando pelo golpe jurídico, midiático e parlamentar de 2016. Quantos fantasmas do passado não retornaram com surpreendente vitalidade.  Deixo a frase final do livro: "Sem conhecer essa história, que me perdoem economistas, jornalistas e institutos de pesquisa que gostam de fazer previsões, o presente segue embaçado e o futuro será mera adivinhação".
O maravilhoso livro da Lilia Moritz Schwarcz, sobre as raízes de nossos problemas.

Esse passado pela frente, de que nos fala Millôr, é analisado no magnífico livro de Lilia Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo brasileiro, onde busca as raízes de nossos problemas, a saber: escravidão e racismo; mandonismo; patrimonialismo; corrupção; desigualdade social; violência; raça e gênero; intolerância.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Dois tipos de ladrão. Voltaire. Não permita ser assaltado.

Nunca imaginei viver uma situação igual a essa que estamos vivendo. O anti intelectualismo é algo explícito e a ignorância é tida como virtude e até condição para ocupar cargos públicos. Perigosamente caminhamos para um obscurantismo, para um fundamentalismo evangélico neo pentecostal, da teologia da prosperidade, em nossa política. O que parece ser piada bem humorada é uma triste realidade. Em tempos de crise, monstros emergem de todos os tipos de cavernas. Nesses tempos também aparecem textos interessantes, sejam eles verdadeiros, ou não. Se inventados, são muito bem inventados.
Voltaire (1694 - 1778) e dois tipos de ladrão.

Dessa forma, deparei, primeiro, com um áudio, que falava de dois tipos de ladrão. O texto declamado era atribuído a Voltaire (1694-1778), o grande pensador do iluminismo filosófico e político francês e que figura entre os heróis no Panteon em Paris. Depois vi inúmeros textos no Google, comentando e dissertando a respeito. Ao filósofo é atribuído uma descrição sobre a existência de dois tipos de ladrão. Eis a descrição:

"Na vida, existem dois tipos de ladrões:

1 - O ladrão comum. É aquele que rouba o seu dinheiro, sua carteira, relógio, telefone, etc.

2. O ladrão político. É aquele que rouba o seu futuro, seus sonhos, seu conhecimento, seu salário, sua educação, sua saúde, sua força, seu sorriso, etc".

Depois de estabelecer essa diferença nos alerta para uma grande diferenças entre esses dois tipos. Fazer essa distinção é extremamente importante para identificar qual deles é o mais nocivo e qual pode ser evitado. É fácil diferenciar. Vejamos o texto:

"Uma grande diferença entre estes dois tipos de ladrões, é que o ladrão comum escolhe-o para roubar os seus bens enquanto o ladrão político é você que o escolhe para ele o roubar.

E a outra grande diferença, não menos importante, é que o ladrão comum é procurado pela polícia enquanto o ladrão político é geralmente protegido por um comboio policial".

Procurei pela veracidade da frase. Encontrei até o ano em que Voltaire a teria dito, o ano de 1742, mas não encontrei a fonte, o livro e o contexto. Ela me pareceu um tanto moderna demais. Uma acentuada diferença de épocas, de hábitos, como o do telefone, por exemplo. Pelo que consta, este teria sido inventado apenas em 1876. Mas como dizem os italianos: Se non è vero, è ben trovato.

No dia 4 de dezembro de 2019, os deputados estaduais do Paraná, votaram uma reforma da previdência extremamente nociva aos servidores públicos do Estado do Paraná. Mais idade e maiores descontos. Trabalhar mais e receber menos. A sessão em que ela foi votada foi transferida da Assembléia Legislativa para um labiríntico espaço privado ou privatizado, com um efetivo policial de mais de 800 policiais, multiplicado por dois, com a dobra de turno, ou como diz o texto, "por um comboio policial".

Não sei dizer de qual desses dois tipos de ladrão é mais fácil se livrar, uma vez que, no segundo tipo, são os assaltados que escolhem os seus ladrões. E como os escolhem! Com quanto gosto! Com quanto ódio e fanatismo! E eles são mais perigosos do que os ladrões ocasionais que te roubam os pertences em alguma ou outra oportunidade. Já os outros te fazem estragos permanentes, para o resto da vida, perpassando por toda a velhice. Te roubam "futuro, sonhos, conhecimento, salário, educação, saúde, força e sorriso".

E uma última observação. Para não incorrer em erro na hora de votar, o critério de um voto de classe é uma opção com poucas probabilidades de erro. Eu mesmo, na qualidade de trabalhador, só voto em trabalhador, identificado com um partido ligado a trabalhadores. Por esse critério, nunca me senti assaltado por aqueles em quem votei. Confira nessa relação se você votou, ou não, no ladrão que acabou de te assaltar:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/12/quem-mexeu-na-sua-previdencia-no-estado.html















quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Quem mexeu na sua previdência no Estado do Paraná. Confira os votos.

Dia 4 de dezembro de 2019. Um dia triste e fatídico. Eu narro os fatos.

Em 29 de abril de 2016, o então governador e hoje réu, Beto Richa, fez uma reforma da previdência contra os servidores públicos do Estado do Paraná. Aumentou cobranças e diminuiu benefícios. Além disso, praticamente, transformou o fundo previdenciário em conta corrente para o pagamento das contas do Estado. Em outras palavras, destruiu o fundo previdenciário.
Com a ocupação da ALEP, a fatídica votação foi transferida para a labiríntica Ópera de Arame, hoje um espaço privado, ou privatizado.

Agora, com as reformas generalizadas e entre elas a reforma da previdência, o governador Rato Júnior também fez a reforma da previdência dos servidores públicos do Estado do Paraná, bem como a recapitalização do fundo, destruído pelo seu antecessor e comparsa de governo. A mão foi pesada. Sobrou para todo mundo, aliás, não foi para todo mundo. Alguns privilegiados sobraram. Injustiças profundas, carreiras destroçadas e velhices transformadas em sofrimentos.

A primeira votação era para ter acontecido no dia 3. Acuados, os servidores foram para o ataque. Tomaram as dependências da Assembleia Legislativa e a votação não ocorreu. O que fez o inominável presidente da casa. Transferiu a sede do Poder Legislativo para a labiríntica Ópera de Arame e montou uma operação de guerra com a polícia militar. Diga-se, esta mesma polícia ficou de fora das atrocidades dessa reforma.
Ficou mais difícil, mas resistiremos. "Amanhã há de ser um novo dia", apesar de vocês.

A votação não seria simples, por se tratar de uma emenda à Constituição estadual. Ela teria um trâmite legislativo cheio de ritos, com interstícios entre as sessões. Teria que ser amplamente discutida. Nada disso foi considerado e a votação foi efetuada às pressas. A votação foi de goleada, tal a dominação ou a subserviência dos deputados ao governador, ou do legislativo ao executivo. A base do governador até cresceu em relação à maioria que o réu Beto Richa tinha na casa. O resultado: 43X9. Vamos aos votos e aos partidos dos votantes:

Votaram SIM - pela reforma e contra os servidores:

Alexandre Amaro -  Repub.;
Alexandre Cury - PSB;
Artagão Júnior - PSB;
Cantora Mara Lima - PSC;
Cobra Repórter - PSD;
Coronel Lee - PSL;
Cristina Silvestre - PPS;
Delegado Fernando Martins - PSL;
Delegado Francischini - PSL;
Delegado Jacovós - PL;
Delegado Recalcatti - PSD;
Do Carmo - PSL;
Douglas Fabrício - PPS;
Dr. Batista - PMN;
Emerson Bacil - PSL;
Evandro Araújo - PSC;
Francisco Bührer - PSD;
Galo - Podemos;
Gilson de Souza - PSC;
Homero Marchese - Pros;
Hussein Bakri - PSD;
Jonas Guimarães - PSB
Luiz Carlos Martins - PP;
Luiz Cláudio Romanelli - PSB;
Luiz Fernando Guerra - PSL;
Mabel Canto - PSC;
Marcel Micheletto - PL;
Márcio Pacheco - PDT;
Maria Victória - PP;
Mauro Moraes - PSD;
Michelle Caputto - PSDB;
Nelson Justus - DEM;
Nelson Luersen - PDT;
Paulo Litro - PSDB;
Plauto Miró - DEM;
Reichenbach - PSC;
Ricardo Arruda - PSL;
Rodrigo Estacho - PV;
Soldado Adriano José - PV;
Subtetente Everton - PSL;
Tercílio Turini - PPS;
Tiago Amaral - PSB;
Tião Medeiros - PTB.

Votaram NÃO - contra a reforma e a favor dos servidores.

Anibelli Neto - MDB;
Arilson Chioratto - PT;
Boca Aberta Júnior - Pros;
Goura - PDT;
Luciana Rafagnin - PT;
Prof. Lemos - PT;
Requião Filho - MDB;
Soldado Fruet - Pros;
Tadeu Veneri - PT.

Ademar Traiano, do PSDB, não votou, por ser o comandante da farsa toda e Gilberto Ribeiro, do PP esteve ausente da votação.

Surpresas. Sim e não. Os votos mais estranhos são os dois votos dos deputados do PDT. O que não diria o Leonel Brizola! Outros, que estiveram conosco em outros momentos, optaram pela momentânea zona de conforto das benesses governamentais.

Os deputados da oposição entraram com recurso judicial pedindo a anulação da votação por questões de não cumprimento regimental. Creio que isso não traz esperanças, uma vez que, nunca como agora, os três poderes são um só.