quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Entre sem Bater - O Barão de Itararé.

"O que se leva dessa vida é a vida que a gente leva". Essa é apenas mais uma das frases bem humoradas de Fernando Apparício de Brinkerhoff Torelly, mais conhecido como O Barão de Itararé. Ele não nasceu barão, título que se auto-outorgou, em 1930, com direito a estudo genealógico e brasão nobiliárquico. O título que o enobreceu, lhe foi concedido por Getúlio Dor Neles Vargas e é uma alusão à maior batalha da América do Sul, que não houve, a batalha de Itararé.
A ficha do livro: FIGUEIREDO, Cláudio. Entre sem bater - A vida de Apparício Torelly - o Barão de Itararé. Rio de janeiro: Casa da Palavra. 2012. 479 páginas. 54,90 reais.
Só por este pequeno parágrafo dá para ter uma noção do espírito que orientou a vida deste que, possivelmente, inaugurou o humor, a ironia e a sátira na imprensa brasileira. Pela época vivida, foi uma bela maneira de enfrentar a própria vida.
Apparício Torelly ou Apporelly, como costumava assinar e, mais tarde, Barão de Itararé, nasceu na cidade de Rio Grande (ou teria sido no Uruguai?), no dia 29 de janeiro de 1895. O sobrenome do pai denuncia a sua origem italiana. Já a sua mãe tinha por parte do pai ascendência norte americana e da mãe receberia sangue índio uruguaio. De si próprio ele dizia: sou uma autêntica Liga das Nações.

O primeiro grande marco de sua vida foi o seu internamento no Colégio Nossa Senhora da Conceição de São Leopoldo, um colégio de elite, dirigido por padres jesuítas. Os seus professores eram padres alemães, suíços e austríacos. Rigor e disciplina eram as palavras de ordem nesse colégio. Já fora um aluno com destaque nestes seus primeiros anos de estudo. A formação sólida desses anos o acompanhou por toda a sua vida. Do rigor passou para a boemia de Porto Alegre. Cursou a Faculdade de Medicina, praticamente sem frequentar as aulas, mas obtendo sempre a aprovação nas disciplinas. Não chegou a se formar. Na medicina encontrou uma formação científica que também o acompanhou ao longo de toda a vida.

A sua marca maior, a do humor, da sátira e da ironia lhe veio junto com a política, com uma marca bem gaúcha. Os eternos entreveros da política rio grandense. Jamais abandonaria o lenço vermelho dos maragatos. Com os maragatos se iniciou na rebeldia. O positivismo de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros receberam as suas primeiras ironias. Desde os tempos de Porto Alegre, foi sempre um militante. Nos jornais de Porto Alegre encontrou seus primeiros locais de trabalho, passando também por Pelotas, Bagé e São Gabriel.

Por diversos motivos, o clima em Porto Alegre se tornou hostil e ele foi procurar outros destinos no Rio de Janeiro. A década de 20 fora praticamente consumida na capital gaúcha. Já as de 30 e 40 foram dedicadas ao Rio de Janeiro. Os gaúchos o acompanharam para o Rio, ao menos Getúlio Vargas, que foi o seu grande tormento neste período. O seu sucesso no Rio é quase imediato. Trabalha no jornal A Manhã e numa pequena troça com esse nome funda um jornal que será a sua grande marca A MANHA.

O seu envolvimento político no Rio de Janeiro se dá no partido comunista, junto com quase todos os intelectuais da época. O inimigo maior a combater eram os integralistas e a ditadura de Vargas, que começava a se desenhar. É muito interessante observar como os integralistas agiam em consonância com o que acontecia na Europa. O seu anti comunismo e anti semitismo era o mesmo de Mussolini e de Hitler. Os dissabores em função de sua opção política lhe vem junto com a Intentona Comunista e a dura repressão que se seguiu a este movimento. Vive um bom tempo na cadeia, junto com Graciliano Ramos, Agildo Barata e Apolônio de Carvalho, entre outros. Com a censura e a repressão é impossível continuar com a sua A MANHA. É desse período o mote usado no título desse livro: Entre sem bater. Esse entre sem bater não é um recado para os seus amigos, mas sim, um recado para a polírcia. Para evidenciar a subserviência dos jornais da época sempre usava no seu jornal a expressão o nosso querido diretor, que no caso, era ele próprio.

Nesses tempos em que a atividade jornalística se torna impossível de ser exercida, ele se ocupa com a ciência. Se dedica aos estudos da aftosa, procurando-lhe as causas e uma vacina para a sua prevenção. Nisso se envolve, inclusive, comercialmente. Foi um grande fracasso. O controle sobre a febre aftosa seria para mais adiante.

Uma das coisas que ele jamais abdicou foi da sua crença na fé comunista e na sua absoluta fidelidade ao partido e aos princípios da Terceira Internacional. Não o abalaram o absurdo acordo firmado entre alemães e soviéticos no início da segunda guerra, nem as denúncias de Krushev no XX Congresso do PCUS, em 1956, dos crimes praticados por Stalin e nem as atitudes dúbias do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes. Pelo contrário, as maiores alegrias desse período, lhe vem com as vitórias do Exército Vermelho sobre as forças nazistas. Os erros, considerava ele, eram apenas desvios de rota.

O seu envolvimento com os comunistas não é algo fortemente orgânico (método, organização, rigidez não combinam muito com humor e ironia) mas é o suficiente para lançar a candidatura de um barão à Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro. Foi o oitavo mais votado e o partidão fez a maior bancada, com 18 dos 50 vereadores, que compunha o seu total. De novo a sua atuação não foi muito orgânica. Algumas intervenções suas se tornaram clássicas como um aparte a um colega que lhe havia dito que o que Vossa Excelência fala entra por um ouvido e sai pelo outro, ao que ele prontamente reagiu: Impossível, excelência: o som não se propaga no vácuo.

Um outro episódio na sua passagem pela Câmara também se tornou famoso. Um solitário vereador da banda integralista discursava virulentamente contra o Partido Comunista, por este sustentar o princípio da luta de classes. A ele o Barão reagiu: Vossa Excelência permite um aparte? O Partido Comunista não tem culpa da luta de classes: apenas Karl Marx a descobriu. É tão ridículo acusar os comunistas pela luta de classes quanto acusar Galileu pelos movimentos da Terra em torno do Sol.

O livro ainda narra uma incursão do barão por terras paulistanas, com a criação de O Almanaque, ao mesmo tempo em que relança e procura dar regularidade ao seu A MANHA. Mas a década de cinquenta já não terá o mesmo brilho de suas três décadas em que fora simplesmente genial: as décadas de vinte, trinta e quarenta. Com os anos cinquenta, não porque faltasse o que ironizar, o barão entra em declínio, especialmente por razões pessoais. Nestes momentos sempre recorre ao mundo da ciência e já mais ao final, também ao esoterismo. Os seus últimos anos de vida lhe serão anos de convivência quase impossíveis devido às suas excentricidades, razão pela qual também é pouco perturbado pela ditadura militar.

Uma de suas últimas ações foi visitar a China, a convite daquele país. É o período em que está totalmente envolvido com a ciência. As cenas beiram a bizarrice. Mas, em sua volta, o Brasil recebe uma comissão chinesa para o estreitamento de relações entre os dois países, iniciadas por Jango, quando ainda vice presidente. O interessante é que nesse período ocorre o golpe dos militares e os chineses são presos como perigosos espiões e que vieram para assassinar Carlos Lacerda e os generais golpístas. Cada barbaridade!

Apparício Torelly, Apporelly ou então o Barão de Itararé, morreu no Rio de Janeiro em 27 de novembro de 1971, aos 76 anos de idade, dos quais, como ele costumava dizer, alguns deveriam ser descontados, como aqueles em que fora recolhido às prisões do Estado, aqueles em que fora sistematicamente reprovado nas provas de anatomia descritiva em Porto Alegre e, no mínimo, mais uns três, em que ficou correndo atrás de moças bonitas.
Uma foto do nosso querido diretor, o barão de Itararé.

Entre sem bater - a vida de Apparício Torelly - o Barão de Itararé é uma bela biografia. O biografado deu ao seu autor, o jornalista Cláudio Figueiredo, uma matéria prima de primeira qualidade para ser lapidada. Esse trabalho foi feitocom raro brilhantismo. Senti a falta de um capítulo, no entanto. Seria um sobre as influências que o Barão deixou para a posteridade no humor brasileiro, pois pelo que consta, ele marcou escola.



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Marighella - Mário Magalhães.

Marighella é para vocês. Assim o jornalista Mário Magalhães termina o seu livro Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo. A sua escrita consumiu nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses, sob forma de dedicação exclusiva. Ele chegou a frequentar a lista de livros mais vendidos. O livro em muito ajuda a estabelecer a verdade sobre este triste período da história brasileira.
O livro de Mário Magalhães, Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, pela Companhia das Letras.

Para mim, o ponto alto do livro é atingido na sua terceira parte, quando é focado o período da ditadura militar, especialmente os seus anos de chumbo de 1968 e 1969. Marighella morreu no dia 4 de novembro de 1969, numa tocaia, na alameda Casa Branca, em São Paulo. Por muito tempo os frades dominicanos levaram a culpa pela morte do maior guerrilheiro brasileiro.

Apesar de já existir muita literatura sobre o período, o livro preenche muitas lacunas e veio para ser profundamente esclarecedor. Creio que a parte sobre o envolvimento dos frades dominicanos com a guerrilha ponha um ponto final na questão. O livro de Frei Betto, Batismo de Sangue - Guerrilha e Morte de Carlos Marighella, em muito já contribuíra para tal. As versões da ditadura, corroboradas pela imprensa, culpando os frades, devem estar desmanteladas em definitivo.

O livro mostra o caráter golpista dos militares na derrubada do governo Jango e os motivos que os levaram a tal, mas se detem mais na análise de outros motivos, aqueles que levaram inúmeros jovens para a luta armada, para a guerrilha, como única alternativa à ditadura que já mostrara que veio para durar um longo tempo. Um dos focos do livro é atuação do PCB, partido do qual emanaram as lideranças mais antigas, obviamente, em rupturas provocadas dentro do Partidão.

Aliás, o comportamento deste, passa por análises espetaculares, bem como a atuação de seu líder, o cavaleiro da esperança, Luís Carlos Prestes. Mostra bem o que significa estar atrelado ao stalinismo e aos comandos da terceira internancional, sem autonomia e, acima de tudo, inteiramente imobilizado pelos acordos internacionais estabelecidos a partir da geopolítica internacional, da convivência pacífica. Isso provocou as rupturas no partidão e esses rebelados promoveram as mais diversas facções que acreditaram ser a luta armada a única alternativa para o enfrentamento com os militares.

Sob o lema de que o revolucionário deve fazer a revolução - ação em vez de teorização- e inspirados na revolução cubana e especialmente na do Vietnã, muitos jovens acreditaram poder derrotar também no Brasil, a burguesia e o imperialismo ianque. O Brasil, por sua extensão territorial seria uma nova China dentro da nova ordem mundial. Vinte e oito siglas diferentes surgiram para empreender a luta armada. Todas tinham vinculações internacionais, especialmente com Cuba e com a China. O velho partidão se mantinha fiel ao modelo soviético. As duas siglas mais fortes eram a ALN, Ação Libertadora Nacional, sob a liderança de Marighella e vinculada a Cuba e a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, comandada por Lamarca, com vinculações maiores com a China. Ao VPR se juntou o grupo mineiro COLINA, no qual militava Dilma Rousseff, e se formou o VAR-PALMARES. Os dois grupos disputavam a hegemonia no movimento de guerrilhas no Brasil.

O que tornou Marighella realmente famoso? Pelo que percebi ele não foi um grande teórico do pós revolução. A sua maior fama lhe veio com o livrinho Minimanual do guerrilheiro urbano, em que descreve especialmente as ações mais bem sucedidas do seu grupo guerrilheiro. Esse livrinho ganha o mundo, e serve de inspiração aos diferentes movimentos, mundo afora. A maior fama lhe veio com esse livrinho, um manual para a ação concrteta.
O símbolo da ALN, grupo guerrilheiro liderado por Marighella. A frase símbolo do grupo era "O dever de todo revolucionário é fazer a revolução".

O seu objetivo, no entanto, não era a guerrilha urbana, mas a guerrilha rural. Para ela é que o grupo estava se preparando. E havia um projeto bem detalhado para a sua efetivação. O manual para o guerrilheiro rural ficou apenas no projeto. Com a morte de Marighella, bem como a de líderes de outros grupos, a guerrilha arrefeceu e a ditadura se prolongou até 1985, inclusive, com tentativas de golpes dentro golpe, para prolongar ainda mais a sua sobrevivência.

Outro ponto alto do livro é o retrato traçado do terror praticado pelo Estado. O personagem mais bem caracterizado é o delegado Sérgio Paranhos Fleury, recrutado de dentro do esquadrão da morte, para liderar as ações de comando contra os revolucionários. Magalhães conta que ele só agia sob o efeito de drogas. Foi o grande comandante da torura brasileira. Também a ação da imprensa, em conluio com o golpe, não passa despercebida.

Quanto ao mais... a leitura do livro. Quero destacar ainda dois parágrafos do livro, onde é colocada a visão do Estado brasileiro, com relação a Marighella, após a sua redemocratização.

A comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (396 no total) dissecou o caso Marighella em 1996. O colegiado instituído pelo presidente Fernando Henrique Cardoso concluiu que o Dops, se quisesse, poderia ter rendido o guerrilheiro, sem liquidá-lo.

Na sessão de 5 de dezembro de 2011, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça apresentou um "pedido oficial de desculpas" à família de Marighella. "Em nome do Estado brasileiro", lamentou pelos "erros cometidos no passado", ao persegui-lo e matá-lo.

Mais vedades sobre Marighella, sobre a ALN e sobre outros grupos e especialmente sobre o terrorismo praticado pelo Estado brasileiro deverão vir a tona, especialmente, a parti de 15 de maio de 2014, quando a atual Comissão da Verdade, deverá divulgar o seu relatório.


domingo, 25 de novembro de 2012

Boleiro lê. Boleiro escreve.

Um dos meus novos hábitos, ao abrir meus e-mails é dar uma olhada nos títulos que a página do UOL apresenta. É impressionante a quantidade de futilidades que são apresentadas. Questão de interesse de leitores. O que fazer? Mas uma matéria me chamou especial atenção. Um boleiro dado a leituras. Como tenho especial intenção em ajudar no processo de angariar adeptos para a leitura, me detive na matéria.

A matéria tratava de um zagueiro do Flamengo, Renato Santos. O jogador é apresentado como alguém de fala pausada, de palavras bem posicionadas em suas entrevistas e que é avesso às baladas. Portanto, um estranho na cultura do futebol. São buscadas explicações. 

O jogador conta que o seu diferencial é o interesse pela leitura, na qual foi iniciado pela sua esposa, sua primeira namorada, e professora na educação infantil. Diz que hoje até cotas ele se impõe: dois livros por mês, mas que dificilmente cumpre essa cota. Normalmente chega a um e meio. Isso tudo é tão estranho ao mundo do futebol, a tal ponto que, afirma ele, não gosta nem de falar sobre o tema, com medo de ser considerado um chato pelos colegas e lamenta ser uma excessão. Mas arrisca até uma opinião sobre o significado da leitura em sua vida: Quanto mais escutamos, interpretamos melhor e temos uma resposta melhor para os casos. E com isso respeitamos mais o espaço e as opiniões. O seu livro do momento é O Monge e o Executivo.

Curiosando um pouco mais, encontro outro jogador leitor. E mais, este até escritor é. Trata-se de Paulo André, zagueiro do Corinthians, que teve, inclusive, uma passagem pelo Atlético Paranaense. A sua iniciação com e leitura e a passagem pela escrita se deu pela soma de dois fatores: uma contusão e uma namorada, estudante de psicologia. A essa altura desua vida ele estava em Paris. Em Paris ele se tornou além de futebolista, escritor, filósofo e artista plástico. As suas leituras são bem mais sofisticadas e destaca Gabriel Garcia Marques e José Ingenieros entre os seus autores preferidos. Perguntado se o seu filósofo preferido era Platão, de quem leu O Banquete, ele responde que não, que essa posição é ocupada pelo existencialista francês Jean Paul Sartre.

O jogador ainda conta que, a partir de suas leituras, passou para a escrita, primeiramente através de um blog e deste para o livro. Creio que o seu destaque começou com o lançamento de seu livro, O Jogo da minha vida - histórias e reflexões de um atleta. O livro tem apresentação de um outro atleta, que confesso, esse sim me causou surpresa, Ronaldo, o fenômeno. Não imaginava que ele também estivesse familiarizado com o mundo das letras.

Ah se mudasse a cultura no mundo do futebol! Imagina se a leitura vira moda como ocupação entre os atletas e se esses desses mais atenção aos livros do que aos seus penteados e


sábado, 24 de novembro de 2012

Diálogo com Paulo Freire. O Clube da Rúcula.

Já se passa mais de mês, da bela noite do lançamento do pequeno livrinho Diálogo com Paulo Freire. Quero hoje apresentá-lo. O que é esse Diálogo? No que ele consiste e qual é a sua finalidade? Vamos contextualizar. Farei  isso, a partir da apresentação que a direção do núcleo sindical de Umuarama, da APP-Sindicato, faz no próprio livrinho. Vejamos:
A capa do pequeno livro Diálogo com Paulo Freire.

Em 20 de junho de 1992, Umuarama - PR amanheceu em festa, recebia o educador Paulo Freire e alguns companheiros do "Clube da Rúcula", professores da Unicamp: Adriano Nogueira, Carlos Alberto Arguello e Eduardo Sebastiani, entre muitos convidados.

Entre esses convidados, para a composição da mesa de "provocadores", estava a professora Irma Lovato Ribeiro, professora da rede pública de ensino e o professor Manoel Jacó Garcia Gimenez, da Universidade Estadual de Maringá. O texto de apresentação continua:

Como o conteúdo tratado naquele dia continua atualíssimo e, sendo Paulo Freire uma figura imortal, a APP-Sindicato dos trabalhadores em Educação Pública do Paraná - Núcleo Sindical de Umuarama, em comemoração dos vinte anos da querida visita, decidiu socializar aquele encontro com a comunidade através deste material.

Como fui o presidente do núcleo àquela época e, por ter feito o trabalho de transcrição da fala, fui convidado para fazer parte da mesa - junto com a professora Irma Lovato Ribeiro - do lançamento do Diálogo. Foi uma noite maravilhosa. Tive intensas alegrias e a memória avivada com a presença de pessoas magníficas de uma bela época.

Antes de apresentar o Diálogo, quero destacar dois pensamentos da professora Irma, que dividiria comigo a mesa da apresentação e com quem trabalhei no início dos anos 80, na escola estadual professor Monteiro Lobato.

O primeiro é mais ou menos o seguinte: Vou provocar a turma para que leiam esse Diálogo. E lançou algumas das questões que cada "provocador" fez ao Paulo Freire, bem como algo das respostas do "provocado" ou "desafiado". É isso Irma! Em educação é impossível dar coisas prontas. Na pior das hipóteses, oe resultados serão questináveis. Provoque desafios e as respostas virão.

O segundo foi o de que, quem lê jamais sofrerá de solidão. Sempre terá companhias e, eu me permito acrescentar, as melhores companhias, as mais selecionadas e as mais referenciadas e com elas empreender  um mundo de aventuras. As melhores são, ao menos para mim, aquelas que mais profundamente expressam a angústia da condição humana.

Quanto ao livrinho, antes de mais nada quero apresentar uma questão de método. creio que já perceberam. Paulo Freire não faria uma palestra. Ele seria provocado. Dessas provocações sairiam os temas geradores em torno dos quais o mestre teceria considerações. Lembro bem o Paulo falando de que se sentia melhor, quando provocado.
 A mesa de provocadores e o provocado. Da esquerda para a direita. Adriano Nogueira, Carlos Alberto Arguello, Irma Lovato Ribeiro, Paulo Freire, Eduardo Sebastiani, Jacó Gimenez e eu, como apresentador.

Vou procurar fazer sínteses, levantar questões que provoquem a leitura. Vou apresentar mais a ideia em torno da qual as provocações foram feitas. A primeira ideia/provocação foi feita pela professora Irma. Mais ou menos o seguinte: Como, diante deste mundo se manter otimista e, ainda por cima manter com esse mesmo mundo uma relação prazerosa, de diálogo e de esperança? Na resposta vieram as questões da convicção que deve nortear o educador, da necessidade da briga histórica e crítica - não ingênua - na relação com esse mundo e da necessidade de, numa democracia você participar, militar e sempre dentro da diversidade. Consenso só é bom, na véspera de graves crises. Você necessita de referencial teórico que guie a tua prática.

Adriano, meu particular amigo e, creio que eterno presidente do clube da rúcula, aprofunda a questão da professora Irma sobre as mudanças, sobre as transformações. De sentir-se em mudança e de - dela fazer parte - no engendrar do novo. O provocado sente o desafio e capricha. É preciso apreender a razão de ser dos fatos e da vida e não meramente de maneira racional. Estamos envolvidos num processo de mudanças e simultaneamente sujeitos desses processos. Exemplifica de forma extremamente bem humorada com questões ligadas à sexualidade. Passa pela questão dos limites e da liberdade. Limites sempre existirão, mas quem se excede no direito de limitar, vira autoritário e o autoritarismo é o grande responsável por todo o caos. Fala do diálogo com a sua neta e mostra que nesse campo podem ser feitos os melhores testes sobre  o perceber-se como velho ou não. Se você é capaz de dialogar com o neto, você está bem. Se não, você é um velho, você é autoritário, mesmo que tenha apenas 20 anos de idade. É uma maravilha quando a tua prática educativa se torna como que a iluminação do tempo no teu mover-se entre contradições.

Arguello provoca sobre a indignação. Mais precisamente sobre o poder de transformação que a indignação tem e do proveito pedagógico que dela os educadores podem tirar. Mais uma vez o desafiado capricha. A história se faz com saberes, com decisões, com gosto, com amor, mas também com raiva. A raiva se transforma num dever. A indignação é isso. Depois passa a falar da porralouquice, um agir sem cientificidade. A minha cientificidade e o meu agir devem se relacionar. Me permitam uma pequena transcrição e a leiam sublinhada: Então, a minha cientificidade significa a minha forma de ser tão científica quanto possível de entender os mecanismos de poder da sociedade. A minha clareza política com relação ao meu sonho político, a minha lealdade ao sonho, ao povão com quem eu trabalho, e em favor de quem eu trabalho e não para quem eu trabalho. E, nunca, sobre quem eu trabalho.

A provocação do Sebastiani é linda. Ele foca na mudança como uma nova percepção de mundo. Se Descartes via sob a ótica do penso, logo existo, hoje isso poderia ser colocado como amo, logo existo. O foco hoje está muito além do mero pensar. Existe hoje uma nova postura ética, em que o próprio espaço da vida se amplia. Imbrica assim as questões de ética com a ecologia. Uma frase domina o cenário da resposta. Eu sou eu e esta árvore. E isso traz uma nova dimensão de vida e expande o conceito de ética. O que fere a vida é crime. Faz um belo jogo de palavras ao dizer que a denúncia precede o anúncio e de que não existe anúncio sem denúncia e nem denúncia sem anúncio. É uma nova postura de vida, essa nova visão de ética, interligada com a ecologia. Fala do abalo das certezas e das universalidades, falando de universalidades mas não da universalidade das universalidades (vejam bem, estamos em 1992). Este texto deveria compor os currículos que versam sobre ecologia. Passa ainda pela questão da história e da ética como processos e quem nega esse princípio, afirmando a sua imobilidade está comprometido com uma ética colonialista e dominadora. Aborda também as questões culturais enraizadas como processo de dominação, como o machismo, contra o qual, afirma que a sua própria luta é diária.

O professor Jacó levanta o tema da alfabetização, já que Paulo Freire e e Alfabetização são, praticamente sinônimos. A pergunta vai direta para a questão do dispositivo constitucional que prevê a erradicação do analfabetismo no Brasil (art. 60 das disposições transitórias). Se podemos ter expectativas positivas a respeito. A resposta vem seca. Não e aí vem as análises, começando pela constatação de que a educação brasileira, ao longo de sua história, sempre foi de qualidade excelente, quando ela era apenas para uma elite. Esse processo, no entanto, se inverteu quando essa escola se abre para as camadas populares. Se já tivemos uma escola de boa qualidade, por que não a podemos ter hoje? É uma questão política. Alfabetização é coisa séria e passa por uma rigorosa formação do professor e, dá dicas: As escolas têm professoras mal preparadas, [...] até diria que não é possível tratar da questão da alfabetização sem uma séria e rigorosa formação científica, política e pedagógica.[...] em termos de compreensão científica do que significou o trabalho de um cara chamado Piaget, o que significou o trabalho de um outro sujeito, que em certo sentido, para mim, fez até mais do que Piaget tinha proposto e que se chamou Vigotski. Tem que estar mais ou menos informado com relação ao trabalho de uma extraordinária mulher argentina, chamada Emília Ferrero. Tem que estar convivendo com o trabalho, para mim também extraordinário de uma mulher brasileira chamada Madalena Freire, que por coincidência é filha de um sujeito chamado Paulo Freire e, tem que conhecer Paulo Freire também. Saber o que eu fiz, o que eu propus e o que eu faço.

Fala ainda de culpas e de evasão e deixa uma conclamação ao sindicato no sentido da formação permanente do professor. O educador da escola pública brasileira não tem culpa, inclusive, da sua incompetência, mesmo quando ele não é competente. A culpa é do Estado. Outra coisa, que eu queria também propor ao sindicato é que exigindo a formação permanente ao Estado, não reduzir o sindicato de ter em suas mãos uma parcela dessa formação permanente do professor. A categoria precisa ter em mãos a sua própria formação e não entregar a sua formação ao Estado burocrático.

Posso assegurar a todos que a leitura do Diálogo com Paulo Freire vale muito a pena de ser lido. Foi algo inédito levar Paulo Freire para Umuarama há vinte anos atrás e eu senti que esse trabalho precisaria ser complementado agora, com a publicação dessa fala. Quanto a sua importância, digo apenas, que publicamos um texto inédito de Paulo Freire. Fazer o trabalho de transcrição não foi uma tarefa fácil. Me sinto absolutamente recompensado, pois estou muito feliz com o que fiz. O livrinho pode ser obtido na sede da APP-Sindicato e nas sedes de seus núcleos. Em tempo. Acabo de receber do Adriano o livro Ambiência - Diálogos freirianos e Formação Docente. Vamos à leitura. Depois eu comento.
O time do Núcleo Sindical da APP-Sindicato de Umuarama. Da esquerda para a direita: Sérgio Marson, Marilza Ap. Dias Ferreira, Aparecida Joana Sarmento, Irma Lovato Ribeiro e eu.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Luís Fernando Veríssimo. Seus livros favoritos.

Um dos meus grandes objetivos nesse momento da minha vida e contribuir para que as pessoas leiam. Sei o que significa a leitura na formação de uma pessoa. Não seu qual é a melhor forma para alcançar esse objetivo, mas sempre fui suscetível a indicações de leituras. Nesse sentido apresento os dez livros indicados por Luís Fernando Veríssimo, como sendo os seus preferidos. Creio que essa indicação aconteceu numa das feiras literárias de Paraty. São eles:

Tarzan dos Macacos - Edgar  Rice Bourroughs.
O Grande Gatsby - Francis Scott Fitzgerald.
O Tempo e o Vento - Érico Veríssimo.
Lolita - Vladimir Nobokov.
USA - John dos Passos.
O Encontro Marcado - Fernando Sabino.
Ulisses - James Joyce.
Put out More Flags - Evely Waugh.
Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald.
Fim de Caso - Graham Greene.

Nota-se uma preferência por Fitzgerald, que comparece com duas indicações. Romances densos que expõem o sofrimento humano. Muita psicanálise. Espetaculares. O pai também foi contemplado, mas na minha opinião, não por ser uma concessão ao pai, mas por mérito mesmo. Foi uma das maiores aventuras humanas que eu li em minha vida. Note-se que são os sete volumes. Com relação a Érico veríssimo ficou muito popularizado, a primeira parte , ou seja, O Continente, onde aparecem seus personagens mais populares.
Luiz Fernando Veríssimo, imortal.

Com Fernando Sabino eu tive uma agradável surpresa. Esse livro já possui 92 edições e não é uma indicação isolada de Veríssimo. Ele estaria na lista de muitos outros também. O livro é um verdadeiro monumento à formação humana. O Ulisses de Joyce, não é uma aventura fácil. Só me atrevi a lê-lo num grupo de leitura, junto com o professor Galindo. Lolita talvez seja a indicação de menor unanimidade entre os dez. Os outros nem sequer conheço. Procurei comprá-los e ler mas não são nem sequer fáceis de serem encontrados.
Uma indicação do Luís Fernando Veríssimo nunca será uma indicação qualquer. Andar por onde ele andou, sempre será uma boa. Poder dizer que se tem algo em comum, nem que seja a leitura de um livro, isso já é algo mais do que maravilhoso.


Presente e Futuro da Universidade. Um Debate

A primeiríssima tarefa desse texto é cumprimentar o professor Christian Schwartz pelo empolgante tema trazido a público, no sábado passado (17.11.2012) no G-Idéias, da Gazeta do Povo, sobre o Presente e futuro da universidade. O posicionamento em torno do tema, as duas entrevistas e a sua visão pessoal,  efetivamente contribuem com este debate tão necessário.

Uma retrospectiva histórica me veio a tona, primeiramente com uma leitura mais superficial e, depois, com uma bem mais atenta. É fascinante estudar a Universidade e ver as suas mudanças. Dominar horizontes e mantê-los sob controle, ou abri-los - sempre marcou as discussões sobre as suas funções. A perspectiva do imaginário, que também foi abordada, é a sua perspectiva mais humana, lhe é sempre mais subliminar. Ela não é explicitada. Mas está aí o seu sabor maior. Esta perspectiva, creio que está ausente inclusive na cabeça de muitos de seus atuais dirigentes, obcecados na busca de resultados práticos. A educação nem sempre alcança os resultados almejados e buscados. Pelo contrário, muitas vezes estes lhe são inteiramente opostos. Com o professor Ferrari, um dos entreveistados do professor Christian, lemos o belo livro de Elizabeth Badinter, O Infante de Parma - a educação de um príncipe iluminista (Jorge Zahar - 2010). Nele está relatado que, embora o príncipe tenha sido educado dentro dos princípios do iluminismo e com os melhores mestres de seu tempo, os resultados obtidos foram, exatamente opostos aos desejados. Uma verdadeira lição sobre as ambiguidades humanas, assim o Le Figaro Litteraire, apresenta o livro.

Me vieram a tona os estudos sobre as teorias educacionais e dentro delas a função do professor, do aluno e dos meios, ou das tecnologias, como diríamos hoje em dia. Sempre aprendi que as teorias educacionais podem ser agrupadas em três grandes grupos: A pedagogia tradicional, a pedagogia da Escola Nova ou Escola Ativa e a Pedagogia Tecnicista. Todas elas tem as suas variantes.

Na pedagogia tradicional, a escola e a educação está centrada no professor. O aluno será o depositário do conhecimento e o mestre o seu detentor. O livro didático é muito importante. Procurava se seguir o método das ciências. O alemão Herbart foi o seu grande idelaizador. Salas com o tablado num nível superior, tarefas de casa, introdução, revisão e provas são familiares a esta teoria. Uma pedagogia bancária, de depósitos e saques, no dizer de Paulo Freire.

Na Escola Nova, idealizada especialmente por John Dewey, ou escola ativa, a posição se inverte. A escola está centrada no aluno, que ativamente buscará o conhecimento, sendo facilitado nessa tarefa pelo professor. O livro didático será substituído por bibliotecas e laboratórios. Trabalhos de pesquisa em grupo e apresentação de seus resultados integram este modo de ver a educação. Fez um bem extraordinário, especialmente à educação americana, dominada por fundamentalismos.

Já a pedagogia tecnicista, secundariza tanto o professor, quanto o aluno. A escola está centrada em seus meios. Uma parafernália tecnológica ditará o futuro da escola e da educação. O treinamento e a avaliação quantificável serão as grandes atribuições dessa escola. É por isso que existe tanta obsessão por avaliação nos dias de hoje e avaliações objetivas. Pedagogia das competências. Isso está muito presente hoje.

Mas voltando ao professor Christian e às suas entrevistas. O simples fato de entrevistar um professor da Universidade de Cambridge já mostra a sua formação aprimorada e diferenciada. O universo de suas relações, e isso é essencial, está muito além das relações mais comuns. Isso também está evidenciado no posicionamento de abertura da matéria. Ensinar a pensar, ou treinar? preparar para a vida ou para o mercado? Aulas ou acompanhamentos tutoriais? Ensino útil ou para, diria eu, para as deliciosas inutilidades? A relação professor/aluno ou o autodidatismo. Além disso, as perguntas aos entrevistados, foram no melhor sentido do termo, verdadeiras provocações.Tudo isso mostra as qualidades do mestre.

Quanto ao primeiro entrevistado,Steffan Collini, confesso que me senti um tanto orgulhoso de mim mesmo nas suas respostas. Temos afinidades. Uma concepção de formação nos identifica. Logo no começo, quando fala do resultado esperado, que se deseja por parte da universidade, a palavra compreensão foi brilhantemente colocada. Compreensão do mundo natural e do mundo humano e, a compreensão vai além da mera informação. A compreensão forma um olhar, uma visão de mundo. O conhecimento é informação, preto no branco, falso ou verdadeiro. Compreensão é se apropriar do conhecimento, é formação. Etnociência, foi a palavra que me veio à memória, além da palavra politecnia, quando se fala mais da formação profissional.

Outra questão sensacional foi a abordagem do método. O professor deve ir além da informação. Deve despertar para a curiosidade e isso se faz por perguntas e não por respostas. Um professor que desperta a curiosidade, esse é o bom professor. Isso é socrático. Isso é a maiêutica. O parto das idéias. É trazer a tona o potencial que existe na pessoa. Diálogo e provocação complementam esta atitude pedagógica. Provocar (pro + vocare) significa chamar para - desafiar. E quando você desafia, as respostas vem. E isso exige preparo cuidadoso. Alargar a compreensão. Esta é a função do professor. E este professor vale mais do que mil computadores, concluiu o entrevistado.

Quanto a outra entrevista, sou absolutamente suspeito em falar. Com o professor Ferrari, tenho uma amizade e tive uma convivência que sempre foi muito provocadora. Dividimos turmas de alunos, selecionamos textos comuns  e os trabalhamos em conjunto. Muito do que li foram indicações suas. Brilhante a sua colocação sobre o imaginário. Mil anos de distância luz, a frente de muitos administradores escolares de hoje. O Ferrari nos arranca do chão das certezas que tanto nos imobilizam. Ouse! o sapere aude, kantiano.
Quanto as conclusões do professor Christian, ele se colocou inteiro nelas. A maravilhosa influência materna, a bela influência do mestre Faraco e a sua postura pessoal com relação a ajuda no superar as deficiências de formação de origem dos alunos universitários de hoje. Até a escolha do quadro de apresentação da matéria é espetacular e está de acordo com que o professor Collini falou sobre a finalidade da educação, qual seja, a de penetrar na compreensão do mundo natural e no mundo humano. O quadro é de Rafael, mostrando os filósofos gregos, destacando entre eles Platão e Aristóteles. A mão de Aristóteles está em posição horizontal e a de Platão está apontando para cima. Eu arriscaria aqui uma interpretação; Aristóteles aponta para os problemas práticos do mundo, enquanto que Platão apontaria para o imaginário. Para não me complicar, afirmo a indissociação entre essas duas perspectivas.

O Christian também levanta uma questão com a qual eu, particularmente, muitas vezes me defrontei. Eu me punha na cabeça do aluno a perguntar; O que esse cara aí na minha frente quer de mim?

Para terminar quero externar a riqueza e a validade de treze anos de convivência na Universidade Positivo. Lá cheguei já mais maduro, após um mestrado bem feito na PUC de São Paulo. Me firmei nos cursos de publicidade e jornalismo, com rápidas passagens em outros cursos. Tivemos experiências maravilhosas. O professor Christian não cita o coordenador que o contratou, mas aqui, num espaço mais restrito, eu sei que posso fazê-lo. O professor André Tezza, que recebeu a coordenação da professora Eveline Lacerda, fizeram um trabalho extraordinário. Conceberam uma universidade, ou ao menos o curso, para muito além do cotidiano. Procuraram, pelo espírito que nele imprimiram, preparar os alunos para além das questões estritamente profissionais para penetrar naquilo que nessa matéria do Christian, está evidenciado na palavra compreensão e também pela outra palavra - imaginário.

Três questões muito minhas para terminar. Torna-te quem tu és. Não quero discípulos, aprendi com Nietzsche. Não impor uma visão de mundo para ter seguidores. Isso seria uma tarefa de pregador e não de educador. Ouse saber! esse é outro princípio fundamental que perpassa toda a filosofia iluminista, com o seu objetivo de emancipação e autonomia e de alçar todos para o mundo da maoridade. O texto de kant sobre a ilustração sempre me serviu de guia. E por fim, mesmo não querendo discípulos, no sentido de proselitismo, eu tenho que ter convicções, eu tenho que ter uma visão de mundo e isso torna o meu trabalho coerente e faz com que eu fuja de um trabalho meramente burocratizado. Com Jean Claude Furquin aprendi: ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos.

Viver é estabelecer relações com os outros. Com toda a certeza posso afirmar que ao longo de minha vida estabeleci relações com outros, e que esses outros foram realamente pessoas muito interessantes. Me construí em meio a essas relações.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Novo Conflito Israel X Palestina.

Uma das minhas ex alunas, daquelas boas alunas, me manda um e-mail perguntando sobre o silêncio da mídia, sobre o novo conflito entre israelenses e palestinos. A pergunta talvez hoje não faça mais sentido, mas ela me mandou este e-mail no sábado. Acho que hoje, a crise tomou tal volume que não dá mais para silenciar. A crise começou no dia 14 de novembro. Mas concordo com a sua percepção de que a mídia procura silenciar, quando possível, a respeito de algumas questões, mesmo quando elas são de vital importância para a humanidade. Tenho algumas observações a respeito do novo conflito.

Em primeiro lugar estou falando em novo conflito. Desde a criação do Estado de Israel existem na região conflitos do gênero. Mesmo antes existiram ali conflitos de natureza semelhante. O último deles foi há quatro anos e nele morreram 1400 palestinos e 13 israelenses. Terminei de consultar os números sobre o atual conflito: 116 contra três. No conceituado blog do Sakamoto ele fala ser horrível fazer um placar, ou um rancking sobre mortos. Mas ele nos dá uma idéia da desproporcionalidade. Por isso, Sakamoto, não hesita em afirmar, que essas mortes constituem um verdadeiro crime de Estado. Quando ele apresentou os números, eram 30 por um. Agora já dá praticamente 40 por um. Há quatro anos foi bem pior.

Observei também as declarações do presidente Obama. Três até agora. A primeira foi no sentido de que Israel tem o legítimo direito de defesa. Independente do que aconteceu no dia 14, Obama já alegou o legítimo direito de defesa. A segunda declaração foi uma exortação pelo cessar fogo por parte dos dois lados e apenas num terceiro momento ele manda a secretária Hilary Clinton para participar nas negociações para o cessar fogo. Em campanha ele defendia a criação do Estado Palestino, com base nas fronteiras  existentes em 1967. Esse apoio incondicional do presidente dos Estados Unidos é que dá a força para as ações do governo de Israel. Elas são simplesmente legitimadas pela maior potência do mundo. E de maneira incondicional.

Enquanto isso o Irã de Mahmoud Ahmadinyjad, fala de crimes de guerra praticados por Israel e o presidente egípcio falava de agressões israelenses contra o povo palestino. Já Dilma Roussef oficiava a ONU, solicitando de Ban Ki - moon providências e mostrando a preocupação do Brasil com o uso desproporcional da força no conflito entre Israel e Palestina. O conflito, por enquanto, envolve o lançamento de foguetes palestinos contra o território israelense e a resposta do mesmo gênero por parte dos israelenses. Israel, porém, ameaça com a ocupação terrestre da faixa de Gaza, um estreito canto de terras entre o mar e o Egito, onde os palestinos vivem praticamente confinados. A outra área de palestinos é a Cisjordânia.

Neste momento as expectativas de um cessar fogo estão mais otimistas. Méritos para o presidente egípcio, Mohamed Mursi, posto como mediador. Mas nada muito animador, no sentido de uma paz mais definitiva. A questão real do conflito são questões de geopolítica e que envolvem poder e riqueza acima de tudo, provocando apetites por parte das maiores potências do mundo. Para nós simplesmente é dito que são conflitos étnico-raciais e religiosos. A questão é extremamente confusa para merecer apenas uma breve análise.

Roger Cohen, do The New York Times, perspicazmente introduz um elemento nem sempre perceptível no debate. As operações militares israelenses sempre ocorrem às vésperas de eleições. Assim teria acontecido com a Operação Vinhas da Ira, Operação Chumbo Derretido e com a atual Operação Pilar de Defesa. Cohen fala da radicalidade de políticos, citando especificamente Gilad Sharon, o filho de Ariel Sharon: Precisamos arrasar vizinhanças inteiras em Gaza. Arrasar a faixa inteira de Gaza. Os norte americanos não pararam com Hiroshima - os japoneses não se renderam com a rapidez desejada, por isso, eles atingiram Nagasaki também. Gaza deve ficar sem eletricidade, sem gasolina ou veículos que se movam, nada. Aí podemos exigir de fato um cessar fogo.

Dá para negociar? Pelo lado Palestino também existe uma questão muito séria. Quem os representa? São muitos grupos e que tem entre si profundas divergências. Não existe um comando unificado. Apesar das brutais diferenças entre as forças, os dois lados tem enormes capacidades de provocar dores e sofrimentos ao adversário e, enquanto não se desarmarem os espíritos, poderemos ter breves períodos de paz, que já devem ser festejados, mas não se vislumbra, ao menos para um futuro próximo, uma paz que efetivamente ponha termo ao conflito. Enquanto isso as dores e as angústias se multiplicarão por todos os lados. E os ódios também.


sábado, 17 de novembro de 2012

Menos, ministro! - Humanize.

Adoro ler biografias, especialmente aquelas grandonas. No momento estou lendo a de Carlos Marighela. Esta tem 732 páginas. Só de notas de rodapés explicativos e de referências bibliográficas tem 137 páginas. Imagina a riqueza da pesquisa feita. O que mais me fascina nas biografias são as contextualizações históricas feitas. No caso da de Marighella, você necessariamente passa por todos os governos brasileiros de 1930 até a ditadura militar e perpassa todos os caminhos da esquerda brasleira e especialmente os confusos caminhos trilhados pelo Partido Comunista Brasileiro, o famoso partidão. Se digo confusos é porque essa questão remete à política internacional, à Terceira Internacional, à Segunda Guerra Mundial, à política da Guerra Fria e à figura de Stálin. Além, evidentemente, dos dados mais específicos do biografado.

Vai aí a ficha do livro: MAGALHÃES, Mário. Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras. 2012 (56,50 reais).

Mas o que me leva a este texto é a afirmativa do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, de que preferiria morrer a ser preso numa penitenciária brasileira. A isso quero associar o capítulo oitavo e uma pitada do nono, do livro sobre Marighella em que ele está preso, primeiramente, na ilha de Fernando de Noronha e depois na Ilha Grande. Só para provar que não é necessário pensar como o ministro pensa. E, lembrando, é o ministro da justiça o último responsável pelo sistema penitenciário. É óbvio que ele herdou uma concepção e uma estrutura. E isso não se muda do dia para a noite. Tenho o ministro na qualidade de uma pessoa boa.

Quando estive em Fernando de Noronha, ouvi a famosa história do buraco da Rachel, um belo local em que a tal da Rachel, procurava agradar àqueles com os quais seu pai, o chefe do sistema penitenciário, havia se excedido no exercício de suas funções. Histórias à parte, o certo é que, por muito tempo, a paradisíaca  ilha teve como única função, a de receber presos.

Sabemos que no Brasil de Vargas houve a Intentona Comunista de 1935 (Natal, Recife e Praia Vermelha no Rio de Janeiro) e  o golpe integralista de Plínio Salgado em 1938. As duas tentativas golpistas tiveram os seus prisioneiros levados para Fernando de Noronha.

Conta Mário Magalhães, que o chefe do sistema penitenciário era o personagem de Érico Veríssimo de O Tempo e o Vento, o irmão de Rodrigo Cambará, não o Capitão Rodrigo, mas o Rodrigo já do final da históra, aquele que vai ao Rio de Janeiro servir ao governo Vargas. O irmão chama-se Toríbio, que participara da Coluna Prestes. Nestor Veríssimo era o seu nome. Pois será esse o chefe que celebrará acordos com os prisioneiros.

Pelo acordo, os presos se comprometiam a não fugir, o que era fácil de cumprir (360 quilômetros de Natal e 545 de Recife), em troca de certas liberdades. Apesar disso, conta que Gregório Bezerra chegou a construir a sua jangada. Comunistas e integralistas não se misturavam. Eram separados. Enquanto os integralistas buscavam soluções individuais, cada qual cuidando apenas do seu caso, os comunistas procuravam uma organização coletiva. Alguns dados disso me chamaram a atenção.

A organização coletiva e a autogestão os levou a mutirões e deles saíram, tanto uma quadra de vôlei, quanto um campo de futebol. Formaram-se grupos de leitura e um grupo de teatro, este comandado por Agildo Barata. O método capitalista de produção funcionou e a linha de produção ia da horta até o refeitório, passando pelo galinheiro e pela pesca. Os resultados apareceram. Em vez de um ovo mensal, ele passou a ser diário, o frango, de quinzenal passou a semanal e de vez em quando, para comemorar os bons resultados dos soviéticos e do Exército Vermelho, se banqueteavam, com lagostas no cardápio.

A ousadia máxima foi a criação de uma universidade. A Universidade Popular. Línguas, história e engenharia eram as grandes disciplinas. Realizava-se assim uma das máximas de Marx. De cada um de acordo com as suas possibilidades e para cada um de acordo com as suas necessidades. E assim todos se humanizavam.

Mas mesmo assim, não viviam um paraíso. Cerca de 50, de um total de quase 200, passaram a fazer corpo mole no trabalho, alegando doença. isso lhes gerava mais privilégios ainda. Para se recuperarem mais rapidamente, os alimentos mais nutritivos iam para eles.

Quando porém, o administrador propôs trabalhos remunerados, logo estavam curados, junto com os integralistas. Enquanto isso os comunistas recusavam qualquer trabalho nesse sentido, por se negarem a colaborar com o Estado Novo. Haja possibilidade de entendimento entre os seres humanos, mesmo entre aqueles que dizem professar as mesmas crenças!

Com as reviravoltas na guerra, Fernando de Noronha virou base americana e os presos foram transferidos para a Ilha Grande. Junto com eles veio também o administrador Nestor Veríssimo. Algumas coisas mudaram, como a questão de não mais andarem separados. Mas conta o biográfo que a coisa mais fácil era identificar a que grupos os presos pertenciam. Era barbada identificá-los. Veja nas próprias palavras do autor: enquanto os aliancistas mal cobriam o corpo com o calção e mantinham gorros e bonés enfiados na cabeça, os integralistas não dispensavam calçados, calças e camisas. retiravam solenemente os chapéus ao adentrar o recinto e, se tivessem gravatas, caprichariam no nó.  Uma questão que eu chamaria de enrigecimento.

Só de ler isso, eu me emociono. Eu já ouvi falar muito que, quando as cadeias começaram a existir, havia grande preocupação com a recupeção humana dos prisioneiros. O sistema se esforçava para isso. Eram tempos de escassez de força de trabalho. Hoje isso não existe mais. Seria por causa disso, toda essa desconsideração e abandono? Se não for isso, quais seriam as reais causas de tanta barbarização e desumanização?

Ministro, não há necessariamente a necessidade de se matar antes de ir para o sistema penitenciário, é possível humanizá-lo evitando, em primeiro lugar, tudo aquilo que leva à degradação do ser humano. Os depoimentos dos presos de Fernando Noronha, consideravam a estadia ali, como sendo até boa, junto com as boas notícias que os faziam acreditar que estavam no caminho certo. Ministro, não passe para os presos essa sua ideia pessimista. Está em suas mãos, ao seu alcance, oferecer a eles melhores perspectivas. Está ai relatado, apenas um exemplo do possível.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Diário de uma Viagem. Últimas Considerações.

Ao escrever essas considerações, quase toda a Europa está paralisada. As políticas de austeridade em favor do  dinheiro já não são mais suportadas pela população. E já vai tempo, sem horizontes promissores para o futuro. O que será o tempo novo para o velho continente? Sem utopias é impossível viver.
Embora começássemos a nosa viagem por Roma, o destino inicial seria a Grécia. Iniciamos pelo norte. Não deu para sentir muito a questão cultural, com a presença muçulmana e o cristianismo ortodoxo, pela rapidez em nossas visitas. O primeiro OH! da viagem aconteceu em Kalambaka, com suas meteoras. Os mosteiros nelas encravados são qualquer coisa fora do comum Tem muito a ver com estruturas de poder. Estruturas de poder também são o forte nas visitas a Delfos e Olímpia. O teatro de Epidauro é uma jóia rara entre tantas preciosidades oferecidas por esse maravilhoso país.
Mas a promessa maior mesmo, é Atenas. A acrópole, o antigo mercado e os locais construídos por Adriano são encantadores. Foi um sonho de vida que se concretizou. Conhecer os locais onde tudo começou, foi muito impactante. Andar por onde andaram os que por primeiro leram o mundo e dele deram uma interpretação, foi assim algo completamente inusitado. O não se curvar provocou o sentimento de igualdade e assim nasce a ideia da democracia.
O que começou na Grécia, se consolidou em Roma. Das diferentes visões de mundo, procurou se formar uma cultura dominante e, assim surge, a primeira doutrina que pretendeu ser universal. Antes disso, porém, a forma de viver em sociedade ganha aperfeiçoamentos das concepções gregas e se consolidam noções em torno de patriotismo e de República. Roma é sinônimo de civilização.
Andamos de sul a norte, da Sicília até a região dos Lagos. A grande lição que aprendi é a de que a Itália é, toda ela, maravilhosa. Nela não cabem comparações, pois suas belezas são ímpares e peculiares. A Itália é o país do mundo com mais monumentos integrados ao patrimônio cultural da humanidade. A mim me disse muito a cidade de Florença, mas o momento de mair emoção foi em Roma, no Campo dei Fiori, a frente de um dos gigantes da liberdade e do direito da livre e natural investigação sobre a verdade. Estava na frente do monumento em homenagem a Giordano Bruno.
Finalmente a Espanha. História e tradições estão vivamente presentes. Ali se vê poder e domínio já em outro momento da história, quando se consolidou uma nova ordem econômica no mundo, com os descobrimentos e a intensificação das atividades comerciais, que originaram o mundo moderno. O poder absoluto dos reis impressiona. A todos deveria ser concedido o direito de visitar o El Escorial. O tempo foi curto e a decisão de voltar já está tomada.
A nossa viagem durou 28 dias. Os noticiários estavam totalmente dominados pela crise econômica que afeta diretamente os países visitados. No dia em que estivemos em Madrid, houve em Barcelona, a maior manifestação separatista de sua história. A Grécia não está livre de uma guera civil. A Itália é um enorme gigante em convulsão. Os receituários contra a crise são conhecidos de todos nós. Proteger o dinheiro às custas dos direitos das pessoas é a regra geral. Onde acabará tudo isso! Os níveis de acumulação são absolutamente insuportáveis pela própria economia capitalista.
Esses dias vi uma nota de um conservador curitibano (existe isso?) afirmando que de Marx não devem ser aproveitadas nem sequer as vírgulas, mas ao contrário dele, encerro as minhas considerações com um pensamento seu. E é exatamente sobre o caráter moral da economia, esse pensamento. Ele é um tanto longo, mas vale a pena:

Quanto menos comas e bebas, quanto menos livros compres, quanto menos vás ao teatro, ao baile, à taverna, quanto menos penses, ames, teorizes, cantes, esgrimes, etc., tanto mais poupas, tanto maior se torna teu tesouro, que nem traças nem poeira devoram, teu capital. Quanto menos és, quanto menos exteriorizas tua vida, tanto mais tens, tanto maior é a tua vida alienada e tanto mais armazenas da tua essência alienada. Tudo o que o economista tira-te em vida e em humanidade, tudo isso ele te restitui em dinheiro e riqueza, e tudo o que não podes, pode-o o teu dinheiro. Ele pode comer, beber, ir ao teatro e ao baile; conhece a arte, a sabedoria, as raridades históricas, o poder político; pode viajar, pode fazer-te dono de tudo isto; é a verdadeira fortuna.
MARX, Karl. Manuscritos Econômico Filosóficos e outros textos escolhidos. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 1985. pág.18.

Moral da história. Com esta viagem fiquei afortunado culturalmente, mas perdi alguns reais, ou melhor, alguns euros. Fiquei mais pobre. Mas, incorrigível, irei repetir a dose no ano que vem. França, Espanha e Portugal estarão no roteiro e prometo um novo diário de viagem.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Comissão da Verdade. Audiência Pública em Curitiba.

Na segunda feira passada, dia 12 de novembro, compareci,  no teatro da reitoria da Universidade federal do Paraná, a uma audiência Pública da Comissão Nacional da Verdade. Me atrapalhei um pouco com os horários e cheguei praticamente já no final dos trabalhos. Cheguei a tempo, no entanto, de ouvir as considerações finais de um de seus membros, o Dr.Paulo Sérgio Pinheiro. Este homem tem, seguramente, uma das agendas mais solicitadas do Brasil e, no entanto, aqui esteve presente. O que faltou foi um público maior, devido a relevância do tema.

Embora tardiamente, O Brasil criou a sua Comissão da Verdade em maio de 2012 e ela começou também a funcionar, a partir dessa data. A sua finalidade é a de esclarecer -dizer a verdade- sobre os crimes praticados, em flagrante desrespeito aos direitos humanos, pelo regime militar, compreendendo o período de 1964 a 1985. Para não focar apenas nesse período da ditadura militar, ela retrocede no tempo, até 1946. Mas sem dúvida que o foco maior está nos crimes de Estado praticados pelo regime militar.

Da agenda do dia constavam depoimentos sobre casos paranaenses, como a Operação Marumbi, a Chácara do Alemão, Porecatu e o massacre de Medianeira. Desses fatos eu conhecia melhor o episódio de Medianeira, por ter lido o livro do Aluísio Palmar. Também consegui ouvir ainda alguns depoimentos, como os do Dr. Cláudio Ribeiro, da jornalista Tereza Urban e de um médico, do qual eu não sei o nome e do prof. Reginaldo Dias, que falou sobre as pesquisas que a UEM vem fazendo, envolvendo o tema.

Também ouvi a respeito o progrma Roda Viva, da TV Cultura apresentado no dia 08.10.2012, em que o entrevistado era exatamente o Dr. Paulo Ségio Pinheiro. Vou aqui apresentar algumas considerações que colhi a partir desses dois momentos.

Ao final do "Roda Viva", Paulo Sérgio Pinheiro foi apresentado como o guerrilheiro brasileiro pela defesa dos direitos humanos e ele aproveitou a deixa para contar a primeira experiência que teve com o tema. Foi em São Paulo, quando recém tinha voltado de seus estudos em Paris. Defendeu um grupo de uns 30 travestis em uma delegacia de polícia, em São Paulo. Em função disse recebeu uma reprimenda da mãe que lhe perguntou se foi por isso que ele tinha estudado e que ele nada tinha a ver com essa gente. Felizmente a reprimenda/queixa de sua mão não foi atendida. Paulo Sérgio Pinheiro é advogado da ONU e que participa da investigação sobre os crimes de Estado que hoje são praticados na Síria, além de integrante da Comissão da Verdade aqui no Brasil.

A demora em torno da instalação dessa Comissão aqui, encontra a sua justificativa na Lei da Anistia, que teria perdoado a todos os envolvidos, não importando o lado em que estavam. A lei da Anistia teria assim em sua origem a ideia de num pacto social, que passara uma borracha sobre todos os crimes de natureza política nesse período. Perguntado sobre isso o entrevistado deixou bem claras algumas questões.

Em primeiro lugar disse que efetivamente a Lei da Anistia tem que ser respeitada. Mas ela não limita a investigação, ela apenas não pode estabelecer punições. Afirmou ainda que ela, embora tenha trazido muitos benefícios, não pode ser vista como resultado de um pacto social, mas sim, como uma auto-anistia e que é assim que a Câmara Interamerica de Justiça a vê. A finalidade da Comissão está então muito clara no seu objetivo de estabelecer a verdade sobre uma série de fatos ocorridos ao longo do regime militar e que não se encontram ainda esclarecidos. A principal questão não esclarecida é a do desapareimento de cerca de  200 pessoas.

Perguntado se está otimista com relação aos trabalhos, respondeu que sim. A pergunta tinha como objetivo as notícias sobre a destruição de documentos, especialmente a destruição de todos os arquivos militares do período. Disse não acreditar nisso e que estão tendo muita colaboração por parte do Governo e que nenhum ministro, por lei, pode se recusar a prestar esclarecimentos. Como o Ministério da Defesa é o mais envolvido, é com ele que as relações são maiores.

No encerramento de sua fala aqui, frisou muito a questão de que a verdadeira revelação da verdade implica em revelar os autores das violações, as circunstâncias em que elas ocorreram e desvendar todas as conexões de comando, desde quem deu a ordem, até quem a executou. Também os grandes financiadores, aqueles que ajudaram a pagar as horas extras dos torturadores -frisou bem- tudo isso será desvendado, bem como as suas conexões internacionais. Os nomes serão todos revelados.

Considerou ainda positivo o fato de poderem retroceder até 1946, para a busca de causas que engendraram muitos dos problemas que inclusive persistem até hoje, especialmente aqueles ligados ao campo.

Foi muito firme na resposta sobre uma pergunta sobre o fato de os militares ainda se vangloriarem do golpe, dizendo que, de fato isso ainda ocorre, tanto assim que torturados tem monumentos em praças públicas, mas que é fundamental que se pratique toda uma democracia dentro do Ministério da Defesa.

Ainda se manifestou positivamente surpreso com as universidades brasileiras com os seus estudos que envolvem esse obscuro período da história brasileira.

Se manifestou otimista também com relação a possibilidade de a Comissão fazer muitas recomendações e entre essas está a questão da estrutura repressiva que continua até hoje, com o desrespeito a cidadãos brasileiros comuns e com relação a esses, não em regime de exceção, como foi com relação aos presos políticos desses período.

A comissão tem hoje em torno de 80 pessoas trabalhando. Já foram criadas sete comissões estaduais, inclusive foi noticiado ao final do evento, a aprovação pela Assemblèia Legislativa da Comissão da verdade aqui do Estado do Paraná. O prazo para a Comissão Nacional apresentar a verdade do seu relatório é o dia 14 de maio de 2014. Creio que no dia 15 o Brasil terá realmente um substantivo retrato de sua verdade e que isso possa efetivamente contribuir para que Ditadura e Tortura - Nunca Mais.

Segue o Link para acessar o Programa "Roda Viva".


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Diário de uma Viagem. Toledo e El Escorial.

Toledo praticamente já foi uma das capitais do mundo, e uma de suas cidades mais cosmopolitas. Lá conviveramm as culturas cristã, muçulmana e judaica. A sua história gira em torno de romanos, visigodos, mouros e depois a dominação cristã. Sua glória começou, quando Afonso VI a declarou capital do reino de Castela. A sua catedral, a catedral primaz começou a ser construída em 1226 e é uma das mais ricamente ornadas do mundo. Começamos a nossa visita parando num mirante. Uma bela visão do que foi uma cidade medieval.
Uma vista ampla de Toledo, a partir de um mirante. O destaque todo é para a sua catedral.

Marcando os horários e os locais para a saída, chegamos a uma fábrica de jóias damasquinadas e de espadas. Vimos o pessoal trabalhando. Ofício que ainda hoje passa de pai para filho. O processo da fabricação das jóias consiste em inscrutar nelas fios de ouro. Quanto às espadas, a sua fabricação é tradicional. Desde tempos imemoriais Toledo se destacou na produção de aços de qualidade. Jóias damasquinadas e espadas são os souvenirs imperdíveis de Toledo.
Um artesão e a produção das jóias damasquinadas.

Essa parte da visita foi um tanto comercial, mas nem por isso deixou de ser interessante. Andamos por Toledo como é recomendado a todos, a pé. Tudo é bonito na cidade, pois tudo é história. O ponto alto é, sem dúvida, a sua catedral, a Catedral Primaz, mas só a vimos em sua parte externa. Coisas de excursão, de estar em turma. Junto da catedral existe também o palácio do bispo, outro ponto de referência. Toledo continua como sede do bispado primaz da Espanha. Um respeito à tradição. Toledo não fica muito distante de Madrid. Uns oitenta quilômetros.
Uma vista da catedral a partir de um ponto bem selecionado.

A localização da cidade atendia especificamente aos critérios da segurança. Éla é cercada pelo rio Tejo (Sim, o mesmo rio de Lisboa), por três de seus lados e fica no alto de uma colina, bem forticada pelas suas muralhas. É um dos melhores retratos que se pode ter do que era uma cidade medieval.
Esta foto dá mais ou menos a idéia da fortaleza que era a cidade de Toledo.

A sua decadência começou em 1561, quando o todo poderoso Felipe II transferiu a capital para Madrid. Entre os seus moradores mais ilustres figura o pintor El greco e, por 2,50 euros, você pode ver um de seus quadros mais famosos: O Enterro do Conde de Orgaz.
O local onde está a célebre pintura de El Greco.

A cidade hoje possui em torno de 80.000 habitantes. Almoçamos devidamente, ainda na cidade e voltamos para Madrid, onde deixamos o pessoal que não iria ao El Escorial. Partimos para o outro lado da cidade onde fica este palácio/mosteiro. O nome dele por inteiro é: Palàcio de San Lorenzo de El Escorial, uma visita absolutamente imperdível. No local funciona hoje uma escola, uma universidade e um mosteiro e trabalham neste local mais de cinco mil pessoas.
O Palácio/mosteiro de El Escorial.

O palácio foi construído por Felipe II para comemorar a vitória que ele obteve sobre o rei Henrique III, da França, no dia 10 de agosto de 1557, no dia de São Lourenço, santo da igreja católica, que morreu, literalmente grelhado, neste dia, em Roma, no ano de 258. O palácio é, portanto uma homenagem ao santo, de quem Felipe II se tornou um ardoroso devoto. O palácio é marcado pela sua austeridade. Os aposentos reais cercam o altar pelos fundos. O rei sofria da gota mas não queria perder as cerimônias religiosas. As assistia de sua cama.
Outra vista do palácio El Escorial.

A devoção por parte de Felipe II, para São Lourenço era tanta,que dizem que o palácio foi construído sob o formato de uma grelha. Na verdade o rei quis reproduzir o templo de Salomão, de jerusalém.  Creio que do ponto de vista histórico, o mais importante do El Escorial é o Panteon dos reis. Ele se localiza bem debaixo do altar da catedral e ali estão os restos mortais de 26 reis e rainhas, das dinastias dos Bourbons e dos Habsburgos. Ao lado existe ainda o Panteon dos infantes, com 36 nichos.
No caminho para o EL Escorial e já bastante próximo, se vê a partir da estrada uma enorme cruz. Trata-se do Vale de los Caídos. Ali existe uma Basílica - Abadia de Santa Cruz do Vale dos Caídos, mandada construir pelo ditador Franco, entre 1940 e 1958, para enterrar os combatentes "nacionalistas" da guerra civil espanhola. estão ali enterrados 33.872 corpos, mais o do próprio ditador, embora não fosse uma vítima dessa guerra civil.
O guia nos contou que a pretensão de Franco era ser enterrado, mesmo sem nunca ter sido rei, no Panteon Real. Não paramos nesse local, nem para fotografia. O local é visto hoje como um cemitério, onde manifestações de caráter ideológico estão proibidas.
Uma última vista do EL Escorial.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Diário de uma viagem. Madrid.

Era para ser apenas uma escala. Então por que não aproveitar e ficar um pouco. Foi uma grande idéia. Basicamente fizemos três coisas na Espanha. Uma incursão por Madrid, um tour para Toledo e uma visita para EL Escorial. Tudo fabuloso. Hoje vamos falar de Madrid.
Chegamos no aeroporto de Barajas por volta das 15:00 horas. Quem não se perde nesse aeroporto não corre o risco de se perder depois pela cidade. É preciso muita atenção. Mais uma vez o serviço de transfer da Europamundo foi perfeito. Fomos ao hotel, localizado a menos de dez euros de táxi das maiores atrações turísticas da cidade e com ponto de õnibus que tem o seu destino final na Plaza Mayor. Melhor impossível.
Para essa tarde sobraria apenas um reconhecimento do terreno nos arredores do hotel. Já deu para perceber um pouco algumas diferenças culturais. Não fomos longe. Perto havia uma bela praça, um rio canalizado, um complexo de túneis e nas proximidades, um campo de futebol. Depois passamos por aí várias vezes. O rio era o Manzanares, o Estádio, o Vicente Calderón, do Atlético de Madrid e o local é um dos pontos mais  importantes do trânsito, onde começam as ruas subterrâneas.
Não tinha preparado tão bem essa estadia em Madrid, como o havia feito com Roma e Atenas. Mas sabia que o grande local de Madrid era a Plaza Mayor. Foi para lá que seguimos de manhã, já bem cedo. A programação do dia constava apenas de um city tour no final da tarde.
A Plaza mayor, o grande centro de referência em Madrid.

A Plaza Mayor foi idealizada por Felipe III e a sua construção foi iniciada em 1617 e terminada em apenas dois anos. Ali foi feito de tudo. Desde a canonização de Santo Izidro, a grandes touradas e julgamentos e execuções feitos pela santa inquisição.  A praça hoje é tomada por exposições, feirinhas, por restaurantes e mesmo por habitações comuns.
Da Praça Mayor andamos meio a esmo, e isso não é problema. Isso é comum em quase todas as capitais européias, elas terem os seus centros históricos realtivamente pequenos e aí você não precisa andar muito, que as coisas aparecem. Sem esforço nenhum, estávamos em frente ao Palácio Real e a Catedral de la Almudena.
O Palácio Real de Madrid, um palácio dos Bourbons.

 Este Palácio foi construído a partir de 1734, por Felipe V. Foi a residência da realeza espanhola até 1931. O seu período de maior esplender ocorreu com os reis Carlos III e Carlos IV, os responsáveis pelas obras e pinturas mais famosas. Carlos IV simplesmente é retratado por Goya. Hoje ele é usado apenas para a realização de cerimônias oficiais e encontros diplomáticos. O visitamos mesmo sem guia turístico. Este foi, seguramente, um dos locais mais luxuosos que visitei ao longo de toda a minha vida. Como tínhamos que aguradar para a sua abertura, visitamos antes os seus jardins. Outra beleza incomparável.

Os jardins do Palácio Real em Madrid.

Junto ao Palácio está outro monumento notável, a catedral de la Almudena, que foi construída como um complemento do Palácio. Voltamos para a Plaza Mayor, onde almoçamos. Dessa vez teria que ser a famosa paella, senão não seria Madrid.
No city tour deu para ter bem uma noção da concepção urbanística de Madrid. Muitas ruas são subterrâneas o que permite a construção de bosques em cima. A arborização e os parques permitem que se aguente os mais de 40 graus de calor de seu verão. Passamos pelas principais atrações da cidade, como os museus do Prado e da Reina Sofia, pela Gran Via, pela Plaza de Toros de las Ventas, além dos locais que já tínhamos visitado pela manhã. Também passamos pela estação de metrô Atocha, tristemente famosa pelo atentado terrorista.
Palza de Toros. A paixão espanhola pelas touradas se realiza nesse lugar.

O tour nos largou na Plaza Mayor e fizemos mais uma incursão pela cidade, dessa vez para o outro lado,onde facilmente chegamos a Puerta del Sol, a praça mais antiga da cidade, onde ficava a porta leste. Esta praça também testemunhou importantes eventos históricos desse país.
O urso tenta alcançar os frutos de um medronheiro. Estátua em bronze na Puerta del Sol.

 Nesta praça encontra-se um dos maiores símbolos da cidade e que consta em seu escudo. O famoso urso que tenta comer os frutos de um medronheiro. O medronheiro é um arbusto da região mediterrânea e é muito usado ornamentalmente, por sua flor branca e do seu fruto, são extraídos famosos licores. A Puerta del Sol é também um dos maiores pontos de confluência da cidade. A estatueta do urso é também um dos souvenirs mais encontrados na cidade. Mas o campeão absoluto entre os souvenirs é o Dom Quixote e o fiel escudeiro Sancho Pança. Também não é por menos. Na volta já li uma biografia muito louca de Cervantes, de autoria de Fernando Arrabal. Outro dia eu comento.
O interior da catedral de la Almudena.

Também já tomei uma decisão. No ano que vem, de volta para a Espanha! Goya, Velásquez, Picasso merecem uma consideração maior. Também 700 anos de presença árabe precisam ser melhor vistos. Também é preciso conhecer melhor a sua história recente, especialmente a guerra civil e as atrocidades cometidas pelo ditador Franco que, ao que me parece, quis ser um novo Felipe II. Amanhã eu termino, com a visita a Toledo e ao El Escorial, já que falamos de Felipe II.

Com famosas, mas sem problemas!

Há uns três anos atrás tive um encontro com a Brigitte Bardot. Sim! Foi em Búzios. Até dei um beijo nela. Não tive problemas. Nem mesmo por parte do Serge Gainsbourg. Para quem duvida, eu provo!
Com a famosa atriz Brigitte Bardot.

Agora em agosto eu fui mais ousado. Parti para a Itália. Confesso que a finalidade da viagem foi para estreitar relações. Apesar de já ter visto sereias eslavas a caminho da Grécia e procurar por elas na sua moradia nos arredores da ilha de Capri, só não resisti quando cheguei em Verona. Aí sim! Diante da ninfeta mais famosa do mundo eu não resisti. Pus até a mão no seio dela. Também provo. Vejam.
Com a famosa Julieta, com ousadia.

A minha viagem foi um sucesso. Muitas relações foram estreitadas. Só que não repercutiu. Nem mesmo as clássicas piadanhas nas redes sociais aconteceram!

P.S. Eu amo a minha família!



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Guerra da Secessão não acabou. Apontamentos em torno da eleição de Obama.


Fiz algumas observações em torno da eleição presidencial dos Estados Unidos. Como já mencionei anteriormente fiquei na torcida por Obama. Não deu outra. Mas vamos às observações.

A primeira: A)Votação por grupos:

Vitórias de Obama:
Entre os negros:                        93%  contra 07%.
Entre os latinos:                        71%   contra 27%.
Entre os asiáticos:                     73%  contra  26%.
Entre as mulheres:                     55%  contra  44%.
Entre os jovens: até 29 anos:     60%  contra  37%.

Vitórias de Romney:
Entre os brancos:                       59%  contra  39%.
Entre os homens                        52%   contra  45%
Mais de 65 anos                        56%   contra  44%.

B) Votação por Estados: Traça-se praticamente a geografia da Guerra da Secessão. Na costa leste, na sua parte norte até a região dos lagos a vitória é de Obama, que também vence em toda a costa oeste. Romney e os republicanos vencem no sul e praticamente em todo o meio oeste. Na primeira proclamação de resultados, Obama já saía vitorioso, com a conquista de 303 delegados contra 206 de Romney. Para ser eleito são necessários 270 votos de delegados. Aos 303 votos já obtidos por Obama, precisam ser somados os 29 votos da Flórida, onde ele venceu por vantagem mínima. Portanto, ao final Obama obteve o voto de 332 delegados. O Mississipi e o Alabama continuam sendo os mesmos.
Uma única observação. Em As Correções - Jonathan Franzen - estabelece um diálogo do velho Alfred, com um cagalhão que o atormenta. Depois de o cagalhão afirmar que todos os americanos deveriam ir para a cadeia ele arremata: "O engraçado, Fred, é que as únicas pessoas que não precisam ser mandadas para a cadeia são os homens do norte da Europa e da classe média alta. E você ainda reclama por eu querer as coisas do meu jeito". Deixo para a sua livre interpretação e associação.

A segunda: Volto a citar Paul Krugman. Mais especificamente, o que ele escreveu um pouco antes das eleições:
Se o Obama for reeleito, ele irá expandir a cobertura de seu sistema de saúde, aumentar os impostos sobre os ricos e intensificar a regulamentação sobre as atividades de Wall Street. Mas, se, em vez disso, Mitt Romney vencer, ele irá encolher substancialmente a cobertura do sistema de saúde, diminuir os impostos sobre os ricos, a níveis jamais vistos nos últimos 80 anos, e relaxar a regulamentação financeira.
Por essa afirmação percebe-se que a eleição era disputada entre uma visão social democrata da política, contra a sua versão neoliberal. Venceu a social democracia, que responsabiliza o Estado por deveres de cidadania, que passam a ser as funções do Estado. Não se pode deixar o mercado às soltas.

A terceira são as considerações de Thomas Friedman sobre o resultado das eleições, em sua coluna no New York Times. Ele arrasa com os republicanos. Ele começa citando uma frase de Mitch McConnell, um importante líder republicano, feita em 2010: A coisa mais importante que desejamos é fazer com que o presidente Barack Obama seja um presidente de um só mandato.
Por essa afirmativa dá para entender que os republicanos tudo fizeram para impedir um bom governo por parte de Obama. Friedman parte do princípio de que, pelo estado da economia e com oito milhões de desempregados, essa seria a vez do partido republicano ganhar as eleições. Não as ganhou pelo que ele diz, de excesso de idéias ruins. E aponta essas idéias ruins, que pesaram na hora do povo votar: a questão da imigração, das condições climáticas, sobre a criação de empregos e das questões morais como gays e aborto.
Afirma que os americanos estão muito preocupados com essas questões e que veem com clareza que devem ser adotadas políticas que atenuem os efeitos dos desastres provocados pelo clima, que precisam de uma política para os imigrantes, especialmente a força de trabalho altamente qualificada e que a questão dos direitos de homosexuais precisam ser reconhecidos, pois praticamente todos os americanos convivem com essas situações em suas famílias.
Afirma ainda que o partido Republicano é dominado por uma ideologia da extrema direita e que, para vencer eleições, ele precisa de uma guinada para o centro. Aponta , no entanto, para a dificuldade de um candidato nessas condições, ser vitorioso, nas prévias que escolhem o candidato.
Sobre Obama diz que o povo lhe deu o seguinte recado: "Você não acertou tudo da primeira vez, mas vamos lhe dar uma segunda chance".
A grande preocupação de seu segundo governo deverá então ser a de se voltar prioritariamente para a economia e mais especificamente para a geração de empregos. Muito mais do que para as políticas sociais, tema com o qual, muito se desgastou em seu primeiro governo.
Também deverá ser um governo disposto a muitas negociações, para lidar com a oposição, uma vez que tem minoria na Câmara dos Deputados.