domingo, 13 de agosto de 2017

Um milhão por dia. Uma história oriental.

Já encontrei muitos libelos contra o dinheiro, especialmente quando ele se torna fim em si e provoca os desejos de acumulação e não de seu usufruto diário para suprir as necessidades. Lembro de uma passagem em especial, quando Shakespeare, no Timão de Atenas, solta impropérios contra o vil metal, rameira da humanidade. Isto nos é contado nos Manuscritos econômico filosóficos de Marx. Também lembro da bela história da lenda da índia Teiniaguá ou da Salamanca do Jarau, imortalizada na obra de Érico Veríssimo, sobre a não acumulação do dinheiro. Um dia eu a conto.
Num livro tão polêmico, uma história tão singela. É que falamos dos Estados Unidos.


Mas hoje vou transcrever uma história de um livro polêmico e sisudo, A ilusão americana, de Eduardo Prado. Foi o primeiro livro censurado e apreendido na República. Foi publicado em 1893 e teve apenas uma hora de livre circulação. Como é um livro que fala sobre os Estados Unidos, as palavras ganância e acumulação fluem facilmente. Mas vamos a ela, à historinha.

"Há uma história oriental - do homem a quem o destino deu um milhão por dia com a condição de o homem gastá-lo todo no tempo compreendido entre duas auroras.

A falta de cumprimento desta condição era a morte do infeliz. Prazeres, gozos, prodigalidades, tudo isto bastou, nos primeiros dias, para consumir o milhão diário.  Em pouco tempo veio a fadiga, o esgotamento e debalde trabalhava a imaginação do homem para achar o meio de esvaziar os últimos sacos de ouro que ainda estavam cheios quando já alvorecia a aurora do outro dia. Apareceu o Anjo da Morte e anunciou ao desgraçado o seu fim. Lamentou-se o homem: Não consegui gastar o meu milhão! E o anjo da morte respondeu-lhe: - É que tu esqueceste o único meio que havia para isso! - Qual era? - Fazer o bem"!

Como esta história tem o caráter de uma fábula, com os seus inevitáveis fins morais, deixo a conclusão para a reflexão de cada um. Mas não deixa de ser uma bela resposta quando alguém te pergunta sobre o que você faria com o dinheiro se você ganhasse uma soma fabulosa em um prêmio de loteria.

O livro é um libelo contra o imperialismo dos Estados Unidos e a sua ação econômica, diplomática, intelectual e moral sobre a América Latina em geral e sobre o Brasil, em particular.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Ilusão Americana. Eduardo Prado.

Este é um livro bem datado e também de muitas peculiaridades. O autor assina as suas conclusões no dia 7 de novembro de 1893 e já no dia 4 de dezembro do mesmo ano ele chega às livrarias, onde fica exposto apenas por uma única hora. Na capa da quinta edição de 1980 (Ibrasa) tem uma tarjeta publicitária com os seguintes dizeres: O primeiro livro apreendido pela polícia, na república. Creio que observaram bem o título. A Ilusão Americana. A autoria é de Eduardo Prado. A tarjeta publicitária da capa continua: Um livro para ser lido à luz dos acontecimentos históricos.


Quero também me vangloriar, porque recebi esta indicação de leitura através de Lima Barreto. Calma, eu ainda não enlouqueci. Eu sei que Lima Barreto morreu em 1922. Acontece que em um livro que reúne crônicas suas, publicadas na imprensa entre os anos de 1918 e 1922, em coletânea reunida pela Editora Expressão Popular sob o título A crônica militante, o autor faz referências a este livro. Facilmente o localizei na Estante Virtual. E como valeu a pena.

O tema do livro, como o título nos indica, trata dos Estados Unidos, da América Latina e dos Estados Unidos do Brasil. Este era o nome do Brasil, após a proclamação da República, numa espécie de agrado àquele país do norte. A ilusão é nossa, latina americana e brasileira, com relação a política externa dos Estados Unidos. Creio que a melhor resenha que eu posso fazer é usar o próprio autor. Tomo três parágrafos de seu capítulo V, uma espécie de conclusão. Diz ele:

-"Que a história da política internacional dos Estados Unidos não demonstra por parte daquele país, benevolência alguma para conosco ou para com qualquer república latino-americana; 

- Que todas as vezes que tem o Brasil estado em contato com os Estados Unidos tem tido outras tantas ocasiões para se convencer de que a amizade americana (amizade unilateral e que, aliás, só nós apregoamos) é nula quando não é interesseira. - Que a influência moral daquele país, sobre o nosso, tem sido perniciosa" (O destaque é meu). Já aproveitando, - os tópicos analisados se relacionam com a diplomacia, a economia, além da ordem moral e intelectual.

Quanto ao Brasil, as principais questões estão ligadas ao apoio americano a Solano Lopes na guerra do Paraguai, pelo fomento do tráfico negreiro (em 1849 o presidente Taylor dizia: "Não se pode negar que este tráfico é feito por navios construídos nos Estados Unidos, pertencentes a americanos e tripulados e comandados por americanos"), pelo retardamento da proclamação da abolição e antes de tudo isso, o tardio reconhecimento da nossa independência. Os Estados Unidos foram o último país a fazê-lo, apesar do princípio da Doutrina Monroe, de 1823.

Quanto a América Latina estão contadas as histórias do México, da América Central, da Colômbia e da Venezuela e de modo particular os conflitos que envolvem a Bolívia, o Chile e o Peru. Fiquei impressionado com a riqueza que o guano representou para o Peru e os nitratos do deserto de Atacama para o Chile. Busco uma frase do autor que representa o espírito da força imperialista dos Estados Unidos, por parte do sr. Blaine secretário de Estado do presidente Garfield, presidente assassinado após poucos meses de governo, de março a setembro de 1881. Assim Eduardo Prado se expressa.

"Ele imaginava a águia americana pairando, de polo a polo, com as asas poderosas expandidas. A águia simbólica ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra, como acredita a ingenuidade de alguns sul-americanos. Ele queria que ela dominasse, que o seu olhar perscrutasse as solidões geladas do polo, os vales profundos dos Andes, as planuras do Amazonas, a vastidão dos pampas e o infinito dos mares. Ele queria que o bico adunco daquele pássaro apocalíptico rasgasse os inimigos, e que as garras colossais se apoderassem de todo o continente de Colombo. Blaine no poder, era uma ameaça para toda a América".

Deixo ainda uma advertência com relação a autonomia dos países,  deixada por George Washington, o Pai maior da Pátria, em sua mensagem de adeus. "Deveis sempre ter em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra, e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde com uma parte de sua independência. Não pode haver maior erro do que esperar favores reais de uma nação a outra".

É impossível terminar este post sem falar de Eduardo Prado. Ele era um fervoroso monarquista e não se conforma com o fato de os Estados Unidos terem se constituído, com a sua independência, numa república. Quanto ao Brasil, também encontrava na república as mazelas de nossa subserviência. Tem interessantes observações sobre as monarquias e a sua relação com as questões sociais. Um livro absolutamente polêmico e instigante. Por isso mesmo, abri o post alertando que o livro, para ser lido, precisa ser datado e, agora acrescento este dado, de que o autor também precisa ser contextualizado.

Ainda deixo uma questão que se aplica ao Brasil de hoje. A questão da traição dos vices, no regime presidencialista. É Temer. É Maia. Vejam o que diz o autor: "Diz-se que os príncipes herdeiros são em geral os chefes da oposição. Nas repúblicas, o vice-presidente é o inimigo natural do presidente efetivo. Quem é o segundo é sempre contra quem é primeiro. Nas repúblicas sul-americanas, o vice-presidente acaba, quase sempre, conspirando contra o presidente, muitas vezes depondo-o..."

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

LER - COMPARTILHAR. Cláudia de Arruda Campos. Crônica militante.



Este é um dos textos que marca. A vontade de compartilhar. É aquela vontade de que mais gente leia aquilo que eu estou lendo. É um maravilhamento diante da leitura. É um forte fator de humanização. É um remédio contra a solidão. Terminaria dizendo que compartilhar leituras é uma espécie de dever ético. Este texto só poderia ser encontrado mesmo, num livro de abertura de crônica militante e de Lima Barreto. Que autor fantástico e comprometido com os seus.

A leitura também é remédio contra a timidez e ajuda a espantar a solidão, como nos diz Albert Jacquard em seu maravilhoso Filosofia para não filósofos: "Eu era certamente tímido, incapaz de me expressar, persuadido de que cada palavra pronunciada por mim seria falsa, obstruída pelo meu corpo, procurando refúgio na solidão, ao mesmo tempo que a achava dolorosa. Mas tive a sorte de povoar essa solidão com todos os autores encontrados nas prateleiras das biblioteca e que foram bastante amáveis comigo; nunca zombaram de mim, levaram-me a desejar contato com os seres de carne e osso, que são mais inquietantes, embora muito mais atraentes do que aqueles de quem só restam as palavras". E imaginar que Alberto Manguel lia para Borges, quando este foi atingido pela cegueira... Mas vamos ao brilhante texto de Cláudia de Arruda Campos.
Este livro tem duas apresentações que condizem com o livro. Ler - compartilhar e o que é uma crônica.
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Uma pessoa, um livro, o silêncio - esta é uma imagem clássica da leitura. Há séculos nossos olhos percorrem os textos sem que externamente nenhum som se manifeste. Mas no íntimo de quem lê, e no entorno da leitura, muitas vozes sussurram. A primeira de natureza física, é a do próprio leitor, que ouve internamente aquilo que lê em aparente silêncio.

Outras vozes, cuja presença nem sempre percebemos durante a leitura, são aquelas do diálogo constante entre o que diz o texto e as experiências do leitor: experiências de vida e de leitura. Se essa conversa falha ou empaca, empaca a leitura. Ou desistimos imediatamente do texto, achando que ele nada tem a ver com a gente, ou nos interrogamos: o que isso quer dizer? Se a dúvida for de alguma forma resolvida, se encontrarmos a ponte entre a informação nova e aquilo que somos ou aquilo que já sabemos, o contato prossegue.

Mais vozes: aquelas que nos levaram a determinado texto. Chegamos a uma obra por alguma referência: alguém nos falou dela; tínhamos lido algo a seu respeito, a respeito do autor, do tema, do personagem, do contexto cultural, histórico; ou apenas havíamos dado uma passada de olhos em algum trecho, ou na capa, e fomos chamados para dentro do livro.

Muitas vezes, leitura feita, a nossa voz se externa: temos o desejo de comentar com alguém. Como a pedra jogada na água, os círculos se expandem, ondas de vozes, levando e trazendo novas leituras.

Promover leitura passa por ajudar a perceber essas vozes e colocá-las em ação. Para isso pode haver bons exercícios, mas nada que supere nem dispense a única "técnica" imprescindível - o compartilhar. E esse compartilhamento pode se dar de várias formas, do comentário e sugestão de leituras até o ler com, ler junto, e mesmo o ler para alguém se, por algum motivo, essa pessoa não pode decifrar a letra ou as vozes do texto.

Ler com. Algumas imagens de leitura, que não a do isolamento, aparecem em quadros e gravuras antigas: duas pessoas leem juntas o mesmo livro. E essas imagens não passam a ideia de compartilhamento forçado, mas de calorosa intimidade. Duas ou mais pessoas lendo o mesmo texto, ainda que cada uma tenha seu próprio exemplar em mãos, parece esbater a frieza ou insegurança de que alguns se ressentem na leitura inteiramente individualizada. Ler, interromper, comentar, perguntar, rir ou se emocionar em companhia podem ser meios estimulantes para o melhor aproveitamento, seja de um texto envolvente, seja de um texto que requisite maior esforço.

Ler para. Outras imagens reforçam a ideia de compartilhamento: um adulto lê, ou conta histórias para a criança pequena; um círculo de pessoas, olhos e ouvidos ávidos dirigidos a um contador de histórias. As duas situações relacionam-se, geralmente, a estágios em que não se tem ainda acesso aos mistérios da escrita e nos quais a transmissão tem que se fazer pela oralidade.  Embora presas a um tempo superado, ou a ser superado para se chegar à leitura, essas situações têm alguma coisa a nos sugerir. O encantamento do ouvir pode, em certas situações, estimular o ler. Explica-se: a história narrada, o poema declamado, o discurso proferido, a aula, todas essas modalidades baseadas na comunicação oral, permitem que se vá processando a apropriação de formas, estruturas, tons, o reconhecimento de assuntos e gêneros. Isso é importante para que o leitor (ou futuro leitor) vá adquirindo segurança, sentindo pisar num terreno que não é inteiramente desconhecido. Daí talvez o fato de que a leitura em voz alta permita uma maior compreensão de um trecho mais difícil. O som das palavras nos torna familiar aquele mundo que nos é transmitido.

Qualquer das vozes que acompanham a leitura só se fixa em nós se a ouvimos e distinguimos verdadeiramente. Isso demanda tempo e atenção, que são sempre variáveis: cada leitor, assim como cada texto, tem um ritmo próprio. Promover leitura entendendo-a como um compartilhamento pressupõe o respeito pelos ritmos e a aceitação dos vários movimentos que ocorrem nessa prática, tais como divagar e voltar ao texto; perguntar-se e resolver; voltar atrás e reler; interromper e continuar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O que é uma crônica? Zenir Campos Reis.

A editora Expressão Popular fez uma bela edição de uma série de crônicas de Lima Barreto. A maioria delas foi escrita entre os anos de 1918 e 1922. Elas são um perfeito retrato do que era o mundo, dominado em sua conjuntura internacional pelo fim da primeira grande guerra e da Revolução Russa de 1917. Já no Brasil cresciam as insatisfações com a vetusta República Velha e as manifestações do novo, em torno da formação de uma nação brasileira, mesmo com todos os seus problemas. Muitas dessas crônicas já faziam parte de uma seleção, feita pelo próprio Lima Barreto e publicadas no livro Bagatelas.

Já que o livro consta de uma seleção de crônicas, na sua apresentação existe uma bela conceituação sobre o que é uma crônica. Achei muito ilustrativa e por isso resolvi transcrevê-la. A autoria é de Zenir Campos Reis.
A coletânea de crônicas. Uma coletânea temática. A militância política.

Crônica

Na acepção rigorosa do termo, "crônica" não pertence a um gênero literário. Desse modo, buscar enquadramento preciso entre os gêneros tradicionais parece improdutivo. Os escritos atualmente conhecidos como crônicas podem apresentar-se como narrativas curtas, como fragmentos dramáticos, dialogados, como comentários gerados a partir de um fato qualquer sugerido pelo noticiário do momento. Podem fingir uma carta, ou expressar-se de maneira subjetiva, lírica, vizinha do poema, em prosa ou verso.

Na advertência escrita para a coletânea Bagatelas, datada de 13 de agosto de 1918, Lima Barreto observa que o livro era "composto de artigos de várias naturezas e que podem merecer várias classificações, inclusive a de não classificáveis..."

"Crônica" é o apelido mais genérico para nomear o escrito em que o "tempo" (Chronos em grego) fornece a matéria bruta. Entre os termos afins encontramos os diários, anais, comentários, fastos, memórias, relações, anedotas, biografias. A sugestão consta do útil e esquecido Dicionário dos sinônimos da língua portuguesa (Lisboa: Aillaud e Bertrand, s.d., "Introdução" de janeiro de 1848).

Em "mãos dadas", Carlos Drummond de Andrade declara: "o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes. // a vida presente", sincronizado com o seu momento, conflituoso, tenso, exigente do empenho de cada cidadão responsável.  O poeta se nutre da mesma matéria bruta do cronista, para elevá-la ao patamar da palavra artística.

O tempo, na definição de Alain (nome literário do filósofo e educador francês Émile Chartier (1868-1951), é a "forma universal da mudança". Enquanto se desenrola, só pode ser capturado de forma provisória. O cronista captura momentos, elabora, e a "crônica" tanto pode ser apreciada nessa forma limitada como pode constituir-se base ou matéria-prima para futuras sínteses, possibilitadas pela história de mais longa duração, que explicita o desdobramento até então apenas possível - um possível entre muitos.

O livro das Crônicas, no Antigo Testamento, título hebraico, chama-se, na tradução grega e na Vulgata, Paralipômenos, literalmente "(fatos) deixados de lado, omitidos", episódios desgarrados da história do povo judeu. Se essas narrativas foram "deixadas de lado" é porque lhes foi atribuída importância menor.

Quando, em 1951, desejou organizar as reflexões políticas de Alain, extraídas dos conjuntos dos seus "propos" (como Alain os denominava, isto é "palavras", "falas"), Michel Alexandre salientou: "uma política não é em nenhum grau uma crônica". As crônicas (ou os "propos") "visavam sobretudo os homens do dia ou [...] seguiam de perto acontecimentos esquecidos ou ultrapassados". Certamente continuavam valiosos para muitas modalidades de interesses, históricos, literários e outros. No entanto, para a organização de uma antologia temática, política, deveria ser descartado grande número delas.

A crônica expressa um ponto de vista sobre a matéria contingente e mobiliza conhecimento e vivência do observador-escritor. Os nexos que consegue perceber ou construir dependem fundamentalmente da amplitude dessa bagagem mobilizada na operação.  O grau de comprometimento nessa modalidade de escrita se explica com nitidez, e isto contribui fortemente para explicitar posturas políticas e valores que, na ficção, onde as mediações exigem mais distanciamento, ficam apenas sugeridos.

E vamos às crônicas com o viés político militante de Lima Barreto.  Astrojildo Pereira nos dá um interessante dado sobre a formação de Lima Barreto. "Desde jovem se fizera ao trato dos livros, mas sua formação sofria do mal muito comum do ecletismo, uma certa mistura de materialismo positivista, de liberalismo spenceriano, de anarquismo kropotkiniano e de outros ingredientes semelhantes". Uma espécie de lamento por não ter tido uma formação dentro do marxismo. Sob esta ótica, sob esta visão de mundo é que Lima Barreto analisava os fatos de seu tempo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Crônica militante. Lima Barreto.

Lima Barreto é um dos escritores brasileiros que hoje em dia mais está em evidência. Vários fatores são responsáveis para que isso ocorresse. Mas creio que um dos principais é de ordem econômica. As suas obras caíram em domínio público, fato que motivou muitas editoras a se interessarem pela reedição de sua obra. Lima Barreto teve vida curta, mas intensa (1881-1922). Foi extremamente ativo, tanto como romancista e talvez, mais ainda, como cronista. Como cronista se tornou um atento crítico das mazelas da Bruzundanga, nome pelo qual ironicamente designava as inacreditáveis mazelas brasileiras.
 Uma edição com boa apresentação e um excelente posfácio. Leitura militante.

A crônica militante é uma coletânea de trinta e cinco crônicas escritas especialmente ao longo dos anos 1918 e 1922. Esta coletânea data de 2016, da Expressão Popular, uma editora que não ostenta gratuitamente o seu título de ser uma oportunidade para a expressão do povo. A maior parte dessas crônicas já haviam sido reunidas pelo próprio escritor e publicadas postumamente, em 1923, sob o título de Bagatelas. Lima Barreto sempre encontrou jornais e revistas interessadas em publicá-lo, apesar de seu posicionamento em favor da classe da qual se originou e da sua conflituosa relação com a imprensa conservadora dominante. A sua preferência era por pequenos e frágeis jornais e revistas.

A crônica militante tem três textos introdutórios. O primeiro é uma nota editorial, com explicações úteis em torno da edição. O segundo texto é maravilhoso. É de autoria de Cláudia de Arruda Campos e tem por título ler - compartilhar. Vou dedicar-lhe um post em separado. O terceiro texto é Lima Barreto militante, de Zenir Campos Reis, que se constitui na apresentação do autor e das crônicas presentes no livro. Seguem as trinta e cinco crônicas escolhidas e um primoroso posfácio, de autoria de Astrojildo Pereira, texto que servira de prefácio para a apresentação de Bagatelas, em sua segunda edição, de 1956. Um primor de contextualização.

Sobre o que escrevia Lima Barreto? Crônica tem a ver com o tempo. Assim, com certeza, Lima Barreto se ocupou de seu tempo em suas crônicas. Então vejamos o acontecia em seu tempo no Brasil e no mundo. Já vimos que as crônicas eram especialmente datadas entre os anos de 1918 e 1922. No Brasil tínhamos os governos oligárquicos da República Velha e das primeiras rebeliões contra ela, quando ainda menino, como a Revolta da Armada em 1893, e depois, dos movimentos dos trabalhadores, sob a liderança dos anarquistas. Os temas do imperialismo e da reforma agrária também sempre se fizeram presentes. No cenário internacional, ocorria o final da Grande Guerra e os tratados de paz, verdadeira causa para novas guerras, pela não erradicação das causas que a provocaram. Com entusiasmo também recebeu a Revolução Comunista da Rússia, em 1917.

Em que jornais escrevia? Lima Barreto tinha a vocação para o jornalismo. Recordações do Escrivão Isaías Caminha se constitui numa primeira grande observação crítica do comportamento e comprometimento dos grandes jornais brasileiros, os hoje chamados jornalões. Escrevia nos pequenos jornais, aqueles que sobreviviam por curtos espaços de tempo e que eram frutos da indignação e da militância de seus idealizadores. As crônicas desta edição vem datadas e com a indicação dos jornais ou revistas que as publicaram. Os títulos mais presentes são: ABC, de tendência anarquista, Revista Contemporânea, O País, Hoje, Gazeta de Notícias, O Estrela, Careta, Revista Argos, A Voz do Trabalhador. A presença mais constante está no ABC, com quem rompeu por uma questão racista.

Astrojildo Pereira em seu posfácio nos dá uma boa ideia sobre a formação de Lima Barreto. Afirma que ele nunca foi um marxista ou formado dentro do marxismo. "Desde jovem se afizera ao trato dos livro, mas sua formação sofria do mal muito comum do ecletismo, uma certa mistura de materialismo positivista, de liberalismo spenceriano, de anarquismo kropotkiniano e de outros ingredientes semelhantes" (p. 329). Tinha vasta formação e criticava os notáveis por não a terem. As suas crônicas se alimentavam em uma ampla formação teórica. A informação também esteve sempre presente em sua vida. Em sua casa havia uma biblioteca.

Ele teve origem numa família muito pobre, não miserável, porém. Tanto o pai, quanto ele, se ocupavam em modestas funções públicas. Teve estudos regulares e chegou ao ensino superior na área da engenharia. Por sorte, conforme ele afirma, não se formou. Conhecia a literatura mundial e tinha fluência em línguas. Foi por duas vezes internado no Hospital Nacional dos Alienados, por delírios provocados pelo álcool. Escreveu sobre isto e, inclusive, houve agora uma reedição destes seus escritos, numa edição da Companhia das Letras, que ficou entre os mais vendidos na FLIP - 2017. Trata-se de Diário do Hospício - Cemitério dos vivos. Chama também atenção o seu curto tempo de vida, de 1881 a 1922. Bem, mas os dados biográficos ficam por conta de Lilia Schwarcz e da sua biografia do autor, Lima Barreto - triste visionário, que vou começar a ler.
A próxima tarefa.Uma pesquisa de mais de dez anos.


Mas não posso encerrar este post sem trazer presente a máxima capitalista, vitoriosa com a Revolução burguesa e presente nos Estados Unidos, em sua longa ação imperialista, na crônica O nosso "ianquismo". Diz esta máxima: Make money, honestly if you can, but make money". Ou seja: "Enriqueça, honestamente se puder, mas enriqueça" (p.130).




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O Ensino em Bruzundanga. Lima Barreto.

 Na contracapa de Os Bruzundangas, se lê sobre o livro: "Os Bruzundangas é um romance de Lima Barreto que fala da Bruzundanga, um país de ficção, localizado nas zonas tropical e subtropical, parecidíssimo com o Brasil, onde se encontram elites pouco cultas dominando e explorando o povo. O narrador, que é um brasileiro que morou uns tempos por lá, vai fazendo uma crítica satirizada a todas as organizações institucionais e algumas pessoas desse país". Vejamos o que ele fala sobre o seu sistema educacional.
Um dos temas, entre tantos outros, é sobre o sistema de ensino em Bruzundanga.

O Ensino em Bruzundanga.

Já vos falei na nobreza doutoral desse país; é lógico, portanto, que vos fale do ensino que é ministrado nas suas escolas, donde se origina essa nobreza. Há diversas espécies de escolas mantidas pelo governo geral, pelos governos provinciais e por particulares. Estas últimas são chamadas livres e as outras oficiais, mas todas elas são equiparadas entre si e os seus diplomas se equivalem. Os meninos ou rapazes, que se destinam a elas, não tem medo absolutamente das dificuldades que o curso de qualquer delas possa apresentar. Do que eles têm medo, é dos exames preliminares. De forma que os filhos dos poderosos fazem os pais desdobrar bancas de exames, pôr em certas mesas pessoas suas, conseguindo aprovar os pequenos em aritmética sem que ao menos saibam somar frações, outros em francês sem que possam traduzir o mais fácil autor. Com tais manobras, conseguem sair-se da alhada e lá vão, cinco ou seis anos depois, ocupar gordas sinecuras com a sua importância de "doutor".

Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó.
Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram. São estes tais que berram: "Sou formado! Está falando com um homem formado!" Ou senão quando alguém lhes diz:
- "Fulano é inteligente, ilustrado...", acode o homenzinho logo:
- É formado?
- Não.
- Ah!
Raciocina ele muito bem. Em tal terra, quem não arranja um título como ele obteve o seu, deve ser muito burro, naturalmente.
Há outros, espertos e menos poderosos, que empregam o seguinte truque. Sabem por exemplo, que, na província das Jazidas, os exames de matemática elementar são mais fáceis. Que fazem eles? Inscrevem-se nos exames de lá, partem e voltam com as certidões de aprovação.

Continuam eles nessas manobras durante o curso superior. Em tal escola são mais fáceis os exames de tais matérias. Lá vão eles para tal escola, frequentam o ano, decoram os pontos, prestam ato e, logo aprovados, voltam correndo para a escola ou faculdade mais famosa, a fim de receberem o grau. O ensino superior fascina todos na Bruzundanga. Os seus títulos, como sabeis, dão tantos privilégios, tantas regalias, que pobres e ricos correm para ele. Mas só são três espécies que suscitam esse entusiasmo: o médico, o de advogado e o de engenheiro.

Houve quem pensasse em torná-los mais caros, a fim de evitar a pletora de doutores. Seria um erro, pois daria o monopólio aos ricos e afastaria as verdadeiras vocações. De resto, é sabido que os lentes das escolas daquele país são todos relacionados, têm negócios com os potentados financeiros e industriais do país e quase nunca lhes reprovam os filhos.

Extinguir-se as escolas seria um absurdo, pois seria entregar esse ensino a seitas religiosas, que tomariam conta dele, mantendo-lhe o prestígio na opinião e na sociedade.
Apesar de não ser da Bruzundanga, eu me interesso muito por ela, pois lá passei grande parte da minha meninice e mocidade.
Meditei muito sobre os seus problemas e creio que achei o remédio para esse mal que é seu ensino. Vou explicar-me sucintamente.
O Estado da Bruzundanga, de acordo com a sua carta constitucional, declararia livre o exercício de qualquer profissão, extinguindo todo e qualquer privilégio de diploma.
Feito isso, declararia também extintas as atuais faculdades e escolas que ele mantém.
Substituiria o atual ensino seriado, reminiscência da Idade Média, onde, no trivium, se misturava a gramática com a dialética e, no quadrivium, a astronomia e a geometria com a música, pelo ensino isolado de matérias, professadas pelos atuais lentes, com os seus preparadores e laboratórios.
Quem quisesse estudar medicina, frequentaria as cadeiras necessárias à especialidade a que se destinasse, evitando as disciplinas que julgasse inúteis.
Aquele que tivesse vocação para engenheiro de estrada de ferro, não precisava estar perdendo tempo estudando hidráulica. Frequentaria tão somente as cadeiras que precisasse, tanto mais que há engenheiros que precisam saber disciplinas que até bem pouco só se exigiam dos médicos, tais como os sanitários; médicos - os higienistas - que têm de atender a dados de construção, etc.; e advogados a estudos de medicina legal.
Cada qual organizaria o programa de seu curso, de acordo com a especialidade da profissão liberal que quisesse exercer, com toda a honestidade e sem as escoras de privilégio ou diploma todo poderoso.
Semelhante forma de ensino, evitando o diploma e os seus privilégios, extinguiria a nobreza doutoral; e daria aos jovens de Bruzundanga mais honestidade no estudo, mais segurança nas profissões que fossem exercer, com a força que vem da concorrência entre homens de valor e inteligência nas carreiras que seguem.

Eu não suponho, não tenho a ilusão que alguém tome a sério semelhante ideia.
Mas desejava bem que os da Bruzundanga a tomassem, para que mais tarde não tenham que se arrepender.
A nobreza doutoral, lá, está se fazendo aos poucos irritante, e até sendo hereditária. Querem ver? Quando por lá andei, ouvi entre rapazes este curto diálogo:
- Mas T foi reprovado?
- Foi.
- Como? Pois se é filho do Doutor F.?
Os pais mesmo tem esta ideia; as mães também; as irmãs da mesma forma, de modo a só desejarem casar-se com os doutores. Estes vão ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras, pois o povo admite isto e o tem achado justo até agora. Há algumas famílias que são de verdadeiros Polignacs doutorais. Ao lado, porém, delas vai se formando outra corrente, mais ativa, mais consciente da injustiça que sofre, mais inteligente, que, pouco a pouco, há de tirar do povo a ilusão doutoral.
É bom não termos que ver, na minha querida Bruzundanga, aquela cena que a nobreza de sangue provocou, e Taine, no começo da sua grande obra sobre as origens da França Contemporânea, descreve em poucas e eloquentes palavras. Eu as traduzo:
"Na noite de 14 para 15 de julho de 1789, o Duque de Larochefou-Caud-Liancourt fez despertar Luís XVI para lhe anunciar a tomada da Bastilha.
- É uma revolta? diz o rei.
- Sire, respondeu o duque, - é uma revolução".

Uma revolução. Já estamos em 2017. O livro foi publicado em 1923, mas as crônicas já haviam sido publicadas anteriormente. Mudou muita coisa? Hoje o sistema educacional de Bruzundanga foi entregue ao ultra conservador partido do DEM. Conseguem imaginar o significado disso?

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Temer corrupto ou inocente. Os votos dos deputados do Paraná.

Ontem, 2 de agosto de 2017 foi mais um dia triste na história política deste país. Ontem houve a absolvição, pela Câmara dos Deputados, do primeiro presidente brasileiro indiciado por corrupção, pela Procuradoria Geral da República. Todos os trambiques imagináveis e inimagináveis foram usados em favor da absolvição, inclusive negociações dentro do Plenário. Temer recebeu 263 votos em favor do relatório que o absolvia e mais 21 ausentes e duas abstenções. Já os contrários, que votaram não ao relatório da CCJ, somaram 227 votos. As cenas foram de um raro ridículo político.
Sobre a estetização do ridículo político. Quem foi o vencedor na sessão de ontem?


Assim Temer se fortaleceu, permanecendo no poder, ao menos por enquanto, enquanto não chegarem novas denúncias, e ganhou ânimo para continuar o seu programa de reformas, em especial, para a reforma da previdência. Esta não é tarefa fácil, pois se trata de uma reforma constitucional, para a qual são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado (De 513 e 81). Temer quis mostrar força na votação e provar que teria força para efetivar estas reformas. Estes serão os próximos enfrentamentos, dentro da mais explícita luta de classes já vista no Brasil. Mas o objetivo deste post, é deixar registrado, num espaço permanente, como votou a bancada paranaense no dia de ontem, para consultar, especialmente às vésperas de eleições, se os deputados votaram a favor ou contra a corrupção, da qual Temer foi acusado.

Os votos favoráveis a Temer, para que a corrupção não seja investigada não trouxeram surpresas. São contumazes votos contra os interesses da classe trabalhadora. Dou a lista e as siglas partidárias.

Votaram favoráveis ao relatório do deputado do PSDB mineiro, Paulo Abi-Ackel (por isso sim), para que Temer não fosse investigado, para que a corrupção fosse varrida para debaixo do tapete, os seguintes deputados:

Alex Canziani - PTB.
Alfredo Kaefer - PSL.
Dilceu Sperafico - PP.
Edmar Arruda - PSD.
Evandro Roma - PSD.
Giacobo - PR.
Hermes Parcianello - PMDB.
João Arruda - PMDB. Este é sobrinho do senador Requião.
Luiz Carlos Hauly - PSDB.
Luiz Nishimori - PR.
Nelson Meurer - PP.
Nelson Padovani - PSDB.
Osmar Bertoldi - DEM.
Sérgio Souza - PMDB.
Takayama - PSC.
Toninho Wandscheer - PROS.
Total: 16.

Votaram contra o relatório do deputado do PSDB mineiro, Abi-Ackel, que absolvia Temer, (por isso não) e em favor da investigação e julgamento do primeiro presidente brasileiro acusado de corrupção. Isso não significa que todos eles sejam confiáveis, sob a ótica dos interesses dos trabalhadores.

Aliel Machado - REDE.
Assis do Couto - PDT.
Christiane Yared - PR.
Delegado Francischi - SD.
Diego Garcia - PHS.
Enio Verri - PT.
Leandre - PV.
Leopoldo Meyer - PSB.
Rubens Bueno - PPS.
Sandro Alex - PSD.
Zeca Dirceu - PT.
Total: 11.

É preciso ainda ver os ausentes, que são votos que devem ser computados em favor de Temer. Estes deputados se acovardaram diante da repercussão de seu voto diante da Opinião Pública, confiando na ignorância do povo em saber sobre o fato. São eles:

Luciano Duci - PSB.
Osmar Serraglio - PMDB.
Reinold Stephanes - PSD.

Guardem bem esta listinha e façam muito uso dela.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Os dez mais vendidos da FLIP 2017. O OSCAR dos livros.

Terminada a Feira Internacional do Livro de Paraty, edição 2017, já saiu um primeiro balanço dos livros mais vendidos. A relação é da Livraria da Travessa, a famosa livraria do Rio de Janeiro, que é também a livraria oficial do evento. O grande homenageado deste ano foi o escritor Lima Barreto, pouco reconhecido em sua curta e atribulada vida (1881-1922). Isso não o impediu de lançar uma aguda visão sobre a sua cidade e as mazelas da sociedade republicana, nada republicana, que se instalava. Por essa homenagem e pelo crescente interesse pela sua obra, a sua presença com dois títulos, entre os mais vendidos.

Outra questão importante a ser observada é a presença dos títulos que envolvem a questão racial e a questão feminista entre os mais vendidos. Me chamou particularmente a atenção, a escritora ruandense Scholastique Mukasonga, que eu não conhecia. Será agora a oportunidade. Todos os livros estão disponíveis na Livraria da Travessa, com bons descontos. Mas, sempre que eu compro, eu faço pesquisas. Existem boas diferenças. A entrega leva três dias, com postagens gratuitas, creio, acima de R$ 100,00.

E antes de ir para a lista, um recado para o governador beto richa. É notório e sabido que ele não é um aficionado pela leitura, mas ele, na qualidade de governador, tem por obrigação fomentá-la e, especialmente, proporcionar aos professores as possibilidades da leitura, que é a fonte principal que alimenta o seu trabalho com a devida qualidade. E para que isto aconteça, reposições salariais são absolutamente necessárias. Mas lamentavelmente creio que ele não tem sensibilidade para tanto. Mas vamos a lista:

1º. Na minha pele. Lázaro Ramos. Companhia das Letras. R$ 34,90. Biografia e memória. Foi na fala de Lázaro Ramos que ocorreu o momento mais emocionante da Flip 2017. A intervenção da professora paranaense Diva Guimarães.

2º. A mulher dos pés descalços. Scholastique Mukasonga. Editora Nós. R$ 35,00. Romance em que a escritora conta sobre a morte da mãe na guerra civil de Ruanda, morta pelos hutus. (Sugestão: para minimamente conhecer a guerra civil de Ruanda ver o filme de 2004 - Grande Hotel Ruanda).
Este é o próximo livro da minha agenda de leituras.


3º. Lima Barreto - triste visionário. Lilia Schwarcz. Companhia das Letras. R$ 69,90. Biografia. Mais de dez anos de pesquisa. Já está na minha estante e agenda.

4º. Nossa Senhora do Nilo. Scholastique Mukasonga. Editora Nós. R$ 45,00. Romance em que é contada a educação com a presença do ódio racial que levou à guerra civil de Ruanda. O conflito entre tutsis e os hutus. Um colégio para meninas.

5º. Com o mar por meio. Jorge Amado e José Saramago. Companhia das Letras. R$ 59,00. É a correspondência trocada entre os dois escritores entre os anos de 1992 e 1998. São comentários sobre os temas mais palpitantes do mundo.

6º. Esse cabelo - A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Djamilia Pereira de Almeida. Leya. R$ 34,90. Um romance que mistura memória, crítica social, racismo, feminismo e identidade. Conheci a autora através da revista Cult. Gostei demais.

7º. Diário do hospício - cemitério dos vivos. Lima Barreto. Companhia das Letras. R$ 49,90. Trata-se de uma reedição dos apontamentos de Lima Barreto, internado duas vezes no Hospício Nacional dos Alienados, em virtude de delírios alcoólicos. A reedição ficou por conta de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura e prefácio de Alfredo Bosi.

8º. Para educar crianças feministas. Um manifesto. Chimamanda Ngozi Adichie. Companhia das Letras. R$ 14,90. Trata-se de 15 sugestões para uma educação dentro dos princípios feministas. A autora fez muito sucesso com Americanah e especialmente com Sejamos todos feministas. Ela é nigeriana.

9º. O Vendido. Paul Beatty. Editora Todavia. R$ 54,90. É uma narrativa das experiências raciais de seu pai, um polêmico sociólogo de Los Angeles. É uma mordaz crítica as questões raciais ainda tão fortemente presentes no mundo.

10º. Bíblia - Novo Testamento - Os quatro evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. Companhia das Letras. R$ 69,90. Consta ser a mais completa versão da Bíblia, fundamentada em questões históricas. Não são apenas os quatro  Evangelhos e sim vinte e sete. Trata-se apenas do primeiro volume.  Frederico Lourenço é um reconhecido historiador.

Pronto, estão aí sugestões mais do que interessantes para as próximas leituras.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Bruzundangas. Lima Barreto.

Estou me preparando para a leitura da grande biografia  Lima Barreto - triste visionário, de Lilia Moritz Schwarcz, lançado neste julho de 2017, creio eu, na grande Feira Internacional do Livro de Paraty, da qual Lima Barreto é o homenageado, na sua edição de 2017. Para isso acabo de ler, aquele que seguramente é o mais irônico dos livros deste triste visionário, como o qualifica a biógrafa. Trata-se de Os Bruzundangas, ou melhor, da República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Qualquer referência ao Brasil será fruto da tua imaginação, ou talvez, da ironia do escritor.
A edição de Os Bruzundangas da Difusão Cultural do Livro.

Os Bruzundangas é uma coletânea de crônicas que foram publicadas no semanário ABC (de tendência anarquista) a partir do ano de 1917. Lima Barreto, a estas alturas, já era autor consagrado. Em livro, com as crônicas reunidas, só houve uma edição póstuma, um ano após a sua morte em 1923. Lima Barreto nasceu em1881 e morreu em 1922, no ano do centenário da independência. Na última página da edição que eu li, da Difusão Cultural do Livro se lê algo sobre a sua obra que se aplica perfeitamente a esta república. Vejamos.

"Lima Barreto foi um dos mais legítimos cronistas do Rio de Janeiro. Tudo quanto acontecia à sua volta, o escritor atento registrava nas suas crônicas, pois colaborava em quase todos os jornais. Sob este aspecto foi um "marginalizado" ou "perseguido" pelos escritores estabelecidos, como muitos pensam. Lima Barreto nunca teve dificuldade em publicar os seus às vezes contundentes artigos panfletários, ou as suas sátiras cortantes, que muitas vezes atingiam homens de prestígio de seu tempo".

É o que lemos em Os Bruzundangas. As crônicas são realmente ácidas. Alguns políticos ou escritores são nominados e outros apenas subentendidos. Quem conhece razoavelmente a história consegue identificar a muitos deles. Alguns eu não consegui identificar. Os personagens favoritos em sua caracterização são os políticos, os ministros em particular, os escritores, os militares e os artistas de uma maneira geral.  Lhes critica muito a falta de originalidade e a preocupação com a cópia e a vontade de pertencerem a Academia de Letras, mesmo sem se dedicarem a elas.

Trata-se de um pequeno livrinho de apenas 112 páginas. Tem 22 capítulos, um prefácio e ainda não numerados em capítulo outras histórias dos Bruzundangas e uma nota informativa. Dou o título de cada um dos capítulos a fim de que conheçam mais de perto este rico e pobre país, qual seja a República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Ainda faço um esforço de síntese para cada um destes.Vejamos: 

I. Um grande financeiro. Trata-se de um deputado especializado em orçamento que virou ministro. Sua especialidade era aumentar impostos. II. A nobreza de Bruzundanga. As qualifica pela sua origem, a de toga e a dos costumes. A de toga são os doutores, advogados, médicos e engenheiros. III. A outra nobreza de Bruzundanga. Era formada pelos que ocupavam os mais bem remunerados cargos na administração do Estado. Eram marcados por duas grandes características, a ingenuidade infantil e a idiotice senil. IV. A política e os políticos de Bruzundanga. Eram os ricos em meio a miséria. Eram ajudados pelas freiras dos educandários que arranjavam para os rapazes - ricas herdeiras, para lhes alavancar a carreira.

V. As riquezas de Bruzundanga. A república é descrita como a mais rica do mundo. Tem carvão, café, cana e borracha. VI. O ensino em Bruzundanga. Este capítulo vai ganhar um post especial. VII. A diplomacia em Bruzndanga. Um dos mais irônicos. A diplomacia é a profissão dos escritores que fazem algumas cópias e se candidatam à Academia de Letras de Bruzundanga. Trazem também honrarias, comendas e condecorações. VIII. A Constituição. Outro capítulo de fina ironia. Dá vontade de transcrever alguns artigos. Mas o certo é que a República tem uma Constituição. As leis formam o esqueleto da sociedade. IX. Um mandachuva. É assim que chamam o presidente. Descreve as características mas a que mais se destaca é o fato de abominar a cultura. X. Força Armada. A conclusão do cronista é a de que não existe força armada, mas que há 175 generais e 87 almirantes. A maior preocupação é com os uniformes.

XI. Um ministro. Um país agrícola sem agricultura, com misto de latifúndio e propriedade feudal. XII. Os herois. Outro capítulo ácido. Quem são os herois de Bruzundanga? Izabel, o velho marechal? XIII. A sociedade. Os privilegiados do serviço público com a marca de sua mediocridade. XIV. As eleições. Um capítulo dedicado às falsificações. XV. Uma consulta médica. O medo de gastar e o médico que não consulta. XVI. A organização do entusiasmo. dez mil soldados para recepcionar políticos, embaixadores e capitalistas. XVII. Ensino Prático. Tudo prático, uma escola de comércio. XVIII. A religião. É suficiente dizer que é católica, apostólica e romana. XIX. Q.E.D. Quod erat demonstrandum. Versa sobre a administração da república. XX. Uma província. Talvez o ponto alto da obra. Uma descrição imperdível de São Paulo. XXI. Pâncome, as suas ideias e o amanuense. Outro capítulo de ironia intensa. Trata-se de um ministro de relações exteriores, que ocupou o cargo por dez anos e que escolheu um amanuense pela sua beleza. Não ousei identificá-lo. Dele quero apresentar uma propaganda que ele fez em Paris a respeito de seu país: "Bruzundanga, País rico - Café, cacau e borracha. Não há pretos".  XXII. Notas soltas. E seguem ainda Outras histórias dos Bruzundangas e uma nota informativa. Nesta república os mulatos eram chamados de javaneses.


Uma pergunta final. O que mudou na quase centenária República dos Estados Unidos de Bruzundanga para a atualidade de 2017?

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Mulato. Aluísio Azevedo.

Estou terminando o meu estoque de livros comprados na pequena feira da Top Livros, uma feira de ponta de estoque, aqueles livros que encalham nas editoras. Agora foi a vez de O Mulato, do maranhense Aluísio de Azevedo. Dele eu já tinha lido O Cortiço (1890) e Casa de Pensão (1894). O Mulato é anterior, datado de 1881. Toda a ambientação do livro ocorre na cidade de São Luís, nos últimos anos do Império. Talvez resida aí um dos maiores valores do livro, um perfeito retrato da sociedade maranhense destes tristes tempos. Que horror.
O Mulato. Uma bela edição da Ediouro. A mão de Ana Rosa e Raimundo não podem se tocar.

A descrição desta sociedade cresce em importância devido ao fato de Aluísio Azevedo pertencer a escola naturalista, que tem exatamente na descrição detalhada de tudo, uma de suas mais importantes características. Aluísio de Azevedo nasceu na capital maranhense em 1857 e veio a morrer em Buenos Aires em 1913. Fez carreira de escritor no Rio de Janeiro, cidade onde também ingressou na carreira diplomática. O escritor pertenceu aos quadros da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número quatro.

O Mulato é o primeiro grande livro do escritor. Creio que sem erro podemos afirmar que O Mulato é o grande romance brasileiro da denúncia da existência de um forte racismo no Brasil. No caso, Raimundo, o personagem central, o mulato do título, é sobrinho de seu Manuel Pescada, rico comerciante e proprietário maranhense. Raimundo é filho de um irmão de Manuel, que teve atribulada vida familiar. Ele teve filho com uma escrava, matou a sua mulher em flagrante adultério junto ao padre, que será importante personagem da história e encontrou ele próprio a morte pela mão deste padre, sem no entanto, provocar suspeitas sobre tal. Ele era habilidoso em suas persuasões.

Seu Manuel cuida da formação de Raimundo, que faz os seus estudos em Portugal, formando-se em Direito na famosa Universidade de Coimbra. Após formado conheceu a Europa, viajando por ela ao longo de três anos. Na sua volta ao Brasil moraria na Corte, na cidade do Rio de Janeiro. Antes porém viajaria a São Luís, encerrar as suas pendências com o tio, como a venda de suas propriedades, terra e casas. É bem acolhido na casa do tio. O Cônego Diogo é o compadre e confidente de seu Manuel Pescada. Manuel tem um filha de nome Ana Rosa. Raimundo nada conhece de seu passado.

Bem, aí estão os ingredientes do enredo, que é contado ao longo de 19 capítulos. Um pai, uma filha em idade de casamento, um padre confidente e um jovem doutor que busca desvendar o seu passado. Como tudo isso se deu, eu não conto. Dou apenas mais um dado. Aluísio Azevedo é totalmente anticlerical, e por isso, todas as maldades do romance ficam por conta do cônego Diogo. E ponha maldade nisso. Entra também na história um acomodado caixeiro do seu Manoel, o pacato Dias. No meu modo de ver, o romance não tem um gran finale.

O valor maior está mesmo na descrição que é feita da sociedade maranhense, absolutamente preconceituosa e dada a todo o tipo de crendices e fé cega na fala do latinório do padre. O fato absolutamente imperdoável desta alta sociedade religiosa e burguesa é a mancha da mistura do sangue de Raimundo, o fato de ele ser mulato. Volto a repetir. Deve ser o grande romance da exposição da chaga do preconceito racial dentro da literatura brasileira.Também é uma bela introdução à formação da sociedade brasileira, que tão bem conhecemos nos dias de hoje, de uma elite extremamente desumana e perversa.

No livro, na sua contracapa, encontramos a referência ao grande valor da obra: "Aluísio Azevedo foi o introdutor do movimento naturalista nas letras brasileiras. Acima de tudo, O Mulato é obra de um observador atento da sociedade - agrária, latifundiária, escravocrata - que se transforma em civilização burguesa, pré-industrial, com lenta ascensão dos mestiços e participação na vida social, política e intelectual, sinalizando as relações entre o indivíduo e o meio. Trata-se de uma crônica da vida maranhense, com todos os seus preconceitos e mesquinharias, durante o Segundo Império. O protagonista, Raimundo, é um jovem de boa formação e que após os anos de estudo volta à sua província natal. Apaixonado por Ana Rosa, não obtém a aceitação da família da moça, sem que se dê conta do porquê".

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Saramago. Biografia.

Duas coisas se somaram para que eu comprasse e lesse este livro - Saramago - Biografia, de João Marques Lopes. Por ser leitor da obra de Saramago e o enorme apreço que lhe tenho e pelo fato de ter ido a uma feira da Top Livros, livros de ponta de estoque. João Marques Lopes é doutor em literatura brasileira pela Universidade de Lisboa, mas creio que a sua grande especialidade mesmo, seja a literatura portuguesa. O livro é uma publicação da Leya, do ano de 2009, um ano antes, portanto, de seu falecimento. Saramago nasceu em 1922 e morreu em 2010.

O livro está estruturado em dez capítulos, dos quais passo os títulos e os anos retratados. Já dá uma primeira ideia do livro biografia. 1. O menino pobre (1922-1933); 2. O serralheiro autodidata (1934-1946); 3. Terra do pecado e o silêncio (1947-1965); 4. Poesia, crônica e jornalismo (1966- 1973); 5. O Diário de Notícias a serviço da classe operária e do socialismo (1974-1975); 6. Memorial do Convento e a consagração do romancista (1976-1990); 7. O veto do governo PSD a O Evangelho segundo Jesus Cristo e o "exílio" (1991-1994); 8. O ciclo da alegoria e outras obras (1995-2008); 9. Todos os prêmios; 10. Outras polêmicas. Acompanha ainda, uma cronologia e a bibliografia. No total são 246 páginas.

O livro segue a trajetória normal de uma biografia. Assim nos é contada a infância pobre do menino, o Portugal rural e pouco letrado da época, a sua Azinhaga natal e a sua pobreza em Lisboa e, ainda, os seus primeiros estudos. Depois o menino pobre se encaminha para uma vida de operário que busca ser serralheiro em sua profissão. Toma consciência do mundo pela frequência a bibliotecas, pelas incursões ao teatro e acompanhando os acontecimentos da guerra civil espanhola.

A sua vida de escritor começa por uma obra precoce, Terra do pecado, o seu romance da juventude. Este tempo, tempo de forte repressão, o aproxima da vida literária, escrevendo artigos, fazendo traduções e trabalhando numa editora. Adentra depois no mundo da poesia e da crônica jornalística. Ao exercer estas atividades é que se dará o fim do regime salazarista e Saramago desempenhará novas e polêmicas funções, à frente de O Diário de Notícias, com a divisão das esquerdas e a sua tomada de posição e a saída do diário.

Para quem lê a biografia pelo seu lado mais literário, o livro começa a se adensar a partir do sexto capítulo. O sucesso vem quando ele, corajosamente, se dedica exclusivamente à literatura. Surge Memorial do Convento e a venda de 20.000 livros em dois anos. Já O ano da morte de Ricardo Reis irá vender 20.000 em apenas um mês. Aparecem logo a seguir Jangada de pedra e História do cerco de Lisboa. Começa a receber prêmios e um elogio todo especial de Harold Bloom. O estilo saramaguiano de escrever começa a se consagrar. Pilar del Rio começa a fazer parte desta história.

O sétimo capítulo é dedicado a O Evangelho segundo Jesus Cristo, seguramente o mais polêmico de seus livros. O maior problema ocorrerá com o governo português, pelo seu ministério da cultura que lhe censura a obra. Saramago esperava reações ao livro por ele contestar toda a cultura judaico-cristã, pela longa história de sangue que o cristianismo representou para ser uma religião de Estado e, ainda, pelas provocadoras dúvidas de Jesus em suas profundas reflexões acerca de sua missão. Que a reação viesse do catolicismo, isso era esperado, mas nunca a esperava por parte do governo de Portugal. Por isso decide se exilar em Lanzarote, nas ilhas Canárias, na Espanha, onde estabelece sua residência definitiva, sem romper relações com Portugal, contudo.

O oitavo capítulo é dedicado a um novo e brilhante momento do escritor. Uma fase de decepções e, ao final, um vislumbrar de esperanças. O capítulo é maravilhoso, começando por uma descrição da pós modernidade e das descrenças no mundo do iluminismo, da razão. Descreve o surgimento do pensamento único e do neoliberalismo e o advento da absolutização dos valores do mercado e do consumo. São "cegos que veem, Cegos que vendo, não veem", conclui em seu romance de abertura do ciclo Ensaio sobre a cegueira. Este ciclo de distopias segue com A Caverna e O homem duplicado. As reações ao neoliberalismo o fazem ver o mundo com um pouco mais de otimismo e publica Ensaio sobre a lucidez. Depois seguem os seus livros do ciclo derradeiro, As intermitências da morte, As pequenas memórias, A viagem do elefante, muito apreciado pela crítica especializada e, por fim, Caim, o seu acerto com o Deus do Antigo Testamento.

O nono capítulo apresenta o Saramago como um Superstar, ou um intelectual total, após todas as premiações e honras que recebeu mundo afora. O grande destaque vai para o recebimento do prêmio Nobel de Literatura, em função de O Evangelho segundo Jesus Cristo, no ano de 1998, único Nobel concedido para um escritor da língua portuguesa. Neste capítulo são também registrados números impressionantes sobre a recepção de sua obra em todo o mundo. O livro encerra apontando para as principais polêmicas em que o escritor se envolveu para além daquelas de O Diário de Notícias e do Evangelho, para questões polêmicas do mundo atual, com grande destaque para a violência que os palestinos sofreram em Ramalla, comparando estas atrocidades com as cometidas em Auschwitz.

Ao final da leitura, que serve também como uma excelente introdução para a obra de Saramago, fui acometido de um enorme desejo de releitura de sua obra, sob a luz dos esclarecimentos aqui adquiridos. Os que mais movimentaram o meu desejo de releitura foram os primeiros, Memorial do Convento e Levantando do chão, pela grande mensagem positiva de que são portadores. 



 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Complexo de vira-latas. Nelson Rodrigues.

Complexo de vira-latas. Esta é seguramente uma das expressões muito usadas com relação a um complexo de inferioridade do Brasil, ou do povo brasileiro, diante de outros povos, especialmente, diante dos europeus e dos Estados Unidos. A expressão tem origem no futebol, mas lamentavelmente não se restringe a ele. Ele se refere também a questões raciais e econômicas e tem consequências gravíssimas para a economia e a sociedade brasileira.
Curiosidades para além da literatura. O conhecimento de um ser humano e a sua época.

O Brasil como país, pátria ou nação tem um despertar tardio. Muitos de nossa elite fizeram todo um esforço e teorizaram de que seríamos uma eterna colônia. Misturas raciais não combinavam com as chamadas eugenias raciais e o determinismo geográfico climático seriam os pecados originais de nossa eterna condenação. Estas teorias começaram a ser contestadas e revertidas, especialmente, a partir dos anos 1930, com escritores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e também José Lins do Rego. Isso ocorreu no campo racial e econômico e com a construção da nação brasileira a partir dos anos 1930.

Lendo o ABC de José Lins do Rego, encontrei referência direta para a expressão "complexo de vira-latas". É sabida de todos a grande paixão do escritor paraibano pelo futebol. A sua aproximação com este esporte se deu através de Leônidas, o "craque de ébano". Este craque começou a despontar em 1932, quando o Brasil conquistou, no Uruguai, a  copa Rio Branco. Em 1943, Mário Filho escreveu a respeito - Copa Rio Branco 1932 - e José Lins do Rego prefaciou o livro e mostrou todo o seu entusiasmo:

"Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia racial, onde Paulinho, filho de uma família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo". Um tanto romântico, mas que faz tanto bem, em tempos de extravasamento de ódio, como os que estamos vivendo.

Na Copa do Mundo de 1938, na França, o Brasil conquistou o terceiro lugar e Leônidas, o "diamante negro" foi o craque e goleador da copa. Aí veio a interrupção das copas, por 12 anos, provocada pela segunda guerra, mas a paixão pelo futebol só crescia. A copa apenas voltaria em 1950 e o Brasil se candidatara a sediá-la. Mas aí começa a história do complexo. Vou descrevê-la na íntegra, na pena de Bernardo Borges Buarque de Holanda, em seu livro ABC de José Lins do Rego. Isso está nas páginas 170-171.

"Finda a guerra, em 1944, o Brasil se candidatou a realizar a IV copa do Mundo de futebol, prevista para o ano de 1950. Em companhia de Mário Filho, José Lins se empenhou com afinco para que o país sediasse o campeonato.

A fim de dar mostras da capacidade do desenvolvimento do Brasil como nação moderna e civilizada, o escritor participou de maneira ativa da campanha pela construção de um estádio, grande e moderno, aquele que fosse "o maior do mundo". Graças a empenhos como esses, entre 1948 e 1949, foi construído o "colosso do Derby", designação inicial para o Estádio Municipal do Rio de Janeiro. Hoje, o estádio é conhecido popularmente como Maracanã. De fato, ao longo do tempo, o estádio ficou conhecido por atrair as massas. Dada a grandiosidade de sua arquitetura, o estádio foi capaz de receber aglomerações de até 200 mil pessoas, cerca de um décimo da população da cidade do Rio na época.

A Copa foi afinal realizada com sucesso, mas o resultado da equipe brasileira não foi o desejado pela população e pelas autoridades. A derrota frente à tradicional e forte seleção uruguaia, na partida decisiva, ganhou tintas de uma tragédia grega. A tristeza não impediu que José Lins do Rego visse naquele resultado uma prova de amadurecimento do povo brasileiro. Este soube se valer da perda do título para extrair uma lição de aprendizagem.

Quatro anos depois a equipe do Brasil protagonizaria um novo insucesso nos campos de futebol, durante a Copa do Mundo da Suíça (1954). Ao contrário da posição afirmativa de José Lins, que chegara a angariar fundos para a viabilização da viagem da delegação aos cantões suíços, as críticas aos jogadores viriam ampliar o ceticismo dos cronistas quanto a uma suposta fraqueza de índole dos atletas brasileiros. Esses eram vistos pelas classes dirigentes como expressão dos problemas e deficiências inerentes à formação histórica da nacionalidade e ao caráter do homem comum brasileiro.

Essas dificuldades se manifestaram em termos de uma psicologia coletiva: Na hora H, nos gramados, em momentos de decisão, o brasileiro tremia, fraquejava, deixava se intimidar diante dos adversários. Faltava-lhe o sangue-frio dos europeus, como os jogadores húngaros, contra os quais os brasileiros foram eliminados da competição. Trocando em miúdos, tratava-se daquilo que o cronista Nelson Rodrigues, em 1958, apelidou jocosamente de "complexo de vira-latas". A ideia de uma inferioridade inata, fruto da mistura racial exacerbada no Brasil".

Sem comentários.

terça-feira, 18 de julho de 2017

ABC de José Lins do Rego. Bernardo Borges Buarque de Holanda.


Que livro maravilhoso. Confesso que superou todas as minhas expectativas. Este é mais um dos livros de feira de ponta de estoque. O autor demonstra profundo conhecimento da obra de José Lins do Rego e o situa muito bem dentro do contexto da literatura brasileira. Estou falando de ABC de José Lins do Rego, escrito pelo professor da FGV, Rio de Janeiro, Bernardo Borges Buarque de Holanda. O livro é da Editora José Olympio, a editora responsável pela obra do grande escritor paraibano e brasileiro.
De A a Z, a vida do grande escritor. Um trabalho criterioso.

No nordeste os ABCs são bastante conhecidos, especialmente, através da literatura de cordel. Talvez seja a razão do autor ter escolhido esta forma para apresentar o intrigante escritor, que somou em sua literatura o cronista, o memorialista e o romancista de tamanha envergadura. Este monumental escrito passou pelos ciclos da cana de açúcar (do engenho às usinas), pelo misticismo, pelo cangaço e pela seca.  O autor escreveu, de cada uma das 26 letras do alfabeto, uma palavra para destacar a vida e a obra do autor de Fogo Morto, sua obra prima. Vou dar as palavras.

O A somente se poderia referir ao açúcar, a grande razão de ser de toda a obra. O B remete a Babu, o avô do Menino do Engenho. O C se refere a Corredor, nome do engenho onde o menino passou os seus oito primeiros anos de vida. O D lembra o Colégio Diocesano, onde aos oito o Doidinho foi estudar. Considerou o colégio como um reformatório. Doidinho é um dos grandes romances de formação da literatura brasileira. Isto foi em Itabaiana e logo depois na capital.

O E remete à escola de Recife, de onde sai como bacharel em Direito. O F manda para o seu grande livro Fogo Morto e a uma bela descrição de seus personagens. O G o relaciona com Gilberto Freyre, seu grande amigo, influenciador e com o qual estabelece uma visão positiva de interpretação de Brasil. O H lembra as Histórias da velha Totônia, que tanto lhe incendiaram a imaginação em sua infância. São os contos das criadas da casa que tanto bem fizeram ao menino. O I é de Ita, a embarcação que fez o escritor andar pelas capitais literárias do nordeste, Recife, João Pessoa e Maceió e depois o levou ao Rio de Janeiro. Era o principal instrumento de locomoção no litoral brasileiro.

O J é do importante livreiro e amigo José Olympio. Um dos homens a quem mais a literatura brasileira deve, pelos seus estímulos e pela edição de seus livros. Era um lugar de fervo cultural, pois, junto a editora havia também a livraria. O K é de Keynes. Sim, o economista inglês a favor da intervenção no mercado o influenciou e o ajudou a compreender os cenários das crises decorrentes de 1929. O L é de Leônidas, o craque brasileiro que o levou ao fanatismo no futebol e a promoção da beleza da mistura das raças. O M é de Memória e imaginação. De novo somos levadas à infância do menino e ao que se avivou em sua memória e o que foi a ela acrescido pela imaginação. O N é de Naná, Philemena Massa, a companheira de toda a sua vida. 

O O é de opulência e o seu trágico fim com a decadência. É o tema de sua literatura, o açúcar. Dos engenhos às usinas e as transmutações que foram provocadas, econômicas e sociais. O P volta ao futebol, a imensa Paixão pelo Flamengo, de quem foi até dirigente. O Q é de Quixote, o famoso terceiro personagem de Fogo Morto, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa-Rabo. O R é de Região e tradição, ou seja, do romance regional ao homem universal. O S remete ao Sertanejo forte, o tema de sua obra que remete inclusive para a questão dos cangaceiros. O T é de Tradução e adaptação, onde é mostrada a abrangência mundial da obra do escritor.

O U é de Usinas e engenhos, de novo, a razão maior de ser de toda a obra. Este tópico é entremeado com um belo álbum de fotografias. A letra V remete ao Viandante. Ele viajou basicamente pelo por três razões. Por questões diplomáticas, como dirigente de futebol e a turismo. Deixou tudo registrado. O W remete a Western Raylroad Company, ou ao trem que esteve sempre presente em sua vida, especialmente nos anos de sua infância. O X remete às xilogravuras que ilustram a sua obra. O Y, ou ipsilone, nos remete à liberdade de criação, com uma beleza de frase: "Os grandes escritores têm a sua língua; os medíocres a sua gramática. Já o Z final nos remete as Zelinianas, onde é mostrado o seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, quando em discurso fora de praxe  desancou as qualidade de seus antecessor.

Ao final, um pequeno lamento. Depois de 292 páginas acabaram as letras do ABC de José Lins do Rego. Uma obra simplesmente magistral.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Por que ler Oswald de Andrade. Maria Augusta Fonseca.

A leitura de um livro muitas vezes pode levar a leitura de outro. Foi o que aconteceu comigo, que após a leitura de Oswald de Andrade - biografia, de Maria Augusta Fonseca, li agora, da mesma autora Por que ler Oswald de Andrade. A biografia me impressionou muito e o mesmo aconteceu agora com um passeio pela sua obra. Adquiri os dois livros numa mini feira de livros, da Top Livros, que vende ponta de estoque, ou seja, os livros que encalham nas editoras. Só assim para poder comprar livros, quando se tem um governo que não dá reajuste salarial aos professores estaduais. Quero deixar claro que sou professor aposentado da rede pública estadual do Paraná, onde o governador é o minúsculo carlos alberto richa, minúsculo como político, porém forte em sua virulência.
Um livro magistral. Em favor de uma cultura realmente brasileira.

Oswald de Andrade é um dos maiores nomes da cultura brasileira. Teve, na organização da Semana de Arte Moderna, de 1922, a sua maior evidência. Creio que o podemos caracterizar como um espírito extremamente irrequieto e insatisfeito com os destinos gerais da nação brasileira, especialmente, o seu atrelamento cultural aos padrões culturais europeus. Por este atrelamento jamais haveria criação cultural própria, apenas cópia.

Conversando com um professor da área de literatura, ele me contou que nos seus anos de formação acadêmica, eles recebiam orientação para não lerem Oswald de Andrade, mas apenas Mário de Andrade. Este sim era um escritor de valor. É compreensível. Oswald de Andrade é realmente um grande e irreverente iconoclasta. Quem se utiliza da ironia, da sátira e do escracho sempre estará sujeito a ter poderosos inimigos. Pelo pouco que dele li, já o considero meio imprescindível para quem efetivamente queira conhecer a realidade brasileira, especialmente em seus aspectos culturais.

O livro tem cinco capítulos, mas é centrado no terceiro. No primeiro - um retrato do artista - são retomados dados biográficos do autor. Oswald nasceu em berço esplêndido e a família nunca economizou recursos para que ele acompanhasse a evolução cultural mundial. Onde ela acontecia, Oswald deveria estar presente. Assim a sua vida girou em torno dos grandes polos culturais da humanidade. A crise do café atingiu os alicerces econômicos da família, somados a questões administrativas, com as quais o homem da cultura tinha poucas afinidades.

No segundo capítulo - cronologia - a sua vida é apresentada em sua linearidade, começando com o nascimento em 1890 e terminando em 1954, o ano de sua morte. Abolição da escravidão, fim da monarquia e proclamação da República são fatos que repercutem em sua infância. Ganham destaque também os movimentos de tomada de consciência deste país, ao final da década de 1910 e ao longo da década de 1920, sendo ele um dos mais ativos participantes, com grande destaque para 1922. Estrondosas vaias não o perturbaram. A fase posterior ao 1930 também está vivamente presente em sua vida e obra. Neste período trilhou até os caminhos da esquerda integrando-se, de forma meio rebelde, ao partidão.

O terceiro capítulo - Ensaio de Leitura - ocupa em torno de dois terços do livro, e sem dúvida é a sua razão de ser. Toda a sua obra é analisada. Não apenas os livros, mas também as suas intervenções como ativo cronista dos grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Inicia com O Pirralho e termina com Um homem sem profissão sob as ordens de mamãe, passando pelo Manifesto da Poesia Pau Brasil, e do Manifesto antropofágico, um verdadeiro libelo contra a nossa dominação cultural. Não resisto em apresentar um parágrafo do livro sobre esta questão.

"Como se sabe, entre os diversos sentidos do termo, a antropofagia é conhecida como um ritual de valoração para certos ameríndios que comiam o inimigo a fim de assimilar suas qualidades de guerreiro. No manifesto, à luz dessa tradição, Oswald elaborou a paródia de uma conhecida  fala do príncipe Hamlet, devorando a seu modo a cultura europeia. Arrancava disso uma questão nuclear - Tupi or not tupi - that is the question. Oswald formula essa nova dúvida também como um desafio, por um trocadilho brincalhão. Nota-se que escreve sem usar um único termo da língua portuguesa, já que "tupi" é um som transliterado da língua geral (sem registro escrito). Nesse esforço de conscientização, Oswald repeliu no manifesto a "catequese" da "raça superior", do conquistador que impôs ao ameríndio sua moral repressora, castrando sua cultura, "vestindo suas vergonhas", lembrando que o colonizador branco esmagou a cultura nativa".

A análise passa ainda pelo O Homem do Povo", a fase comunista pela qual passa o escritor junto com Pagu, sua companheira nesta empreitada. Passa ainda pelo seu teatro, com grande destaque para O rei da vela. Passa também pela crítica social de O santeiro do mangue, em que são retratadas as mazelas da sociedade brasileira e a perversidade de sua elite. Também a sua poesia é analisada. Por fim é vista a sua obra de ficção. Memórias sentimentais de João Miramar, Serafim Ponte Grande, Marco Zero e o último de seus livros Um homem sem profissão sob as ordens de mamãe. Confesso que estes últimos são os que mais me interessaram, junto com o rei da vela e os manifestos.

Entre aspas é o nome do quarto capítulo. Neles são escolhidos, aleatoriamente, algumas passagens notáveis de sua obra. O livro se encerra com o quinto capítulo Estante, onde a sua obra é apresentada. Mas não posso encerrar este post sem a memorável frase de Oswald que serve de epígrafe ao livro. CONTESTAR É UM DEVER DA INTELIGÊNCIA.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

ADHEMAR. Fé em Deus e pé na tábua. Amilton Lovato.

"Amado e combatido, aclamado e atacado em toda sua carreira política, o homem que faleceu ontem, em Paris, deixa, para a história de São Paulo e do Brasil, uma das mais controvertidas imagens entre os políticos de seu tempo". Desta forma a Folha de S.Paulo anunciou a morte de Adhemar de Barros, ocorrida em Paris, no dia 12 de março de 1969, já em pleno fervilhar da radicalização da golpe militar, após a edição do AI-5, em dezembro do ano anterior.
Uma bela biografia. Da Geração Editorial.

Uma imagem controvertida. Creio que este conceito é o que merece o maior destaque com relação a biografia deste importante personagem político paulista e brasileiro. Cheguei a esta biografia pela feira de livros da Top Livros, livros de ponta de estoque, em que estes são vendidos por preço único de dez reais. Isso de forma alguma significa dizer que o livro não tenha o seu valor. Preço, gosto por biografias e uma certa curiosidade me fizeram comprar o livro. A autoria do livro é de Amilton Lovato, um advogado do interior paulista.

Adhemar nasceu na cidade de Piracicaba em 1901. A sua formação profissional se deu no Rio Janeiro, na Faculdade de Medicina. A sua vida política começou com a Revolução Constitucionalista de 1932. Nunca teve uma cor ideológica e foi fortemente marcado pelo seu destempero verbal. O "rouba mas faz" foi um slogan que o acompanhou ao longo de sua vida política. É o que lemos na orelha do livro como uma espécie de apresentação do mesmo. Também como um outro paulista, hoje em triste evidência, ele se fartava no uso de mesóclises.

O livro se desenvolve ao longo de dezesseis capítulos, distribuídos ao longo de 367 páginas. Nos capítulos iniciais se fala de sua formação, sobre a sua origem familiar, como filho de um dos maiores cafeicultores de São Paulo, sua participação na Revolução Constitucionalista, a posterior adesão a Getúlio e a sua nomeação como interventor no Estado de São Paulo, pelo caudilho. Isso lhe deu imenso gosto pelo poder, o que o tornou um rival do próprio Getúlio.

Nos capítulos que seguem ele é mostrado como o criador do PSP, o grande partido paulista, as suas ligações com o PTB e a sua volta ao governo de São Paulo pela via eleitoral.  Recebe forte oposição da família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de São Paulo. As circunstâncias o fazem adiar o seu sonho presidencial, presta ajuda a um novo político que surge na pessoa de Jânio Quadros, de quem se torna, posteriormente, inimigo figadal. Rompe com Getúlio, contra o qual começa a tramar, juntamente com Carlos Lacerda.

Com a sucessão de Getúlio começa um aparente declínio, perdendo a eleição presidencial para Juscelino e sofrendo condenações judiciais e empreendendo fugas. Vence as eleições para a prefeitura de São Paulo e prepara nova ofensiva para as eleições presidenciais de 1960, quando o seu inimigo Jânio sai como vencedor. Após a renúncia de Jânio como presidente, Adhemar mais uma vez se candidata a governador de São Paulo e vence as eleições. Com o golpe de 1964, do qual foi ativo articulador, mais uma vez se torna protagonista da história. Os três capítulos finais tratam desta questão e que sem dúvida são os mais importantes capítulos do livro. São os capítulos 14. A Redentora; 15. Decepção e Ousadia e 16. O Fim.

As suas aspirações políticas o incompatibilizam com a ditadura militar, uma vez que continuava alimentando o seu sonho presidencial. Aos poucos os militares foram se livrando de todas as lideranças civis que os apoiaram no golpe e Adhemar foi por eles deposto do cargo de governador, sendo substituído por Laudo Natel. Adhemar assim conta do seu afastamento:

"Surpreendido com o decreto de suspensão dos meus direitos políticos, sinto-me no dever indeclinável de me dirigir, neste momento tão grave da nossa vida, ao povo brasileiro. Jamais poderia imaginar que a mesma revolução para cuja vitória tão decisivamente contribuí, arriscando naquela altura a minha vida e este próprio mandato, viesse um dia arrebatar os meus direitos políticos. Compelido a deixar o mandato que, pela terceira vez, o povo me confiou, protesto perante a História pela violência que assim compromete todos os princípios da democracia, por cuja sobrevivência lutamos a 31 de março. Grato a meu povo, fiel à minha Nação, confio aqui o meu até sempre e confirmo a minha confiança num Brasil democrático. Rogo a Deus proteger minha Pátria".

O livro termina com um epílogo, em que é narrado o assalto ao cofre do Adhemar, já nos anos de chumbo. O grupo VAR-Palmares foi o autor desta bastante conhecida façanha, mas nunca bem esclarecida. O assalto ao cofre ocorreu na casa de sua eterna amante Ana Capriglione e no qual teriam sido encontrados 2,5 milhões de dólares. Com certeza um livro bem interessante de um personagem político nem tanto.





quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carta Manifesto em Defesa da Filosofia no Ensino Médio.

Tive oportunidade de participar deste encontro. Considero esta carta manifesto como uma das melhores análises conjunturais da situação educacional do país, especialmente, no que se refere ao Ensino Médio. A publico, em primeiro lugar pela sua importância e em segundo, para que mais gente tenha acesso a ela, para efeitos de estudos e debates. Ela vai na íntegra, junto com as primeiras assinaturas que foram apostas ao importante documento. 
Cartaz convocando para o XVII Encontro do Nesef.
 

Carta-Manifesto contra privatização e a descaracterização da Educação Pública no país e pelo fortalecimento do Fórum Nacional em Defesa da Filosofia no Ensino Médio
Curitiba, 23 de junho de 2017.

Nós professores/as, estudantes, profissionais em educação e entidades educacionais, estudantis e sindicais reunidos no XVII Encontro do Nesef, V Olimpíada do Ensino Médio e I Encontro Nacional de Educação Filosófica, em 23 de junho de 2017, na Universidade Federal do Paraná, norteados pelo ideal da formação integral e pela garantia dos direitos dos cidadãos, vimos a público nos manifestar: (1) contra as Reformas em curso, em especial, as voltadas ao Ensino Médio; (2) contra quaisquer intimidações, cerceamento das liberdades constitucionais de manifestação e organização e ameaças perpetradas pelo Estado de Exceção.

É sabido que as Reformas educacionais, recentemente impostas pelo Executivo, com o apoio da maioria dos Congressistas, integram um projeto que visa, ao mesmo tempo, enfraquecer o Estado Democrático e de Direito e franquear todos os serviços e bens públicos à iniciativa privada. Existe, portanto, uma ligação estreita entre o conjunto das Reformas, que principiou com o congelamento dos investimentos públicos em saúde, educação e segurança públicas por vinte anos a partir de 2018, seguiu com a Reforma do Ensino Médio e a abertura total à terceirização de atividades laborais e pretende, ainda, aprovar leis que, na prática, cassam o direito à aposentadoria da classe trabalhadora e reduzem seus direitos a patamares semelhantes aos vigentes no século 19.

Todas as reformas hoje em andamento no Brasil têm relação direta com o projeto privatista, neoliberal que se fortaleceu a partir de 2015, e cuja concretização tem ocorrido desde 17/04/2016, quando a Presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, foi afastada do cargo, em Sessão presidida pelo Supremo Tribunal Federal a pretexto de um “crime” jamais tipificado como tal.

O processo de impeachment resultou, pouco mais de um ano após sua efetivação, em Reformas que aviltam a democracia, retiram direitos dos/as trabalhadores/as, transferem recursos naturais nacionais (petróleo, água, biodiversidade) aos grupos multinacionais e visam transformar a Saúde, a Educação e a Segurança Pública em serviços privados sustentados com o dinheiro público.

Nesse verdadeiro “leilão” em que o Brasil foi transformado pelo golpe jurídico e midiático, perdem os/as cidadãos/ãs, ao passo que as grandes corporações, os bancos internacionais e o agronegócio tendem a lucrar cada vez mais.

A Reforma do Ensino Médio retira a autonomia das escolas, acaba com a possibilidade de que as mesmas sejam geridas de forma mais democrática, desconfigura o papel do/a pedagogo/a escolar, banaliza os conteúdos escolares, retira a identidade profissional dos/as professores/as, reduz
drasticamente o acesso de estudantes ao conhecimento sistematizado, fere de morte o ensino noturno, a modalidade Educação de Jovens e Adultos e os cursos de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional, além de direcionar aos empresários da educação boa parte dos recursos do Fundeb. Em suma: o que está em curso não é um projeto modernizante para a educação brasileira, mas o aprofundamento de um projeto de Estado de caráter privatista e entreguista, marcado pelo aprofundamento do neoliberalismo, no âmbito, global e pela “rapinagem” dos recursos públicos, no âmbito nacional.

Embora a classe trabalhadora ainda não pareça ter se dado conta da gravidade da situação, ou seja: a população em geral, que não se resume a uma classe média conservadora e incauta, ainda pareça não conseguir diferenciar o modelo neoliberal de rapina que o governo golpista e seus aliados estão implementando a passos largos, do modelo de base reformista-progressista que predominou no país desde 2003, entende-se que é preciso reagir.

A reação, por sua vez, presume conhecimento das medidas, considerando suas intenções e prováveis efeitos imediatos e de prazo mais longo.

A Reforma do Ensino Médio, Lei 13.415/2017, ponto-chave das ações de deterioração do Estado de Direito, foi apresentada a partir de uma Medida Provisória, cuja origem encontra-se no PL 6840/2013.

Promulgada mediante um ato unipessoal, autoritário do presidente da República Michel Temer, com força imediata de lei, a Reforma interrompe violentamente um processo de discussão em curso no interior dos diferentes espaços, como escolas e universidades e, também, no Mec.

A Reforma, em suma, desconsidera as Conferências de Educação e o PNE, assim como todo o acúmulo de discussões, projetos e programas realizados por quem tem autoridade pedagógica, intelectual e moral para intervir no campo educacional, isto é, os próprios sujeitos que cotidianamente vivenciam e pensam a Educação.

O texto da lei altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº9394/96, para instituir uma suspeita jornada em tempo integral no Ensino Médio, dispondo sob a reorganização do currículo em áreas do conhecimento, tais quais: Linguagens, Matemática, Ciências da natureza e Ciências humanas, justaposta à Base Nacional Curricular Comum (BNCC).

Mas, é no financiamento, a parte do texto mais negligenciada pela grande mídia, que a Reforma diz realmente a que veio. Foram, aliás, as mudanças no financiamento da Educação e da Saúde, que obrigaram o Governo Michel Temer a realizar alterações no texto da Constituição de 1988. Ocorre que o Novo Ensino Médio, subverte a lógica redistributiva e equacionadora das diferenças regionais do Fundeb; transforma os Sistemas de Ensino, Estaduais e Municipais, em agentes que têm a tarefa de redistribuir os recursos educacionais para a iniciativa privada, tendo como critério principal os interesses imediatos do mercado. A formação de estoque populacional de mão-de-obra, conforme manifestação do setor da indústria paulista, presente nas solenidades de divulgação da Reforma, em 2016, é, segundo executivos do atual Mec, o objetivo da Escola Pública.

Para tanto, propõe-se a composição do currículo do Ensino Médio a partir da BNCC e por Itinerários Formativos Específicos, estes definidos pelos sistemas de ensino, sob a pressão do mercado, que, via de regra, financia o sistema eleitoral e tem com Governadores e Prefeitos uma relação historicamente marcada pela troca de benesses mútuas.

A 5ª área (itinerário formativo) incluída, posteriormente ao PL 6840/2013, na MP e no texto final da Lei 13.415/2017, chamada de Formação Técnica e Profissional, é a que mais claramente abre o espaço da escola pública para Sistemas privados, como o Sistema S (SENAC, SENAI, SESI), na formação tecnicista de mão-de-obra.

A Reforma vai mais longe ao abandonar a exigência de formação superior (licenciatura) para docentes e ao obrigar que haja mecanismos de certificação de todas as vivências e cursos realizados pelos estudantes, independente de sua qualidade ou pertinência epistemológica. Ela incentiva e facilita a Educação a Distância, a adoção de sistemas de créditos e a organização escolar modular. 

A ampliação do tempo escolar é, por assim dizer, uma falácia, pois na verdade, conforme a Portaria Mec 1.145/2016, que regulamenta a Reforma, há a redução de, no mínimo, 1/5 do tempo hoje destinado à socialização dos conhecimentos historicamente produzidos e socialmente referendados. Não por acaso, as únicas disciplinas com algum destaque no texto são as que atualmente integram as provas dos viciados Sistemas de Avaliação em Larga Escala, estes, também, desfigurados de seu papel social de servir como elementos de orientação de políticas públicas educacionais e, como toda a área social, atualmente entregue aos empresários da educação.

O Caráter ideológico das reformas também se expressou através do PLC 193/16, que propõe o “Programa Escola sem Partido”, considerado uma “Lei da Mordaça".

Em Outubro de 2016, milhares de estudante de todo o país se manifestaram contra a, então, Medida Provisória e contra os cortes em investimentos sociais, ambos aprovados, em um movimento que ficou conhecido como Primavera Estudantil. Foi o maior movimento de ocupações urbanas registrado na história ocidental. Mais de 1000 escolas e universidades foram ocupadas pelos estudantes, 816 delas, no Paraná. A repressão do Estado foi violenta; centenas de reintegrações de posse foram realizadas e, no plano ideológico, a mídia conservadora e movimentos ancorados pelo apoio das camadas médias (como o MBL), foram mobilizados e financiados pelo Estado e Empresários a fim de difamar estudantes e descaracterizar os seus ideais legítimos.

Inúmeros professores de escolas públicas e universidades, bem como entidades sindicais acompanharam as ocupações das escolas públicas. Estas foram protagonizadas pelas lideranças estudantis e por jovens conscientes de que a educação é um direito social e está para além da formação de reserva de mão-de-obra para o mercado. Após o desfecho do Movimento, muitos apoiadores e simpatizantes das Ocupas sofreram represálias. Hoje, junho de 2017, aproximadamente 3.000 professores/as no Estado do Paraná estão sob sindicância, perseguição política e/ou sofrendo processos administrativos por terem acompanhado menores estudantes no momento histórico em que as ocupações se fortaleceram.

Para um conjunto desavisado da sociedade civil o protagonismo das lideranças estudantis ficou submetido à “doutrinação ideológica e política”, “formação de quadrilhas” e “conspiração” – atributos estes presentes em denúncias estabelecidas no Estado do Paraná contra muitos docentes que estavam na condição de suporte aos jovens autonomamente organizados.

Para além do posicionamento crítico em relação às reformas e as aviltantes perseguições políticas vivenciadas ainda hoje em decorrência das manifestações democráticas, e, em especial, pela reafirmação do Estado de Direito, propomos:

1. o fortalecimento do Fórum Nacional em Defesa da Filosofia no Ensino Médio, criado em 22/06/2017, com o objetivo de organizar, em nível nacional, um movimento de resistência em relação às reformas em curso e lutar pela manutenção e legitimação da Filosofia como disciplina curricular no Ensino Médio;

2. a aproximação dos intelectuais da filosofia, e das demais humanidades, das lutas sociais, incentivando e intervindo nos debates públicos, visando o esclarecimento e a coerência ético-política; 

3. a realização de análises e críticas públicas, denunciando práticas cínicas e/ou abusivas tanto da parte dos poderes públicos, quanto de indivíduos e organizações.

4. O acompanhamento e a divulgação do transcurso do processo de implementação da Reforma do Ensino Médio, mediante a criação e a alimentação de canais apropriados e de ampla publicidade.
E, finalmente, conclamamos aos coletivos organizados representativos das disciplinas de História, Sociologia, Geografia e Arte se articulem ao Fórum Nacional em Defesa da Filosofia no Ensino Médio, na perspectiva que este se amplie e venha a constituir-se num Fórum em Defesa das Humanidades.

Assinaturas – pessoas/entidades
Geraldo Balduino Horn – Nesef-UFPR; Valéria Arias – Nesef-UFPR/CEP; Emmanuel Appel – Defi-Nesef-UFPR; Anita Helena Sclesener – Nesef-UFPR; Rafael Athayde – Nesef-UFPR; Luiz Carlos Paixão – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação; Lucrécio de Sá – UFRN; Ademir Aparecido Pinhelli Mendes – Nesef-UFPR/Uninter; Ana Paula Barbosa – CEP; Maurício Gadelha Alves – IFRN; Sara Eduarda – Acadêmica de Filosofia – UFPR; Marcelo Moraes – Nesef-UFPR; Juan Carlo Armiliato – Nesef-UFPR; Elio da Silva – Nesef-UFPR; Luciana da Silva Teixeira – FAE; Antônio Joaquim Severino – Grupefe-Uninove; Gisele Moura Schnorr – Unespar; Elisete Tomazetti – UFSM; Emmanuel Appel – Defi-UFPR; Alexander Machado – Cafil-UFPR; Bernardo Kestring – Nesef, Sinpes, Unibrasil, Fasban; Elisane Fank – Nesef/-CEP; Edson Teixeira – Nesef; Raquel Aline Zanini – Nesef-CEP; Alessandro V. Corrêa – Nesef; Luciana Vieira de Lima – Nesef; Rui Valese – Nesef; Wilson José Vieira – Nesef-CEP; Paulo Renato Araújo – Nesef-Rádio Camélia; Antônio Charles Santiago – Unespar; Jean Lucas Tavares – Unespar; Pedro Batista – Unespar; Eliane Blaszkowski Champaoski – Uninter; Arthur Silva Araújo – Filosofia Uninter; Cleber Dias de Araújo – Nesef-UFPR; Delcio Junkes – Nesef-UFPR; Ana Carolina Camargo Morello – Nesef- UFPR; Altair Gabardo Percicotty – Nesef-UFPR; Maria Rosa Chaves Künzle – APP-Sindicato; André Bagattini – Profi-Filo-UFPR; Gilca Ribeiro – Grupefe-Uninove; Karine Amado Garcia– Grupefe-Uninove; Dimitri Wuo Pereira – Grupefe-Uninove; Ofélia Maria Marcondes - Grupefe-Uninove; Rita de Cassia de Campos Andery - Grupefe-Uninove; Sandro Adrian Baraldi - Grupefe-Uninove; Cláudia Cisiane Benetti – UFSM; Elisete Medianeira Tomazetti – UFSM; Bruna Gabriela Domingues – Unespar; Pâmela Bueno Costa – Unespar; Marcos Aurélio; Pedro Elói Rech – APP Metrosul; Balaban – Unespar; Márcia Regina Mocelin – Uninter; Sonia de Fátima Radvanskei – Uninter; Cláudia S. Rosa da Silva – Uninter; Cristiane Dall Agnol da Silva Benvenutti – Uninter; Wilson da Silva – Uninter; Genoveva Ribas Claro – Uninter; Bruna Tratz Passos – Nesef-Uniplac; Márcia Heck – Nesef-Uniplac; Vanice dos Santos ¬– Nesef-Uniplac; Luciana Oliveira – Nesef-Uniplac; Luciana Nunes – Nesef-Uniplac; Priscila Schneider – Nesef-Uniplac; Aurelio dos Santos Souza – Nesef-Uniplac; Márcio Jarek – Professor de Filosofia do Ensino Superior; Alessandro Reina – Nesef-UFPR; Antonio Carlos Carneiro – Fae; Gustavo Henrique Adão – Fae: Patrícia da Silva Tristão – Fae; Vera Fátima Dullius – Fae; José Carlos Bassi – Fae; Junior e Jefferson Tuchinski Class – Fae; Adriana do Pilar Rosa Dias – Fae; Marcia Cristina de Souza – Fae; Lucas Lipka Pedron – Nesef-Gefil-UFPR; Emerson Nogueira – Cafil/-UFPR; Luiz Otávio M. Fiori – Cafil-UFPR; Weliton Alécio Tarelho – Nesef-Licenciar Filosofia e Ensino; Michele Cristine Manosso – Uninter; Michela Veras – Uninter; Elisandra Angrewski – Profa. de Filosofia; Carmen Lúcia F. Diez – Uniplac; Douglas Lopes – Nesef-UFPR.