domingo, 29 de março de 2020

O seminarista. Rubem Fonseca. Vestibular da UERJ.

Livros com indicação para vestibular são sempre uma das referências para as minhas leituras. Desta vez foi O Seminarista, de Rubem Fonseca, indicado para o vestibular da UERJ, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Devo confessar que tive também uma grande dose de curiosidade sobre a descrição de um seminarista, uma vez que eu também o fui. Aproveitando o embalo, comprei também o outro O seminarista, o do Bernardo Guimarães, que ainda não li.
A edição da Nova Fronteira de O Seminarista, de Rubem Fonseca.

A primeira observação minha é a de que "o especialista", ou o José Joaquim Kibir jamais fora um seminarista. É impossível para um seminarista se afastar tanto dos fundamentos doutrinários com que foi catequizado ao longo dos anos, a tal ponto de se transformar num frio assassino profissional, atendendo encomendas do "despachante". Aproveito para dizer que o especialista e o despachante são os dois personagens que ocupam as páginas dos primeiros capítulos.

Mas então por que será que a opção pelo título foi esta de O Seminarista? Será que foi apenas o fato da preferência de José por inúmeras citações em latim, que ele usava permanentemente, especialmente, quando em companhia de outro seminarista, o tal de D.S.? Ou seria pelo seu hábito de extrema pontualidade, virtude que reconheço em mim e em outros colegas do tempo de seminário. Ou seria ainda a questão de atender a uma preferência de sua mãe, e não a sua vontade própria, questão comum a quase todos. Ou seria a questão de ter sido expulso do seminário por razões libidinosas? É verdade que muito poucos seminaristas se tornaram padres, mas daí a se tornarem criminosos, isto eu não tinha nunca nem sequer imaginado.

Tudo bem, Rubem Fonseca, que, pelo que consta, nunca foi seminarista, é um romancista e como tal um ficcionista. E dos mais brilhantes. Rubem Fonseca foi comissário de polícia e talvez por isso, levou o seu personagem para o mundo do crime. Lendo sobre ele, vi que violência, erotismo e irreverência são os seus temas mais frequentes. Li também uma frase que grafei. Ela diz que Rubem escreve "sobre pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado". Tem muito arame farpado neste romance.

Bem, o "especialista" busca sua aposentadoria mas o seu breve passado não lhe dá sossego. O mundo do crime deixa muitas sequelas. É o momento em que entram em cena inúmeros outros personagens, como a Kirsten, por quem se apaixona loucamente, o D.S., seu antigo colega, um tal de Zaffir, entre outros.  O cenário do romance é o Rio de Janeiro. Traficantes entram em cena. No último dos 23 capítulos, além de confessar Amor aeternus por Kirsten, ele recebe um telefonema, que ele atende. Ele contem o seguinte diálogo: "Seminarista"? "Ele", respondi. "Seminarista, tenho um serviço para você". Uma espécie de síntese deste romance policial, que perfeitamente pode ser lido em único dia. São 179 páginas, divididas em 23 capítulos, contendo muitas encomendas.

Deixo ainda a orelha da capa: "Para o protagonista de O seminarista, matar não causa remorso, mas também não causa prazer. É apenas seu trabalho, que lhe permite se dedicar àquilo que realmente ama: livros, filmes e mulheres (No caso, apenas uma, Kirsten, a amor aeternus).  Não quer saber quem é a pessoa que será eliminada, nem mesmo lê os jornais do dia seguinte. Quando, no entanto, decide que já é hora de abandonar a profissão, descobre que não é tão imune aos efeitos de seus trabalhos e de suas escolhas como acredita ser, e tem que enfrentar fantasmas de um passado que pensa ter superado. Em seu décimo primeiro romance, Rubem Fonseca mais uma vez se mostra um dos mestres da narrativa brasileira, conciso e intenso, capaz de manter a tensão a cada página".

Rubem Fonseca nasceu na carioca cidade mineira de Juiz de Fora, em 1925, mas já aos oito anos se transfere para o Rio de Janeiro. O romance tem a data de 2009.

quinta-feira, 26 de março de 2020

A irmandade de São Pedro Claver. São Sebastião do Caí. No livro Escravidão.

Creio que eu sou um saudosista profundo. Tudo o que se refere aos locais de minha infância e juventude, me interessa e interessa muito. Agora, lendo o livro de Laurentino Gomes Escravidão Volume 1 - encontrei uma referência à cidade de São Sebastião do Caí. Jamais imaginei que isso fosse acontecer. A referência está ao final do capítulo 22, que tem por título A cruz e o chicote. O capítulo tem uma frase terrível em epígrafe: "Nunca consideramos este tráfico ilícito. Na América, todo escrúpulo é fora de propósito". A frase é do reitor de um seminário de jesuítas da cidade de Luanda (Angola), um dos grandes portos de exportação da mercadoria humana. O capítulo mostra o quanto a igreja católica esteve envolvida com o tráfico e com a escravidão.
A igreja matriz de São Sebastião do Caí.

Mas a referência à cidade de São Sebastião do Caí não é negativa. Pelo contrário, é extremamente positiva. Ao final do capítulo, quando o autor fala das irmandades, normalmente comandadas por entidades religiosas é que iremos encontrar a referência à cidade. A referência é com relação ao tamanho da instituição. Vejamos: "Uma dessas muitas irmandades - e talvez hoje a menos conhecida - foi fundada em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea, no município de São Sebastião do Caí, na Serra Gaúcha, região brasileira de imigração europeia que pouco recebeu escravos, pelo vigário alemão Estevão Kiefer. A nova instituição recebeu o nome de Irmandade de São Pedro Claver, em homenagem ao "escravo dos negros", de Cartagena das Índias, canonizado naquele mesmo ano". Cartagena é a cidade portuária colombiana, famosa por estar entre as que mais receberam escravos africanos. São Pedro Claver é o padroeiro da Colômbia.

Pois bem, vamos um pouco à minha história. Eu nasci em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no ano de 1945. Concluído o meu ensino primário, fui encaminhado aos seminários de Bom Princípio e Gravataí. Para Bom Princípio o padre Oscar Mallmann levava a gente. Havia, e ainda há, uma estrada ligando os dois lugarejos, sem passar pelo Caí, como a cidade é comumente chamada. Conheci o Caí, quando fui estudar no seminário em Gravataí. Era uma agonia para um menino tímido nascido na roça.

De manhã cedo pegávamos um ônibus, da empresa Rammé, que fazia a linha entre Tupandi e Montenegro. Apeávamos no Matiel, numa venda e fazíamos a travessia do rio Caí em uma pequena balsa. Travessia feita, já no Caí, pegávamos um ônibus que nos levava gratuitamente até a rodoviária,  para então embarcar para Porto Alegre. Parávamos na igreja de São Geraldo, na Avenida. Farrapos, onde largávamos nossas malas e depois íamos até o terminal do ônibus que nos levaria até Gravataí. Os padres iam buscar as nossas malas. O medo era sempre a nossa grande companheira. Medo de tudo. Medo aumentado pelas mil recomendações de cuidado que recebíamos de todo mundo.

Assim, por anos e anos, nas idas e voltas do seminário, bem como em outros momentos, nas férias ou em companhia dos pais, eu passava por São Sebastião do Caí. De Caí para Harmonia, normalmente caminhávamos até a balsa no rio e esperávamos num bar até a proximidade da noite, quando aquele ônibus da manhã fazia o seu caminho de volta. Se não quiséssemos esperar, um caminho de seis quilômetros era feito a pé. Pela frente tinha um morro terrível, o Morro Peixoto. Depois as coisas melhoraram, com mais linhas de ônibus, estes começaram a fazer paradas também na rodoviária do Caí. Montenegro, a cidade sede do município, vim conhecer bem mais tarde. O meu caminho de passagem sempre passava por São Sebastião do Caí. Hoje a cidade está ligada a Harmonia por, pasmem, três pontes de mão única e sem sinaleira de passagem. É meio no grito.

São Sebastião do Caí é uma cidade antiga. Tem muito a ver com a imigração alemã e também a italiana. Na verdade, ela não fica na serra, como fala o livro. Ela está no pé da serra. Tem muito a ver com São José do Hortêncio, que junto com São Leopoldo foram os berços da imigração alemã no Rio Grande do Sul.  As memórias de meu pai eram ainda mais antigas. Ele usava o porto de São Sebastião do Caí para vender porcos e comprar as poucas coisas que usávamos em casa. A partir do Caí o rio do mesmo nome não era mais navegável. Lembro também, que era no Caí que a minha família buscava toda a assistência médica, junto ao Dr. Bruno Cassel, um médico profundamente humanista, que depois enveredou para a política. Lembro também que minha mãe comprava tecidos na Casa Velten e todo ano ganhava um calendário que tinha também as fases da lua. Meu Deus, como minha memória está falha. Quase ia esquecendo da Loira casada, dos irmãos Bertussi.

Mais uma palavra sobre a cidade, para depois voltar ao livro do Laurentino. A cidade tem hoje 22.000 habitantes. Foi aí que surgiu a indústria A. J. Renner, que depois se transferiu para Porto Alegre. É também a cidade da indústria de conservas Oderich, que até hoje ali mantem a sua base de operações, dividindo-a, com várias outras cidades. A empresa tem uma bela história.
O livro Escravidão - de Laurentino Gomes. Volume I.

Bem, voltamos ao livro e ao padre:  Sensibilizado pela notável obra de caridade do jesuíta espanhol entre os escravos recém-chegados da África, padre Kiefer, também ele jesuíta, mandou pintar um quadro do santo, entregue aos representantes da população 'colorada' ou seja, os negros de sua paróquia, que desde então passaram a transportá-la em procissão pelas ruas da cidade. Hoje, entre os gaúchos, a palavra 'colorado' é associada à cor vermelha. No passado referia-se  aos negros e mulatos, que os imigrantes também chamavam de 'gentinha de cor'. Um dos primeiros clubes de futebol a aceitar jogadores e torcedores de origem africana foi o Internacional de Porto Alegre, enquanto seu rival, o Grêmio era o favorito dos italianos e alemães. Por isso, hoje, os torcedores do Inter se chamam, orgulhosamente, de 'colorados'". Mas deixo aqui a minha profissão de fé no Grêmio. 

Deixo ainda uma recomendação, um livro maravilhoso que enfoca toda a colonização do vale do rio Caí pelos padres jesuítas alemães. Trata-se do livro do padre Ambrósio Schupp S.J. A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul.

Nas notas do livro do Laurentino ele indica a fonte dessa sua pesquisa sobre a irmandade. Ei-la: "As informações sobre a Irmandade de São Pedro Claver em São Sebastião do Caí são de Renato Klein, no blog Histórias do vale do Caí, em <historiasvalecai.blogspot.com>. Certamente o Renato é uma pessoa bem conhecida na cidade.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Escravidão. Volume 1. Laurentino Gomes.

Devo inicialmente dizer que aprecio bastante os livros do Laurentino Gomes. Comprei, li e resenhei os seus livros 1808, 1822 e 1889. Por isso não tive dúvidas agora, em também comprar o seu livro Escravidão, Volume 1. - Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. O projeto prevê o lançamento de mais dois volumes, um em 2020 e outro 2021. Foram, como relata Laurentino, seis anos de pesquisas, incluindo viagens aos locais da escravidão, visita às bibliotecas e conversas com muitos historiadores.
O primeiro dos três livros de Laurentino Gomes sobre a escravidão.

O sub-título nos indica a delimitação deste primeiro volume. Das origens da escravidão feita pelos portugueses, até a morte de Zumbi dos Palmares. Aliás, se o livro for suscitar polêmica, será exatamente em função dos dois capítulos, um sobre Palmares e outro sobre Zumbi. São os capítulos 28 e 29.  Como percebem, o livro é volumoso, por conter tantos capítulos. Na verdade, são 30 ao todo. Este volume contém 479 páginas. Laurentino promete em torno de 1500 páginas para nos apresentar esta verdadeira chaga, possivelmente a maior da humanidade.

O livro entra em muitos detalhes, especialmente sobre a questão da captura dos negros na África, sobre os dois grandes entrepostos do comércio de cativos na África, a cidade de Luanda e a ilha de São Tomé, hoje São Tomé e Príncipe, sobre a captura e o transporte e também os maiores portos negreiros de recepção aqui na América. E também muitos números, números totalizadores, de mortos já no transporte inicial, na travessia e até a venda nos grandes leilões. Eu particularmente gostei mais dos capítulos que envolvem a questão dos holandeses, os de número 23 e 24. A invasão holandesa não envolveu apenas Pernambuco, mas também as colônias no Oriente (especiarias) e a África (pelo domínio do tráfico).

Mas vamos a uma sistematização da resenha. Os trinta capítulos. Antes ele dá uma linha do tempo, com as principais datas e fatos e uma introdução, um tanto longa, mostrando um panorama geral da escravidão ao longo de todos os tempos. Vamos aos capítulos. 1. A grande agonia: é um relato sobre a captura do escravo e a travessia do Atlântico. O capítulo tem uma epígrafe, retirada do Coração das trevas, de Joseph Conrad, "O horror! O horror!" 2. O leilão: É o relato do primeiro leilão em Lagos e versa também sobre as formas de comercialização dos cativos na Europa. 3. As origens. Versa sobre as origens e as finalidades da escravidão e a presença dela em todas as grandes obras do mundo.

4. Em nome de Alá. o relato é sobre a enorme expansão da escravidão sob os muçulmanos e sobre as suas práticas, como as contra os eunucos. 5. O Patrono. O patrono da escravidão é o infante Dom Henrique, o da escola de Sagres, sobre a qual existem dúvidas se de fato existiu. Mostra as primeiras navegações e os primeiros navegadores, todos cavaleiros de Cristo, os sucessores dos templários. 6. Mar infinito. Continua descrevendo as navegações e os conhecimentos náuticos que as tornaram possíveis. Entra também na história de Portugal, cristãos novos, inquisição e financiamento das expedições.

7. Terra dos papagaios. Os descobrimentos e o caráter secreto dos conhecimentos náuticos. A terra dos papagaios é uma referência ao descobrimento do Brasil. 8. O massacre. Um capítulo extraordinário, onde mostra os massacres indígenas praticados pelos bandeirantes. Aqui mais uma vez caberia a expressão de Conrad: "O horror!Oh horror" 9. A África. São mostrados os países e os povos africanos, rivalidades tribais e a grande fragmentação. 10. A cicatriz. Esta cicatriz é universal. Foi praticada por todos os povos. Trata da questão da participação dos africanos na captura para a escravização.Aborda também a questão atual da dívida social.

11. Reconciliação. Um chefe africano pede perdão pelo fato de que eles próprios contribuíram com a escravidão. 12. O laboratório. Trata das ilhas de Cabo Verde e de São Tomé, os grandes entrepostos, ou depósitos africanos do tráfico. 13. Ruínas de um sonho. Trata do desejo frustrado da europeização e cristianização do Congo. 14. Angola. O maior país fornecedor de escravos e a rota Luanda - Salvador, descrita pelo padre Antônio Viera, como uma rota de salvação. 15. O negócio. Tudo sobre o tráfico. Captura, venda, valores e moedas. 16. Os lucros do tráfico. Fala dos riscos e dos lucros auferidos com o negócio.

17. Os números. É um aprofundamento do capítulo anterior. Mostra os estudiosos do tema e os números. Tudo sobre a questão dos números. 18. O navio negreiro. Tudo sobre os embarques e as viagens e o tratamento dado. O navio era simultaneamente uma máquina de guerra, prisão móvel e uma fábrica. 19. A chegada. Mostra a transformação dos seres humanos em mercadorias atraentes, nos grandes portos de chegada e os castigos físicos, sempre aplicados. 20. O Brasil. É um relato sobre o trabalho no canavial e nos engenhos. 21. Visão do inferno. Uma referência às caldeiras, na descrição de Antonil.

22. A cruz e o chicote. Por óbvio, aborda a questão moral cristã diante da escravidão. A epígrafe sintetiza bem o tema: "Nunca consideramos este tráfico ilícito. Na América, todo escrúpulo é fora de propósito". A frase é de um padre jesuíta, reitor de um seminário em Luanda. 23. O Atlântico holandês. Já fiz referência. Trata da guerra que a Holanda declarou a Portugal, em Pernambuco, na África e no oriente. 24. A guerra pelos cativos. Ainda a guerra da Holanda pelo domínio africano, na busca pelos cativos. Aborda também os resultados desses conflitos.

25. O padre eterno. Trata-se do maior dos navios negreiros. 26. O destino de Catarina. Foi considerada a rainha da escravidão, rainha de Portugal e da Inglaterra. 27. O destino de Jinga. Esta já foi exaltada pelo seu poder e coragem posta a serviço da causa negra. 28. Palmares. É uma descrição do quilombo e as investidas de holandeses e portugueses, até a sua destruição pelo facínora  Domingos Jorge Velho. 29. Zumbi. Um capítulo bem polêmico. Fala do pouco conhecimento que se tem do personagem e de sua mistificação pelos historiadores Décio Freitas e Joel Rufino dos Santos e ainda o fato de ter sido apresentado como gay, por Luiz Mott. 30. Ouro! Ouro! Ouro!. É uma chamada para os dois próximos livros. Ainda falta a questão da mineração e da lavoura cafeeira.

Termino com uma frase do padre Antônio Vieira, que é mostrada na contracapa do livro: "O Brasil tem o seu corpo na América e sua alma na África".

terça-feira, 17 de março de 2020

Paulo Freire e o socialismo. Quem influenciou o seu pensamento?

Este é mais um post, a partir do livro de Sérgio Haddad, O educador um perfil de Paulo Freire. Inicialmente vou fazer algumas observações gerais, para depois concentrar no capítulo final do livro, que tem por título "Minhas reuniões com Marx nunca me sugeriram que parasse de ter reuniões com Cristo".
O traçado de um belo perfil do educador Paulo Freire.

A primeira marca mais visível na formação de Paulo Freire é o cristianismo, uma herança de sua mãe. O catolicismo de Paulo ia além da caridade e do assistencialismo, fortemente impregnado no cristianismo, para ir além, na luta por direitos e uma sociedade justa. Era o tempo da realização do Concílio Vaticano II, dos documentos progressistas dos papas João XXIII e Paulo VI e da formulação da Teologia da Libertação, um cristianismo aliado à justiça social. Paulo sempre refletia sobre o seu trabalho. Isso se aprofundou quando trabalhou junto ao SESI, onde entrou em contato muito próximo com os pobres da cidade de Recife.

Depois de Angicos veio o exílio na Bolívia (por pouco tempo) e no Chile. Lá foi trabalhar no INDAP, junto a Jacques Chonchol, da ala esquerda do governo democrata cristão do presidente Frei Montalva. Ampliou o seu contato com o humanismo cristão, recebendo influências de Mounier, de Maritain e de Theilhard de Chardin. Mas aproxima-se também de Marx e Engels, de Sartre, Marcuse, Frantz Fanon, Lukacs e Althusser. Inclusive, torna-se mais adepto de Malcom X do que de Luther King. No Chile escreve os seus dois grande e decisivos livros: Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido.

Nunca abandonou os ideais de seus anos de formação. Foram os grandes marcos que o acompanharam por toda a vida. Vejamos os seus últimos registros, em entrevista à TV PUC - SP, um mês antes de sua morte, quando foi perguntado sobre a sua aproximação com o marxismo. Eis uma parte de sua resposta:

" Quando muito jovem eu fui aos mangues do Recife, aos córregos, aos morros, às zonas rurais de Pernambuco, trabalhar com os camponeses, as camponesas, os favelados. Confesso que fui até lá por uma certa lealdade ao Cristo de quem eu era mais ou menos camarada. Mas quando chego lá, a realidade dura do favelado, do camponês, a negação do seu ser como gente, a tendência àquela adaptação, àquele estado quase inerte diante da negação da liberdade, aquilo tudo me remeteu a Marx. Não foram os camponeses que disseram a mim: Paulo, tu já leste Marx? Não, eles não liam Marx. Quanto mais eu li Marx, tanto mais eu encontrei uma fundamentação objetiva para continuar camarada de Cristo. Então as leituras de Marx não me sugeriram jamais que eu deixasse de encontrar Cristo na mundanidade e à procura de Cristo na transcendentalidade".

Num texto interrompido pela morte, posteriormente publicado por Nita no livro Pedagogia da indignação, ele se volta ao assassinato do índio Galdino, queimado por jovens de Brasília. Um texto fortemente marcado pela indignação:
O livro de Paulo interrompido pela morte. A indignação o movia para a esperança.

"Tocaram fogo no corpo do índio como quem queima uma nulidade. Um trapo imprestável. Para sua crueldade e seu gosto da morte, o índio não era um tu ou um ele. Era aquilo, aquela coisa ali. Uma espécie de sombra inferior no mundo. Inferior e incômoda, incômoda e ofensiva.

Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.

Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhança, em sua escola. Penso entre outras coisas mais, no testemunho que lhes deram de pensar e de como pensar. A posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar. Imagino a importância do viver fácil na escala dos seus valores em que a ética maior, a que rege as relações no cotidiano das pessoas terá inexistido por completo. Em seu lugar, a ética do mercado do lucro. As pessoas valendo pelo que ganham".

Segue depois uma das frases mais conhecidas e marcantes de seu pensamento: Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda". No mesmo texto ele ainda continua e, com ela Sérgio Haddad conclui o seu livro biografia:

"Se nossa opção é progressista, se estamos a favor  da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e o que fazemos. Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a serem sérios, justos e amorosos da vida e dos outros".

Uma última questão. Quando Jango vai a Angicos, participar da aula de número 40, da experiência pioneira de alfabetização de adultos, Jango, em particular, teria depois dito: "Não é possível esconder uma verdade: tanto quanto os coronéis udenistas e pessedistas, os comunistas não toleram o que foi feito em Angicos". Paulo teve muitos dissabores com os comunistas autoritários, aqueles que quiseram fazer da "Ditadura do Proletariado" um regime definitivo. Estes o acusavam de idealista e romântico.

Em suma Paulo era um ser que transbordava em humanidade, bondade e generosidade, profeta da igualdade e da emancipação humana e ardente pregador da esperança e das utopias, de lugares ainda não existentes e que seriam construídos pelos caminhos de uma educação participativa, igualitária, libertária e emancipadora. Paulo se dava bem com as figuras barbudas de Jesus Cristo e de Marx. Seres incompletos no rumo da transcendência, do "ser mais".


domingo, 15 de março de 2020

Paulo Freire: a essência de seu pensamento. Do livro: O educador - um perfil de Paulo Freire.

Este post tem a finalidade de apresentar três passagens do livro O educador - um perfil de Paulo Freire, de autoria de Sérgio Haddad, através de três episódios  narrados no livro, que bem sintetizam a grandeza de seu pensamento. Vamos a eles.
O traçado de um perfil maravilhoso.

O primeiro deles é retirado do capítulo 9, África: o limite da utopia. Mas o episódio ocorreu na França, na Universidade de Lyon II, em 1978, numa fala a professores e alunos. É uma bela síntese de todo o seu trabalho:

"A transformação de um sistema educacional elitista, reacionário, verbalista, para um tipo de educação em que a produção esteja casada com a educação, em que se busque pouco a pouco superar a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual, é uma coisa que a gente pode imaginar quão difícil é! Quanto mais me meto no esforço de reconstrução nacional desses países, quanto mais eu me molho das águas da reconstrução, tanto mais eu descubro o óbvio: quão difícil é realmente reconstruir uma sociedade! Criar uma sociedade nova, que vai gerar um homem novo e uma mulher nova! [...] Isso demanda uma consciência política clara, que vai clarificando mais na práxis política, fora da qual não há caminho, eu creio, não há solução. Como desenvolver um sistema educacional que estimule a criatividade, a inventividade, uma percepção crítica do momento mesmo em que se vive, o sentido da participação, a superação dos interesses individuais em função dos interesses coletivos? Como desenvolver uma nova pedagogia se as próprias estruturas das sociedades não foram total e radicalmente transformadas ainda? Mas exatamente porque isso não é mecânico, mas sim dialético, em certos casos a educação anuncia o mundo a transformar-se, mas é preciso que este mundo se transforme realmente para que o anúncio que a educação faz não caia no vazio. Isso tudo exige rigor nos estudos, capacitação de quadros, desenvolvimento econômico e social do país, tudo a um só tempo! Não é fácil".

O segundo deles, ocorre em Campinas, onde teve dificuldades para ser aceito como professor. As dificuldades de sua admissão tem causa específica, de um famoso personagem ligado umbilicalmente à ditadura civil/militar, Paulo Maluf, então governador do estado. Nas idas e vindas de sua admissão, um parecer foi solicitado ao professor Rubem Alves. Impossível ser mais genial: Um parecer sobre Paulo Reglus Neves Freire.

"O seu nome é conhecido em universidades através do mundo todo.
Não o será aqui, na Unicamp? E será por isso que deveria acrescentar a minha assinatura (nome conhecido, doméstico), como avalista?
Seus livros, não sei em quantas línguas estarão publicados. Imagino (e bem pode ser que esteja errado) que nenhum outro dos nossos docentes terá publicado tanto em tantas línguas. As teses que já se escreveram sobre o seu pensamento formam bibliografias de muitas páginas. E os artigos escritos sobre o seu pensamento e sua prática educativa, seriam livros.
O seu nome, por si só, sem pareceres domésticos que o avalizem, transita pelas universidades da América do Norte e da Europa. E quem quisesse acrescentar a este nome a sua própria 'carta de apresentação' só faria papel ridículo.
Não, não posso pressupor que este nome não seja conhecido na Unicamp. Isto seria ofender àqueles que compõem seus órgãos decisórios.

Por isso o meu parecer é uma recusa a dar um parecer.
E essa recusa vai, de forma implícita e explícita, o espanto de que eu devesse acrescentar o meu nome ao de Paulo Freire. Como se, sem o meu, ele não se sustentasse.
Mas ele se sustenta sozinho.
Paulo Freire atingiu o ponto máximo que um educador pode atingir.
A questão não é se desejamos tê-lo conosco.
A questão é se ele deseja trabalhar ao nosso lado.
É bom dizer aos amigos: Paulo Freire é meu colega. Temos salas no mesmo corredor da Faculdade de Educação da Unicamp.
Era o que me cumpria dizer".

O terceiro episódio é retirado do programa Memória Viva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1983. Fala da sua brasilidade, da sua vocação de educador e sobre a experiência de Angicos, obviamente:

"Foi tratando bem as minhas marcas locais, recifenses, o gosto do suco da pitanga, do caldo de cana, do mel de engenho, da batata-doce, da farinha, da feijoada, do peixe no leite de coco, da lagosta, do camarão, da cachacinha de cabeça. Tudo isto o que é, senão eu, senão nós, senão um pedaço deste país. É a nossa identidade, a nossa linguagem, é o meu gosto da comida, que é cultural. Foi cuidando bem destas coisinhas que andarilhei pelo mundo e virei cidadão do mundo, não porque Pedagogia do oprimido está em dezessete línguas.  Virei cidadão do mundo porque, profundamente, encontrei a minha recificidade, então por onde andei no mundo, andei cuidando das minhas marcas. Se eu não carregasse no meu corpo consciente, na minha capacidade de querer bem, na minha amorosidade as minhas marcas, a minha andarilhagem seria uma enfadonha viagem sem destino, seria um andar sem rumo".

Quando foi perguntado sobre Angicos e sobre seus resultados, assim respondeu, numa síntese feita por Sérgio Haddad:

"Paulo respondeu que a experiência não poderia ser avaliada apenas pelo olhar técnico da aprendizagem da leitura e da escrita. Era preciso ultrapassar esses limites e ver a importância de Angicos como uma ação, decisiva no Brasil e na América Latina, que conferiu cidadania  a pessoas até então destituídas dos direitos mais básicos, alunos que acolheram com entusiasmo uma oportunidade oferecida pelo poder público. Reafirmou a indispensabilidade de considerar o que 'transborda' os limites de uma experiência de alfabetização em si. Foi uma resposta velada às críticas sobre os resultados de suas ações de alfabetização, que Paulo acreditava que não deveriam ser avaliadas apenas do ponto de vista de objetivos técnicos. Era evidente que os processos como o de Angicos tinham limitações; as poucas horas de estudos não dariam conta de suprir todas as demandas educacionais de pessoas que não viviam em ambientes letrados".

Acrescento ainda um quarto episódio. Ele é retirado de um jantar festivo, realizado em Natal, no encerramento do programa de Angicos. Paulo Freire recebe de um detrator, no caso, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, então comandante da 4ª  Região militar, uma prova cabal de que a sua pedagogia efetivamente era uma pedagogia igualitária, pois segundo o general, a pedagogia de Paulo é uma  "pedagogia sem hierarquia" e  que só serviria "para engordar cascavéis nesses sertões". Sem dúvida, um elogio.

Mais episódios? Vamos a leitura do livro. 

sexta-feira, 13 de março de 2020

O Educador - um perfil de Paulo Freire. Sérgio Haddad.

Sabe, aquele livro que, quando você termina, você fica meio triste por que você queria ainda muito mais? Pois é, isso aconteceu comigo na leitura de O educador - Um perfil de Paulo Freire, de autoria de Sérgio Haddad. O livro foi lançado em 2019, pela Todavia. Na contracapa lemos: "Nada mais oportuno, portanto, do que um retrato ponderado do educador e da sua obra, em que pesquisa criteriosa fala mais alto do que o ódio e a ideologia". Foi o que o Sérgio Haddad fez, nesses tempos de ódios intempestivos e acirrados.
O maravilhoso perfil de Paulo Freire, traçado por Sérgio Haddad.

O livro de 251 páginas contém treze capítulos que seguem, mais ou menos, uma ordem cronológica de seu "andarilhar" pelo mundo. De seu nascimento na cidade de Recife à sua morte em São Paulo, passando pela Bolívia e Chile, logo após o exílio que duraria longos quinze anos, pelos Estados Unidos (Harvard) e por Genebra (Conselho Mundial de Igrejas), pelas andanças nas recém libertas colônias portuguesas na África e, na volta ao Brasil, pelas suas atividades acadêmicas na PUC/SP e UNICAMP, pela Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo, a escrita de seus últimos livros e o seu sofrimento final. Uma vida à serviço da emancipação humana, com certeza.

Vou dar o título dos capítulos e volver um breve olhar a cada um deles: 1. "Um cripto comunista encapuçado sob a forma de alfabetizador". É uma contextualização das primeiras atividades de Paulo Freire em sua cidade natal e em Brasília, a sua prisão em Recife e Olinda, até o seu exílio, pelo crime que dá o título ao capítulo. Uma observação muito curiosa se encontra à pagina 23, quando na prisão, um tenente o interpela, lhe propondo alfabetizar um grupo de recrutas que acabava de chegar ao quartel. A resposta de Paulo: "Mas meu querido tenente, estou preso exatamente por causa disso!"

2. Elza Maia Costa Oliveira. Depois de narrar passagens de sua infância em Recife e das primeiras dificuldades na vida, em que a família passou da condição classe média para a pobreza, passa a lembrar fatos de sua adolescência e sobre a sua vida escolar. Termina com o encontro com Elza, a do título, com quem se casa, após rompidas as barreiras iniciais dada pelas diferenças sociais do casal.

3. "A dureza da vida não deixa muito para escolher". É o início de sua vida profissional, como professor de aulas particulares e de língua portuguesa num colégio de elite. Se emprega no SESI, passando a ter contato com os trabalhadores pobres. São as primeiras reflexões mais críticas sobre o significado de seu trabalho. Com eles passa a ter uma aproximação através da linguagem e passa a entendê-los melhor. Torna-se adepto do cristianismo que vai além do assistencialismo e da caridade, para afirmar direitos e justiça. Completa os seus estudos e leciona na Faculdade de Recife. As dificuldades financeiras foram agravadas pela falência de um tio, com a crise de 1929.

4. Uma enorme lata de Nescau. Paulo teve uma aproximação com o ISEB e os seus teóricos e passou a se interessar pelos temas brasileiros, objeto de seu doutoramento. Paulo, antes formara-se em direito, profissão que abandonou, já em seus primeiros passos. Passa a trabalhar com Miguel Arraes, tanto na prefeitura, quanto no governo de Pernambuco. A referência à lata de Nescau do título são os primeiros passos de seu método de alfabetização. Os temas de interesse e a associação com imagens. A observação do filho Lutgardes, diante de um cartaz com a lata de Nescau, o levou à descoberta.

5. "Hoje já não somos massa, estamos sendo povo". A frase é o depoimento de um dos participantes de sua famosa experiência em Angicos, em que o próprio presidente Jango foi participar da 40ª hora, das 40 horas, do curso de alfabetização. Desse capítulo quero destacar duas observações: a primeira é do presidente Jango: "Tanto quanto os coronéis udenistas e pessedistas, os comunistas não toleram o que foi feito em Angicos". A outra de Castelo Branco, então comandante do 4º Exército, é uma das mais emblemáticas, afirmando que o método só serviria "para engordar cascavéis no sertão" e que era uma "pedagogia sem hierarquia". 

6. "Viva o oxigênio". Essa exclamação é de Paulo, quando ele chega a Arica, no Chile, vindo da Bolívia, o local de seu primeiro exílio. Paulo sofreu demais com a altitude de La Paz e com um golpe de Estado ocorrido no país logo após a sua chegada. Paulo se adaptou bem no Chile, com bom emprego e bom salário.

7. Ninguém educa ninguém. No Chile, irá trabalhar nos projetos de colonização e reforma agrária do governo Frei Montalva. Novas experiências e críticas aos trabalhos de extensão, ministrados por iluminados, sem o emissor/receptor da comunicação. São os anos de suas profundas reflexões, das quais nascem seus primeiros livros: Educação como Prática da Liberdade, certamente uma revisão de sua tese de doutorado e o seu livro mais conhecido, Pedagogia do oprimido. Um belo e fundamental capítulo para entender o mestre. O capítulo termina com a sua ida aos Estados Unidos, onde passará a lecionar em Harvard e a ida para Genebra, trabalhar no Conselho Mundial de Igrejas.

8. Uma caixa de Sonho de Valsa. O impossível também acontece. Paulo inicia seus trabalhos em Genebra, ligados à alfabetização. Lá participa do IDAC, com trabalhos de grande repercussão. A caixa do sonho de valsa é uma referência à enorme saudade que sentia do Brasil, na terra dos melhores chocolates do mundo. Recebia também dos amigos ingredientes para feijoada e cachaça, da qual era grande apreciador. Inicia os contatos com os recém libertos países africanos de língua portuguesa.

9. África: o limite da utopia. O capítulo é muito bonito, onde o pensamente e as experiências de Paulo passam a ser o fundamento de uma educação de países que buscam, efetivamente, construir a sua independência e sua autonomia. Novas amizades, influências e grande repercussão. Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Tanzânia, Botsvana e Zambia trabalham com o seu método. Em Moçambique as dificuldades foram grandes. Os comunistas... Elza se integra aos trabalhos.

10. "As universidades deveriam correr para contratá-lo". O capítulo narra sua volta ao Brasil, mediada pelo cardeal Arns. A PUC de São Paulo o acolhe como professor, bem a Unicamp, esta com grandes dificuldades. Com a anistia é reintegrado à Universidade do Recife, pela qual se aposenta. Foi um período de intensa atividade intelectual. A frase do título, pasmem, é de Fernando Henrique Cardoso.

11. Reaprender o país. Este também é um dos mais importantes capítulos do livro. Trata da formação de seu pensamento, das críticas negativas e positivas, à esquerda e à direita, de sua obra e a repercussão de seus trabalhos. No ano de 1986 perde Elza, que ao longo de toda a sua história de vida foi a companheira  que garantiu a consistência familiar, por uma presença maior junto aos cinco filhos. Enfrentou dificuldades mil. A esta altura o livro é interrompido para 30 páginas de fotografias.

12. "Nós acreditamos na liberdade". É um relato de sua experiência administrativa à frente da prefeitura da cidade de São Paulo, na gestão de Luisa Erundina. Muitas dificuldades e muitas críticas. Ficou por dois anos e meio, para voltar a se dedicar à escrita de livros, fazer viagens e ter uma convivência familiar maior, agora com Nita, com quem se casara, embora resistências vindas de todos os lados. A liberdade referente ao título era a meta em sua experiência de gestão.

13. "Minhas reuniões com Marx nunca me sugeriram que parasse de ter reuniões com Cristo". É o lindíssimo capítulo final: os seus últimos livros e seus últimos trabalhos, bem como os seus problemas de saúde, a sua indisciplina alimentar e a não prática de atividades físicas, o adoecimento e morte. Termina por mostrar uma conjuntura do Brasil de hoje, onde é condecorado com o título de Patrono da Educação Brasileira, mas é também pesadamente insultado pelos seus insanos detratores. O título é retirado de sua última entrevista para a TV PUC/SP.

Pronto, se quiser mais, vamos ao livro e - boa leitura. Em 2021 estaremos comemorando o seu centenário de nascimento, ocorrido em 19 de setembro de 1921, no bairro  da Casa Amarela, na sua querida cidade de Recife.







terça-feira, 10 de março de 2020

A terra inabitável. Uma história do futuro. David Wallace-Wells.

"Se você chegou até aqui, é um leitor corajoso. Cada um desses doze capítulos contém, por direito próprio, horror suficiente para induzir um ataque de pânico até nos de imaginação mais otimista. Mas você não está apenas imaginando esse horror; está prestes a vivê-lo. Em muitos casos, em muitos lugares, já o está vivendo.

Na verdade, o que é talvez mais notável em toda a pesquisa sumarizada até este ponto - relativa não só a refugiados, saúde do corpo e saúde mental, mas também a conflitos, oferta de alimentos, nível do mar e todos os demais componentes da desordem climática - é o fato de ser uma pesquisa emergindo do mundo como o conhecemos hoje. Ou seja, um mundo apenas 1ºC mais quente; um mundo ainda não desfigurado e obliterado além do reconhecimento; um mundo unido na maior parte em torno de convenções concebidas numa era mais parecida com o caos climático; um mundo que apenas começamos a perceber".
O meteoro A terra inabitável - uma história do futuro. Companhia das Letras 2019.

É o que lemos às páginas 169 e 170 do livro A terra inabitável - uma história do futuro de David Wallace-Wells, lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2019. Na capa do livro lemos: "A terra inabitável atinge o leitor como um meteoro". Como é difícil imaginar o que seja ser atingido por um meteoro, a não ser a destruição total, creio que também seja difícil imaginar o que virá a ser o desastre climático/ambiental. As dimensões gigantescas e a não percepção do tempo, num prazo um pouco mais longo, tornam possível o não assustar-se. Acrescentem-se a isso, ainda as inúmeras afirmações em torno da possibilidade de que a técnica possa resolver todos os problemas. O título do livro, porém, é enfático: A terra inabitável.

Na contracapa do livro ainda lemos, sob forma de advertência: "É pior do que você imagina. O ritmo lento atribuído à mudança climática é um mito, talvez tão pernicioso quanto aquele que nega sua existência. Calor letal, fome, inundações, incêndios, piora da qualidade do ar, desertificações, morte dos oceanos, colapso econômico... Essa é só uma amostra do que está por vir. E virá rápido. Se não revolucionarmos completamente a maneira como bilhões de seres humanos vivem, grande parte do planeta se tornará inabitável até o fim deste século.

Ao palco do nosso futuro próximo, David Wallace-Wells traz não só o caos climático, mas também as mudanças políticas e culturais que afetarão o mundo que conhecemos, promovendo, promovendo uma metamorfose radical na forma como entendemos a vida. A terra inabitável é uma história da devastação que provocamos a nós mesmos e também um chamado à ação. Um livro corajoso e desafiador sobre os problemas que o século XXI enfrentará por causa do aquecimento global".

O livro, de 374 páginas, está dividido em quatro partes: I. Cascatas, uma espécie de introdução um pouco mais longa; II. Elementos do Caos, que é, praticamente, a questão central do livro. Cada um dos elementos do caos se constitui numa espécie de sub capítulo. São eles: calor letal; fome; afogamento; incêndios florestais; desastres não mais naturais; esgotamento da água doce; morte dos oceanos; ar irrespirável; pragas do aquecimento; colapso econômico; conflitos climáticos e "sistemas". III. O caleidoscópio climático, também divido em subcapítulos: Narrativas; capitalismo de crise; igreja da tecnologia; política do consumo; história depois do progresso e ética do fim do mundo. IV. O princípio antrópico. Agradecimentos e notas completam o livro.

O livro aponta para o caos que se estabelecerá no mundo em questão de não muito tempo. Confesso que tenho certa dificuldade em ler sobre o tema. Muitas hipóteses e suposições. Se aumentar tanto, mas se aumentar tanto mais, acontecerá isso e aquilo, mas tenho também a certeza de que são leituras necessárias. É preciso conhecer. A informação correta é o primeiro passo para a tomada de consciência e o levar às ações necessárias, em decorrência dos fatos. Essas questões afetam, não apenas o coletivo da humanidade mas também as pessoas, individualmente. Gera também um "clima" no mundo subjetivo das pessoas.

Na terceira parte, a do caleidoscópio climático, o autor estabelece importantes relações entre as mudanças climáticas e o mundo da política, bastante distante do problema, especialmente, sob a ótica do neoliberalismo. Cita o notável livro A Doutrina do Choque - A ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein, mas eu quero dar destaque a duas observações que me chamaram muito a atenção em função de sua origem. A primeira é relativa a um documento do FMI: "Em 2016, o FMI publicou um artigo intitulado 'Neoliberalismo: Gato por lebre?' - logo o FMI". A segunda, de Paul Romer, economista chefe do Banco Mundial, que "propôs que a macroeconomia, a 'ciência' do capitalismo, era uma espécie de disciplina fantasiosa, equivalente à teoria das cordas, hoje sem um papel legítimo em descrever o funcionamento preciso da economia real". O texto segue, afirmando que em 2018, Paul Romer foi contemplado com o Nobel de economia (As duas observações se encontram à pagina 202).
O notável livro de Naomi Klein, Nova Fronteira. 2008.

Deixo ainda uma breve mas dura advertência contida na orelha do livro: "Se você não quer que nossos netos nos odeiem, precisa ler este livro". O autor é jornalista e trabalha como editor da New York Magazine. Escreve principalmente sobre ciência e o futuro do planeta. Vive em Manhattan. No livro também é citada a Amazônia e o "caos" Bolsonaro.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Carta Manifesto em defesa da Escola Pública do Paraná

Mais de duzentos educadores(as) e estudantes participaram neste sábado (07/03/2020) do seminário "Currículos em disputa no Paraná - Do Currículo Básico a BNCC/CREP, promovido pelo Núcleo Sindical da APP Curitiba Norte, pelo NESEF- Núcleo de Estudos do Ensino de Filosofia e pelo Observatório do Ensino Médio, ambos da UFPR. Ao final do encontro foi aprovada a CARTA/MANIFESTO, que segue.

CARTA/MANIFESTO EM DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA DO PARANÁ.


Educadoras e educadores do Estado do Paraná, participantes do Seminário "Currículos em Disputa no Estado do Paraná: Do Currículo Básico a BNCC/CREP", realizado na data de hoje (07.03.2020), nas instalações da Universidade Federal do Paraná, no Campus Rebouças, organizado pelo Coletivo de Educadores APP-Independente, pelo Núcleo Sindical da APP Curitiba Norte, pelo Observatório do Ensino Médio da UFPR e pelo NESEF também da UFPR, repudiam as ações da Secretaria da Educação do Estado do Paraná - SEED, no processo de implantação do Currículo da Rede Escolar Paranaense (CREP), controlada pelo empresário Renato Feder, empossado como secretário de educação pelo governador Ratinho Júnior.
Mesa que presidiu os debates do período da manhã e os participantes.

Neste início de ano letivo, as escolas do Paraná foram surpreendidas pela SEED com a imposição de um novo currículo (o CREP) ao qual devem se adaptar. Trata-se de um currículo construído por tecnocratas, arbitrária e autoritariamente, sem nenhum diálogo efetivo com o conjunto de educadores, ignorando e desrespeitando todo processo histórico de construção da escola pública pela sociedade paranaense nas últimas décadas.

O ideário da escola pública, democrática e de qualidade - amplamente debatido nos coletivos de educadores do estado, registrado em documentos oficiais tais como "O Currículo Básico" no início da década de noventa e "As Diretrizes Curriculares" na primeira década dos anos dois mil, rigorosamente teorizado em sofisticados trabalhos de pesquisas acadêmicas desde o início do processo de redemocratização de nosso país na década de oitenta - está sendo totalmente ignorado por Renato Feder e sua equipe de gestores.

Negando a história e a cultura constituintes das escolas do Paraná, a Secretaria Estadual de Educação impõe um currículo engessado, desconsiderando a autonomia pedagógica e as peculiaridades das unidades escolares, reduzindo os professores da condição de sujeitos do processo pedagógico a controladores da aprendizagem de estudantes, reduzindo pedagogos e diretores da condição de articuladores do processo político-pedagógico à condição de fiscais do trabalho docente.

O desrespeito demonstrado por Renato Feder e sua equipe de gestores aos educadores e às escolas do Paraná reflete-se ainda na completa falta de oferta de oportunidades de formação a pedagogos e a professores para atuarem no âmbito do novo currículo.

O resultado do desrespeito e do autoritarismo demonstrado por Renato Feder e por sua equipe de gestores é um verdadeiro caos instaurado em nossas escolas. Por um lado, exige-se dos educadores que se enquadrem em um projeto de educação sem que lhes tenham sido ofertadas quaisquer possibilidades de entendê-lo. Por outro lado, as condições de trabalho docente, as quais já se revelam insustentáveis, tal era o nível de precarização vivido nos ambientes escolares provocado pelo governo Beto Richa, tornaram-se muito pior.

Renato Feder, além de não oferecer nenhuma solução para os gravíssimos problemas vivenciados por educadores e estudantes em nossas escolas, cria novos e mais graves problemas, aumentando a pressão por resultados e os mecanismos de controle sobre a atividade pedagógica. Ao mesmo tempo  em que precariza as condições de trabalho nas escolas, Renato Feder pressiona direções para o cumprimento de metas e elevação do índice de aproveitamento expresso em avaliações como a Prova Paraná.
Mesa que presidiu debates no período da tarde.

O secretário de educação do governo Ratinho Junior constrói uma gestão do sistema educacional com base no equívoco de que nossas escolas não ensinam com mais qualidade por falta de vontade dos educadores. Desse equívoco surgem as propostas de tutoria, de centralidade no treinamento para a Prova Paraná, de suspensão de eleições para diretores, de punição de professores que se afastam do trabalho por adoecerem, da adoção de um único livro didático por disciplina, da imposição de um currículo engessado que nega a vida dos sujeitos do processo ensino-aprendizagem.

A política educacional hoje adotada pelo governo do Paraná segue a mesma lógica adotada pelo governo  Federal, que culpabiliza educadores e educadoras pelos índices de qualidade educacional, e que torna invisíveis as lutas realizadas pelos movimentos negros, indígenas, de mulheres, da educação do campo, de jovens e adultos para o campo do currículo.

Sob a gestão do empresário Renato Feder, nossas escolas tornam-se, cada vez mais, espaços de desespero e de adoecimento. Como se ensinar e aprender com qualidade em ambientes como esses? Ironicamente, de forma quase zombeteira, a SEED afirma ser preciso construir um "bom clima" escolar.

Como educadores comprometidos com a história de construção da escola pública, democrática e de qualidade, comprometidos com a sociedade paranaense, com nossos jovens e com nossas crianças, comprometidos com os conhecimentos produzidos pela ciência pedagógica e com os princípios de um projeto de educação emancipadora e, por isso, humanizadora, não aceitamos, em nenhuma hipótese, os desmandos e a irresponsabilidade do empresário Renato Feder frente a Secretaria da Educação.

Conclamamos os educadores e os estudantes de nosso estado, as comunidades escolares e os setores de pesquisas pedagógicas, bem como todos os setores da sociedade civil que possuam compromissos efetivos com a escola pública, para se posicionarem firmemente contra o desmonte do sistema escolar que vem sendo promovido pelo governo Ratinho Junior.

Exigimos ainda, que as direções das entidades representativas de educadores e de estudantes assumam a responsabilidade pela luta em defesa da escola pública, envidando debates pedagógicos rigorosos, orientando as comunidades escolares, organizando ações de resistência e de rebeldia.

Em breve, o secretário Renato Feder irá embora de nosso estado para cuidar de suas empresas, mas, se continuar agindo como vem agindo na gestão da SEED, deixará rastros de destruição extremamente difíceis de serem reparados.

FORA, RENATO FEDER! VIVA A ESCOLA PÚBLICA DO PARANÁ.

 Segue o link, por enquanto, das atividades realizadas na parte da tarde.
https://www.facebook.com/ObservatoriodoEnsinoMedio/videos/671804870290653/UzpfSTEwMDAwMzM1NTc4NjI5OToyNjQxNDc2OTQyNjQwODA2/?q=prof.%20luiz%20paix%C3%A3o&epa=SEARCH_BOX

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Águia de Ouro. Campeã de São Paulo exalta 'O Poder do Saber" e homenageia Paulo Freire.

O carnaval de 2020 trouxe agradáveis surpresas. Uma delas foi a escola campeã de São Paulo, a Águia de Ouro. O seu samba homenageou o conhecimento, a sabedoria acumulada ao longo da história, a partir do saber ancestral. O título do samba enredo foi O poder do saber. Se saber é poder... Quem sabe faz a hora. Um coletivo de compositores assinou o enredo: Marcelo Casa Nossa, Armênio Poesia, Darlan Alves, Fredy Viana, Xandinho Nocera e Chanel.
A escola campeã e O Poder do Saber. E a homenagem ao sábio.

Além de mostrar o desenvolvimento do ser humano pela sabedoria a escola também mostrou que nem todo o conhecimento é sabedoria. Existe a possibilidade de ele ser também usado para o mal, como foi o caso da produção da bomba atômica, usada pelos Estados Unidos, em Nagasaki e Hiroshima, como bem mostrou um DOS carros alegóricos da escola. 

Eu também observei um detalhe interessante na narração da equipe da TV Globo, na abertura do desfile. Como o tema da escola é a sabedoria, o locutor fez a observação de que Sabedoria se escreve com S, numa referência ao pouco letrado ministro da educação do Brasil desses tempos obscuros. Ah, se fossem apenas os erros cometidos contra a língua portuguesa!

Mas, um dos pontos altos do desfile foi a homenagem prestada a um de nossos maiores sábios, o Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire. Notem, ele não foi o tema do enredo. Foi o grande homenageado. O tema foi a sabedoria e a justa homenagem foi a um sábio nosso. Na ala "Ao mestre com carinho", em meio a criançada da escola, um personagem carrega um livro aberto, onde numa das páginas se lê "Não se pode falar da educação sem amor", e na outra, um grande "VIVA PAULO FREIRE".

Os versos do samba que mais se aproximam do pensamento de Paulo Freire, segundo a minha observação, são os seguintes:

Em cada traço que rabisco no papel
Vou desenhando o meu destino
No horizonte, vejo um novo alvorecer
Ao mestre, meu respeito e carinho
É nova era, o futuro começou
É tempo de paz, resgatar o valor!

Vamos ao desfile da escola campeã:



https://www.youtube.com/watch?v=viSz7LcMSaw

Observemos ainda atentamente o samba que homenageia o poder do saber.

Águia, em suas asas vou voar
E no caminho da sabedoria
Páginas da história desvendar
Sou eu, no elo perdido um desbravador!
O tempo é o meu senhor
Na busca da evolução
Criar e superar limites da imaginação
A mente "dominar"
Jamais deixar de acreditar!

Brincar de Deus... recriar a vida
Desafiar, surpreender
Na explosão a dor, uma lição ficou!
Sou aprendiz do Criador

Em cada traço que rabisco no papel
Vou desenhando o meu destino
No horizonte, vejo um novo alvorecer
Ao mestre, meu respeito e carinho
É nova era, o futuro começou
É tempo de paz, resgatar o valor!
Águia... razão do meu viver
Berço que Deus abençoou
Nada se compara a esse amor!

Meu coração é comunidade
Faz o sonho acontecer
Pompeia guerreira, chegou sua hora
Seu manto reluz o poder do saber

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

American Factory. Vencedor do Oscar de melhor documentário.

Creio que nunca na história da premiação do cinema os documentários ganharam tanta notoriedade como na disputa do Oscar de 2020. Talvez isso seja uma percepção mais nossa, mais brasileira, em virtude da participação de Democracia em vertigem de Petra Costa. Mas o vencedor foi American Factory, sobre a indústria americana em tempos de uma economia globalizada. Um tema absolutamente polêmico, uma vez que se trata da presença de uma empresa chinesa em território dos Estados Unidos.
American Factory, cartaz promocional.

O documentário também ganhou notoriedade especial pela presença da Higher Ground, a produtora do casal Barack e Michele Obama. Mas o documentário tem a assinatura de Steven Bognar e Júlia Reichert e distribuição pela Netflix. O mote é a presença da empresa chinesa, na cidade de Dayton, no estado de Ohio, que se instalou no espaço de uma fábrica da General Motors, fechada em função da forte crise americana no setor da indústria automobilística. A empresa é a Fuyao, indústria do setor de vidros automotivos. Um mote e tanto.

É um "adeus aos bons tempos", segundo um dos funcionários da antiga fábrica da GM e agora, empregado da fábrica chinesa. Na GM ganhava 29 dólares por hora, agora 14. Direitos trabalhistas, praticamente nenhum. O jeito é dobrar jornadas de trabalho, ficar distante da organização sindical e submeter-se a critérios de vigilância permanentes. O panótico de Bentham está onipresente, mesmo sem o perceber. Além dos rígidos controles  dos diretores chineses, há as cobranças de desempenho, que o próprio trabalhador se impõe. A auto culpabilização. Elas são impostas pelas necessidades familiares e pela não aceitação do rebaixamento da condição de classe média. Que drama. A respeito dou uma referência interessante. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html

Chineses em território dos Estados Unidos. A economia do "capitalismo de estado" na terra das "liberdades". Um choque cultural, mas não apenas isso. Creio que o sonho capitalista é efetivamente o modelo autoritário chinês, sem concessões para a democracia. Sob esse aspecto o documentário é uma denúncia e, por isso mesmo, foi muito bem recebido pela crítica e pelo público.

São os tempos em que se somam o neoliberalismo, a economia global e o autoritarismo político. É o caminho para os retrocessos dos avanços regulatórios implantados pelo chamado Estado Democrático de Direito, embora os Estados Unidos sempre tivessem grande resistência a ele. Mas os chineses são mais frios, menos corazonados, para usar a expressão do Boaventura de Sousa Santos. Um capitalismo 100% voltado para a eficiência e 0% para as coisas do coração, dos afetos e dos sentimentos. É a razão instrumental, fria e calculista, levada às últimas consequências.

E o que é pior, este modelo de 100% de eficiência, só possível em um estado autoritário, é o grande produto de exportação do capitalismo global - da China e das suas empresas, ancoradas nas doutrinas do neoliberalismo e economia global. Observe-se e destaque-se que esse fenômeno não é restrito aos chineses, mas sim, um produto da economia global. Em vez da elevação da qualidade de vida, a sua deterioração (Vejam a legislação trabalhista e previdenciária sob Temer e Bolsonaro). Este 100% de eficiência na produção também elimina as preocupações ambientais e as preocupações com o ser humano, este agora profundamente abalado com as doenças da mente, provocadas pelas exigências do auto-desempenho. A ameaça da demissão sempre paira à sua frente. Tudo isso em meio a muita celebração do "pertencimento" à grande família da empresa, o porto seguro para as aspirações do american way of life.

O documentário muito me fez lembrar de Naomi Klein, de seu livro Sem Logo - A tirania das marcas em um planeta vendido, um livro do ano de 2000 e que chegou ao Brasil em 2002. Em especial, me lembrei dos três capítulos, sob o título geral, SEM EMPREGOS. São eles: capítulo 9. A fábrica descartada: a produção degradada na Era da Supermarca; 10. Ameaças e trabalho temporário: Do trabalho a troco de nada à "Nação do agente livre" e 11. A criação da deslealdade: Tudo que vai, volta. O título Sem Logo é uma referência às fábricas que produzem para qualquer marca. Elas não tem mais logo.
O necessário livro de Naomi Klein.

American Factory é um documentário para ser visto, para ser passado em salas de aula e amplamente discutido e debatido, embora muitos (Escola sem partido, por exemplo) não o queiram. Mas tudo isso integra o capitulo sobre o autoritarismo. Quanto ao modelo do comunismo chinês, embora a sua eficiência no campo da produção, representa o máximo da degradação de seus princípios: uma "ditadura do proletariado" permanente. Alimento a certeza de que a ideia do comunismo apavora tanto, não pelo seu passado real, mas pelos projetos de futuro, de sonhos, que ele representa. Afinal, como canta o samba enredo da Mangueira (2020) "Não tem futuro sem partilha".

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O fim do império cognitivo. A afirmação das epistemologias do sul. Boaventura de Sousa Santos.

Um livro denso. Um livro que se impõe, se você efetivamente pensa num mundo melhor, em que a convivência humana seja minimamente possível. A grande tese do livro O fim do império cognitivo -A afirmação das epistemologias do sul, de Boaventura de Sousa Santos, é a de que as chamadas epistemologias do norte fracassaram e que são absolutamente insuficientes para resolver os graves problemas que a humanidade enfrenta nessas primeiras décadas do século XXI.
O extraordinário livro de Boaventura de Sousa Santos. Pela Autêntica. 2019.

As epistemologias do norte correspondem ao paradigma da racionalidade que emergiu junto com o mundo moderno e em que, basicamente, a razão substituiu a fé, ou nas palavras eruditas de Kant, ao afirmar que "nossa época é propriamente a época da crítica, à qual tudo tem de submeter-se. A religião, por sua santidade, e a legislação por sua majestade, querem comumente esquivar-se dela. Mas desse modo suscitam justa suspeita contra si e não podem ter pretensões àquilo que foi capaz de sustentar seu exame livre e público". Assim a razão substituiu, tanto o altar, quanto o trono. 

Foi uma época de grandes progressos e de muita esperança. O mundo adentrou ao século XX como um século de grande progresso, de prosperidade e, sobretudo, de paz. A razão, pela via da ciência e do entendimento traria a ideia do "progresso indefinido". Mas, mal o século começou e tudo ruiu. Duas guerras, a primeira, a mais sangrenta de todas, e a segunda, com horrores inimagináveis, desacreditaram as crenças. Adorno denuncia a razão como a razão instrumental. O mundo se refez, tanto por revoluções, quanto por reformas. As duas estão desacreditadas no início do século XXI.

Assim, diante da ausência de esperanças e de perspectivas, o mundo das teorias precisa se refazer. As ideologias do norte, representadas pela "deusa razão" são insuficientes para continuar oferecendo esperança, ingrediente fundamental da natureza humana, para que o mundo continue com a ideia do dia de amanhã e ofereça princípios que, minimamente, assegurem a convivência e a sobrevivência da humanidade.

Como as ideologias do norte não mais oferecem essa possibilidade, o mundo da teoria precisa ser reinventado. Boaventura de Sousa Santos nos oferece essa possibilidade, pelo que ele chama de "ideologias do sul". Se as ideologias do norte brotam da razão, da razão instrumental, distante do coração (do corazonar), temos que buscar alternativas nas epistemologias do sul. Nelas o conhecimento emerge não da razão, mas da necessidade. As ideologias do norte impuseram três categorias ao mundo e trouxeram muitas injustiças e, em consequência, muitas revoltas. Essas categorias são o capitalismo, o colonialismo e o patriarcalismo. Nenhuma dessas categorias foi superada, pelo contrário, elas se refizeram a cada dia e continuam impondo cada vez mais dor, sofrimento e riscos permanentes.

Somente as ideologias do sul, com a oferta de conhecimentos que em muito ultrapassam os da fria razão e que são ricas em diversidade, podem se oferecer como alternativas. Alternativas aos "riscos de morte em contexto de conflitos armados dos quais as vítimas, civis inocentes, não são participantes ativos; o risco de doença causado pelo uso massivo - quer legal, quer ilegal - de substâncias perigosas; o risco de violência causado pelo preconceito racial, sexista, religioso, xenófobo e outros; o risco de ver saqueados os seus próprios magros recursos, seja o salário, a pensão de reforma, ou a casa hipotecada [...]; o risco de precariedade no emprego e o risco de frustração das expectativas relativas à estabilidade de emprego necessárias para elaborar planos para o próprio e sua respectiva família. Esse é o grande mundo da experiência do medo sem esperança...".

Como já afirmei o livro tem rara densidade teórica. Estabelece diálogos absolutamente plurais. É dividido em três partes e doze capítulos, além de prefácio, introdução, conclusão e bibliografia. As três partes são: 1. Epistemologias pós-abissais; 2. Metodologias pós-abissais e 3. Pedagogias pós-abissais. Os temas são desenvolvidos ao longo de 478 páginas.

A parte 1 tem os seguintes capítulos: 1. Percursos para as epistemologias do sul; 2. Preparar o terreno; 3. Autoria, escrita e oralidade; 4. O que é a luta; 5. Corpos, conhecimentos e corazonar. Chamo especial atenção para este capítulo 5, para mim, o mais belo do livro.

A parte 2 tem os seguintes capítulos: 6. Descolonização cognitiva: uma introdução; 7. Sobre as metodologias não extrativistas; 8. A experiência profunda dos sentidos; 9. A desmonumentalização do conhecimento escrito e arquivístico.

A parte 3 tem os seguintes capítulos: 10. Gandhi, um arquivista do futuro; 11. Pedagogia do oprimido, investigação-ação participativa e epistemologias do sul (capítulo dedicado a Paulo Freire e ao espanhol Fals Borda); 12. Da universidade à pluriversidade  e à subversidade. A conclusão é uma espécie de síntese muito bem feita do livro e tem por título "entre o medo e a esperança", que segundo Spinoza são as duas emoções básicas da vida. O atual quadro se apresenta como "uma vida na expectativa, sem expectativas".

Dessa conclusão tiro uma passagem muito significativa: "Face a tal fato, o argumento central deste livro é o de que qualquer intervenção que tenha como objetivo interromper esse tipo de política requer a interrupção da epistemologia que lhe está subjacente. Isso significa que a intervenção epistemológica é também uma intervenção política. A essa interrupção dou o nome de epistemologias do sul. Baseado nelas, defendo que não faltam alternativas ao mundo. Falta sim, um pensamento alternativo de alternativas. Esse é o caminho mais seguro para recuperarmos a esperança no nosso tempo. Não esperança sem medo, mas esperança suficientemente resiliente para não se deixar vencer pelo medo sem esperança".

E para deixar claro a grande finalidade do livro, de combate ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcalismo, recorro aos dois parágrafos da contracapa: "Afinal de contas, por que é que o pensamento crítico eurocêntrico se rendeu? Por que desistiu de formular alternativas críveis que explicassem e fortalecessem as lutas contra a dominação e a opressão? Defendo neste livro que para responder a essas questões é imprescindível questionar os alicerces epistemológicos do pensamento crítico eurocêntrico e ir além dele, por mais brilhante e magnífico que seja o conjunto de teorias que ele gerou.

Para recuperar a ideia de que existem alternativas, bem como para reconhecer que as lutas contra a opressão que continuam a ter lugar no mundo são portadoras de alternativas potenciais, é necessária uma mudança epistemológica. O argumento deste livro é que essa mudança se encontra naquilo que chamo de epistemologias do sul". E... vamos cravar bem os inimigos que oprimem: capitalismo, colonialismo e patriarcalismo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Samba-enredo. Mangueira 2020. A Verdade Vos Fará Livre. E também o da Portela.

Mangueira fazendo história. Já em 2019 a escola brindou o povo brasileiro com uma maravilhosa aula de história, de história do Brasil, de um Brasil não oficial. Uma história de um povo negro e índio, num tempero de raças e muita dor. Vamos relembrar.
Já em 2020 a escola volta com outro tema maravilhoso, um tema religioso. Jesus volta à terra, volta para o Rio de Janeiro, volta para o "Buraco quente", onde começou a Mangueira. Jesus volta, filho de carpinteiro, pai desempregado. E a mãe: Maria das Dores Brasil. Os tempos são obscuros, mas a esperança brilha, mesmo na escuridão. E seguem duas mensagens fantásticas: Não tem futuro sem partilha - Nem Messias de arma na mão.
O samba, que é uma reza, foi composto por Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. É narrado em primeira pessoa, isto é, o Jesus da gente é o próprio narrador. Uma letra para tempos obscuros e de muita intolerância não apenas no campo religioso, mas em todas as formas possíveis. Vamos primeiro à letra e depois ao samba cantado pela escola.
Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do Buraco Quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E num domingo verde-e-rosa
Ressurgi pro cordão da liberdade
Vamos ao samba cantado pela escola:
Por ser lindo demais, também deixo o samba enredo da Portela:

“GUAJUPIÁ, TERRA SEM MALES” Autores: Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D’Sousa e Araguaci Intérprete: Gilsinho Clamei aos céus A chama da maldade apagou E num dilúvio a terra ele banhou Lavando as mazelas com perdão Fim da escuridão Já não existe a ira de Monã No ventre há vida, novo amanhã Irim Magé já pode ser feliz Transforma a dor Na alegria de poder mudar o mundo Mairamuana tem a chave do futuro Pra nossa tribo lutar e cantar Auê, auê, a voz da mata, okê, okê arô Se Guanabara é resistência O índio é arco, é flecha, é essência Ao proteger karioka Reúno a maloca na beira da rede Cauim pra festejar… purificar Borduna, tacape e ajaré Índio pede paz mas é de guerra Nossa aldeia é sem partido ou facção Não tem “bispo”, nem se curva a “capitão” Quando a vida nos ensina Não devemos mais errar Com a ira de Monã Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver Pro imenso azul do céu Nunca mais escurecer Índio é tupinambá Índio tem alma guerreira Hoje meu Guajupiá é Madureira Voa Águia na floresta Salve o Samba, salve ela Índio é dono desse chão Índio é filho da Portela

https://www.youtube.com/watch?v=xsPswtxm3cE