segunda-feira, 24 de junho de 2024

Deixe o quarto como está. Amilcar Bettega. Vestibular UFRGS - 2025.

É pela terceira vez que começo a resenha deste livro - deixe o quarto como ele está, de Amilcar Bettega. Trata-se de um livro muito difícil de ler, e muito mais de resenhar, pois trata-se de um livro inteiramente aberto. Ele exige leitura atenta, reflexões e interpretações suas, e que nunca necessariamente são as mesmas. É um livro de 2002 e uma indicação para o vestibular de 2025, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, indicação pela qual cheguei ao livro. A sua primeira edição é do ano de 2002.

Deixe o quarto como está. Amílcar Bettega. Companhia das Letras. 2020.

"Flertando com Kafka, Rulfo e Cortázar, Amilcar Bettega faz deste livro uma das melhores amostras da literatura brasileira contemporânea", lê-se na contracapa. Confesso que não li  Rulfo e Cortázar, mas senti os mesmos desassossegos que senti com a leitura de Kafka. Também tive as minhas lembranças: A sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, Necropolítica, de Achile Mbembe e, especialmente, de realismo capitalista - é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, de Mark Fisher. Deste último, a impactante ideia de que vivemos um fracasso há cinquenta anos, mas um fracasso inteiramente consolidado, que não se imagina em mudar. Um infelicitar de todos. Também lembrei muito do documentário Janela da alma, de João Jardim. Nele há uma fala de Saramago, se não me engano, sobre a necessidade de também ler as entrelinhas.

A interpretação de Deixe o quarto como está me ficou mais fácil depois de ver uma entrevista do autor, concedida ao Jornal da Universidade da URGS, que pode ser encontrada no Google, digitando - Escrevo porque não sei - jornal da universidade. A entrevista é datada de 10 de dezembro de 2020. Nela, Bettega está muito feliz, pois além da indicação de seu livro para o vestibular da universidade, também ocorreu o lançamento do livro em tradução para o italiano.  Algumas observações a partir dessa entrevista.

A primeira é uma dica preciosa, uma pista para a interpretação. Preste atenção ao subtítulo: ou Estudos para a composição do cansaço. O cansaço, não o físico, mas o moral, o emocional, aquele que adoece, aquele que infelicita é um dos temas que perpassa os contos. Sim, é um livro de contos, 14 no total. A segunda é sobre o título e a frase de epígrafe: "Deixe o quarto como está. Agora, está tudo pronto. Estamos prontos. Quer ir? A frase é do contista estadunidense, Raymond Carver, admirador e biógrafo de Tchekhov. É sobre a morte de Tchekhov, que, em seu leito de morte, atendido por um médico que constata não haver o que fazer, manda servir champanhe. Certamente uma celebração do momento derradeiro da vida. Quando o garçom do hotel procura limpar o quarto, a esposa lhe pede para deixar o quarto como ele está. Lindo, lindo. Mas trata-se da morte. Não há saída.

Outra observação, a partir da entrevista, é sobre o conto O encontro. Conta-se que o escritor espanhol, Vila-Matas fora convidado para um encontro literário em Paris. Ele chega, se hospeda em um hotel e espera o contato com os organizadores do evento. Como eles não aparecem, aproveita a ocasião para refletir e escrever sobre a espera, ficar esperando, rodando, aguardando. Para mim, também, uma reflexão sobre a dificuldade de encontros em nossa sociedade, muito mais dada a desencontros. 

Na entrevista também é interessante observar as perguntas, pois são muito bem feitas. Elas denotam conhecimento da obra. Elas contém o teor da obra, o que obriga o autor a responder sobre ela. Aí percebemos os temas fundamentais: cansaço, o vazio do cotidiano, falta de sentido, aprisionamento, ausência de perspectivas, insistências... No meu tempo de estudante de filosofia, a gente chamava isso de angústias da existência, ou o famoso "estamos condenados a ser livres". As pessoas sabem que vão perder, mas não desistem, responde Bettega, a uma das perguntas. Um dos mais belos contos, cheio de significados: Exílio. Tomar o trem de volta e, começar tudo de novo, apesar de se defrontar sempre com muralhas, como ocorre no conto sobre "o encontro".

Também é muito interessante dar uma olhada na biografia, na história de vida do escritor. Ele nasceu na militarizada cidade de São Gabriel, no emblemático ano de 1964. São Gabriel conta hoje com um pouco mais de 60.000 habitantes. Está a 320 quilômetros distante de Porto Alegre, para onde foi estudar engenharia civil, na sua conceituada universidade. Mas não era este o seu campo. O campo das Letras o levou a Paris, para a Sorbonne, para estudar escrita criativa. E isso ele consegue fazer, mesmo dentro da mais brutal e depressiva realidade. 

Acima de tudo, contos para refletir, para dar voltas ao redor dos fatos, para enxergá-los por todos os ângulos e lados. Um livro aberto, para nele, também você, inscrever as suas letras, aproveitando para isso, as suas entrelinhas. As reflexões precisam ter continuidade.

Deixo a resenha de Sociedade do cansaço:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html

terça-feira, 18 de junho de 2024

um útero é do tamanho de um punho. angélica freitas. Vestibular - 2025. UFRGS.

"não queria fazer uma leitura // equivocada // mas todas as leituras de poesia // são equivocadas" (p. 52). Abro a minha resenha de um útero é do tamanho de um punho, dessa maneira como uma forma de prevenção. Confesso que tenho enorme dificuldade em ler livros de poesia. Faço essa ressalva, para antecipadamente justificar problemas de entendimento, usando para isso, as palavras da própria autora, a poeta gaúcha Angélica Freitas. Cheguei ao livro por meio de uma listagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para o vestibular de 2025. A edição que eu li é da Companhia das Letras, 2017, 9ª impressão.

um útero é do tamanho de um punho. angélica freitas. Companhia das Letras.

Procurando facilitar os caminhos, começo apresentando dados biográficos de Angélica, que, creio, ajudam na interpretação de sua poesia, ou então, fazem uma aproximação com os temas por ela trabalhados, os mesmos que foram por ela vividos. Angélica Freitas nasceu na histórica, tradicional e aristocrática cidade de Pelotas, no ano de 1973. Depois passou a ser uma espécie de cidadã do mundo, tomando a este, como o espaço de suas experiências, angústias e vivências. E também de sua poesia.

Em Porto Alegre, na sua Universidade Federal, fez o curso de jornalismo, indo depois para São Paulo exercer a profissão de jornalista, na redação do tradicional O Estado de S. Paulo. Vão vendo.... Duas vezes já usei a palavra tradicional. Rupturas à vista? Andou pela Holanda, pela Bolívia, mas as suas experiências mais marcantes ocorreram na Argentina e no México. Na revista TRIP encontrei uma entrevista sua, dada para Natasha Cortêz (Revista datada de 26.10.2012), em que ela fala dessas experiências.

Na Argentina ela conviveu com um grupo de mulheres, feministas, mergulhando no tema da construção da mulher (A mulher é uma construção) e no México, onde assistiu a uma colega, em um aborto. No México o aborto é legalizado e com cobertura da Saúde Pública. O fato que a sensibilizou foi a atitude de mulheres religiosas, católicas, que, primeiro, mansamente tentaram demover os familiares da sua prática e passando, progressivamente, para um discurso muito forte, violento. Esses fatos, segundo ela, a levaram ao tema - mulher, às suas inquietações e aos padrões que lhe são impostos. Está aí o núcleo central do livro.

Com essas questões em mente, ela retorna a Pelotas e, por um ano, se ocupa com a escrita do livro, começando com uma pesquisa sobre o corpo da mulher, quando se depara com a frase "um útero do tamanho de um punho fechado". Estava aí o título (apenas com a supressão do fechado) e o mais longo dos poemas do livro (Um útero do tamanho de um punho p. 59-66). Ela também fala sobre a razão de escrever o livro em sua cidade natal. Uma cidade provinciana, onde os papéis de gênero são bem definidos, com o patriarcado e o machismo empurrando a mulher para os espaços domésticos. Rupturas e ironias à vista?

Perguntada se ela teria uma predileção especial por algum dos poemas, ela diz que não, mas em sua resposta começa a falar sobre "Uma mulher limpa" (p.11-14), contrapondo-a com a mulher suja e feia. Ironia pura, um soco de punho fechado! No poema ela se recusa a ser a mulher padronizada, de como ela deve ser, se comportar, de se vestir, para ser mulher limpa e fofa. Para encontrá-la (essa mulher limpa e fofa) basta ir a uma loja de departamentos, ao setor de vestuário feminino, que você a encontrará. Tudo igual. Esse poema ocupa a primeira parte do livro, (e deixo uma dica, o poema mereceu a atenção de Márcia Tiburi, na revista Cult, datada de 12 de maio de 2013). Um poema que, além da ironia, também é de muita coragem nesses tempos obscuros.  Merecem também destaques - a mulher que incomoda muita gente e a ironia que a fez retornar a gracinhas de sua infância (i piri qui).

Vamos ainda ver um pouco da história do próprio livro, que além de prêmios, também ganhou um mundo, com traduções para o espanhol e para o alemão. A sua primeira edição é do ano de 2012, pela Cosac Naify, recebendo nova edição em 2017, pela Companhia das Letras. Pela data dos comentários das duas revistas, dá para perceber que o lançamento causou e, continua causando, agora com a indicação para o vestibular da grande universidade gaúcha. 

Vamos a dois pequenos aperitivos. O primeiro sobre a mulher limpa:

"porque uma mulher boa // é uma mulher limpa // e se ela é uma mulher limpa // ela é uma mulher boa"

há milhões de anos // pôs-se sobre duas patas //  a mulher era braba // braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba // não é uma mulher boa // e uma mulher boa, é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos // pôs-se sobre duas patas // não ladra mais, é mansa // é mansa e boa e limpa (p.11 - tem sequência). ...

E - o segundo, sobre  a mulher em construção:

"A mulher é uma construção // deve ser

A mulher basicamente é pra ser // um conjunto habitacional // tudo igual // tudo rebocado //só muda a cor

particularmente sou uma mulher // de tijolos à vista // nas reuniões sociais tendo a ser // a mais malvestida

digo que sou jornalista

(a mulher é uma construção // com buracos demais

vaza

a revista nova é o ministério // dos assuntos cloacais // perdão // não se fala em merda na revista nova)

vocé é mulher // e se de repente acorda binária e azul //e passa o dia ligando e desligando a luz?

(você gosta de ser brasileira? // de se chamar virgínia woolf)

a mulher é uma construção // maquiagem é camuflagem

toda mulher tem um amigo gay // como é bom ter amigos

todos os amigos tem um amigo gay // que tem uma mulher // que lhe chama de fred astaire

neste ponto, já é tarde // as psicólogas do café freud // se olham e sorriem

nada vai mudar -

nada nunca vai mudar - a mulher é uma construção". (p.45-6). 

"Em seu segundo livro de poemas, publicado pela primeira vez em 2012, a poeta subverte imagens absolutamente gastas do que se espera da mulher - anunciadas em capas de revistas e em vitrines de lojas  de departamentos - para discutir, de modo transgressor, sobre questões de gênero". É o que lemos na contracapa do livro e, certamente, também a intenção da UFRGS, ao incluí-lo em sua lista para o vestibular.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

200 livros para entender o Brasil. Folha de São Paulo. 4 de maio de 2022.

Pelos idos dos anos de 1990, estudando o tema da globalização e do neoliberalismo me deparei com o termo desterritorialização. Por que estou me lembrando desse conceito? É que em 2022 o Brasil (não) comemorou os duzentos anos de independência. A efeméride passou praticamente despercebida, mesmo tendo um governo que afirmava o princípio de "Deus, Pátria, Família e Liberdade". Ainda mais, os governantes afirmavam-se como sendo os verdadeiros patriotas. Acontece que, com a globalização e o neoliberalismo, a PÁTRIA ficou desterritorializada, e o território que antes era o da Pátria, agora passou a ser o do mercado globalizado, sem limites e fronteiras.

Quarto de despejo. Carolina Maria de Jesus. O livro com o maior número de indicações.

Essa é a razão pela qual os duzentos anos da Pátria brasileira, isto é, seu território, seu povo e suas instituições, passassem quase em branco, ao contrário do que ocorreu no centenário e no sesquicentenário, mesmo que este último fosse festejado sob o peso de chumbo da ditadura militar. Digo isso, para lembrar, que no espírito dessas comemorações, a Folha de S.Paulo fez uma pesquisa junto a 169 intelectuais sobre quais teriam sido os livros mais importantes para entender o Brasil. A classificação foi ordenada pelo número de menções recebidas. Para quem tiver interesse maior na matéria, a publicação dessa pesquisa ocorreu no dia 4 de maio de 2022.

Eu fiquei muito feliz, comigo mesmo, com os resultados obtidos, uma vez que li (ou o livro ou ensaio a respeito) e resenhei os dez primeiros da lista e a grande maioria entre os duzentos. Mesmo assim, devo dizer que ainda não conheço suficientemente este grande e maravilhoso país. Destaque-se que não são necessariamente os que melhor interpretam o Brasil e, possivelmente, numa listagem de um curso de uma universidade, ao menos entre os dez que mereceram o maior número de indicações, apareceriam outros. Os estudos das interpretações do Brasil sempre me trouxeram grande motivação. A Folha traz uma pequena síntese de cada um dos livros mencionados.

Mas vamos aos dez mais do ranking:

Em primeiro lugar: Quarto de despejo. Carolina Maria de Jesus. 1960.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/09/quarto-de-despejo-diario-de-uma.html  

Em segundo lugar: Grande sertão veredas. Guimarães Rosa. 1956. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/grande-sertao-veredas-joao-guimaraes.html

Em terceiro lugar: A queda do céu. Davi Kopenawa e Bruce Albert. 2015.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/04/a-queda-do-deu-palavras-de-um-xama.html

Em quarto lugar: Raízes do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda. 1936. Uma síntese retirada do livro Um Banquete no Trópico - Introdução ao Brasil. Vol. 1. Lourenço Dantas Mota (organizador). O ensaio é de autoria de Brasílio Sallum Jr. (p. 235-256). Os dois volumes dessa introdução são altamente recomendáveis.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/07/um-banquete-no-tropico-11-raizes-do.html

Em quinto lugar: Casa Grande & Senzala. Gilberto Freire. 1933. Uma síntese retirada do livro Um Banquete no Trópico - Introdução ao Brasil. Vol. 1. Lourenço Dantas Mota (organizador). O ensaio é de autoria de Élide Rugai Bastos (p. 215-234).

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/07/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html  

Em sexto lugar: Memórias póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis. 1881.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/07/memorias-postumas-de-bras-cubas-machado.html

Em sétimo lugar: Um defeito de cor. Ana Maria Gonçalves. 2006.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/05/um-defeito-de-cor-romance-ana-maria.html

Em oitavo lugar: Macunaíma. Mário de Andrade. 1928.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/01/macunaima-uma-rapsodia-de-mario-de.html

Em nono lugar: Vidas secas. Graciliano Ramos. 1938.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/03/vidas-secas-graciliano-ramos.html

Em décimo lugar: Brasil: uma biografia. Lilia Schwarcz e Heloísa Starling. 2015.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/10/brasil-uma-biografia-lilia-m-schwarcz-e.html 

Além desses dez, faço mais algumas indicações da lista, mas sem obedecer a ordem de indicações. Entre elas cito: Os sertões. Euclides da Cunha. O povo brasileiro. Darcy Ribeiro. Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro. Triste fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto. Úrsula. Maria Firmina dos Reis. Escravidão. Laurentino Gomes. Os sete volumes de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Os cinco volumes de Élio Gaspari sobre a Ditadura militar de 1964-1985. Além de toda a obra de Jorge Amado. E um que eu ainda não conheço, O genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento e o livro pelo qual eu cheguei a esta pesquisa da Folha, A terra dos mil povos, de Kaká Werá Jecupé.

Deixo ainda a preciosa indicação de Antônio Cândido, numa listagem das dez mais importantes interpretações do Brasil. Ele separou por temas.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/10/dez-interpretacoes-de-brasil-indicacoes.html


segunda-feira, 10 de junho de 2024

Nada de novo no front. Erich Maria Remarque.

Não me lembro exatamente como cheguei ao Nada de novo no front, do escritor alemão, Erich Maria Remarque (1898-1970). Creio que tenha sido por algum comentário ouvido no rádio. Em todos os casos, fiquei muito satisfeito com a sua leitura, que me fez confirmar o escrito na contracapa, na qual o livro é apresentado como "o mais importante romance pacifista do século XX". A edição que eu li é da L&PM Pocket, com tradução de Helen Rumjanek. A primeira edição do livro foi de 1929 e, logo em seguida, foi levado ao cinema. A edição da L&PM que eu li é de 2023.

Nada de novo no front. Erich Maria Remarque. L&PM Pocket. 2023.

Para falar do livro, por mínimo que seja, é absolutamente necessário falar da biografia do autor, pois ela se confunde com o teor do livro. Vejamos a já mencionada contracapa: "Aos dezoito anos de idade, Erich Maria Remarque conheceu as trincheiras alemãs da Primeira Guerra Mundial. Foi ferido em três ocasiões. Saiu do conflito profundamente marcado e perplexo com a crueldade da guerra. Durante a década de 20, enfrentava a insônia carregada de fantasmas tomando notas sobre os horrores que viu e viveu no front. Os rascunhos formavam o núcleo de um romance". Este é o teor do livro, narrado ao longo de dez capítulos, sendo que cada capítulo se ocupa mais especificamente de um determinado tema. Mas vamos continuar com a sua biografia, agora de uma nota introdutória ao livro.

"... Parou de estudar aos dezoito anos para juntar-se ao exército alemão na Primeira Guerra Mundial. Nas trincheiras foi ferido três vezes, uma delas gravemente". Fora levado à guerra por um entusiasmo patriótico, incentivado pelos pais, imaginando que a guerra era também sua, mas, rapidamente descobriu que ela não o era.  Vou me ater ainda à questão biográfica, especialmente no que diz respeito às repercussões do livro, uma vez que reflete o espírito de uma época. Terrível.

"Após o conflito, lutando para sobreviver em um país completamente corroído pela guerra, exerceu diversas profissões: foi pedreiro, organista, motorista e agente de negócios, até estabilizar-se, mais ou menos, no jornalismo, exercendo funções de crítico teatral e repórter esportivo, entre outras, em alguns jornais de Hannover e Berlim". Mas o conflito não o abandonou. Ele continuou em suas longas noites de insônia, que aproveitou para escrever e, desta forma, não enlouquecer. Estes seus manuscritos foram publicados primeiramente sob a forma de folhetim e, em 1929 se transformaram em livro. Mas vamos às repercussões, lembrando dos horrores dos anos 1930, com a ascensão de tudo o que era sombrio e cinzento.

"Com o recrudescimento dos sentimentos nazistas, a perseguição a Erich Maria Remarque aumentou, pelo seu pacifismo manifesto nas suas obras (em 1931, publicou também O caminho de volta, que retratava as frustrações dos que regressavam das frentes de luta). Um ainda ascendente Joseph Goebbels e seus homens teriam interrompido sessões do filme, espalhando ratos brancos nas salas de projeção. Em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, o filme foi proibido. Remarque exilou-se primeiro na Suíça e, a partir de 1939, nos Estados Unidos. No dia 10 de maio de 1933, seus livros foram queimados na fogueira na praça da Ópera de Berlim. Em 1938, as autoridades alemãs retiraram sua cidadania alemã, por ter "arrastado na lama" os soldados da grande guerra e apresentado uma visão "antigermânica" dos acontecimentos da guerra". A essas alturas ele já estava seguro em seu exílio, mas a sua irmã pagou alto preço. Foi condenada à morte por decapitação. E, ainda sobre as repercussões vamos ao parágrafo final da apresentação biográfica:

"Remarque, que junto a Goethe é o escritor de língua alemã mais lido no mundo, faleceu aos 72 anos de idade, no dia 25 de setembro de 1970, em Lucarno, na Suíça. Não perdoou a Alemanha do pós-guerra pelo tratamento brando para com as autoridades nazistas. Constatou com amargura, por ocasião de uma visita ao seu país natal, em 1966: 'Pelo que sei, nenhum assassino do Terceiro Reich perdeu a sua cidadania alemã'". E, uma triste constatação: custa caro a luta pelo pacifismo. Mas voltamos ao livro, do qual "o protagonista é Paul, jovem alemão de família humilde que, como tantos de sua geração, deu ouvidos aos pais e professores, abandonou a escola e partiu para uma guerra que - conforme descobriria - não era a sua", como lemos na contracapa. Vamos ao livro, aos seus dez capítulos:

No primeiro, temos uma espécie de apresentação da guerra aos jovens. Paul, junto com seus companheiros, estão a nove quilômetros do front. Eram 150. Ainda restam 80. Isso, por alguns dias, propiciou uma grande anormalidade, qual seja, a comida farta. Mas a regra geral era sono e fome. A palavra covarde era usada com frequência, aplicada aos que tinham medo. Diante de roubos, atitudes autoritárias absurdas de comandantes, de ferimentos e amputações e, acima de tudo,  mortes, logo perceberam os absurdos da guerra.

O segundo capítulo é um primor de texto sobre os horrores da guerra, das vidas que ela interrompe, e sobre os absurdos da formação militar, definida como uma renúncia à personalidade e um vil embrutecimento. Sugiro uma atenta leitura das páginas 24 e 25. Eu voltarei ao tema, uma vez que - no Brasil pós extrema direita golpista - a abertura de escolas cívico militares, se transformou em meta em ascensão.

O terceiro capítulo é uma descrição do cotidiano do acampamento. A fome é companheira em todos os momentos. É pão, salada, prato principal e sobremesa de nabo todos os dias. Além disso é um suceder de futilidades e de vinculações entre a farda e o autoritarismo.

O quarto capítulo é dedicado a uma batalha no front. Nela os humanos simplesmente se transformam em animais, agindo instintivamente. Ao lado, o sofrimento dos cavalos e dos homens mutilados e mortos. Espasmos e êxtases. Cinco mortos e oito feridos.

No quinto capítulo voltamos ao cotidiano do acampamento, agora enfocando mais o ponto de vista psicológico. Vejamos uma descrição: "A guerra arruinou-nos para tudo", afirma uma dos personagens. E Paul continua: "Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra" (p.74).

O sexto capítulo é dedicado à descrição dos ataques no front, um encontro, cara a cara com a morte. Somos algo parecido com seres humanos, mais como demônios em fúria. E muito preocupantes são os intervalos nos ataques, quando explodem os desconcertos da mente. Nos sentimos como mortos e nada nos poderá fazer renascer. De cento e cinquenta sobraram trinta e dois.

No capítulo de número sete, voltamos ao front, em raros momentos de paz. Estes são momentos de fuga da loucura que assola a todos. Se divertem com garotas francesas. Um leve sopro de juventude e de vida. Paul ganha uma folga de dezessete dias. Junto a família silenciada pelos aflitos da guerra, sente a percepção da mesma, a partir do imaginário popular. Os heróis na defesa da pátria. A guerra como forma de provar atos de heroísmo. O forte desejo do expansionismo... Tomar a Bélgica, o carvão francês, partir sobre a Rússia. Para Paul, um destroçar de todas as relações humanas, do mundo da afetividade e dos sonhos mínimos. Um dos mais duros capítulos.

No oitavo capítulo volta uma bela cena de ternura. No acampamento cuidam dos prisioneiros russos. Paul recebe a visita do pai e da irmã.. A mãe lhe manda bolinhos. São um raro banquete. Ele não hesita em reparti-los com os inimigos russos, feitos prisioneiros. Eles se tornam mais fraternos, talvez -, por estarem mais infelizes.   

O nono capítulo, o mais longo deles, é dedicado a reflexões sobre a guerra, quando os soldados concluem que a mesma não lhes diz respeito, mas que há gente que dela tira proveito: "Mas, então, para que serve a guerra? indaga Tjaden, Kat dá de ombros. - Deve haver gente que tira proveito dela. - Bem, eu não faço parte deles - ri Tjaden, irônico. - Nem você, nem nenhum de nós aqui" (p. 158). Outra reflexão forte está, já nas páginas finais do livro, quando afirma que os verdadeiros resultados da guerra só se conhecem no interior de um hospital e logo a seguir o jovem Paul emenda:

"Sou jovem, tenho vinte anos, mas da vida conheço apenas o desespero, o medo, a morte e a mais insana superficialidade que se estende sobre um abismo de sofrimento. Vejo como os povos são insuflados uns contra os outros e como se matam em silêncio, ignorantes, tolos, submissos e inocentes, Vejo que os cérebros mais inteligentes do mundo inventam armas e palavras para que tudo isto se faça com mais requintes e maior duração. E, como eu, todos os homens de minha idade, tanto deste, quanto do outro lado, no mundo inteiro, veem isto; toda a minha geração, sofre comigo [...]. Durante todos esses anos, nossa única preocupação foi matar. Nossa primeira profissão na vida. Nosso conhecimento da vida limita-se à morte. Que se pode fazer, depois disto? Que será de nós" (p. 200).

Do décimo capítulo, tomo as duas frases finais. "Tombou morto (Paul) num dia tão tranquilo em toda a linha de frente, que o comunicado limitou-se a uma frase: Nada de novo no front.

Caiu de bruços e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena, que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim" (p.220).

É a geração que depois enfrentou a Segunda Guerra Mundial e o mundo da Bipolaridade e da Guerra Fria. Talvez apenas a Guerra do Vietnã tenha provocado literatura semelhante. Prefiro ficar com o enunciado da contracapa: O mais importante romance pacifista do século XX.





sábado, 1 de junho de 2024

A terra dos mil povos. Kaká Werá Jecupé. Vestibular UFRGS - 2025.

As indicações de livros para os diferentes vestibulares também me levam à leituras. Dessa vez, vendo as indicações para 2025, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, me deparei com - A terra dos mil povos - História indígena do Brasil contada por um índio - de Kaká Werá Jecupé. A publicação não é recente, data de 1998, ainda no espírito dos 500 anos do "descobrimento". A pergunta que se impõe necessariamente é - mas o que havia aqui antes dessa data. Uma das teses do livro é a de que hoje temos a necessidade de pacificar os brancos, que nos trouxeram a "civilização". Isso implica num mergulho profundo na visão de mundo desses mil povos, anteriores ao processo civilizatório da cultura ocidental.

A terra dos mil povos. Kaká Werá Jecupé. Peirópolis. 2023.

A versão que tenho em mãos é a sua segunda edição, datada de 2020, em 5ª reimpressão, de 2023. O livro é da Peirópolis, mais que uma editora, uma Fundação de Educação em Valores Humanos. Kaká usou dessa Fundação para desenvolver a temática  e a visão de mundo da tradição tupi-guarani. Confesso que fiquei encantado com o livro, um dos melhores sobre a cultura indígena, junto com os livros de Darcy Ribeiro e de Manuela Carneiro da Cunha. Apenas mais recentemente temos outras obras como as de Ailton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo) e Davi Kopenawa (A queda do céu) escrito em parceria com o antropólogo Bruce Albert.

Outra observação a partir da leitura do livro é a do quanto que desconhecemos este mundo indígena na formação da identidade nacional brasileira e a relativamente pouca literatura existente a respeito. Digo isso, em comparação com a leitura que envolve a questão dos negros, originários da África. Nesse sentido o livro preenche uma enorme lacuna. Vale também a preocupação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ao incluir o tema, sob a forma de livro incluído em seu vestibular.

Primeiramente algumas impressões ao longo da leitura. Uma cultura ou visão de mundo fundada na observação dos sábios da tribo e de experiências passadas de geração em geração, absorvendo a herança ancestral e em consonância com uma grande unidade com a natureza, unindo o espiritual ao material é muito diferente de uma cultura que foi prescrita. Por isso, entre eles, o maior respeito à natureza, à generosidade da Mãe-Terra. Muito semelhante com as outras culturas dos povos originários da América, de sua cultura à Pachamama. Muita semelhança também com os ancestrais africanos e mesmo com os gregos. E a força dos quatro elementos: Terra, Ar, Água e Fogo. Em suma, uma cultura oriunda da observação dos fenômenos da natureza, entrelaçados ao humano e perpetuada pelo culto à ancestralidade. Ou, uma cultura não fundada em livro de prescrições.

Entre os muitos trechos sublinhados, destaquei este, que tinha por título: "Somos parte da terra e ela é parte de nós". Diz assim: "Contudo, a maior contribuição que os povos da floresta podem deixar ao homem branco é a prática de um ser uno com a natureza interna de si. As tradições do Sol, da Lua, e da Grande Mãe ensinam que tudo se desdobra de uma fonte única, formando uma trama sagrada de relações e inter-relações, de modo que tudo se conecta a tudo. O pulsar de uma estrela na noite é o mesmo do coração. Homens, árvores, serras, rios e mares são um corpo, com ações interdependentes. Esse conceito só pode ser compreendido por meio do coração, ou seja, da natureza interna de cada um. Quando o humano das cidades petrificadas largar as armas do intelecto, essa compreensão será compreendida. Nesse momento, entraremos no ciclo da unicidade, e a terra sem males se manifestará no reino humano" (p. 64). Este mundo sucumbiu à civilização do branco, à chamada racionalidade do mundo ocidental. Lembro de Leonardo Boff, numa aproximação com esta visão, quando fala de três tipos de razão: a da inteligência, a do coração e a da espiritualidade.

Ele também nos apresenta crenças indígenas a respeito da origem do mundo e da humanidade. "De maneira geral, pode-se dizer que o índio classifica a realidade como uma pedra de cristal lapidado, com muitas faces. Nós vivemos em sua totalidade, porém só apreendemos parte dela pelos olhos externos. para serem descritas, é necessário ativar o encanto para imaginarmos como são as faces que não se expressam por palavras" (p.71).

Uma parte notável do livro apresenta uma pequena síntese cronológica da história indígena brasileira, o espírito do tempo, de 1500 a 1998, ano da escrita do livro. Pena que essa cronologia não foi atualizada até 2020, por ocasião da 2ª edição. É uma história de atrocidades e de resistências, atrocidades dos bandeirantes e de grande parte dos catequistas. De resistência pelas inúmeras lutas contra a dominação e colonização, como a experiência da República Comunista Cristã dos Guaranis e a luta presente até os dias de hoje, pela visibilidade e preservação de suas culturas e demarcação de terras. Aí ele nos apresenta os resistentes dos tempos mais recentes, como Mário Juruna, Raoni, Ailton Krenak, Álvaro Tukano e Sônia Guajajara, esta aliando à luta indígena, a luta das mulheres.

Outro belo capítulo é o das  múltiplas contribuições indígenas na formação da cultura brasileira, com destaque para a agricultura, o cultivo da terra, a classificação das plantas, contribuições para a saúde, para a ética e para a filosofia, para alcançar uma longevidade, além de seus saberes fármacos, entre outros tantos. A identidade brasileira tem as suas raízes plantadas nas três grandes culturas que a formaram, todos com os seus saberes. E, como nos lembra o grande mestre Paulo Freire, que não existem saberes superiores e inferiores, mas sim, saberes diferentes. Depois da leitura desse capítulo vi um vídeo sobre a atual agricultura biodinâmica. Impressionante a sua origem.

Ele também aborda a delicada questão religiosa, nos chamando a atenção para o conceito latino do religare. "Religar-se a alguma coisa. Com o Divino, com Deus. Foi essa a ideia trazida para esses trópicos no século XVI". Mas não foi bem isso. Werá Jecupé não se intimida em nos apontar para a terrível hipocrisia e contradição entre o pregado e a sua prática: 

"Vimos que, no decorrer deste século, essas ideias se manifestaram nos templos, nas catedrais, nas capelas, nos livros. E vê-se que essa ideia não surge na atitude da civilização. Enquanto isso, o espaço entre a ideia e a atitude tem gerado a miséria humana. A palavra corre pelo governo humano sem espírito, sem cumprimento do que se diz. Pois palavra e espírito estão longe. A voz sai morta, porém maquiada para dar a impressão de vida. A religião é surda, pois o espírito está mudo" (p. 99). Mais uma vez lembrei de Paulo Freire, numa inscrição em camiseta que ganhei numa participação em seminário sobre o grande mestre: É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.

Com muita satisfação, quando eu li as duas últimas páginas do livro, que falam da biografia do autor, encontrei a referência de que A terra dos mil povos - História indígena contada por um índio - "...em 2022 foi listada pela Folha de S.Paulo dentre as 200 obras importantes para entender o Brasil, em levantamento de 169 intelectuais da língua portuguesa" (p. 125). Parabéns aos envolvidos que me fizeram chegar ao livro e, especialmente ao autor, pelo rico aprendizado.

E..., a partir do contido no livro, uma reflexão final. É preciso pacificar o branco e isso implica em...

Deixo ainda uma dica de Antônio Cândido, na sua indicação dos livros mais importantes para conhecer o Brasil. Para a questão indígena ele indicou o livro aqui resenhado:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/indios-no-brasil-historia-direitos-e.html

 E o grande clássico sobre o colonialismo, o colossal Os condenados da terra, de Frantz Fanon.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/03/os-condenados-da-terra-frantz-fanon.html



terça-feira, 28 de maio de 2024

O avesso da pele. Jeferson Tenório. Vestibular 2025. UFRGS.

Santa Cruz do Sul é uma cidade do Rio Grande do Sul com cerca de 130.000 habitantes. A imigração alemã é que deu origem à cidade, situada a uns 150 Km da capital. A cultura do tabaco sempre foi a sua grande ocupação econômica, sendo considerada, segundo a Wikipédia, a "capital mundial do fumo". Não, o post não é sobre a cidade de Santa Cruz do Sul. O post é sobre o livro O avesso da pele, do escritor carioca, radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório. Mas, então qual é a razão de começar o post falando de Santa Cruz do Sul?

O avesso da pele. Jeferson Tenório. Companhia das Letras.

Acontece que uma pudenda senhora desta cidade, diretora de uma escola, criticou o livro. A razão para tal, é a de que o livro continha um vocabulário de baixo nível. Essa crítica, na sequência, causou um verdadeiro furor moralista, uma violenta onda de "pudor" contra a "indecência" do livro. A onda se estendeu, atingindo todo o Rio Grande do Sul, além dos estados do Paraná e de Goiás. O livro chegou a ser recolhido das escolas, para averiguação, ou seria censura mesmo. A censura não vingou e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul incluiu o livro entre os selecionados para o seu vestibular - 2025. Antes o livro fora incluído no Programa Nacional do Livro Didático e recebido o prêmio Jabuti de 2021. A primeira edição do livro data de 2020 e já está em 17ª reimpressão. É editado pela Companhia das Letras.

Afinal de contas, do que trata o livro? Ele merece a acusação de ser um livro com "expressões, jargões e cenas de sexo inadequadas", conforme os acusadores?  É ele um livro erótico ou pornográfico? Longe disso. Pornográfica é a realidade nele descrita. Essa sim é profundamente pornográfica. E, creio, que o ocultamento dessa realidade, tenha sido o real motivo para os atentados contra o livro. Eu destacaria três grandes temas sugeridos pelo autor como a centralidade do livro. "No sul do país, um corpo negro sempre será um corpo em risco" (p. 184). Corpo negro e corpo em risco chamam para o tema do racismo e da violência policial. "Você entrava na sala dos professores. Dava bom-dia, mas ninguém te respondia. Estavam com preguiça, sonolentos, tristes ou indignados por terem de estar ali" (p. 163). Eis o terceiro grande tema. Em síntese: Racismo, violência policial e o fracasso do sistema educacional.

Desde os gregos até os modernos, como nos atestam Sófocles, Freud e Kafka, entre tantos outros, a relação entre pais e filhos, sempre foi uma relação complexa e difícil. Isso não foi diferente com Pedro, um aluno do curso de arquitetura de uma pequena faculdade de Porto Alegre. Pequena, mas a única que ele tinha condições de pagar. Pedro era filho de Henrique Nunes, um professor da rede pública do ensino do estado do Rio Grande do Sul, em escolas, repito, em escolas  (no plural) de periferia de Porto Alegre e de Martha, sendo ela uma tradutora. E..., negros. Pedro está em busca da sua identidade e para isso mexe no passado de seus pais, do pai de maneira mais particular. Famílias desestruturadas, sonhos negados, tropeços repetidos. Insegurança a toda prova, além  de amores frustrados e fracassados. Timidez diante de arrogâncias. Eis o teor. Mas o vejamos também, o que está dito na contracapa:

"O avesso da pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família, refazendo os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, um denso relato sobre as relações entre pais e filhos". Na orelha do livro encontramos uma descrição do pai, confundido com a sua própria vida: "a vida de um homem inteligente e sensível, inquieto, abalado pelas fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção e, dentro desta, de superação e liberdade".

Uma das passagens mais belas do livro ocorre quando Henrique, em uma de  suas aulas, rompe com a aula prescrita (No Paraná seria o uso compulsório de plataformas) e mergulha em personagens da literatura e os identifica com a realidade vivida pelos alunos e, em troca, deles recebe atenção e reconhecimento. E isso lhe proporciona alegria. Ele se sente autor de suas aulas, em sintonia com a realidade dos alunos ( Foi Raskólnikov, de Crime e Castigo, que lhe permitiu a abordagem do tema da criminalidade e da culpa). E, caminhando pela São Petersburgo do personagem ele irá ao encontro da morte, numa abordagem policial. Em seu funeral, um aluno lhe renderá tributo:

"Um rapaz jovem, negro, que se identificou como ex-aluno, pediu para falar: eu queria começar dizendo que eu conheci o professor Henrique Nunes na sétima série, eu tinha doze anos. E não tenho como medir tudo que ele fez por mim, tudo que ele fez por inúmeros alunos, tudo que ele me ensinou. Estou arrependido de não ter dito isso a ele. Quero dizer também que o professor Henrique Nunes não morreu por mera circunstância da vida, morreu porque era alvo de uma política que persegue e mata homens negros e mulheres negras há séculos" (p. 179-180).

O livro tem quatro capítulos, subdivididos em pequenos sub capítulos. Eis os títulos: 1. A pele; 2. O avesso; 3. De volta a São Petersburgo (a cidade do personagem de Dostoiévski); 4. A barca (referência a viatura policial). São 189 páginas.

Mas, quero encerrar este post, com uma frase, já do primeiro sub capítulo da primeira parte do livro. Com ela pretendo prestar uma homenagem a todas as professoras e professores, que ainda resistem e ainda encontram alegria e esperança no ato de educar e que, junto com os alunos, compartilham o gosto pelos livros, por acreditarem na sua real força e grandeza na construção do humano. "Na verdade, você nunca soube ir embora. Até o fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas" (p. 13). Se, de um lado, a homenagem, do outro, o repúdio aos que tolhem, aos que NÃO "acreditam que os livros poderiam (podem) fazer algo pelas pessoas".

E como recentemente reli a obra de Érico Veríssimo, nela encontrei, em Solo de clarineta, vol. 2 - algo relativo ao fato de também ele responder a questão de ter sido considerado um escritor erótico ou pornográfico. A sua resposta é acima de tudo uma acusação lindíssima:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/05/e-erico-verissimo-um-escritor-erotico.html



sexta-feira, 24 de maio de 2024

Um defeito de cor. Romance. Ana Maria Gonçalves.

Há uns dois anos eu dediquei um bom tempo para estudar as principais vozes da abolição da escravidão no Brasil. Entre elas figurava a de Luís Gama, o temido Dr. Gama, o grande libertador de escravizados, com base na Lei de 1831, acertada com os ingleses, que declarava livres os escravizados que chegassem ao Brasil, a partir daquela data. Era a famosa lei para "inglês ver". Mas não para o Dr. Gama. Foram mais de 500, os libertos por ele. 

O Dr. Gama tem uma história singularíssima. Ele nasceu na Bahia, filho de mãe escravizada liberta e de um rico comerciante português, que se arruinou com a bebida e o jogo. Premido pelos cobradores, vendeu o próprio filho como escravizado. Sabe-se que ele foi trazido para São Paulo, que fugiu, que se alfabetizou e se tornou um importante personagem de nossa história. Sabe-se também que muito procurou por sua mãe, Luísa Mahin, mas que não a encontrou.

Um defeito de cor. Ana Maria Gonçalves. Record. 2024. 39ª edição.

Pois bem. Em 2006, a escritora mineira Ana Maria Gonçalves, publicou um romance sob o título, Um defeito de cor. A edição que acabo de ler é de 2024 e é a edição de número 39. Fato raro num país em que os leitores estão minguando. Qual é o tema de Um defeito de cor? Por que será que ele teve tão grande repercussão? Qual é o seu tema. A resposta é simples. De forma romanceada e repleta de história real, Ana Maria Gonçalves nos relata a história da menina Kehinde, menina capturada no atual Benim e trazida para a Bahia, na condição de escravizada. O seu nome brasileiro foi Luísa. É a Luísa Mahin, a mãe de Luís Gama.

A história de Kehinde, ou de Luísa, é narrada em dez capítulos, ao longo de 950 paginas, de leitura que se torna praticamente ininterrupta, tal a sua força narrativa. Que menina e que mulher extraordinária!. Uma vida dedicada à sobrevivência e à busca do filho. Quanto à sobrevivência, essa tarefa foi superada com bastante facilidade, sim, reafirmo, com bastante facilidade, em meio às condições mais adversas. De volta à África, tornou-se empresária, atuando como comerciante de armas e no ramo da construção civil. Era uma espécie de rei Midas, em sua versão feminina. Quanto a busca do filho... É a parte principal e o objetivo da escrita do livro.

Coube a Millôr Fernandes a escrita das orelhas do livro, como forma de sua apresentação. Entre essas linhas lemos: "Um defeito de cor narra a história de Kehinde, negrinha de 8 anos capturada no Daomé (Benim), trazida pro Brasil, rodando por Bahia, Maranhão, Santos, São Paulo, e por aí vai, nesse mundo perdido que era este país.

A saga de Kehinde atravessa oito décadas, mais ou menos o mesmo tempo que o negro Damião vive no romance de Josué Montelo, ouvindo Os tambores de São Luís, romance já merecidamente clássico.

Rebeliões, violências inauditas - como arrancar olhos de escravas e castrar escravos por ousarem ser rivais sexuais de senhores, a negritude muçulmana, um mundo que se debate, com liberdades falsas, mas também verdadeiras como a da própria Kehinde, que a conquista aprendendo a ler, escrever e falar inglês. E lhe permite fugir pro Maranhão e pro Recôncavo, e até pro Rio (1840 - emocionante reconstituição), na procura desesperada de um filho vendido.

Madura e liberta mesmo em sua alma, Kehinde volta à África, vira 'industrial', casa com negro 'inglês', e, já velha, volta ao Brasil. Aonde não chega".

Fiz questão absoluta de transcrever o trecho em que Millôr acentua que o livro  trata de "rebeliões, violências inauditas...", para ressaltar o que mais me impressionou na leitura do livro, que me fez pensar comigo mesmo, que a sua leitura é fundamental para se ter um quadro preciso do que foi o violento sistema da escravidão. Isso é visto desde a captura na África, a viagem para a América, a venda em mercados cuja mercadoria eram os próprios seres humanos, além do cotidiano cruel da escravidão. E... o que a moral dominante permitia e absolvia com generosidade aos escravocratas. Uma história de muita dor e sofrimento. O livro também aborda a questão da volta dos escravizados para a África, uma história cheia de complicações. As incongruências do ser humano.

Se mais acima eu usei a expressão - "Rei Midas, em versão feminina", para a "empreendedora" Kehinde, confesso que a questão dessa relativa facilidade me trouxe um certo desconforto (e os outros?). Em tudo o que ela "empreendeu", ela sempre foi muito bem sucedida. Ela virou 'industrial', como aponta Millôr. Uma industrial da construção civil. Por outro lado, esses seus êxitos lhe permitiram ajudar a muita gente. Mas voltemos ao livro, aos seus dez capítulos, ao longo das suas 950 páginas, além do belíssimo prólogo.

Esse prólogo tem por título: - Serendipidades! Magnífico. Uma viagem pode levar a muitas coisas, para além dos propósitos iniciais, planejados para esta mesma viagem. Isso explica a origem do livro. Em uma viagem a ilha de Itaparica ela encontrou uma série de manuscritos que resultaram no teor básico do romance: A história de Kehinde, a mãe do Dr. Luís Gama.

Os dez capítulos não tem títulos. Em compensação, a cada duas ou três páginas, tem uma palavra que sintetiza as páginas seguintes, fato que auxilia bastante a leitura. Vou aqui tentar dar, não um título aos capítulos, mas apontar para o fato mais importante de cada um deles. 

Assim o capítulo de número um aponta para a captura na África e a travessia para o "estrangeiro". O de número dois descreve  o desembarque em São Salvador, a venda e a ida para uma fazenda na ilha de Itaparica. O de número três, por sua vez, mostra cenas do cotidiano da escravidão, escravizados domésticos e do campo, das rebeliões e o fato de ficar pajeada, por obra de seu sinhô e, ainda, a morte deste. O quarto capítulo nos apresenta "Banjokô, o filho, a Sinhá e a moradia em São Salvador, onde ela será escrava de ganho, em casa de ingleses. Lá ela aprende a fazer cookies, que tanto a ajudarão em breve. No quinto capítulo é apresentada a sua relação com a Sinhá, a ajuda de Oxum na compra de sua alforria, o início de suas atividades econômicas (cookies e padaria), o encontro com os muçurumins, com o padre Heinz, com um babalorixá e Alberto. 

O capítulo de número seis é dedicado à relação com  Alberto, a gravidez e o nascimento de um menino, que Kehinde sempre tratará por "você". Mostra também que a relação começa a se complicar, com o envolvimento de Alberto com jogo e bebida. Alberto se casa com moça branca. O capítulo de número sete é repleto de dificuldades para Kehinde. Economicamente ela vai bem, mas com Alberto tudo vai mal, só e sem dinheiro. Banjokô morre e ela se envolve em rebeliões com os muçurumins, e depois, com os federalistas. Fugas

No oitavo capítulo encontraremos Kehinde em suas fugas. Para Itaparica, para o Maranhão e para Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Soube da venda de "você" e inicia a sua desesperada busca. De Salvador ruma para o Rio de Janeiro, Santos, São Paulo e Campinas e, finalmente, para a África. O capítulo de número 9 se passa todo ele na África e mostra o seu envolvimento com o "negro inglês" John, de quem terá gêmeos Mostra também o enorme sucesso financeiro, com o comércio de armas e de casas. O capítulo dez é dedicado aos gêmeos e a sua tentativa de volta ao Brasil em busca de "você".

Cada capítulo tem em torno de cem páginas, uns mais e outros menos. O meu intuito, com a apresentação do principal fato, ou fatos, de cada capítulo é oferecer um primeiro contato com o teor do livro, fatos já bastante conhecidos em seus títulos, mas não em seus detalhes, uma incitação à leitura, portanto. Ainda devo dizer que o livro, na qualidade de romance, é uma mistura de ficção e realidade e, digo mais, de muita história. Possivelmente seja o grande livro, aquele que melhor mostra os horrores do que foi a escravidão no Brasil. Quanto a leitura, uma fluência incomparável, leitura de um fôlego só, embora todo o seu volumoso e rico conteúdo. Recomendo também demais as quase três páginas de indicações bibliográficas, as bases para a pesquisa do presente livro.

Simplesmente um livro necessário. O fato de estar na 39ª edição explica o seu extraordinário êxito. Há alguns anos eu estive em São Luís do Maranhão. Lá me deparei com o livro citado pelo Millôr, na orelha do livro. Deixo a sua resenha:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/a-saga-da-raca-negra-os-tambores-de-sao.html


    

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Érico Veríssimo declara princípios básicos. Sociedade e política. Solo de clarineta. Vol. 2.

"Qual deve ser a posição do escritor diante dos problemas sociais, políticos e econômicos de sua época? Essa é a pergunta que continua no ar, sempre atual, e jamais respondida de modo a satisfazer a todos".

Érico Veríssimo responde a esta instigante pergunta em seu livro de memórias Solo de clarineta, volume 2. A resposta é clara e direta e sem subterfúgios ou rodeios. Questão de convicção e de vida militante em favor da democracia, dos direitos fundamentais básicos e da liberdade e contra todos os excessos e arbítrios de poder, seja de direita ou da esquerda. Publico este texto em reverência ao grande escritor e para que seja melhor compreendido entre seus milhares de leitores e também entre os iniciantes na pesquisa. O seu compromisso é "com o homem e a vida". O texto é belíssimo, de um humanismo profundo. Vejamos:


Solo de clarineta - memórias. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

"Para principiar, direi que só quem pode e deve decidir sobre o comportamento político do escritor é ele próprio. Se quiser permanecer alheio a todos esses problemas e inquietações na sua Torre de Marfim e puder viver sem remorsos nessa ausência do mundo, que o faça e tenha bom proveito. Rechaço a ideia de que o escritor deve estar necessariamente a serviço dum partido político, mas aceito a de que ele possa fazer isso, se assim entender. Fala-se muito em literatura engajada. Repito mais uma vez que, o engajamento dum escritor deve ser com o homem e a vida, no sentido mais amplo e profundo dessas duas palavras.

É muito comum ouvir-se ou ler-se que eu jamais me comprometo ou defino politicamente. Ridículo! Creio que durante estes quarenta últimos anos me tenho manifestado claramente sobre problemas e acontecimentos políticos e sociais de maneira que me parece coerente e inequívoca, sempre a favor da liberdade e dos direitos do homem e contra todas as formas de opressão - coisas que nem sempre poderia fazer se fosse obrigado a seguir obedientemente a linha sinuosa e muitas vezes autocontaditória dum partido político.

Não tenho gosto nem talento para a política ativa. Restrinjo-me a princípios de ordem geral. Claro, sei que se eu me aproximar do leito em que um doente agoniza e romper a berrar que amo a saúde e a vida e detesto a doença e a morte - esses protestos ruidosos em nada poderão ajudar o moribundo, que necessita, isso sim, dum medicamento ou de uma intervenção cirúrgica de urgência para salvar-lhe a vida. Parece-me, entretanto, que também é importante não cessar de proclamar a necessidade de curar o organismo enfermo sem mutilações inúteis.

Afinal, em que posição política me encontro? Considero-me dentro do campo do humanismo socialista, mas - note-se - voluntariamente e não como um prisioneiro.

Por que socialista? - hão de perguntar. Porque o extremismo da esquerda e o da direita não passam de faces da mesma moeda totalitária; e porque o centro é quase sempre o conformismo, a indiferença, o imobilismo.

Poderá também o leitor perguntar como pode um homem que tanto preza a liberdade inclinar-se para o socialismo... Ora, é um erro imaginar que socialismo e Liberdade são termos ou ideias que se contradizem. Basta ler o que se escreve  hoje na Polônia, na Tchecoslováquia e na Iugoslávia, em suma, é suficiente inteirar-se a gente do pensamento dos neomarxistas para compreender que Stálin e em certos casos até mesmo Lênin deturparam as teorias de Karl Marx. Como resultado dessa deturpação, na Rússia soviética stalinista criou-se uma nova classe de privilegiados, uma burocracia desumana e inumana, e um novo tipo de alienação de massas, tudo isso em nome da ditadura do proletariado e do futuro do socialismo no mundo.

A dialética marxista é inseparável de seu humanismo. Segundo Marx, uma sociedade não pode ser livre se todos os indivíduos que a compõem não forem também livres. Quando o autor d'O capital falava em 'prática socialista', referia-se especificamente à liberdade. E essa noção de liberdade não foi apenas o ponto de partida de suas ideias, mas também o seu objetivo mais alto.

Karl Marx escreveu também que a teoria não deve separar-se da prática, nem o conhecimento divorciar-se da ação, e que o sistema social não pode ficar alienado dos objetivos espirituais. Segundo ele, só podem existir homens independentes dentro dum sistema social e econômico cujas abundância e racionalidade tenham conseguido liquidar a 'pré-história' e inaugurar a era da 'história humana' que há de redundar no peno desenvolvimento da sociedade.

Não sou sociólogo nem historiador e muito menos economista, mas, com um pouco de intuição  e uma certa dose de senso comum, cheguei cedo à conclusão de que seria absurdo aceitar qualquer sistema político-econômico que exige o sacrifício do homem de hoje em benefício dos chamados 'interesses mais altos do amanhã'.

Segundo o socialismo marxista, o homem como homem não deve ser imolado em benefício da humanidade do futuro. (Tenho escrito repetidamente que o homem é um ser real, a humanidade uma entidade abstrata, e a 'humanidade do futuro' - acrescento - é uma dupla abstração).

Marx, em seus escritos de que o stalinismo preferiu não tomar conhecimento, pois isso não convinha ao seu 'realismo político' - disse que o homem será sempre o objetivo derradeiro da tendência para uma sociedade verdadeiramente humana, tanto na teoria como na prática. E é por isso que os pensadores a que me referi se rebelam contra o pragmatismo burocrático e tecnológico e contra todas as formas de desumanização e alienação do povo.

Outra afirmação curiosa desses escritores neomarxistas é a de que o socialismo não é o objetivo final de Marx, mas uma aproximação. O seu alvo supremo, repita-se, é uma sociedade em que a desumanização cesse e o trabalho do homem se emancipe por completo, fornecendo-lhe todas as condições necessárias à sua autoafirmação.

O sociólogo e filósofo iugoslavo Mihailo Markovic define o humanismo como 'uma filosofia que procura resolver todos os problemas na perspectiva do homem, e que abrange não apenas questões antropológicas, como a da natureza humana, a alienação, a liberdade, mas também ontológicas, epistemológicas e axiológicas'.

Em conversa com amigos muitas vezes lhes disse que, a meu ver, o que faltava à análise marxista da sociedade era uma psicologia. Li com grande satisfação um ensaio em que Erich Fromm levanta essa ideia com sua autoridade e habitual lucidez. Escreveu ele textualmente: 'A teoria de Marx necessita de uma psicologia do homem'.

Acrescenta que os marxistas se convenceram finalmente do fato de que o socialismo tem de também satisfazer à necessidade que a criatura tem dum sistema de orientação e devoção, e que portanto o socialismo tem de tentar responder a perguntas como 'Quem é o homem? Qual o sentido e objetivo de sua vida?'. Acentua Fromm a importância das normas éticas e de desenvolvimento espiritual que ultrapassem frases vazias como 'É bom tudo quanto possa servir à revolução, ao estado proletário, à evolução histórica, etc...etc...etc...'.

Afirmou Marx que a raiz do homem é o próprio homem. Erich Fromm insiste em que uma teoria cujo centro seja o homem não pode continuar como teoria  sem uma psicologia, sob pena de perder contato com a realidade humana.

No mesmo ensaio Fromm refere-se também a um problema que muito me preocupa, principalmente quando me encontro nos Estados Unidos: o do caráter do Homo consumens criado pelas sociedades altamente industrializadas. O objetivo do consumidor não é o de possuir coisas, mas o de consumir cada vez mais e mais, a fim de com isso compensar seu vácuo interior, sua passividade, sua solidão, seu tédio e sua ansiedade. E aí estão as empresas de publicidade, que dispõem de meios cada vez mais insidiosos e engenhosos para criar nas massas necessidades artificiais que acabam por escravizá-las.

Ora, no Brasil o fenômeno apenas começa a esboçar-se. O que me preocupa por ora não é o ainda reduzido número de nossos consumidores, mas sim os muitos milhões de consumidores que nos cumpre libertar da miséria, da fome, da doença e do analfabetismo.

Este não me parece o lugar apropriado, nem eu sou o homem indicado, para propor e desenvolver um programa político econômico para resolver os problemas cruciais do Brasil, nem eu tenho a pretensão de ser portador da fórmula mágica para a nossa salvação.

Achei, isso sim, que devia fazer aqui mais uma vez uma declaração de princípios, e repetir que, se por um lado acredito na necessidade de todos os escritores e artistas terem uma consciência política e social de que não cabe ao romancista apresentar soluções para as crises econômicas, políticas e sociais em que nos debatemos.

E, para encerrar este capítulo, quero transcrever as palavras do professor H. Marcuse, com as quais me encontro de perfeito acordo: 'A realidade humana é um sistema 'aberto'. Nenhuma teoria, seja marxista ou outra qualquer, pode 'impor-lhe' uma solução'". Páginas 262-266.

Toda a obra de Veríssimo debate estas questões, através de seus personagens que encarnam as diferentes posições. Creio também que no Solo de clarineta, vol. 1, quando Érico relata suas viagens por Portugal, na época salazarista, essas suas posições estão afirmadas com muita clareza. Deixo a resenha:


Deixo ainda as resenhas de Solo de clarineta - memórias. vol. 2, do qual foi retirado este texto:


e dos sete volumes de O tempo e o vento:


terça-feira, 14 de maio de 2024

"A minha posição em face de Deus". Solo de clarineta (vol. 2). Érico Veríssimo.

Creio que os leitores sempre têm muita curiosidade em torno das crenças dos escritores. Isso não foi diferente com os leitores de Érico Veríssimo. Ele mesmo aborda a questão, na parte final de Solo de clarineta - memórias. São apontamentos deixados por Érico e incluídos no livro por seu organizador, Flávio Loureiro Chaves. Isso foi necessário visto que este segundo volume é uma obra póstuma. Também creio que a abordagem desse tema ajuda na melhor compreensão do extraordinário autor. As anotações de Érico são as seguintes:

Solo de clarineta - memórias. vol. 2. Érico Veríssimo. Companhia das letras.

"Tenho encontrado certa dificuldade em explicar a amigos e leitores a minha posição em face de Deus. Repetirei que sou um agnóstico, isto é, um homem que não se encontra na posse de provas convincentes que lhe permitam negar ou afirmar a existência dum Criador.

Posso, no entanto, afirmar que não sou destituído de sentimento religioso, pois tenho uma genuína, cordial reverência por todas as formas de vida, e um horror invencível à violência.

Sinto grande afeição e admiração pela figura histórica de Cristo e acredito sinceramente em que, se a ética cristã fosse realmente posta em prática, as criaturas humanas poderiam resolver os seus problemas de convivência num mundo que cada dia se complica mais e mais, pois leva à solidão e à agressividade. Infelizmente o que vemos em certos círculos religiosos é um grande farisaísmo, um cristianismo puramente de fachada. Citando, com a devida licença do autor, uma personagem de ficção (o dr. Leonardo Gris d'O senhor embaixador), direi que certos homens de negócio que se dizem piedosos conseguiram erguer uma parede de concreto entre suas igrejas e seus escritórios comerciais, de maneira que assim podem não só obedecer ao preceito bíblico segundo o qual a nossa mão direita nunca deve procurar saber o que a esquerda faz, como também lhes torna possível acariciar ao mesmo tempo com uma das mãos o Cordeiro de Deus e com a outra o Bezerro de Ouro. E, quando algum escritor denuncia essa prática hipócrita, a primeira ideia que ocorre a esses donos do poder é denunciar o 'escritor subversivo' à polícia. ('Para isso pagamos impostos').

Não aceito as fábulas bíblicas da Criação nem ideias como a do Paraíso, o pecado original, a Santíssima Trindade e outras tais. Acima de tudo não acredito no Inferno e na danação eterna. Creio que os cristãos que admitem essa monstruosidade estão insultando o seu Deus, que deveria ser logicamente a encarnação da suprema bondade e da mais alta justiça, isso para não falar na sua capacidade de perdoar. Por outro lado parece-me que aceitar o mito de que os que se comportam bem na vida terrena ganharão o Céu, onde permanecerão por toda a Eternidade fantasiados de anjos, entre nuvens cor-de-rosa, tocando lira e cantando - seria fazer pouco, muito pouco da imaginação do Ente Superior que teve capacidade e imaginação para criar o Universo com tudo quanto nele há - o que, convenhamos, é realmente um feito prodigioso.

Não, meus amigos, na minha opinião um problema da tremenda magnitude desse que envolve o mistério do Universo, de nossa vida e de nossa morte, merece, ou, melhor, exige uma explicação menos simplória e pueril do que essa que as Escrituras nos oferecem como chave do grande Enigma.

O curioso, entretanto, é que não raro me comovo ante a serena grave beleza de certos templos - principalmente das velhas igrejas e mosteiros românticos. (Este claustrófobo ama os claustros!) Quando visitei a basílica de São Francisco, em Assisi, senti a presença do Poverello. Em Gênova, numa meia-noite de Sábado de Aleluia, assisti a um serviço religiosos numa antiga igreja gótica, que me deslumbrou pela sua colorida pompa litúrgica. Numa memorável manhã de domingo, em Paris, na catedral de Notre-Dame, no momento em que o grande órgão acompanhado de fanfarras rompeu numa tocata de Bach, senti um arrepio em todo o corpo e tive a impressão de levitar no ar numa experiência quase mística, que quero crer tenha sido mais de natureza estética do que propriamente religiosa". Páginas 261-262.

Deixo ainda a resenha do segundo volume de Solo de clarineta, livro que contém este texto: 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/05/solo-de-clarineta-vol-2-memorias-erico.html

Também deixo a resenha dos sete volumes de O tempo e o vento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html

quarta-feira, 8 de maio de 2024

É Érico Veríssimo um escritor erótico ou pornográfico? Uma autodefinição.

No Solo de clarineta, vol. I., na apresentação do livro, José Otávio Bertasso, diretor da Editora Globo de Porto Alegre, levanta a polêmica entre o Ginásio Anchieta e Érico Veríssimo. O padre L. F. (Leonardo Fritzen) ataca o escritor: "...Pouco valem as leis de higiene se o veneno que corrompe a nossa juventude continua exposto nas vitrines". No texto do jesuíta, a pureza de São Luís Gonzaga era invocada (páginas 9 a 14).


Solo de clarineta - memórias. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

Lembremos que a vontade de destruição de livros, e em épocas mais exaltadas, também os seus autores não é nenhuma novidade. Ah, os safados guardiões da moralidade. Jeferson Tenório, de O avesso da pele, apenas para citar o caso mais recente, que nos conte. Não, me desculpem. Existe algo mais atual. Agora, em meados de abril de 2024, a prefeita de Canoinhas, SC., Juliana Maciel, jogou no lixo dois livros da biblioteca do município, dizendo tratar-se de porcaria. Ao mesmo tempo instigou a outros prefeitos a fazerem o mesmo. Entre os livros, estava As melhores do analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo. Poucos dias depois, a prefeita se encontrou com Bolsonaro, que sempre afirmou o seu gosto pelo livro de Brilhante Ustra. Creio que muitos dos prefeitos não poderão atender ao pedido da prefeita. Estão presos por corrupção. Dezoito no total, me diz a página do Google. Parece que já são 22. O número também parece significativo, pelo seu simbolismo.


Pois bem, na parte final de O solo de clarineta, em - O escritor e o espelho - Érico Veríssimo fala sobre os temas afeitos a vida de um escritor. Pela beleza dessas reflexões peço especial licença para apresentá-las. Entre os temas está o da sexualidade, erotismo e "palavras feias".

"Confesso que sinto uma sadia, cordial inveja dos escritores que têm uma real, autêntica intimidade com a terra, as árvores, os ventos, os bichos e principalmente com as criaturas humanas que também estão perto das raízes profundas da vida. Às vezes chego a pensar - por mais ridícula que a imagem possa parecer - que sou uma planta do asfalto, mas planta de papel...

Em geral, quando termino um livro, encontro-me numa confusão de sentimentos, num misto de alegria, alívio e essa vaga tristeza que vem após o ato do amor físico, satisfeita a carne. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso assim: 'Não era bem isso que eu queria fazer'.

Chegamos assim a um assunto que eu gostaria de discutir com mais vagar. Sou habitualmente apontado como um escritor erótico ou mesmo pornográfico.

Por que - perguntam-me às vezes - tenho tanta preocupação com o sexo? Ora, respondo, decerto é porque no fundo sou um puritano. Mora dentro de mim um pastor protestante a pregar interminavelmente um sermão apolíptico contra o pecado da carne, e eu não posso consentir que esse homenzinho emascule as minhas personagens ou a mim mesmo.

Por outro lado quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto e... saúde. Muitas vezes fico alarmado ao pensar que, relativamente falando, um leitor sente menos indignação ao tomar conhecimento do assassínio de 6 milhões de judeus nas câmaras de gás asfixiante dos campos de concentração nazistas, ou do lançamento da bomba atômica em Hiroshima que redundou na morte de mais de 100 mil pessoas, ou ainda ao saber que mais de dois terços da população do Brasil vive numa miséria abjeta - do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza.  O que quero dizer é que noto uma desproporção absurda, direi mesmo monstruosa, entre a natureza e a intensidade desses dois tipos de indignação.

Falando com a maior sinceridade, para mim pornografia mesmo é a crueldade do homem para com seu semelhante, a exploração do homem pelo homem; obscenidade é a guerra e o genocídio. Os mocambos do Recife, as favelas do Rio e de outras centenas de cidades da nossa terra constituem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira.

Acho que os verdadeiros pornógrafos da história - já que uma pessoa realmente adulta só poderá sorrir das grotescas fantasias do Marquês de Sade - foram homens como Tamerlão, Nero, Calígula, Mussolini, Hitler - para mencionar apenas os primeiros nomes que me brotam na mente.

Quanto a questão dos 'nomes feios', creio que não existe nada mais ridículo que esse supersticioso temor a certos vocábulos que, afinal de contas, não passam de sinais ou símbolos convencionais. Tomemos por exemplo a famosa palavra de quatro letras que designa a mais antiga das profissões. Conta-se que Rui Barbosa descobriu dezenas de sinônimos, entre os perfeitos e os imperfeitos, para o termo prostituta, de maneira que não temos nenhuma desculpa quando usamos a palavrinha tabu. No entanto em toda essa história o que importa mesmo, o realmente deplorável e melancólico, é a experiência da prostituição, o que não parece preocupar muito as pessoas mais sensíveis às palavras do que às coisas que elas representam.

Isso nos dá uma ideia da terrível importância da linguagem. Vivemos tolas e terríveis ilusões semânticas. Por causa de palavras ou frases matamos ou morremos, sentimo-nos desgraçados ou infernizamos a vida de nossos semelhantes. Qualquer ato ou fato, por mais reprovável que seja, de acordo com paradigmas morais rígidos, perde a sua força, a sua natureza pecaminosa, e tende a ser ignorado ou esquecido quando não verbalizado, principalmente em romances. Fazer, pois, não é tão importante, tão grave, quanto dizer ou escrever. Quantas vezes transferimos a culpa duma situação vergonhosa - que na realidade cabe a um regime político-econômico ou a uma conjuntura social - para cima dos ombros do jornalista ou do ficcionista que ousou reproduzi-la numa reportagem ou num romance?

E é exatamente por causa da exagerada importância que damos às palavras que nós muitas vezes resolvemos nossos problemas apenas no papel, isto é, de maneira verbal, e vamos dormir tranquilos. Porque, se ninguém jamais pronunciar ou escrever a palavra puta (desculpem, que se me escapou o 'nome feio'!), a prostituição deixará de ter existência real" (Páginas 259-261).

Deixo a resenha deste segundo volume de Solo de clarineta:


E também a resenha dos sete volumes de O tempo e o vento:




quarta-feira, 1 de maio de 2024

Solo de clarineta. vol. 2. Memórias. Érico Veríssimo.

Vamos começar o nosso post, mais uma vez, com a contracapa do livro: "O segundo volume de Solo de clarineta foi publicado postumamente, em 1976. Aos textos deixados por Érico Veríssimo, Flávio Loureiro Chaves reuniu outros, esboçados pelo escritor em seu roteiro para memórias.

Solo de clarineta. memórias. vol. 2. Érico Veríssimo. Companhia das Letras.

Depois de evocar a fase final da criação de O tempo e o vento, Érico relembra as viagens marcantes de sua vida: Grécia, Portugal e Espanha. Nada parece escapar a seu olhar atento e à pena elegante do debate com estudantes politizados em Coimbra à recepção onde conhece um descendente de Eça de Queirós; do mar Egeu e da colina da Acrópole a uma busca quase obsessiva pelo local onde teria sido assassinado Federico Garcia Lorca.

A segunda parte dessas memórias, embora inconclusa, ilumina de forma inesquecível o extraordinário cidadão do mundo que foi Érico Veríssimo".

Diria mais. Um cidadão que se empenhou na defesa da democracia e dos direitos fundamentais do ser humano e que, com a mesma obstinação e riscos, combatia todas as formas de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda.

O segundo volume está dividido em duas partes: Vejamos os títulos: Parte I: 1. O arquipélago das tormentas; 2. Sol e mel; 3. Entra o senhor embaixador; 4. Mundo velho sem porteira. Parte II: 1. Nota do organizador; 2. Espanha; 3. Caminho de Sevilha; 4. Granada: em busca do menino Federico; 5. Holanda; 6. O escritor e o espelho. É nesta segunda parte que entra mais a mente e a mão do organizador.

No item de número 1 da primeira parte, - O arquipélago das tormentas, Érico expõe uma parte conturbada de sua vida. As tormentas são uma referência aos seus graves problemas cardíacos, que quase lhe ceifaram a vida. Mas, em meio as tormentas, também há as bonanças, como o casamento de Clarissa, os netos e o começo da escrita de O arquipélago. Em 1962 dará este trabalho como encerrado.

No item de número 2 - Sol e mel, ele relata a sua viagem para a Grécia, onde aprofunda o seu legado humanista. De Péricles acentua uma frase: "Escravo é aquele que não pode dizer o que pensa". Neste sentido, Érico nunca foi um escravo. Mesmo nas condições mais adversas sempre disse o que pensava, especialmente em Portugal, onde dava caneladas na ditadura de Salazar. Da Grécia vai em viagem de cruzeiro até Istambul. Em Creta presta uma reverência a Níkos Kozantzakis, aquele do Zorba, o grego. (Também de O Cristo recrucificado). E, em Atenas, entre as suas belezas naturais, culturais e históricas, faz também uma bela referência ao Grêmio, que tinha andado por lá.

No item de número 3 - Entra o senhor embaixador, temos mais cenas de sua vida, como a morte da mãe, o namoro e o casamento de Luís Fernando, o primeiro neto oriundo deste casamento e, de maneira toda especial, a gênese de O senhor embaixador.

No item de número 4 - Mundo velho sem porteira, Érico se solta pelo mundo, sem antes falar do belo significado de - um mundo sem porteiras. Portugal  é o seu primeiro destino. Trata-se de um belo e culto guia turístico e cultural. Primeiro ele viaja para o norte e depois para o sul. Em Portugal, segue uma rotina meio oficial, junto com o seu editor, entre conferências, autógrafos, almoços festivos e homenagens e furtivas caminhadas por becos recônditos de rara beleza. Essa viagem tem forte teor político, de defesa da democracia. E, um dado fundamental da estrutura histórica do país: os minifúndios, ao norte e os latifúndios, ao sul. Coimbra, Porto, Braga, Guimarães e Évora são as cidades que ganham um destaque maior. É a parte mais longa do livro (No plano original de Érico, Solo de clarineta teria um terceiro volume. Creio que os demais países europeus seriam descritos à semelhança com esta descrição de Portugal). Este capítulo vale o livro. Um hino à liberdade, à democracia e aos direitos fundamentais e um anátema às ditaduras.

A segunda parte é bem mais breve, começando com as explicações do organizador. No tópico - Espanha, temos o relato de uma divergência familiar. Érico queria visitar oito países e Mafalda queria concentrar mais em torno de Roma e de Paris. Ao todo, o casal Veríssimo fez quatro viagens para a Europa, além da de 1959. 

Os títulos - Caminho de Sevilha e - Granada: em busca do menino Federico -, estão escritos, praticamente de maneira definitiva. De Sevilha o grande destaque vai para a descrição dos festejos da semana santa, que os desalojou do hotel. Uma grande festa em que as confrarias disputam a sua real grandeza. Outro destaque vai para as danças flamencas. De Granada, o destaque também vai para a religiosidade da cidade, mas a obsessão maior é Lorca e o seu assassinato pela cruel ditadura de Franco. De Granada tomo uma frase que foi decisiva, ao menos na primeira fase de minha vida. Se eu fosse escrever as minhas memórias, ela seria uma bela introdução e começo. Trata-se, nos conta Érico, da prece de uma mãe católica: Dios, dame un hijo sacerdote.

O título - Holanda, vai para muito além de suas tulipas. Tem uma bela comparação entre a pintura italiana e a holandesa. A Holanda é calvinista, é burguesa. Uma civilização que exalta as coisas e não a alma. Ah, a prosperidade!. Uma reconfiguração religiosa completa de muitas e profundas consequências.

E o escritor e o espelho, o título final do livro, também vale o livro. É uma preciosidade rara. Dela vou retirar três posts específicos, que definem Érico Veríssimo em toda a sua profundidade. Tenho, mais ou menos delineados os posts: É Érico Veríssimo um escritor pornográfico? Sua visão religiosa e sobre Deus e uma definição de princípios sobre sociedade - liberdade - socialismo.

Deixo ainda mais dois posts. Sobre o primeiro volume de Solo de clarineta:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/solo-de-clarineta-vol-i-erico-verissimo.html

E outro - com a resenha de cada um dos sete volumes de O tempo e o vento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Solo de clarineta vol. I. Érico Veríssimo. Memórias.

Ao terminar a releitura de O tempo e o vento, decidi também reler Solo de clarineta, o livro de memórias de Érico Veríssimo. O objetivo era o de ter um contato maior com o escritor para ter uma melhor compreensão de sua obra. Ao término do primeiro volume já me confesso por satisfeito. Veríssimo é também um grande memorialista.

Como nos livros da trilogia de O tempo e o vento, também na contracapa de Solo de clarineta existe uma pequena mas ilustrativa síntese da obra. Vamos a ela: "Livro de memórias peculiar, Solo de clarineta entrelaça a vida do escritor e sua obra. Nele, Érico Veríssimo reflete sobre as raízes de sua criação literária, confrontando-a com sua própria vida.

Solo de clarineta vol. I. Memória. Companhia das Letras.

Neste primeiro volume, que é também um testemunho sobre a história brasileira e mundial na primeira metade do século XX, Érico rememora sua vida desde a infância até a criação da saga O tempo e o vento. O leitor acompanha as lembranças do processo de formação de vários de seus personagens inesquecíveis e se familiariza com o dia-a-dia desse grande contador de histórias: editor, criador de coleções editoriais decisivas na formação intelectual brasileira, tradutor, autor de livros infantis e juvenis, radialista, diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana e incansável paladino da liberdade". Lembrando que Érico Veríssimo nasceu em Cruz Alta no ano de 1905 e morreu em Porto Alegre em 1975.

O primeiro volume de Solo de clarineta é do ano de 1973. Tem apresentação de José Otávio Bertaso, da Editora Globo e seu ex patrão e Prefácio de Hildeberto Barbosa Filho, mestre e doutor em Literatura Brasileira. A apresentação de Bertaso é muito interessante e fala da recepção da obra do escritor junto ao clero, este representado por um padre jesuíta.

Este primeiro volume tem seis títulos: l. Álbum de família; 2. A primeira farmácia; 3. A ameixeira-do-Japão (nêspera); 4. A segunda farmácia; 5. Em busca da casa e do pai perdidos; O mausoléu de mármore. Ao final são apresentadas cronologias cruzadas e uma pequena biografia do escritor. As memórias são apresentadas de forma mais ao menos linear, do nascimento até os anos de 1950. O resto fica para o segundo volume.

No tópico de número 1, a família Veríssimo é apresentada: os avós paternos e maternos, o pai e a mãe e os seus desentendimentos. muitas páginas são preenchidas com o traçado de um perfil de seu pai, Sebastião Veríssimo. Um dado a destacar - ele possuía em sua casa - uma biblioteca com mais de dois mil exemplares. Isso na provinciana Cruz Alta daqueles tempos. A maioria dos personagens de O tempo e o vento procedem desse período. São personagens muito próximos à família.

A primeira farmácia, o tópico de numero 2, é a farmácia de Sebastião Veríssimo, que só teve fôlego financeiro enquanto o pai de Sebastião, o Dr. Franklin, lhe cobria as duplicatas vencidas. Depois da ruína financeira veio também a ruína do casamento. Abegahi, com a sua máquina Singer, entra em cena. A farmácia tinha uma estrutura meio hospitalar. Era um grande ponto de encontro, dos "intelectuais" de Santa Fé, digo, de Cruz Alta. Outros tantos personagens tem ali a sua construção. Neste tópico encontramos uma das mais belas passagens da obra de Veríssimo, quando ele põe diante de si a função de escritor: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender uma lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto" (página 65).

A ameixeira-do-Japão, título do terceiro tópico, é um retorno seu à sua mais remota infância. A ameixeira-do-Japão é um pé de nêspera que existia no terreno onde se situava a farmácia de seu pai. Lembranças e a construção do imaginário. Nesse tempo adquiriu os princípios básicos de sua formação, como o valor do trabalho e o equilíbrio financeiro entre ganhos e gastos. Vizinhança e os primeiros namorinhos são lembrados, além das questões do despertar da sexualidade. Lembra de suas leituras e do cinema, dos filmes que lhe deram a visão sobre o homem americano, branco, anglo saxão e protestante. A infância ainda o remete à Primeira Guerra Mundial, à sua ida a Porto Alegre e o internato no Colégio Cruzeiro do Sul e uma reprovação em matemática. Enquanto estava em Porto Alegre, em casa as coisas só pioravam; falência da farmácia e a derrota de seu pai para a bebida. Isso fez com que ele tivesse que voltar para Cruz Alta. No internato teve a sua formação literária bem iniciada. Era a sua área de interesse.

A segunda farmácia, título do tópico número 4, ela já é de sua propriedade. Teria que fazer alguma coisa para ajudar a mãe nas despesas do sustento da família. Tinha a farmácia em sociedade. O fiado levou também esta à ruína. Além da rotina da farmácia, dava aulas de literatura e de inglês e terá os seus primeiros artigos publicados. 1930 leva seu pai para São Paulo e ele para Porto Alegre, mesmo sem um destino. Arrumara também uma namorada, Mafalda Volpe, com quem se casaria em breve.

No quinto tópico, em busca da casa e do pai perdidos, o encontramos em Porto Alegre, onde irá trabalhar na revista O Globo. Problemas de saúde o impedem de ser um bom freguês do bar Antonello e sua rodinha de intelectuais. Na editora Globo encontra, em um de seus donos, Henrique Bertaso, uma amizade de vida inteira. Vem o casamento e os filhos e o primeiro livro Fantoches. Passará a trabalhar apenas no departamento editorial da editora e os livros seguem já em série. Olhai os lírios do campo, o tornará um escritor já meio consagrado. Lembra da Segunda Guerra Mundial e os seus reflexos em seu ânimo, estes expressos no livro Saga.  Depois da guerra empreenderá a sua primeira viagem aos Estados Unidos, para onde voltará mais tarde num cargo diplomático na União Panamericana. O ano de 1956 o trará de volta ao Brasil. Um bom espaço das memórias é dedicado à concepção e gênese de O tempo e o vento. A ideia é antiga, de 1935, ano do centenário da Revolução Farroupilha. A escrita começa em 1947. Os personagens são construídos ao longo desse tempo e eles ganham a sua primeira descrição.

O mausoléu de mármore, título do sexto tópico, é uma referência ao local de seu trabalho por cerca de três anos na sede da União Panamericna, em Washington. A palavra mausoléu, certamente é um indicativo de seu ânimo para com o trabalho burocrático, à frente do departamento de cultura dessa entidade. Fala do seu cotidiano de trabalho, de suas viagens e de seus discursos. Conclui afirmando, em mais uma demonstração de pouca afeição ao trabalho burocrático, que "Lázaro saiu do mausoléu". Neste tempo já iniciara a escrita de O arquipélago, a terceira e última parte de O tempo e o vento. O resto vem no volume de número 2.

Deixo ainda um post com a resenha de cada um dos sete volumes da trilogia:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/04/os-sete-volumes-de-o-tempo-e-o-vento.html