segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

De volta ao mapa da fome. O desmonte das políticas públicas. Daniel de Souza.

Há um bom tempo que não republico materiais produzidos pelo Instituto Humanitas, da Unisinos, a grande universidade dos padres jesuítas do Rio Grande do Sul, com sede na cidade de São Leopoldo. Sempre que o fiz, eles tiveram grande repercussão, medida pelo grande número de acessos. Neste início de janeiro, O IHU publicou uma longa entrevista com Daniel Carvalho de Souza, o filho do grande Betinho, uma figura lendária deste país. Sempre ouvi dizer e concordo, que citar alguém, dando referência paterna, materna ou de outras pessoas próximas, diminui a identidade da pessoa citada. Creio, no entanto, que no caso do Betinho, isso se torna uma obrigação, tal a reverência que este nome provoca e  merece.

Uma imagem da fome. Venda de ossos como alimento.

A entrevista com o Daniel de Souza, que preside a ONG Ação da Cidadania, fundada pelo pai há trinta anos, teve como mote, tanto a campanha empreendida pelo movimento Natal sem Fome, como o fato de fazer uma retrospectiva do ano de 2021. A grande constatação mostrada pelo entrevistador é a volta do Brasil ao mapa da fome, causada pela ausência de políticas públicas para com as questões sociais brasileiras, agravadas a partir do Golpe de Estado de 2016 e a instituição de governos que não tem nenhuma sensibilidade social.  A ONG atua no Brasil inteiro, fato que permite uma radiografia do Brasil por inteiro. 55 milhões de brasileiros são hoje atingidos pelo flagelo da insegurança alimentar.

A ONG - Ação da Cidadania foi fundada pelo Betinho no governo do presidente Itamar Franco, de quem recebeu grande apoio. Daniel responsabiliza diretamente a ausência do atual governo nas questões sociais e convoca a todos para a resistência e para a reconstrução social e econômica do país, a partir de janeiro de 2023. Mas, como li, no livro do Lázaro Ramos, Na minha pele, que resistir não é um viver pleno, temos que partir para o existir dessa vida plena, uma tarefa para todos nós. E, uma vida plena passa longe da convivência com o maior de todos os flagelos sociais, que é o espectro da fome. 

Mas vamos à beleza e sensibilidade de Daniel Carvalho de Souza em sua entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos:

 https://www.ihu.unisinos.br/615535-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome-e-o-retrato-do-desmonte-de-politicas-publicas-entrevista-especial-com-daniel-de-souzahttps://www.ihu.unisinos.br/615535-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome-e-o-retrato-do-desmonte-de-politicas-publicas-entrevista-especial-com-daniel-de-souza

sábado, 8 de janeiro de 2022

A VERDADE e o espelho quebrado. Uma lenda africana.

A leitura de Na minha pele, de Lázaro Ramos, me colocou em contato com essa magnífica lenda africana, a lenda do espelho da VERDADE, ou do espelho quebrado. Ela aparece na página 65/66, sob o nome "O espelho da verdade". Como considero a VERDADE algo referencial e fundamental em qualquer trabalho de formação, optei por um post para contá-la. Em síntese, ela nos diz que o espelho da verdade foi quebrado e que o mundo da unidade da verdade passou a ter tantas verdades, quantas as partes quebradas do espelho. A partir de então cada um encontrou a sua verdade, na região em que caiu um pedaço desse espelho. A VERDADE seria então a busca pela reconstrução desse espelho, uma busca de enriquecimento, de somas e jamais de imposição.

Na minha pele. Lázaro Ramos. Aí encontramos a lenda "O espelho da verdade".

Como no livro de Lázaro Ramos existe uma adaptação dessa lenda, que, embora não prejudique a sua interpretação, a procurei em outras referências. A encontrei, num dos mais fantásticos programas de formação continuada de professores, instituída no estado do Paraná, no governo de Roberto Requião, no Programa de Desenvolvimento Educacional, o chamado PDE. A encontrei da seguinte forma, sem nela mexer:

"Outro conto Afro. Conta-se, na tradição oral de matriz africana, que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orum se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da Verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê. Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, sem querer, perdeu o controle do movimento ritmado que repetia sem parar e a mão do pilão tocou forte no espelho, que, então, espatifou-se pelo mundo. Desesperada, Mahura correu para se desculpar com Olorum, o Deus Supremo. Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de  Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não haveria mais uma verdade única para se observar, mas várias possibilidades de observação da verdade. E concluiu Olorum: “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho, em qualquer parte do mundo, já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho reflete sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”. Portanto, para seguirmos a vontade do Criador, é preciso, antes de tudo, aceitar que somos todos iguais, apesar de nossas diferenças. E que a Verdade não pertence a ninguém, pois não está em nenhum pedaço especificamente – do espelho, do mundo ou do pensamento –, mas na união de todos: lugares, ideias e pessoas. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós. (Fonte: Conto de Tradição Oral)".

Como a lenda já está interpretada, essa tarefa me é dispensada, mas isso não me impede de fazer algumas considerações. A minha formação é de seminário católico (seminários de Bom Princípio, Gravataí e Viamão, todos no Rio Grande do Sul). Formação dogmática, portanto. 

Hoje, já com 76 anos de idade, devo dizer que sou socrático, no sentido de sempre fazer prevalecer a pergunta sobre a resposta e que as respostas obtidas, servem sempre, apenas, para a elaboração de novas perguntas. Também sou cartesiano, fazendo prevalecer a dúvida sobre a afirmação, normalmente, oriunda da fé. Assim, a fonte da busca da verdade é a dúvida e não a afirmação. 

Também recomendaria o livro O espelho do ocidente - o nazismo e a civilização ocidental, de Jean-Louis Vullierme. O nazismo brota da afirmação de verdade única, imposta e incontornável. Deixo a resenha deste livro: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html. Recomendo ainda a palestra de rádio de Theodor Adorno, transcrita no livro, Educação e emancipação, sob o título de "Educação após Auschwitz". Adorno nos adverte que o nazismo é originário de verdades incondicionais e pré-estabelecidas. É o suficiente. Contra a arrogância do saber, a humildade de sua busca.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Na minha pele. Lázaro Ramos.

Dias após um encontro em que discutíamos trabalhos de formação, recebi via WhatsApp, de meu amigo Sebastião Donizete Santarosa, uma foto da página 33 do livro Na minha pele, de Lázaro Ramos, com o seguinte teor: "Na minha infância, não tinha esse papo de ancestralidade. Mais recentemente, numa conversa com o professor Muniz Sodré, percebi que, mais do que a filosofia e a ciência, o que traz mudança mesmo são as representações coletivas, e a ficção tem um papel fundamental nessa construção. 'A literatura sempre disse mais sobre o homem no Brasil que a sociologia - até hoje, muito preocupada apenas com a luta de classes. O cinema e a novela, com a força que têm hoje em nosso país, podem trazer um ataque forte aos preconceitos', me disse o Muniz em uma entrevista para o Espelho. Eu incluiria a literatura infantil e as biografias nesse rol e acho que ele concordaria comigo".

Na minha pele. Lázaro Ramos. Objetiva. 2021.

Foi o que bastou para eu comprar e ler com a devida atenção o livro do Lázaro Ramos. Em nossos trabalhos de formação, tanto o Sebastião, quanto eu, temos a preocupação de evitar todo e qualquer tipo de doutrinação, ao estilo da catequese. Por isso nossos trabalhos se centram na formação de leitores. Por essa razão, por óbvio, concordamos plenamente com as afirmações do Lázaro e do professor Sodré. Mas vamos ao belo e benfazejo livro Na minha pele.

O próprio Lázaro tem dificuldades em classificar o seu livro. Seria uma biografia ou um livro de memórias? Lázaro é muito novo para isso. Eu, seguramente, o classificaria como um livro de formação, de relatos biográficos, de pontos de inflexão e de rupturas em uma trajetória de vida. Nascido na ilha do Paty, no município de São Francisco do Conde, no recôncavo baiano, Lázaro teria poucas opções para seguir uma trajetória própria de vida, de uma autodeterminação de seu destino. Sua ilha tem apenas duzentos habitantes, todos com a marca da origem negra e indígena. Sair de sua ilha era fundamental, levando porém, as suas origens, sem nunca delas se apartar.

Creio que o traço fundamental na construção de seu ser singular foi o seu encontro com o teatro, ao se inserir no Bando de Teatro Olodum. Pelo teatro procurava superar um traço característico seu, partilhado com tantos jovens, que é a timidez. O Bando de Teatro Olodum o colocou em contato com as suas origens, com a sua ancestralidade. Na representação de uma peça sobre Zumbi dos Palmares que "estabelecia uma relação direta entre uma favela e os quilombos" ele se descobriu. Nessa peça, segundo seu relato ele "fazia um garoto com poucas falas, o que me deu mais tempo para assimilar as informações da pesquisa: a importância de Zumbi dos Palmares; que a história negra é repleta de lutas e que eu não devia chamar meus ancestrais de escravos, e sim de africanos escravizados; que a liberdade não veio de uma canetada da princesa imperial, mas após muita luta. Esse foi mais um salto na compreensão sobre de onde vim e para onde eu podia ir". Observem bem, um salto. Um salto na formação. Uma tomada de consciência.

Eu teria a acrescentar um outro relato seu. Eles mesmos escreviam as peças que representavam. Um trabalho de  práxis. Não representavam ou, especificando melhor, não aplicavam um trabalho escrito por outros. Ah, como isso me fez lembrar dos livros didáticos e a simples aplicação de aulas! Isso aconteceu quando Lázaro já tinha dezessete anos. E por aí vai o livro: seus trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. O seu encontro com Taís Araújo e os filhos João Vicente e Maria Antônia. 

Considero o capítulo "Entre o laboratório e o palco" um dos mais bonitos do livro. É o seu desprender-se de amarras com o trabalho com carteira assinada, em sua opção pelo teatro e as opções que a vida lhe vinha proporcionando. Ele fala muito de seu trabalho na televisão, de seu programa Espelho, um programa de entrevistas, de relatos de vida. Essas entrevistas o colocaram em contato com muitas individualidades, das quais absorveu as diversidades, num belo e complexo campo de somas em sua formação. Foi aprendendo muito. Vejam o relato de uma conversa com Jaime Sodré, professor e doutor em história da cultura negra e ogã, após uma entrevista. É sobre filhos, Maria Antônia, em particular: "Você sabe que essa menina que está vindo aí é de Ogum, não é?".  Taís estava grávida de cinco meses da nossa filha, Maria Antônia. Eu disse: "Não sei, é?". Ele completou: "É. Crie ela livre. As vezes nós criamos nossos filhos cerceando a liberdade deles e isso cria seres atrofiados. O espírito dela é livre. Deixe-a ser plena".

Essa busca pela vida plena dá a tonalidade do livro. Na segunda parte ele aborda temas mais específicos como o empoderamento, a sororidade, o afeto e a autoestima. Analisa ainda as políticas públicas de ações afirmativas e da necessidade de criar um novo olhar que vise a potencialização do ser na sua realização humana, social e econômica, na busca de 'seres plenos'. Uma de suas reflexões finais é sobre o resistir e o existir. Apenas resistir é incompatível com o existir, com o viver em plenitude. E uma vida de muitos afetos, de afetos manifestos, como o simples fato de dizer constantemente que amamos! Ah, a minha ancestralidade germânica, tão ausente de dizeres, de afetos e de abraços.

Um livro belíssimo. Um livro repleto de belas intenções e de formas de sua concretização. Acima de tudo, um livro necessário. Um livro necessário para educadores, de educadores preocupados com a formação de seus alunos, de individualidades que vivem em grandes coletivos e que se preocupam com o viver bem, com a plenitude das potencialidades desenvolvidas. Afinal, não existe o viver, sem o conviver, pois viver é conviver. Grande Lázaro Ramos. O teu livro é uma verdadeira dádiva para os seus leitores. Ou, como diz o seu amigo Wagner Moura, na contracapa: "Na minha pele é um livro imenso, escrito por uma alma imensa, que nos oferece sua intimidade com coragem, generosidade e bom humor".

Antes de terminar, ainda duas questões. Voltarei ao livro em outro post, para contar uma lenda africana, a do "espelho quebrado" e a sua relação com a VERDADE. Belíssimo. E recomendações de leitura, tiradas do livro, duas em particular e que, eu mesmo as farei. A primeira é Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves e a segunda, O olho mais azul, de Toni Morrison, de quem eu já li Amada. Pelas informações contidas nesse post, o deixo aqui para acesso:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/05/amada-toni-morrison-primeira-negra.html


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Bagagem. Adélia Prado. Vestibular - 2022. UFRGS.

Mais uma vez, a indicação da leitura me vem pelos livros do vestibular de ingresso - 2022 - da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trata-se de Bagagem, um livro coletânea, da poetisa e escritora mineira, Adélia Prado. O livro, publicado com o apoio de outro poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, é uma soma de seus primeiros versos. A publicação data do ano de 1976. A autora nasceu na cidade de Divinópolis no ano de 1935. Estes versos foram, portanto, escritos antes de ela completar os seus quarenta anos de idade e já mãe de quatro filhos, como lemos na orelha do livro.

Bagagem. Adélia Prado. Record. 2019.

Em outro livro, também do vestibular da mesma universidade, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, apresentamos uma contextualização brasileira da época de sua escrita, o ano de 1973. Situamos o livro no contexto da ditadura militar, pelo Golpe de Estado de 1964, agravado em 1968 pelo AI-5 e, também marcado pela Guerra Fria e pela Bipolaridade. Porém isso não tem nada a ver com os poemas de Adélia. O que tem a ver sim, é uma outra característica desse tempo, que é a extrema religiosidade do povo brasileiro, ainda completamente dominado pelo catolicismo conservador, especialmente no que diz respeito aos costumes e à moralidade.

Adélia Prado é uma brasileira dessa época. E como brasileira dessa época, a marca maior de sua poesia é a religiosidade. Arriscaria até a dizer, e certamente muitos o dirão, até meio piegas. Toda a sua poesia está impregnada de religiosidade. Até mesmo, nas raras vezes em que ela se defronta com questões existenciais, tão presentes nessa época, ela encontra na religiosidade a sua saída ou a sua fuga. Poderíamos certamente dizer que a sua poesia é uma oração ou um canto de louvor a Deus, o sublime Criador de tudo.

Sobre o livro temos outras indicações. Numa espécie de apresentação, na orelha do mesmo, lemos: "Lido e recebido com empolgação por Carlos Drummond de Andrade - que indicou a publicação do livro -, Bagagem foi escrito num entusiasmo de fundação e descoberta. Emoções que, para a autora, são inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Os poemas também mostram sua profunda religiosidade, que pode nascer do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre um personagem ou da observação das coisas simples da natureza.

Sobre o processo de criação do livro, Adélia esclarece: 'Os poemas praticamente irromperam, apareceram cargas e sobrecargas de poemas. Eu escrevia muito nesse período, e quando vi que o volume tinha uma unidade, que ele não era apenas uma coleção de poemas, pois tinha uma fala peculiar, dele próprio, entre outros títulos que me ocorreram, Bagagem era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa. A própria poesia"'.

Além da marca profundamente religiosa de sua poesia, das cenas comuns de seu cotidiano, dos fatos do dia a dia, da descrição da natureza que a cercava, também a sua condição de mulher, ganha algum destaque. Vejamos já no primeiro verso apresentado: Com licença poética: "Quando nasci um anjo esbelto, - desses que tocam trombeta, anunciou: - vai carregar bandeira. - Cargo muito pesado para mulher, - esta espécie ainda envergonhada [...]. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. -  dor não é amargura. - Minha tristeza não tem pedigree, - já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. - Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. - Mulher é desdobrável. Eu sou".

Destaco ainda três poemas de sua obra primeira. O primeiro expressa a sua condição religiosa. Saudação: Ave Maria! - Ave, carne florescida em Jesus. - Ave, silêncio radioso, - urdidura de paciência - onde Deus fez seu amor inteligível".

O segundo, creio que expressa uma visão sua mundo, do seu mundo. Uma parte do poema ganhou inclusive a contracapa do livro. O poema tem por título - Leitura. "Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras. -  As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha - de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas - fora do seu tempo desejadas. - Ao longo do muro eram talhas de barro. - Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo - que lá fora o mundo havia parado de calor. - Depois encontrei meu pai, que me fez festa - e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria, - os lábios de novo e a cara circulados de sangue, - caçava o que fazer pra gastar sua alegria: - onde está meu formão, minha vara de pescar, - cadê minha binga, meu vidro de café? - Eu sempre sonho que uma coisa gera, - nunca nada está morto. - O que não parece vivo, aduba. - O que parece estático, espera".

O terceiro, o considero bem autobiográfico. O título é.- Atávica. "Minha mãe me dava o peito e eu escutava, - o ouvido colado à fonte dos seus suspiros: -'O meu Deus, meu Jesus, misericórdia'. - Comia leite e culpa de estar alegre quando fico. - Se ficasse na roça ia ser carpideira, puxadeira de terço, - cantadeira, o que na vida é beleza sem esfuziamentos, - as tristezas maravilhosas. - Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes - que dão gosto, meu Jesus misericórdia. - Por prazer da tristeza eu vivo alegre".

Ainda preciso dizer que não tenho grande familiaridade com a poesia. Devo dizer que tenho grande dificuldade em lê-la. Não aprendi a ler poesia. Tive até concursos de oratória em minha formação. Ela sempre foi mais voltada para a fé e para a racionalidade do que para a sensibilidade artística. Lacunas que não consegui suprir. Muitas coisas eu esqueci, outras nunca aprendi. Paciência.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

As meninas. Lygia Fagundes Telles. Vestibular 2022. UFRGS.

Mais um dos livros que me chega por indicação de vestibular. Nesta série, já é o terceiro. Os anteriores foram Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Deixo a resenha ao final do parágrafo. Agora, o livro da vez foi As meninas, de Lygia Fagundes Telles. É o meu primeiro contato com a escritora. Lygia não é uma escritora fácil de se ler. Ah, a sua estrutura narrativa! As conversas das meninas! O real, o espontâneo, a ficção! Mas vamos aos links, antes de continuar.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/caderno-de-memorias-coloniais-isabela.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/poncia-vicencio-conceicao-evaristo.html

As meninas. Lygia Fagundes Telles. Companhia das Letras. 2020.

Para a compreensão do livro ele precisa necessariamente de uma contextualização. A sua primeira edição data de 1973 e Lygia confessa que levou mais de três anos para escrevê-lo. O livro nos dá algumas pistas de que as conversas entre as meninas ocorreram no ano de 1969 (o empréstimo do carro da mãe de Lorena, a referência a Argélia, onde se encontrava o namorado de Lia), ano do recrudescimento do regime militar e da forma de combatê-la pela Luta Armada. Mas... vamos devagar. Primeiro, o romance conta a história de três meninas, bem caracterizadas. Lorena Vaz Leme, Lia de Melo Schultz e Ana Clara Conceição. A conversa entre elas se dá, tudo indica, na cidade de São Paulo e o cenário político é o da ditadura militar, regime instaurado em 1964 e aprofundado por um golpe dentro do golpe e a edição do Ato Institucional número 5, que limitou ou extinguiu as liberdades individuais. O poder simplesmente podia tudo.

As três meninas são internas de um pensionato de freiras, com o sugestivo nome de Nossa Senhora de Fátima, a mais anticomunista das Nossas Senhoras (Tempos de bipolaridade - da Guerra Fria). Não obstante, as freiras, sob o comando da madre Alix, são compreensivas e progressistas. É o tempo de ventos de papas progressistas (João XXXIII e Paulo VI) e da Teologia da Libertação. Embora não tenhamos nenhuma referência no livro, creio que o fenômeno mundial do maio de 1968 também deve ser levado em conta, ao menos, sob o estado de ânimo das meninas. Paira sobre elas um enorme vazio existencial. Ah, Jean Paul Sartre! Parece óbvio que as meninas tenham perfis diferentes.

Lorena é rica e culta. É a mais estabilizada entre elas. É herdeira de família rica e tradicional. Ela meio que namora um homem casado, um tal de M. N., Marcus Nimesius. Lia, a Lião, estuda ciências sociais e está envolvida na guerrilha contra a ditadura. Ela é baiana, filha de um alemão (Schultz) ex-nazista. Ana Clara (ou turva) é a mais perdida entre as meninas. É linda, namoradeira, consumidora de drogas e que, loucamente, busca a ascensão social.

Estes são os componentes do romance. A pauta dos costumes! Lorena preserva a sua virgindade, um valor da tradicional família católica brasileira. Eram tempos de desquite e não de divórcio. Tempos também de liberação sexual, com a qual Ana Clara conviveu sem dificuldades. Lia queria as transformações sociais, num mundo contraditório, em que o Leste Europeu dava sinais do esvaziamento do socialismo real (Primavera de Praga). O vazio existencial transpira em todos os fluxos do real e do imaginário. Marx, Lacan, Sartre, Simone de Beauvoir, são constantes nesses fluxos.

O livro, apesar de marcar um tempo curto da ocorrência dos fatos é relativamente longo. São 370 páginas, divididas em doze capítulos, mais posfácio, escrito por Cristóvão Tezza e outras pequenas referências ao livro, retiradas de edições anteriores. Recomendo muito o posfácio do professor Tezza. Nele, ele nos deixa uma indicação final muito interessante: "Naturalmente, esse é um olhar distanciado de hoje, três décadas depois (hoje já seriam cinco), mas o fato de o romance recriar os mecanismos éticos de sua tensão original em outro tempo é prova de sua permanência e vitalidade". Lygia é paulista, nascida em 1923. Escreveu este romance entre os seus 37 a 40 anos, na condição de atenta observadora de um mundo em profundas transformações.

Deixo ainda o primeiro parágrafo da orelha do livro da primeira edição (1973), escrito por Paulo Emílio Sales Gomes: "O que reúne As meninas - denominação dada por Lygia  Fagundes Telles a três moças de mentalidade definida e arrojada - é um daqueles antigos pensionatos religiosos, destinados a protegê-las contra os riscos da cidade. Contudo, as personagens que fazem parte do círculo de Lorena, Ana Clara e de Lia são tão frágeis e vulneráveis quanto elas próprias. porque o tal pensionato não é mais um casulo intocável - exposto como se encontra, como toda a sociedade do nosso tempo, às diferentes formas da fraternidade ou do medo: política, sexo, drogas. Porque o que une essas três jovens brasileiras não é apenas a amizade mas a circunstância de serem filhas do mesmo lugar e do mesmo tempo. A romancista as segue por fora e por dentro no relacionamento com os companheiros, com as freiras e com a família. Através do fato, da memória e da imaginação".

Este livro é mais uma bela indicação da notável universidade gaúcha. Esses temas devem fazer parte do mundo cultural de um jovem que queira ingressar na universidade de nossos tempos e também se engajar nas lutas, como a escritora se envolveu em seu tempo, em favor da democracia e contra todas as formas de regimes autoritários e de seus instrumentos de cerceamentos em todos os campos do viver. Afinal, o viver pulsa por mais viver. E a liberdade é a condição fundamental para tal. Ah, como eu vivi esses tempos! Me  formei em filosofia no ano de 1968, em Viamão, no Rio Grande do Sul e em 1969, iniciava a minha vida profissional em Umuarama, no Paraná. Eu vivia muito mais os valores do passado, pela forte influência católica em minha formação.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Ponciá Vicêncio. Conceição Evaristo. Vestibular 2022. UFRGS.

Continuando com as minhas leituras dos livros indicados para o vestibular de ingresso na Universidade Federal do Rio Grande Sul, me deparei com Conceição Evaristo e o seu livro Ponciá Vicêncio. Com certeza, mais uma bela escolha da Universidade Federal gaúcha. Isso, em função da escritora em si, por sua forma peculiar de escrita, mas principalmente pelos temas abordados, como a herança da escravidão, a sua permanência ao longo do tempo, tanto no campo quanto na cidade, o êxodo rural, as questões raciais, as injustiças sociais e, ainda, as relações familiares.

Ponciá Vicêncio. Conceição Evaristo. Pallas. 2017.

É o meu primeiro contato com a escritora. A conhecia apenas por entrevistas e sabia que era escritora, negra e engajada em causas populares. A sua história é uma bela história de superação. Nasceu em Belo Horizonte no ano de 1946, de família pobre e numerosa, moradora em favela. Após concluir estudos em Escola Normal, ela parte para Niterói, onde exercerá a função de professora e... não para mais de estudar. O seu campo sempre foi o da literatura, campo em que foi da licenciatura ao doutorado. Sua vida foi dividida entre a escrita e as aulas, estas dadas em várias universidades.

Na apresentação de Ponciá Vicêncio, ela conta um pouco de sua trajetória de escritora , de seu primeiro livro. Ponciá ganhou a sua primeira edição em 2003, com financiamento da própria autora. Em 2006 veio uma segunda edição, já com financiamento dividido com a editora. Depois veio uma edição de bolso, para atender demandas de vestibulares, fato que continua acontecendo, como é caso agora do vestibular da UFRGS. E, toda orgulhosa, ela nos conta: "E assim vai Ponciá. A moça que saiu de trem de uma cidadezinha qualquer, segue atravessando montanhas e mares. Hoje a história dela pode ser lida em língua inglesa [...], em francês [...] e em espanhol". Ponciá ganhou o mundo.

A estrutura do romance não é tão simples. Ela tem uma certa linearidade, da menina que sai do campo e se aventura pela cidade grande, mas em que o passado está sempre presente em suas memórias, lembranças, dores, afetos e desejos. Seriam fluxos de consciência? O desejo maior era o de reconstituir o que sobrara de sua família, ou seja: Maria Vicêncio, a mãe de Ponciá, a própria Ponciá e o irmão Luandi José Vicêncio. O avô Vicêncio também está onipresente. Ponciá é uma espécie de reencarnação sua. Merecem ainda algum destaque Nêngua Kainda, uma espécie de vidente, o bom soldado negro Nestor e a mulher-dama Biliza, a Biliza-estrela.

Vô Vicêncio é remanescente dos tempos da escravidão. Terras de brancos e o sufoco do trabalho foram vividos pelo pai de Ponciá e de seu irmão, mesmo ainda sendo criança. Ponciá e a mãe modelavam a argila. Eram verdadeiras artistas. A vida de emigrantes para a cidade grande lhes reservava serviços subalternos, como o de soldado e de empregada doméstica, ou ainda o da construção civil, trabalho do homem de Ponciá. Eram os herdeiros de um sistema que continuava, sob disfarces, escravocrata. O vazio da existência, aliada ao desespero e à desesperança levaram Ponciá praticamente à loucura.

Na apresentação do livro, a autora estabelece uma relação entre Ponciá e ela. Essa passagem aparece também na orelha do livro. Vejamos: "Às vezes, não poucas, o choro da personagem se confundia com o meu, no ato da escrita. Por isso, quando uma leitora ou um leitor vem me dizer do engasgo que sente, ao ler determinadas passagens do livro, apenas respondo que o engasgo é nosso. A nossa afinidade (Ponciá e eu) é tão grande, que, apesar de nossas histórias diferenciadas, muitas vezes meu nome é trocado pelo dela. Recebo o nome da personagem, de bom grado. Na con(fusão) já me pediram autógrafo, me abordando carinhosamente por Ponciá Evaristo e distraída quase assinei, como se fosse a moça, ou como se a moça fosse eu". Creio que muitas das pessoas da geração da escritora, como a da minha, viveram, de uma forma ou de outra, o fenômeno do êxodo rural, um fenômeno brasileiro dos anos 1960 - 1970, para a instituição de novos latifúndios para viabilizar o agronegócio.

O livro tem um posfácio assinado por Maria José S. Barbosa, da Universidade de Iowa. Dele destaco duas passagens. A primeira, para mostrar a obra e a sua complexidade. "O romance explora a fundo as sucessivas perdas de Ponciá (a morte do avô, do pai, dos sete filhos, a separação da mãe e do irmão), penetrando no 'apartar-se de si mesma'. Analisa tal fato como uma consequência de grandes abalos emocionais, de profundas ausências e vazios, mas também como o resultado de fatores sociais (extrema pobreza, desamparo e injustiças sociais) que levam a situações extremamente estressantes. A história se desenvolve com complexidade, mas sem atropelos. As imagens e as emoções são dados na dosagem certa, sem exageros e sem mutilações narrativas". A segunda  passagem, a destaco para marcar a natureza dos personagens:

"A ternura é a forma de redenção de quase todos os personagens. Conceição enfatiza os profundos laços de família a unir mãe e filhos, os gestos ternos e os abraços comovidos, e mostra como, neste romance, a solidariedade se estende muito além das relações familiares. É a pedra de toque da amizade do Soldado Nestor e de Luandi (o irmão de Ponciá) e se manifesta no carinho deste último pela prostituta Bilisa. A voz narrativa leva o leitor a compartilhar a profunda ternura que se estabelece entre o marido (também cansado, acabrunhado e sofrido) e Ponciá, quando esta se queda em si mesma".

O monumental livro de Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. A minha edição é a 7ª, de 1979.

Maria José termina o seu posfácio com uma saudação à força da palavra. "Ave palavra"! Isso me fez lembrar o prefácio, do professor Ernani Maria Fiori, ao maior livro da educação brasileira e um dos maiores da educação mundial, Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. Esse prefácio tem por título "Aprender a dizer a palavra". Em seu último parágrafo lemos: "Em regime de dominação de consciências, em que os que mais trabalham menos podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer têm condições para trabalhar, os dominadores mantêm o monopólio da palavra, com que mistificam, massificam e
dominam. Nessa situação, os dominados, para dizerem a sua palavra, tem que lutar para tomá-la. Aprender a tomá-la dos que a detêm e a recusam aos demais, é um difícil, mas imprescindível aprendizado - é a 'Pedagogia do oprimido'".

O romance é uma narrativa de pessoas oprimidas, que encontram eco nas palavras de Conceição Evaristo para a libertação de seus múltiplos sufocos. Ave, palavra! Aliás, a alfabetização também está fortemente presente no livro. Um desejo incontido. O analfabetismo da época era uma das grandes chagas da nação brasileira, que continua sob a capa do analfabetismo funcional de ilustres letrados. Muitos deles, nossos governantes.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Caderno de memórias coloniais. Isabela Figueiredo. Vestibular 2022. UFRGS.

Uma das fontes para as minhas leituras. Procuro sempre ver o que está sendo solicitado nos vestibulares pelo Brasil afora. Creio que esta seja uma bela forma de me manter relativamente bem atualizado. Foi dessa maneira que entrei em contato com essa pequena maravilha - Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo. Isabela nasceu em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique, em 1963 e veio para Portugal em 1975, o ano da independência daquele país. Ela sentiu em seu corpo, em seu corpo, repito, as memórias coloniais.

Caderno de memórias coloniais. Isabela Figueiredo. Todavia. 2018.

Seu pai saíra de Portugal na década de 1950, quando o país estava sob o domínio da ditadura salazarista. Poucas oportunidades havia na metrópole. Uma fuga para as colônias poderia representar uma solução para a vida. Foi o que fez o pai de Isabela. Ele era eletricista. Sob pesado jugo sobre os negros construiu uma vida, que do ponto de vista econômico, diríamos próspera. A situação se altera com as mudanças trazidas pelo 25 de abril de 1974. A Revolução dos Cravos em Portugal. Isso significaria uma mudança com relação às suas colônias na África. Moçambique proclama a sua independência em 25 de julho de 1975. Ela foi precedida de muitas lutas, que começaram, já nos idos de 1964.

A exemplo do ocorrido em Angola, também em Moçambique, após a independência se instaurou o clima da Guerra Fria. O bloco de países socialistas apoiava as forças da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), comandadas por Samora Machel, enquanto os países capitalistas, capitaneados pela Rodésia e pela África do Sul, apoiavam a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique). A paz veio somente em 1992, depois de 17 anos de Guerra Civil. Esses são alguns dados de contextualização histórica para a melhor compreensão deste livro, que, como lemos na contracapa "é um grito".

O teor da obra, é então, fácil de imaginar, a realidade vivida em Moçambique antes e depois do domínio colonial português. A ênfase maior está no período colonial. Colonialismo, racismo e patriarcalismo são assim, os grandes temas do livro, descritos por quem os viveu e nunca se conformou com tal situação. Em meio a todo esse contexto político Isabela também crescia. Passou da infância para a adolescência, num mundo cheio de proibições. O livro consta as memórias vividas e, acima de tudo, sofridas por Isabela. A relação com o pai personifica o que foi a dureza do colonialismo português na África. Ao mesmo tempo, mantinha com o pai, uma bela relação de afetos e sentimentos e de autoridade patriarcal.

O livro também representa uma desmistificação do que fora o colonialismo português, dito como um colonialismo brando, perto do que havia sido o colonialismo praticado na África do Sul, com o seu mundialmente conhecido apartheid, ou com os horrores praticados pelos belgas, no Congo. Era mais ou menos uma versão como a de Gilberto Freyre, comparando a escravidão no Brasil com a dos Estados Unidos. Também a vida dos retornados é focada. É o caso dos colonizadores que voltam para a metrópole, após as condições de vida se tornarem impossíveis na ex-colônia. A condição de retornada de Isabel, foi ainda mais complicada. Ela, sozinha, irá conhecer a miséria junto a sua avó paterna em Lisboa. O analfabetismo absoluto grassava na família de seu tio.

O livro tem três apresentações: A primeira é uma introdução ao Caderno, escrita pela própria autora. A segunda, é de autoria de Paulina Chiziane, também moçambicana e escritora (autora de Niketche - uma história de poligamia). A sua apresentação é fantástica e aponta o colonialismo, o catolicismo e patriarcado como a razão para os grandes sofrimentos vividos pelos povos que foram vítimas do colonialismo português (Senti uma grande vontade de copiar toda a sua apresentação nesta resenha). A terceira é de José Gil, que apresenta o livro como o melhor de todos sobre o colonialismo português em Moçambique. Aí segue o livro, que consta de 51 pequenos capítulos e uma espécie de posfácio, "o meu corpo e o dele", da própria autora. Páginas memoráveis, 180 ao todo. Nelas lemos:

"Não me façam perguntas. Leiam-me apenas. Do que saiu recende um retrato brutal sobre o colonialismo. Era o que estava à minha volta. Eu não conseguiria narrar a minha infância sem a encaixar nesse décor que tudo dominava. O colonialismo respirava-se com a poeira do dia que o meu pai trazia na roupa, quando chegava em casa, ao final da tarde. Não era apenas o poder, mas o que dele transborda: subserviência e medo. Nasci e vivi nesse mundo convulso de racismo e discriminação de toda sorte. 'Grande novidade!', dirão. 'Bem-vinda ao mundo real" (Página 177). O livro termina com uma reflexão sobre a sua estada em Portugal, na casa da avó, sozinha e em condições absolutamente precárias, de retornada:

Isabela Figueiredo. A filha do colonizador a denunciar os horrores do colonialismo português.

"E arranjei-me. Os animais trazem instinto de sobrevivência. Amei o corpo de carne repetida  do meu pai, que confundo com o da terra. Abraço o meu corpo quando não a encontro, nem a ele nela. Eu e este livro estamos cheios de corpo e terra. Mas se os corpos se confundem, o que amei, afinal? Amei o colonialismo? Então é isso? Afinal, o que abracei eu, enquanto me abraçava chorando, no Maputo? De novo, a perturbação. Reflito e respondo-me honestamente, socorrendo-me da lucidez que nunca me abandonou: a construção ideológica e discursiva do meu pai sobre a necessidade de civilizar os negros esteve sempre errada aos olhos da criança que fui. Sempre foi evidente que o tratamento que ele designa como civilizador era castigador e paternalista. As crianças intuem a verdade sem precisar de palavras. A justiça e a matemática também coincidem nos resultados e, nesse caso, a equação colonial não tinha solução, apenas extinção. A idade adulta confirmou a intuição de criança: meu anti colonialismo não se alterou nem um milímetro. Esse foi, apesar de todos os dissabores, o curso certo da história. Não amei o colonialismo, mas não posso evitar ter conhecido a sua mancha.

Este livro é parte do meu corpo. E minha história, que não pode ser modificada em retrospecto, ficará para sempre ligada a ele" (Páginas 179-180).

Ainda, para dar uma melhor contextualização do livro, deixo o contido em suas orelhas: "Caderno de memórias coloniais foi publicado em 2009 em Portugal. Sucesso de público, foi imediatamente saudado como uma obra-prima. Houve quem dissesse que o livro de Isabela Figueiredo provocava um terremoto na vida literária lusitana. E com razão. Desfazendo o mito, frequentemente edulcorado, de que a experiência cultural portuguesa na África fora algo benéfico para as populações nativas (mascarando toda a carga de violência social, racial e até mesmo sexual), o texto expõe, com enorme força e vitalidade, uma outra história da colonização. Uma narrativa que poucos faziam questão de relembrar.

Mas não Isabela. Nascida em Lourenço Marques (atual Maputo), em Moçambique, filha de pais portugueses, viu desde a infância o tratamento reservado aos africanos. Exclusão social - as melhores praias, os restaurantes e as boas escolas eram destinadas aos brancos -, trabalhos subalternos e mal remunerados, o racismo a transpirar em cada gesto cotidiano. Tudo isso foi testemunhado pela autora, que ali viveu até a adolescência, quando teve que se estabelecer em Portugal com o processo de descolonização que sobreveio após a Revolução dos Cravos, em 1974.

Misturando memória, crônica  e ensaio com potência literária e testemunhal similar a textos de Primo Levi, Elias Canetti e Graciliano Ramos, este livro é um acerto de contas da autora com o passado colonial de Portugal, mas também com o seu próprio pai, um eletricista que em Moçambique obteve uma confortável condição social. O pai (evocado com iguais doses de crueza e carinho, saudade e alguma repulsa) parece personificar a metrópole: despreza e explora os nativos enquanto vive numa redoma de privilégios cercada de miséria, ignorância e brutalidade.

Tudo isso numa linguagem desassombrada e veemente, lírica e evocativa. Um triunfo literário e pessoal - daquela que já se impôs como uma das principais vozes do nosso idioma. E este seu livro devastador e apaixonante converteu-se numa das obras decisivas do nosso tempo". E parabéns para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul pela inclusão deste livro e de seus temas no vestibular de acesso aos seus cursos.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Sábado. Ian McEwan.

A vida de professor não é fácil. Compatibilizar o ofício de ministrar aulas com uma leitura mais ou menos sistemática é muito difícil, ainda mais, quando você é apenas um professor horista. Não sobra tempo para a leitura, ou então, você a faz em partes, nas raras horas de folga. Falo isso, ao rever em minha estante, livros ainda não lidos. Entre eles localizei um, comprado em 2006. Lembro que o livro era muito comentado em nosso círculo de conversas, da turma dos professores do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Trata-se de Sábado, romance de Ian McEwan.

Sábado. Ian McEwan. Companhia das Letras. 2005. Tradução: Rubens Figueiredo.

Terminei de lê-lo. É um belo romance, escrito para leitores atentos. Trata, como sugere o título, da vida desenvolvida ao longo de um sábado, geralmente um dia livre, livre do tripalium dos demais dias da semana. O dia começou cedo, ainda na madrugada, por uma crise de insônia e termina, apenas na madrugada de domingo, quando o personagem do livro dorme após um dia de exaustão física que chegara, praticamente, aos limites. Tem assunto, portanto, para um dia inteiro.

Quem são então os personagens desse Sábado. Henry Perowne, um médico neurocirurgião bem sucedido, é o personagem principal. O seu Sábado deveria ser um dia maravilhoso e raro em sua vida. Entre os seus afazeres para o dia, constava o preparo de um jantar todo especial, um jantar exclusivamente familiar. Dele participariam Rosalind, a esposa e advogada por profissão, Dayse, a filha, prestes a publicar um livro de poesia. Viria de Paris. Haveria ainda dois outros participantes: Theo, o filho músico e o avô, o pai de Rosalind, John Grammaticus, um poeta consagrado. Aparar arestas com a neta seria uma das finalidades do encontro. Questões entre poetas.

O dia será longo. Ele será descrito em cinco capítulos, dos quais eu não posso adiantar quase nada para não dar pistas da trama. É importante saber que o romance foi escrito no ano de 2005 (retratará um sábado do ano de 2003) e o cenário político do pós "torres gêmeas" e a iminente guerra contra o Iraque, de Saddam Hussein, estarão presentes nos fatos do dia. As ruas de Londres, a cidade onde se dão os fatos desse Sábado, serão tomada por multidões de manifestes em favor da paz. Com essa pequena contextualização, vamos aos capítulos: No primeiro, a família é apresentada, além das preocupações de Henry, em sua insônia da madrugada. No segundo, Perowne se desloca por ruas da cidade, com o seu Mercedes S500 e se envolve num pequeno acidente de trânsito. No terceiro aparecem as compras e o preparo para o jantar; no quarto ocorrerá um assalto e no quinto uma cirurgia de emergência.

A riqueza do romance não está, portanto, na narrativa da trama mas na força dos pensamentos e dos diálogos travados entre os personagens, com destaque para as reflexões de Perowne, sobre o significado da vida. Seus diálogos com a filha são fantásticos. O teor do desentendimento entre Grammaticus e Dayse é facilmente imaginável. O ambiente familiar é maravilhoso. Muitos fatos do passado, da memória, serão trazidos ao presente. Até destaquei um trecho, já do final do livro: "Chegará o tempo em que ele (Henry) vai operar menos e fará mais trabalho administrativo - eis outro tipo de vida - e Rosalind sairá do jornal para escrever o seu livro, e chegará o tempo em que não encontrarão mais forças para a praça, os drogados, o barulho do trânsito e a poeira. Talvez uma bomba em nome da jihad os leve para os subúrbios, junto com todos os demais corações fracos, ou até mais para o interior do país, ou para o castelo - o seu sábado se tornará um domingo" (Página 330).

Na contracapa do livro temos uma pequena apresentação do mesmo: "Sábado, 15 de fevereiro de 2003. O exímio neuro-cirurgião Henry Perowne aproveita o dia de folga para jogar squash e organizar um jantar festivo para a família em sua residência, num ponto elegante de Londres. Imbuído das certezas do homem de ciência e cercado pelo confronto de praxe em sua classe social, Perowne verá sua consciência passar por uma prova de fogo, depois de um incidente trivial numa rua da cidade. O pano de fundo é uma manifestação em que um milhão de londrinos desfilam contra a invasão iminente do Iraque. O trauma dos atentados de 11 de setembro em Nova York ainda é recente, e o temor de que ocorram atentados em Londres tira o sono de muita gente. Perowne está inquieto. Com a destreza de suas mãos, ele faz milagres em cirurgias cerebrais descritas aqui com precisão. Mas até que ponto poderá controlar as forças irracionais que rondam sua casa e sua família e ameaçam o mundo que ama?".

A edição brasileira, da Companhia das Letras, é de 2005. Tem tradução de Rubens Figueiredo e tem 336 páginas. O escritor, nascido em 1948, tem entre outros romances, o famoso Reparação, de 2002. Ian McEwan é dos mais consagrados escritores ingleses de sua geração.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Se o passado não tivesse asas. Pepetela.

Este é um livro que faz encompridar os dias e diminuir as noites. Ao menos para aqueles que não trocam a noite pelo dia. Você não para ler, nem mesmo para fazer pequenas interrupções. Tal é a força narrativa desse romance do Pepetela. Estou falando de Se o passado não tivesse asas, o seu romance de 2015, que veio a público, no Brasil, em 2017. Pepetela, em sua literatura, procura retratar Angola, o seu país. O seu sofrido país.

Se o passado não tivesse asas. Pepetela. Leya. 2017.

O meu primeiro contato com o escritor foi através da indicação de livros para o vestibular da FUVEST. O livro indicado era Mayombe, livro que proporciona ao leitor um mergulho nas profundezas do país, que após a proclamação de sua independência, mergulha numa violenta e interminável guerra civil. Duas grandes forças disputam o poder (MPLA e UNITA), reproduzindo o ambiente da bipolaridade, mas, que no caso, não coincidia com a guerra fria. Foi uma guerra quentíssima, avivada constantemente pelas lutas tribais, sempre alimentadas pelo jugo colonial. A guerra civil, que durou longos 27 anos, teve três duras fases: de 1975 a 1991, de 1992 a 1994 e de 1998 a 2002. Deixo a resenha de Mayombe.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/07/mayombe-pepetela.html

Se o passado não tivesse asas, tem dois focos narrativos, em tempos diferentes, tempos que se alternam ao longo de cada capítulo. Se observarmos bem, no primeiro capítulo, temos, logo no seu início, a data de 1995 e, lá pelo meio, a de 2012. Detalhando, 1995, nos tempos da Guerra Civil e 2012, já dez anos após a mesma. Os personagens da primeira parte, dos fatos ocorridos a partir de 1995, dos tempos da guerra, são Himba, uma menina extremamente cativante e Kassule, não menos querido que a menina. Já os da segunda parte (2012) são Sofia, uma jovem empreendedora, do ramo de restaurantes e o seu irmão Diego, artista, pintor de paisagens e realidades de seu país. Luanda e as suas contradições são o cenário para o romance. Uma Luanda que se modernizava.

A parte referente à guerra civil é, até certo ponto, previsível: dor, mutilações, sofrimento, fome, violência, miséria, desesperança e desumanidade. E também, por outro lado, compaixão, afabilidade, carinho, proteção, afagos e solidariedade. São comoventes os personagens como os de tia Isabel, a tia das trancinhas, a do padre Adão e a do arquiteto argentino Radamel, seguidor de Chê Guevara. Nessa lista dá para ser incluído também o Tobias. O ponto alto é, sem dúvida, a amizade, a cumplicidade, o cuidado e a doação mútua, forjada no reino necessidade, entre Himba e Kassule. Bonito de se ver. Tudo isso em meio a uma violenta degradação social.

Por outro lado, na Angola pacificada e na Luanda a se modernizar, outros valores fazem parte dos personagens. O espírito empreendedor de Sofia a torna egoísta, menos compreensiva e até trapaceira. Seria? Os jovens que frequentam o restaurante da Mama Ester são jovens balados, porém vazios de simbolizações, de significados e de perspectivas. Cheios de kumbú dodós, bebidas e liamba. As permissões tornadas possíveis pelo dinheiro formam uma nova tábua de valores. Parece que apenas Diego se mantem incorruptível. A igreja do demônio do dízimo forjado, da exploração da miséria, também está fortemente presente.

A fluente narrativa ocorre ao longo de 16 capítulos e 361 páginas. O final é extraordinário. Os tempos se cruzam, se encontram e se desencontram. Os sentimentos humanos afloram. Alguns são abafados. Estes causam dores profundas. O passado, por maiores que sejam os esforços empenhados, insistem em continuar presentes e a atormentar a consciência. Como seria, afinal o tempo se o passado não tivesse asas?

Como não posso adiantar expectativas, deixo o relato da orelha do livro: "Duas personagens femininas: Himba e Sofia. Dois momentos da história de um país: a guerra civil e o pós-guerra.

Himba tem apenas treze anos, perdeu sua família num ataque na estrada, ao tentar fugir da guerra. Foi violada por um bando de meninos nas areias da praia da Ilha. Junto a Kassule, um jovem também órfão e vítima da guerra, lhe resta revirar o lixo dos restaurantes para encontrar comida.

Sofia sempre sonhou em mudar de vida. Agora, depois de uma aposta arriscada, é sócia num restaurante em ascensão, frequentado por clientes da alta burguesia de Luanda. Sem muito tempo para vida social e amorosa, Sofia preocupa-se apenas com seu irmão Diego - um artista de rua que sonha expor em galerias - e com suas ambições profissionais, que vai atingindo pouco a pouco.

Com um desfecho imprevisível, Se o passado não tivesse asas conjuga as trajetórias de Himba, a menina que, sozinha no mundo, tenta sobreviver à guerra, e de Sofia, que deseja uma vida melhor em tempos de 'paz' e crescimento econômico. Histórias que se completam, nos fazendo pensar sobre os últimos vinte anos de Angola, mas sobretudo, nos fazendo perceber a fragilidade do ser humano e nossas mais aterradoras contradições".

Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Pertenceu ao MPLA, foi professor universitário e governante. Hoje se dedica exclusivamente à literatura. É detentor do Prêmio Camões - 1997.


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Sobre a educação. Dísticos e reflexões e um alento.

Muito teria a dizer sobre a educação, depois de tão longo exercício na profissão. Mas não é o que pretendo fazer. neste post. O objetivo hoje é o de deixar, num espaço permanente e de fácil acesso, como o é o espaço desse blog, alguns dísticos, acrescidos de uma pequena reflexão. A reflexão, a faço a partir da elaboração de algumas falas que fiz, especialmente, ao longo deste ano, o ano do centenário do nascimento do maior educador brasileiro e de um dos maiores do mundo, o nosso querido Paulo Freire.

Educação inspira beleza. Imagem de rara beleza.

Vamos aos dísticos (Ou não seriam exatamente dísticos?); O primeiro, o vi por esses dias no facebook, e até o compartilhei e o retomo agora. Ele diz o seguinte:

NO PÓRTICO DE ENTRADA DE UMA UNIVERSIDADE NA ÁFRICA DO SUL FOI AFIXADA A SEGUINTE MENSAGEM PARA REFLEXÃO:

"PARA DESTRUIR QUALQUER NAÇÃO NÃO É NECESSÁRIO USAR BOMBAS ATÔMICAS OU MÍSSEIS DE LONGO ALCANCE. BASTA APENAS REDUZIR A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO E PERMITIR QUE OS ESTUDANTES 'CABULEM' NOS EXAMES.

PACIENTES MORREM NAS MÃOS DE MÉDICOS;

EDIFÍCIOS DESABAM NAS MÃOS DE TAIS ENGENHEIROS;

DINHEIRO PERDE-SE NAS MÃOS DE TAIS ECONOMISTAS E CONTABILISTAS;

A HUMANIDADE MORRE NAS MÃOS DE TAIS ERUDITOS RELIGIOSOS;

A JUSTIÇA SE PERDE NAS MÃOS DE TAIS JUÍZES.

O COLAPSO DA EDUCAÇÃO É O COLAPSO DA NAÇÃO".

Pobre nação brasileira.

O segundo, o recebi, há anos, pelas mãos de uma aluna muito querida. Ele equivale a um forte soco no estômago e nos confere a certeza de que nem toda a educação é boa  A autoria é desconhecida. Vamos aos seus dizeres:

"SOU SOBREVIVENTE DE UM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO.

MEUS OLHOS VIRAM O QUE NENHUM HOMEM DEVERIA VER:

CÂMARAS DE GÁS CONSTRUÍDAS POR ENGENHEIROS FORMADOS.

CRIANÇAS ENVENENADAS POR MÉDICOS DIPLOMADOS.

RECÉM-NASCIDOS MORTOS POR ENFERMEIRAS TREINADAS.

MULHERES E BEBÊS FUZILADOS POR GRADUADOS EM COLÉGIOS E UNIVERSIDADES.

ASSIM TENHO MINHAS DÚVIDAS A RESPEITO DA EDUCAÇÃO.

MEU PEDIDO É ESTE: AJUDEM SEUS ALUNOS A TORNAREM-SE HUMANOS.

SEUS ESFORÇOS NUNCA DEVERÃO PRODUZIR MONSTROS TREINADOS.

APRENDER A LER, ESCREVER, APRENDER ARITMÉTICA SÓ SÃO IMPORTANTES QUANDO SERVEM PARA FAZER NOSSOS JOVENS TORNAREM-SE "CIDADÃOS" MAIS HUMANOS".

Falando em cidadãos, deixo o link do texto, que considero uma verdadeira despedida, testamento ou legado do professor Milton Santos, sobre os Deficientes Cívicos, deficientes em sua condição de cidadãos.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html

Uma imagem. Saber e sabor. Tomilho.


A reflexão a tomo, somando um velho texto de um manual de filosofia, de autoria de Leonardo Justino Girardi e Odone José de Quadros, que aponta para as características essenciais do ser humano, a saber: A finitude. A imanência. A transcendência. A relacionalidade. A singularidade. A pluralidade. Sempre gostei de trabalhar essas características. São a expressão do humano. Gosto demais da nossa finitudade, que aponta para todos os nossos limites, mas, logo a seguir, a transcendência já me indica a possibilidade da superação. Deixo também o link.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/o-homem-ser-no-mundo-caracteristicas.html

A essas características somo um pensamento de Paulo Freire, da Pedagogia da autonomia, que diz o seguinte: "Ensinar exige alegria e esperança. A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento (finitude), primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca (transcendência) e, segundo, se buscasse sem esperança". Um alento. Na busca atiçamos a curiosidade, a curiosidade natural, somada a um certo método e rigor. Um alento e um afago. E como faz bem.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Discurso de Lula no Parlamento Europeu. Bruxelas. 15.11.2021.

Lula semeando esperanças, mundo afora. Construir avanços civilizatórios. Fazer do mundo uma casa comum, habitável e onde haja espaços para a riqueza das diferenças, para a alegria e para a felicidade. E..., não se vive feliz sozinho. Viver é conviver.  Eis a íntegra de mais um de seus discursos históricos.


Eu quero começar falando não da América Latina, nem da União Europeia, nem de algum país, continente ou bloco econômico em particular, e sim do vasto mundo em que vivemos todos nós – latino-americanos, europeus, africanos, asiáticos, seres humanos das mais diferentes origens.


Lula discursa no Parlamento Europeu. Bruxelas. 15.11.2021.

Vivemos em um planeta que tenta a todo momento nos alertar de que precisamos de novas atitudes e de uns dos outros para sobreviver. Que sozinhos estamos vulneráveis às tragédias ambientais, sanitárias e econômicas. Mas que juntos somos capazes de construir um mundo melhor para todos nós.

No entanto, ignoramos esses alertas. Insistimos em não aprender com os erros do passado.

O resultado da nossa falta de compreensão está à vista de todos: pandemia, desigualdade, fome, emergências climáticas que no futuro próximo poderão comprometer a sobrevivência da espécie humana na Terra.

Apesar de tudo isso, quero reiterar aqui minha crença inabalável na humanidade.

Não nasci otimista – aprendi a ser. Porque vi em vários momentos da minha vida o quanto um ser humano é capaz de realizar, e o quanto um povo é capaz de construir, quando existe força de vontade e geração de oportunidades.

Quem vive hoje no Brasil, ou acompanha o noticiário sobre o país, tem todos os motivos para estar pessimista. Mas aonde quer que eu vá, faço questão de dizer: o Brasil tem jeito – apesar do projeto de destruição colocado em prática por um bando de extremistas de direita sem a menor noção do que seja cuidar de um país e de seu povo.

O Brasil tem jeito, apesar dos 19 milhões de brasileiros que passam fome. Apesar dos 19 milhões de desempregados e desalentados, que já desistiram de procurar um novo emprego. Apesar dos ataques constantes contra a população negra e indígena. Apesar do avanço da destruição do meio ambiente, inclusive na Amazônia.

E apesar, sobretudo, das mortes de mais de 610 mil brasileiros, muitas delas evitáveis – caso houvesse por parte do atual governo o interesse em combater com seriedade o coronavírus.

Apesar de tudo, digo com total convicção: o Brasil tem jeito. Sei disso porque num passado muito recente nós fomos capazes de reconstruir e transformar o país, e temos plena capacidade de reconstrui-lo outra vez.

Da mesma forma que acredito que o Brasil tem jeito, acredito também que o mundo tem jeito. Apesar dos 750 milhões de pessoas que passam fome, apesar dos 5 milhões de mortos pela Covid-19, apesar da desigualdade que não para de crescer, apesar dos conflitos étnicos, religiosos e geopolíticos que não raro alimentam as guerras.

Como disse no início desta fala, meu otimismo não nasce do acaso, mas da experiência. Acredito que a humanidade tem jeito porque estou aqui hoje, neste Parlamento Europeu, reunido com representantes de países que em meados do século 20 eram inimigos ferozes no campo de batalha, numa das maiores  carnificinas da história.

60 milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial. É bem provável que os antepassados de vocês tenham lutado em lados opostos. Que tenham matado, morrido e sofrido na pele as atrocidades da guerra.

Vocês e seus países teriam, portanto, razões para se odiarem uns aos outros. No entanto, são protagonistas de uma das mais extraordinárias experiências da história moderna, que foi a construção da União Europeia.

Vocês estão hoje aqui, neste Parlamento Europeu, em clima de paz, buscando juntos soluções para a construção de uma Europa melhor.

Conhecemos o imenso poder de destruir que o ser humano tem em suas mãos, e que ele tantas vezes não hesitou em usar. Mas não podemos jamais esquecer que a humanidade tem também uma extraordinária capacidade de construir e reconstruir.

A União Europeia, o Parlamento Europeu e vocês, senhoras e senhores eurodeputados, são portanto exemplos dessa virtude humana. A União Europeia não é perfeita, como nada é, mas é um patrimônio da humanidade, como exemplo de cooperação e construção da paz entre os povos.

Senhores deputados e senhoras deputadas

Somos 7 bilhões e seiscentos milhões de seres humanos habitando este planeta. Homens, mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres, pretos, brancos, gente de todas as cores.

Cada um de nós carrega dentro de si o seu universo particular. Somos diferentes uns dos outros, cada qual com sua individualidade, mas unidos todos por uma certeza ancestral: o ser humano não nasceu para ser sozinho.

O que me faz lembrar do pequeno trecho de uma das grandes obras primas da Bossa Nova, esse gênero musical brasileiro que conquistou o mundo. Um verso que diz o seguinte: “É impossível ser feliz sozinho.”

A verdade é que não é possível sermos felizes enquanto milhões de crianças ao redor do mundo vão dormir esta noite com fome, e acordarão amanhã sem saber se terão o que comer. 

Não é possível sermos felizes em meio a tamanha desigualdade, que cresceu de forma inaceitável em plena pandemia. Os ricos ficaram muito mais ricos e os pobres, ainda mais pobres.

A desigualdade entre ricos e pobres manifesta-se até mesmo nos esforços para a redução das mudanças climáticas.  O 1 por cento mais rico da população do planeta vai ultrapassar em 30 vezes o limite necessário para evitar que um aumento da temperatura global ultrapasse a meta de 1,5 grau centígrado até 2030.

O 1 por cento mais rico, que corresponde a uma população menor que a da Alemanha, está a caminho de emitir 70 toneladas de gás carbônico per capita por ano.

Enquanto isso, os 50 por cento mais pobres do mundo emitirão, em média, apenas uma tonelada per capta por ano, segundo estudo produzido pela ONG Oxfam e apresentado recentemente na COP 26.

A luta pela preservação do meio ambiente para mim é indissociável da luta contra a pobreza e por um mundo menos desigual e mais justo.

É preciso deixar bem claro que o otimismo, a esperança e a fé não podem ser jamais sinônimos de resignação. Por conta disso, eu me considero um otimista indignado.

Em 2009, os países ricos se comprometeram em aumentar para 100 bilhões de dólares ao ano, a partir de 2020, a contrapartida para os países em desenvolvimento preservarem a natureza e enfrentarem as mudanças climáticas. Esse compromisso não foi cumprido, e agora está sendo postergado para mais dois anos, ou seja, a partir de 2023, a transferência de 100 bilhões ao ano para enfrentar a emergência climática.

Iniciativa louvável, que merece ser celebrada. Mas não podemos esquecer que na crise de  2008, os Estados Unidos destinaram 700 bilhões de dólares para salvar da falência bancos que de forma irresponsável investiram em títulos imobiliários podres.

Na mesma época, o G-20 destinou mais 1,1 trilhão de dólares aos países emergentes e ao comércio mundial, para combater os efeitos da crise.

É preciso lembrar também que os Estados Unidosgastaram8 trilhões de dólares nas guerras pós-11 de setembro. Quantia suficiente para eliminar a fome no mundo e preparar o planeta para lidar melhor com as mudanças climáticas. E que no entanto foi usada para causar a morte direta de mais de 900 mil pessoas em países como Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen e Paquistão. Sem contar as mortes provocadas pela perda de água, esgoto e infraestrutura relacionadas com a guerra.

Ou seja, não faltam recursos para salvar bancos e para causar a morte ou o deslocamento forçado de milhões de seres humanos. Mas na hora de salvar vidas humanas ou o próprio planeta em que vivemos, a solidariedade dos países ricos é dezenas de vezes menor. 

Uma das maiores alegrias que tive quando presidente do Brasil, e mesmo depois de deixar a Presidência, foi percorrer o mundo, a convite dos mais diferentes países, para falar dos nossos extraordinários avanços econômicos e sociais.

Tive a honra de conduzir o Brasil ao posto de 6ª maior economia mundial. E de fazer do país um exemplo para o mundo de como é possível superar a extrema pobreza e a fome, com total respeito à democracia, em um curto espaço de tempo.

Vocês podem, portanto, imaginar o quanto dói participar de grandes eventos internacionais como este e ter que declarar o quanto o Brasil andou para trás desde o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff e a chegada da extrema direita ao poder.

O Brasil vive hoje uma tragédia social, econômica, ambiental e sanitária sem precedentes. Temos 2,7 por cento da população mundial. No entanto respondemos por 12 por cento das mortes por Covid registradas no mundo.

Choramos a morte de mais de 610 mil brasileiros. Não chegamos a essa trágica estatística por alguma fatalidade, e sim pela atitude criminosa do atual governo.

O atual presidente ironizou a gravidade da doença. Zombou dos mortos. Atrasou o quanto pôde a compra das vacinas. Fez propaganda enganosa e distribuiu medicamentos comprovadamente ineficazes contra o vírus.

Deixou faltar oxigênio em hospitais. Incentivou e promoveu aglomerações. Induziu a população à desconfiança quanto à eficácia das máscaras. Ajudou a espalhar fake news contra as vacinas, chegando a dizer que elas podem levar as pessoas com HIV a desenvolverem AIDS.

Experiências com medicamentos ineficazes, usando seres humanos como cobaias involuntárias, chegaram a ser realizados no Brasil, reeditando os horrores do nazismo.

Além disso, cerca de 116 milhões de brasileiros, metade da nossa população, vive hoje em situação de insegurança alimentar, de moderada a muito grave. Desses, cerca de 19 milhões, quase duas vezes a população da Bélgica, chegam a passar um dia inteiro sem ter o que comer.

Isso está acontecendo no Brasil, que é o terceiro maior produtor mundial de alimentos.

E está acontecendo porque o Brasil, que em 2014 saiu do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez na história, hoje copia o que o neoliberalismo trouxe de pior ao mundo: alta concentração de renda, baixa geração de empregos, destruição de direitos trabalhistas, desmonte das políticas sociais, ausência do Estado, abandono dos mais pobres à própria sorte.

O resultado dessa trágica equação não poderia ser outro: miséria, fome, desesperança.

Mas eu estou aqui para dizer outra vez a vocês e ao mundo: o Brasil tem jeito. Porque ele é muito maior do que qualquer um que tente destruí-lo.

O Brasil é o país que num passado muito recente encantou o mundo com as suas políticas inovadoras, que retiraram da extrema pobreza 36 milhões de pessoas – o equivalente à soma das populações inteiras de Portugal, Suécia, Dinamarca e Irlanda.

O Brasil é o país que assumiu voluntariamente diante do mundo o compromisso de reduzir em 75 por cento o desmatamento na Amazônia, como forma de conter a emissão de gases poluentes.

E cumprimos antecipadamente nossa promessa – entre 2004 e 2012, nós, de fato, reduzimos em 80 por cento o desmatamento da Amazônia, contribuindo para minimizar o avanço das mudanças climáticas.

Infelizmente, os países ricos, justamente os principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa, não cumpriram a sua parte. Talvez porque os ricos acreditem que tenham como se proteger, e as mudanças climáticas afetarão com maior intensidade os mais pobres, o que é a triste realidade.

Mas o que eles esqueceram é que todos nós – ricos e pobres – precisamos do mesmo oxigênio para respirar, precisamos de água limpa para sobreviver, precisamos de um planeta saudável, onde nossos filhos possam viver com saúde e paz.

Felizmente, essa era de trevas que se abateu sobre o planeta, por conta da ascensão de governos de extrema direita pelo mundo afora, emite claros sinais de que está chegando ao fim.

Partidos e candidatos progressistas vêm conquistando importantes vitórias. Isso está acontecendo em vários países, e estou certo de que vai acontecer também no Brasil, a partir da eleição presidencial do ano que vem.

O Brasil voltará a ser uma força positiva no mundo. Voltaremos a ser criadores de políticas públicas capazes de mudar para melhor o nosso planeta.

Acreditamos num mundo multipolar. Voltaremos a ter uma política externa altiva e ativa. Vamos fortalecer o Mercosul, reconstruir a União de Nações Sul-Americanas, a Unasul, e ampliar nossas parcerias com a União Europeia. 

Vamos aperfeiçoar os termos do acordo Mercosul-União Europeia.Não queremos uma América Latina voltada exclusivamente para o agronegócio e a mineração. Temos total capacidade de sermos também países industrializados, tecnologicamente avançados.

O acordo hoje se encontra paralisado, por conta da desconfiança de países europeus quanto ao cumprimento dos compromissos ambientais assumidos pelo governo brasileiro.

Temos imensas extensões de terras agricultáveis, temos tecnologia, pesquisas agropecuárias avançadas. Nossa produção de alimentos não precisa desmatar a Amazônia para exportar soja ou criar gado. As atividades criminosas dos que destroem o meio ambiente devem ser punidas, e não podem prejudicar toda a economia brasileira.

Temos uma biodiversidade extraordinária, e os nossos biomas haverão de se regenerar após a extinção do atual governo, que estimula o desmatamento e as queimadas, o avanço do garimpo em áreas de proteção ambiental, os ataques aos povos indígenas.

O povo brasileiro não quer que essa destruição continue. Os brasileiros querem a Amazônia viva e de pé. E para isso, é necessário construir alternativas sociais e de desenvolvimento, com ciência, tecnologia e o protagonismo e respeito aos povos que vivem na floresta, seus saberes e sua cultura.

Meus amigos e minhas amigas,

Acreditamos num mundo cada vez mais plural, unido em torno de valores como solidariedade, cooperação, humanismo e justiça social. Acreditamos numa nova governança mundial, começando pela ampliação do Conselho de Segurança da  ONU, e vamos continuar lutando por ela.

Acreditamos que somos capazes de construir no mundo uma economia justa, movida a energia limpa, sem a destruição do meio ambiente e livre da exploração desumana da força de trabalho. 

Acreditamos que outro Brasil é possível, outra Europa é possível e outro mundo é possível – porque, num passado muito recente, fomos capazes de construí-lo.

Podemos ser felizes juntos. E seremos.

Muito obrigado a todos.