quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Cândido ou o Otimismo. Voltaire.

Pangloss dizia vez por outra a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivesse sido expulso de um lindo castelo com uma saraivada de pontapés no traseiro por amor da senhorita Cunegundes, se não tivesse sido perseguido pela Inquisição, se não tivesse percorrido a América a pé, se não tivesse aplicado um belo golpe de espada no barão, se não tivesse perdido todos os carneiros do bom país de Eldorado, não estaria aqui comendo doces de cidra cristalizada e pistaches". - "Concordo plenamente", disse Cândido, "mas devemos cultivar  nosso terreno". (Páginas 94-5).

Cândido ou o Otimismo. Voltaire. Editora Escala. Tradução de Antonio Geraldo da Silva.

Assim termina um dos mais famosos contos de toda a história da literatura. Trata-se de Cândido ou o Otimismo, de Voltaire. Depois de todas as desventuras relatadas no conto, Cândido, Pangloss, Cunegundes, uma velha - filha de papa, Cacambo e Martim, somados a Paquette e o frade Giroflée, vão consultar um dervixe, que foi interrogado por Pangloss, o grande mestre da filosofia: "Mestre, vimos implorar que nos diga por que foi formado um animal tão estranho como o homem". A partir daí se estabelece o seguinte diálogo:

"Com que estás te metendo", disse o dervixe. "Será que é de tua conta"?

"Mas, meu reverendo pai", disse Cândido, "Há tanto mal na terra".

"O que importa", disse o dervixe, "se há mal ou bem? Quando Sua Alteza manda um navio ao Egito, será que importa se os ratos a bordo estão à vontade ou não"?

"O que se deve fazer então"? Perguntou Pangloss.

"Ficar calado", respondeu o dervixe.

"Desejava realmente", disse Pangloss, "vir aqui discorrer um pouco com o senhor sobre os efeitos e as causas, o melhor dos mundos possíveis, as origens do mal, a natureza da alma e a harmonia preestabelecida".

Ao ouvir essas palavras, o dervixe bateu-lhes a porta na cara. (Página 93). 

Depois de todas as desventuras e sem rumo, o Dr. Pangloss, sempre o grande mestre, depois de definir que  o otimismo "é a mania de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal" (Página 56) e de, quando perguntado por Cândido, se mesmo "quando foi enforcado, dissecado, espancado, e obrigado a remar nas galeras, continuou pensando que tudo neste mundo ia o melhor possível"?, ele responde: "Mantenho minha opinião de sempre, pois, afinal sou filósofo. Não convém desdizer-me, uma vez que Leibniz não pode estar errado e uma vez que a harmonia preestabelecida é, por outro lado, a coisa mais bela do mundo, assim como o são a totalidade e a matéria sutil" (Página 89-90).

A solução contra o otimismo ou a ingenuidade parece vir num dos diálogos finais, quando toda a turma já está em Constantinopla, num diálogo com um agricultor. Cândido lhe dirige a palavra. "O senhor deve ter uma vasta e magnífica propriedade".

"Só tenho uns três alqueires", respondeu o turco. Cultivo-os com meus filhos. O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade". Cândido assim reflete sobre estas palavras, com Pangloss e Martim: "Esse bom velho parece-me ter conseguido para ele um destino em muito preferível ao daqueles seis reis com quem tivemos a honra de jantar" [...] "Também sei", disse Cândido "que temos que cultivar nossa terra". "Tem razão" disse Pangloss, "pois, quando o homem foi colocado no jardim do Eden, foi colocado ut operaretur eum, para que o trabalhasse, o que prova que o homem não nasceu para o descanso". "Trabalharemos sem filosofar", disse Martim. "É o único meio de tornar a vida suportável" (Página 94).

Esse é o conto que começa na Vestfália e termina em Constantinopla, relatando as misérias e os sofrimentos humanos, através do grupo de pessoas com quem tem relações ao longo da viagem, que ocupa trinta pequenos capítulos da mais fina ironia. A longa viagem mostra que em todos os lugares, com exceção do Peru, o país do Eldorado, predomina a mesquinharia e a falsidade moral. Ao final todos eles convivem exercitando seus talentos.

Na contracapa do livros lemos o seguinte comentário de apresentação: "Cândido é um conto. Escrito contra seus opositores, Voltaire, com fina ironia, sem deixar de lado o sarcasmo e, com frequência, extremamente mordaz, responde com este conto em que contrapõe ingenuidade e esperteza, desapego e ganância, delicadeza e violência, amor e ódio, simpatia e crueldade e outros paradoxos da existência humana. Inserções de cunho filosófico levam os personagens a buscar causas e efeitos de qualquer coisa, a razão suficiente do que se pensa e se faz, a ética ou a moral do que é feito. O conto em si pode ser visto como um espelho do irreal e, na verdade, reflete a irrealidade ou a farsa de realidade que o mundo da época de Voltaire vivia". Lembrando que Voltaire nasceu em 1694 e morreu em 1778. O conto teve a sua primeira publicação no ano de 1759. Os seus alvos preferenciais são os padres, os jesuítas em especial, os judeus, que lhe tomaram a fortuna, a política e a religião. A Inquisição, as missões jesuíticas e o terremoto de Lisboa (1755) também aparecem no conto.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

DANTE. R.W.B. Lewis. 1265 - 1321.

 Depois de vários livros sobre a realidade brasileira, uma mudança de rumo na leitura. Uma volta a um tema que me é muito grato. O mundo das biografias. O biografado da vez foi Dante Alighieri, da coleção Breves biografias, no livro Dante, autoria de R.W.B. Lewis. O livro é do ano de 2002. Na verdade, trata-se de uma releitura do livro.

Dante. Objetiva. 2002. Tradução. José Roberto O'Shea.


A primeira leitura me remete ao ano de 2007, quando na Universidade Positivo, no curso de Publicidade e Propaganda, em trabalhos de extensão, desenvolvíamos projetos bem ousados. Um desses projetos foi o da leitura e discussão de grandes obras literárias. Coube-me o desafio de trabalhar, nada mais e nada menos, do que uma das maiores obras da Literatura Universal, o poema de Dante A Divina Comédia. Essa ousadia me levou a muitas leituras.

A biografia escrita por R.W.B. Lewis é de agradável leitura e pressupõe um conhecimento básico da obra de Dante, ou então de quem se propõe a lê-la. Ela serve como um guia, proporcionando uma bela contextualização de época e da escrita. Dante nasceu na sua amada cidade de Florença no ano de 1265, vindo a morrer em Ravena, no exílio, em 1321. Toda A Divina Comédia foi escrita no exílio (Verona e Ravena) e sob condenação de pena de morte. Dante foi ativo político em sua cidade e tinha pavor das pessoas indiferentes, das pessoas que se omitiam. Dante viveu em tempos em que não havia estabilidade política.

Creio não errar em afirmar que os três temas mais presentes em A Divina Comédia são o amor, a política e a religião, esta, por óbvio, o tema central. Creio também que todos sabem, que o Grande poema está dividido em três partes: - uma visita ao Inferno, ao Purgatório, onde será guiado por Virgílio (um tributo ao autor da Eneida), e ao Paraíso, onde terá como guia Beatriz, sua paixão desde a infância e representando a sabedoria divina. A obra foi iniciada em 1308-9 e concluída em 1321, tendo demorado, portanto, entre onze e doze anos para a sua conclusão e  tendo-a escrito em condições bem adversas.

A Divina Comédia é uma autobiografia, bem como uma parte da história de Florença. Nos diferentes círculos de suas três partes são encontradas personalidades vivas de Florença e da região e que bem refletem as brigas entre o poder temporal e o poder espiritual, entre os favoráveis ao papa, ao imperador e aos príncipes locais. No Inferno estão os seus inimigos, os que traíram as suas causas e que o condenaram. No Purgatório, estão pessoas com quem ele conviveu, mas que cometeram pequenos deslizes. Já no Paraíso encontraremos os seus amigos, benfeitores e os santos da Igreja. A Divina Comédia é, seguramente, também uma obra de Teologia, sob a inspiração dos princípios de santo Tomás de Aquino. Para quem estiver interessado em um esquema da obra, toda ela preconcebida mentalmente, indico a revista - Entre livros - Entre clássicos, nº 1, da editora Duetto, dedicada a Dante.

Uma revista extraordinária. São 100 páginas bem didaticamente expostas.


Dessa revista, seleciono três versos, representando cada uma das partes. Assim temos "Deixai toda esperança, vós que entrais", para o Inferno, "Puro e pronto para subir às estrelas", para o Purgatório e "O amor que move o sol e as outras estrelas" para o Paraíso. Mas voltamos ao livro/biografia.

Ele está divido em oito capítulos, a saber: 1. Dante, o florentino; 2. Presenças da vizinhança: Tenra idade; 3. Amor, Poesia e Guerra: A década de 1280. IV. A morte de Beatriz e Vida Nova: 1285 - 1295; V. O percurso da Política: 1295 - 1302; VI. O Poeta no exílio: 1302 - 1310 - Iniciada a Comédia... (O Divina foi um acréscimo posterior); VII. No meio do caminho: 1310 - 1319 (Trata-se do primeiro verso - "No meio do caminho em nossa vida eu me encontrei por uma selva escura"); VIII. Ravena: 1318 - 1321 - Terminada a Comédia.

Como podem observar, a vida e a obra do poeta estão entrelaçadas. Deixo ainda os dois parágrafos da orelha do livro, que chamam atenção para esse fato, como também para a sua vida de escritor.: "Somente R.W.B. Lewis, biógrafo de renome e autor do livro The city of Florence, seria capaz de escrever com tanto discernimento sobre Dante Alighieri, o célebre filho de Florença. A obra Dante examina a vida e o complexo desenvolvimento - emocional, artístico e filosófico - do eminente poeta-historiador, desde a perambulação pelas colinas  e esplêndidas igrejas da Toscana, passando pelos dias de jovem recruta engajado na defesa da democracia, pela época em que Dante exerceu liderança cívica, até chegar aos amargos anos em que viveu como exilado de Florença, cidade que, um século mais tarde, tentaria, a todo custo, resgatar para si a imagem do poeta. 

Lewis revela ao leitor o Dante menino, no primeiro encontro com a mítica Beatriz, o poeta lírico, obcecado pelos temas do amor e da morte, o grande mestre da narrativa dramática e da alegoria, bem como a busca monumental do poeta pela Verdade final, na Divina Comédia. Nessa obra-prima da autodescoberta e da redenção é que Lewis localiza a autobiografia de Dante - e a soma das turbulentas paixões e epifanias do poeta".

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Crítica à razão dualista. O ornitorrinco. Francisco de Oliveira.

O curso  "Educação, Sociedade e Sindicalismo", promovido pelo coletivo de formação da APP-Independente em parceria com o Nesef da UFPR, me levou a um novo ciclo de leituras da realidade brasileira, motivado por uma provocação feita pelo professor Gaudêncio Frigotto, na fala de abertura. O livro da vez, que foi explicitamente citado pelo professor Frigotto, foi Crítica à razão dualista - O ornitorrinco, do saudoso e notável professor Francisco de Oliveira. Os anteriores foram: Economia Política Brasileira, de Guido Mantega, Colapso do Populismo no Brasil, de Octavio Ianni, A Ideologia da Segurança Nacional, de Joseph Comblin e Educação como Prática da Liberdade, de Paulo Freire.

Os provocativos ensaios de Francisco de Oliveira sobre a realidade brasileira.

O livro é formado por ensaios, escritos em duas diferentes etapas. O primeiro foi escrito em 1972 e O Ornitorrinco, em julho de 2003. Em O Ornitorrinco, o professor examina a realidade social e econômica brasileira, trinta anos após os primeiros escritos, que abordam o mesmo tema. O ensaio é bastante complexo para leigos em assuntos de economia, mas de forma alguma é incompreensível. O professor Francisco de Oliveira faz uma crítica às teorias das interpretações tradicionais da economia política brasileira no ensaio de 1972. Ele explica a origem dos textos: "Esse ensaio foi escrito como uma tentativa de resposta às indagações de caráter interdisciplinar que se formulam no Cebrap acerca do processo de expansão socioeconômica do capitalismo no Brasil...". Apresento os títulos dos capítulos:

I. Uma breve colocação do problema; II. O desenvolvimento capitalista pós-anos 1930 e o processo de acumulação; III. Um intermezzo para a reflexão política: revolução burguesa e acumulação industrial no Brasil; IV. A aceleração do Plano de metas: as pré-condições da crise de 1964; V. A expansão pós-1964: nova revolução econômica burguesa ou progressão das contradições?; VI. Concentração da renda e realização da acumulação: as perspectivas críticas. O ensaio é acompanhado de tabelas ilustrativas, contendo os dados da acumulação.

Numa pequena síntese poderíamos dizer que Francisco de Oliveira apresenta as transformações da economia brasileira, ocorridas a partir de 1930, com as transformações promovidas pela passagem de uma economia agrária e exportadora para uma economia industrial e urbana. Todas essas transformações ocorreram sob o princípio da acumulação, sem os benefícios que essas transformações causaram nos países que por primeiro promoveram seus processos de industrialização. Mantém diálogos com os economistas ligados à CEPAL e ao partidão, criticando a visão darwinista dos comunistas, da evolução por etapas, no aguardo dos benefícios que necessariamente a industrialização traria.

A retomada do ensaio em 2003 revê esse processo de acumulação em sua continuidade para nos trazer a esdrúxula figura do ornitorrinco, como metáfora da deformação de nossa realidade socio-econômica. O ornitorrinco é um animal de rara e indefinida feição. O professor recorre à Grande Enciclopédia Larousse para defini-lo: "Mamífero monotremo, da subclasse dos prototérios, adaptado à vida aquática. Alcança 40 cm de comprimento, tem bico córneo, semelhante ao bico de pato, pés espalmados e rabo chato. É ovíparo. Ocorre na Austrália e na Tasmânia...O ornitorrinco vive em lagos e rios, na margem dos quais escava tocas que se abrem dentro d'água. Os filhotes alimentam-se lambendo o leite que escorre nos pelos peitorais da mãe, pois esta não apresenta mamas.  O macho tem um esporão venenoso nas patas posteriores. Este animal conserva certas características reptilianas, principalmente uma homeotermia imperfeita".

As anomalias da sociedade brasileira na figura do ornitorrinco.

Que comparação! É a visão de um país e de uma sociedade que se industrializou e se urbanizou, mas não se desenvolveu, sob a égide da "modernização conservadora", tão cara aos sociólogos dos Estados Unidos. Como chegamos a toda essa deformação? Os dois ensaios, escritos num hiato de tempo de trinta anos nos remetem às causas. Elites submissas ao capital internacional, golpes contra a democracia permanentemente pairando no ar, interpretações errôneas da realidade, sindicalismo frágil e o espírito do capital, especialmente do capital financeiro indomável são apontadas como as causas dessa anomalia da figura social e econômica do ornitorrinco.

Na página 132, já em O Ornitorrinco encontramos a descrição do ornitorrinco brasileiro. Dou uma pequena amostra: "Como é o ornitorrinco? Altamente urbanizado, pouca força de trabalho e população no campo, dunque nenhum resíduo pré-capitalista; ao contrário, um forte agrobusiness. Um setor industrial da Segunda Revolução Industrial completo, avançado, tatibate, pela Terceira Revolução, a molecular-digital ou informática. Uma estrutura de serviços muito diversificada numa ponta, quando ligada  aos estratos de altas rendas, a rigor, mais ostensivamente perdulários que sofisticados; noutra, extremamente primitiva, ligada exatamente ao consumo dos estratos pobres". E por aí vai...para terminar de uma forma bastante desesperançosa, ao constatar que estamos presos nas teias da financeirização da economia em que estão enredados os dois grandes partidos brasileiros. O PT, como administrador dos fundos de pensão e o PSDB, como administrador dos grandes bancos. Que futuro teremos?

Na mesma página 132 temos uma nota que considero profundamente ilustrativa. Fala sobre FHC.: "Deste ponto de vista, o livro de FHC, Empresário Industrial e desenvolvimento econômico (DIFEL), reconhecia que a burguesia industrial nacional preferia a aliança com o capital internacional. Trata-se talvez do que de melhor o ex-sociólogo, hoje ex-presidente e eterno candidato ao Planalto, produziu academicamente. Roberto Schwartz (que prefacia o livro) sustenta a tese de que, na Presidência, Cardoso implementou exatamente suas conclusões deste livro; já que a burguesia nacional havia renunciado a um projeto nacional, ele enveredou decididamente para integrar o país na globalização".

Que Deus tenha piedade desse país, dessa nação! Francisco de Oliveira foi um dos fundadores do PT, partido com o qual se frustrou enormemente, filiando-se ao PSOL. Em 2019, quando a figura do ornitorrinco se deformava ainda mais em sua configuração, o bravo pensador da economia, da sociedade e da realidade brasileira faleceu, aos 85 anos de idade.

Na contracapa do livro lemos o escrito de Roberto Schwartz: "Escritos com trinta anos de intervalo, Crítica à razão dualista (1972) e O Ornitorrinco (2003) representam, respectivamente, momentos de intervenção e de construção sardônica. Num a inteligência procura clarificar os termos da luta contra o subdesenvolvimento; no outro, ela reconhece o monstrengo social em que, até segunda ordem, nos transformamos".



sábado, 14 de novembro de 2020

"Roda Viva". João Santana. Consultor político. 26.10.2020.

Há muitos anos acompanho o programa da TV Cultura, emissora ligada ao governo do Estado de São Paulo, que tem o belo título de "Roda Viva", sugerindo exatamente uma roda viva de debates. Os temas geralmente acompanham o essencial da vida, da política e da cultura brasileira. Inclusive comprei muitas edições, nos tempos em que eram editadas em vídeos, para levar esses debates para a sala de aula. Os vídeos, por sinal, eram bem caros e por isso mesmo pouco acessíveis. Hoje, por serem postados publicamente, já utilizei algum programa neste blog, quando eu considerava o tema por mais relevante. 

"Roda Viva". TV Cultura. 26.10.2020. Com João Santana.

Por considerar o programa do dia 26.10.2020 nesta condição de alta relevância para compreender a realidade brasileira é que publico hoje esta entrevista com o consultor político João Santana. João Santana veio na condição de ainda estar sofrendo punição judicial, por envolvimento em caixa 2. Após a sua prisão em 2016, um ano após, ele fez delação premiada, experiência que ele considerou como uma descida ao inferno. João Santana foi ao programa ainda usando tornozeleira eletrônica e com restrições à sua liberdade. Foi um ato extremamente corajoso. Ele se expôs, ele se revelou.

Quanto ao programa, ele precisa ser visto e analisado na íntegra. Por ele, você conhecerá, com certeza, duas realidades brasileiras bem marcadas: a realidade do caixa dois na política e na economia brasileira e o comportamento da grande mídia brasileira. O próprio João Santana considerou o ambiente hostil, dizendo-se cercado por "leoas e tigres". Os entrevistadores mostraram-se totalmente comprometidos com o mundo liberal e francamente hostis às posições de esquerda. O entrevistado foi constantemente interrompido em suas respostas, especialmente, quando estas não eram consideradas de seu agrado. Chegou a ser ostensivamente chamado de mentiroso. Como um ser altamente inteligente, contornou todas as questões, inclusive de forma bem elegante. O programa também ajuda a compreender melhor o ser humano, inserido em seu ambiente cultural.

Lava-Jato, delação premiada, caixa dois, Sérgio Moro, Lula, Dilma, Bolsonaro, eleições de 2018, perspectivas eleitorais para 2022, perspectivas de sua própria vida foram os temas mais debatidos. Tudo visto sob o ponto de vista da comunicação.  Por considerá-lo um programa imperdível para se compreender melhor o Brasil é que abri mais um espaço onde ele possa ser encontrado. Segue o link do programa. Roda Viva com o consultor político João Santana, levado ao ar no dia 26.10.2020.

 https://www.youtube.com/watch?v=u0VrGoVhyM4

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A essência da concepção de educação de Paulo Freire. Educação como prática da Liberdade.

No ano de 1968 eu me formava em filosofia na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição, da cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul. No ano anterior eu já tinha tomado a decisão de sair do seminário, interrompendo um sonho plantado em mim, ainda na mais tenra infância, de ser padre. Saí de lá com uma consciência absolutamente ingênua. Em 1969 chegava ao Paraná e fui ser professor da rede pública do Estado, na cidade  de Umuarama, onde comecei a atividade que me tornou um educador.

Ainda hoje eu continuo no trabalho de formar em mim esse educador. Esse educador, que reconhece seus limites e parte para a busca de complementar a sua finitude, de complementar os seus limites. Leituras, práticas docentes e lutas por dignidade profissional me forjaram como educador. Creio que evoluí, num trânsito que percorreu os caminhos da consciência ingênua para atingir o estado de uma consciência crítica, uma consciência de classe. Creio que hoje consigo responder às principais questões que são postas para um educador consciente de seu trabalho e missão.

Concepção e método de uma Educação como prática da liberdade.


Nesse trânsito sofri muitas influências. Não tenho dúvidas que o que mais pautou a minha vida me veio dos anos de seminário. Uma formação cristã, onde fui abandonando o padroeiro dos padres seculares, o padre São João Maria Vianney, o inspirador do fundador da Opus Dei, para adotar o cristianismo de  Cristo, que me foi repassado por João XXIII, assimilando os magníficos ensinamentos do Concílio Vaticano II e a doutrina social cristã sob a inspiração do grande papa Paulo VI. Entre os teóricos que orientaram a minha práxis, hoje vou me ater apenas a um: Paulo Freire e fazer referência ao seu primeiro grande livro, Educação como prática da liberdade.

Na última atividade que exerci como professor, na qualidade de professor de filosofia e de teoria política da Universidade Positivo, usei um texto desse livro, à exaustão. Trata-se de introdução ao primeiro capítulo do livro, A sociedade brasileira em transição. Considero esse texto o mais belo texto da filosofia brasileira e nele estão apontados os fundamentos ontológicos do ser humano. Tenho o texto no blog e o deixo aqui registrado. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/07/a-sociedade-brasileira-em-transicao.html

Hoje quero tomar mais algumas páginas desse livro para registrar aquilo que considero o essencial da fundamentação teórico prática da concepção de educação de Paulo Freire. Essa concepção eu a retiro do capítulo IV, Educação e conscientização. É uma concepção de educação fundamentada na realidade brasileira, que no dizer do educador, estava em trânsito de uma sociedade fechada para uma sociedade aberta. Esta sociedade, pelo golpe de 1964, foi novamente transformada numa sociedade intransitiva, com todos os seus malefícios. Mas vamos à riqueza do texto.

"Mas como realizar esta educação? Como proporcionar ao homem meios de superar suas atitudes, mágicas ou ingênuas, diante de sua realidade? Como ajudá-lo a criar, se analfabeto, sua montagem de sinais gráficos? Como ajudá-lo a inserir-se? A resposta nos parecia estar:

a)num método ativo, dialogal, crítico e criticizador; b) na modificação do conteúdo programático da educação; c) no uso de técnicas como o da Redução e Codificação.

Somente um método ativo, dialogal, participante, poderia fazê-lo. E que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade (Jaspers). Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. Só aí há comunicação.

'O diálogo é portanto, o indispensável caminho', diz Jaspers, 'não somente nas questões vitais para nossa ordenação política, mas em todos os sentidos do nosso ser. Somente pela virtude da crença, contudo, tem o diálogo estímulo e significação: pela crença no homem e nas suas possibilidades, pela crença de que somente chego a ser eu mesmo quando os demais também cheguem a ser eles mesmos.

Era o diálogo que opúnhamos ao antidiálogo, tão entranhado em nossa formação histórico-cultural, tão presente e ao mesmo tempo tão antagônico ao clima de transição.

O antidiálogo  que implica numa relação vertical de A sobre B, é o oposto a tudo isso. É desamoroso. É acrítico e não gera criticidade, exatamente porque desamoroso. Não é humildade. É desesperançoso. Arrogante. Auto-suficiente. No antidiálogo quebra-se aquela relação de 'simpatia' entre seus polos, que caracteriza o diálogo. Por tudo isso, o antidiálogo não comunica. Faz comunicados.

Precisávamos de uma Pedagogia da Comunicação, com que vencêssemos o desamor acrítico do antidiálogo.  Há mais. Quem dialoga, dialoga com alguém sobre alguma coisa. Esta alguma coisa deveria ser o novo conteúdo  programático da educação que defendíamos.

E pareceu-nos que a primeira dimensão deste novo conteúdo com que ajudaríamos o analfabeto, antes mesmo de iniciar sua alfabetização, na superação de sua compreensão mágica como ingênua e no desenvolvimento da crescentemente crítica, seria o conceito antropológico de cultura. A distinção entre os dois mundos: o da natureza e o da cultura. O papel ativo do homem em sua e com sua realidade. O sentido de mediação que tem a natureza para as relações e comunicação dos homens. A cultura como o acrescentamento que o homem faz ao mundo que não fez.  A cultura como o resultado de seu trabalho. Do seu esforço criador e recriador. O sentido transcendental de suas relações. A dimensão humanista da cultura. A cultura como aquisição sistemática da experiência humana. Como uma incorporação, por isso crítica e criadora, e não como uma justaposição de informes ou prescrições 'doadas'. A democratização da cultura -  dimensão da democratização fundamental. O aprendizado da escrita e da leitura como uma chave com que o analfabeto iniciaria a sua introdução no mundo da comunicação escrita. O seu papel de sujeito e não de mero e permanente objeto.

 A partir daí, o analfabeto começaria a operação de mudança de suas atitudes anteriores. Descobrir-se-ia, criticamente, como fazedor desse mundo da cultura. Descobriria que tanto ele, como o letrado, tem um ímpeto de criação e recriação. Descobriria que tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do povo, como cultura também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor, de um grande místico, ou de um pensador. Que cultura é a poesia dos poetas letrados de seu país, como também a poesia de seu cancioneiro popular. Que cultura é toda criação humana.

Para a introdução do conceito de cultura, ao mesmo tempo gnosiológica e antropológica, elaboramos, após a 'redução' deste conceito a traços fundamentais, dez situações existenciais 'codificadas', capazes de desafiar os grupos e levá-los pela sua 'descodificação' a estas compreensões. Francisco Brennand, uma das maiores expressões da pintura atual brasileira, pintou estas situações, proporcionando assim uma perfeita integração entre educação e arte.

A primeira situação inaugura as curiosidades do alfabetizando que, na expressão de autor e amigo do autor, 'destemporalizado' inicia sua integração no tempo.  É impressionante vermos como se travam os debates e com que curiosidade os analfabetos vão respondendo às questões contidas na representação da situação. Cada  representação da situação apresenta um número determinado de elementos a serem descodificados pelos grupos de alfabetizandos, com o auxílio do coordenador de debates.

E, na medida em que se intensifica o diálogo em torno das situações codificadas - com 'n' elementos -  e os participantes respondem diferentemente a eles, que os desafiam, e que  compõem a informação total da situação, se instala um 'circuito' de todos os participantes, que será tão mais dinâmica quanto a informação corresponda à realidade existencial dos grupos.

Muitos deles, durante os debates das situações de onde retiram o conceito antropológico de cultura, afirmam felizes e autoconfiantes, que não se lhes está mostrando 'nada de novo, e sim refrescando a memória'. 'Faço sapatos', disse outro, 'e descubro que tenho o mesmo valor do doutor que faz livros'.

'Amanhã', disse certa vez um gari da Prefeitura de Brasília, ao discutir o conceito de cultura, 'vou entrar no meu trabalho de cabeça para cima'. É que descobrira o valor de sua pessoa. Afirmava-se. 'Sei agora  que sou culto', afirmou enfaticamente, um idoso camponês. E ao se lhe perguntar por que se sabia, agora, culto, respondeu com a mesma ênfase: 'porque trabalho e trabalhando transformo o mundo'.

Reconhecidos, logo na primeira situação, os dois mundos - o da natureza e o da cultura e o papel do homem nesses dois mundos - vão se sucedendo outras situações, em que ora se fixam, ora se ampliam as áreas de compreensão do domínio cultural.

A conclusão dos debates gira em torno da dimensão da cultura como aquisição da experiência humana. E que esta aquisição, numa cultura letrada, já não se faz via oral apenas, como nas iletradas, a que falta a sinalização gráfica. Daí, passa-se ao debate da democratização da cultura, com que se abrem as perspectivas para o início da alfabetização". Paulo Freire. Educação como prática da liberdade. Páginas 115 -118, da 20ª edição da Paz e Terra, 2000.

Como Paulo Freire fala em cultura, deixo ainda uma definição da mesma, dada por Freud. Diz ele, o seguinte: "Como se sabe, a cultura humana - me refiro a tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos; e eu me recuso a separar cultura [Kultur} e civilização [Zivilization] - mostra dois lados ao observador. Ela abrange, por uma lado, todo o saber e toda a capacidade adquiridos pelo homem com o fim de dominar as forças da natureza e obter seus bens para a satisfação das necessidades humanas e, por outro, todas as instituições necessárias para regular as relações dos homens entre si e, em especial, a divisão dos bens acessíveis". FREUD. Siegmund O mal-estar na cultura. Porto Alegre. L&PM Pocket. 2010. Páginas 23-4.


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Educação como Prática da Liberdade. Paulo Freire.

Continuando o meu ciclo de leituras de realidade brasileira, motivado pela realização do curso "Educação, sociedade e sindicalismo", promovido pelo coletivo de formação da APP-Independente e pelo NESEF, da UFPR, o livro da vez foi o de Paulo Freire, Educação como prática da liberdade. Trata-se, obviamente, de uma releitura. Devo ter entrado em contato com esse livro ao final da década de 1970 ou início dos anos 1980. O livro foi escrito no Chile ao longo do ano de 1965 e teve a sua primeira publicação em 1967. Nele Paulo Freire contextualiza o seu método ou a sua concepção de educação. Também por óbvio, esse seu método está inserido na realidade, a realidade brasileira. Por isso a escolha.

O primeiro grande livro do Patrono da Educação Brasileira.

O livro é uma decorrência do seu trabalho de doutorado feito na cidade de Recife, na hoje Universidade Federal de Pernambuco, que tinha por tema a educação e a atualidade brasileira. Esse tema, somado com as suas primeiras experiências no campo da alfabetização constituem a essência do livro. No meu modesto entendimento, esta é a mais importante obra do mestre, junto com a Pedagogia do oprimido. A edição que tenho em mãos é a 24ª, da Paz e Terra, do ano 2000. A edição anterior foi simplesmente consumida pelo tempo e pelo uso.

Antes de entrar na resenha propriamente dita, tenho duas recomendações de leitura a fazer: a primeira é a do livro mais autobiográfico do autor Cartas a Cristina - Reflexões sobre minha vida e minha práxis. O livro é uma resposta à sua sobrinha, que queria saber sobre a vida, sobre a formação e o pensamento do tio. A segunda é uma bela biografia sua, em edição recente, de 2019. É de autoria de Sérgio Haddad e tem por título: O Educador - Um perfil de Paulo Freire. Uma publicação da Todavia. Deixo o link das resenhas: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/04/cartas-cristina-reflexoes-sobre-minha.html?m=1 e http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/03/o-educador-um-perfil-de-paulo-freire.html

O livro em questão, Educação como Prática da Liberdade tem quatro capítulos, uma apresentação de Francisco Weffort, com o título de educação e política, o belo poema de Thiago de Mello sobre o método de alfabetização Canção para os fonemas da alegria e um apêndice final, com ilustrações das primeiras experiências relativas aos trabalhos de alfabetização. 

Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. A sociedade brasileira em transição. 2. Sociedade fechada e inexperiência democrática. 3. Educação Versus massificação. 4. Educação e Conscientização. Os dois últimos capítulos são o cerne do livro, sem reduzir a importância dos dois primeiros, que são belíssimos. Eles fundamentam ontologicamente o ser humano e descrevem a realidade brasileira, em que estes seres estão inseridos. Considero o primeiro desses capítulos como o mais belo texto da filosofia brasileira. Usei-o à exaustão no tempo em que ainda estava na ativa, em sala de aula. Tenho até uma transcrição: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/07/a-sociedade-brasileira-em-transicao.html

O primeiro capítulo me fez lembrar uma fala do mestre, na cidade de Umuarama, em 1992, quando ele afirmava que a elite brasileira é, de longe, a elite mais perversa do mundo. Nesse capítulo ele fala dessa elite, da sua formação e da realidade em que está inserida. Mas essa sociedade estava em transição, como se afirma no título do capítulo A sociedade brasileira em transição. Que trânsito era esse? Era o da saída de uma sociedade fechada, latifundiária, escravocrata, patriarcal e extremamente violenta. Era uma sociedade que condenava os "outros" ao mutismo, onde a "fala do púlpito" era a única voz tolerada, mesmo assim, quando não contrariava os interesses do latifúndio agro exportador. Nesse trânsito já se vislumbrava uma sociedade aberta, abertura causada pelas transformações decorrentes da industrialização e da urbanização. Para os desvalidos desse sistema é que ele destinou todos os esforços de sua práxis.

O segundo capítulo é uma continuação dessa fundamentação ontológica do ser humano para, depois adentrar na caracterização da realidade brasileira, realidade essa, que impedia a concretização do humano: Sociedade Fechada e Inexperiência Democrática é o título. Era essa sociedade fechada que impedia o trânsito para a sociedade aberta para a democracia e para a participação. Os instrumentos de dominação dessa elite são bem conhecidos. Foram elas que provocaram o golpe de 1964, com a finalidade de manter a intransitividade dessa mesma sociedade em função da manutenção de privilégios. Essa foi também a razão pela qual Paulo foi perseguido, preso e expulso de seu país. O trânsito da sociedade brasileira, de uma  oligarquia latifundiária e exportadora para uma sociedade urbana e industrial teria que obedecer aos ditames daquilo que a sociologia dos Estados Unidos chama de "modernização conservadora". É a velha acusação de subversão pondo o tacão e o coturno sobre a  nascente democracia brasileira.

O terceiro capítulo Educação Versus Massificação é o cerne do livro. É a apresentação do método ou dos princípios daquilo que Paulo Freire entende por educação. É ouvindo, perguntando e inventando que se fará a nova educação popular, que será ativa e participativa. Por essa concepção ninguém dará aulas sobre democracia. - Ela simplesmente será praticada. Não serão ditas ideias. - Ideias simplesmente serão trocadas. Por ela se desenvolverá o gosto por achados, por descobertas. Por ela se desenvolverá a consciência em expansão, até se tornar crítica fato que necessariamente levará à participação e à democracia. Será, antecipando conceitos da Pedagogia do oprimido, um grande não à pedagogia bancária e um grande sim à pedagogia problematizadora. O livro também expressa uma admiração profunda pelo ISEB e aos seus idealizadores que tanto o inspiraram e influenciaram.

Esse terceiro capítulo se complementará com o quarto Educação e conscientização. Nele se explicitará a sua concepção de educação, que não nasceu de abstrações - mas das experiências desenvolvidas junto ao povo e, obviamente, por concepções teóricas que remetem aos princípios ontológicos da concepção do humano, da liberdade, da igualdade e da democracia. Por ela, ele será sempre um sujeito ativo, a construir sua cultura e ao seu fazer história. Por esse conceito, o ser descobre o humano dentro si e essa descoberta romperá com o mutismo que lhe era imposto por uma sociedade autoritária e imobilizadora. Essa concepção jamais o moverá para a domesticação. " Eu já estou espantado comigo mesmo", disse um dos participantes de uma das experiências, após descobrir-se gente.  (Escrevo esse post, no momento em que mais de cem escolas no Paraná, sob o governo de Rato Junior, serão transformadas em escolas "cívico militares".  Serão escolas, como afirmei outro dia, em que o coturno pisará na poesia. Desculpem o momento de indignação). Eu retomarei esse tema num post específico.

O livro termina com um apêndice onde são relatadas 10 experiências pioneiras desenvolvidas ainda no Brasil, acompanhadas de alguns relatos sobre a escolha e das características das palavras geradoras. Estas passam por questões da comunicação e da linguagem, fundadas no diálogo No livro de Sérgio Haddad O Educador - Um perfil de Paulo Freire, existe um depoimento do general Castelo Branco, por ocasião da solenidade promovida em Angicos, com a presença do Presidente da República, João Goulart. Castelo Branco era na época o comandante da 4ª Região Militar, com sede em Recife. A sua frase contém a ideia de que esse método só serve para "engordar cascavéis no sertão. Uma compreensão perfeita de Paulo Freire pelo lado das elites, que, ainda hoje, lhe devotam tanto ódio.

Deixo ainda três recomendações de leitura para o decorrer do ano do centenário de nascimento do "Patrono da Educação Brasileira". Os seus dois livros iniciais - Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido. E ainda, a sistematização de tudo o que ele julga ser necessário para o conhecimento e a prática do educador, uma espécie de "catecismo" pedagógico seu, no bom sentido da palavra,  Pedagogia da autonomia - Saberes necessários à prática educativa. 



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A Ideologia da Segurança Nacional. Padre Joseph Comblin.

Na minha retomada de leituras sobre a realidade brasileira, instigado pelo trabalho do coletivo de  formação da APP-Independente e pela palestra de abertura feita pelo professor Gaudêncio Frigotto, terminei o terceiro livro da série. O livro da vez foi o do padre Joseph Comblin, A Ideologia da Segurança Nacional - O Poder Militar na América Latina. Os anteriores foram: A Economia Política Brasileira, de Guido Mantega e O Colapso do Populismo no Brasil, do professor Octávio Ianni. Seguem os links das resenhas: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-economia-politica-brasileira-guido.html e http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/o-colapso-do-populismo-no-brasil.html

A Ideologia da Segurança Nacional. Civilização Brasileira. 1978. Tradução de A. Veiga Fialho.


Adquiri esse livro, possivelmente no ano de 1988, quando fiz um curso de formação de quadros do Partido dos Trabalhadores no Instituto Cajamar. O utilizei bastante, especialmente naquilo que ele traz sobre o Brasil. Reconheço hoje, que muito do que penso sobre a realidade brasileira, me veio por meio desse livro. O autor, o padre Comblin, foi professor nas Universidades de Harvard (USA) e de Louvain (Bélgica). Lembro da enorme satisfação que me dava ao ir à Livraria da Brasiliense, na Rua Barão de Itapetininga, na cidade de São Paulo.

Do que trata o livro? Tanto o título, quanto o subtítulo explicitam bem o tema. A ideologia da Segurança Nacional - O poder militar na América Latina. A edição do livro data do ano de 1977 e, já no ano seguinte, foi lançado no Brasil pela Civilização Brasileira. O livro é uma exaustiva pesquisa sobre o tema. Enquanto estava tentando definir os conceitos básicos do livro, buscando nele citações, optei pelas que estão na contracapa do livro. A Doutrina da Segurança Nacional "é a base em que se apoiam e a força de que se alimentam os regimes militares que, em vários países, se atribuíram, sem consulta à opinião pública, a tarefa de salvá-los do 'comunismo internacional'". A explicação continua, afirmando que ela "não é bastante clara, mas que gera angustiante insegurança individual em nome de algo indefinido e subjetivo", para terminar afirmando que "é, na verdade, uma arma da Guerra Fria anticomunista, antiintelectual, antisindical, anti qualquer pessoa, movimento ou coisa que provoque receio àqueles que a utilizam". O último parágrafo da contracapa fala dos objetivos do livro:

"Este livro do Padre Comlin, professor de teologia das Universidades de Harvard e Louvain, fruto de minuciosa pesquisa e escrito em linguagem elevada, desmistifica tais pressupostos e demonstra que somente se alcança a verdadeira segurança de uma nação quando povo e governo, por ele escolhido, marcham democraticamente unidos em busca da paz e justiça social".

É uma doutrina criada pelos Estados Unidos, difundida em suas escolas militares para os militares latino americanos, doutrinados assim,, para serem os esteios da democracia, sempre ameaçada pelo "comunismo internacional". Na conclusão do livro lemos algo muito esclarecedor sobre as origens da doutrina, onde estão localizadas as fontes da doutrina: "O que aconteceu na ilha de Cuba envolveu diretamente todas as nações latino-americanas. A história de cada uma delas ficou marcada de modo decisivo. A Revolução cubana pode ser considerada como o equivalente da Revolução Russa para a América Latina: O que essa revolução significou para a Europa, o fidelismo significou para a América Latina". A Revolução cubana não poderia se repetir, custasse o que custasse, ou seja, a guerra deveria ser uma guerra total e permanente. Para deixar bem claro, a Ideologia da Segurança Nacional é uma reação ao comunismo internacional, que permanentemente ameaça o ocidente democrático e cristão e os seus valores.

O livro contém uma introdução, uma cronologia dos Regimes de Segurança Nacional na América Latina, cinco capítulos, conclusão e bibliografia. Dou os títulos e subtítulos dos capítulos:

Capítulo 1. A Doutrina. I. Os conceitos básicos - A) A geopolítica e a bipolaridade: 1) A geopolítica vista pela doutrina; 2) A geopolítica na América Latina; 3) O conceito geopolítico de Nação: 4) Bipolaridade. B) A guerra Total. 1) O conceito de guerra generalizada; 2) A Guerra Fria; 3) A guerra revolucionária. II. Os elementos da Doutrina: A) os objetivos nacionais: 1)Definição dos objetivos nacionais; 2) Unidade dos objetivos nacionais. B) A segurança nacional; 1) Definição da Segurança nacional; 2) Novidade do conceito de Segurança nacional; 3) Extensão da Segurança. C) O Poder nacional: 1) O sentido do poder; 2. As divisões do poder nacional: D) A Estratégia Nacional e E) Segurança e Desenvolvimento. 

Capítulo 2. O Sistema. I. O Sistema político: A) O transitório e o definitivo; B) O Estado; C) O Estado militar; D) As Instituições; E) O Exército do Poder e F) interpretações. II. O Sistema Social visto através do exemplo brasileiro: A) Dados materiais e B) Interpretação do Sistema Social.

Capítulo 3. A Segurança Nacional nos Estados Unidos: I. A Doutrina: A) A doutrina da Segurança Nacional: 1) A Segurança Nacional como linguagem; 2) As origens do conceito; 3) Evolução do conceito; 4. Extensão da Segurança; B) O Mundo da Segurança Nacional: 1) A preparação; 2) Os homens da Segurança Nacional;  3. "Os homens do presidente". C) O Estado de Segurança Nacional: 1) A presidência imperial; 2. As instituições da Segurança Nacional e 3) O Pentágono. II. A Influência da Doutrina Americana nos Estados Dependentes.  A) O Sistema Militar Interamericano: 1. A integração das forças armadas do continente americano; 2. Da ajuda militar à venda de armamentos e 3) Os programas de formação militar. B) A Missão dos Militares no Sistema Interamericano: 1) Primeira fase: 1961- 1968 e segunda fase: 1969- 1977.

Capítulo 4. A Segurança Nacional na América Latina. I. O Brasil. A) A fase de preparação: 1) Preparação remota e 2) A Escola Superior de Guerra. B) A Segurança Nacional no Poder: II. O Peru. A) A Revolução Peruana; B) A preparação; C) Modificações na Doutrina da Segurança Nacional e D) As armadilhas da Segurança Nacional. III. O Chile. A) Formação e B) Posições. IV. A Argentina. A) O contexto ideológico; B) A variante argentina da Segurança Nacional. V. O Uruguai. VI. O Equador. VII. A Bolívia.

Capítulo V. A Paz e a Política. I.  O mito americano da guerra; A) Estratégia e Política; B) O mito da guerra generalizada e absoluta; C) O mito da Guerra Fria; D) O mito da Guerra Revolucionária; E) A mistificação da Inteligência. II. Reconstruir a Política. A) Política e Paz; B) Política, Estado/Nação; C) Política e Moral; D) A formação da Nação no Terceiro Mundo. III. As ciladas da Segurança Nacional. A) O perigoso fascínio do Absoluto; B) Segurança e violência; C) Insegurança e Desenvolvimento. IV. A Utopia dos objetivos nacionais: A) Os avatares do interesse nacional; B) Utopia e razão; C) Objetivos e valores espirituais; D) Objetivos nacionais e desenvolvimento. V. A Alienação do Poder Nacional. A)  O círculo do Poder; B) O homem e o poder; C) A cultura e o poder; D) Poder e subdesenvolvimento.

É uma leitura altamente recomendável e esclarecedora. Eu tive mais gosto pelos capítulos I, III e IV. São os mais históricos, sendo que o de número 1, que também é teórico, assim como o II e V. O V é muito atual, especialmente após o golpe de 2016. Basta substituir o termo "marxismo universal" por "marxismo cultural". Assim a guerra total já pode recomeçar. O inimigo já está identificado e os militares, por enquanto se infiltrando nas instituições e na vigilância.




 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Colapso do Populismo no Brasil. Octávio Ianni.

 Em decorrência do curso promovido pelo coletivo de formação da APP-Independente e do NESEF, da UFPR, de formação de lideranças sindicais - "Educação, sociedade e sindicalismo" e da palestra de abertura, dada pelo professor Gaudêncio Frigotto, passei por um novo ciclo de leituras de interpretação da realidade brasileira. O primeiro livro da lista foi o extraordinário livro de Guido Mantega A Economia Política Brasileira, uma bela busca das raízes das tomadas de decisão, ao longo da política brasileira e que inspiraram os diferentes modelos econômicos aqui adotados. Um livro que super recomendo. Entrei em contato com esse livro ao final dos anos 1980 ao participar do curso de formação de quadros, no Instituto Cajamar, curso promovido pelo Partido dos Trabalhadores. Deixo o link da resenha: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-economia-politica-brasileira-guido.html

5ª edição de O Colapso do Populismo no Brasil. Civilização brasileira .1995.


O segundo livro dessa série é o de Octávio Ianni O Colapso do Populismo no Brasil. Com esse livro entrei em contato no ano de 1997, no estudo das disciplinas que faziam parte do mestrado em História e Filosofia da Educação na PUC de São Paulo. O livro, extremamente didático, é uma série de aulas sobre a "crise brasileira", ministradas professor - na Columbia University, de Nova York, entre os meses de fevereiro e maio de 1967, bem no olho do furacão - entre o golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968. Esse livro eu comprei na Livraria da Editora Cortez, nas imediações da PUC., onde eu era freguês com direito a descontos.

Creio que o primeiro termo desse livro a ser esclarecido é o termo do título - populismo. Geralmente ele é acompanhado de uma conotação negativa que lhe é atribuído pelo senso comum. Obviamente, uma conotação eivada de ideologia. Ianni caracteriza bem o termo, nas reflexões que faz ao longo e na conclusão de seu livro: Selecionei dois parágrafos da conclusão: "...Em consequência, o exame dos acontecimentos colocou-nos diante do problema do imperialismo, tanto quanto diante dos papeis da burguesia nacional. As relações de classes surgiram em suas manifestações concretas; obscuras ou claras, de antagonismo ou acomodação. E o populismo, em suas diferentes modalidades (getulismo, trabalhismo, populismo de esquerda, etc.) foi caracterizado e interpretado, no contexto social e econômico em que realmente surgiu. Vejamos, pois, uma síntese desse quadro [...].

"O populismo brasileiro surge sob o comando de Vargas e os políticos a ele associados. Desde 1930, pouco a pouco, vai se estruturando esse novo modelo político. Ao lado das medidas concretas, desenvolveu-se a ideologia e a linguagem do populismo. Ao mesmo tempo que os governantes atendem a uma parte das reivindicações do proletariado urbano, vão se elaborando as instituições e os símbolos populistas. Pouco a pouco, formaliza-se o mercado de força de trabalho, no mundo urbano-industrial em expansão. As massas passam a desempenhar papeis políticos reais, ainda que secundários. Assim, pode-se afirmar que a entrada das massas no quadro das estruturas de poder é legitimado por intermédio de movimentos populistas (Página 176 da 5ª edição. O itálico é  do original).

E o que seria então o fim desse populismo? Em primeiro lugar ele deixa bem claro que isso ocorreu com o Golpe de Estado, militar-civil de 1964. Vejamos Ianni, ainda em suas conclusões: "Prisioneiros dos interesses econômicos e políticos da classe dominante - particularmente aqueles organizados no âmbito das corporações multinacionais - os donos do poder não conseguem resolver os dilemas básicos da sociedade brasileira. Obcecados pela estabilidade e a segurança, para combater qualquer manifestação de vida democrática, permaneçam no plano das aparências, insensíveis aos reais problemas sociais. Por essas razões é que os problemas do operário, camponês, universitário (entre outros) são encarados, antes de mais nada, como problemas relacionados à estabilidade socio-política, ou às conveniências da segurança interna. Por essas razões, ainda, é que às relações tradicionais de dependência estão se acrescentando novas instituições e maior engenho ideológico. Como resultado geral, permanece submersa, ou em segundo plano, a verdadeira essência dos problemas.

Assim, as relações entre as classes sociais adquirem contornos cada vez mais nítidos. À medida que se asfixiam os movimentos das massas (no proletariado urbano e rural), surgem novas manifestações da luta de classes. O populismo terá sido apenas uma etapa na história das relações entre as classes sociais. Nesse sentido é que se pode dizer que no limite do populismo está a luta de classes. Da mesma forma, no limite da ditadura de vocação fascista pode estar a sociedade socialista" (Página 182-3).

Me chamou particular atenção a primeira observação do professor no capítulo XI, A ideologia dos governantes, que bem define o golpe de 1964: "O que singulariza a política econômica inaugurada em 1964 é o fato de que ela substitui a ideologia do desenvolvimento pela ideologia da modernização. Conforme estava sendo posto em prática, o desenvolvimentismo orientava-se no sentido de dinamizar as forças produtivas; implicava a independência política e, em certo grau, impunha a autonomia econômica. A ideologia da modernização, por seu lado, conforme se efetiva depois de 1964, denota um esforço destinado a refinar o status quo e a facilitar o funcionamento dos processos de concentração e centralização do capital" (Página 151).

Para dar um panorama geral do livro destaco as suas três partes e os 12 capítulos. As três partes são as seguintes: Primeira parte: - Política e desenvolvimento. Encontramos aí quatro capítulos: 1. O sentido das crises; 2. Tensões e conflitos; 3. Fases da industrialização e 4. Desenvolvimento agrário. Basicamente são mostrados os processos de industrialização e urbanização promovidos pelo modelo de substituição de importações e os conflitos com os setores oligárquicos vinculados ao latifúndio e à economia agrário exportadora.

Na segunda parte temos - Populismo e nacionalismo, também com quatro capítulos: 5. Getulismo e populismo; 6. Política de massas no campo; 7. A esquerda e as massas e 8. Contradições do desenvolvimento Populista. Essa parte entra no âmago da discussão proposta pelo livro, que é a ideologia que fundamentou o populismo.

Na terceira parte temos - A Política de "interdependência", com mais quatro capítulos: 9. O Golpe de Estado; 10. A Dependência Estrutural; 11. A Ideologia dos Governantes e 12. Ditadura. Como devem ter percebido é o "colapso do populismo", com a substituição da política desenvolvimentista em favor da modernização conservadora, da concentração do capital e do empobrecimento das massas populares. Eis o real sentido do tema abordado nas aulas ministradas pelo professor, na Universidade dos Estados Unidos. O livro tem dois prefácios. Um é destinado à quarta edição, de 1986 e o outro à primeira edição, que é do ano de 1967.

Um livro fundamental para compreender a maior ruptura política que existiu no país e as suas implicações políticas, econômicas, sociais, culturais e atingindo todos os campos da vida brasileira. Tudo em favor do que o autor chama de inserção na "civilização ocidental" que promoveu a dependência estrutural do Brasil ao capitalismo internacional, ditado pelas grandes potências e que nos condena a permanentemente não atingir a nossa autonomia política e econômica. Dá, também, para entender perfeitamente o triste momento vivido pelo Brasil após o novo golpe, o de 2016. Ele tem absolutamente o mesmo sentido. O "populismo" havia voltado com os governos populares do PT.

Também já fiz a próxima opção de leitura. Será A Ideologia da Segurança Nacional - O poder militar na América Latina, do padre belga, que foi professor em Louvain (Bélgica) e em Harvard (Estados Unidos).

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A Economia Política Brasileira. Guido Mantega.

No dia 16 de novembro de 2020, o coletivo de formação da APP-Independente, em conjunto com o NESEF, da UFPR, deram início a mais um trabalho de formação. Dessa vez o curso se destinaria à formação de lideranças para a atividade sindical. O professor Gaudêncio Frigotto fez a palestra de abertura. Essa foi precedida de uma leitura de texto, sob o título de "Estado, educação e sindicalismo no contexto da regressão social". Na palestra, a análise da realidade brasileira ganhou grande destaque, com a indicação de uma série de livros. Isso me fez voltar a um novo ciclo de leituras de interpretação do Brasil.

Na segunda metade da década de 1980 eu ainda me encontrava em Umuarama. Era dirigente regional da APP-Sindicato, fiz minha filiação ao Partido dos Trabalhadores e participei de cursos de formação de quadros do Partido no Instituto Cajamar, uma verdadeira universidade popular. Lá estudamos a formação de partidos políticos, o socialismo e, acima de tudo, a realidade brasileira. Foi ali que eu conheci o Frei Betto, César Benjamin e Edir Sader, entre outros. Me marcaram muito. 

Como consequência desses estudos, comprei muitos livros. Lembro que me enveredei pelas ruas de São Paulo, na busca da rua Barão de Itapetininga, endereço da Livraria Brasiliense. Um dos livros que comprei no ano de 1988 foi o de Guido Mantega A Economia Política Brasileira. Na época, não cheguei a lê-lo. Era um período de muita agitação política, com a redemocratização do Brasil. Tive intensa participação em praticamente todos os movimentos. Só no ano de 1988 estive três vezes em Brasília. Lembrando que 1988 foi o ano da promulgação da Constituição, um verdadeiro Pacto Social, com o qual saímos do período autoritário implantado em 1964. As leituras tiveram que esperar.

Economia Política Brasileira. 4ª edição. Guido Mantega.


Embora o livro não tenha sido citado na fala do professor Frigotto, retomei o meu ciclo de leituras por ele. Que leitura maravilhosa e esclarecedora. O livro busca a origem histórica da economia política brasileira, como nos aponta o título. Ele é uma adaptação de sua tese de doutoramento na USP, no início dos anos 1980. A primeira edição do livro é do ano de 1984, numa publicação da Polis/Vozes. A banca examinadora foi constituída pelos professores Paul Singer, Luiz Carlos Bresser Pereira, Brasílio Salum, Fernando Henrique Cardoso e Gabriel Cohn. Na contracapa do livro lemos a seguinte apresentação:

"Pela primeira vez foram reunidas as ideias de celso Furtado, Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré, Ignácio Rangel, Paul Singer, Maria da Conceição Tavares, Francisco de Oliveira, André Gunder Frank, Luiz Carlos Bresser Pereira e demais pensadores estruturalistas, marxistas e neokeinesianos, e organizadas nas correntes de pensamento que deram origem à Economia Política Brasileira.

Numa linguagem acessível não apenas aos estudantes de Economia, mas a todo o público de Ciências Humanas, Guido Mantega reconstitui os debates teóricos das décadas de 50 e 60, promovidos por esses clássicos do pensamento econômico brasileiro, que participaram da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), do Partido Comunista Brasileiro ou demais entidades do gênero, e produziram o Modelo de Substituição de Importações, o Modelo Democrático-Burguês e o Modelo de Subdesenvolvimento Capitalista". São os temas do livro.

Para quem não tiver tempo para a leitura inteira do livro, indico ao menos da introdução, que oferece um belo panorama do livro. Também tem um belo quadro ilustrativo da árvore genealógica da economia política brasileira. O livro tem cinco capítulos, além da bela introdução, já referida e, por óbvio, a indicação da bibliografia utilizada. Tudo isso ocupa 288 páginas.

Como estímulo para a leitura e propiciar uma melhor antevisão da leitura, dou os títulos e subtítulos dos cinco capítulos: I. O Nacional-desenvolvimentismo: 1. antecedentes do desenvolvimentismo. 2. O pensamento da CEPAL: a deterioração dos termos de intercâmbio; industrialização, intervencionismo estatal e nacionalismo. 3. Ragnar Nurske e o círculo vicioso da pobreza. 4. Gunnar Myrdal e o capitalismo bonzinho. 5. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros. 6. O Nacional desenvolvimentismo e os planos estatais: Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (1951/53), Grupo Misto BNDE-CEPAL (1953/55), O Plano de Metas. Da minha parte  tenho a dizer que é impossível estudar o Brasil sem passar pelos estudos da CEPAL e do ISEB.

II. O Modelo de Substituição de Importações: 1. Celso Furtado e a Teoria do Subdesenvolvimento; desenvolvimento e subdesenvolvimento. Os conceitos básicos do modelo. Luta de classes e democracia capitalista. Os impasses do subdesenvolvimento. 2. Ignácio Rangel e a inflação brasileira: Entre Marx e Keynes. O imperativo das forças produtivas.  Inflação e desenvolvimento. 3. Os herdeiros do Modelo de substituição de importações. Maria da Conceição Tavares e a fundamentação do modelo. Paul Singer e os ciclos conjunturais. Luiz Carlos Bresser Pereira e a nova classe média.

III. Raízes do pensamento econômico marxista brasileiro: 1. Lênin e a Revolução Democrático-Burguesa. 2. Trotski e a Revolução Permanente. 3. A III Internacional e os movimentos nacionais revolucionários. 4. A IV Internacional e o capitalismo atrasado.

IV. O Modelo Democrático-Burguês: 1. O PCB e a Revolução Democrático-Burguesa. A Declaração de Março e a via pacífica. Nelson Werneck Sodré e a consolidação do Modelo. 2. Contradições do Modelo. Dominação capitalista e política econômica. Reforma agrária, salários e mercado industrial. Burguesia industrial, nacionalismo e capital estrangeiro. Burguesia nacional e regime político.

V. O Modelo de Subdesenvolvimento Capitalista: 1. A. Gunder Frank e o desenvolvimento do sub desenvolvimento. Paul Baran e o excedente periférico. As constelações metrópoles-satélites. Deficiências da Teoria do Subdesenvolvimento. Proletariado periférico e revolução socialista. 2. Caio Prado Jr. e o capitalismo colonial. A Revolução Brasileira e a crítica à tese feudal. Balanço da teoria do capitalismo colonial. O capitalismo sem acumulação. 3. Rui Mauro Marini e a superexploração do subimperialismo. Do intercâmbio desigual à exportação de mais-valia. Contradições da Teoria da Superexploração. Superexploração, subconsumismo e subimperialismo. 4. Frank, Marini e a teoria da Revolução permanente.

Foi uma leitura extremamente proveitosa e com o esclarecimento dos temas tratados, como as questões relativas a economia política, ou as deliberações políticas que envolveram a economia e o desenvolvimento brasileiro. E vamos em frente. Já selecionei outro livro, também não citado por Frigotto em sua fala de abertura. Já, já apresento a resenha.


terça-feira, 20 de outubro de 2020

História do medo no Ocidente - 1300-1800. Jean Delumeau.

 No rastro da leitura de A Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff e de História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois, o livro da vez foi História do Medo no Ocidente - 1300-1800, de Jean Delumeau. Um livro impressionante. Que força e poder tem o tal do medo, especialmente, quando se está diante de um período histórico em que se desenvolveram a Guerra dos Cem Anos (1337-1453 - entre a Inglaterra e a França), duas reformas religiosas (a protestante - Lutero - 1517) e a contra reforma (Concílio de Trento 1535-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648 - entre católicos e protestantes). Deixo o link dos dois livros:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/a-civilizacao-do-ocidente-medieval.html  e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/10/historia-do-riso-e-do-escarnio-georges.html

O notável livro de Jean Delumeau, História do medo no ocidente - 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado.

Na contracapa do livro encontramos uma síntese quase perfeita do livro: "Ao tomar como objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da ideia de que não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIII ao XVIII - o mar, os mortos, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes (o judeu, a mulher, o muçulmano -, o grande historiador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente".

Vejamos isso de uma forma mais organizada através dos doze capítulos do livro, precedidos de uma introdução e sucedidos por conclusão e pela referência bibliográfica das inúmeras notas. Tudo isso ocupa 471 páginas. O livro se divide em duas partes: Parte um: "Os medos da maioria", com cinco capítulos e a Parte dois, " A cultura dirigente e o medo", com mais sete capítulos. 

Os capítulos da primeira parte, com os respectivos subtítulos são: 1. Onipresença do medo. "Mar variável onde todo temor abunda"; o distante e o próximo; o novo e o antigo; hoje e amanhã; malefícios e adivinhação. 2. O passado e as trevas. Os fantasmas; o medo da noite. 3.Tipologia dos comportamentos coletivos em tempo de peste. Presença da peste; imagens de pesadelo; uma ruptura inumana; estoicismo e desregramentos - desalento e loucura; covardes ou heróis; de quem é a culpa. 4. Medo e sedições I. Objetivos, limites e métodos de investigação; o sentimento de insegurança; medos mais precisos; o temor de morrer de fome; o fisco: um espantalho. 5. Medo e sedições II. Os rumores; as mulheres e os padres nas sedições; o iconoclastismo; o medo da subversão.

Os capítulos da segunda parte, também com os respectivos subtítulos são: 6. "A espera de Deus". Medos escatológicos e nascimento do mundo moderno; duas leituras diferentes das profecias apocalipticas; os meios de difusão dos medos escatológicos; um primeiro tempo forte dos medos escatológicos: o fim do século XIV e o começo do século XV; um segundo tempo forte: a época da reforma; um Deus vingador e um mundo envelhecido; a aritmética das profecias; geografia dos medos escatológicos. 7. Satã. Ascensão do satanismo; satanismo, fim do mundo e mass media da Renascença; O "príncipe deste mundo"; as "decepções" diabólicas. 8. Os agentes de Satã. I. Idólatras e muçulmanos. os cultos americanos; a ameaça muçulmana. 9. Os agentes de Satã. II. O judeu, mal absoluto. As duas fontes do antijudaísmo; papel do teatro religioso, dos pregadores e dos neófitos; as acusações de profanações e assassinatos rituais; converter; isolar; expulsar; uma nova ameaça: os convertidos. 10. Os agentes de Satã. III. A mulher. Uma acusação que data de longe; a diabolização da mulher; o discurso oficial sobre a mulher no final do século XVI e no começo do século XVII; uma produção literária frequentemente hostil à mulher; uma iconografia frequentemente hostil à mulher. 11. Um enigma histórico: A grande repressão da feitiçaria I. O dossiê. A escalada de um medo; uma legislação de inquietude; cronologia, geografia e sociologia da repressão. 12. Um enigma histórico: a grande repressão da feitiçaria II. Ensaio de interpretação. O universo da heresia; o paroxismo de um medo; uma civilização da blasfêmia; um projeto de sociedade.

Como podem ter notado, o cristianismo perpassa praticamente todo o livro. Para mim dois capítulos se revestiram de maior significado, talvez porque chegaram muito fortemente até os nossos tempos, o capítulos 9 e 10, sobre os agentes de Satã, o judeu como o mal absoluto e a mulher. Na década de 1960, eu ainda rezava na sexta feira da Paixão "Oremos etiam pro perfidis judeis". Essa oração foi abolida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). E sobre a mulher então, nem falar. Capítulos muito ilustrativos e cuja leitura eu recomendo muito.

Ainda três parágrafos das orelhas do livro: "'Não temos história do amor, da morte, da crueldade, da alegria...' Essa queixa de Lucien Fabvre em 1948, tão repetida desde então, foi como um manifesto, que definiu o programa de trabalho da disciplina que se chamou a história das mentalidades. Uma das lacunas que o fundador da escola dos Annales deplorava é preenchida é preenchida por este livro de Jean Delumeau: a história dessa paixão primordial que é o medo. Paixão pouco estudada, porque não é nada honrosa. Quem de nós, perguntava Roland Barthes (em 1973), confessa seu medo? Sabemos que a filosofia clássica dividiu, em linhas gerais, as paixões em positivas e negativas: amor e ódio, coragem e medo. É claro que as paixões positivas são mais bem vistas, mas dentre as negativas, a mais vil sempre foi o medo (em suas formas brandas - temor, receio, timidez - ou excessivas: covardia, pusilanimidade). E no entanto, se paixão é pathos, se antes que o século XIX identificasse paixão a amor-paixão ela esteve mais ligada à passividade, ao que sofremos (nos dois sentidos do termo, descritivo e doloroso), o medo talvez seja a paixão em que mais sofremos, isto é, a paixão por excelência.

Que estudo pode, assim, ser mais oportuno que o medo? É um dos grandes temas recalcados de nossa cultura (voltamos a lembra Roland Barthes). Apesar disso, ou por isso mesmo, ele se destaca na estratégia das paixões. Como ler sem notar, no romance, na poesia, no teatro, a força do medo? Como pensar a política sem ver, não só o que os homens deixam de fazer por covardia, mas também o que fazem por medo? Como, enfim, pensar a condição humana sem estes pares primordiais, não só os que mencionei acima, mas ainda outro que vem desde os Antigos, medo e esperança?

Thomas Hobbes, que nasceu de parto prematuro quando o pais fugiam, em 1588, da temida Armada de Felipe II, escreveu na velhice: 'Minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo'. Esta frase se entendeu como significando: o gêmeo do medo se identifica com esta paixão; Hobbes seria o filósofo do pavor. Mas, se os gêmeos são e foram, não dois medos, mas medo e esperança (the old Twins, Hope and Fear, dizia John Donne por essa época) - então muda o sentido de toda a sua filosofia política. E este exemplo vale para a história que faz Delumeau. Conhecer o medo, devassar seus arcanos não é só entender a uma curiosidade particular. É ampliar nossas consciências para reconhecer um fantasma, cuja força está em ser inconfesso". Estes parágrafos são de Renato Janine Ribeiro.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois.

Ao terminar de ler Jacques Le Goff, A Civilização do Ocidente Medieval, decidi continuar na leitura de livros de história. Optei por Georges Minois, História do Riso e do Escárnio. Não é simplesmente um livro de história. É um senhor livro. São 653 páginas de uma memorável pesquisa e que exigiram de seu autor um profunda dedicação e muita erudição. Esta pesquisa passa diversas vezes por toda a história, se detendo, especialmente, nos campos religioso, filosófico, histórico e literário. Também do leitor é exigido bastante. Não é um livro para principiantes.

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP - 2003. Tradução de Maria Elena Ortiz Assumpção.

O livro começa pelos gregos, passa pelos latinos, pela alta e baixa Idade Média, chegando ao Renascimento, ao Esclarecimento, passando pelas reformas religiosas, pelas revoluções, pelas guerras, até chegar ao século XX, parando por aí, uma vez que o livro foi publicado no ano de 2003. Todos os grandes nomes da teologia, da filosofia, da literatura, do teatro e do cinema merecem a análise do autor. Ao todo são 15 capítulos, além da introdução e da conclusão. Depois dou os títulos desses capítulos. O riso e o escárnio é visto em todas as suas formas, quer as maléficas, quer as benéficas. A palavra com a qual mais vezes eu me detive foi a palavra "derrisão". Seria esse o efeito maior provocado pelo riso?

Na orelha da capa lemos a seguinte apresentação: "O ser humano tem duas características que o diferenciam de outros animais: é o único que sabe que vai morrer e que ri. Será que o riso não existe exatamente para consolá-lo dessa amarga tristeza? Essa perspicaz indagação é apenas uma das importantes questões apontadas neste livro pelo historiador francês Georges Minois.

O autor esquematizou a história do riso em três períodos: o riso divino, o diabólico e o humano. No primeiro, associado à Antiguidade clássica, o riso está ligado à suprema liberdade dos deuses. É, portanto, vinculado à recriação do mundo, seja nas sátiras escritas pelo grego Aristófanes seja nas críticas sociais dos comediógrafos latinos Plauto e Terêncio.

O cristianismo, na Idade Média, opõe-se a essa visão. Prega que o homem deve temer o inferno, regido pelo diabo, rei do riso, da zombaria e do escárnio, atitudes toleradas apenas em festas pagãs como o Carnaval. A partir do Renascimento, com o progressivo abalo de todas as crenças, o riso renasce, penetrando nas fissuras do absoluto para questionar a religião, no século XVIII, a monarquia, no século XIX, e o autoritarismo, no século XX.

Em pleno século XXI, para Minois, o ser humano, infelizmente, teria domesticado o poder derrisório do riso. No atual mundo do "politicamente correto", o seu componente agressivo estaria desvitalizado. Embora pareça estar por toda parte - na publicidade, na televisão, nos jornais, nas transmissões esportivas -, o riso não passaria, mais do que nunca, de uma máscara para esconder a profunda agonia do existir".

Na contracapa do livro lemos um parágrafo que certamente pretende ser uma provocação para a leitura: "Estudado durante séculos pelas mais diferentes disciplinas, o riso ainda guarda um grande mistério. Da gargalhada solta dos carnavais medievais à fina ironia dos romancistas vitorianos, a história do riso pode revelar os dilemas de cada época. Neste trabalho de fôlego, Georges Minois enfrenta com bom humor a grande tarefa de criar uma história para o que os antigos gregos consideravam uma das maiores virtudes humanas doadas pelos deuses".

Vamos, para dar uma ideia aproximada dos temas, aos títulos do 15 capítulos: 1. O riso inextinguível dos deuses - os gregos arcaicos e o mistério do riso; 2. A humanização do riso pelos filósofos gregos - Da ironia socrática à zombaria de Luciano; 3. O riso unificado dos latinos - O risus, satírico e grotesco; 4. A diabolização do riso na Alta Idade Média - Jesus nunca riu; 5. O riso unânime da Festa Medieval - A paródia a serviço dos valores; 6. Rir e fazer rir na Idade Média - Humor sagrado e humor profano; 7. O riso e o medo na Baixa Idade Média - o retorno do diabo; 8. A gargalhada ensurdecedora do Renascimento - o mundo rabelaisiano e suas ambiguidades; 9. Acabou-se o riso - a grande ofensiva político-religiosa do sério (séculos XVI-XVIII); 10. O riso amargo do burlesco - a era da desvalorização cômica (primeira metade do século XVII); 11. Do riso polido à zombaria - o poder ácido do espírito (séculos XVII e XVIII); 12. O riso e os ídolos no século XIX - o escárnio nos combates políticos. sociais e religiosos; 13. Filosofia do riso e riso filosófico no século XIX - os debates sobre o riso, do grotesco ao absurdo; 14. O século XX, morrer de rir - a era da derrisão universal; 15. O século XX: a morte do riso? - a desforra póstuma do riso.

Um livro que, creio eu, se destina mais para pesquisadores do que para leitores propriamente ditos. Sei que ele é bastante usados nos cursos de pós graduação em Linguística. Está dada a dica. Valeu muito a leitura. Por razões muito particulares, deixo o link de uma postagem a partir do livro sobre o padre São João Maria Vianney, o padroeiro dos padres seculares. É que eu fui seminarista, lá nos anos 1950-60. https://www.blogger.com/blog/post/edit/2400511981612982468/7887219725086152243


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

São João Vianney - padroeiro dos padres seculares. No livro de Georges Minois.

Nasci no dia 21 de setembro de 1945, em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul. Nasci sob a unidimensionalidade da religião católica. O cônego Oscar Mallmann foi o pastor, de algo em torno de duas mil almas, por mais de cinquenta anos. Terra de padres e de bispos. Ao redor, muitos seminários. Em Salvador do Sul e em Pareci Novo, os dos jesuítas e em Bom Princípio, o dos padres seculares. O cônego Mallmann tinha espírito de jesuíta, mas, ele me destinou para os padres seculares e lá me fui, ainda na tenra infância para o Seminário Menor São João Maria Vianney de Bom Princípio.

São João Maria Vianney, o cura de Ars, é o padroeiro dos padres seculares, destinados a trabalharem nas paróquias, sem formarem uma ordem religiosa, como, por exemplo, os padres jesuítas. Obedecem diretamente ao bispo diocesano. Não fazem o voto de pobreza, apenas os de obediência e castidade, embora a pratiquem. No seminário, pouco ouvimos falar dele. Nenhuma biografia nos foi recomendada. A única coisa que eu lembro, que nos era falada pelos padres, é a de que ele não se distinguiu pela inteligência, mas pela sua grande fé. Era um padre vigário exemplar.

História do Riso e do Escárnio. UNESP. 2003. Tradução de Maria Elena O. Ortiz Assumpção.


Agora me deparei com ele na leitura do monumental livro de George Minois, História do Riso e do Escárnio. Ele não entra na história pelos seus amplos sorrisos, pelo seu bom humor, mas por ser seu feroz combatente. O encontro com o santo se dá no capítulo 12, sob o título de "O riso e os ídolos no século XIX", num subtítulo de "A igreja do século XIX contra o riso", que eu passo a transcrever. Mas antes, duas informações: A primeira, São João Vianney (1786-1859) foi proclamado santo no ano de 1925, por Pio XI. A segunda. Ele inspirou um outro santo, o santo Josemaria Escrivá (1902-1975. Este se tornou santo em 2002, sob o pontificado de João Paulo II. Escrivá é o fundador da poderosa Opus Dei. Santo Deus! Como eu mudei. Mas vamos à descrição:

A fisionomia severa do santo cura de Ars.

"... Mas Lamennais não é a Igreja. Então voltemo-nos para um contemporâneo seu, que foi canonizado: Jean-Marie Vianney, o 'cura de Ars'. Um dos sinais de sua santidade, segundo o processo de canonização, é o fato de ter recebido 'o dom das lágrimas', e há numerosos testemunhos que o mostram chorando por qualquer coisa. Não é bom divertir-se em sua paróquia: 'É a corda com que o demônio lança o maior número de almas para o inferno', diz ele. Ao ver o anúncio de um charivari, sai do presbitério e dispersa todo mundo. Bailes e festas profanas são proscritos, e o bom cura faz reinar um verdadeiro terrorismo moral em sua paróquia: 'Eu o ouvi uma tarde', diz o abade Pelletier no processo de canonização, 'levantar-se com veemência contra a feira de Willefranche, onde a multidão tinha o costume de entregar-se à tentação dos divertimentos profanos. O auditório ficou apavorado'. Os banquetes de casamento são proibidos; quanto às tentativas de tocar instrumentos, ouvir música e rir depois dos trabalhos agrícolas, são execradas no púlpito. Jean-Marie Vianney esforça-se para colocar culpa em seu mundo. Na sexta feira santa, em 1830, alguns dançarinos e músicos se apresentam; ninguém ousa sair. 'Na prece da tarde, o senhor cura fez sua homilia habitual. Ele chorou. Choramos com ele. E vários de nossos jovens desmiolados compreenderam sua idiotice ao ver sua mãe e irmãs chegar com os olhos vermelhos de tanto chorar'.

O cura de Ars controla, igualmente, o vestuário das pessoas. Ele impõe às moças uma horrível touca que esconde melhor seus cabelos. 'Nós tínhamos a aparência de pequenas velhas', revela uma delas. Ele não poupa ironias impiedosas ao mais inocente sinal de coquetismo. 'Um dia', diz Marthe Miard, 'ele me encontrou um pouco mais bem vestida que o comum' (ela usava um vestido de musselina de cor forte). Em vez de me dizer, como sempre, 'Bom dia, minha filha', ele me fez um cumprimento longo acrescentando: ' Bom dia, senhorita'. Eu fiquei com vergonha'.

'A pequena Jeanne Lardet exibia orgulhosamente uma bela gola nova. 'Quer me vender sua gola?', perguntou-lhe o abade Vianney, rindo. 'Eu lhe dou cinco centavos por ela'. 'Para que a deseja, senhor cura?' 'Para colocá-la no seu gato'. A pobre garota também ficou envergonhada.

Durante quarenta anos, o cura tiraniza sua paróquia. Além disso, ele é obcecado pelo diabo, que acredita ver em todos os cantos da rua e até em sua cama. O riso é banido. Contudo, é atribuída a ele uma ' malícia delicada'. Mas em sua boca, diz o abade Trouchu, a própria zombaria é santificada. 'Essas tiradas não ferem ninguém [!], porque a malícia branca que elas encerram é temperada pelo tom cheio de regozijo e pela expressão graciosa do rosto.

Há milhares de de curas de Ars, no século XIX, para quem rir é um crime ou, ao menos, uma presunção de culpa. Eis um caso revelador: em 1883, em Taulé, o reitor Kervennic solicita a troca de seu vigário, o abade Bramoullé. Motivo: ele ri, é alegre, tem sempre um ar de contentamento. Trata-se de uma conduta eminentemente suspeita para um jovem padre de trinta anos a quem foi ensinado, no seminário, ter sempre um ar triste. Ele sorri até dando a comunhão! O reitor comunica ao bispo seu espanto e suas suspeitas, em uma carta que revela muito sobre a mentalidade paroquial da época: 'Percebo que, quanto mais exijo dele (como me substituir perante os doentes, dar uma instrução ou um sermão), quanto mais os fiéis, em grande número, o retêm no confessionário, mais ele fica alegre e contente: nada parece capaz de diminuir seu zelo nem desanimá-lo. ... Ele está sempre contente por pregar, deseja fazer mais do que lhe é pedido; isso não seria vaidade, presunção, vontade desmedida de aparecer? Ele está sempre feliz por assistir meus doentes. ... Isso o faria crer que todo mundo o admira. Daí vem, parece-nos, essa grande necessidade de se produzir... suas maneiras sempre joviais e muito familiares com os fiéis e as muitas palavras indiscretas que diz. Já cansei de dizer que gostaria que ele fosse mais tímido, mais reservado e mais prudente".

Santo Deus! Como eu mudei. Eu não gostaria de ter como padroeiro este São João Maria Vianney. Texto extraído de: MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. UNESP. 2003. Páginas 500-502.



domingo, 4 de outubro de 2020

Dois "Pai Nossos" do fim do século XIV. Paródias sarcásticas. Georges Minois.

 Todo o poder que extrapola os seus limites vira chacota, mesmo quando se trata das coisas tidas como as mais sagradas. É o que podemos verificar com o cristianismo medieval. No século XIV, o cristianismo já estava consolidado em toda a Europa ocidental e em virtude de seus absurdos abusos começou a ser contestado. Como as formas mais explícitas de contestação não eram permitidas, os fatos começam a ocorrer pelas beiradas. Pela ironia, pela sátira e pelas paródias. É o que encontramos na narrativa do fantástico livro História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois.

Como exemplo trago a paródia de dois "Pai nossos". Eles são assim apresentados: "Deus não é poupado pelo riso, nesse fim de Idade Média. A tradição das missas, preces e sermões parodísticos certamente não é nova; mas, nesse caso, também o tom muda. Diante da aparente inércia divina perante as catástrofes, o riso torna-se acusador. Sobretudo, não levanta o dedinho para socorrer-nos. Vós que tudo podeis e que nos amais tanto! Olhai-nos sofrer! Esse é o sentido das preces parodísticas que vêm à luz no século XV. Desta vez, a blasfêmia não está longe, como o testemunham dois Pater Noster do fim do século XIV que, com nuance trocista, felicitam Deus por ficar tranquilamente no céu, enquanto males de toda espécie se abatem sobre a terra e o clérigo furta suas ovelhas. Ninguém sabe o que os homens fizeram para semelhante sorte, mas o Senhor tem toda a razão em ficar longe dela. Essa é a lição do Pater Noster em quartetos:

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP. 2003. Tradução: Maria Helena O. Ortiz Assumpção.

Pater Noster que és bem sábio,                                                                                                                   

tu és digno de todos os louvores,

porque lá em cima fizeste tua morada 

e bem no alto te escondeste - In celis.

Em nosso presente o mal abunda,

Cada um é cheio de orgulho e de ira.

Não há, neste mundo, alguém

de quem se possa dizer - Sanctificetur.

Porque, nos tempos que ora ocorrem,

Aquele que menos sabe

é o que mais pode vangloriar-se na corte

e blasfemar contra ti e desprezar - Nomen tuum.

... Por isso se queres aceitar meu conselho,

Em cima, bem alto, deves ficar,

no paraíso, em nobre glória,

e nunca aqui embaixo descerás - Et in terra.

Eu me admiro e me maravilho

Porque estamos em tal perigo

por aqueles que usam veste vermelha

e só fazem tomar e comer - Panem Nostrum.

Não há uma única vez,

porque não há dia de semana,

em que eles não nos pilhem de tal forma

que mal podemos sobreviver - Cotidianum.

Ora não sei o que fizemos

Nem se pensas que isso vai durar, 

Porque não acredito que exista

Ninguém no mundo que a tanto resista - Sicut et nos.

(Manuscrito da Biblioteca da Universidade de Genebra).

Essa ironia se encontra também no Paternostre de Lombardia, que data da mesma época. 'Lombard' é, então, mais ou menos sinônimo de 'rapace', 'opressor'. A agressividade é patente. 'Não és louco, Pai Nosso, Te escondeste lá em cima, enquanto os diabos nos tomam panem nostrum:

Pater noster tu não és louco,

porque te colocas em grande repouso,

que subsiste alto in celis:

porque, agora, neste país,

não há ninguém que seja sanctificetur

nem que pense no tempo futuro

nem que invoque nomen tuum.

... Só pensas no mal noite e dia

Ora, cuida-te bem in celo

sem te deixar, eu te louvo;

porque os diabos sabidos reinam

e tudo revolvem e tudo tomam

e é inferno et in terra

E são espertos ingleses

que roubam panem nostrum

e nos dão muita pancada.

E aqueles que nos deveriam guardar

Só fazem atormentar-nos

Com sua gula quotidianum,

tiram o nosso sem razão

e nem dizem: da nobis.

... Fazes muito bem ficando aí

porque aqueles que mantêm a guerra

não o fazem por nenhuma terra,

mas só para ter a nostra

Ora, não acredites nisso,

porque se cá em baixo estivesses

e não soubesses te defender,

eles te fariam sicut et nos.

(Biblioteca Santa Genoveva). 

Texto extraído de MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP. 2003. Páginas 253-255.

E hoje em dia, que paródias seriam feitas diante de tantos abusos religiosos existentes. Nunca houve tantos lobos vestidos em pele de cordeiro como nos dias de hoje. O que dizer das chamadas teologias da prosperidade (tanto entre católicos, quanto entre os evangélicos), que pregam virtual e fisicamente 24 horas por dia para recolher o panem nostrum, obtido com o suor de nossos rostos.