sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Rinoceronte. Eugène Ionesco.

No dia 6 de setembro de 2019 iniciávamos o Segundo ciclo de leitura e debates da obra de Paulo Freire, centrado em um de seus últimos livros, ou no dizer de Nita, "o livro testamento de sua presença no mundo", Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa. Houve solenidade na abertura e a apresentação de uma peça de teatro, com um grupo do Rio de Janeiro, que nos trouxe Paulo Freire - Andarilho da utopia. Vale relembrar.

Na peça havia uma forte referência a Ionesco e à sua peça de teatro mais famosa - Os rinocerontes. A peça é de 1959 e deixou marcas em Paulo Freire. Fiz uma rápida busca e encontrei duas referências. Uma em Ação cultural pela liberdade e outra em À sombra daquela mangueira. Sandro Castro Pitano nos mostra Paulo citando a frase final e comentando "Não posso ser se os outros não são; sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Todos haviam se tornado rinocerontes, menos Bérenger.
O Rinoceronte. Edição da Nova Fronteira, 2015. Tradução de Luís de Lima.

Fui ao livro que traz a famosa peça. Uma edição da Nova Fronteira, da coleção 50 anos. Como não sou muito familiarizado com o teatro, observei atentamente o livro. Na contracapa um diálogo entre Jean e Bérenger sobre moral. Jean defende uma moral da natureza: "A natureza tem as suas leis. A moral é antinatural". Bérenger retruca: "Se estou compreendendo bem, você quer trocar a lei moral pela lei da selva". Cultura versus natureza, seria isso?

Fui à orelha: "...os habitantes de uma cidade são atacados por uma estranha moléstia que os transforma, pouco a pouco em rinocerontes. O animal encarna o fanatismo que desfigura pessoas, tira-lhes a humanidade". Fui ao prefácio. Zora Seljan versa sobre teatro. Diferenças entre o teatro de Brecht e o de Ionesco. O teatro realista contra o teatro do absurdo. O teatro de Ionesco "traz os demônios à superfície"... 

O Rinoceronte é uma peça em três atos, com cenários relativamente simples, uma mercearia, um escritório e o quarto de dois dos personagens, Jean e Bérenger. As discussões começam pelas obviedades da vida. Beber ou não beber, as vantagens de uma vida disciplinada, do esforço e da dedicação ao trabalho, sobre os ideais da vida. Entre os personagens há até um lógico. Mas todos, praticamente todos, são adeptos da racionalidade, que Adorno já havia chamado de instrumental. O primeiro rinoceronte aparece, seguido de mais um. Unicórnio ou bicórnio? Africano ou asiático? Uma discussão infindável. Jean sai ofendido e magoado com Bérenger.

O cenário das discussões se transfere para o escritório em que trabalham vários dos personagens. O rinoceronte é o grande tema, com grandes teimas. Novos rinocerontes aparecem e desfazem as incredulidades. Bérenger vai ter com Jean. Bons sentimentos, quer o perdão pelos desentendimentos do dia anterior. Mais e mais rinocerontes aparecem. Chamam os bombeiros e a polícia. Entre eles também já há rinocerontes. Jean também adere a essa "doença nervosa".

Todos viram rinocerontes. Todos, o cardeal, os intelectuais, os prelados e os clássicos. Sobra Bérenger e Daisy. O amor será o antídoto. Daisy não resiste. Se considera anormal e se soma aos rinocerontes, deixando Bérenger sozinho em desespero, com as suas resistências incompreendidas e o medo de também sucumbir: "Mas eles não nascem! Minhas mãos estão suadas. Será que ficarão rugosas? Tenho a pele flácida. Ah, este corpo tão branco e peludo! Como eu gostaria de ter uma pele dura e aquela soberba cor esverdeada, uma nudez decente, sem pelos como a deles! Há um certo atrativo no canto deles, um pouco rude, mas mesmo assim é atraente! Se eu pudesse fazer como eles. Ahh! Ahh! Brr! Não, não é assim! Preciso experimentar outra vez, mais forte! Ahh, Ahh, Brr! Não, não é isso! Isto é fraco, não tem vigor! Não consigo dar barridos, só dou berros. Ahh, Ahh, Brr! Berros não são barridos!

Ah! Como eu me arrependo. Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar  para meu rosto. Tenho vergonha! Como eu sou feio! infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina. Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim. Não me rendo".

E, uma palavrinha sobre Ionesco (1909-1994). Nasceu na Romênia, mas a sua formação se deu em Paris, cidade em que também veio a morrer. Junto com Samuel Beckett  é considerado o criador do teatro do absurdo. O pós guerra está muito presente em sua obra. Certamente o pré guerra, mais ainda. Como tudo isso pode ter acontecido?

É. Paulo Freire tem toda razão: "Não posso ser se os outros não são. Sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Pode haver atualidade maior? Da minha parte, não temo os rinocerontes. Eu temo os bozos. Já se transformaram em maioria e já minaram prelados...... É preciso, com a máxima urgência, detê-los. Ah, as massas! O teatro será sempre um bom antídoto, seja o do realismo ou o do surrealismo, do absurdo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Budapeste. Chico Buarque.

A atual situação política brasileira me proporcionou uma grande mudança de hábitos. Deixei de frequentar ambientes que reuniam elevado PIB de ignorância, e os troquei por outros, em que as conversas fluem, envolvendo, preferencialmente, temas políticos e culturais. Confesso que obtive grandes ganhos.

Num dia desses, as conversas envolveram uma viagem que fiz pela Alemanha e por uma série de capitais que foram o grande palco dos acontecimentos do início do século XX e que ainda preservam todo o seu charme histórico. Estávamos falando, particularmente, de Budapeste, um dos monumentos do Império austro-húngaro. Contava das grandes diferenças do povo húngaro com relação aos seus vizinhos, sobre a sua origem oriental, sobre os seus costumes e tradições e da atual situação política, em que impera uma rigorosa censura à imprensa. O país até mereceu uma visita da ministra brasileira que disse ter visto Jesus na goiabeira. Questão de afinidades.

Na mesa ao lado, um moço estava entretido com o seu lanche, mas que, ao ouvir falar da Hungria, entrou na roda de conversa nos falando do orgulho magiar em torno de sua língua, tida como uma das mais complexas e mais difíceis de aprender e fez referência ao romance de Chico Buarque, Budapeste. Foi assim que retomei a minha viagem e fui conhecer melhor a encantadora cidade e descobri que dela não conhecera praticamente nada, apesar dos encantos que ela me provocara.
O livro do Chico Buarque. 2017. 2ª. edição. 27ª. reimpressão.

Li o romance escrito pelo Chico em 2003. Ele tem uma estrutura narrativa complexa, alternando os cenários entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Os livros, ou os seus autores, são o grande tema. Autor e personagem se confundem. Mas a beleza do livro não está na história contada, mas sim, na beleza de sua escrita, totalmente imbuída de poesia. José Costa ou Zsoze Kósta é o personagem central. José Costa e o seu amigo e colega de escola, Álvaro, tinham uma especie de agência de publicidade, que entre outros trabalhos, também escreviam livros, especialmente biografias ou livros de memórias, vendendo a autoria para endinheirados, obviamente. O Ginógrafo, retratando a vida de um alemão, fez extraordinário sucesso.

Mas como o José Costa foi parar em Budapeste? Assim começa o romance. Numa viagem de Istambul para Frankfurt, com escala em Budapeste, por problemas técnicos o avião foi retido na cidade por uma noite. Foi o suficiente para que José se envolvesse e começasse a gostar do idioma do país magiar. Soube-se depois que o problema não era técnico. O que houve, foi suspeita de bomba. O terrorismo grassava solto pelo mundo. Mas José conseguiu voltar tranquilamente ao Rio de Janeiro, onde a vida do cotidiano o atormentava. Como não aprendera nenhuma palavra húngara, a não ser Lufthansa, ele teimou em voltar para aprendê-la.

Kriska ou Cristina foi sua professora e algo a mais. Antes, no Rio de Janeiro, conhecera o sucesso de um livro seu, de autoria de Kaspar Krabe. Em pouco tempo Zsose domina a língua e escreve um livro de poesia para um notável escritor de nome Kocsis Ferenc. Mas a vida não lhe era fácil. Brigou com Kriska e o flagraram como imigrante ilegal, e devidamente, o deportaram. De volta ao Rio de Janeiro, só desencontros e amarguras. Esse quadro se altera quando recebe um comunicado do consulado da Hungria junto com um envelope que continha uma passagem para Budapeste, que tinha como remetente a maior editora da cidade. Zsose Kósta virara um famoso escritor húngaro.

Escolho algumas referências ao livro, contidas na orelha da capa. A mais precisa, no meu entendimento é a de Beatriz Resende, do Jornal do Brasil: "À maneira dos relatos de Cortázar ou das narrativas do Borges de Ficções [em Budapeste], cada vez mais, narrar e ser narrado confundem-se, como se confundem autor e personagem, criador e criatura". Deixo também a opinião de dois notáveis escritores. José Saramago e Luís Fernando Veríssimo. Começamos por Saramago:

"Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, o do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro".  E o Veríssimo: "O livro do Chico é uma vertigem. Você é sugado pela primeira linha e levado ao estilo falso-leve, a prosa depurada e a construção engenhosa até sair no fim lamentando que não haja mais, assombrado pelo sortilégio deste mestre de juntar palavras. Literalmente assombrado".

E quanto a mim, quero registrar os ganhos com a troca de ambiente. Trocar locais de elevado PIB de ignorância por elevado PIB de cultura, só poderá te trazer ganhos, muitos ganhos. Ah sim. O fato se deu no Gilda Bar e Restaurante, local que recomendo. Deixo ainda o link do post da visita à Budapeste.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/08/europa-2019-9-budapeste-e-hungria.html



domingo, 19 de janeiro de 2020

MEDO. Trump na Casa Branca. Bob Wooddward.

O acesso que tive a Medo - Trump na Casa Branca, de Bob Woodward se deu em consequência do episódio em que Sérgio Moro compareceu ao programa de Pedro Bial na televisão. Moro, perguntado sobre leituras, confessou-se assíduo leitor, mostrando especial preferência por biografias. Perguntado sobre as últimas lidas, não conseguiu se lembrar de nenhuma. Posteriormente, Gregório Duvivier, em artigo na Folha de S.Paulo, deu ao ministro três sugestões. Entre elas, a de Bob Woodward. Foi assim que cheguei ao livro.
A edição brasileira da Todavia.

Vou começar a resenha falando de Woodwward, o autor. Na orelha da contracapa lemos: "Bob Woodward é editor associado do Washington Post, onde trabalhou nos últimos 47 anos. Cobriu nove presidências nos Estados Unidos. Foi vencedor de dois prêmios Pulitzer, o primeiro ao lado de Carl Bernstein pela cobertura do caso Watergate e o segundo em 2003, como chefe de reportagem da cobertura dos ataques terroristas do Onze de Setembro. É autor de dezoito livros, todos eles best-sellers". Bob nasceu em 1943.

Essas são as suas credenciais. Na capa, junto ao título lemos: "Mais de um milhão de livros vendidos na primeira semana nos Estados Unidos". "Explosivo", "devastador", "sem precedentes", "um retrato assombroso", "diligente, rigoroso, minucioso e ético" e "assustador" são algumas qualificações do livro apresentadas na contracapa.

Quanto ao título, Medo, nos deparamos nas justificativas, numa frase em epígrafe, pronunciada em 2016, que bem define quem é Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos: "O verdadeiro poder - nem quero usar tal palavra - é o medo". Depois, na página 188, temos uma explicitação ainda maior: "O verdadeiro poder é o medo. O que conta é a força.  Jamais demonstre fraqueza. Você tem que ser sempre forte. Nunca se deixe intimidar. Não existe escolha". Assustador.

Vamos à apresentação do livro pela orelha da capa: "... Medo é o mais íntimo retrato já concebido dos primeiros anos de uma presidência norte-americana. Partindo de uma campanha que elegeu Trump, Woodward realizou dezenas de entrevistas e juntou centenas de documentos, notas, diários e memorandos para detalhar os bastidores do controverso mandato de Trump. Conhecido pela minúcia de suas investigações, Woodward coloca o leitor dentro das reuniões que decidiram assuntos tão fundamentais quanto o declínio do apoio dos Estados Unidos à Otan, a saída do Acordo Climático de Paris, as relações com a Coreia do Norte, Rússia, China e Irã e a violência racial de Charlottesville em 2017.

O leitor conhecerá o processo, muitas vezes caótico, que levou a essas decisões, e também o jogo de traições entre assessores, as disputas internas de poder e as crises quase diárias que o governo Trump enfrenta. Um painel assustador, em que funcionários do alto escalão do governo roubam documentos do Salão Oval para que Trump não os assine e o Partido Republicano precisa lidar com um presidente avesso a protocolos, desconfiado da diplomacia e em guerra aberta com a imprensa. Poucas vezes um governo foi visto de forma tão crua e, em tempos de fake news, tão elucidativa e real".

O livro contém 42 capítulos, sem títulos, mas sempre dedicado a um tema determinado. Quem acompanha a política, tem uma ideia dos principais temas abordados. As questões com a Coreia do Norte e também a do Sul (Korus e presença do exército), o Irã, o Iraque, a Síria, o Estado Islâmico, o Afeganistão e os Talibãs e a Rússia, talvez a sua dor de cabeça maior. Na questão interna, os tributos, as tarifas que remetem aos problemas do globalismo confrontado com o nacionalismo, as questões de racismo e da imigração. A grande questão é a instabilidade do presidente, a sua aversão a reuniões de planejamento e decisões e a sua absoluta imprevisibilidade. Sobra ainda o veneno de seus tuítes. Creio que que já tem seguidores entre outros presidentes. Está fazendo escola.

Em meio ao livro tem um bloco de fotografias de seus principais assessores e o relato sucinto dos problemas que com eles enfrentou. Os primeiros e principais já foram demitidos. É uma espécie de síntese do livro. Os relatos são realmente minuciosos, mas a leitura flui. O livro é um relato perfeito das tramas e das sujeiras que envolvem o mundo da política, que vão para muito além dos limites de nossa inocente imaginação.

Para deixar uma imagem do livro, recorro à sua última frase. Nela é narrada a opinião de Dowd, o seu advogado para tratar da relação com a Rússia, e que abandona a causa em virtude da absoluta desobediência de Trump em seguir as suas orientações: "Mas naquele homem e em sua presidência, Dowd havia enxergado uma imperfeição catastrófica. Entre todas as ferramentas que utilizava no debate político - as evasões, as negações, os tuítes, as omissões, as acusações de notícias falsas e a indignação -, Trump tinha um problema primordial que Dowd sabia muito bem qual era, mas que jamais seria capaz de dizer ao presidente: 'Você é um puta mentiroso'".

A edição brasileira tem 397 páginas e é uma edição da Todavia. Trabalharam na tradução André Czarnobai, Paulo Geiger, Pedro Maia e Rogério Galindo. Só o futuro nos dará respostas com relação ao imprevisível e perigoso presidente.

Creio que no Brasil temos também agora um livro similar sobre Bolsonaro. Trata-se de Tormenta - o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, da jornalista "BRASILEIRA" Thaís Oyama, com edição pela Companhia das Letras.
A edição brasileira Tormenta, de Thaís Oyama. Companhia das Letras.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Sociedade do cansaço. Byung-Chul Han. Sobre a sociedade do desempenho.

"O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obriga a trabalhar ou que poderia explorá-lo. É senhor e soberano de si mesmo. Assim não está submisso a ninguém ou está submisso apenas a si mesmo. É nisso que ele se distingue do sujeito de obediência. A queda da instância dominadora não leva  à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho.

O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa auto-exploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorador e o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa auto-referencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal". (Trecho da obra). Esse trecho selecionado está transcrito na orelha da contracapa do livro e é uma síntese perfeita do teor do livro.
Sociedade do cansaço, pela Vozes. 5ª. Reimpressão. 2019.

Como integro grupos de trabalho de formação de professores, neles detectamos uma grande necessidade de debater os adoecimentos que são próprios da categoria, como o burnout, a depressão e, em casos extremos, o suicídio. Os trabalhos foram desenvolvidos e se formaram grupos para o acompanhamentos da situação nas escolas. Não acompanhei mais de perto esses trabalhos mas o tema me interessou e fui em busca de referências bibliográficas. Foi dessa forma que me deparei com o pequeno livrinho Sociedade do Cansaço, do coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han.

Que livrinho denso. Ele aponta para uma total mudança na estrutura psicológica dos seres humanos sob a égide do capitalismo financeiro ou do neoliberalismo e das novas e desregulamentadas relações de trabalho que nele ocorreram e continuam ocorrendo. Um subtítulo cairia muito bem para o livrinho: Da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho. Isso, além de representar uma total mudança de paradigma, mudaria também as categorias de análise.

Começo apresentando o sumário. São sete capítulos e dois anexos, distribuídos ao longo de apenas 128 páginas, num formato de quase livro de bolso: 1. A violência neuronal; 2. Além da sociedade disciplinar; 3. O tédio profundo; 4. Vita Activa; 5. Pedagogia do ver; 6. O caso Bartleby. 7. Sociedade do cansaço. Os dois anexos tem os seguintes títulos: 1. Sociedade do esgotamento; 2. Tempo de celebração - a festa numa época sem celebração.

No primeiro capítulo o autor começa apresentando as doenças características de cada época e a forma como elas foram enfrentadas. Assim combatemos as doenças bacteriológicas e virais com a técnica da imunologia. O inimigo era detectado e combatido. Havia "uma divisão nítida entre o dentro e o fora, amigo e inimigo ou entre o próprio e o estranho". No século XXI surgiram novas doenças, as do campo neuronal, burnout e depressão e as da hiperatividade e similares. Os princípios da imunologia não as combatem. Por que não? Aí é que entram as mudanças de paradigma.

Assim, no capítulo 2, Além da sociedade disciplinar, são apresentadas as características dessa sociedade, tão estudada por Foucault. Dessa sociedade da repressão partiu-se, não mais da obediência externa, mas da obediência interna, ou da auto-obediência. Os sujeitos da obediência foram transformados em sujeitos de desempenho, de produção. Desaparece a referência de classe. O explorador é o próprio explorado e o agressor é a própria vítima. Tudo fruto de uma liberdade paradoxal.

No terceiro capítulo o tédio é mostrado como positividade. Ele é fuga para o excesso de atenção e de atividades. Hoje não há mais atenção profunda. Há a hiperatividade. Enquanto o tédio é uma direção para o novo, a hiperatividade é apenas uma aceleração. Não há espaço para o espanto filosófico.

Hannah Arendt e Agamben são as referências para  o quarto capítulo sobre a Vita Activa. Na sociedade de desempenho morre a vida contemplativa. Renuncia-se a ela, não para viver melhor, mas para funcionar melhor. Voltamos ao estágio pré darwiniano do animal, antes de seus movimentos evolutivos. Todos nos transformamos em homo sacer, um muçulmano. Essa era a designação dada ao homem antes de entrar para os campos de concentração, em estado de tensão e apavoramento total. Vivemos um nervosismo total decorrente da falta da vida contemplativa.

No quinto capítulo é afirmado o princípio de que a vida contemplativa é uma decorrência de um modo de ver, de um ver amplo, demorado e lento. Precisamos escapar da mera atividade, que leva para a estupidez mecânica como a do computador, que não tem vida contemplativa. O autor dialoga com Sartre (Náusea) e Heidegger (Angústia). O sexto capítulo toma como referência um personagem da literatura de Melville para diferenciar o cansaço na sociedade disciplinar da de desempenho.

Os dois anexos são maravilhosos. O primeiro mostra com muita nitidez as contraposições entre a sociedade do cansaço e de desempenho, da sociedade do "dever", para a sociedade do "poder hábil", do dever imposto a si mesmo. Faz uma bela análise da palavra sujeito, que dentro da sociedade da disciplina era um sujeito com relação a outro, a um ser externo que determinava. Agora ele é sujeito a si próprio, das autoimposições. Selecionei duas passagens. Vejamos: "A partir de um certo nível de produção, a auto exploração é essencialmente mais eficiente, muito mais produtiva que a exploração estranha, visto que caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade [...] O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até  consumir-se completamente (burnout). Ele desenvolve nesse processo uma agressividade, que não raro se agudiza e desemboca num suicídio".

A outra talvez seja ainda mais explícita: "O sujeito de desempenho está livre da instância de domínio exterior que o obrigue ao trabalho e o explore. Está submetido apenas a si próprio. Mas a supressão da instância de domínio externa não elimina a estrutura de coação. Ela, antes, unifica liberdade e coação. O sujeito de desempenho acaba entregando-se à coação livre a fim de maximizar seu desempenho. Assim ele explora a si mesmo. Ele é o explorador e ao mesmo tempo o explorado, o algoz e a vítima, o senhor e o escravo. O sistema capitalista mudou o registro da exploração estranha para a exploração própria, a fim de acelerar o processo. O sujeito de desempenho, que se imagina como soberano de si mesmo, como homo liber, aparece como o homo sacer". Como estão vendo, o diálogo agora foi estabelecido com Agamben.

Mas o segundo anexo é o mais bonito. Tempo de celebração - a festa numa época sem celebração. Não tem como resenhar, sem mexer na beleza da totalidade do texto. O texto foi uma palesta do autor sobre o tema festa. Pela primeira vez no livro Marx entra nas análises, mas a retomada vai até Aristóteles e a sua exaltação aos livres: os poetas, os políticos e os filósofos. Não os políticos de hoje, que não passam de "capangas do sistema". Mas muito cuidado para não confundir entre festa e euforia. A euforia é o primeiro sintoma  do burnout, a euforia do "tudo poder".

Uma questão final, reflexão para além das análises do livro. Não sei se deixei claro que estamos diante de uma radical mudança de paradigmas no mundo do trabalho e de toda a estrutura psíquica do ser humano sob o mundo do capitalismo financeiro e da desregulamentação no mundo neoliberal, Uma desreferencialização total. E as mudanças na educação? O que significa a mudança de uma educação fundada no conhecimento e a sua passagem para o mundo das competências e habilidades?

O autor coreano desempenha suas atividades acadêmicas na Alemanha e é um profundo analista da sociedade atual. A tradução do presente livro é de Enio Paulo Giachini. Leitura obrigatória. A primeira edição alemã é de 2010. No Brasil foi lançado em 2017 e já está, em 2019, na sua 5ª reimpressão.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Joaquim Silvério dos Reis e a delação "premiada" contra Tiradentes.

Vou começar este post apresentando um fato de grande repercussão. No programa de Televisão de Pedro Bial, o ex juiz e agora Ministro da Justiça, Sérgio Moro concede uma entrevista. Uma das perguntas feitas pelo entrevistador não deve ter seguido as regras do programa, uma vez que deixou o entrevistado numa situação profundamente constrangedora. Bial perguntava sobre livros. Moro se declarou assíduo leitor e manifestou grande preferência pela leitura de biografias. Bial então perguntou sobre as últimas que tinha lido. Tentou enrolar..., mas não teve jeito. Não lembrou de uma única sequer. Situação de absoluto vexame.

Posteriormente, em artigo na Folha de S. Paulo (18.092019), Gregório Duvivier tentou socorrer o ministro, lhe recomendando três biografias, entre elas O Tiradentes, de Lucas Figueiredo. Li o livro, excelente, por sinal. Uma passagem me chamou atenção especial e me fez lembrar da recomendação do articulista. Ela está no capítulo 16 e ocupa as páginas 247 a 250. O capítulo não tem título mas versa sobre a reação da Coroa ao levante de Tiradentes e de seus companheiros. Versa sobre a questão da delação. Esse instrumento de origem medieval foi muito utilizado pelo então juiz que estava à frente da Força Tarefa Lava-jato. Certamente um dos motivos da recomendação.
A bela biografia de Tiradentes. Da Companhia das Letras. 2018.

É amplamente sabido que entre os que alimentavam "o louco desejo de liberdade", havia um arrependido. Até aí nada demais. O passo seguinte era o de delatar o movimento, esperando em troca, favorecimentos pessoais. Joaquim Silvério dos Reis tinha notória experiência no lidar com os governantes. Vamos a uma das passagens em que me detive:

"De acordo com as Ordenações Filipinas, havia uma única chance de salvação para quem cometesse o crime de lesa-majestade. O caminho da redenção era dado no livro 5, título 6, parágrafo 12: delatar os cúmplices. Quem traísse o rei, mas em seguida traísse os comparsas, entregando-os à justiça, mereceria perdão. O dispositivo determinava que, além de ficar livre de qualquer penalidade, o denunciante era, dependendo do caso, merecedor de 'mercês'". Mais adiante é relatado o seu encontro com o governador:

"Entre assustado e cauteloso, Silvério dos Reis desfiou seu rosário - e começou mentindo.  Disse que o que o trazia até ali era seu senso de lealdade para com a 'augusta soberana', d. Maria, dever que ele cumpria com risco de perder a vida. Feita a lacrimosa introdução, ele continuou adulterando os fatos. Contou ao governador que, no mês anterior, havia tomado conhecimento - acidentalmente - de que um grupo de 'poderosos e magnatas' de Minas planejava tomar a capitania de sua majestade, tornando-a independente. Segundo Silvério dos Reis, a descoberta da trama se dera graças a um acaso guiado pelos desígnios de Deus. Como andava desgostoso pela iminente perda do título de coronel e de seu regimento de milícia, ele caíra na besteira de fazer queixas contra a Coroa publicamente, o que teria aberto uma brecha para que os conspiradores tentassem recrutá-lo. Ele teria então sido convidado a participar da 'falsidade que se fulmina[va]' sob a promessa de ter extintas suas dívidas com a Real Fazenda..." Aí começou a desfiar a lista de nomes de seus ex companheiros.

Em outro post eu já manifestei a minha absoluta inconformidade com o instrumento da delação. Creio que a leitura dessas passagens, entre outras tantas, só me fez crescer a convicção. O sujeito é duplamente criminoso. Pela sua ação primeira e pela delação de companheiros, na segunda. Eis o Post: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/06/a-partir-de-agamben-reflexoes-em-torno.html

Joaquim Silvério dos Reis, chegou a ser preso por alguns meses, obtendo depois a liberdade, negada aos ex companheiros. Por toda a sua vida continuou a se vangloriar como o delator primeiro, o de número um, à espera de "mercês". Algumas, de fato, ele obteve. Mas a história o julgou pesadamente.Deixo também a resenha de O Tiradentes - uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/o-tiradentes-uma-biografia-de-joaquim.html

No post a que já fiz referência, eu citei Agamben, a quem eu retorno, com três parágrafos de transcrição de parte de seu livro Meios sem fim. Notas sobre política. São um pouco longos mas vale a pena a sua leitura. São sobre delação. Ei-los:


"Começaram como membros de brigadas e mafiosos, e, desde então, assistimos a um desfile interminável de rostos torvos em sua convicção, decididos no seu próprio vacilar. Às vezes, no caso dos mafiosos, o rosto aparecia na sombra para impedir que fosse reconhecido e - como da sarça ardente - escutávamos 'apenas uma voz'. Com essa voz profunda da sombra chama, nos nossos dias, a consciência, como se ele não conhecesse outra experiência ética fora do arrependimento. Precisamente aqui, no entanto, se trai a sua inconsciência, pois o arrependimento é a mais traiçoeira das categorias morais - aliás, não é nem mesmo certo se ela pertence à classe dos conceitos éticos genuínos. É conhecido o gesto decisivo com que Espinoza nega ao arrependimento todo direito de cidadania em sua Ética: quem se arrepende, escreve ele, é duas vezes infame, uma vez por ter cometido um ato do qual teve que se arrepender, e uma segunda vez porque se arrependeu dele. Mas quando, já no século XII, o arrependimento penetra com força na moral e na doutrina católica, logo se apresenta como um problema. Como provar, com efeito, a autenticidade do arrependimento?  Aqui o campo logo se divide entre quem, como Abelardo, exigia apenas a contrição do coração, e os 'penitenciais', para os quais importante não era, ao contrário, a insondável disposição interior do arrependimento, como o cumprimento de inequívocos atos exteriores. Toda a questão, portanto, se envolveu imediatamente em um círculo vicioso, no qual os atos exteriores deviam atestar a autenticidade do arrependimento e a contrição interior, garantir a genuinidade das obras, segundo a mesma lógica para a qual, nos processos atuais, denunciar os companheiros é garantia da veracidade do arrependimento e o arrependimento íntimo sanciona a autenticidade da denúncia.

Que o arrependimento tenha ido parar nas salas dos tribunais não é, de resto, um acaso. A verdade é que ele se apresenta desde o início como um compromisso equívoco entre moral e direito. Através do arrependimento, uma religião, que havia ambiguamente chegado a um acordo com o poder mundano, procura sem êxito dar razão ao seu compromisso, instituindo uma equivalência entre penitência e pena, entre delito e pecado, mas não há indício mais certo da ruína irreparável de toda experiência ética que a confusão entre categorias ético religiosas e conceitos jurídicos, que chegou hoje ao seu paroxismo. Atualmente, onde quer que se fale de moral, as pessoas têm categorias do direito na ponta da língua, e onde quer que  façam leis e processos, a serem manejados como obscuros feixes de lictor (Em italiano, fascio littorio: símbolo de origem etrusca, associado ao poder e à autoridade, que foi usado pelo Império Romano e pelo fascismo na Itália), são, ao contrário, conceitos éticos.

Tanto mais irresponsável é a gravidade com que os laicos se apressaram a cumprimentar a entrada do arrependimento - como ato incontestável de consciência - nos códigos e nas leis. Pois se realmente desventurado é quem é constrangido por uma convicção inautêntica a jogar toda a sua experiência interior em um conceito falso, para ele ainda há, talvez, uma esperança. Mas para os mediocratas que se vestem de moralistas e para os maîtres à penser televisivos, os quais em sua desventura edificaram vitórias pedantes, para estes, não, não há realmente esperança".  AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim - notas sobre política. Autêntica. Belo Horizonte - São Paulo. 2015. pp. 115-117. A edição brasileira é de 2015.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O Tiradentes. Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. Lucas Figueiredo.

Creio que muitos de vocês lembram da entrevista que Sérgio Moro deu ao programa de televisão do Pedro Bial. Nela, o entrevistador pediu ao entrevistado sobre as suas leituras. Moro não se fez de rogado, confessando-se um leitor assíduo e manifestou a sua grande preferência por biografias. Perguntado sobre as mais recentes que lera, ele não lembrou de nem uma única sequer. O fato ficou amplamente conhecido, para a vergonha de Sérgio Moro.

Posteriormente, li na Folha de S.Paulo (18.09.2019), um artigo em que Gregório Duvivier dava a  Sérgio Moro a sugestão da leitura de três biografias, que certamente seriam de seu interesse. Entre elas estava a de Tiradentes. Foi assim que cheguei ao belo livro de Lucas Figueiredo, O Tiradentes - uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. As outras recomendações eram: Medo - Trump na Casa Branca, de Bob Woodward e Cartas da prisão, de Nelson Mandela. Comprei o livro do Lucas Figueiredo e o do Bob. Termino de ler o primeiro. Confesso que valeu muito a pena. Sempre tinha uma curiosidade em estudar mais de perto esse nosso herói nacional.
A biografia tem a edição da Companhia das Letras. 2018.

Ao final do livro, Lucas Figueiredo fala das dificuldades que encontrou para a elaboração dessa biografia. Uma questão de ir a fundo nas fontes primárias. No caso, os documentos referentes ao julgamento e condenação dos chamados inconfidentes. A dificuldade estaria nas enormes contradições e manipulações existentes no processo. Vejam bem, manipulações. Para uns a situação precisaria ser aliviada e para outros agravada. Esse era o caso de Tiradentes. Ah! E tem as delações. Joaquim Silvério dos Reis não fora o único, mas ele fazia questão de dizer que fora o primeiro.

Com certeza, o historiador fez uma grande trabalho e preencheu um enorme vazio que existia sobre o tema. E uma constatação, antes de entrar na resenha. Os nossos livros didáticos são razoavelmente bons quando abordam a questão, situando-o dentro da conjuntura internacional, da era das revoluções, do desejo de liberdade e de autonomia dos povos ao final do século XVIII. Também aqui havia homens determinados para isso. Era o caso de Tiradentes e de seus companheiros. Por que então o movimento brasileiro não deu certo? Falta de planejamento, articulação, munições, distâncias e, acima de tudo, a esperteza do governador, em adiar a derrama, esfriando assim o ânimo dos revoltosos. Para situar melhor a época, algumas datas. Tiradentes foi enforcado e esquartejado no dia 21 de abril de 1792. Em 1776 os Estados Unidos haviam proclamado a sua independência, bem como  os motivos que os levaram a isso. Já em 1789 ocorreu a derrubada da Bastilha. Era a força das novas ideias, dos ideais iluministas.

Para situar melhor esse movimento de liberdade cito duas frases. Uma foi proferida por um frade, que depois das orações após o enforcamento de Tiradentes, assim se manifestou sobre a causa de tudo o que estava acontecendo: "o louco desejo de liberdade". A outra, retiro da fala de um vereador de Vila Rica, proferida após os festejos em comemoração da derrota dos que tinham esse "louco desejo". Ele falava dos benefícios da colonização e das "delícias  da subserviência". É a história em seu processo.

Mas vamos ao livro, por sinal bem volumoso. São 519 páginas, muitas delas de notas explicativas e de fontes. O livro está divido em 11 partes e 31 capítulos. Apenas as partes tem títulos. Como eles dão a dinâmica da narrativa em sua sequência eu os apresento: 

I. Das origens à vida na estrada.,com três capítulos. (Família e profissão de tira-dentes.) II. Vida militar, também com três capítulos (Tiradentes alferes a vida toda, sem nunca ter recebido uma promoção). III. O louco desejo de liberdade. Mais uma vez três capítulos, com destaque para o de número 9, onde está todo o histórico da organização da revolta. IV. Armando a meada. A trama revolucionária está descrita em cinco capítulos. V. O traidor (Por quê?). Possui um único capítulo, dedicado a Joaquim Silvério dos Reis. 

VI. Sem medo de bacalhau. Possui três capítulos. O primeiro deles, o de número 16, é extraordinário. Versa sobre o instrumento da delação. (Teria sido esse o motivo pelo qual o articulista teria indicado o livro para o Sérgio Moro?). De maneira geral aborda a reação portuguesa ao movimento. VII. Castelos no ar. São quatro capítulos que mostram a fragilidade do movimento. Tiradentes era comparado a um Dom Quixote. VIII. No centro do alvo. Mostra, em capítulo único, o esfacelamento do movimento e a prisão dos líderes, no Rio de Janeiro (Tiradentes) e em Vila Rica, no rio das Mortes e na Serra do Frio. Merece atenção o único personagem feminino envolvido na luta: Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo. IX. Na prisão. São quatro capítulos, em que são tomados os depoimentos dos presos. X. O julgamento. São dois capítulos, destacando-se o de número 29, onde estão as penas e as comutações. Tiradentes foi o único que não teve a pena de morte, pela forca, comutada. Era visto como o líder. XI. A execução. São mais dois capítulos. No 30 são narrados os acontecimentos do dia 21 de abril de 1792 e no 30 são levados e deixados pelo caminho os cinco pedaços do corpo de Tiradentes. Apenas a cabeça chega até Vila Rica.

Na contracapa o livro é apresentado pelo notável historiador, biógrafo de Getúlio, Lira Neto. Ainda estão inseridos no livro dois blocos de fotografias e documentos, de mapas e uma espécie de capítulo final, sob a forma de epílogo: Depois do fim. Nele é apresentada a trajetória dos apenados que tiveram as penas comutadas. Tem ainda 95 páginas de notas e uma rica indicação das fontes.

Para terminar..., os dois parágrafos finais do capítulo 30, o da execução: "A trajetória de Tiradentes ainda não havia terminado. Quando especificaram, na sentença, os detalhes das penas do alferes - 'morte natural para sempre' - os juízes da Alçada negaram a ele os dois ritos fúnebres fundamentais da religião cristã: o velório e o sepultamento em solo sagrado. A expressão 'para sempre', contida no despacho, significava que os restos mortais de Joaquim seriam abandonados ao tempo, até que a terra os consumisse - outra prática comumente usada com os negros fugitivos. De acordo com os dogmas da Igreja, não tendo direito à salvação eterna, a alma do alferes ficava assim à mercê da sedução de Satã.

Independentemente das crenças religiosas, o fato era que Tiradentes retornaria a Minas Gerais aos pedaços".

sábado, 4 de janeiro de 2020

Sobre a proibição de comer carne de porco e sobre a origem do porco, do rato e do gato.

Lendo as Cartas persas, me deparei com as dúvidas expressas por Usbek a Mehemet-Ali, servidor dos profetas. Cartas persas é um impressionante livro/romance sob forma de cartas, de Montesquieu sobre filosofia, política e moral, do qual apresento uma pequena resenha para contextualizar o presente post, sobre a questão da proibição de comer carne de porco aos seguidores da doutrina religiosa de Maomé.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/cartas-persas-montesquieu.html
Cartas persas: filosofia, política e moral.


 As dúvidas de Usbek são apresentadas na carta XVII e expressas da seguinte forma: "Não consigo conter minha impaciência, santo mulá: não poderia esperar tua sublime resposta. Tenho dúvidas que preciso formular: sinto que minha razão se extravia: recoloca-a no bom caminho: vem esclarecer-me, fonte de luz; fulmina com teu cálamo divino as dificuldades que vou propor-te; faze-me sentir pena de mim mesmo e enrubescer pela pergunta que te vou fazer.

Por qual razão nosso legislador nos priva da carne de porco e de todas as carnes que chama de imundas"?  Deixo também as outras perguntas/dúvida do aflito Usbek. "Por qual razão ele nos proíbe de tocar em um corpo morto?  e, para purificar nossa alma, ordena que lavemos constantemente nosso corpo?" Vamos à resposta, em tom altamente repreensivo, contidas na carta seguinte, a XVIII:

"Continuais fazendo-nos perguntas que já foram feitas mil vezes a nosso santo profeta. Por que não ledes as tradições dos doutores? Por que não ides a essa  pura fonte de todo entendimento? Veríeis resolvidas todas vossas dúvidas.

Infelizes de vós, que, sempre enredados nas coisas da terra, nunca olhastes com olhos firmes as do céu, e que venerais a condição dos mulás mas não ousais abraçá-la nem segui-la.

Profanos, que nunca penetrais nos segredos do Eterno! Vossas luzes se parecem com as trevas do abismo; e os argumentos de vosso espírito são como a poeira que vossos pés levantam, quando o sol está em seu meio-dia no ardente mês de chaban.

Por isso o zênite de vosso espírito não chega ao nadir do espírito do menor dos imauns. Vossa vã filosofia é aquele relâmpago que anuncia a tormenta e a escuridão; estais no meio da tempestade e vagais ao sabor dos ventos.

É muito fácil responder à vossa dificuldade: para isso basta narrar-vos o que aconteceu um dia a nosso santo profeta, quando, tentado pelos cristãos, posto à prova pelos judeus, desconcertou igualmente uns e outros.

O judeu Abdias Ibesalon perguntou-lhe por que Deus proibira comer carne de porco.

Não foi sem motivo: é um animal impuro e vou convencer-vos disso - respondeu Maomé.

Ele fez na mão, com barro, a figura de um homem; jogou-a por terra e bradou-lhe:

Sou Jafé, filho de Noé

Tinhas os cabelos assim tão brancos quando morreste? - perguntou-lhe o profeta.

- Não - respondeu ele. - Mas, quando me despertaste, julguei que o dia do julgamento tivesse chegado; e senti um pavor tão grande que meus cabelos embranqueceram de repente.

- Ora essa, conta-me toda a história da arca de Noé - disse-lhe o enviado de Deus.

Jafé obedeceu, e narrou-lhe com detalhes exatamente tudo o que acontecera nos primeiros meses; depois falou assim:

- Colocamos os excrementos de todos os animais em um lado da arca; isso a fez inclinar-se tanto que sentimos um medo mortal; sobretudo nossas mulheres, que se lamentavam sem trégua. Como nosso pai Noé procurasse conselho com Deus, ele lhe ordenou que pegasse o elefante e o fizesse voltar a cabeça para o lado que estava pendendo. Aquele grande animal fez tantos excrementos que deles nasceu um porco.

Entendeis agora, Usbek, que desde aquele tempo nos tenhamos abstido de porco e o consideremos um animal impuro?

Mas, como o porco remexia diariamente aquela imundície, ergueu-se na arca um tal fedor que ele mesmo não pode deixar de espirrar; e de seu nariz saiu um rato, que foi roendo tudo que encontrava pela frente; e isso se tornou tão insuportável para Noé que ele julgou conveniente consultar Deus mais uma vez. Deus ordenou-lhe que desse uma forte pancada na fronte do leão, que também espirrou e expeliu pelo nariz um gato. Entendeis agora que esses animais também sejam impuros? Que vos parece?

Portanto, quando não percebeis a razão da impureza de certas coisas é porque ignorais muitas outras e não tendes conhecimento do que se passou entre Deus, os anjos e os homens. Não conheceis a história da eternidade; não lestes os livros que estão escritos no céu; o que deles vos foi revelado é apenas uma pequena parte da biblioteca divina; e os que, como nós, os abordam mais de perto, enquanto estiverem nesta vida, ainda estão na escuridão e nas trevas. Adeus. Maomé esteja em vosso coração".


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Cartas persas. Montesquieu.

Cheguei à leitura dessas cartas através de Dos delitos e das penas de Cesare Beccaria. O pensador do iluminismo no campo do Direito nos diz que se voltou para os estudos filosóficos através da leitura das Cartas persas de Montesquieu. Para situar o autor e a obra lembramos que Montesquieu nasceu em 1689 e morreu em 1755. As cartas são de seu tempo de juventude, escritas ao longo dos anos, entre 1711 e 1720.
Cartas persas. filosofia, política, moral e muito mais.

A edição brasileira da obra parte de uma nova edição francesa do ano de 2003 e lançada aqui no ano de 2009. A grande referência dessa edição é o historiador de ideias e crítico literário francês Jean Starobinski, que fez as adaptações para se ter um texto moderno a partir de uma edição do ano de 1875. Starobinski também é o autor de uma vigorosa e esclarecedora introdução à obra, bem como o responsável por inúmeras notas esclarecedoras, de contextualização, ao longo da obra. Ressalte-se que essa introdução é absolutamente necessária para bem entender a leitura.

Embora seja uma obra da juventude de Montesquieu ela é extremamente erudita e fruto de um espírito extremamente observador e crítico de seu tempo, além de traçar um paralelo entre diversas visões culturais da época, com grande destaque para a cultura francesa e a persa. Portugueses e espanhóis também recebem boas estocadas, especialmente, para o grande instrumento de poder por eles largamente utilizado, que foi a inquisição. Mas a maior invenção do autor foi o fato de ter escrito tudo isso sob a forma de cartas, 161 ao todo, e de fazer delas, em sua sequência, um esplendoroso romance.

Os grandes autores das cartas são dois jovens persas, que saíram da cidade de Ispahan, localizada no Irã e que de acordo com uma breve consulta, é a segunda cidade do país, localizada a 340 quilômetros de Teerã e que conta com dois milhões de habitantes. Usbek e Rica são esses dois persas e o mote de sua viagem é a busca do conhecimento. Para conhecer é preciso sair dos limites de uma única cultura, de uma única visão de mundo. Depois de longa viagem eles se estabelecem em Paris, de onde trocam cartas com as pessoas que ficaram na cidade de origem e com outras pessoas persas que também empreenderam viagens mundo afora. De Paris observam a política francesa dos tempos de Luís XIV. Paris é o seu posto privilegiado de observações, do poder, das religiões, da moral e das relações interpessoais.

Inúmeras das cartas escritas por Usbek apontam para as suas preocupações com o que deixou em sua cidade natal. Ele era um homem muito poderoso e por isso mesmo detentor de um grande número de mulheres, entre escravas e esposas, mantidas à disciplina de ferro e fogo, sob a severíssima vigilância de um pequeno exército de eunucos. Os eunucos chefes tanto escrevem como recebem cartas de Usbek. O tempo e a distância lhe trazem inúmeras preocupações, temendo, e não sem motivos, uma rebelião no serralho. Esse trato dos persas com as mulheres, e obedientes aos ditames do profeta Maomé é seguramente um dos pontos altos do livro. Também os eunucos merecem atenção especial. Destituídos da virilidade são investidos de muito poder. De um estranho poder, junto com o desprezo total da sociedade.

Do que Beccaria teria gostado tanto nesse livro? As conjecturas necessariamente nos levam a uma análise das estruturas de poder, as dos franceses, as dos persas e seus inimigos turcos, dos russos, dos portugueses e espanhóis com as violências praticadas em suas colônias, as liberdades da Holanda...  Motivos certamente não lhe faltaram.

Um dos aspectos mais destacados da obra é a sua forma. A forma da carta. Elas conferem ao autor uma certa distância, ou até mesmo uma espécie de anonimato. Os autores das cartas são Usbek, Rica, Nessir, Rhedi e não Montesquieu, embora toda a autoria seja dele. E alinhar cartas na forma de um romance foi uma novidade sem par e que caiu profundamente no gosto popular. O povo queria sempre mais e novas cartas.

A edição brasileira é da wmfmartinsfontes, com tradução de Rosemary Costhek Abílio e apresentada, estabelecida e anotada por Jean Starobanski. A editora é especializada em editar clássicos, "não só os textos gregos e latinos, mas também outros, mais recentes, que imprimiram em sua trajetória histórica marcas indeléveis em nossa civilização". As Cartas persas, sem dúvida, possuem essa grande marca.

Na contracapa do livro temos, um comentário atribuído ao próprio Montesquieu: "Nada agradou mais nas cartas do que o leitor encontrar nelas, inesperadamente, uma espécie de romance. Adotando a forma de cartas, o autor deu-se a vantagem de poder juntar filosofia, política e moral a um romance, e de unir o todo por um encadeamento secreto e, de certa forma desconhecido"

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Coringa. Todd Phillips.

Coringa, ou Joker no original, é um filme altamente polêmico. Ele está totalmente centrado no personagem Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, um palhaço, que está diante dos problemas que o mundo lhe apresenta, agravados por graves distúrbios mentais, originários tanto na sua estrutura individual, quanto dos gerados pelo seu convívio social. A primeira cena já apresenta Arthur como problemático, o que é evidenciado pela sua irritante e desconcertante risada, diríamos, totalmente desprovida de sentido.
Cartaz promocional do filme.

A origem dos problemas de Arthur então começam a ser mostrados. Ele faz tratamento psíquico, complementado com o uso de medicamentos. Tanto o tratamento quanto os remédios lhe são cortados em função de ajustes econômicos feitos pelo Estado. O filme remonta ao final dos anos 1970 e na sua transição para os anos 1980. Há comentaristas que remetem esse fato para uma crítica ao neoliberalismo, que começa a ser implementado com força.

Os problemas de Arthur passam a ser explicitados, com destaque para o relacionamento com a sua mãe e a sua paternidade. O ricaço da cidade, Thomas Wayne, fora a grande paixão de sua mãe. Esses desajustes são marcados também pelo desemprego e pela precariedade do exercício de sua profissão. O palhaço tem que se dedicar à alegria e felicidade dos outros, sem ninguém se importar com a sua. Também o desemprego grassa na cidade de Gotham city, a cidade dos acontecimentos. Os desajustes de Arthur desembocam em atos de violência.

Os comentaristas veem no filme um tributo a Martin Scorsese, fato que teria levado ao convite para que Robert de Niro interpretasse Murray Franklin, e aos filmes de Batman. Não tenho condições de entrar nesses méritos.

Vamos a uma sequência de fatos que envolvem o conturbado personagem. Ele sofre agressões quando tem a sua placa de publicidade furtada. Reage a agressões sofridas no metrô, partindo para a vingança e matando os seus três agressores. Mata a sua mãe, sufocando-a no hospital. Procura tirar satisfações com Thomas Wayne e lhe faz ameaças, que envolvem também o seu filho. É óbvio que passa a ser perseguido pela polícia, que é apresentada em sua forma toda trapalhona. Mata um colega de profissão e se prepara para ir a um famoso programa de televisão do apresentador Murray Franklin. Antes, em casa, já fizera simulações ou ensaios sobre como seria a sua participação.

É nesse ponto que o filme atinge o seu ponto máximo. Nada dá certo. O apresentador se vê em apuros, já que o convidado em nada colabora para que a entrevista desse certo. Os diálogos mostram as amarguras e os ressentimentos de Arthur, que culminam com a cena de violência explícita de tiros frontais no apresentador. É o momento também que exige a maior concentração do expectador para captar o teor dos diálogos desse momento.

Depois disso o caos se instaura na cidade em função de uma rebelião popular contra os ricos da cidade. Será o momento em que Arthur, mais uma vez consegue despistar a perseguição policial e fazer o seu último ajuste de contas com o ricaço da cidade, Thomas Wayne. Seriam os acertos com o suposto pai, nem que adotivo?

Inicialmente o filme foi muito bem recebido, tanto pela crítica, quanto pelo público. Mais tarde apareceram críticas e dúvidas sobre o filme, sem dúvida, uma grande crítica à estrutura econômica e social desse nosso mundo. Ele incitou a luta de classes? Sim ou não? Ou seria apenas uma explosão de violência individual, fruto de muitos desajustes? O filme é uma incitação à violência, ao uso de armas, no país que consagra o seu uso? Seria um convite para fazer ajustes sociais com as próprias mãos?

Com certeza que é um filme diferente e que certamente receberá prêmios, com possibilidades de Oscar para melhor filme e ator. A direção é de Tod Phillips e roteiro escrito pelo diretor em companhia de Scott Silver. Merece também uma atenção especial a trilha sonora de Hildur Guonadótor, em especial a sua letra, que reflete os problemas do personagem central e fazendo interrogações sobre o sentido da vida. Deixo ainda espaço para os adjetivos usados pelo Omelete. Perigoso, problemático, violento, inconsequente, irresponsável e polêmico. Bom filme!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Dois papas. Fernando Meirelles.

Assim que soube que o filme, Dois papas, estava em cartaz, fui imediatamente ao cinema. Cine Passeio, um belo espaço cultural na cidade de Curitiba. Tenho verdadeira veneração pelo papa Francisco e pouca, pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Os motivos são óbvios. O caráter humanitário e a preferência pelos pobres, por parte de Francisco e pelo reacionarismo e conservadorismo dos outros dois. Essas marcas estão fortemente presentes no filme.
Cartaz promocional de Dois papas.

A Civilização Ocidental é profundamente cristã e capitalista. Esses princípios estão em nós, pelas entranhas. Respiramos os seus valores. A sua influência sobre nós é até maior do que pensamos. Muitas vezes eu paro para refletir sobre a forma, sobre o como eu me constituí. Nasci em meio a uma família muito pobre, que imaginava ser muito feliz. A religião, no caso, o catolicismo foi o grande responsável por isso. Vivíamos sob a proteção de Nossa Senhora de Fátima, que nos protegia do nosso maior inimigo, o comunismo, que nem sequer conhecíamos.

Pensando sobre as mudanças em minha vida, mais uma vez a religião foi a grande responsável. Fui para o seminário na mais tenra idade e, um pouco mais crescido, veio o papa João XXIII e o Concílio Vaticano II. Depois veio Paulo VI. Aprendi então que a religião é muito mais presença no mundo do que espiritualidade. Presença humanizadora, para não desfigurar a criatura, criada à imagem do Criador. Por tudo que olhava, só via desfiguração. Mudanças na maneira de pensar e de ver o mundo foram tomando conta de mim. Passei a acreditar que a não desfiguração do humano passava muito mais por políticas públicas do que por orações, jejuns, confissões e similares.

Bem, mas vamos ao filme. Dois papas, um filme do grande cineasta brasileiro Fernando Meirelles, com roteiro escrito pelo biógrafo do papa, Anthony McCarten, é extraordinário. Leve, profundo e muito bem humorado. Os dois papas tem seus traços de personalidade revelados. E, acima de tudo, o filme é muito respeitoso e humano. Bento é alemão, um intelectual introspectivo, pouco dado ao debate e ao diálogo. Não gostava de ser contestado. Francisco é argentino, extrovertido, hábitos simples, de bem com a vida e extremamente popular.

A questão do papado é o tema central do filme. Como conduzir a Igreja em tempos de profunda crise. A missão foi confiada ao cardeal Ratzinger, um dos expoentes da igreja conservadora e autoritária. No filme chega a ser xingado de papa nazista. Ele não se dá bem na condução e a Igreja só vai perdendo fiéis e ele não vê culpa sua nisso. O cardeal Bergoglio o adverte sobre a questão, além de outras questões a mais, como os escandalosos abusos sexuais de pedofilia de padres que são ocultados, assim como relações de homosexualidade no Vaticano, além de questões financeiras. Na cabeça de Bento, ocultar seria preservar. E a idade avança.

Bergoglio também vê a idade avançando. Chega aos 75 anos e pensa em ir a Roma e solicitar para Bento a sua aposentadoria, assumindo apenas uma pequena paróquia em Buenos Aires. Ao mesmo tempo em que pensa ir ao Vaticano, Bento o chama para uma conversa. Essa se dará em Castel Gandolfo, o palácio de verão dos papas. Bento anuncia predisposição para a renúncia. Bergoglio reage. Isso não existe na Igreja. Bento lhe fala da renúncia de Celestino V. Sugere que Bergoglio o suceda.

Essa renúncia de Celestino V mereceu uma menção nada airosa por parte de Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, em que o papa renunciante não está nem no paraíso, nem no inferno. Por vacilar, nem Deus e nem o demônio o quiseram.  Mas, caso à parte, Bergoglio rejeita a indicação e aponta os motivos. É o momento em que o filme atinge o seu ponto máximo. Os dois papas fazem o acerto de contas com o seu passado. Bento fala de seus problemas, enquanto que Bergoglio rememora o seu passado e a sua ligação com a ditadura militar Argentina. Esse passado o atormenta. Em cena grandiosa, os dois se confessam e se absolvem mutuamente.

Além dos problemas à frente da Igreja, Bento vai envelhecendo e começa a fraquejar fisicamente. A cegueira o atinge em um de seus olhos. A renúncia passa a ser realidade. Bergoglio, que já tivera votos no conclave anterior, será o novo papa escolhido, inclusive, como uma indicação de Bento. Bergoglio se transforma em Francisco. Na abertura do filme aparece a imagem do jovem São Francisco recebendo de Deus a missão de reformar a sua igreja. E não era a igreja que Francisco frequentava. Era a reforma da própria Igreja como instituição. É a missão que aguarda Francisco.

Os dois papas ficam amigos e Bento dialoga constantemente com Francisco. Ele chega até a ser contagiado por alguns hábitos de vida de Francisco. Em cena memorável, os dois assistem juntos a partida decisiva entre Alemanha e Argentina, pela Copa do Mundo de 2018. E uma coisa notável. Bento se afasta completamente das decisões do Vaticano, agora confiadas a Francisco. A existência de dois papas não é uma ameaça à unidade da Igreja. 

Enfim, o filme é grandioso, misturando história e ficção. Ele atinge o humano em suas melhores partes e momentos. E o que dizer dos atores que dão vida aos personagens. Anthony Hopkins como Bento XVI e Jonathan Pryce, como Francisco. Uma produção da Netflix. Oscar à vista?

E uma última referência. Francisco é realmente uma bênção de Deus. Uma das únicas vozes, com poder de fala, numa época em que o mundo capitalista mergulha profundamente em trevas, que podem levá-lo à autodestruição. E que Francisco, assim como João XXIII e Paulo VI influenciaram um menino de outrora, que agora, Francisco inspire outros meninos a trilharem os seus passos.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

À espera dos bárbaros. J. M. Coetzee. Nobel de Literatura - 2003.

Uma passada pelos Nobel de Literatura me fez encontrar com o sul-africano John Maxwell Coetzee, laureado com o prêmio no ano de 2003. O livro dele que mais mereceu a minha atenção foi o À espera dos bárbaros, uma publicação do ano de 1980. A primeira edição brasileira veio, certamente, na esteira do Nobel, no ano de 2006. A edição é da Companhia das Letras e a tradução é de José Rubens Siqueira. A edição que eu li é de 2018. Estava envolvido em leituras sobre o colonialismo. Uma intuição me fez crer que este seria o grande tema do livro. Eu estava certo.
A edição brasileira de À espera dos bárbaros.

A edição brasileira não tem apresentação, nem do escritor, nem do livro, a não ser as rápidas notas das orelhas do livro. Também não encontrei muitas referências em outras fontes. Sua leitura me causou um profundo mal-estar, certamente, pelos dias que estamos vivendo no Brasil de hoje, uma era de tributo à ignorância e de cultivo ao anti intelectualismo. Creio que o meu mal-estar já era anterior à leitura, apenas ele aprofundou situações que, ao menos para mim, são absolutamente visíveis e nada boas. Ignorância e arrogância sempre caminham juntas. No livro sobrou para o coronel Joll e a um subtenente. Isso me levou a pensar sobre a pretendida disseminação das disciplinadoras escolas militarizadas. 

Na contracapa temos uma transcrição que se refere ao fim da vida tranquila que o magistrado, ou  o administrador de uma distante colônia nos confins do império levava. Foram trinta anos de muita paz: "Eu não queria me envolver nisto. Sou um magistrado da roça, um funcionário responsável a serviço do Império, servindo meus dias nesta fronteira preguiçosa, esperando para me aposentar. Recolho o dízimo e os impostos, administro as terras comunais, cuido de que não falte nada para a guarnição, supervisiono os funcionários juniores, que são os únicos funcionários que temos aqui, fico de olho no comércio, presido o tribunal duas vezes por semana. De resto, vejo o sol nascer e se pôr, como e durmo, e estou contente. Quando morrer, espero merecer três linhas em letra miúda na gazeta imperial. Não pedi nada mais que uma vida tranquila em tempos tranquilos.

Mas no ano passado começaram a nos chegar da capital histórias de inquietação entre os bárbaros". A minha surpresa foi a de que essa passagem consta já das primeiras páginas do livro. Posso adiantar também que o "magistrado da roça" também cometia uns pecadinhos, aqueles que certamente você já está adivinhando. Elas foram prato cheio para os seus moralistas acusadores. Volto à apresentação, agora na orelha do livro:

"Num lugarejo da província ocidental de um império sem nome, um magistrado cumpre seus deveres cotidianos, à espera da aposentadoria próxima e do obituário em letra miúda na gazeta oficial. É um funcionário correto, exemplar sem ser fervoroso. Em nome de uma ordem que não lhe cabe questionar, recolhe impostos, dita sentenças e vez por outra afugenta os bárbaros maltrapilhos que habitam o deserto escaldante. Seus pensamentos mais íntimos e melancólicos ele sabe guardar para si, para as horas em que se dedica a escavar as ruínas vizinhas, cobertas pela areia.

Seus dias de modorra moral chegam a um fim abrupto pelas mãos de um certo coronel Joll, oficial da misteriosa Terceira Divisão da Guarda Civil (um corpo de guardas do Estado, devotos da verdade e doutores do"interrogatório", que vem da capital para investigar e reprimir, por todos os meios, um suposto movimento de sedição entre os bárbaros que vivem além das fronteiras imperiais. Os rumores a respeito são mais do que tênues, o que não impede o coronel de torturar prisioneiros e silenciar dissidentes - entre os quais o magistrado, que não soube tapar os ouvidos a tempo..

Partindo desses elementos mínimos, À espera dos bárbaros, livro de 1980, revela o radicalismo das preocupações éticas que fazem a força de toda a prosa do sul-africano J.M. Coetzee. Mas engana-se quem quiser ver aqui apenas uma alegoria da vida sob o apartheid. Os dilemas sul-africanos, que certamente estão na origem do romance, servem de veículo para uma profunda meditação sobre a natureza do poder, da censura, do compromisso e da moral em tempos difíceis. Ao narrar as tribulações do magistrado, Coetzee compôs uma fábula que reúne ecos da grande literatura modernista (Kafka, Buzzatti e o Kaváfis do poema "À espera dos bárbaros") e lança sua sombra sobre os impérios do presente".

Perfeito. O coronel Joll também é um perfeito retrato da força do termo "banalidade do mal", de Hannah Arendt. Ele executava burocraticamente, com a ausência total de qualquer sensibilidade, as mais horripilantes e inimagináveis torturas. E os guardas e até as crianças já participavam das "brincadeiras". Um subtenente era o seu discípulo imediato. E por falar em Hannah Arendt, também me lembrei de Adorno, em sua palestra de rádio "Educação após Auschwitz", quando pergunta quem poderiam ser as próximas vítimas dos holocaustos. Quem seriam os novos bárbaros? Os novos Aussländer, os novos habitantes para além das fronteiras. Ah sim! Ainda é preciso lembrar que nenhuma ideologia funciona se não criar um poderoso inimigo para combater.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Duas imagens do colonialismo. América e Escrava Anastácia. Retratos civilizatórios.

Ao longo de 2019, em minhas leituras e estudos, dois livros, em particular, me chamaram mais a atenção. Sobre o autoritarismo brasileiro, de Lília Moritz Schwarcz e Memórias da plantação - Episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba. Vendo a questão das outras linguagens, dois quadros, ou duas fotografias, estampadas nesses livros mereceram a minha atenção. No primeiro, América, de Theodor Galle, de 1580, uma gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York e no segundo, Retrato da "Escrava Anastácia".

O livro da Lilia,  Sobre o autoritarismo brasileiro, possui 8 capítulos, que são os fundamentos desse autoritarismo, a saber: 1. Escravidão e racismo; 2. Mandonismo; 3. Patrimonialismo; 4. Corrupção; 5. Desigualdade social; 6. Violência; 7. Raça e gênero e 8. Intolerância. A figura América aparece no sétimo capítulo. Vamos vê-la e depois ver a interpretação que a Lília lhe dá:
Theodor Galle, América, c. 1580, gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

"Uma das primeiras gravuras conhecidas da América, datada de cerca de 1580, também tratou de imaginar um "amistoso" encontro entre o Velho e o Novo Mundo. Nela, o europeu é representado como um homem branco que domina uma série de símbolos ligados à civilização: o astrolábio, as caravelas, o estandarte, os sapatos e os excessos de roupas. América, por sua vez, surge no corpo de uma mulher, praticamente nua e deitada numa rede, mostrando que o novo mundo andava preguiçoso e lânguido, apenas aguardando a chegada do Velho. As associações com a barbárie são igualmente óbvias: a falta de vestimentas a cobrir o corpo de América, os pés descalços, os animais exóticos a rodeá-la e sobretudo as cenas de canibalismo ao fundo. Mas há outro detalhe significativo: ela estende um dos braços na direção do conquistador, como se desejasse a "invasão" e o convidasse para essa". Páginas 188-9. Deixo ainda a resenha do belo livro da Lília.

O livro da Grada Kilomba, Memórias da plantação - episódios de racismo cotidiano, versa sobre duas categorias, em particular. As plantations, ou seja, o sistema de colonização fundado nos princípios do latifúndio, da monocultura, do trabalho escravizado e exportação, nada muito diferente do agronegócio do Brasil de hoje, e a escravidão. O livro analisa 28 cenas de "racismo cotidiano", na percepção de duas mulheres negras que vivem na Alemanha, Alícia, uma afro-alemã e Katlheen, uma afro-estadunidense. Grada, à luz da psicanálise, interpreta essas situações. Um livro fantástico e extremamente provocador, de pró vocare. Chamar para. Vamos à máscara.
Nas páginas 35-6 do livro há uma longa explicação: "Esta imagem vai de encontro à/ao espectadora/ espectador transmitindo os horrores sofridos pelas gerações de africanas/os escravizadas/os. Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma família portuguesa.  Após o retorno dessa família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana de açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condição de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido.

Anastácia foi o nome dado a ela durante a escravização. Segundo todos os relatos, ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara facial que a impedia de falar. As razões dadas para esse castigo variam: alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas de "outras/os escravizadas/os; outros dizem que ela havia resistido às investidas sexuais do "senhor" branco. Outra versão ainda transfere a culpa para o ciúme de uma sinhá que temia a beleza de Anastácia. Dizem também que ela possuía poderes de cura imensos e que chegou a realizar milagres. Após um longo período de sofrimento, ela morre de tétano causado pelo colar de ferro ao redor de seu pescoço.

O retrato de Anastácia foi feito por um francês de 27 anos chamado Jacques Arago, que se juntou a uma "expedição científica" pelo Brasil como desenhista, entre dezembro de 1817 e janeiro de 1818. Há outros desenhos de máscaras cobrindo o rosto inteiro de escravizadas/os, somente com dois furos para os olhos; estas eram usadas para prevenir o ato de comer terra, uma prática entre escravizadas/os africanas/os para cometer suicídio. Na segunda metade do século XX a figura de Anastácia começou a se tornar símbolo da brutalidade da escravidão e seu contínuo legado do racismo.  Ela se tornou uma figura política e religiosa importante em torno do mundo africano e afrodiaspórico, representando a resistência histórica desses povos. A primeira veneração de larga escala foi em 1967, quando o curador do Museu do Negro do Rio de Janeiro erigiu uma exposição para honrar o 80º aniversário da abolição da escravização no Brasil. Anastácia também é comumente vista como uma santa dos Pretos Velhos, diretamente relacionada ao Orixá Oxalá ou Obatalá - orixá da paz, da serenidade e da sabedoria - e objeto de devoção no Candomblé e na Umbanda (Handler e Hayes, 2009). (Páginas 35-6)

Vejamos a interpretação de Grada: "Quero falar da máscara do silenciamento. Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos. Ela era composta por pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito negro, instalado entre a língua e o maxilar e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanas/os escravizadas/os comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os ": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar? (Página 32). Quem pode falar? é o título do capítulo 2 do livro. Vejamos ainda a resenha do livro.

Mais interpretações ficam a seu cargo. Deixo ainda a capa dos dois livros.
Sobre o autoritarismo brasileiro.
Memórias da plantação - Episódios do racismo cotidiano.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano. Grada Kilomba.

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano, de Grada Kilomba foi o livro mais vendido na FLIP - 2019, pela livraria da Travessa, a livraria oficial do maior evento literário brasileiro. Foram 648 livros vendidos. O livro demorou dez anos para chegar ao Brasil. Originalmente escrito em inglês, ele foi lançado em Berlim, em 2008. No Brasil ele foi lançado pela Editora de Livros Cobogó. O livro é a sua tese de doutoramento pela Freie Universität Berlim, a Universidade criada por Berlim Ocidental, após a divisão da cidade nas suas duas partes.
O livo da Grada Kilomba, da editora Cobogó, R.J. - 2019.

Grada nasceu em Lisboa, com raízes em Angola, São Tomé e Príncipe. Em Lisboa estudou psicologia e psicanálise. Atualmente mora em Berlim, tendo sido professora no Departamento de Gênero da famosa Humboldt Universität, a histórica e laureada universidade de Berlim, que conta com 29 prêmios Nobel em seus quadros. Na orelha da contracapa lemos mais sobre Grada. "Na esteira de Frantz Fanon e bell hooks, a autora reflete sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo, e sua obra estende-se a performance, encenação, instalação e vídeo. Kilomba cria intencionalmente um espaço híbrido entre as linguagens acadêmica e artística, dando voz, corpo e imagem aos seus próprios textos". O seu espaço de apresentação é o mundo todo.

O título do livro Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano nos dá as primeiras pistas sobre os temas abordados. Talvez mais o subtítulo do que o próprio título, a não ser que mantenhamos o título no original inglês, plantations. A tradutora do livro, Jess Oliveira, em nota de rodapé, nos dá a definição de Plantation - "plantação em português, foi um sistema de exploração colonial utilizado entre os séculos XV e XIX, principalmente nas colônias europeias nas Américas, que consistia em quatro características principais: grandes latifúndios, monocultura, trabalho escravizado e exportação para a metrópole. Esse sistema criava ainda uma estrutura social de dominação centrada na figura do proprietário do latifúndio, o senhor, que controlava tudo e todas/os ao seu redor". Dá para perceber que não é muito diferente do agronegócio que hoje domina a agricultura brasileira.

Bem, agora já está claro, o tema do livro se compõe de duas categorias fundamentais: o colonialismo e o racismo, absolutamente indissociáveis. O subtítulo nos leva às cenas do racismo cotidiano. Cenas essas que tem origem num passado, que insiste em permanecer. São os depoimentos de duas mulheres negras, que vivem na Alemanha, Kathleen e Alícia, uma com ascendência estadunidense e outra, afro alemã. Elas foram as escolhidas, entre outras, pela riqueza de seus depoimentos. Grada faz a análise sob a luz da psicanálise. A tese mereceu, da exigente universidade alemã, um raro Summa cum Laude.

A edição brasileira ganhou uma carta de apresentação extremamente significativa. Grada conta um pouco de sua história e depois versa sobre as categorias básicas com as quais ela trabalhou no livro. Confesso que foi pela primeira vez que me deparei para refletir sobre a palavra sujeito na perspectiva de que, em nossa língua, ela não tem a forma feminina. Será que é uma alusão à impossibilidade de as mulheres se tornares sujeitos? Eita patriarcalismo. 

A introdução vale o livro. Ela tem, como frase em epígrafe o seguinte pequeno poema, pelo qual Grada mostra a sua preferência.

Por que escrevo?
Porque eu tenho de
Porque minha voz, em todos seus dialetos, 
tem sido calada por muito tempo.

Uma bela razão para escrever. No primeiro capítulo, A máscara, ela fala da "escrava Anastácia", de sua máscara, mais precisamente. A máscara a impedia de comer a cana de açúcar e os grãos de cacau, "mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?  Seria a máscara uma espécie de "Língua sem partido"?
A máscara da escrava Anastácia. A imposição do silêncio. 

Como não é tão extenso, tomo do próprio livro, de sua introdução, uma espécie de resenha: "O capítulo 1, A Máscara: colonialismo, Memória, Trauma e Descolonização,começa com a descrição de um instrumento colonial, a máscara, como um símbolo das políticas coloniais e de medidas brancas sádicas para silenciar a voz do sujeito negro durante a escravização: Por que a boca do sujeito negro deve ser amarrada? E o que o sujeito negro teria de ouvir? Esse capítulo aborda não apenas questões relacionadas à memória, ao trauma e à fala, mas também à construção da negritude como "Outra".

O capítulo 2, Quem pode falar?: Falando no Centro, Descolonizando o Conhecimento, discute questões similares no contexto acadêmico ou de erudição em geral: Quem pode falar? Quem pode produzir conhecimento? E o conhecimento de quem é reconhecido como tal? Neste capítulo, examino o colonialismo na academia e a descolonização do conhecimento. Em outras palavras, estou preocupada aqui com a autoridade racial e com a produção de conhecimento: O que acontece quando nós falamos no centro?

O capítulo 3,  Dizendo o indizível: Definindo o racismo.  Como se deveria falar sobre o que tem sido silenciado? Aqui, começo analisando o déficit teórico acerca do racismo e do racismo cotidiano e examino o que para mim é a metodologia adequada para falar sobre a realidade experienciada do racismo cotidiano de acordo com relatos de duas mulheres da Diáspora Africana: Alícia, uma mulher afro-alemã, e Kathleen, uma mulher afro-estadunidense que vive na Alemanha. Ambas narram suas experiências de racismo cotidiano a partir de suas biografias pessoais.

O capítulo 4, Racismo genderizado: "(...) Você gostaria de limpar nossa casa?" - Conectando raça e Gênero, é uma abordagem genderizada do racismo. Aqui, examino a interseção entre "raça" e gênero, bem como o fracasso do feminismo ocidental de se aproximar da realidade de mulheres negras no tocante ao racismo genderizado. Ademais, apresento os objetivos do feminismo negro.

Os capítulos seguintes constituem o verdadeiro centro deste trabalho. Aqui, as entrevistas com Alícia e Kathleen são analisadas em detalhes na forma de episódios e divididos nos seguintes capítulos: Capítulo 5: Políticas Espaciais; Capítulo 6: Políticas do Cabelo; Capítulo 7: Políticas Sexuais; Capítulo 8: Políticas da Pele; Capítulo 9: A palavra N (Neger) e o trauma; Capítulo 10: Segregação e contágio racial; Capítulo 12: Suicídio; Capítulo 13: Cura e Transformação. (Ao todo são examinadas 28 situações desse racismo cotidiano).

O livro conclui com o Capítulo 14, Descolonizando o Eu, no qual reviso e teorizo os tópicos mais importantes que vieram á tona neste livro, e também como possíveis estratégias de descolonização. Deixo as duas últimas frases: ... "Somos eu, somos sujeito, somos quem descreve, somos quem narra, somos autoras/es e autoridade da nossa própria realidade. Assim regresso ao início deste livro: torna-mo-nos sujeito.

Para terminar, mania de professor. Leitura obrigatória, como tarefa de humanização. Tem ainda seis páginas de referências bibliográficas sobre os temas abordados.