terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Estado pós-democrático. Neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rubens Casara.

Simplesmente um livro poderoso. Forte, já a partir de seu título. Estado Pós-Democrático. Neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Quem seriam estes indesejáveis? Isso sempre me remete a Adorno, ao seu livro Educação e emancipação, ao capítulo Educação após Auschwitz, à sua primeira frase: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção". E eu acrescento, à medida que este fato se distancia no tempo, menos ele recebe atenção.
Um livro que ainda causará muitos impactos.

Embora meio longo, apresento também o último parágrafo desse texto: "Em Paris, durante a emigração, quando eu ainda retornava esporadicamente à Alemanha, certa vez Walter Benjamin me perguntou se ali ainda havia algozes em número suficiente para executar o que os nazistas ordenavam. Havia. Apesar disto a pergunta é profundamente justificável. Benjamin percebeu que, ao contrário dos assassinos de gabinete e dos ideólogos, as pessoas que executam as tarefas agem em contradição com seus próprios interesses imediatos, são assassinas de si mesmas na medida em que assassinam os outros. Temo que será difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete, por mais abrangentes que sejam as medidas educacionais. Mas que haja pessoas que, em posições subalternas, enquanto serviçais, façam coisas que perpetuam sua própria servidão, tornando-se indignas; que continue a haver Bogers e Kaduks, contra isto é possível empreender algo mediante a educação e o esclarecimento".

Isso leva à duas questões. Quem seriam os assassinos de gabinete e quem seriam os executores dos novos extermínios planejados pelo Estado. E ainda uma terceira. Quem seriam as vítimas? Vejamos, mais uma vez, a força do título: Estado-Pós Democrático - Néo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. É o livro. Desvelar o que é o Estado Pós-Democrático e quem são os indesejáveis nesta configuração do Estado é o seu objetivo. Ele é de uma racionalidade lógica ímpar. Ele vai num crescendo de argumentos até deixar absolutamente clara uma realidade tão complexa.

Vou tentar uma síntese. O Estado Pós-Democrático sucede ao Estado Democrático de Direito. O Estado Democrático de Direito por sua vez sucedeu ao Estado Autoritário, mais conhecido sob os nomes de fascismo e nazismo. O Estado Democrático de Direito não é pleno no exercício do poder. É limitado por direitos definidos na Constituição e, por uma estrutura de Estado, na sua proteção. Como este Estado está abrigado dentro do sistema capitalista, ele sempre estará em movimento para a flexibilização dos direitos e da rigidez constitucional, especialmente, nos países que não tem uma tradição democrática.

Pois bem, este Estado, na medida em que nos afastamos das tragédias advindas com os Estados Autoritários, o poder novamente foi migrando para um poder total, dentro da lógica capitalista, de tudo direcionar para o econômico. A razão do esclarecimento que tendia para a autonomia do sujeito vai dando vez à razão instrumental, de acordo com Adorno na Dialética do Esclarecimento. Está aí o enunciado para o Estado Pós-Democrático. Ele é ancorado pela ideologia do neoliberalismo, a mais anti social das ideologias, em favor da absolutização dos princípios selvagens do livre mercado. O poder político se alinharia ao poder econômico e a ele se submeteria. Ele promove a fragilização do imaginário e do humano, adaptando um mundo de direitos à lógica do mercado e das mercadorias, mesmo conhecendo todos os mecanismos de exclusão que ele provoca. Por isso a necessidade de um complemento para este Estado Pós-Democrático, o Estado Penal. Penalizar  os indesejáveis, todos os "seres", mercadorias descartáveis.
Um livro forte. Uma grave denúncia.

Um outro livro me acompanha desde os anos 1990, A Armadilha da Globalização - O assalto à democracia e ao bem-estar social. Basta um olhada ao título do primeiro capítulo - A sociedade 20 por 80. Leia-se, 20 % de incluídos e 80% de excluídos. Para manter sob domínio estes 80% será necessário a instituição de um Estado de Exceção, um Estado que alivie a pobreza e que institua a repressão penal. Com o correr do tempo, o neoliberalismo foi construindo uma nova racionalidade, como nos mostra o livro, A Nova Razão do mundo - ensaio sobre a sociedade neoliberal. Nesta sociedade cabem apenas mercadorias. Tudo é transformado em mercadoria. Desaparecem todos os valores do humano. Até das religiões é retirado o caráter de transcendência. Tudo se materializa, tudo se coisifica. O desprezo pelo ser humano chega ao ponto de negar a alteridade, com toda a riqueza da diversidade.
O dinheiro tornou o ser unidimensional, a dimensão da mercadoria, do dinheiro


O livro é estruturado em 19 capítulos, dos quais, no intuito de provocar a leitura, eu apresento apenas os títulos, por serem praticamente autoexplicativos. 1. Do Estado Democrático de Direito ao Estado Pós-Democrático; 2. Neoliberalismo e estratégia de controle; 3. O finado Estado Democrático de Direito e sua aposta na superação do autoritarismo; 4. A exceção virou regra; 5. O empobrecimento do imaginário; 6. O crescimento do pensamento autoritário; 7. Sistema de Justiça Criminal: uma questão de poder; 8. O Sistema de Justiça Criminal e sua tradição autoritária; 9. A ideologia no Estado Pós-Democrático; 10. Poder Judiciário: de "garantidor" dos direitos a realizador das experiências  do mercado e dos espectadores.

11. O Ministério Público: da esperança democrática a agente pós-democrático; 12. Liberdade: um valor esquecido na pós-democracia; 13. A relativização do Sistema de Justiça Criminal; 14. A espetacularização do Sistema de Justiça Criminal; 15. Um tribunal que julgava para agradar a opinião pública; 16. O Estado Pós-Democrático no Brasil: gestão dos indesejáveis (a criminalização da pobreza e os casos do mensalão, da Lava Jato e do impeachment da presidenta Dilma); 17. Violência e corrupção no Estado Pós-Democrático; 18. Democracia: coragem para restabelecer as regras do jogo; 19. Em busca da liberdade perdida.

Chamo especial atenção para o capítulo 16, razão maior da escrita do livro. Nele todos os conceitos teóricos anteriormente apresentados são submetidos à análise dos acontecimentos brasileiros recentes, todos na direção da passagem do Estado Democrático de Direito para o Estado Pós-Democrático, para o Estado de Exceção em que estamos vivendo. Em suma, um livro de raro brilho e que nos ajuda a compreender o que se passa no mundo e, especialmente, no Brasil. E, na qualidade de educadores, lembrar que "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação".

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Lima Barreto.

Quanto mais leio o Lima Barreto tanto mais eu fico gostando dele. Praticamente li toda a sua obra, ao menos a que está disponível. Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é uma das obras que ainda me faltava. O li numa bela edição da Ateliê Editorial, com uma notável apresentação de Marcos Scheffel, responsável também por uma infinidade de notas explicativas, muitas delas relacionando fatos deste livro com outros de sua vasta obra.
A cuidadosa edição da Ateliê Editorial. Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.

Possivelmente Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e mais, as Recordações do Escrivão Isaías Caminha sejam os mais autobiográficos de seus livros. Eles chocaram bastante o público leitor. Mais o Isaías Caminha, por ter sido publicado mais cedo, em 1907, como folhetim e em 1909, como livro. Por causa da descrição das mazelas da imprensa ficou meio mal visto. Gonzaga de Sá já existia como projeto em 1906/1907. Dele foram encontradas anotações como esboço, esboço este presente na edição da Ateliê. O livro, no entanto, foi lançado apenas em 1919 e foi escrito um pouco antes desta data. Não teve boa recepção por parte do público. Monteiro Lobato achava o título pouco apropriado e chamativo.

O narrador de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Augusto Machado conhece Gonzaga de Sá na Secretaria dos Cultos, local em que trabalhava. Foi até lá por uma questão banal, de uma reclamação sobre o número de uma salva de tiros em recepção ao bispo de Tocantins. Tiros a menos. O narrador, que trabalhava no Ministério da Guerra, foi envolvido na solução do conflito e assim os dois se conheceram. Pouco depois Gonzaga morre e Augusto Machado lembra os fatos mais marcantes da forte amizade estabelecida. Gonzaga de Sá era um homem extremamente culto.

O livro é dividido em 12 capítulos, todos voltados para a reconstituição da vida e morte do notável personagem. No primeiro, o inventor e a aeronave, é narrado o encontro dos personagens envolvidos na solução do caso do bispo. O título é uma referência ao encontro de uma folha de papel almaço, em que Gonzaga de Sá descrevera um projeto seu, de construção de uma aeronave. No segundo, Primeiras Informações, o narrador dá as informações do personagem título. O Sá, de seu sobrenome, o remete aos fundadores da cidade. Traça um "croqui" do nobre descendente.

No terceiro, Emblemas Públicos, o personagem reclama da insuficiência existente na arte do desenho, que se refletirá na criação de selos e efígies públicos. Usa de profunda ironia. No quarto, Petrópolis, a origem nobre do personagem, como descendente dos fundadores da cidade, é retomada, lamentando também a decadência ocorrida com o decorrer do tempo. As cidades de Petrópolis e do Rio de Janeiro são caracterizadas. No quinto, O passeador, o personagem passeia pelo Rio de Janeiro e lamenta o progresso havido com o saneamento e a abertura de avenidas. O maior destaque vai para o Morro do Castelo que foi demolido e, junto com ele, marcos da história da cidade. Um capítulo particularmente belo. Profundamente autobiográfico, uma vez que Lima Barreto tinha fama de bom passeador.

No sexto, O Barão, as Costureiras e Outras Coisas, o alvo é um desafeto seu, o barão do Rio Branco. Através do Barão critica os costumes da política, como as nomeações, as mulheres, classes, povos e raças. Muita ironia. No sétimo, Pleno Contato, mais ironias sobre o funcionalismo público são apontadas. É mostrado um Barão que nada fazia, além de apontar o lápis. Narrador e personagem se aproximam, com o convite deste para um jantar. No oitavo, O Jantar, fica marcada a aproximação e muitos diálogos são estabelecidos. São comentados os costumes do interior e, de modo especial, são feitas referências a pouca cultura das elites brasileiras.

No nono, O Padrinho, mais críticas aos costumes são apresentados. Outro capítulo notável. A Rua do Ouvidor é utilizada para mostrar os desvarios da classe política. É o local onde se gasta toda a riqueza acumulada por meios nem sempre lícitos. Esta rua concentravam as lojas de luxo, fornecedoras dos regalos para as amantes francesas. Na descrição  dos cafés, sempre frequentados pelo narrador, encontramos Gonzaga de Sá buscando-o num deles, para acompanhá-lo a um enterro. No décimo, O Enterro, a narrativa prossegue. Mais andanças pela cidade, agora pelos bairros, até a casa de Romualdo de Araújo, o compadre de Gonzaga de Sá, onde ocorre o seu velório. Depois trazem o cadáver até a Central do Brasil e daí o levam num coche,  para o enterro no cemitério do Caju. Mais um capítulo notável, com fortes críticas sociais e a ausência deste tema na literatura brasileira. Depois do enterro vão ao Passeio Público e ainda sobra um tempo para jantar e continuar as reflexões.

No onze, Era Feriado Nacional, mais reflexões, agora sobre o Brasil, são apresentadas. Gonzaga de Sá não entendia o entusiasmo cívico do povo que assistia aos desfiles que levavam ao Catete. Depois ele é acometido de um pessimismo profundo ao ver a manipulação deste povo de pastor e rebanho. Terminam num espetáculo lírico observando o comportamento, especialmente, das damas. No doze, Últimos encontros, se discute o futuro de Aleixo, o afilhado órfão de Gonzaga de Sá. É o momento em que trocam ideias sobre a educação.
A notável biografia de Lima Barreto, lançada em 2017.

Transcrevo uma parte deste capítulo final, que creio que seja uma síntese do que foi a vida de desencontros de Lima Barreto, apresentado como "triste visionário", na magnífica biografia escrita por Lília Schwarcz. O narrador descreve a preocupação de Gonzaga de Sá em fazer de Aleixo um sujeito, gente. Isso lhe trazia esperança e alegria. Mas Gonzaga não vê o resultado desta educação, pois foi colhido pela morte, quando o encaminhava para o curso preparatório.

Vejamos a fala do narrador: "Bênçãos a ambos (a tia e o menino), que na sua missão educadora, souberam ser bons, sem interesse e sem cálculo de espécie alguma, apesar de todos os dois terem concorrido para ampliar, com o hábito de análise e reflexão que o estudo traz, a consciência da criança que devia ficar restrita aos dados elementares para o uso do viver comum, sem que viessem surgir nela uma mágoa constante e um fatal princípio permanente de inadaptação ao meio, criando-lhe um mal-estar irremediável e, consequentemente, um desgosto da Vida mais atroz do que o pensamento sempre presente da morte".

Creio que Lima Barreto foi o mais bem formado, ao menos o de maior escolaridade, entre os escritores brasileiros até a sua época. O emprego permanente que conseguiu, e que lhe proveria o sustento, foi apenas o de amanuense no Ministério da Guerra. Na sua literatura colocou as dores de sua existência e as que o seu meio lhe proporcionou e, por isso, não foi bem compreendido. Em suma, sempre foi aproveitado muito aquém de suas possibilidades e, por isso mesmo, um inadaptado, um "triste visionário".

sábado, 6 de janeiro de 2018

Histórias da gente brasileira. Volume 3 República. Memórias 1889 - 1950. Mary del Priore.

Sempre é muito agradável ler Mary del Priore. O livro da vez foi o Histórias da gente brasileira. Volume 3. República. Memórias (1889-1950). Lembrando que o primeiro volume da coleção fez a abordagem do Brasil colonial e o segundo, o período do império. Mais uma vez a autora primou pela originalidade, buscando nos grandes memorialistas os fatos e a sua interpretação deste período de nossa história. Ao final existe uma mini biografia destes notáveis, bem como os livros utilizados para a produção deste livro.
Neste livro os memorialistas brasileiros ganham voz.

A leitura corre fluente e agradável, por uma narrativa que sempre excita a curiosidade. É o mais longo dos livros da coleção, contando com 572 páginas. O primeiro volume tem 427 e o segundo 515. Três tópicos são apresentados e analisados. A primeira parte tem por título: Política, terra e trabalho; a segunda, Morar, consumir e comunicar e a terceira O relógio da vida: nascer, amar, perder. Acompanha ainda glossário, as mini biografias e as referências bibliográficas. No pequeno prefácio é apresentada a opção pelos memorialistas.

A primeira parte, Política, terra e trabalho, está dividida em 15 capítulos: 1.Tempo de mudanças e medo - cabeças cortadas. O foco está nos primeiros e difíceis anos da República Velha, a República da Espada e as revoltas regionais. 2. O Bota-abaixo e a Revolta da Vacina - Café amargo e leite azedo - A guerra de pelados e peludos. A análise foca a modernização e higienização na cidade do Rio de Janeiro e a política do Café com Leite e, ainda, a Guerra do Contestado. 3. Guerra de papel e guerra de sangue. O foco está na primeira guerra mundial, nas primeiras greves dos trabalhadores e na guerra entre federados e republicanos no Rio Grande do Sul. 4. A revolução esquecida e a outra sempre lembrada. Respectivamente, a de São Paulo, em 1924 e a Coluna Prestes.

5. O silêncio dos seringais e o vento soprando do sul. Versa sobre o ciclo da borracha e a instalação do governo Vargas. 6. São Paulo livre, civil e paulista. Versa sobre a elite paulista e Revolução de 1932, a constitucionalista. 7. A voragem, Anauê! Imundas prisões. São vários os temas: as Constituições de 1934 e 1937, a Intentona comunista e os integralistas e as prisões do Estado Novo, em Fernando de Noronha e Ilha Grande. 8. A cobra vai fumar!  for all ou forró. É sobre a participação brasileira na segunda guerra mundial e a maciça presença de soldados americanos em Natal. 9. A guerra em casa. O tema é a imigração e a configuração e organização partidária na política brasileira. 10. O "Pai dos Pobres". Versa sobre o "populismo" e a guerra fria, sobre o nacionalismo versus imperialismo.

11. O aprendizado das cidades. Do norte ao nordeste. É a vida urbana surgindo e a separação classista do povo pelos bairros das cidades, os cortiços e as favelas e mais as capitais do nordeste. 12. Babel e Babéis. Sobre as grandes metrópoles de São Paulo e Belo Horizonte. 13. Caipiras, caiporas e jecas-tatus. A estigmatização de Monteiro Lobato ocupa a centralidade. 14. O último dos brasis e a descoberta da praia. Rondon, o SPI e a interiorização e os hábitos dos banhos e trajes à beira mar. 15. Os trabalhos e os dias: desordem e progresso. A vida urbana, os trabalhadores, a ascensão da classe média, a legislação trabalhista e o trabalho feminino.

A segunda parte, morar, consumir e comunicar, está dividida em 14 capítulos. 1. Tempos modernos: nas asas e nos trilhos. No ar, os aviões e nos trilhos, trens e bondes. 2. Fom-Fom: sai da frente que eu quero passar. É fácil imaginar que este capítulo trata da emergente indústria automobilística. 3. Morar bem ou morar mal. São mostrados os contrastes entre os ricos palacetes e os subúrbios urbanos e, ainda, o surgimento dos primeiros conjuntos habitacionais para os trabalhadores. 4. A era de ouro do rádio. As primeiras transmissões, Vargas e a sua utilização política, os artistas do rádio e as fofocas e, depois da guerra, o surgimento da televisão. 5. Alimentação: costumes, saberes e sabores. A melhora da conservação com a geladeira é um dos focos, assim como os vendedores ambulantes.

6. A fome e como saciá-la. Versa sobre a fome e os hábitos alimentares e sobre o que se comia. 7. A vida pós abolição. Um capítulo muito forte sobre o triste dia seguinte. Postos à margem. A decadência do Vale do Paraíba. 8.Tudo limpo? Ainda não... Sobre limpeza, higiene e a higiene pessoal. 9. Diversões das cidades grandes e pequenas. Bailes e danças, o teatro e suas coristas e o circo. 10.O encanto da tela, da música e da conversinha. O cinema e as revistas sobre ele e o incendiar do imaginário. Serenatas, conversas e mexericos.

11. Ala-la-ôoo ôoo ôoo. É óbvio que é sobre o carnaval e a sua evolução, dos cordões aos ranchos e às escolas e, ainda, os clubes. 12. Festas de santos ainda e sempre. Sobre as festas juninas e as diferentes festas regionais. 13. Do sport ao esporte. A questão feminina e os esportes, a sexualidade e os trajes da natação e, enfim, o futebol. 14. No espelho, espelho meu, elas e eles. Sobre os hábitos de higiene pessoal e artigos de beleza e moda.

A terceira parte, o relógio da vida: nascer, amar, perder, está dividido em dez capítulos. 1. Duzentos e setenta dias mais ou menos. Sexualidade, parto e maternidade é o tema. 2. Os primeiros anos. os primeiros passos. Os memorialistas contam  de sua infância, de trabalhos e brinquedos. 3. Primeiras letras. O tema é a escola e são apresentados relatos sobre o processo, especialmente, sobre os castigos físicos. 4. Adolescência: descobertas e "desejos em botão". As descobertas do corpo e a sexualidade, a sua iniciação. O feminino e o masculino. 5. Namoros: os "sérios" e os outros. Os diferentes passos e costumes.

6. Felizes ou infelizes para sempre. Versa sobre comportamentos adequados, separações, desquites e a infidelidade. 7. Amores à margem, amores proibidos. Versa sobre os "amores invertidos" e sobre os processos de "cura". 8. De cama: infecções, doenças e outros males. As diferentes epidemias, espanhola, tuberculose, febre amarela, sífilis, a saúde pública e assistência médica. 9. Coração de luto. Uma referência a música do Teixeirinha. Versa sobre a morte, luto, enterros e cemitérios. 10. O país do futuro ou um país de futuro? É um pequeno capítulo recheado de dúvidas e interrogações sobre o futuro deste país. Stefan Zweig é tomado como referência. E é anunciado o quarto volume da coleção: O turbilhão dos anos 1951 a 2000.

Um livro muito prazeroso de se ler. Mary del Priore mostra o quanto realmente conhece o Brasil, conhece os memorialistas e os usa com a devida e plena adequação. Boa leitura.




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Três passagens sobre o Código Civil ou o Código de Napoleão.

Creio que ao longo do tempo adquiri uma certa compreensão do processo histórico. Dentro desta compreensão logo percebi toda a importância do Código de Direito Civil, também denominado Código de Napoleão. Ele foi o grande responsável pelo ordenamento burguês que seguiu aos agitos populares da primeira fase da Revolução Francesa. Destaco aqui três depoimentos. O primeiro, o retiro de uma biografia de Napoleão Bonaparte de autoria de Pascale Fautrier:
A bela biografia de Napoleão Bonaparte, de Pascale Fautrier.


"De seu gabinete Bonaparte precisava dar apenas alguns passos para chegar às sessões do Conselho de Estado, instalado na ala direita das Tulherias. Essas sessões eram uma ocasião para o Primeiro- Cônsul, depois imperador, colocar em cena publicamente seu poder: ele era visto tendo homéricos ataques de cólera, acusando este ou aquele, parabenizando aquele outro cujo apoio queria obter, fingindo levar em consideração alguns argumentos para melhor refutá-los a seguir etc. Ele teve controvérsias terríveis, mas podemos duvidar que tenham sido tão livres quanto afirma o Memorial (uma espécie de livro de memórias). Podemos confiar em Stendhal, que foi ouvinte no Conselho de Estado (a partir de 1810) e que admirou o grande homem quando escreve em sua Vida de Napoleão: "Criado pelas ideias militares, a deliberação sempre lhe pareceu uma insubordinação. A experiência todos os dias lhe provava sua imensa superioridade, e ele desprezava demais os homens para admiti-los na deliberação de medidas que ele havia julgado salutares".

Foi quando o Código Civil foi discutido por dois anos: seria promulgado no mesmo dia do assassinato do duque d'Enghien, 21 de março de 1804, conforme observado por Chateaubriand.

"Comprometido com o direito romano e o direito consuetudinário, com o Antigo Regime e a Revolução", o código de Napoleão, como foi batizado em 1806, arcou um nítido recuo em relação à legislação revolucionária sobre  a questão do direito das mulheres, consideradas como menores, do divórcio e sobre os direitos à herança dos filhos naturais: "A vontade do pai voltava a ser a base da célula familiar. "Qual o exato papel desempenhado por Bonaparte na redação desse código "feito para uma sociedade conservadora, que só se interessa pela propriedade da terra? Concentrado, quando não estava, batendo com o canivete no braço da poltrona ou escrevendo dez vezes seguidas "Vocês são todos uns malfeitores" ou " Meu Deus, como vos amo", num pedaço de papel, aspirando tabaco sem parar e às vezes cochilando (principalmente ao fim do Império), o primeiro-cônsul decidia em caso de conflito. Todavia, o "bloco de granito" do Código Civil, que sancionou, apesar de seu caráter conservador, a igualdade das pessoas diante da lei (exceto as mulheres), o grande ganho de 1789, foi obra sobretudo de Portalis, Tronchet e Maleville".

Ainda existe uma nota explicativa ampliando a influência de Napoleão sobre outros códigos. Eis a nota: "É difícil avaliar a contribuição exata de Bonaparte na redação dos códigos: além do Código Civil, o Código de Procedimento Civil (1806), o Código de Comércio (1807), o Código de Instrução Criminal (1808), o Código Penal (1810) e Rural (1814, a Cour de Comptes (1807). Isso tudo não foi pouco.
O monumental livro de Leo Huberman.


O segundo depoimento, o retiro de um livro que me acompanha desde os anos 1980, A História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman. Destaco quatro parágrafos: "É uma descrição exata do que ocorreu. Depois que a Revolução acabou, foi a burguesia quem ficou com o poder político na França. O privilégio de nascimento foi realmente derrubado, mas o privilégio do dinheiro tomou o seu lugar. "liberdade, Igualdade e Fraternidade" foi uma frase popular gritada por todos os revolucionários, mas que coube principalmente à burguesia desfrutar.

O exame do Código Napoleônico deixa isso bem claro. Destinava-se evidentemente a proteger a propriedade - não a feudal, mas a burguesa. O Código tem cerca de 2.000 artigos, dos quais apenas 7 tratam do trabalho e cerca de 800 da propriedade privada. Os sindicatos e as greves são proibidos, mas as associações de empregadores permitidas. Numa disputa judicial sobre salários, o Código determina que o depoimento do patrão, e não o do empregado, é que deve ser levado em conta. O Código foi feito pela e para a burguesia: foi feito pelos donos da propriedade para a proteção da propriedade.

Quando o fumo das batalhas se dissipou, viu-se que a burguesia conquistara o direito de comprar e vender o que lhe agradasse, como, quando, e onde quisesse. O feudalismo estava morto.

E, morto não só na França, mas em todos os países conquistados pelo exército de Napoleão. Este levou consigo o Código de Napoleão. Este levou consigo o mercado livre (e os princípios do Código Napoleônico) em suas marchas vitoriosas. Não é de surpreender que fosse bem recebido pela burguesia das nações conquistadas! Nesses países, a servidão foi abolida, as obrigações e pagamentos feudais foram eliminados, e o direito dos camponeses proprietários, dos comerciantes e industriais, de comprar e vender sem restrições, regulamentos ou contenções, se estabeleceu definitivamente".
A análise de Marx da Revolução burguesa na França.


O terceiro depoimento o retiro do mesmo livro de Leo Huberman, numa citação sua do Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, escrito em 1852: "Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint Just, Napoleão, os herois e os partidos e massas da grande Revolução Francesa... ... terminaram a tarefa da época - que foi a libertação da burguesia e o estabelecimento da moderna sociedade burguesa. Os jacobinos revolveram o terreno no qual o feudalismo tinha raízes, e abalaram a estabilidade dos magnatas feudais que nelas se apoiavam. Napoleão estabeleceu por toda a França as condições que tornaram possível o desenvolvimento da livre concorrência, a exploração das terras depois da divisão das grandes propriedades, e a plena utilização da capacidade de produção industrial do país. Através das fronteiras, por toda parte, fez uma derrubada das instituições feudais..."

A burguesia foi a grande ganhadora com todo o processo revolucionário. Marx ganhou a disputa ideológica entre as esquerdas. O seu pensamento se tornou hegemônico entre a classe trabalhadora.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Napoleão Bonaparte. Pascale Fautrier.

Embora compreendendo toda a importância histórica de Napoleão Bonaparte, nunca tinha lido algo de mais substancioso a seu respeito. O fiz agora, lendo Napoleão Bonaparte de Pascale Fautier, numa edição da L&PM. Dificilmente poderia ter feito uma escolha melhor. O livro se centra exatamente sobre os significados de Napoleão, a "última das grandes existências individuais", no dizer de Chateaubriand e " a primeira das existências modernas: das quais precisaram forjar por si mesmas seu destino sem dever nada ao nascimento", no dizer da autora.
 Um livro cheio de significados e da importância de Napoleão.

O livro é formado por seis capítulos, mais prólogo e um precioso epílogo. Os capítulos tem os seguintes títulos: Napoleão Bonaparte, ou como ser corso; A Revolução Francesa: amputação córsica e conversão à nação revolucionária; De Robespierre a Barras, de Toulon ao 13 vendemiário; O general Bonaparte; O momento Cromwell, ou as loucuras imperiais: Austerlitz e Waterloo, triste planície. São 319 páginas.

O prólogo, como não poderia deixar de ser, apresenta Napoleão como o definidor das políticas modernas, após as convulsões revolucionárias do mundo posterior às monarquias absolutas. ´Trata-se de uma memorável apresentação dos significados de Napoleão para a história.

O primeiro capítulo versa sobre os anos de infância e juventude de Napoleão em seu país natal, a ilha de Córsega, denominada como a "terra da liberdade". A ilha é próxima da cidade de Gênova, da qual recebeu as mais fortes influências. O pai de Napoleão morre cedo, aos 39 anos, (ele estava com 16) de câncer no estômago, doença que também vitimaria o general. O nome do pai era Carlo, nome do qual Napoleão procura tirar proveito em favor de uma nova dinastia carolíngea. Seu pai lutou para que a Córsega se tornasse francesa. Napoleão leu muito e poderíamos dizer que teve uma formação clássica dentro do espírito do iluminismo. Ingressa na carreira militar, na cavalaria.

O segundo capítulo, o mais longo deles, é dedicado aos anos da Revolução, das primeiras insurreições até a República. Diante do terror, Napoleão sempre se mostra um conservador, sempre ao lado da "ordem". Napoleão cresce sob a influência de Robespierre e vamos encontrá-lo em Toulon, já como general, preocupado com a reorganização das forças da artilharia. Assiste ao fim das agitações populares e já frequenta os círculos mais íntimos do poder, junto a Barras. Casa-se com Josephine e recebe o comando das tropas que irão combater na Itália. Napoleão terá outros amores, para além de Josephine.

No terceiro capítulo entra em ação o general Bonaparte, na campanha da Itália. Ali nasce e cultiva o sonho de ser o Alexandre dos tempos modernos. Dividir o butim e fazer propaganda de seus feitos alimentaram o mito do gênio militar junto ao Diretório. Desaprende as lições da soberania popular de Rousseau em favor do culto à personalidade do chefe. É também o tempo de sua famosa campanha no Egito e de sua derrota para o almirante Nelson

O quarto capítulo, de apenas 6 páginas, é aberto por uma significativa frase em epígrafe, de autoria de Chateaubriand. "O 18 brumário se encerra; o governo consular nasce, e a liberdade perece". Napoleão anuncia o fim dos ciclos revolucionários. É a fase do golpe parlamentar e militar. Para Napoleão tudo passa a ser cálculo.

O quinto capítulo é marcado pela fase das acomodações internas e das guerras a qualquer preço. Em suas memórias ditadas a Las Cases, ele meio que parafraseou Luís XIV, afirmando "O Estado fui Eu". É a fase da restauração da monarquia, da sua coroação em Aix la Chapelle, na tentativa de uma nova restauração carolíngea. É a fase do Código civil ou o Código de Napoleão. É o tempo de sua paixão pelo Poder e das maiores ofensivas contra a Inglaterra, como o famoso Bloqueio Continental, contando com o total apoio da burguesia francesa. Napoleão fez do ataque a sua grande estratégia militar.

O sexto e último capítulo é dedicado a Austerlitz e Waterloo. É o tempo das derrocadas. Sobre a campanha da Rússia Tolstoi em Guerra e Paz afirma que ele estava "sobre a fria mecânica do poder". Ele reconhece seu erro sobre o tempo de permanência na Rússia: "Estive em Moscou, pensei que assinaria a paz. Lá fiquei por tempo demais. Cometi um grande erro, mas terei como repará-lo". Ao final das campanhas, encerradas em Waterloo, quando uma alternativa ainda lhe restava, o quarto estado ou a "canalha", ele desistiu. Isso significaria recomeçar toda a revolução, agora em favor do povo, que ele abandonara ao longo do processo. Aí ele proclama: Estou sozinho diante da Europa. Esta é a minha situação". 

O Epílogo é uma rara preciosidade. Versa sobre o degredo de Napoleão sob custódia inglesa, na ilha de Santa Helena. Ali permanece até a sua morte em 1821, acometido também por um câncer de estômago. É um tempo de melancolia, de tendências suicidas e de escrita. Só que em vez de escrever ele ditava para o seu "fiel escudeiro", Las Cases, as suas reflexões, que junto com as observações deste resultou no Memorial de Santa Helena. Neste epílogo ele é apresentado como o Messias moderno da política. Seus restos mortais estão hoje em Paris, no Palácio dos Inválidos. Este Memorial me despertou bastante interesse. Por ele se construiu muito do mito de Napoleão.

A biógrafa recorre a uma frase de Michelet para encerrar o seu livro: "Napoleão Bonaparte tem a horrível honra de ter confirmado e aumentado um mal muito natural ao homem, a adoração da força brutal e a idolatria do sucesso". Antes já afirmara que ela não poderia em nada mascarar ou desculpar os seus erros criminosos. Uma nota de rodapé os menciona: "Lembremos aqui especialmente os mais incontestáveis: os quatro mil prisioneiros otomanos degolados em Gaza, a incompreensível aventura espanhola, os cem mil mortos (no mínimo) na retirada da Rússia, que poderiam ter sido evitados com um regresso menos tardio, os mortos de Fleures ou de Waterloo, preço a ser pago pela "aventura " romanesca dos cem Dias". Quanto ao código de Napoleão vou preparar um post especial.

Como a frase de abertura do primeiro capítulo me marcou profundamente, a deixo aqui transcrita. Ela é válida não apenas para Napoleão. Ei-la: A inteligência, mesmo a mais aguda inteligência de ação, é conservadora: o homem raciocina a partir de poucos elementos, em geral adquiridos ao longo de sua formação. Os complementos mais sutis ou mais específicos recolhidos posteriormente têm dificuldade para modificar as grandes linhas de força dessa bússola antiga que funciona para a vida toda, sobretudo nos momentos de crise". Quantas pessoas permanecem neste estágio de suas vidas!


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Santa Evita. Tomás Eloy Martínez.

Aproveitando um tempo livre, empreendi uma viagem. Como não conhecia Santiago, aproveitei para marcar duas cidades. Além de Santiago, incluiria também Buenos Aires, que eu conhecia de uma viagem em meados anos de 1980. Era moda e muito barato ir a Buenos Aires. Na época a guerra das Malvinas ocupava o foco dos noticiários. Já naquele tempo a história de Evita me chamou atenção, especialmente, pelas recomendações que recebia para visitar seu túmulo no cemitério da Recoleta, o que eu não fiz na época.
O jazigo da família Duarte no cemitério de la Recoleta.

Evita também me remete aos tempos de minha infância, por uma vaga lembrança, da qual desconheço as origens, mas como eu estava no seminário, a única fonte só poderia ser a dos padres. Falar de Evita remetia a um escândalo sem tamanho. O presidente da Argentina era casado com uma biscate, com uma artista. Os dois termos praticamente se equivaliam à época. Agora, lendo Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez e postando uma frase do livro no facebook, de imediato ganhei uma resposta à postagem. El biscatón. Assim se referia a Evita um certo senhor. Certamente este deve ter sido um conceito muito cultivado pelos muitos inimigos que Evita teve, especialmente, nos círculos militares, que depuseram o governo de Perón, em 1955, três anos após a sua morte.

Nesta viagem, a visita à Recoleta estava entre as prioridades. Eu estava hospedado na Rua Marcelo T. Alvear e no city tour fiquei bem atento aos lugares por onde passamos. Buenos Aires é uma cidade com grandes marcos que ajudam muito na orientação. Estes marcos são referenciais. A minha rua cruzava com a avenida mais larga do mundo, a 9 de julho, e por ela segui em direção ao cemitério, tendo como guia apenas um mapa. Não precisei nem pedir informações. Cheguei bastante cedo e ainda não havia muita gente. O túmulo é bastante simples, não condizendo com toda a fama que tem. Na volta, de novo pela 9 de julho, bem para frente, outra presença de Evita na cidade. No Ministério da Ação Social, está ela falando com o povo, assim como o fazia de uma janela da Casa Rosada.
Evita discursando para os grasitas ou descamisados. Cena comum em uma das janelas da Casa Rosada.


Já de volta, tomei a decisão de ver uma boa biografia de Evita. Parei na primeira que o Google me indicou. Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez. Este autor tem muitos créditos comigo, pelos seus Cantor de Tango e O vôo da Rainha, da coleção Plenos Pecados, em que fala sobre o pecado capital da soberba. Santa Evita é um romance biográfico. Realidade e ficção se encontram ao longo de todo o livro. Mas a parte biográfica é muito boa, fruto de muita pesquisa e entrevistas com pessoas que efetivamente tinham o que dizer. Tomás Eloy também é biógrafo do presidente Perón.

Evita teve uma vida muito curta e cheia de sofrimentos, desde a infância, como filha ilegítima, que não mediu esforços para ser artista. Nasceu em Los Toldos (1919) e com apenas 15 anos vai à capital em busca do sonho de ser atriz. Se envolveu com artistas já consagrados e com empresários, donde lhe veio a fama a que nos referimos no início e que foi, obviamente, explorada à exaustão pelos muitos inimigos. Circulou até um livrinho sob o título El Kamasutra pampeano. Num movimento em favor de vítimas de um terremoto da cidade de San Juan, conheceu o presidente da República, Juan Domingo Perón. Isso foi no ano de 1944. Pouco depois estavam casados. No poder, teve ascensão meteórica, se transformando no mito consagrado que foi. Seu cabeleireiro lhe clareou o cabelo e fez o coque que marcou a imagem que percorreu o mundo. Tudo isso está contado em amplos detalhes.

Evita viajou o mundo e se entregou a uma vida luxuosa e, na qualidade de primeira dama, se transformou na "chefe espiritual da nação", tendo a sua imagem associada à bondade e à generosidade. O povo a queria na vice presidência da República, mas Perón resistia. Foi acometida de câncer e teve morte em questão de pouco tempo, em 1952. Aí começa efetivamente o romance. O corpo foi embalsamado, num caro trabalho de rara perfeição. Em 1955 ocorre um golpe de Estado por parte dos militares, que tramavam contra Perón praticamente ao longo de todo o seu governo. O ódio destes militares, que resistiam obedecer a uma mulher, pode ser traduzido por uma frase inscrita nos muro na cidade "Viva o Câncer". Militares e trabalhadores começam a disputa pelo cadáver.
Santa Evita o belo romance biografia de Tomás Eloy Martínez.


Transcrevo a contra capa do livro para situar o romance: "Quando Eva morreu, em 1952, seu marido, o general Juan Domingo Perón, ordenou que seu corpo fosse embalsamado e exposto à nação argentina numa redoma de vidro. Três anos depois, quando o ditador caiu, o cadáver de Evita tornou-se um fardo pesado demais para qualquer regime.
Assim teve início uma das mais insólitas peregrinações de que se tem notícia. Sequestrado pelo Serviço de Inteligência do Exército (Haja inteligência!), o cadáver vagou semanas pelas ruas de Buenos Aires, estacionou durante meses nos fundos de um cinema, prestou-se a todo o tipo de paixões no sótão da casa de um capitão desmiolado até reaparecer, dezesseis anos mais tarde no velho continente".

Os grandes personagens do livro são Evita, obviamente, a sua mãe, presente ao longo de todo o livro, o coronel Moori Koenig (rei do lamaçal) o comandante do Serviço de informações, encarregado de cuidar do cadáver e o louco capitão necrófilo, que auxilia o coronel em seu insano trabalho. A descrição destes personagens também é muito interessante. O livro foi apresentado ao público argentino em 1995, ganhando edição brasileira já no ano de 1996, com tradução de Sérgio Molina. Tem 338 páginas divididas ao longo de 16 capítulos. O escritor também foi uma das grandes vítimas da violenta ditadura militar dos anos 1970.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Topless. Martha Medeiros.

Desta vez foi o vestibular da Unicamp que me levou a este livro. Está incluído na sua relação. É um livro de crônicas. É fácil para alunos do ensino médio interpretarem um livro de crônicas? Creio que para os atentos sim, mas para os desavisados, deve ser um suplício. Mas ele tem uma vantagem, ele obriga os alunos a darem atenção ao cotidiano. O que é enfim uma crônica? Crônica tem a ver com o tempo, com o cronos, com a cronologia. Um olhar atento que interpreta os acontecimentos de seu tempo. Seria isto uma crônica? Creio que sim.
54 crônicas revivendo os anos 1995, 1996 e 1997.  Muitos olhares.

No caso de Topless, o olhar atento é o da gaúcha Martha Medeiros, vivendo na cidade de Porto Alegre, observando os acontecimentos dos anos de 1995, 1996 e 1997. As crônicas são bastante uniformes quanto ao tamanho, certamente uma exigência do jornal que as publicava. O livro é uma coletânea de 54 destas crônicas. O que estava acontecendo neste tempo? Nada de especial, embora final de século e de milênio. Assistíamos ao governo de FHC, anos duros de neoliberalismo. Mas a política não recebe muitos enfoques da escritora.

O título, Topless, tem certamente um duplo significado. Tanto pode ser o título de uma de suas crônicas, versando sobre a caretice dos costumes pela não prática deste hábito em nossas praias, como pode também, e aí mais significativamente, estabelecer uma relação com o desnudar. Ao menos é isso que lemos na contracapa do livro da Editora L&PM: "Em Topless, sem pudor algum, Martha Medeiros desnuda o dia a dia em 54 textos que revelam porque é ela conhecida como uma das mais importantes cronistas do Brasil. Ao olhar para o cotidiano, a escritora transforma o trivial em crônica, e a crônica em poesia e atualidade".

Esta contracapa continua a nos dar pistas sobre o conteúdo de suas crônicas: "Comenta e traz para o debate todas as normalidades e esquisitices do homem e da mulher moderna, com suas neuroses e anseios, medos e expectativas, fazendo um verdadeiro retrato de nossa época. Comenta filmes e livros, fala sobre o medo da morte, destrincha as agruras e as felicidades do casamento, tudo numa prosa ágil e límpida".

Este olhar sobre as instituições e costumes realmente ocupa a maior parte de suas crônicas. É um olhar feminino, feminista e moderno. Ela nasceu em 1961 e está escrevendo na segunda década dos anos 1990. Ela retrocede aos anos 1970, década em que completara seus 15 anos e aos 1980, quando, consequentemente, viveu a faixa de seus 25 anos. Gostei particularmente, da crônica Década de 70 - A adolescência do feminismo. Nela faz uma bela descrição das diferenças e da evolução dos anos 70 para os anos 80. 

Também gostei de Orlando X Veneza, onde traça paralelos culturais entre os Estados Unidos e a Europa, entre as cidades europeias e as dos Estados Unidos e vejam só a beleza dessa tirada sua: "A Europa não produz mercadorias, produz estilo de vida. Não estimula concorrência, estimula convivência. Não pensa apenas em construir, mas em preservar. E sabe que um único cálice de vinho contém mais história do que duzentas máquinas de Coca-Cola". Talvez a globalização já tenha tornado o mundo mais uniforme, ao menos  sobre as questões iniciais da frase, mas a do vinho é universal e atemporal. Também outra de suas crônicas, a Vestidos para matar, que fala de uniformes e a sua desmistificação, é notável. Ela lembra Sarney e o fardão da Academia. "Que escritor sonha hoje em vestir o fardão da Academia Brasileira de Letras e equiparar-se a José Sarney.

Para terminar, a lembrança de mais uma das crônicas, Grande África, que também, bem define o que é uma crônica em sua relação com o tempo, ou seja, o uso e a consagração de expressões de moda usuais em um tempo e já destituídas de significado em outro. Ela faz um pequeno exercício: "Querido diário. Ando meio jururu. Não fui convidada para o bota-fora da Penélope. Ah!, grande África. A festa vai ser numa big casa mas isso não quer dizer chongas. A Soninha me contou que vai todo mundo na maior estica e que o Rodrigo vai pegar a caranga do pai dele escondido. Credo, se ele for pego na tampinha vai levar um carão. Ou até uma sova.....". Conseguiu se identificar. Não é papo de um jovem dos dias de hoje, certamente.

Também as crônicas estão permeadas de valores, prevalecendo sempre um olhar moderno, feminino e emancipado e, humano. Um belo olhar sobre o seu tempo. Na crônica Os livros da nova era, ela faz uma bela declaração de amor aos livros e de estímulo para o hábito de ler. O livro é uma bela retrospectiva sobre a última década do século XX, que ela observou, especialmente, sob o olhar da mudança de hábitos e de costumes.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Boca do Inferno. Ana Miranda.

Há muito eu queria saber algo a mais sobre Gregório de Matos Guerra, algo a mais do que o Boca do Inferno, simplesmente. Como já havia ouvido falar muito do livro de Ana Miranda, foi pelo seu livro que procurei o algo mais. Uma agradável surpresa. O livro Boca do Inferno é muito mais do que uma biografia. Vai para uma descrição de época, do que era a cidade da Bahia (Salvador), a capital da colônia, ao final do século XVII, especialmente a década de 1680. O livro de Ana Miranda, publicado no ano de 1989, é fruto de uma rigorosa pesquisa histórica, como dá para ver nas fontes pesquisadas, ao final do livro.
O primoroso livro de Ana Miranda. Muito mais do que uma biografia.

Além dos dados biográficos de Gregório de Matos Guerra (1636 - 1696) também encontramos dados sobre o padre Antônio Vieira (1608 -1697), o famoso e poderoso jesuíta, orador sacro, crítico dos costumes e defensor das causas indígenas e dos judeus. Os fatos narrados se passam na Bahia, onde encontraremos os dois, e os dois de um mesmo lado, ao lado da família dos Ravasco, em briga com o governador geral, Antônio de Souza Menezes e o alcaide Francisco de Teles de Menezes. O livro biográfico também é um belo romance que torna o leitor cativo até os desenlaces finais.

O livro se divide em seis partes, a saber: 1. A cidade, num único capítulo; 2. O crime, descrito ao longo de dez sub capítulos; 3. A vingança, esta descrita ao longo de onze sub capítulos; 4.  A devassa, apresentada em cinco sub capítulos; 5. A queda, que é rápida e mostrada em dois sub capítulos e 6. Epílogo - Destino, num único bloco mostrando o destino final dos principais personagens envolvidos no conflito, pelos dois lados.

"A cidade" cenário dos fatos é a cidade da Bahia, capital geral da colônia. O capítulo descreve os costumes e, especialmente, as contradições da cidade, entre o fausto da riqueza e a miséria generalizada da população. Também sobra para os desmandos do poder e os antagonismos tão próprios à disputa de poder, mesmo em tempos de poder real absolutista. O Boca do Inferno aparece na história como o "escravo das prostitutas". Farto material para sátiras!

"O crime" é o assassinato de Francisco de Teles de Menezes, o alcaide da cidade, aliado do governador, Antônio de Souza Menezes, supostamente cometido pelos Ravasco. É a briga entre as famílias Menezes e Ravasco, nos anos de 1680. O chefe dos Ravasco é Bernardo, irmão do padre Antônio Vieira. Gregório entra na história pela sua aliança com os Ravasco e por um de seus amores, Maria Berco, criada da família Ravasco e que foi envolvida no assassinato, encarregada de dar fim a mão decepada do alcaide. Entra um valioso anel na parte romanceada do livro. Neste tempo encontramos Gregório, já formado em direito, em Coimbra, exercendo função de desembargador da Relação Eclesiástica, um cargo de grande prestígio. Também aparece Anica de Melo, a apaixonada amante do poeta.

Em "A Vingança", é mostrada a reação do governador, na perseguição tenaz à família dos Ravasco. É um momento grandioso do livro. O poder é exposto em suas vísceras. Ele não conhece limites. Como tem crime envolvido, também aparecem os métodos do poder judiciário. Um horror. Vejamos uma descrição:

"Mata, quanto estão ganhando os desembargadores?
Perto de seiscentos mil réis de ordenado, senhor governador. Fora as propinas. Os emolumentos chegam a mais de cem mil réis mas eles solicitam gratificações para a festa das onze mil virgens e outras festas. Sem contar as taxas que cobram por serviços especiais e o que ganham em comissões ou visitas, pode ser que chegue a mil e duzentos. Eles pedem para receber o mesmo que recebem no Desembargo do Paço em Lisboa os desembargadores. Mas o príncipe nega.
Vamos dar mais uma propina, para a festa de Santo Antônio. Providencie uma carta ao Príncipe regente solicitando o aumento de ordenado dos desembargadores. E cópia da carta para cada um deles".

Tudo muito parecido com os dias atuais vividos pelo Brasil pós golpe de 2016. Gregório começa a ter problemas com o governo, o que faz aumentar a ferocidade de suas ironias e sátiras. Perde a sua função e fica sem remuneração. Isso aumenta a sua busca por sexo, bebida, bem como a ferocidade de sua escrita. Gregório viera de uma família abastada mas ele, em muito, já contribuíra para dissipar esta riqueza. 

Em "A Devassa" é mostrada a reação do poder real com relação aos desmandos do governador. É a influência do padre Antônio Vieira. A vingança contra os Ravasco termina e as coisas começam a se ajeitar, menos para o poeta. Ele não conhecerá os amores de Maria Berco, a quem muito ajudara, recebe apenas a sua gratidão. Perde também a companhia de Anica. As ironias e sátiras se tornam cada dia mais ferozes, contra todos os poderes estabelecidos, sobrando para padres e freiras, na dissolução de seus costumes. Conhecerá o exílio e, quando repatriado, o será para a cidade de Recife.

Em "A Queda" é mostrado o desfecho de todas as desavenças, com a queda da família dos Menezes e a ascensão de novos mandatários e no "epílogo" todos os personagens tem os seus destinos narrados. Vamos ver os dois mais famosos. O "Boca do Inferno" e o padre Antônio Vieira. Quanto ao "Boca do Inferno" lemos o seguinte: "Em Recife, o poeta foi proibido de escrever suas sátiras. Trabalhou como advogado num escritório repleto de bananas. Andava nu, assustando as pessoas. Sem recursos, doente, viveu até 1695 escrevendo sonetos e, é claro, sátiras. Jamais se afastou de suas crenças, de sua intimidade com as mulheres e com Deus. Acometido de uma "febre maligna e ardente, que aos três dias ou aos sete debaixo da terra mete o mais robusto", Gregório de Matos morreu, com cinquenta e nove anos, em Recife. Foi enterrado na capela do hospício de Nossa Senhora da Penha. A capela foi demolida, não restando nenhum vestígio de Gregório de Matos e Guerra".

Quanto ao destino final do padre Vieira, que ficara totalmente cego e parcialmente surdo, lemos o seguinte: "Pouco depois da partida do soldado, Antônio Vieira morreu. Assistiram sua morte José Soares e o reitor do colégio da Bahia, João Antônio Andreoni, o jesuíta toscano com quem travara muitas disputas ideológicas. Padre Andreoni era condescendente quanto à escravidão dos ameríndios, traduzira para o italiano um trabalho antissemita intitulado Sinagoga desenganada, e inclinava-se  a favor das nomeações de italianos e alemães para os altos cargos da Companhia. Vieira fora, acima de tudo, um português que favorecia seus conterrâneos".

Sempre as contradições. Um grande e belo livro. Gostei muito e sobrou muita vontade de conhecer muito mais.




segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Narrativas de uma viagem 6. Dois dias a esmo em Buenos Aires.

Depois do maravilhoso show de tango dormi tranquilo me preparando para os dois dias que ainda me sobrariam em Buenos Aires. Até imaginei dar uma chegada em Colônia, cidade que imagino com muitos atrativos históricos, além de um passeio pelo estuário do rio da Prata. Já na segunda cedo modifiquei completamente meus planos. A previsão de tempo indicava chuva, mesmo assim ainda arrisquei uma caminhada, nada mais do que uma meia dúzia de quadras. O quarto do hotel me aguardava.
Com a chuva, apenas revendo alguns lugares. Eu frequentei esta churrascaria nos anos 1980.

A chuva só parou por volta das 18h00. Assim prolonguei o almoço, tomando duas taças de vinho e antes do anoitecer ainda dei uma volta pela cidade, com show de tango na rua, na Florida com a Corrientes. Vi um tanto de televisão, mas esta é uma unanimidade quase mundial. Muito pouco se aproveita dela. O foco todo estava voltado para o submarino desaparecido. De noite repeti a dose. Pizza e Patagônia. Muito bom. Previsão de tempo bom para o dia seguinte.
No cemitério da Recoleta.

Na manhã de terça feira me enveredei pela 9 de julho em direção norte, rumo a Recoleta. Passei em frente a embaixada brasileira, pura ostentação, e um pouco depois já avistei uma igreja e, ao lado, um muro branco. O Requiescant in Pace me indicava que ali era o cemitério de La Recoleta. Considero que os cemitérios são museus artísticos a céu aberto. Localizei num mapa o túmulo da família Duarte, com destaque para Evita. Nada de ostentação. Um jazigo de família, bem simples, bem menor do que toda a projeção política que Evita teve. Estou atrás de uma biografia dela. Morreu com 33 anos, de câncer. O povo argentino lhe devota grande e filial devoção. Ela foi fundamental por toda a legislação social e trabalhista existente.
Túmulo da família Duarte. Placas em homenagem a Evita.

Já vi um filme da vida dela. Um belo filme. Não foi o famoso com a Madonna. A elite, especialmente a militar, lhe devotava muito ódio. Tramavam contra o governo Perón e em 1955, três anos após a morte de Evita, aplicaram o golpe. Os tempos deviam ser muito parecidos com os tempos de ódio vividos no Brasil de hoje. Me impressionou muito, no filme, uma frase inscrita nos muros: "Viva el câncer". Vou procurar uma boa biografia e fazer um post. Acabo de descobrir, Santa Evita, de Tomás Eloy Martinez, de quem já li O cantor de tango e gostei muito. Versava sobre a horrenda ditadura militar argentina.

Depois de visitar a igreja ao lado, voltei ao centro da cidade, no rumo da Plaza de Mayo, andando pela caje Florida. Me deparo com a livraria EL Ateneo, mais do que centenária e conhecida como a segunda mais bela do mundo, perdendo para a Lelo & Irmão, da cidade do Porto.  Me demorei bastante, vendo um panorama da leitura, em exposição pelas diversas estantes. Ainda voltaria a ela. Foi o que fiz ao final da tarde, comprando um exemplar do grande clássico da literatura argentina, do sofrido povo marginalizado da cidade. Martín Fierro de José Hernandez.
A centenária livraria. Considerada a segunda mais bonita do mundo.

Da livraria, agora sim, a prioridade seria a Plaza de Mayo. Ela é a antiga Plaza de Armas, que todas as cidades de origem espanhola tem. Comecei pela catedral, belíssima. Nela está enterrado o general San Martín, o grande heroi nacional da independência. Observei muitos detalhes da catedral. Ela começa bonita até pelo chão onde você pisa, a qualidade e a beleza do piso. Observei bem a Casa Rosada. Não tem toda aquela imponência. Muitos tapumes, em função de obras. E tem muita história. E protestos quase diários, que segundo a nossa guia, ajudam, e muito, a atrapalhar o trânsito.  Depois fui visitar o cabildo, um palácio em estilo colonial que é hoje o Museo del cabildo y de la Revolucion de Mayo.  Gostei demais, como eles cultivam as suas datas nacionais. Criação de um imaginário em torno da data.
Catedral, Casa Rosada e o Cabildo. E muito mais. Plaza de Mayo.


Algumas lembrancinhas básicas do artesanato de Buenos Aires, compradas nos arredores do obelisco encerraram as atividades do dia e na cidade. Um DVD de tango e um acústico de Mercedes Soza  também fizeram parte. Na viagem de volta, mais uma vez o transfer super pontual e acompanhamento até o guichê da companhia. O Aeroparque tinha um movimento excepcional. Os torcedores do Lanus viajando para Porto Alegre, onde enfrentariam o Grêmio, o Imortal tricolor, na primeira partida da final da Libertadores, 2017, ganha com raro brilho pelos tricolores. Fizeram muita festa. Mas a festa final seria do Grêmio.



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Narrativas de uma viagem 5. City tour em Buenos Aires.

Sobrevoar os Andes dá um frio na barriga. Nunca tinha visto tão de perto, e de cima, uma cadeia montanhosa. Quanto ao voo, tudo normal e dentro do horário. Desembarque, imigração e alfândega tudo dentro do previsto. Todos muito gentis. O transfer, mais uma vez com serviço perfeito. Quanto ao hotel, um tanto velho, mas também muito bem localizado. Três quadras da 9 de julho, duas da Caje Florida e umas dez da Casa Rosada e catedral.
Uma das primeiras fotos tiradas em Buenos Aires. A beleza da florada do jacarandá.

Um excelente almoço, um breve descanso e um primeiro reconhecimento da cidade. Tudo me era bastante familiar. Me reconheci nos mais diferentes lugares. Estive aí em meados dos anos 1980. Suipacha, Lavalle, Corrientes, o Obelisco e o teatro Colon. Quanto a cerveja, a Patagônia, uma das minhas preferidas. Custo de vida em Buenos Aires, bem alto. Para janta, logo descobri um lugarzinho bem agradável. Pizza em pedaços e a Patagônia. Mais descanso, que no domingo cedo teríamos o city tour.
Reconhecimento básico em Buenos Aires. O Obelisco.

Mesmo estilo de Santiago. Recolhemos os turistas em seus hotéis. Por ser domingo, sem problemas no trânsito. Buenos Aires é uma cidade enorme. A grande Buenos Aires tem mais de 17 milhões de habitantes, de um total de algo em torno de 45 milhões de argentinos. A cidade teve duas fundações, uma que não vingou, em 1536 e outra sim, para valer, em 1580. Problemas de insalubridade e a ferocidade dos indígenas. Isso eu já fiquei sabendo quando estudei sobre as missões.
A Floralis Generica e a Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires.

Bem, o nosso tour começou pela parte nobre da cidade, a que se situa mais ao norte. Recoleta e Palermo, com a primeira parada em frente a Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e na Floralis Generica, uma enorme flor em metal, que abre e fecha de conformidade com a luz solar. Foi desenhada pelo arquiteto argentino Eduardo Catalano e construída pela Lockheed, a famosa fabricante de aviões de guerra. É um dos orgulhos da cidade. Outra maravilha de Buenos Aires são os jacarandás floridos. Um azul esplendoroso. Tão abundantes quanto os nossos ipês amarelos.
No caminho, a suntuosa embaixada brasileira.


Palermo, Recoleta, o túmulo de Evita, as embaixadas, a monumental embaixada do Brasil e a 9 de julho, de ponta a ponta, com o teatro Colón, o Obelisco, O Ministério da Assistência Social, com Evita discursando. A 9 de julho é a mais importante avenida de Buenos Aires e tida como a mais larga do mundo, com 140 metros. Na esquina com a Corrientes encontra-se o Obelisco, com 67,5 metros de altura. Foi inaugurado em 1936, por ocasião do quarto centenário da primeira fundação da cidade. A 9 de julho começou a ser construída em 1912 e terminada em 1930. Sofreu, depois disso, constantes modernizações. Orgulho dos argentinos.
Ao longo da 9 de julho. Teatro Colón e o Ministério de Assistência Social. Lembrando Evita.


Enquanto isso já chegamos a Plaza de Mayo, com a Casa Rosada, catedral e o antigo cabildo. Uma parada para fotos. A Plaza de Mayo é a antiga Plaza de Armas da cidade. Ela homenageia as revoluções iniciadas em 25 de maio de 1810, que culminaram com a independência em 9 de julho de 1816. A maior fama da Praça lhe foi dada pelas mães, las locas de la plaza, como a elas se referia a cruel ditadura implantada no país em 1976. Elas ganharam notoriedade mundial. Choravam os filhos desaparecidos. A praça está passando por muitas reformas. É o principal centro da vida política da cidade.
 No meio do povão. La Boca. La Bombonera  e o Caminito.

Fomos adiante. San Telmo e sua famosa feirinha e passagem pela Boca, passando em frente ao estádio do Boca Juniors, La Bocanera, no rumo do Caminito. Era dia de jogo e os preparativos já estavam começando. O Boca é o mais popular dos clubes argentinos, fundado em 1905 por imigrantes italianos, a maioria de genoveses. Foram trabalhar de porto a porto, trocando Gênova por Buenos Aires. São os bairros originários de Buenos Aires. Hoje uma região bastante empobrecida, para dizer pouco. Ali começou o tango, uma dança absolutamente profana que foi se elitizando e lhe retirando o caráter original de uma dança pecaminosa. Muito colorido no El Caminito. O papa Francisco lá está, junto com os muitos dançarinos, sempre dispostos a uma fotografia. Lógico que fizemos uma parada.
Lateral da Casa Rosada e as torres residenciais do Puerto Madero, ao fundo.


O nosso passeio se encerraria no Puerto Madero, a nova zona nobre da cidade. Uma recuperação fantástica da área portuária. Os armazéns se transformaram em restaurantes e as áreas livres em torres residenciais, do metro quadrado mais caro da cidade. O Puerto Madero se situa aos fundos da Casa Rosada. O tour estava acabando. Quem quisesse ficar foi deixado na feira de San Telmo e o encerramento estava marcado para a 9 de julho com a Paraguay, bem pertinho do hotel. A estas alturas eu já estava com o mapa da cidade bem delineado. Pelos meus cálculos eu teria dois dias para revisitar tudo, a pé. Mas isso eu conto em outro post.

Um bom almoço e um bom descanso que a noite teríamos o show de tango, no Señor Tango. Este show é realmente um espetáculo imperdível. Hollywood é pouco, altamente profissional. Circo de Soleil em meio ao espetáculo com as bailarinas voando. Velhos músicos no bandoneón e outros nos violinos. Grandes cantores e cantoras. E um gran finale. O Não chores por mim Argentina, a música do filme sobre Evita. O show vem precedido de um maravilhoso jantar com direito a uma meia garrafa de vinho.
Show de tango. Simplesmente imperdível.


No Gran Finale fui acometido de bons sentimentos, sentimentos de grandeza e de nobreza para com Evita, pelo bem que ela fez. Como estes sentimentos só podem ser sentidos no contraste, me lembrei também dos sanguinários ditadores da Argentina e para completar, de todos os que hoje aplicam as políticas neoliberais e, para eles dediquei uma lembrança na passagem do Inferno de Dante onde, no pior dos infernos, as pessoas ficam isoladas dentro de enormes blocos de gelo. Neste isolamento, da não lembrança e da não comunicação, da não relação, da não possibilidade da alteridade, coloquei o nosso golpista presidente e o seu assecla governador do Paraná. Como viram, por eles tenho enorme apreço. Mas, cada um é o responsável pela construção de sua imagem.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Narrativas de uma viagem - 4. Dois dias a esmo em Santiago.

Eu estava magnificamente hospedado em Santiago. Um bom hotel, o Panamericano, e um endereço fabuloso, Teatino e Huerfanos. Bem em baixo um mercadinho, bem estocado de cerveja cusqueña, da qual eu aprendi a gostar, quando conheci a cidade de Cusco.  Estava a duas quadras da Casa de La Moneda e da grande avenida Bernardo O'Higgins e umas dez, da Plaza de Armas e da bela catedral. Muitos cafés com piernas pela redondeza, tanto de vidros claros, quanto de bem escuros, com nomes bem apelativos.
 O Palácio de La Moneda e o cerimonial da troca da guarda.

A minha primeira movimentação foi pela Avenida Bernardo O'Higgins, que como vimos em outro post, é uma avenida de mais de trinta quilômetros e é a espinha central, em torno da qual a cidade se estrutura. Sua direção está no sentido cordilheira para o mar. Recebe diferentes nomes. No começo era só checar as localizações já vistas por ocasião do city tour. Andar em Santiago é muito fácil. O primeiro momento era assistir a troca da guarda, em frente ao La Moneda, as 10h00. Uma magnífica cerimônia cívica que dura algo em torno de trinta minutos. Uma cerimônia cívica. O civismo e o patriotismo são muito cultivados. Ela ocorre dia sim, dia não.
A Universidade do Chile. Faixa de protesto.

Depois andei pela grande Avenida. Universidade do Chile. Cartazes com reivindicações, próprias ao movimento estudantil, num país que cobra pelo ensino superior que oferece. Continuo a andar. A bela igreja de São Francisco e um belo museu, o Museu Colonial, que retrata a presença da ordem de São Francisco ao longo da história da cidade. Tem mais de cinquenta diferentes representações do querido santo. Um belo museu histórico. E tem Gabriela Mistral e o seu testamento em favor da ordem religiosa. Gabriela Mistral (1889 - 1957) foi uma poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena, que junto com Pablo Neruda, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura. Ela em 1945 e Neruda em 1971.

Igreja de São Francisco e o Museu Colonial.

Continuo o passeio. Um centro de artesanato. Muita coisa em cobre, a grande riqueza chilena. Pablo Neruda, Violeta Parra, Victor Jara, Salvador Allende, abridores de garrafa, tudo em cobre, são o forte destes regalos. Ainda não comprei, ainda teria amanhã para isso. Continuo o caminho. Universidade Católica do Chile. Foi aí que se aninhou e propagou a doutrina neoliberal no Chile. Os Chicago boys aí foram ensinar. Milton Friedman chegou a ser ministro de Pinochet. Uma Universidade Católica. Foi a porta de entrada do neoliberalismo na América Latina. Depois a PUC do Rio de Janeiro lhe seguiu os passos. Nada muito cristão. A mais anti social das ideologias.
A PUC e o Centro de artesanato.


Ainda segui em frente. Uma bela praça e o famoso Cerro San Cristobal. Como o subimos no city tour, me senti satisfeito. Não me aventurei novamente. Tem bondinho e teleférico. O shopping Costanera não me interessou. Em vez de almoçar preferi experimentar um lanche. De noite eu iria jantar no Bali Hai, assim não haveria problema em lanchar. A guia tinha falado muito destes lanches. Tem carne e recheio de muito abacate. A combinação não é de todo ruim. Ainda subi o Cerro Santa Lucía, que do ponto de vista histórico é mais importante. A vista é urbana, Cordilheira ao fundo.

Cerro Santa Lucía. Alguns flagrantes. Até um sabiá.

Descansei um pouco, tomando umas cusquenhas, esperando a hora do jantar, o jantar show Balli Hai. É um belo restaurante, a decoração é primorosa, lembrando a Polinésia e localização privilegiada no aristocrático Las Condes. A janta é farta. Um pisco, a famosa bebida que o Chile disputa com o Peru, entrada, uma bela porção de frutos do mar muito bem preparada, prato principal com opção pelo salmão e sobremesa. Meia garrafa de vinho para acompanhar. O show, uma cueca, é um passeio pelo folclore chileno. Norte, centro e sul foram apresentados e, a principal atração fica por conta das danças da Polinésia, o principal apelo do show. Vale muito a pena. Muita agilidade nos movimentos. Logo para mim, que nos meus piedosos momentos de seminário, aprendia que tudo o que se movimenta é pornográfico.
 Momentos do Bali Hay. Uma noite muito agradável. Um brinde com o pisco.

O último dia ficou reservado para a Praça de Armas. Uma visita sem pressa à catedral, que receberá o papa Francisco em janeiro de 2018, uma demorada passada no Museu  Histórico Nacional e ficar bem por dentro da história chilena. Este Museu é semelhante ao Museu da República no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Gostei muito. Me demorei bastante nesta bela praça, com grande destaque para uma estátua equestre de Pedro de Valdívia. Não fui ao Museu da memória, dedicado a Salvador Allende.
Pedro de Valdívia, a catedral e o Museu Histórico Nacional. No casco central.

O restante do tempo foi para as compras das lembrancinhas. O Centro de Artesanato é o local ideal. Também o mercadinho em baixo do hotel me serviu para comprar um Marques da Casa Concha Carmenere e um pisco dentro da escultura do Moai. A minha última noite ficou bem curta. Cinco da manhã já estava em pé, pronto para o transfer para o aeroporto, fazendo a travessia dos Andes, no rumo de Buenos Aires.