segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dos delitos e das penas. Prefácio do autor. Cesare Beccaria.

Como considero Dos delitos e das penas um dos mais importantes livros, não apenas do Direito, mas de toda a humanidade, resolvi apresentar o prefácio do autor, uma vez que nele, ele apresenta todo o seu espírito, sentido e significado. Para situar Beccaria, no tempo e no espaço, o apresentamos como nascido em Milão, em 1738 e morto na mesma cidade em 1794. Já o livro é de 1764. Pertence, portanto, ao movimento do iluminismo ou esclarecimento. Lançou o olhar da razão sobre a legislação penal, bem como sobre a aplicação das penas. Um enorme avanço na humanização. Como fiz a resenha do livro, apresento o link.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/11/dos-delitos-e-das-penas-cesare-beccaria.html

Vamos ao prefácio:

"Fragmentos da legislação de antigo povo conquistador, compilados por ordem de um príncipe que reinou, em Constantinopla, há doze séculos, combinados depois com os costumes dos lombardos e amortalhados em um volumoso calhamaço de comentários pouco inteligíveis, são o antigo acervo de opiniões que uma grande parte da Europa prestigiou com o nome de leis; e ainda hoje, o preconceito da rotina, tão nefasto quanto difundido, faz com que uma opinião de Carpozow (jurisconsulto alemão), uma velha prática preconizada por Claro (jurisconsulto piemontês), um suplício que Francisco (jurisconsulto italiano, célebre por sua crueldade) imaginou com bárbara complacência continuem sendo orientações friamente seguidas por esses homens, que deveriam tremer ao decidir da vida e da sorte de seus concidadãos.
Um dos livros mais influentes de todos os tempos.

É esse código sem forma, produto monstruoso de séculos mais bárbaros, que desejo examinar nesta obra. Ficarei limitado, contudo, ao sistema criminal, cujos abusos terei a ousadia de apontar aos encarregados de velar pela felicidade pública, sem me preocupar em impor ao meu estilo o encanto que faz a sedução dos leitores comuns.

Se me foi possível indagar com liberdade a verdade, se pude elevar-me acima das opiniões do vulgo, tal independência devo à indulgência e às luzes do governo sob o qual tenho a ventura de viver. Os grandes reis e príncipes que desejam a ventura dos homens, seus governados, mostram-se amigos da verdade quando esta lhes é indicada por um filósofo que, do fundo de seu retiro, demonstra uma resolução sem fanatismo e contenta-se em lutar com as armas da razão contra as empresas da violência e da intriga.

Ademais, quem examinar os abusos de que trataremos, verificará que eles constituem a sátira e a vergonha dos séculos passados, porém não do nosso século e de seus legisladores.

Se alguém desejar honrar-me criticando o meu livro, procure antes apreender bem a finalidade a que me propus. Muito ao contrário de pensar em diminuir a autoridade legítima, constatar-se-á que todos os meus esforços foram no sentido de engrandecê-la; e ela de fato se engrandecerá, quando a opinião pública puder mais do que a força, quando a indulgência e a humanidade puderem fazer que se perdoe aos príncipes o poder que têm.

Críticos houve, cujas intervenções não seriam honestas, que desfecharam ataques a esta obra, modificando-a. Devo interromper-me um momento, para reduzir ao silêncio a mentira azoinada, as iras do fanatismo, as calúnias soezes do ódio.

Os princípios de moral e de política que têm aceitação entre os homens derivam, quase sempre, de três fontes: a revelação, a lei natural e as convenções sociais. Entre a primeira e as duas últimas não se pode estabelecer comparação do ponto de vista dos seus fins principais; completam-se, contudo, ao tenderem igualmente a tornar os homens felizes na terra. Trazer à discussão as relações das convenções sociais não significa atacar as relações que podem ser encontradas entre a revelação e a lei natural.

Desde que esses preceitos divinos, ainda que imutáveis, de mil maneiras foram desnaturados nos espíritos corruptos, seja pela maldade humana, seja pelas falsas religiões, seja pelas ideias arbitrárias de virtude e de vício, parece que é necessário verificar (deixando de lado quaisquer considerações estranhas) os resultados das simples convenções humanas, quer tenham sido realmente realizadas essas convenções, quer se suponha que sejam vantajosas para todos. Todas as opiniões e os sistemas de moral devem obrigatoriamente reunir-se nesse ponto, e jamais seriam bastante enaltecidos os louváveis esforços feitos para reconduzir os mais obstinados e os mais incrédulos aos princípios que levam os homens a viver em sociedade.

Podem, portanto, distinguir-se três espécies de virtudes e de vícios, a fonte dos quais está do mesmo modo na religião, na lei natural e nas convenções políticas. Nunca essas três espécies devem estar em contradição entre si; não atingem, entretanto, os mesmos resultados e não obrigam aos mesmos deveres. A lei natural é menos exigente que a revelação, e as convenções na sociedade menos do que a lei natural. Desse modo, é de fundamental importância distinguir com cuidado os efeitos dessas convenções, isto é, dos pactos expressos ou tácitos que os homens fizeram entre eles, pois nisso é que deve residir o exercício legítimo da força, em tais relações entre homem e homem, que não requerem a missão especial do Ser Supremo.

Pode-se dizer, pois, com razão, que as ideias da virtude política variam. Seriam sempre límpidas e exatas as da virtude natural se as debilidades e as paixões humanas não ofuscassem a sua pureza. As ideias da virtude religiosa não mudam, são constantes, porque foram de imediato reveladas por Deus mesmo, que as mantém inalteráveis.

Pode, portanto, aquele que discorre sobre convenções sociais e seus resultados receber a acusação de que demonstra princípios em desacordo com a lei natural e a revelação, porque nada diz a esse propósito?... Se afirma que o estado beligerante precedeu a reunião dos homens em sociedade, deve-se compará-lo a Hobbes, que não supõe para o homem isolado nenhum dever, nenhuma obrigação natural?... Não se pode, ao contrário, considerar o que ele diz como um fato, que foi apenas a consequência da corrupção humana e da ausência de leis? Finalmente, não é errado criticar um autor que analisa os efeitos das convenções sociais porque não admite, de princípio, a própria existência dessas convenções?...

A justiça divina e a justiça natural são, por sua essência, constantes e imutáveis, pois as relações que existem entre dois objetos da mesma natureza não podem jamais mudar. Mas a justiça humana, ou, se se preferir, a justiça política, como não é senão a relação que se estabelece entre uma ação e o estado mutável da sociedade, pode igualmente variar, à proporção que essa ação se torne vantajosa ou imprescindível ao estado social. Só é possível determinar com exatidão a natureza dessa justiça examinando atentamente as relações complicadas das inconstantes combinações que governam os homens.

Se todos esses princípios, em sua essência diversos, chegam a se confundir, já não se pode raciocinar com clareza a propósito dos assuntos políticos.

É atribuição dos teólogos fixar os limites entre o justo e o injusto, de acordo com a maldade ou a bondade intrínsecas da ação. Ao publicista, cabe-lhe estabelecer esses limites em política, quer dizer, sob as relações do bem e do mal que a ação possa fazer à sociedade.

Essa última finalidade não pode provocar nenhum mal à outra, pois todos conhecem o quanto a virtude política está abaixo das virtudes imutáveis que fluem da Divindade.

Torno a dizer, portanto, que, se desejarem dar ao meu livro a honra de uma crítica, não principiem atribuindo-me precitos contrários à virtude ou à religião, porque esses preceitos não são os meus; em vez de me apontar como ímpio ou sedicioso, contentem-se em demonstrar que sou um mau lógico, ou ignorante em matéria política; não tremam a cada proposição em que faço a defesa dos interesses da humanidade; constatem a inutilidade de minhas máximas e os perigos que minha opinião pode ocasionar; façam que eu veja as vantagens das lições recebidas.

Dei um testemunho público de meus princípios religiosos e de minha submissão ao soberano, quando respondi às Notas e observações que foram publicadas contra minha obra. Devo guardar silêncio quanto aos escritores que de agora em diante só me opuserem as mesmas objeções. Contudo, aquele que fizer a sua crítica com a decência e o respeito que os homens honestos se devem entre si, e aquele que tiver esclarecimento suficiente para não me obrigar a demonstrar-lhe os princípios mais elementares, de qualquer natureza que sejam, encontrará em mim um homem menos apressado a fazer a defesa de suas opiniões particulares do que um tranquilo amigo da verdade, pronto a confessar seus erros".

Mostro ainda os dois últimos parágrafos da introdução: "Sentir-me-ia muito feliz se não tivesse outro mérito além do de ter sido o primeiro a apresentar, na Itália, com maior clareza, o que outras nações ousaram escrever e já começaram a por em prática.

Contudo, se, por sustentar os direitos do gênero humano e da verdade invencível, contribuí para salvar da morte atroz algumas das trêmulas vítimas da tirania ou da ignorância igualmente prejudicial, as bênçãos e as lágrimas de apenas um inocente reconduzido aos sentimentos da alegria e da ventura confortar-me-iam do desprezo do resto dos homens".




quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O homem que sabia javanês. Um conto de Lima Barreto.

O homem que sabia javanês é um conto muito bem humorado e profundamente irônico de Lima Barreto. Ele foi publicado originalmente pela Gazeta da Tarde, em abril de 1911. É uma clara metáfora sobre o que ocorria no Rio de Janeiro republicano, em termos de falta de zelo, de desleixo e de burocracia inútil nestes anos de nossa República positivista, se é que isso pode existir. Os termos se contradizem.
O conto de Lima Barreto, na edição da EDUSC de Bauru.

O conto é muito simples e de facílima compreensão. O absurdo é que é imenso. Castelo é o homem que sabia javanês, que na verdade nada sabia dessa língua, se encontra com o amigo Castro numa confeitaria do Rio de Janeiro. Estão a tomar cervejas e Castelo conta ao amigo a sua metidez, ao afirmar que sabia javanês e que a partir desse fato passou a se dar bem na vida e ser bem sucedido no mundo da diplomacia da República.

Tudo começa quando Castelo lê um anúncio que solicita os préstimos de um professor de javanês. Alguns dias de preparo na Biblioteca Nacional em que se apropria do alfabeto, de algumas palavras chave, algumas respostas básicas e um mínimo de conhecimento sobre a ilha, o fazem procurar o endereço indicado. O interessado era um velho e influente barão, o barão de Jacuecanga. Este o recebe e ouve a sua história. O candidato se apresenta como sendo da Bahia, filho de pai javanês, tripulante de navio mercante, que se estabelecera em Canavieiras, onde casou e o teve como filho. Eis o seu aprendizado de javanês. O barão interessado quer cumprir um juramento de família. Fala de seus parentescos e chega próximo a D. Pedro I e da herança de um livro, ao qual, por não tê-lo lido e, até mesmo esquecido, é que se abateram tantas desgraças sobre a sua família.

Da família lhe restara apenas uma filha casada e um único neto. Castelo recebe o livro, cujo prefácio estava escrito em inglês, leu-o e esnobou sabedoria. Causou ótima impressão. Acertaram aulas e preços. Nas aulas, toda a aprendizagem de um dia caía no esquecimento no dia seguinte. Porém, o barão, agora ocupado, fazia progressos em sua saúde e estado de espírito, para o contentamento de filha e genro, este, nada mais e nada menos, que um desembargador. O barão desiste dos estudos e lhe encomenda a tradução do livro, que Castelo fez a seu bel prazer, contando uma história bem animada.

Em meio a isso o barão recebe uma herança de Portugal, que ele credita à leitura do livro e contempla o nosso esperto malaio em generosa lembrança em seu testamento. Para Castelo as dificuldades da vida passaram a fazer parte de seu passado e tudo tendia a melhorar ainda mais. Por ser um expert em javanês o barão o recomenda ao visconde de Caruru, para que lhe proporcionasse o ingresso na carreira diplomática. Só êxitos. O seu aspecto físico fez com que fosse trabalhar nos consulados da Ásia e da Oceania e a participar de congressos na Europa.

Ganhou fama e reputação. Escreveu nos jornais mais influentes, fazendo cópias de dicionários. Na Europa passou a ser conhecido como o mensageiro de Bale e, na volta ao Brasil, ganhou inclusive banquete na presidência da República. Vejamos a parte final do conto:

"Não perdi meu tempo nem dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais, e o presidente da República, dias depois, convida-me para almoçar em sua companhia no palácio.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas Malaia, Melanésia e Polinésia".

Uma única vez passou por dificuldades. Um marinheiro malaio fora preso em confusão, mas quando  chegou ao local, ele já havia sido solto. Um conto doído e sofrido de um homem que em sua vida sofreu muitas privações, por causa de sua raiz, de sua cor. Para quem quiser conhecer Lima Barreto recomendo a monumental biografia sua, escrita pela Lília Schwarcz.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/08/lima-barreto-triste-visionario.html

O pequeno livrinho é editado pela EDUSC, de Bauru, e é ilustrado por Daniel Razabone. Tem apresentação de Vitor Biasoli, de quem destaco um parágrafo: "O conto O homem que sabia javanês (publicado em livro em 1916) é a expressão desse olhar crítico em relação aos modos como o poder intelectual imperava no Rio de Janeiro mundano e cosmopolita, então capital da República. O foco recai sobre os falsos doutores, os sofisticados malandros que, armados por um conhecimento sorvido em informativos verbetes de enciclopédia, se faziam passar por homens cultos e galgavam altos postos do serviço público. Não apenas malandros sofisticados, mas astutos lutadores pela própria sobrevivência no espaço das classes dominantes".



Dos delitos e das penas. Cesare Beccaria.

Já tive conversas, usei citações e já fiz várias consultas ao famoso livro de Cesare Beccaria,  Dos delitos e das penas, mas confesso que ainda não o tinha lido na sua íntegra. Isso se deu agora, por razões que me parecem absolutamente óbvias. É que os tempos de despotismo, de fanatismos, de obscurantismo e de ignorância estão de volta e, diga-se, com absoluta desfaçatez. Me refiro especialmente ao que está acontecendo no Brasil, e agora, se estendendo a toda a América Latina. É leitura imprescindível e profundamente iluminadora. Ah! As atuações do Poder Judiciário.
Um dos mais importantes documentos da história da humanidade, no rumo de um processo civilizatório.

Cesare Bonesana, marquês de Beccaria (observem o marquês) nasceu em Milão em 1738 e morreu na mesma cidade em 1794. A sua obra data de 1764. São os tempos do iluminismo, ou se preferirem, do esclarecimento. No livro existem referências diretas a Montesquieu (1689 - 1755) e a Rousseau (1712 - 1778), entre outros iluministas franceses e para situá-lo melhor dentro do iluminismo dou também as datas de Kant (1724 - 1804) e Hegel (1770 - 1831), quando a Aufklärung chega ao seu apogeu. Possivelmente seja Cesare Beccaria o grande nome desse movimento no campo do Direito, com especificidade no Direito Criminal e Penal, como indica o título de seu livro.

O livro não é longo e a razão de seu êxito se situa no campo do humanismo. Ele lançou sobre os apenados um olhar de amor, de compaixão e comiseração, voltado à recuperação de quem cometeu delitos. Por essa razão o livro é dos maiores documentos, não apenas restrito ao mundo do direito, mas de toda a humanidade. E isso faz muito sentido. Vejamos a contracapa da edição da Martin Claret:

"Inserida no movimento filosófico e humanitário da segunda metade do século XVIII, Dos delitos e das penas é uma verdadeira obra-prima de Cesare Beccaria - jurista italiano contemporâneo de Voltaire, Rousseau e Montesquieu.

Na época de Beccaria, as penas judiciais constituíam uma espécie de vingança coletiva, de modo que um criminoso, na maioria das vezes, sofria castigos muito mais severos e cruéis do que os próprios males que havia praticado. Penas de morte, torturas, prisões deploráveis e banimentos eram comuns e se aplicavam mesmo aos crimes mais banais.

Cesare Beccaria foi a primeira voz a se levantar contra essas práticas, defendendo que cada crime merecia uma pena proporcional ao dano causado, ou seja, que as punições deveriam ser justas. Para ele, só assim a sociedade conseguiria evoluir ética e moralmente e diminuir seus índices de criminalidade".

Esses são os grandes temas do livro. Basicamente são os princípios que norteiam o Direito Penal e o Direito Processual Penal. O livro tem uma fundamentação filosófica como prefácio e 42 tópicos dessa especificidade do Direito. O livro tem ainda dois apêndices: O primeiro - "Respostas às Notas e observações de um frade dominicano sobre o livro Dos delitos e das penas, duas basicamente. I. Da acusação de impiedade e II. Acusações de sedição. Precedidas de uma bela nota introdutória. O segundo apêndice apresenta o "Extrato da correspondência de Beccaria e de Morellet sobre o livro Dos delitos e das penas". O livro termina com dados biográficos.

Dos 42 tópicos, na verdade 40, pois tem introdução e conclusão, quero chamar atenção para dois deles, que também merecem algumas páginas a mais que os outros temas. O tópico XVI, sobre a pena de morte e o de número XLI - dos meios de prevenir crimes. Desse tópico quero destacar o parágrafo sobre a educação: "Finalmente, a maneira mais segura, porém ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos propensos à prática do mal, é aperfeiçoar a educação". Nesse tópico ainda presta uma homenagem ao grande educador Jean Jacques Rousseau.

Como vou fazer um post especial sobre o prefácio, para bem mostrar o espírito da obra, apresento aqui a sua conclusão. Não precisa de muito espaço para definir tudo: "De tudo o que acaba de ser exposto pode-se deduzir um teorema geral de muita utilidade, porém pouco conforme ao uso, que é o legislador comum dos países. É que, para não ser um ato de violência contra o cidadão, a pena deve ser, de modo essencial, pública, pronta, necessária, a menor das penas aplicáveis nas circunstâncias dadas, proporcionada ao delito e determinada pela lei".

Creio que esta última parte da frase "proporcionada ao delito e determinada pela lei" é uma espécie de síntese de todo o pequeno livro. As leis tem que ser objetivas e claras, conhecidas o máximo possível pela população, com a certeza de serem cumpridas e que visam efetivamente o bem comum, sem nenhum tipo de distinções. Jamais devem se constituir em instrumento de vingança.

Para ter noção da repercussão da obra, apresento ainda, a introdução do autor para as Respostas às Notas e observações de um frade dominicano sobre o livro Dos delitos e das penas:

"Essas Notas e observações são apenas uma coleção de injúrias contra o autor do livro Dos delitos e das penas, que é classificado como fanático, impostor, escritor falso e perigoso, satírico desenfreado, sedutor do público. É acusado de destilar o fel mais acre, de reunir a contradições odiosas os traços pérfidos e escondidos da dissimulação e de ser obscuro por perversidade. O crítico pode ficar seguro de que não irei responder às injúrias pessoais.

Ele apresenta o meu livro como uma obra horrível, virulenta e de uma licenciosidade deletéria, infame, ímpia. Nele encontra blasfêmias impudentes, insolentes ironias, anedotas indecentes, sutilezas perigosas, pilhérias escandalosas, calúnias grosseiras.

A religião e o respeito que se deve aos soberanos são o pretexto para as duas mais pesadas acusações que se encontram nessas Notas e observações. Estas serão as únicas às quais me considerarei obrigado a responder".



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Numa e a ninfa. Lima Barreto.

Na penúltima página do romance Numa e a ninfa, de Lima Barreto, depois de um discurso horroroso de Numa na Câmara de Deputados, lemos:"- Vocês admiram-se! Não é cousa do outro mundo. O Numa lá de Roma acertava quando consultava a ninfa; com este dá-se a mesma cousa". É o teor do romance. Muito mais do que um romance, uma crônica de época. Vamos a uma contextualização, a partir da contracapa do livro:
Numa e a ninfa. A crônica de seu tempo. O livro tem composições entre 1911 e 1915.

"Originalmente publicado como conto pela Gazeta da Tarde, em 1911, e em folhetins diários três anos depois pelo jornal A Noite, o romance recebeu sua forma final em 1915". Na apresentação do livro feita por Antonio Arnon do Prado, encontramos outra importante anotação, num subtítulo: - Um relato híbrido. Nele lemos: "Um dos aspectos relevantes na configuração desse processo é que a primeira versão da história do Numa aparece num momento de aberta radicalização libertária, que antecede de pouco, [...] a publicação  da sátira "As aventuras do dr. Bogóloff", da qual, aliás, sairia uma das personagens farsescas mais exorbitantes na desarticulação do romance". Para essa desarticulação ver o prefácio e a introdução do livro.

Ao ver as datas dos escritos, dos textos dos folhetins à edição do romance, 1911 a 1915, vamos a uma observação da contracapa: "Retratando de forma crítica o ambiente político do governo Hermes da Fonseca, este romance satírico conta a história de Numa Pompílio de Castro, jovem bacharel em direito pouco afeito aos estudos e ao trabalho. Interessado apenas nos cargos e proventos que o título lhe permitiria alcançar, casa-se com Edgarda Cogominho, filha de um oligarca, e elege-se deputado graças à influência do sogro". O sogro era influente senador.

A descrição de sua formação acadêmica, já no primeiro capítulo, é uma das passagens mais cômicas, lembrando o sistema educacional descrito em Os bruzundangas. Estudava, ou melhor, decorava as anotações dos colegas e só errava questões na prova, quando as anotações estavam erradas. Era medíocre, mas as notas eram boas. A sua profissão mesmo era ser genro do senador Cogominho. Deputado eleito, integrava a bancada do governo e só veio a se destacar quando Edgarda, a ninfa, lhe cobrou notoriedade e lhe preparou um discurso. Aí foi alçado à fama.

Na edição da Penguin & Companhia das Letras tem o prefácio de João Ribeiro, apresentado pela primeira vez em 1917. João Ribeiro  faz o seguinte comentário, entre outros, a respeito do livro: "Numa e a ninfa é um estudo da vida social e política do nosso tempo. É realmente um dos raros livros que espelham, com verossimilhança senão com fidelidade, os vícios e costumes da sociedade política". Vejamos um pouco mais:

"No Brasil, em quase todos os ramos da vida, o "arrivismo" (eu facilito com o Aurélio - Pessoa inescrupulosa, que quer vencer na vida a todo custo) é uma arte consumada e perfeita; sem ela, seria impossível explicar o triunfo e a evidência de indivíduos quase nulos, insignificantes, incultos e ridículos que, entretanto, ocupam as melhores posições. À inteligência substitui-se a esperteza que é também, não há negar, uma qualidade do espírito. Já não é pouco verificarmos que, por exemplo, na política, se não temos a verdade, temos pelo menos o sofisma. Contentemo-nos com aparências lógicas e com arremedos simiescos.

Dessa desordem fundamental dos nossos costumes traçou Lima Barreto com mão firme um esboço tão parecido à realidade que com ela se confunde". Bem, o que mais? Vou chamar atenção dos principais personagens. Primeiro os do núcleo familiar: Numa, Edgarda e o senador Cogominho. O doutor Bogóloff, um russo, ex anarquista, que cansou das lides de roça e foi trabalhar em Ministério, como diretor da Pecuária Nacional. Planos mirabolantes devidamente fundados na ciência. Quadruplicar peso de bois e porcos (Não há referências a terraplanismos, afinal eram tempos de ciência, de positivismo). Destaco ainda Lucrécio Barba de Bode, que mora na Cidade Nova, que resultara dos planos de saneamento do Rio de Janeiro, do soterramento dos morros, como o do Castelo. Dele João Ribeiro fala o seguinte:

"...tipo quase secundário no livro, mas intensamente significativo pela verdade flagrante dos seus gestos. É um mísero mulato sem emprego, que, eternamente e por instintivo olfato, descobre o futuro árbitro das graças". Outro personagem notório é Fuas Bandeira, jornalista ou dono de jornal. O tema é grato a Lima Barreto. Mais duas referências... As milícias já atuavam e atormentavam e, como estamos num governo de marechal, as mulheres de militares vivem a reclamar e a mendigar benefícios. Afinal de contas são os seus maridos que se sacrificam pela pátria.

Enfim, selecionei uma passagem do capítulo dez, logo em sua abertura, para estabelecer um paralelo com os dias de hoje. "Os sequazes de Bentes (O general candidato) acharam  que o melhor meio de fazê-lo presidente do Brasil era impedir que houvesse eleições na capital do país. Todas as tendenciosas passeatas de batalhões, a inundação da cidade por valentões e capangas, as ameaças de perda de emprego não lhes deram segurança de vitória; e houve neles, tal era o vigor da população, temor que se efetivasse, redundasse ela em trabalho mecânico, inesperado e abrupto, uma erupção contra o sindicato que se acovardara diante das baionetas e iludia a própria consciência fingindo entusiasmo.
Uma biografia fantástica do triste visionário.

Cada dia fico mais fã do Lima Barreto. Pena que ele tenha sido um cronista de uma outra época. Se fosse dos tempos de hoje, com certeza que tomaríamos juntos algumas boas doses de cachaça. E uma recomendação final. A maravilhosa biografia, escrita pela Lília Schwarcz.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A classe média brasileira e suas frações. Jessé Souza - A elite do atraso.

No novo livro de Jessé Souza, A elite do atraso - Da escravidão a Bolsonaro, o autor apresenta uma pesquisa em que mostra a classe média brasileira e as suas diferentes frações. Por ser inédito, resolvi apresentar uma pequena síntese, no intuito de atiçar a curiosidade para a leitura do livro e, em particular, o capítulo a respeito. O tema da classe média é constante nos livros de Jessé.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/11/a-elite-do-atraso-da-escravidao.html 

A tese principal de A elite do atraso - da escravidão a Bolsonaro é a de que a elite brasileira, após a derrota para uma sub elite regional, em 1930, fez com que ela celebrasse um pacto com a classe média para se manter no poder para sempre. O mecanismo desse pacto foi a criação de meios simbólicos de dominação, com a invenção e a difusão de interpretações de Brasil, que conspirassem contra o povo pobre, que deveria ser mantido sob o tacão e os estigmas da escravidão. Esse saber seria criado na universidade e a sua difusão se daria pelas editoras e pela mídia. Assim foi criado um saber colonizado com as teorias do vira-latismo brasileiro, amplamente difundido pelos meios de comunicação que explicaria os entraves para o nosso desenvolvimento. Jessé contra-argumenta, situando essas travas na escravidão, sempre perpetuada e nunca verdadeiramente abolida.

 O mais recente livro de Jessé Souza. Sempre a classe média.

A classe média brasileira, que teve uma rápida formação no Brasil, especialmente após 1930, tem as suas especificidades, embora preserve profundas semelhanças. Depois da análise histórica dessa formação, já na parte final do capítulo sobre as classes sociais no Brasil moderno, ele mostra as suas diferentes frações. Assim as apresenta: "Os quatro nichos ou frações de classe que reconstruímos a partir desse trabalho ainda em andamento se referem às que denominamos como fração protofascista, fração liberal, fração expressivista - que costumo apelidar de "classe média de Oslo - e a menor delas, a fração crítica". Todos os dados desse post são retirados das páginas 184 a 189 do livro. Vamos a números e caracterizações.

Primeiro os números: "Em termos quantitativos, a fração liberal é a maior, com cerca de 35% do total, seguida pela fração protofascista, com cerca de 30%. Os 35% restantes compõem aquilo que poderíamos chamar de classe média com mais alto capital cultural, ou capital cultural reflexivo [...] Cerca de 60% dessa casse média mais instruída - ou 20% do total de toda a classe média - forma aquilo que podemos  chamar de fração expressivista [...] Na outra ponta desses 35% de maior capital cultural comparativo, temos a menor fração entre todas, que é a fração que denomino crítica. Ela perfaz 15% do total da classe média". Temos assim 35% de liberais, 30% de protofascistas, 20% de expressivistas e 15% de críticos.

Vamos à caracterização. Jessé analisa a facção dominante de liberais e protofascistas, inicialmente, sem separá-los, para ao final diferenciá-los com a profundidade necessária: "Essa é a classe média tradicional do conhecimento técnico, ou seja, daquele tipo de conhecimento que serve diretamente às necessidades do capital e de sua reprodução e tem menor contribuição para uma transformação da própria personalidade. Esta inclusive, a própria personalidade, não é vista como um processo de descoberta e criação. O distanciamento em relação a si mesmo e o distanciamento reflexivo em relação á sociedade exigem pressupostos improváveis. Daí que sejam raros, mesmo na classe média privilegiada". Continuo pela importância dessa descrição.

"Para que se perceba a vida como invenção, é necessário saber conviver com a incerteza e a dúvida, duas das coisas que a personalidade tradicional e adaptativa mais odeia. A convivência com a dúvida é afetivamente arriscada e demanda enorme energia pessoal. O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e certeza da própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa". E continua.

"Essas são as frações da sociedade mais suscetíveis à imprensa e a seu papel de articular e homogeneizar um discurso dominante para além das idiossincrasias individuais. O que a grande empresa de imprensa vende a seu público cativo é essa tranquilidade das certezas fáceis, tornando o moralismo cínico da imprensa - que nunca tematiza seu próprio papel nos esquemas de corrupção - o arranjo de manipulação política perfeito para esses estratos sociais. É esse compartilhamento afetivo e emocional, já advindo da força da socialização familiar anterior, que faz com que essas pessoas procurem o tipo de capital cultural mais afirmativo da ordem social. Nele, o capataz da elite, que ajuda a reproduzir na realidade cotidiana todos os próprios privilégios, está em casa".

Uma diferenciação entre o protofascista e o liberal: "O moralismo é muito diferente. Ele pula todas as etapas arriscadas e incertas e abraça só o produto fácil, vendido a baixo custo pela mídia e pela indústria cultural construída para satisfazer esse tipo de consumidor: a boa consciência das certezas compartilhadas. É nesse terreno que o liberal se afasta do protofascista. Para o liberal, os rituais da convivência democrática são constitutivos, ainda que possa ser convencido das necessidades de exceções no contexto democrático.

O protofascista, que, na verdade, se espraia da classe média para setores significativos das classes populares, é bem diferente. O golpe lhe trouxe o mundo onde pode expressar legitimamente seu ódio e seu ressentimento. O ódio às classes populares é aqui aberto e proclamado com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente [...] Como nunca aprendeu a se criticar, o protofascista tem uma sensibilidade à flor da pele e qualquer crítica aciona uma reação potencialmente violenta. [...] Essa banalidade do mal não existia entre nós. Ela foi criação midiática, ainda que ninguém na Rede Globo ou nas outras mídias, agora, queira assumir a responsabilidade pelo que fez".

Mas vamos falar dos 20% de expressivistas: "Mais importante ainda, pode-se agora ser expressivista sem qualquer crítica social que envolva efetiva distribuição de riqueza e poder. Expressivismo, também em país de maioria pobre como o nosso, passa a ser a preservação das matas, o respeito às minorias identitárias e temas como a sustentabilidade e responsabilidade social de empresas. [...] Esses temas são, na verdade, fundamentais. [...] Em um país onde tantos levam uma vida miserável e indigna deste nome, a superação da miséria de tantos é a luta primeira e mais importante. [...] Tudo se dá como se esse pessoal "bem intencionado" morasse em Oslo, e não no Brasil, e tivesse apenas relações com seus amigos de Copenhage e Estocolmo. Para um sueco que efetivamente resolveu os problemas centrais de injustiça social e distribuição de riquezas, não é estranho que se dedique à preservação de espécies raras e faça dessa luta sua atuação política principal. Que um brasileiro faça o mesmo e se esqueça da sorte de tantos seres humanos tão perto dele é apenas compreensível se ele os torna invisíveis. Por conta disso, decidi chamar essa fração de "classe média de Oslo". Ela é fundamental para que possamos compreender o Brasil moderno". E continua.

"Os eleitores da candidata Marina Silva são exemplos clássicos desse tipo de classe média". Aí eu paro. Essa caracterização é absolutamente suficiente para compreendê-la. Vamos aos 15% restantes, os denominados "críticos".

"O que faz com que eu a denomine de crítica não é nenhuma tomada de posição particular, mas sim, uma atitude singular em  relação ao mundo. O mundo social é percebido como algo construído, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa atitude básica se contrapõe à percepção do mundo como dado, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar. A forma de adaptação mais comum é se sentir pertencente a correntes dominantes de opinião. A pequena fração crítica tem que navegar em mares turvos, já que está em luta constante contra a corrente dominante. Ela mostra a dificuldade de se chegar a formas de liberdade pessoal e social e de autonomia real no contexto de uma sociedade perversa e repressiva. Por conta disso, ela também é prenhe de contradições, como todas as outras frações".

Na parte final  ele apresenta exemplos, por citações, de como cada fração dessa classe média percebeu as interpretações do vira-latismo brasileiro. Deltan Dallagnol representa os protofascistas, o ministro Barroso, os liberais e Fernando Haddad, apresentado como um intelectual refinado, a fração crítica.

domingo, 3 de novembro de 2019

A elite do atraso. Da escravidão a Bolsonaro. Jessé Souza.

Considero hoje, sem favor nenhum, Jessé Souza como o melhor intérprete da atual conjuntura brasileira. O seu fôlego teórico equivale a, praticamente, reescrever o Brasil, no que se refere às suas maiores interpretações e intérpretes. Por essa razão, compro e leio, sistematicamente, todos os seus livros. Foi o que fiz agora com A elite do atraso - da escravidão a Bolsonaro. Já na capa do livro tem uma importante nota: edição revista e ampliada. Isto implica em dizer que o livro tem uma íntima relação com A elite do atraso, da escravidão à Lava Jato, de maio de 2017.
O novo livro do Jessé Souza.

Não sei se pelo conjunto da obra, ou pela influência desse livro que acabo de ler, é que o considero como o melhor dos livros de Jessé. O livro de 2017 contém inúmeras referências teóricas que não são de domínio fácil, mesmo no meio acadêmico. Essas referências são agora mais trabalhadas e, a elas se somam novos referenciais. Eu particularmente fiquei muito satisfeito com as referências feitas a Max Weber, sobre o patrimonialismo, a Habermas, sobre a formação dos espaços públicos e a Norbert Elias, sobre o processo civilizatório. É à luz deles que ele vê os intérpretes de Brasil, apontando os seus erros, que considera propositais.

Entre esses intérpretes, quase que por inteiro, isenta de culpa a Gilberto Freyre e as posições defendidas em seus dois grandes livros, Casa Grande&Senzala e Sobrados e Mucambos, sobre a escravidão brasileira, suas peculiaridades e diferenças da dos Estados Unidos e sobre o primeiro processo de urbanização brasileira. Os mucambos seriam a continuidade da senzala? Mas se ele isenta Freyre, ele não perdoa a Sérgio Buarque de Holanda e o seu Raízes do Brasil. Aponta para o conceito nele trabalhado do homem cordial, em oposição ao homem do espírito, racional, disposto ao discernimento e ao empreendedorismo, ao contrário do homem cordial, passional e sempre disposto ao jeitinho, já numa referência a Roberto da Matta.

Quem também é merecedor da mais ácida crítica é Raimundo Faoro, e ao seu erudito livro Os donos do poder, onde é desenvolvido o conceito do patrimonialismo, incrustado no Estado brasileiro, numa longa herança portuguesa, desde o século XIV.  Faoro desenvolve a tese da maldição do Estado em oposição às virtudes do mercado. Para ele os países virtuosos são os do livre mercado, ao contrário dos países onde há forte intervenção econômica que são dados à corrupção. Desses conceitos emana o famoso vira-latismo brasileiro e as teses decorrentes. É melhor entregar as nossas riquezas para os homens do espírito, racionais e empreendedores, do que para homens com apegos ao afeto e ao jeitinho e entregá-las à iniciativa privada, longe da corrupção do Estado, inata no Brasil por um longo processo histórico de herança portuguesa.

Essas interpretações surgiram após os reveses sofridos pela elite dominante em 1930, com a criação da universidade, a USP em particular, e o seu consórcio com as editoras e os meios de comunicação de massa. Se estabelece uma aliança entre a elite e a classe média, classe essa, substituta do capitão do mato do regime da escravidão. Os espaços que deveriam ser públicos sempre foram colonizados pela elite do dinheiro, numa aliança que sistematicamente impede avanços da "soberania popular", que eles odeiam profundamente. Aí surge um terceiro conceito, que Jessé pouco analisa, que é o conceito de populismo, desenvolvido por Francisco Weffort, em O populismo na política brasileira.

Por essa aliança tivemos dois golpes de Estado, o de 1964, civil e militar, e o "Golpeachment" de 2016, midiático/judicial/parlamentar. O que foi impedido por esses golpes? Os anos entre 1945 e 1975 foram considerados como os anos de ouro do capitalismo internacional, que tiveram reflexos também no Brasil. Para que o povo não usufruísse desses benefícios é que ele foi submetido às políticas de austeridade. E, se com a eleição de Lula em 2002, esse povo começou a usufruir algumas benesses através da implementação de políticas públicas, essas foram abortadas antes que as classes médias dividissem novos espaços com as classes pobres, que por uma herança da escravidão, a elite e as classes médias odeiam profundamente. Como consequência, as classes pobres são reduzidas à situações idênticas às vividas na escravidão. Essa é a tese do livro. O Brasil é tão desigual, não pelo "homem cordial", pelo patrimonialismo estatal ou pelo populismo, mas sim, pela herança da escravidão. Por pesquisas empíricas ele apresenta a atual classe média brasileira, da qual falarei em post específico.
O livro de Jessé Souza, de 2017.

Em síntese, são esses os grandes passos do livro, do qual dou agora a sua estruturação básica. Além de prefácio, posfácio e notas de referência o livro está divido em três capítulos, com subcapítulos. O prefácio tem por título "O racismo de nossos intelectuais: o brasileiro como vira-lata" e o posfácio - "Um país em transe: as razões irracionais do fascismo".

Os três capítulos são: I. A escravidão é nosso berço, com os seguintes subcapítulos: 1.O mundo que a escravidão criou; 2. Freyre contra ele mesmo; 3. Sobrados e mucambos ou o campo na cidade.

O II capítulo tem como título: As classes sociais do Brasil moderno, com os seguintes subcapítulos: 1. A criação da ralé (uma categoria com a qual o autor trabalha - não tem significado pejorativo) de novos escravos como continuação da escravidão no Brasil moderno; 2. Os conflitos de classe no Brasil moderno; 3. O pacto antipopular da elite com a classe média; 4. A classe média e a esfera pública colonizada pelo dinheiro; 5. O moralismo patrimonialista e a crítica ao populismo como núcleo do pacto antipopular; 6. O pacto elitista e sua violência simbólica; 7. A elite do dinheiro e seus motivos; 8. A classe média e suas frações.

O título do III capítulo é: A corrupção real e a corrupção dos tolos. Tem dois subcapítulos: 1. A corrupção real e a corrupção dos tolos: uma reflexão sobre o patrimonialismo; 2. Normalizando a exceção: o conluio entre a grande mídia e a Lava Jato. Uma leitura imprescindível para compreender o Brasil atual e as razões do golpe de 2016.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Omeros. Derek Walcott. Nobel de literatura - 1992.

Entrei em contato com a literatura de Derek Walcott através do livro O mundo da escrita - como a literatura transformou a civilização, de Martin Puchner. Esse autor selecionou 16 livros/temas que ele considerou os mais impactantes. No capítulo 15 ele apresenta o poeta e escritor caribenho e o seu Omeros. De O mundo da escrita seleciono dois parágrafos iniciais do capítulo quinze:
Omeros, de Derek Walcott. Companhia das letras.

"Nações novas precisam de histórias para lhes dizer que são, e isso nunca ficou tão claro quanto em meados do século XX, quando as nações europeias perderam o controle sobre suas colônias e dezenas de novas nações nasceram praticamente da noite para o dia.  O número de Estados/nação do mundo quadruplicaram - eram cerca de cinquenta, chegaram a duzentos. E a independência se tornou um tempo de prosperidade para a literatura. As novas nações enfrentaram desafios consideráveis porque os colonizadores europeus haviam traçado limites territoriais de acordo com sua conveniência, muitas vezes forçando grupos, comunidades linguísticas e tribos rivais a ficar dentro de uma única entidade administrativa. Esses desafios tornaram ainda mais importante que se criasse uma coesão e uma identidade cultural por meio de textos fundamentais. [...]

Sempre me fascinou o caso mais extremo disso: a pequena ilha caribenha de Santa Lúcia e seu escritor Derek Walcott, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1992, autor de Omeros, um poema épico na tradição de Homero". Vamos a algumas informações básicas sobre o país ilha, do Google mesmo.
Por esse fantástico livro cheguei a Omeros.

Santa Lúcia é uma nação insular no leste do Caribe com um par de montanhas cônicas, os Pitons, na costa oeste. No litoral, há praias vulcânicas, locais para mergulho em recifes, resorts luxuosos e vilarejos de pescadores. As trilhas na floresta do interior levam a cachoeiras como a Toraille, com 15 metros de altura, que desce por uma colina até um jardim. A capital Castries é um conhecido porto de cruzeiros. A população da ilha é de 178.844 habitantes e o cultivo da banana é a sua principal atividade econômica, seguida pela cana de açúcar e pelo turismo de luxo. Sua população é de afro americanos e a disputa territorial se deu entre franceses e ingleses, tendo os últimos levado a melhor. Em 1979 se tornou independente, integrando a Comunidade Britânica das Nações.

Vamos ao livro de um único poema, dividido em sete partes. Vamos à apresentação da contracapa: "Poeta mulato das Antilhas, Prêmio Nobel de literatura de 1992, Derek Walcott escreveu um poema destinado a permanecer entre os mais belos e instigantes do século XX. Com um desenho circular, que enfeixa tanto o mundo atemporal dos heróis gregos como o dia a dia de uma aldeia de pescadores do Caribe, Omeros (grego moderno para Homero) é, antes de tudo, uma história viva do oceano, dos povos e idiomas que por ele ressoam. Das raízes mediterrâneas aos grandes autores da língua inglesa, passando pelo patois crioulo das Antilhas e os sons africanos que pulsam até hoje nas margens do Caribe, este é um canto universal, que funde de modo magnífico o encontro de raças, línguas e culturas que se deu nas praias americanas".
Uma localização da ilha de Santa Lúcia.

A orelha do livro também é bem ilustrativa. Vamos a ela: "Derek Walcott é um poeta na confluência de dois mundos. De um lado o mar do Caribe, traçando círculos ao redor de sua ilha natal, a pequena Santa Lúcia, uma ex-colônia britânica encravada no arquipélago das Pequenas Antilhas; de outro, o legado da literatura inglesa, expressão maior de um império que se alastrou por quase todos os mares do planeta.

Desse choque de línguas e lugares resultou um canto poderoso que aproxima a Grécia, a África e o Caribe, subvertendo as noções culturais de centro e periferia, deslocando nossa percepção da história e enriquecendo de modo inteiramente inusitado o diálogo entre as nações do Novo e do Velho mundo.

Em Omeros, se o mar e os negros pescadores de Santa Lúcia fornecem a matéria-prima , um vasto arsenal de imagens, ritmos e texturas tropicais, são os arquétipos da Ilíada e da Odisseia, as personagens míticas de Aquiles, Helena, Heitor e Filoctete (além do próprio Homero, encarnado num pescador cego, de nome Sete-Mares), que definem as linhas mestras do poema.

Misto de poesia, mito, romance e roteiro de cinema, Omeros é também uma meditação sobre questões cruciais do mundo contemporâneo, como a destruição da natureza, a identidade das minorias e o desenraizamento individual e coletivo.

No entanto, apesar da magnitude de suas explorações, não é uma obra voltada para eruditos. Ao contrário, incrivelmente vivo em sua captação do particular e ciente de sua abrangência universal, Omeros fala de perto a todos que se interessam pela verdadeira cultura deste tempo. Tempo em que a história é um movimento sem fim, que não se funda em lugar algum, e tem nas mutações do mar seu espelho mais luminoso.

A edição brasileira de Omeros é da Companhia das Letras. A tradução é de Paulo Vizioli, que é também o responsável pelo prefácio à primeira edição (1994). Ela tem por título A epopeia das Antilhas. Essa leitura é imprescindível para a melhor compreensão da obra. O livro poema tem 436 páginas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quem substituirá o professor? Seriam os "clones virtuais"?

No grande livro denúncia - A escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público, de Christian Laval, em sua segunda parte, analisa " a escola sob o dogma do mercado". Logo depois de falar, no quinto capítulo, sobre "a grande onda neoliberal", no sexto, ele se debruça sobre "o grande mercado da educação". Nele, num subtítulo, sob o nome de "o mercado das novas tecnologias e as ilusões pedagógicas" ele vai fundo na questão da substituição dos professores pelas novas tecnologias. Deixo a íntegra do texto, me isentando de comentários:
O livro de Laval, do qual eu retirei esse texto sobre o não futuro dos professores.

"Um dos fenômenos mais significativos que surgiram na Europa nos anos 1990 foi a criação de um mercado de novas tecnologias para uso educativo. Para as empresas que buscam novos mercados, o ensino surgiu como uma espécie de Eldorado, em razão de seu tamanho e da importância dos equipamentos de informática que passou a exigir. Os Estados Unidos mostraram o caminho no fim dos anos 1980, tanto no que diz respeito aos contratos de escolas e universidades com grandes empresas (como a Microsoft) quanto no que se refere à experimentação, com as Apple Classrooms of Tomorrow [salas de aula do amanhã da Apple] (Acot). Nos estados Unidos, uma enorme concorrência entre fornecedores e um discurso de forte mobilização impulsionada pelos lobbies e pela grande imprensa aceleraram a equipação das escolas.

Nesse âmbito, a Europa não ficou para trás. No início de 1996, a Comissão Europeia propôs "estimular a pesquisa" com "programas educativos multimídia" e aumentar o orçamento já destinado a isso. A "parceria europeia para a Educação (1997) pretendia entregar o material e os programas necessários às escolas com a colaboração ativa dos industriais do setor. No mesmo ano Tony Blair lançou um plano amplo, patrocinado por Bill Gates, para conectar 32 mil escolas britânicas. Em março de 1997, Jacques Chirac exigiu solenemente que todos os estabelecimentos de ensino secundário fossem conectados à web, objetivo que depois se tornou prioridade no governo de Lionel Jospin. Mas o movimento começou muito antes. Nico Hirtt e Gérard de Sélys descreveram em pormenores a adesão dos governos europeus às virtudes do grande mercado das novas tecnologias. Destacaram, em particular, o entusiasmo com que a Comissão Europeia adotou as principais recomendações dos industriais a esse respeito. A ERT começou o movimento publicando um relatório intitulado "Educação e competências na Europa" em janeiro de 1989, em que preconizava a educação a distância", em especial para a formação permanente. Em março de 1990, a Comissão Europeia assumiu a tarefa com um documento de trabalho sobre "a educação e a formação a distância", Dizia: "O ensino a distância [...] é especialmente útil [...] para garantir um ensino e uma formação rentáveis". Em maio de 1991, a Comissão Europeia publicou um novo relatório: "A revolução informática desqualifica grande parte do ensino [...] Os conhecimentos úteis têm uma meia-vida de dez anos, com depreciação do capital intelectual de 7% ao ano, acompanhada de uma diminuição proporcional da eficiência da mão de obra". O ensino a distância permite a renovação necessária do "capital humano", transmitindo "conhecimentos úteis" graças ao impulso do home office. Falando em termos de "produtos" e "clientes", a Comissão Europeia garantia que desejava transformar o e-learning numa alavanca de transformação da escola: "A realização desses objetivos exige estruturas de educação que deveriam ser concebidas em função das necessidades dos clientes". Em 1994, a ERT publicou um novo relatório intitulado "Construindo as estradas da informação, no qual os industriais planejavam a criação de um sistema educacional virtual que associava setor privado e setor público em toda a Europa. No Livro branco sobre a educação e a formação,a Comissão Europeia afirmava que a época da regulamentação da concessão de diplomas pelos Estados havia acabado e era necessário adotar um "mapa pessoal de competências" que validasse as competências adquiridas no emprego e fosse concedido por organismos privados habilitados. Nessa visão futurista, a introdução das novas tecnologias no ensino deveria resultar numa gigantesca "rede de ensino a distância" e numa profissionalização muito mais incisiva de percursos acadêmicos com flexibilidade para se adaptar às necessidades das empresas. É profunda a interpenetração da Comissão Europeia e dos interesses privados nessa esfera. Com o pretexto de construir a e-europa, chegou-se ao ponto de as próprias empresas desenvolverem a base curricular das escolas e das universidades para ampliar seu mercado. O Consórcio Career Space, que agrupa onze grandes empresas do setor de tecnologia de informação e comunicação (TIC), europeias e principalmente norte-americanas (CiscoSystems, IBM, Microsoft, e Intel, mas também Philips, Siemens e outras), redigiu para uma publicação oficial das Comunidades Europeias um "guia para o desenvolvimento de programas de formação", cujo intuito era definir os "novos cursos de formação em TIC para o século XXI" que as universidades europeias deveriam oferecer.

O avanço do mercado das novas tecnologias educativas é acompanhado de um discurso "pedagógico" que anuncia o "fim dos professores". A informática e a internet não são vistas como objetos técnicos que devem ser estudados e compreendidos, ou como ferramentas suplementares úteis à aprendizagem, mas como alavancas "revolucionárias" que permitirão mudar radicalmente a escola e a pedagogia. Apostas comerciais e métodos pedagógicos se enredam de uma forma nunca vista. Se os defensores das pedagogias por projeto, ensino mútuo ou técnicas Freinet foram incensados tanto por parte do alto escalão administrativo e ministerial quanto pelos grandes desenvolvedores de material de informática, é porque, para os promotores dessa "revolução", a eliminação das relações pedagógicas tradicionais e a utilização das novas "máquinas de ensinar" estão estreitamente relacionadas. A introdução das novas tecnologias no ensino tradicional revelou um rendimento muito fraco, quase nulo, conforme a experiência com as Acot já havia mostrado nos Estados Unidos. Portanto, era preciso difundir a ideia de que a natureza do ensino tinha de mudar, que a aprendizagem é, sobretudo e fundamentalmente, busca "autônoma" de documentos e tratamento de informações, e que o papel do professor tem de ser totalmente revisto. Para a ERT, essa evolução pode ser resumida da seguinte maneira: graças às novas tecnologias, passamos de um "modelo de ensino" para um "modelo de aprendizagem". O papel do professor não é mais transmitir conhecimentos, mas motivar, orientar, avaliar. Ele se tornou "coach" e "pesquisador".  Os educational leaders à frente das escolas, formados em gestão privada, se dedicarão a introduzir essa guinada no modelo pedagógico e promover a difusão das novas tecnologias na nova "organização educadora".

Fazer com que se acredite que o professor deve ser um orientador de pesquisas pessoais e exercícios padronizados em suporte informático possibilita justificar a compra de equipamentos em nome de uma "substituição (inelutável) do trabalho pelo capital".  No futuro, a educação será uma indústria capitalista que funcionará com a ajuda dos "professores de silício", segundo a imagem proposta por um dos mais fervorosos defensores dessa revolução tecnológica. Especialistas preveem, mais radicalmente, que haverá um enfraquecimento mais ou menos rápido dos sistemas escolares tais como foram construídos ao longo de séculos, e que eles serão substituídos por um embate entre oferta e demanda, supostamente capaz de produzir uma "formação mais rentável". Essa concepção pedagógica mistura a utopia de uma "nova cultua escolar", construída pelos alunos por meio de "tentativa e erro", o uso intensivo das NTIC nas salas de aula e a adaptação da escola à globalização econômica e cultural. Dessa forma, estão garantidas a vitória do construtivismo pedagógico ("os alunos constroem o próprio saber") sobre a transmissão dos conhecimentos, o fim do mestre, a abertura da escola para o mundo e a comunicação horizontal entre os alunos. Alguns se precipitam e veem essas ferramentas como alavancas para uma evasão escolar geral: porque se descolar, se sujeitar a horários restritivos, aceitar a autoridade de um professor, quando se pode aprender em casa, no momento que se quiser, em pé de igualdade com os colegas?  O home schooling seria o futuro, porque resolveria o problema da escola eliminando-a. O jornal Le Monde, por ocasião do WEM de Vancouver, descreveu da seguinte maneira as futuras transformações, ou ao menos as que imaginam os mercadores da educação:

"Quer se trate de uso de tempo, de local ou de condições de estudo, o WEM promete um futuro radicalmente novo não somente para o estudante do século XXI, mas também para o educador. Basta de anfiteatros superlotados, em que alunos tomam nota de aulas expositivas durante horas a fio, páginas a fio. O estudante poderá realizar sua formação em casa, pelo computador, a seu ritmo. Ele poderá completá-la ao longo de toda a vida".

Quanto ao professor, ele será substituído por "clones virtuais", bem mais eficientes que os velhos fichários de autocorreção da pedagogia de Freinet".

LAVAL, Christian. A Escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo. Boitempo. 2019. Páginas 141-145.

Mais adiante, nas páginas 221-222, tem mais algumas frases que me entristeceram profundamente: "A promoção dessas tecnologias vai ao encontro das preocupações dos que querem reorganizar o ensino eliminando o cara a cara entre professor e aluno. É preciso acabar com essa "atividade artesanal", com essa "profissão liberal" ultrapassada, porque ela é pouco "racional". A ERT vai no mesmo sentido: "É mais que tempo de transformar a sala de aula com os mesmos benefícios conhecidos da tecnologia e das técnicas de gestão que revolucionaram cada local de trabalho na indústria e nos negócios". Confesso que sempre gostei dessa "atividade artesanal". Coisas da práxis. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A escola não é uma empresa. O neoliberalismo em ataque ao ensino público. Christian Laval.

Sempre sigo alguns princípios quando faço a escolha dos livros para a leitura. Um deles é a escolha através dos autores. É o caso desse livro maravilhoso de Christian Laval, professor de sociologia da Universidade Paris-Ouest Nanterre - La Défense, A escola não é uma empresa - O neoliberalismo em ataque ao ensino público. Conheci Christian Laval por seus livros em parceria com Pierre Dardot, A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal e Comum - Ensaio sobre a revolução no século XXI. Pretendo ainda ler muitos outros.
Uma dura contestação à escola neoliberal. 

A escola não é uma empresa é uma forte defesa em favor da escola pública, uma longa construção histórica. Vou ficar aqui com apenas uma qualificação sua: ela é republicana. O livro se deve aos ataques que ela vem sofrendo por parte daqueles que querem alinhar a escola à lógica do capitalismo global. É sabido que a escola, historicamente, ficou um tanto imune a essa lógica, por ser um espaço de contraposição aos seus princípios. Passou a ser um raro espaço de humanização em meio a uma barbárie generalizada, com o avanço capitalista. Mas isso foi mudando, especialmente, no pós Segunda Guerra Mundial, quando são formuladas as teorias e a partir dos anos 1980, com a sua implantação.

O livro não é novo. A sua primeira edição é de 2003 (Brasil - 2004) e o Brasil ganhou uma nova edição, agora em 2019. Ele ganhou apenas um novo prefácio, para dizer de sua atualidade.  É óbvio que isso tem a ver com golpe de 2016.  Por ser um livro de 2003 ele não contém tanta novidade com relação aos princípios e aos fatos. O seu grande valor está no poder de análise e interpretação. Está muito bem fundamentado, tanto na apresentação dos referenciais teóricos, quanto nos documentos das agências internacionais que expõem a doutrina e as diretrizes para a sua implementação. Essas doutrinas representam um avanço sobre um incipiente e promissor mercado. Tudo está apenas começando. É óbvio que isso representa uma mudança profunda e é motivo de muitas preocupações e desalentos em meio aos profissionais envolvidos. 

O livro, além de introdução e conclusão, está estruturado em três partes, que tem os seguintes títulos: I. A produção de "capital humano" a serviço da empresa; II. A escola sob o dogma do mercado e III. Poder e gestão na escola neoliberal. São 326 páginas, com muitas notas ao pé de página (fontes) e uma bela indicação bibliográfica, ao final.

A primeira parte possui quatro capítulos, que envolvem essa mudança fundamental nos objetivos educacionais. São eles: 1. Novo capitalismo e educação; 2. O conhecimento como fator de produção; 3. O novo idioma da escola e 4. A ideologia da profissionalização. 

A segunda parte tem mais quatro capítulos, mas a numeração vai na sequência: 5. A grande onda neoliberal; 6. O grande mercado da educação; 7. A nova "gestão educacional" e 8. As contradições da escola neoliberal.

A terceira parte também tem quatro capítulos: 9. "A modernização" da escola; 10. Descentralização, poderes e desigualdades; 11. A nova "gestão educacional"; 12. As contradições  da escola neoliberal. Ainda na estrutura geral do livro, os capítulos são apresentados com sub-títulos, fato que torna a leitura bem mais fácil.

Creio que com os títulos dos capítulos é possível vislumbrar um grande sistema de mudanças. A escola, de uma instituição pública foi transformada numa "organização" e, de um espaço destinado à de transmissão de conhecimentos foi reduzida à aquisição de competências e, ainda, de espaço de inserção cultural foi reduzida a treinamento de habilidades. A escola não mais é feita para a criança entrar numa "relação metacognitiva com a linguagem e os saberes". Se transformou num espaço onde se exercita o anti-intelectualismo.

Na orelha do livro encontramos a novilíngua dessa escola: A educação vai deixando de ser um bem comum, público, e adquire cada vez mais o caráter de mercadoria, de bem privado comercializável, sofrendo os condicionamentos da lógica empresarial em termos de gestão e de resultados. Nessa nova lógica, devem ser usadas as ferramentas da "gestão participativa", em que o eufemismo dá o tom: o poder se tornou "pilotagem"; comando é "mobilização"; autoridade é "suporte"; supervisionar é "ajudar"; impor é "convencer"; dirigir não é mais comandar, mas "motivar", "exercer liderança", "animar" e, sobretudo, "educar".  O gestor é "um piloto que deve obter a adesão a um projeto".
O livro pelo qual conheci o autor. 

Deixo ainda duas citações e uma chamada para um post especial sobre o futuro dos professores. Vai aí a primeira delas: "A contradição da escola neoliberal se deve, sobretudo, ao fato de que nenhuma sociedade é capaz de funcionar se o vínculo social se resume às "águas geladas do cálculo egoísta". A perda de sentido da escola e do saber é apenas um dos aspectos da crise política, cultural e moral das sociedades capitalistas, nas quais a lógica predominante traz em si a destruição do vínculo social em geral e do vínculo educacional em particular". (300-1)

E o último parágrafo do livro: "A educação é um "fato social total", para usarmos a expressão de Marcel Mauss, mas a transmissão dos conhecimentos é seu eixo. A educação ocupa o centro da lógica da dádiva e da contradádiva entre gerações. Saberes, sim, mas também normas e valores. Essa lógica é o fundamento da instituição e lhe dá embasamento antropológico. O maior perigo, com a desigualdade, é a mutilação da vida por uma concepção redutora da cultura e da educação, concebida como uma formação com objetivos profissionais. É como passar de uma escola dependente de um nacionalismo cultural para uma escola corroída pelo egoísmo utilitarista. Essa concepção dominante da educação faz parte da visão de uma humanidade formada por combatentes da guerra econômica mundial. Por isso é que ela deve ser combatida". (307).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Bolsa de estudos. Mestrado. Chevening (UK). Maria Luiza Khoury. Como conseguir.

Enquanto lia o livro de Christian Laval, A escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público, eu via a postagem da Maria Luiza Khouri, acompanhada com um vídeo, onde ela explica detalhadamente como fazer para se habilitar a bolsas de estudos no Reino Unido. O livro de Laval é uma pesada crítica ao caráter cada vez mais concorrencial e competitivo que invade a educação em sua guinada de adaptação às exigência do mercado. Essa adaptação reduz o ser humano à unidimensionalidade, marcada pelo econômico. Historicamente a educação, em seu caráter republicano, usando a expressão do mesmo Laval, é marcada pelo seguinte tríptico: formar o trabalhador, instruir o cidadão e educar o homem.
Maria Luiza Khouri explicando como chegar ao mestrado em Londres, com bolsa do Reino Unido.

O post e o vídeo da Mari vem na direção oposta ao caráter concorrencial e competitivo do processo educacional e aponta para o compartilhamento de experiências e para a abertura de possibilidades para todos aqueles que desejam andarilhar pelos caminhos por ela já percorridos. Imediatamente a parabenizei, dizendo-lhe que o seu port representava um ato de generosidade e de bondade e me confessei orgulhoso por ter participado de seu processo de formação.

Maria Luiza Khouri foi minha aluna no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Positivo e, obviamente, sempre se mostrou uma aluna diferenciada. Determinação, atitudes positivas, liderança e espírito de organicidade sempre foram marcas de sua participação nas atividades escolares. Depois também fui distinguido na orientação do TCC de seu grupo. Tivemos assim uma aproximação maior e tive a honra de fazer a sua carta de apresentação para a universidade inglesa.

A finalidade do post é dupla. A primeira é a que a própria Mari deseja, que é a de oferecer a sua experiência para aquelas pessoas que desejam seguir os seus caminhos para obterem a tão sonhada bolsa proporcionada pelo governo do Reino Unido e, o segundo, e de minha parte a razão principal, que é a de exaltar a atitude que a Mari tomou. Compartilhar a sua experiência e abrir essa possibilidade para outras pessoas. Essa atitude é um reflexo da Mari que eu conheci. Ela é resultado de uma formação que ela recebeu, de valores que ela foi assimilando em seu processo de formação e de socialização. Família, escola e grupos de amizades tem a sua participação nesse processo.

A decisão de publicar esse post, em meio a leitura do livro de Laval,  me veio também pela lembrança de um evento de formação do qual participava o professor João Wanderley Geraldi, o nosso grande mestre da linguística. Nos contava ele a história de sua fisioterapeuta, que havia se formado graças a política pública do PROUNI. Dizia ela: "Professor, o PROUNI precisa acabar, ele não pode continuar existindo". Diante dessa afirmação o professor retrucou: Mas como é que você quer que esse projeto acabe, se foi por ele que você conseguiu se formar"? Ela prontamente respondeu, para desapontamento do professor. "Pois é, ele precisa acabar pois a concorrência é muito grande". Traduzindo, essa menina, formada pelo PROUNI, queria que as oportunidades que ela teve na vida não fossem mais oferecidas a ninguém. Queria uma reserva de mercado com o fechamento de oportunidades para novos profissionais.

Deixo para vocês a contraposição dessas duas atitudes e, para  a Mari, uma mensagem final, que retiro de Paulo Freire, que  recentemente usei como epígrafe.

"Ensinar exige alegria e esperança. A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e, segundo, se buscasse sem esperança". Paulo Freire. Pedagogia da autonomia.

Para mim, essa frase contém em si toda uma definição e todo um conceito de educação. Seres inacabados, limitados e finitos, na busca de completude. Essa é a travessia, a trajetória de formação que você vem trilhando com tantos êxitos e que, tenho certeza, te traz alegrias e novas esperanças. E, como já expressei na nossa comunicação pelo face, "que os teus voos pelo mundo continuem e parabéns pela tua vida de buscas e de realizações. Na tua volta comemoraremos".
Lembrança de uma comemoração da turminha aqui em casa.

Deixo aqui a mensagem que a Mari mandou hoje pela manhã (17/10/2019), diretamente de Londres. 
Bom dia, Brasil!
Tenho recebido mensagens de pessoas interessadas em aplicar para o programa Chevening, que concede bolsa de estudos integral para mestrados no Reino Unido, e que está com as inscrições abertas até o dia 05 de Novembro.
Para tentar ajudar quem tá aplicando, preparei um vídeo (bem caseiro, tá?) contando sobre a minha experiência e dando algumas dicas - bem pessoais - sobre o processo seletivo.
Fiquem à vontade para mandar para quem tiver interesse. Sabemos que não são muitas as opções de bolsas de estudos integrais, e muito menos as relacionadas com audiovisual, então quanto mais gente puder aproveitar essa oportunidade, melhor 
Besos diretamente do frio e chuva! Logo logo tô aí 

Para acessar o vídeo basta clicar. E quanto a Mari, deixo dela a imagem registrada num dos comentários à sua postagem no face: Henrique Sal Grosso Ouro Com certeza! Essa menina é de ouro! Abraços e Parabéns!

https://www.facebook.com/marialuizakhouri/posts/2564225776966803?comment_id=2564279173628130&reply_comment_id=2564419810280733&notif_id=1571321311498299&notif_t=feed_comment_reply

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Brasil: Racismo estrutural. Roger Machado.

No sábado, dia 12 de outubro, o técnico do Esporte Clube Bahia, Roger Machado, na tradicional entrevista pós jogo, não deu apenas uma entrevista, deu uma verdadeira aula de Brasil, sobre o racismo brasileiro que, segundo ele, é estrutural.

Roger Machado é um atleta consagrado no futebol brasileiro. Seu grande êxito como jogador está ligado ao Grêmio, onde jogou de 1994 até 2003. Seu maior título foi a conquista da Libertadores da América no ano de 1995. Roger iniciou a sua carreira de treinador também no Grêmio, onde é ídolo de seus torcedores.
Roger Machado dando a sua aula sobre o racismo estrutural brasileiro.

Depois de passagens pelo Atlético Mineiro e pelo Palmeiras, está atualmente treinando o Bahia e está obtendo êxitos. Ouvi, numa entrevista, que está entusiasmado em ser treinador do Bahia, por este clube estar fortemente ligado a projetos sociais na cidade de Salvador. Sem dúvida, Roger é alguém profundamente diferenciado dentro do futebol brasileiro.

No jogo de sábado não passou despercebido da imprensa, o fato de que os dois técnicos do jogo (Bahia e Fluminense) serem negros.  Daí, numa pergunta a respeito, veio a aula. Tenho estudado bastante o tema sobre a herança autoritária brasileira e, entre as suas causas, a questão do racismo sempre ocupa o primeiro lugar. A fala do Roger vai fundo na questão das tentativas do ocultamento deste mesmo racismo, defendido por vários intérpretes de Brasil, que falam da "comunhão pascal" das raças e da cordialidade do povo brasileiro. Reconhece que nos últimos 15 anos houve avanços, que, no entanto, estão sendo retirados agora.

No jogo havia faixas e cartazes, numa campanha contra o preconceito racial: CHEGA DE PRECONCEITO. Este foi o mote para a fala: O resto tomo do jornal baiano Correio. - Ao falar da campanha, Roger se estendeu sobre o tema e disse que a grande repercussão do encontro entre os dois únicos treinadores negros do campeonato é, em si, uma prova do preconceito que ainda existe.


"Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você (a repórter que fez a pergunta), mas quantas mulheres negras tem comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado", opinou.
Para o treinador tricolor, é preciso que a sociedade saia da fase de negação em relação ao racismo. "A gente precisa falar sobre isso. Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. 'Ah, não fala sobre isso'. Porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: 'Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui'. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui", finalizou.
Apresento ainda a íntegra da entrevista, que tomo do Esporte interativo.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Hereges. Leonardo Padura.

No dia 13 de agosto de 2019 fui ao espaço cultural Capela Santa Maria, para assistir a fala do escritor cubano Leonardo Padura. Embora a dificuldade natural do entendimento na comunicação, o que consegui apreender, foi notável, especialmente sua reflexões sobre a ilha de Cuba, o seu país. Já conhecia o escritor pelo seu notável romance O homem que amava os cachorros. Para marcar o evento, comprei outro livro seu, Hereges, movido em grande parte pelo seu título e por tudo o que ele envolve.
Hereges, o monumental livro do Leonardo Padura. Pela BOITEMPO.

Hereges, acima de tudo é um tributo à liberdade individual e um libelo em sua defesa contra todas as arbitrariedades que contra ela são cometidos. Vejamos as últimas frases do livro, na reflexão do detetive Conde, um dos personagens responsáveis pela beleza do livro: "Conde sentia essa história muito familiar e próxima. E pensou que talvez, em suas buscas libertárias, em algum momento Judy Torres houvesse estado mais próxima do que muita gente de uma verdade desoladora: já não há nada mais em que acreditar nem Messias a seguir. Só vale a pena militar na tribo que cada um mesmo escolheu livremente. Porque, se cabe a possibilidade de que até Deus, se é que existiu, tenha morrido, e a certeza de que tantos messias acabaram se transformando em manipuladores, a única coisa que resta, a única que na verdade nos pertence, é a nossa liberdade de escolha. para vender um quadro ou doá-lo a um museu. Para pertencer ou deixar de pertencer. Para acreditar ou não acreditar. E até para viver ou morrer".

O quadro em questão é o centro de todo o romance. Este quadro tem uma assinatura de Rembrandt (1606 -1669), o famoso pintor holandês do século XVII, o século de ouro da Holanda. Este quadro anda pelo mundo. Da Holanda vai para a Polônia, da Polônia vai para Cuba, de Cuba para a Venezuela, da Venezuela para os Estados Unidos e dos Estados Unidos para Londres, onde está em disputa judicial pelos herdeiros poloneses/cubanos do quadro. É em seu torno que o romance é construído, mas repito, o grande tema é a liberdade, a sua busca e as dolorosas consequências que geralmente a acompanham.

O livro está dividido em quatro capítulos ou livros: I. Livro de Daniel. II. Livro de Elias. III. Livro de Judith. IV. Gênesis. Na contracapa temos uma preciosa síntese do livro: "Um garoto judeu refugia-se em Cuba durante a Segunda Guerra Mundial. No século XVII, um aspirante a pintor rompe com os mandamentos de sua religião ao buscar os ensinamentos de Rembrandt. Nos dias atuais, uma jovem cubana busca afirmar suas paixões. Em seu novo romance, Leonardo Padura narra a história dessas três personagens que nutrem, em comum, um herético amor pela liberdade".

Na abertura do livro Padura divulga uma pequena e imprescindível nota do autor. Três parágrafos apenas: "Muitos dos episódios narrados neste livro se baseiam em uma ampla pesquisa histórica e, inclusive, foram escritos com base em documentos de primeira mão, como é o caso de Javein Mesoula (Le fond de l'abîme), de N.N. Hannover, um impressionante e vívido testemunho dos horrores do massacre de judeus na Polônia entre 1648 e 1653, texto com tal capacidade de comover que, com os necessários cortes e retoques, decidi retomá-lo no romance, cercando-o de personagens fictícios. Desde que o li soube que não seria capaz de descrever melhor a explosão de horror e muito menos de imaginar os níveis de sadismo e perversão a que se chegou na realidade vista pelo cronista e por ele descrita pouco tempo depois.

Mas, como se trata de um romance, alguns dos acontecimentos históricos foram submetidos à exigências do enredo dramático, em benefício de sua utilização, repito, romanceada. Talvez a passagem em que realizo esse exercício com maior insistência seja a que trata dos acontecimentos situados na década de 1640, que na realidade, são a soma dos eventos próprios desse momento com alguns da década seguinte, como a condenação de Baruch Spinoza, a peregrinação do suposto messias Sabbatai Zevi ou a viagem de Menasseh Ben Israel a Londres, com a qual conseguiu, em 1655, que Cromwell e o Parlamento inglês dessem aprovação tácita à presença de judeus na Inglaterra, coisa que logo depois começou a acontecer.

Nas passagens posteriores, sim, foi respeitada a estrita cronologia histórica, com pequenas alterações na biografia de alguns personagens inspirados na realidade. porque a história, a realidade e o romance funcionam como motores diferentes".

Os horrores do massacre polonês estão no livro de Gênesis (IV), a história da Holanda e do pintor Rembrandt está no livro de Elias (II) e o restante está no livro tanto de Daniel (I) e de Judith (III). Na contracapa ainda encontramos um nota do Jornal El País: "A combinação perfeita entre os romances histórico, social e policial. Uma aventura de tirar o fôlego. O melhor dos oito romances escritos por Padura nos quais Conde figura como personagem principal... Divirtam-se". Concordo com o divirtam-se e, em parte, com o melhor romance. Eu que não li os oito, ao menos o considerei superior ao O homem que amava os cachorros (A temática é mais profunda). Discordo que Conde seja o personagem principal, mas, em compensação, ele é o mais bonachão e o mais divertido. 
E ainda sobrou tempo para uma tietagem com o escritor.


Eu destacaria dois pontos altos do romance. O item número 5 do livro de Daniel e o de número 3 do livro de Elias. São os pontos mais elevados da compreensão humana, da liberdade e das fontes de sua repressão. Os repressores são os que se arvoram em representantes de Deus. 


Do livro de Daniel destaco este diálogo entre tio e sobrinho: "'A propósito', disse afinal, 'Você sabe porque não me casei com Caridad?' (Joseph - judeu e Caridad - cubana). Daniel se surpreendeu com a súbita entrada num assunto até então nunca mencionado pelo tio, pelo menos com ele, e ao qual, por respeito, jamais tinha se referido. 'Porque ela tem umas crenças e eu tenho outras. E não sou capaz de pedir que ela renuncie às dela. Não tenho esse direito, não seria justo, porque essa fé é uma das poucas coisas que pertencem de verdade a ela, e das que mais a ajudaram a viver. E eu não vou renunciar às minhas. Ela é inculta, mas é uma mulher boa e inteligente, e me compreende. Para nós dois, o mais importante agora é que nos sentimos bem quando estamos juntos, e isso nos ajuda a viver. Acima de tudo, não nos sentimos mais sós. E isso é um presente de Deus. Não sei se do dela ou do meu, mas uma graça divina'". Página 88. 

E do livro de Elias, para concluir, o diálogo se dá entre mestre e discípulo: "Nestes dias fiquei contente por seu avô estar morto. O velho teria sido capaz de matar Amós. Ele sempre foi um lutador, um homem piedoso, e o que mais admirava era a fidelidade e a razão. É, dissera Elias, e o que mais odiava era a submissão". Página 315.
Amós havia delatado o irmão Elias, por este ter escolhido o caminho para ser pintor, contrariando a lei judaica. Também assino com Eric Nepomuceno, o final da orelha do livro: "Fica, então, a advertência ao leitor: ler este livro até o fim pode mudar sua maneira de ver a vida e o mundo. Para melhor, é claro".