sexta-feira, 10 de julho de 2020

A cor púrpura. Alice Walker.

Um livro na lista de espera desde 2012. Não sei exatamente as razões por ter ficado tanto tempo nessa lista. Certamente não devo ter gostado das suas primeiras páginas. Estou falando de um livro famoso, A cor púrpura, da conhecida escritora dos Estado Unidos, Alice Walker. O livro está escrito sob a forma de cartas, cartas de Celie para Deus - Querido Deus, de Celie para Nettie, querida Nettie e de Nettie para Celie, querida Celie.
A cor púrpura. José Olympio. Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson.

O livro foi escrito em 1982 e já em 1983 ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção. Chegou ao Brasil em 1986 e tenho em mãos a 9ª. edição, da José Olympio. Steven Spielberg o levou ao cinema. O cineasta se entusiasmou com o livro, como lemos na contracapa: "Eu não consegui parar de ler... Um dos melhores livros que li em anos, uma leitura de muita força, emocional". Algum exagero? Certamente.

Já que estamos nas frases, na contracapa tem mais duas: "Uma saga de alegria e dor, humor e amargura (...) e um elenco de personagens que vivem, respiram e iluminam o mundo". Publishers Weekly. E: "Personagens maravilhosos (...) Alice Walker ousa dizer verdades sobre homens e mulheres, sobre pretos e brancos, sobre Deus e amor (...) Um dos grandes livros de nosso tempo". Essence Magazine. Essas, creio, bem mais condizentes.

A narradora é Celie, sua irmã é Nettie. Sinhô (Albert) tomou Celie por esposa e afastou-a da irmã Nettie. Shug Avery era amane do Sinhô e depois também de Celie. Estão aí os principais personagens do romance. Celie é apresentada como meio semi analfabeta. Vamos a dois parágrafos da orelha do livro:

"'Querido Deus': assim começa a maior parte das cartas escritas por Celie. Negra semianalfabeta, vivendo no sul dos Estados Unidos, subjugada a um homem que ela pensa ser seu pai, forçada a viver longe dos dois filhos e com um marido a quem não ama, Celie vive entre cuidar da família e planejar uma vida diferente da sua para a irmã, Nettie.

As duas irmãs passariam trinta anos sem notícias uma da outra, Celie confiando seus pensamentos a Deus, seu único correspondente. Até que sua amizade com Shug Avery, cantora de sucesso e amante de seu marido, lhe dá outra perspectiva da vida. Em oposição à solidão, pobreza, brutalidade e violência, Celie descobre novas maneiras de sentir: beleza, conforto, desejo, amor, saudade, esperança e consciência de si".

A maioria das cartas são bem pequeninhas, duas a três páginas. Existem também as que chegam a dez. A maioria das cartas era endereçada mesmo para Deus, as outras são cartas trocadas entre as irmãs. O sinhô ocultava as cartas de Celie por desentendimentos com ela. Até que um dia, encorajada por Shug Avery, encontram e leem todas elas. Como vimos, trinta anos separaram as duas irmãs. Nettie é meio adotada por um casal de missionários e vai para a Inglaterra e de lá para a África trabalhar em missões religiosas. Nessas cartas aparece um tema forte do livro. Os males do colonialismo. A impiedade dos colonizadores brancos.

As cartas de Celie trazem os outros temas fortes da escritora. O patriarcalismo está presente na relação que se estabelece entre os personagens masculinos e femininos. Bater em mulher era uma especie de obrigação, mostra de autoridade. É uma constante de todos os homens e a resistência de apenas algumas das mulheres. Outro componente é o racismo, também fortemente expresso nas cartas, tanto de Celie quanto de Nettie. As questões financeiras são tratadas meio a margem. Não havia maiores problemas, como a fome, por exemplo. Quanto ao tempo retratado, ele retorna aos meados do século. Há uma referência de que Nettie teria morrido num navio americano, afundado pelos alemães.

A cantora Shug Avery é a personagem emancipadora do livro. Ela tem poder de fala. Dá de dedo em todos os homens e os enquadra. Ela é a professora de Celie, de quem se torna amante. Esse amor tem volta, isto é, tem reciprocidade. Acima de tudo, ela lhe ensina fazer sexo, com ela e com o sinhô, 'mexer com o butonzinho', numa referência ao clitóris. Bebida e drogas também fazem parte do cardápio. O livro é relativamente longo. São 335 páginas.

Com relação ao título, já ao final do livro encontramos a seguinte referência, quando Celie aponta para Shug, que está de volta, o seu quarto: "Bom, é aqui, eu falei, parada na porta. Tudo no meu quarto é púrpura e vermelho a num ser o chão que tá pintado de amarelo vivo. Ela foi direto ao pequeno sapo púrpura que tava na minha prateleira. O que é isso? Ela perguntou. Ah, eu falei, uma lembrança que o Albert (o sinhô) fez para mim". A essas alturas já existe afetividade e ternura na relação, uma relação que atinge também o espírito. Eram outras pessoas, seres humanos.

Uma palavrinha sobre a escritora: "Alice Walker é internacionalmente conhecida por sua participação em movimentos pelos direitos civis, principalmente das causas negra e feminina. Além de romancista premiada, é também autora de contos, ensaios, poemas e vários livros infantis. Sua obra está traduzida para mais de vinte línguas. Nascida no estado da Geórgia, Alice Walker mora na Califórnia, Estados Unidos", lemos na orelha do livro. Dela temos também.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/rompendo-o-silencio-alice-walker.html

terça-feira, 7 de julho de 2020

Mozart - Sociologia de um gênio. Norbert Elias.

Dando sequência às minhas leituras em tempos de pandemia, faço mais uma releitura.O livro da vez foi Mozart - Sociologia de um gênio, de Norbert Elias. O livro, como indica o título, é mais do que uma simples biografia. É uma biografia acompanhada de uma análise sociológica da época em que o artista viveu. Como certamente sabem, Mozart teve vida curta. Foram apenas 35 anos. Ele nasceu em Salzburgo em 1756 e morreu em Viena, em 1791. Lembrando que em Paris, em 1789, ocorre a famosa Revolução Francesa, mais propriamente chamada de Revolução burguesa.
Uma edição Jorge Zahar, 1995.

Essa percepção da mudança histórica e de suas consequências é a essência da análise de Norbert Elias. Mozart fora um artista de corte, atuando na corte de sua terra natal, a cidade de Salzburgo. Mas Mozart sempre quis ser um artista autônomo, um artista burguês para atuar num, digamos, livre mercado. De artista artesão queria passar para a arte de um artista. O artista era mais livre do que o artesão. Este vivia sob as ordens de um senhor, no caso, do arcebispo de Salzburgo, o conde Colloredo.

O livro de Norbert Elias está muito bem estruturado. Ele foi organizado por um estudioso de sua obra, Michael Schröter. Está dividido em duas partes: Parte I. Reflexões sociológicas sobre Mozart e a parte II. A revolta de Mozart: de Salzburgo a Viena. Na primeira parte Mozart fica sob a tutoria do pai, já músico da corte, e do arcebispo de Salzburgo, que lhe concede emprego estável. Tanto o pai quanto o filho são funcionários da corte. Tem, portanto, vida estável. A que custos, no entanto, devemos perguntar. A segunda parte mostra a ruptura tanto com o pai, quanto com o bispo.

Na primeira parte encontramos os seguintes títulos: Ele simplesmente desistiu, onde é mostrado um panorama geral de sua vida; músicos burgueses na sociedade de corte; Mozart se torna artista autônomo; arte de artesão e arte de artista; o artista no ser humano (a indissociabilidade); os anos de formação de um gênio; a juventude de Mozart - entre dois mundos sociais.

Na segunda parte temos: A revolta de Mozart: de Salzburgo a Viena; completa-se a emancipação: o casamento de Mozart; o drama da vida de Mozart; uma cronologia sob a forma de notas. Por essa cronologia, uma espécie de síntese de sua vida, vemos as diferentes fases de sua vida. A apresento, ao menos em partes. Antes, porém, quero deixar registrada uma frase bem expressiva a respeito do genial e precoce artista. Ele foi cultivado como uma planta em estufa. O pai foi para ele o professor, o empresário, o amigo, o médico, o guia de viagens e o mediador de negócios. A ruptura veio aos 25 anos. O pai projetara os êxitos de sua vida na carreira do filho. Possivelmente Mozart se antecipou ao seu tempo. Não foi capaz de efetuar a transição de um tempo passado, com o qual se defrontava. Uma geração depois, Beethoven conseguiu os êxitos do artista de "mercado".

Mas vamos à cronologia em forma de notas: 

Ato I: 27 de janeiro de 1756 - setembro de 1777. Infância e juventude de um gênio; pai e filho. O desenvolvimento de uma relação; a busca infrutífera de postos nas cortes da Europa; mudança na voz  (em Nápoles) e a pressão crescente  da dominação do pai; o singular treinamento musical de Mozart. Relações com todos os músicos conhecidos e famosos da época (Bach, Gluck, Haydn, Johann Adolf Hasse, padre Martini). Tudo isso, além do treinamento intensivo pelo pai,

Ato II. Setembro de 1777 - 8 de junho de 1781. Primeira viagem sem o pai. Começo da emancipação e suas dificuldades: consciência. O primeiro caso amoroso (conhecido): sua prima (Bäsle), a mulher vulgar para Mozart. [...] A primeira grande briga com o pai; o humor fecal de Mozart. [...] Noção cada vez maior, de seu próprio valor. Noção cada vez maior, de sua vocação como compositor, especialmente de óperas. (Tempos de grande produção). Volta a Salzburgo [...]. Rompimento com o arcebispo.

Ato III. 8 de junho de 1781 - maio de 1788. Liberação da imaginação artística, individualização do padrão. Música de corte sob uma forma única, altamente individualizada. Para mencionar apenas as óperas: 16 de julho de 1782, primeira apresentação de O rapto do serralho ("Notas demais", disse o imperador). Primeira apresentação de Die Räuber (Os salteadores), de Schiller. 1º de maio de 1786, As bodas de Fígaro; recebida com críticas. 7 de maio de 1788, Don Giovanni. Medidas de economia em Viena, devido à guerra com os turcos.

Ato IV: 1788 - 5 de dezembro de 1791. Solidão crescente, decepções cada vez maiores. Se este ato fosse representado dramaticamente, ver-se-ia Mozart de pé, no palco, enquanto as pessoas conhecidas se vão embora, uma a uma. A esposa passa a maior parte do tempo nas estações de águas, as alunas nobres/patrícias que tinha anteriormente (são citadas) foram-se todas. Aumentam as dívidas e as preocupações com dinheiro. Os concertos por subscrição que ele anuncia fracassam redondamente. Don Giovanni  é recebido com frieza em Viena, embora saudado calorosamente em Praga. Suas cartas mostram-no num estado de desespero crescente, em parte devido aos problemas financeiros, em parte devido ao seu isolamento psicológico. As razões são diversas: - rejeição pela sociedade aristocrática de corte devido ao Fígaro, que provavelmente foi tido como sedicioso. - Suas obras são cada vez mais difíceis de entender. - Compõe cada vez mais para si mesmo, seguindo o impulso de sua própria imaginação. As três grandes sinfonias e outras obras são produzidas sem patronos, como artista autônomo. Mas, na época, as instituições de um mercado livre para obras musicais mal existiam.

Mais quatro parágrafos da orelha do livro: "Mozart foi educado na tradição da música de corte, numa sociedade que considerava os músicos como trabalhadores manuais, e de quem se esperava apenas que produzissem entretenimento para uma audiência cortesã. Ao longo de sua vida, esteve constantemente em busca de trabalho, porém o único emprego que conseguiu foi o de organista na pequena corte de Salzburgo.

Ao descrever como o compositor tentou levar em Viena uma vida de músico autônomo, Norbert Elias esclarece que só na geração seguinte - a de Beethoven - é que foram criadas condições necessárias para esse gênero de atividade. Mozart fracassou, argumenta ele, porque deu um passo no sentido da independência numa sociedade que ainda não estava preparada para tal. A rejeição da aristocracia de Viena, as dívidas cada vez maiores e nenhuma perspectiva de satisfazer seus desejos mais íntimos fizeram com que Mozart morresse com o sentimento de que sua existência social naufragara e de que sua vida se tornara vazia de significado.

Como mostra o autor, 'a situação de Mozart era muito peculiar. Embora fosse socialmente dependente e subordinado à corte de aristocratas, a consciência de seu extraordinário talento musical fez com que se sentisse igual, senão superior, a eles. Era, em suma, um gênio, um ser humano excepcionalmente talentoso e criativo, nascido em uma sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de gênio, e cujo cânone social não previa lugar para artistas originais em seu meio'.

Em Mozart, sociologia de um gênio, Elias aplica seu enorme poder de percepção a este caso de conflito trágico entre criatividade pessoal e uma sociedade que queria controlá-la. Um livro para estudiosos e pesquisadores da sociologia, da história europeia e da história da música, bem como para qualquer pessoa interessada na vida e na obra de Mozart". Nós, no caso. Maravilhoso livro - vida sofrida.

domingo, 5 de julho de 2020

Romeu e Julieta. Shakespeare.

Esses tempos de pandemia nos trazem desassossegos, mesmo com aparente sossego total. O fato de não sair de casa, de não rever os amigos, de não satisfazer pequenos caprichos propiciam um clima um tanto depressivo. O frio também colabora. Bem, assim procuro me ocupar com coisas mais leves, como livros menores, entenda-se - não tão longos, ou então, como no caso, de releituras. Foi assim que retomei Romeu e Julieta, do mestre maior William Shakespeare.
Romeu e Julieta. Versão da L&PM Pocket. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Romeu e Julieta não é apenas uma tragédia. São várias. Não são apenas Romeu e Julieta as vítimas, há também Teobaldo, Páris e a mulher do chefe dos Montéquio. E há também a história inconclusa do bom e prestativo frei Lourenço. E uma descoberta. O plano de frei Lourenço só não deu certo em função de uma pandemia. Uma barreira sanitária impediu que os freis mensageiros pudessem seguir de Verona para Mântua e entregar a Romeu a carta com as ações finais traçadas para salvar o famoso casal. E aí, haja tragédia!  

Bem, vamos a algumas contextualizações. Shakespeare nasce em 1564 e morre em 1616. Essa tragédia foi encenada pela primeira vez em 1594, no auge do chamado teatro elizabetano. É das peças de Shakespeare em que ele mais mostra as sua habilidades. Afinal de contas, histórias e mesmo tragédias de amor não são fatos tão raros. A genialidade está então na forma de narrar. Os jovens enamorados pertenciam a famílias rivais. Romeu era Montéquio e Julieta era Capuleto. O Príncipe tinha poderes e estes já eram respeitados. Ele era obedecido. Mas o ódio era maior e, com isso, as transgressões. A peça se desenvolve através de cinco atos.

No primeiro ato são mostradas as rivalidades entre as duas famílias e as advertências do Príncipe, que puniria com a morte as transgressões. Os Capuleto dão uma festa e o atrevido Romeu comparece. Julieta tem então 14 anos incompletos. Trocam beijos e as paixões se incendeiam. São seis cenas. No segundo ato entra em cena o pátio da casa dos Capuleto, hoje um dos lugares mais famosos, e conhecidos do mundo. Romeu pulara a cerca e se posta abaixo de sua janela. As juras de amor rompem a madrugada. Romeu busca conselhos com Frei Lourenço, certamente um grande co- protagonista da tragédia. A ama de Julieta servirá de pombo-correio entre os envolvidos. Quando Julieta vai se confessar com o frei Lourenço ele os casa em cerimônia simples. São mais seis cenas.

No terceiro ato começa propriamente a tragédia. As famílias se envolvem em confusão e Teobaldo (dos Capuleto) mata Mercúrio (dos Montéquio) Romeu mata Teobaldo, o primo de Julieta. Romeu é punido com o exílio, que deverá ser cumprido em Mântua. O frei Lourenço mediará as situações favoráveis aos noivos, enquanto que, na casa dos Capuleto se trama o casamento imediato da menina com Páris, parente do Príncipe. A ama de Julieta dá uma de grande sem vergonha. Hoje diríamos, uma moral líquida, de acordo com as conveniências. São mais cinco atos.

O quarto ato tem cinco cenas e o quinto três. Não vou entregar a narrativa para não tirar o suspense. Nesses atos temos, de um lado a movimentação de Romeu e de Julieta, articuladas pelo frei Lourenço e de outro a família dos Capuleto querendo apressar o casamento com Páris, preparando uma festa que deveria ser inesquecível. Como já citei, uma barreira sanitária frustrou as comunicações e a tragédia assumiu efetivamente proporções descomunais. Julieta tivera premonições do que poderia ocorrer.

Uma dica do enredo, a retiro da contracapa da edição da L&PM Pocket: "O amor apresenta-se à vida de Romeu e Julieta de modo traiçoeiro: ambos apaixonam-se instantaneamente, em uma festa - um baile de máscaras -, desconhecendo a identidade um do outro. Ele é filho dos Montéquio, e ela, dos Capuleto, duas das mais poderosas famílias de Verona, inimigas entre si. Desobedecendo às restrições familiares e políticas, eles vivem a sua paixão explosiva e desesperançada, naquela que se tornou a mais famosa história de amor da literatura ocidental, além de uma das mais populares tragédias shakespearianas".

Aproveito para fazer dois destaques dessas partes finais. A primeira se passa em Mântua quando Romeu suborna um pobre boticário para lhe comprar o veneno, apesar da proibição. Romeu entrega-lhe o dinheiro da encomenda: "Aqui está o ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos nesse mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha licor estimulante. Não és veneno. Vamos até a sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar".

A segunda é a fala do Príncipe, depois da tragédia consumada e esclarecida com a carta de frei Lourenço: "Esta carta corrobora as palavras do frei: o andamento do amor dos dois, a notícia da morte de Julieta, e aqui ele escreve que comprou veneno de um pobre boticário, depois do que veio até a cripta, para morrer e deitar-se com Julieta. - Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos.
No pátio, abaixo da janela de Julieta.

Por fim temos a fala dos dois chefes das famílias, expressando arrependimento e mandando construir estátuas de ouro para as pobres vítimas dessas inimizades. Eu estive em Verona. Estive no pátio, abaixo da janela, onde Romeu e Julieta trocavam as suas juras de amor. Estive com o mais famoso casal de amantes infelizes, que o gênio de Shakespeare legou à humanidade, junto com uma mensagem de paz e de entendimento. E, sem nenhuma condenação moral.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Como me tornei estúpido. Martin Page.

Deste livro eu guardo a origem. Ele tem uma dedicatória. "Ao grande Pedro Elói. Que você continue  com essa cabeça privilegiada. Um abraço".Júlio Hey. Me lembro perfeitamente do Júlio, um aluno do curso de Publicidade e Propaganda. Ao Júlio, um duplo agradecimento; pelo livro e pelo elogio. O livro em questão é Como me tornei estúpido, do escritor francês Martin Page. A edição francesa data de 2001 e a brasileira, pela Rocco, é de 2005. A tradução é de Carlos Nougué.
Tornar-se estúpido não foi uma tarefa tão simples. Uma vez tocado pela consciência...

O livro tem uma bela frase em epígrafe. É uma citação de O crime de lord Arthur Savile, de Oscar Wilde. "Ele lhes enviava o que eles não conheciam". Seria isso uma coisa perigosa? Creio que sim. Esse perigo está expresso também através de uma citação do livro do Eclesiastes: "Quem tem a sua ciência aumentada, este também tem aumentada a sua dor". Bastariam essas duas frase para um belo tratado sobre educação. Mas, Antoine, o jovem do título do livro, não fora prevenido dos perigos do estudo. Vejamos: "Mas, não tendo tido jamais a felicidade de frequentar o catecismo com as outras crianças, não foi prevenido dos perigos do estudo. Os cristãos tem a sorte, quando jovens, de ser postos em guarda contra os perigos da inteligência; por toda a vida saberão distanciar-se dela. Bem-aventurados os pobres de espírito".

Quem era Antoine? Na orelha do livro encontramos uma explicitação: "Antoine, o protagonista deste romance, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia burocracia e todas as suas máscaras.

Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Franz Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos mais queridos - Ganja, Charlotte, Aslee e Rodolphe - um plano perfeito. Investir na idiotice, como forma de sobrevivência.

 Depois de tentar o alcoolismo e o suicídio, Antoine está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

E o que pode ser mais estúpido que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?

Manipulando imagens nonsense deliciosas, verdadeira homenagem a mestres do surrealismo e do humor francês, como Boris Vian, Alfred Jarry e Eric Satie, Martin Page oferece a seus leitores um banquete para a inteligência. Um livro leve, fácil de ler, enganosamente simples, e rico, repleto de minuciosas citações e piadas ao pé do ouvido. Um livro feito sob medida para todos os Antoines que existem por aí.

Os dois capítulos da resistência à idiotia são extraordinários. A tentativa de se tornar um alcoólatra ou um suicida são dois capítulos de um humor extraordinário. Ele faz cursos, com salas apropriadas à finalidade. Creio que conseguem imaginar! Já o caminho para a idiotice foi fácil e no caso de Antoine, isso foi facilitado por um amigo de infância, que se tornara empreendedor, um rico corretor de valores, que em agradecimento por tê-lo lançado nos caminhos do sucesso, o acolhe. A idiotia lhe vem junto com o dinheiro. Vida vazia, vida burguesa, vida de bens de consumo fúteis e, por óbvio, belas mulheres, carrões, roupas de marca, Nikes e McDonalds. E nenhuma preocupação ambiental. Doses de Felizac não podem faltar. Antoine, no entanto, tem resistências e recaídas.

Nessa sua nova vida plena ele sofre um sequestro. São os seus amigos de infância. O valor do livro está, obviamente, na sua ironia. O drama da existência vazia de significados e de todas as imagináveis e inimagináveis fugas possíveis e impossíveis. O drama da existência humana, narrada por um jovem antropólogo.

Na orelha da contracapa lemos sobre o autor: "Martin Page nasceu em 7 de fevereiro de 1975 e estudou antropologia. Convencido de que a escrita não exige a convivência em ambientes hostis, Martin Page tenta, até hoje, e desesperadamente, levar uma vida tranquila". Na contracapa um elogio do Le Monde: "Martin Page fez um romance coberto de razões e que revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e sutil". Seria essa sua escrita uma sessão de psicanálise?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

O amante detalhista. Alberto Manguel.

Devo ter comprado O amante detalhista, de Alberto Manguel numa das liquidações das Livrarias Curitiba. Conhecia Alberto Manguel pelo seu maravilhoso livro Uma história da leitura, e isso, a referência ao autor e, mais a edição pela Companhia das Letras foram os motivos que levaram à compra. O livro é de 2005 e o comprei em 2011. Como eu ainda trabalhava nesse tempo, o livro ficou na lista de espera.
O amante detalhista. O livro de Alberto Manguel, com tradução de Jorio Dauster.

O livro está dividido em duas partes, a um e a dois. São os dois momentos da história de Anatole Vasanpeine, um personagem absolutamente peculiar, cuja história é narrada em "Le cas Vasanpeine", livro de Jean-Luc Terradilhos, de setembro de 1999. A essa narrativa Manguel faz os seus acréscimos. A narrativa ocorre na cidade de Poitiers, apresentando o seu retrato ao final do século XIX e início do XX.  Vasanpeine trabalha numa casa de banhos, no único emprego de sua vida. 

A narrativa de sua formação é muito interessante. O padre desiste de lhe ensinar o catecismo, em função de que o seu aluno não consegue enxergar as obras invisíveis de Deus. O padre chega a uma conclusão. Ele não está ali para ser questionado, ele está ali para ensinar. Um belo conceito de educação e que bem mostra que Vasanpeine era alguém um tanto diferente. Não aceitava facilmente as coisas. Méritos para o nosso personagem.

Vasanpeine terá um único emprego. Trabalhar na casa de banhos, cobrando ingressos. A história dos banhos, dos hábitos de higiene e o seu crescimento após a Revolução Francesa passam a ser relatados. A história de vida do nosso personagem muda quando um japonês monta na cidade um sebo, que além de livros trabalha também com fotografia. Anatole Vasanpeine se dedicará ao ofício, mas nunca se interessou por uma fotografia do objeto por inteiro, apenas por detalhes, como as mãos ou os dedos que lhe pagavam os ingressos. Está aí O amante detalhista. Sem ser um voyeur, passa a observar os frequentadores do estabelecimento. A sua câmara vai se aperfeiçoando com a evolução da técnica. Quando o japonês morre, já adquirira todas as técnicas da fotografia. Nunca fora flagrado em seu trabalho de observações.

Na parte dois, Vasanpeine se torna um ser normal e se apaixona por um ser, que passa a perseguir e a observar por inteiro. Segue-o pela cidade, até que ele cai de um posto de observação seu, com o disparo do flash de sua máquina. As intenções de Manguel com a história são complexas. Deixo o relato dos dois parágrafos finais do texto, quando ferido pela queda, está em seu quarto laboratório.

"Foi acordado pelos latidos do cachorro. Levantou-se e olhou a fotografia na luz intensa do meio-dia. Amassado e rasgado, um dos cantos dobrado, aquele pedaço de papel lustroso não era, ele sabia agora com absoluta certeza, a imagem da criatura amada. Não era nem mesmo a imagem de uma imagem. Era uma impostura, uma falsa recordação, um espantalho sem qualquer faísca do divino, sem qualquer conotação amorosa, em nada suscetível de espelhar a paixão ou o desejo que sentira. Tratava-se de algo vazio, frouxo, incapaz até de afugentar suas sensações doentias de vergonha e ridículo.  Ele fracassara, mas não como em todas as outras vezes. Agora fracassara para sempre.

O cachorro continuava a ladrar. Da gaveta da mesinha-de-cabeceira, Vasanpeine tirou a caixa de fósforos que guardava, junto com uma vela, desde os tempos de criança, antes que instalassem a eletricidade na casa. A colcha da cama era feita de algodão e pegou fogo com facilidade. O papel lustroso demorou um pouco mais, porém logo eclodiu em vivas chamas, emitindo um cheiro acre. As fotografias no chão queimaram a seguir, depois o tapete. O quarto se encheu de fumaça. Quando o fogo o atingiu, Vasanpeine havia tombado sobre a escrivaninha, misericordiosamente já inconsciente". É, o ser humano é realmente complexo, ainda mais no imaginário dos escritores. E uma dica final, da contracapa do livro.

"Logo após a Primeira Guerra Mundial, a pacata Poitiers torna-se laboratório para os experimentos de Anatole Vasanpeine, empregado da casa de banhos local. Com zelo e malícia, Alberto Manguel reconstrói o perfil desse personagem insatisfeito com as pessoas e seus corpos, que descobre na câmara fotográfica o veículo perfeito do amor que volta às partes do corpo. Fixados na imagem, dedos, unhas, comissuras e protuberâncias convertem-se em seres autônomos, livres de seus donos. Não se trata, porém, de um voyeur ou fetichista: Vasanpeine é um 'filósofo natural', sequioso de livrar o desejo da frustração e da melancolia que assediam o ato amoroso - até que uma criatura singular, fragmentária e indivisível, venha frustrar seu empenho e devolvê-lo ao tormento erótico".

terça-feira, 30 de junho de 2020

O som e a fúria. William Faulkner. Nobel de literatura - 1949.

Não sei exatamente como cheguei ao livro de William Faulkner, O som e a fúria. Creio ter sido por uma passagem de O homem medíocre, do ítalo argentino José Ingenieros. Numa rápida consulta, vi que Faulkner era Nobel de Literatura e que esta era a sua obra principal. O tema me interessou. Uma família decadente do sul dos Estados Unidos. Agora vem os complicadores. Não gostei da leitura e só não a interrompi por ser extremamente persistente, teimoso mesmo. Depois eu explico.
Edição da Companhia das Letras. 2019.

O livro tem a assinatura de sua escrita - como Nova York, outubro de 1928. Já o autor, nasceu em 1897 e morreu em 1962. O Nobel foi ganho no ano de 1949. O livro está dividido em quatro partes, anunciadas por diferentes datas: I. 7 de abril, 1928; II. 2 de junho, 1910; III. 6 de abril, 1928; IV. 8 de abril, 1928. A partir de 1946 ganhou um apêndice: Compson 1699-1945. Esse apêndice é bem esclarecedor e sugiro que seja lido antes do início da leitura do livro. Ali estão as vidas dos principais personagens envolvidos na narrativa. Da orelha da contracapa retiro dois parágrafos:

"Publicado em 1929, quando William Faulkner tinha apenas 32 anos, O som e a fúria é uma epopeia do Sul. Ao narrar as agruras dos Compson, uma família do Mississipi no auge de sua desagregação, Faulkner sintetiza a ruína de um mundo e de um grupo social. Mas não só. O passado aqui é o grande tema, que retorna sempre e, principalmente, não se ordena segundo a "afirmação redonda e idiota do relógio".

Inovador da forma, Faulkner estilhaça a perspectiva clássica do tempo, sobretudo na seção narrada pelo ponto de vista de Benjy, que "nasceu bobo" - personagem que representa a alusão ao título, extraída da passagem de Macbeth em que a vida é definida como 'uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada'. Com seus arroubos de ódio e crueldade, lampejos de esperança e a constante contaminação do real pelo delírio, O som e a fúria é uma obra-prima incontornável, que não perde sua atualidade e segue a ecoar, como o grito de Benjy no fim do romance, 'uma agonia sem olhos e sem língua; puro som".

Importantes esclarecimentos são trazidos pelo tradutor. Ao final do livro, Paulo Henriques Britto faz duas críticas ao livro a partir de Harold Bloom. Vejamos: "A primeira é que o impacto do Ulysses de Joyce sobre o romance de Faulkner é um tanto óbvio; em particular por conta da voz de Quentin, o protagonista da segunda parte, que 'é, de modo excessivamente nítido, a voz de Stephen Dedalus'. Poderíamos acrescentar que, além do fluxo de consciência, um outro importante recurso joyciano foi utilizado no livro: o leitor só recebe as informações necessárias para compreender boa parte do que lhe é apresentado bem depois das passagens que elas finalmente esclarecem, o que torna a releitura de toda a obra uma exigência fundamental. Em defesa de Faulkner, seria possível argumentar que, tendo O som e a fúria sido publicado apenas cinco anos depois do romance de Joyce, o próprio fato de ter o romancista norte-americano lido, assimilado e emulado com sucesso a obra do irlandês em tão pouco tempo indica o quanto ele estava atento para o que havia de mais avançado em matéria de ficção e preparado para enfrentar o desafio.

A segunda crítica é talvez a mais severa, e já ocorreu a outros leitores - Bloom cita Hugh Kenner, e eu próprio tive esta impressão a primeira vez que li o livro: há um certo descompasso entre a sofisticação técnica do stream of consciousness adotado por Faulkner e a substância francamente melodramática e folhetinesca do enredo. No contexto do Ulysses - uma narrativa em que muito pouco do 'romanesco' acontece - a ourivesaria estilística de Joyce parece perfeitamente adequada. Afinal, não há suspense, intrigas, revelações, conflitos que fervilham e por fim explodem, nada ou quase nada da maquinaria normal de uma narrativa ficcional extensa; é simplesmente a linguagem virtuosíssima de Joyce que sustenta o interesse do leitor. Mas numa história que contém uma castração, um suicídio, uma acusação de pedofilia, um caso de retardo mental grave, desfalques de um roubo, uma fuga no meio da noite, uma perseguição implacável, amores incestuosos e ódios tremendos no seio de uma família decadente, o leitor pode se perguntar com razão se as descontinuidades cronológicas, a opacidade dos monólogos interiores e as demais dificuldades criadas pelo autor - como, por exemplo, o fato de dois personagens de sexos diferentes terem o mesmo nome, ou de um mesmo personagem aparecer ora com um nome, ora com outro - não constituiriam excessos dispensáveis".

O tradutor faz uma outra interessante observação: "E, no entanto, feitas essas ressalvas, o fato é que O som e a fúria se tornou um clássico, um livro que resiste às críticas, sustenta releituras e apaixona sucessivas gerações de leitores". Concordo com a necessidade da releitura. Creio que agora eu estaria mais preparado para a sua leitura. Mas essa é uma tarefa que eu deixo para os especialistas. Li o Ulysses de Joyce. Mas foi em grupo, com a ajuda de um especialista.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Cyrano de Bergerac. Edmond de Rostand.

Cheguei a Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, por várias citações encontradas no livro do ítalo argentino José Ingenieros, O homem medícre. Pelo mesmo livro também cheguei a Tartufo de Molière, que ainda não li. Cyrano de Bergerac é uma obra do romantismo francês, já em tempos de realismo, mas que trouxe grande consagração ao seu autor. Cyrano é um personagem real, retratado pelo olhar de Rostand. Vejamos então primeiramente quem foi o Cyrano.


Ele nasceu em 1619 e morreu em 1655. Foi escritor e soldado, constantemente envolvido em duelos, mais de mil, nos contam as más línguas. Por se envolver nesses duelos perdeu a mesada que lhe era dada pelo seu pai. Era contemporâneo de Molière (1622-1673). Cyrano se tornou famoso pelo seu nariz, que era enorme. Esse fato desarticulou a sua vida amorosa e é peça fundamental para a compreensão da obra de Rostand.

 Já o autor, Edmond Rostand nasceu em 1868 e morreu em 1918 e, como já vimos, pertenceu à escola do romantismo. A peça estreou em Paris, em dezembro de 1897, com enorme sucesso de público. Ela pode ser vista como uma comédia heroica, meio trágica. A peça se desenvolve em cinco atos. O seu sucesso no teatro também a levou ao cinema.

A síntese da peça está na contracapa do livro da edição da Martin Claret, que tem tradução de Regina Célia de Oliveira. Lemos o seguinte: "Cyrano de Bergerac, a imortal criação de Rostand, é a história do herói romântico, de nobres sentimentos, mas complexado por sua feia figura, que por isso renuncia ao amor da bela Roxane, e ajuda um amigo, Christian, a conquistá-la por meio das palavras, ensinando-lhe poesia, frases de espírito, e até falando por este, escondido na escuridão".

A peça se desenvolve em cinco atos: No primeiro temos a representação do Palácio de Bourgogne, no segundo, a rotisseria dos poetas (do cozinheiro e confeiteiro Ragueneau), no terceiro, o beijo de Roxane (conseguido ou arrancado através de doces palavras que Cyrano produziu para o seu amigo Christian), o quarto, os cadetes da Gasconha (Christian era um deles) e o quinto, A Gazeta de Cyrano, onde se desenha o final da peça, dando o destino aos diferentes personagens.

Do quinto ato selecionei três passagens, que nos dão uma bela ideia da peça. A primeira é um réplica de Cyrano, a Roxane quando ela se diz culpada pela sua infelicidade.

"Tu? ... não digas isso!
Eu desconhecia a doçura feminina. Minha mãe
Não me achou bonito. Irmã, não tive.
Mais tarde, o olhar de escárnio de uma amante temi.
Devo-te, no mínimo, por ter tido uma amiga.
Graças a ti, um vestido passou em minha vida (Página 262).

O escárnio de uma amante era em função da sua feiura, do tamanho do seu nariz. O segunda passagem está na página anterior quando Roxane já sabe que os versos e as cartas não eram de Christian mas de Cyrano e em que um outro personagem lhe diz que até Molière o havia plagiado. A estes elogios de brilhantismo ele reage:

"Sim, minha vida
Foi ser aquele que sopra - e que olvidam!
A Roxane:
Lembras da noite em que Christian te falava
Sob o balcão? Pois então, toda minha vida é aquilo:
Enquanto oculto pelo escuro eu permanecia,
o beijo da glória era o outro que colhia!
Justiça seja feita e, às portas de minha morte, reconheço:
Tem inteligência, Molière, e Christian era belo"! (Página 261).

A terceira passagem é o delírio final de Cyrano:

"Acho que ela repara...
Em meu nariz essa perversa ousa reparar!
Ele ergue a espada
O que dizes?... Que é inútil?... Sei disso!
Mas não se luta na esperança do êxito!
Não! não! quando é inútil é ainda mais belo!
- Quem são todos esses? São quase mil?
Ah! eu os reconheço, meus velhos inimigos!
A mentira,
Golpeia o ar com a espada
Que eu faça um pacto?
Jamais, jamais! - Ah! Ignorância, aí estás!
- Sei muito bem que no fim hão de vencer-me;
Pouco importa: lutarei! lutarei! lutarei!" (Página 265). 

Com certeza, um tributo à sensibilidade, ao poder da comunicação e da expressão dos sentimentos. Da vitória da sensibilidade sobre a beleza física. Faz jus à coleção "A obra prima de cada autor".






sexta-feira, 19 de junho de 2020

Guerra e Paz. Leon Tolstói. Volume I.

Tempos de quarentena. A perspectiva da necessidade de ficar em casa é muito pior do que o fato de efetivamente não sair. Parece que aí é que dá vontade mesmo. A minha melhor companhia nesses tempos de solidão são os livros. E como tem que ocupar o tempo mesmo, grandes projetos de leitura. O projeto da vez foi Guerra e Paz de Leon Tolstói, uma quase unanimidade universal, na consagração de sua obra como sendo uma das maiores da literatura universal. Terminei o primeiro volume, faltam mais três.
Guerra e Paz - uma das obras maiores da literatura universal.

Optei pela edição da L&PM, em quatro volumes, com apresentação de Ivan Pinheiro Machado e tradução de João Gaspar Simões. Para o início dessa resenha tomo os dois primeiros parágrafos da apresentação, que tem um belíssimo título: "O grande livro da paz". Veja dados biográficos de Tolstói. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/tolstoi-biografia-rosamund-bartlett.html

"Guernica de Pablo Picasso está para o povo espanhol assim como Guerra e Paz de Leon Tolstói está para o povo russo. Ambos, na sua linguagem - pintura e literatura - atingiram um patamar de excelência artística alcançado apenas por um punhado entre milhões de postulantes. Picasso retratou em seu vasto painel a alma, o sacrifício e a grandeza do povo espanhol e, acima de tudo, produziu um símbolo da paz. Tolstói, em seu enorme e magnífico romance, retratou igualmente o sacrifício, o patriotismo e a grandeza do povo russo e, por sua vez, construiu também um monumento à paz.

Guerra e Paz está entre as grandes obras produzidas pelo ser humano, como "Guernica". "David" de Michelangelo, "A Flauta Mágica" de Mozart, "Monalisa" de Leonardo da Vinci. Copioso, às vezes irregular, no seu conjunto de mais de mil e quinhentas páginas ele possui, no entanto, luz própria como os grandes astros. Brilha como um livro maior entre milhões de livros, deslumbra como só uma verdadeira obra de arte é capaz de deslumbrar, e emociona como só as grandes histórias conseguem emocionar".

Depois desses parágrafos introdutórios, Ivan Pinheiro Machado traça um perfil do autor para depois voltar à obra. Vejamos: "Resultado de sua experiência de vida, tanto na corte do tsar como no exército russo, Guerra e Paz é a história das guerras napoleônicas na Rússia de 1805 - quando da vitória de Napoleão na batalha de Austerlitz, enfrentando os exércitos russos e austríacos -, até a retirada de Napoleão da Rússia e o incêndio de Moscou, em 1812.

Pode-se dizer que o projeto de Tolstói pode ter sido inspirado por Balzac. Assim como A comédia humana narrou a vida social e privada da França no primeiro quarto do século XIX, Leon Tolstói traçou com Guerra e Paz um grande e impressionante painel da vida e da resistência do povo russo à invasão do exército de Napoleão entre os anos de 1805 e 1812".

E uma pista sobre o roteiro: "Como fio condutor da história temos a saga de duas grandes famílias aristocráticas interagindo em um meio dominado pelo paradoxo da frivolidade e da iminência da guerra. São mais de quinhentos personagens que contracenam no terror das batalhas, na vida mundana da corte, com suas contradições, paixões avassaladoras, e tipos inesquecíveis. Tolstói descreve com precisão as dificuldades na vida cotidiana e as dramáticas privações durante a guerra que atingia a nobreza e o povo em geral. É admirável o intenso realismo com que o autor descreve o impressionante incêndio de Moscou e a retirada melancólica de Napoleão da Rússia, com seu exército em frangalhos, destruído pelo terrível inverno russo". E, ainda o último parágrafo da apresentação:

"Oficial do exército russo, veterano de várias batalhas, Tolstói conheceu os horrores e a irracionalidade da guerra. E todo o seu pacifismo e seu repúdio às guerras está registrado em Guerra e Paz. Tolstói é também meticuloso ao extremo no que diz respeito à verdade histórica; são absolutamente precisas as descrições das batalhas e as 'participações' de Napoleão, do tsar Alexandre I e do generalíssimo Kutuzov, comandante-geral das tropas russas. A trama ficcional se justapõe aos acontecimentos reais. A frivolidade de Ana Mikailovna, a bravura dos aristocratas André Bolkonski, Nicolau Rostov, a figura fascinante e controvertida do conde Pedro Bezukov, a apaixonante Natasha, a bela e pérfida Helena Bezukov, o ambiente de uma sociedade traumatizada pelo terror da guerra que a tudo destrói e separa os amantes - tudo está em Guerra e Paz, um livro que atravessa os séculos como um clássico humanista que, descrevendo a guerra de maneira magistral, faz a sua mais pungente e eterna condenação". O romance foi escrito entre os anos 1865 e 1869.

Ao final do primeiro volume, a batalha de Austerlitz, a dos três imperadores, já aconteceu. Russos e austríacos tinham certeza absoluta da vitória, mas Napoleão levou a melhor. Creio também que dois personagens irão ganhar força narrativa ao longo dos três volumes seguintes: são eles André Bolkonski e Nicolau Rostov. As maldades de Ana também já apareceram sobremaneira. O livro está dividido em três partes, divididas em pequenos capítulos e alternância entre as intrigas da corte e os horrores da guerra. Antes do início do livro, estão apontados os principais personagens e as famílias a que pertencem e mapas geográficos dos locais em que as tropas se movimentavam. A narrativa é atraente e viva. Que venham os próximos volumes.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Auschwitz vista pelo livro "A bibliotecária de Auschwitz" de Antonio Iturbe..

A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio G. Iturbe, apesar do tema trágico, é um livro maravilhoso. Em nenhum momento, por um minuto sequer, os personagens envolvidos perdem a esperança e, a ela, somam a força de vontade e a determinação. Dessa forma, sobraram alguns raros sobreviventes para contar essa história de horrores. Na leitura do livro não tem como não se apaixonar pela menina Dita, a zelosa bibliotecária, encarregada de cuidar dos apenas oito livros que a compunham. Havia ainda uma meia dúzia de livros vivos. Ela era prisioneira do bloco 31, o bloco das crianças de Auschwitz-Birkenau, o bloco familiar. Dou o link da resenha do livro. Deixo a resenha do livro.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/a-bibliotecaria-de-auschwitz-antonio-g.html
A bibliotecária de Auschwitz. Uma rara história de humanidade, de amor e zelo pela leitura e pelos livros.

Trago comigo, também, desde que o li em 2008, o livro de Primo Levi, Os afogados e os sobreviventes.  Um livro profundamente introspectivo, de reflexões profundas. Nesse post quero apenas  mostrar que os alemães nem sequer  se preocupavam com a questão de que os fatos ocorridos no campo viessem a público. Para isso tinham um dupla convicção: primeiro porque ninguém sobreviveria e, segundo - se contassem, ninguém acreditaria. Vejamos o relato, já no prefácio do livro: "Seja qual for o fim desta guerra, a guerra contra vocês nós já ganhamos; ninguém restará para dar testemunho, mas, mesmo que alguém escape, o mundo não lhe dará crédito. Talvez haja suspeitas, discussões, investigações de historiadores, mas não haverá certezas, porque destruiremos as provas junto com vocês. E ainda que fiquem algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança: dirão que são exageros da propaganda aliada e acreditarão em nós, que negaremos tudo, e não em vocês. Nós é que ditaremos a história dos Lager". 
O livro de Primo Levi. Poucos sobreviventes e milhares de afogados.

As "concessões" ocorridas no Bloco 31, o das crianças, de Auschwitz-Birkenau, o bloco familiar, foram devidas ao temor de uma fiscalização por parte da Cruz Vermelha e a divulgação de seu relatório junto ao mundo ocidental. O mundo passou a conhecer Auschwitz em função dos relatos de fugitivos e de alguns raros sobreviventes. Muitos ali se "afogaram". Numa rápida consulta, creio que o número mais confiável é o de que ali morreram entre 1,3 e 1,5 milhão de pessoas, entre execuções, fome, exaustão por trabalho e doenças. O objetivo desse post não é o de dar um relato amplo sobre o campo, mas vê-lo a partir do livro de Iturbe. O faço a partir  de dois apêndices: Etapa final e que fim levaram. Eis o relato:

"Auschwitz I tem um estacionamento para ônibus interurbanos e uma entrada como a de um museu. Fora um antigo quartel do exército polonês, e suas agradáveis construções retangulares de ladrilho, separadas por amplas avenidas pavimentadas em que os passarinhos ciscam, não mostram à primeira vista os sinais do horror. Há, porém, vários pavilhões em que se pode entrar. Um deles foi preparado como se fosse um aquário: atravessa-se um corredor escuro e de um lado e de outro há imensos aquários iluminados. Lá dentro há sapatos gastos, montões, milhares deles. Duas toneladas de cabelo humano que formam um mar tenebroso. Milhares de óculos quebrados, quase todos redondos, como os do professor Morgenstern.

Em Auschwitz II-Birkenau, a três quilômetros de distância, ficava o campo familiar BIIb. Hoje em dia, resta a fantasmagórica torre de vigilância da entrada do Lager, com um túnel na base, para que, a partir de 1944, a ferrovia fosse até lá. Os barracões originais foram queimados depois da guerra. Há alguns barracões reconstruídos em que se pode entrar. São estábulos de cavalos que até limpos e ventilados se mostram sombrios. Depois dessa primeira linha de barracões no que seria o campo de quarentena, abre-se um imenso descampado que era ocupado pelo resto dos campos. Para ver o lugar ocupado na época pelo BIIb, é preciso deixar a rota das visitas guiadas, que não passa das réplicas dos barracões da primeira fileira, e margear todo o perímetro. É preciso ficar sozinho. Caminhar sozinho por Auschwitz-Birkenau significa suportar um vento muito frio que traz os ecos das vozes dos que ficaram ali para sempre e fazem parte do barro que pisamos. Do BIIb, resta apenas a porta metálica de acesso ao campo e uma imensa solidão onde mal cresce o mato. Restam apenas cascalhos, vento e silêncio. Um lugar agradável ou espectral, dependendo dos olhos que o veem". Vale lembrar que no Bloco 31 ficavam as crianças, filhos dos judeus de Praga. Os pais ocupavam outros blocos, separados em masculinos e femininos. Encontros eram permitidos. Antes de virem para Auscwitz-Birkenau, já haviam sido confinados no gueto de Terezín, para onde foram levados, depois de serem expulsos de Praga. É sobre eles que versa o livro.

Da parte "que fim levaram", vou dar apenas os nomes dos personagens nazistas. Ou eram chefes ou personagens do romance/ficção: Elisabeth Volkenrath: Foi da SS. Ela trabalhou em Auschwitz e depois exerceu cargos de chefia em Bergen-Belsen. Rudol Höss: Foi o comandante do campo. Os poloneses o enforcaram em Auschwitz I, onde o patíbulo de seu enforcamento pode ser visitado. Adolf Eichman: Foi um dos ideólogos da chamada "Solução Final", a da execução dos judeus. Sua história é conhecida pelo livro de Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém. Hans Schwarzhuber: Foi o comandante do bloco masculino de Auschwitz-Birkenau. Depois de julgado, morreu enforcado. Joseph Mengele: O famoso doutor morte, cuja história também é mais conhecida. O livro também dá o destino dos sobreviventes do Bloco familiar de Auschwitz-Birkenau.

Os rápidos olhares sobre Auschwitz também falam de Auschwitz III.  Todo o complexo de Auschwitz, seguramente é um dos lugares mais sombrios do mundo, símbolo maior da barbárie, da imbecilidade e insensatez humana. Se localiza ao sul da Polônia, em Oswiecim, nas proximidades de Cracóvia.



terça-feira, 9 de junho de 2020

A bibliotecária de Auschwitz. Antonio G. Iturbe.

Um dia, ao postar no Facebook, uma chamada para a resenha no blog do notável livro de Éric Vuillard, A ordem do dia, sobre a adesão dos grandes líderes da indústria alemã ao nazismo, recebi, nos comentários, a indicação para esse livro sob a forma de pergunta: Você conhece A bibliotecária de Auschwitz? A pergunta/comentário tinha a autoria de Marina Machado, ex aluna do curso de Direito e amiga no face. Como sempre considero muito as indicações de leitura e como não conhecia o livro, fui à compra e à leitura.
Deixo a resenha do livro de Vuillard: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/a-ordem-do-dia-eric-vuillard.html
A bibliotecária de Auschwitz é uma dádiva para a humanidade.

Uma surpresa e uma estranheza. Como eu não conhecia este livro! Tenho algumas hipóteses. Fiquei também surpreso ao não encontrar nenhuma referência para ver se o livro foi, ou não, levado ao cinema. Ao que tudo indica, não.  O livro é magnífico, apesar de toda a tragédia do tema. E, ainda, para ficar no campo das surpresas, a narrativa do livro não termina em Auschwitz, mas em Bergen-Belsen. Eu conheci esse campo de concentração em 1995. Essa visita me perturbou muito. Foram várias noites sem dormir direito. Em 2019 eu conheci Dachau em visita guiada. O guia teve que chamar a atenção dos turistas, em algazarra, sobre o significado dessa visita.
1995. Em frente a Bergen-Belsen. Carl, um funcionário aposentado da VW, nos proporcionou essa visita. Nesse campo morreram as irmãs Anne e Margot Frank.

Sobre Auschwitz, li dois dos livros de Primo Levi. É isto um homem e Os afogados e os sobreviventes. Duríssimas reflexões sobre o maior e mais trágico dos campos - com a característica, para além do campo de concentração, ser também um campo de extermínio, para a execução da "solução final", adotada na Conferência de Wansee. Também uso à exaustão o texto de Adorno, contido no livro Educação e emancipação, "Educação após Auschwitz". É intrigante a questão que Adorno levanta, já na primeira frase do texto: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação". E lamenta que tão poucos se preocupem com o tema.

Bem, vamos ao livro A bibliotecária de Auschwitz - um romance baseado numa história real, do jornalista cultural espanhol, Antonio G. Iturbe. A primeira edição data de 2012. A edição que eu li é da Harper Collins, de 2020. A tradução é de Dênia Sad e tem publicação, como lemos na orelha do livro, em onze países.

Começo a resenha pela frase de abertura do livro: "Enquanto durou, o bloco 31 (no campo de extermínio de Auschwitz) abrigou quinhentas crianças  e vários prisioneiros conhecidos como "conselheiros", e, apesar da estrita vigilância a que estava submetido, contou, contrariando todos os prognósticos, com uma biblioteca infantil clandestina. Era minúscula: consistia em oito livros, entre eles Uma breve história do mundo, de H. G. Wells, um livro didático russo e outro de geometria analítica [...]. Ao final de cada dia, os livros, com outros tesouros, tais como remédios e alguns alimentos, eram confiados a uma das meninas mais velhas, cuja tarefa era escondê-los toda noite num lugar diferente". Alberto Manguel, A biblioteca à noite. Essa frase do livro de Manguel foi o mote para o livro. A partir daí, Antonio Iturbe começa o seu trabalho de pesquisa, que mistura à ficção e nos dá esse maravilhoso presente que, apesar dos horrores da narrativa, é uma grande história de amor, uma história de amor aos livros e à leitura. É também uma história de profunda solidariedade humana.

Da orelha, tomo o indicativo da narrativa, sem contudo entregá-la: "Hirsch e Dita são personagens reais em meio a um relato digno de filmes de terror. São pessoas que não permitiram que o medo e a incerteza tirassem das crianças o direito  de aprender que 'abrir um livro é como abrir uma janela à liberdade'". É evidente que Dita e Hirsch são os personagens do romance, escrito entre a realidade e a ficção. Na contracapa lemos um pouco mais: "Uma garota de 14 anos. Um professor. Oito livros. Esperança. Em plena Segunda Guerra Mundial, no maior e mais cruel campo de concentração do nazismo, cerca de quinhentas crianças convivem todos os dias com a morte e com o sofrimento. No pavilhão 31, de vez em quando uma janela é aberta para férias. Obra de Fred Hirsch, o professor que consegue convencer os alemães a deixá-lo entreter as crianças. Desta forma, garante ele aos nazistas, seus pais - judeus - trabalhariam bem melhor. Os alemães concordam, mas com uma condição: seria terminantemente proibido o ensino de qualquer conteúdo escolar no local. Mal sabiam eles o que a jovem Dita guardava na barra da saia: livros. Baseado na história real de Dita Dorachova, A bibliotecária de Auscwitz é o registro de uma época triste da história, mas também o relato de pessoas corajosas que não se renderam ao terror e se mantiveram firmes na luta por uma vida melhor, munindo-se de livros".

A narrativa transforma a menina Dita num amor de criança, com sua dedicação à causa, raramente encontrada em pessoas adultas. Ela está no Bloco 31 de Auschwitz-Bierkenau, ou Auschwitz II. O 31 é o bloco das crianças, dentro do campo familiar. Ele existiu como fator de propaganda ou de contrapropaganda, caso os nazistas fossem obrigados a receber os observadores da Cruz Vermelha. O mundo desconhecia o que se passava nesse campo de morte. Muitas fugas eram empreendidas para que os fatos fossem dados ao conhecimento do mundo. Dita procurava fugir dos olhos, sempre atentos, do doutor Mengele, que vivia a observar as crianças, selecionando algumas, que considerava  mais interessantes para os seus "experimentos científicos". Ela descuidava dessa vigilância quando se tratava de zelar pela guarda dos livros a ela confiados. Dita estava presa junto com o pai e a mãe. Embora separados, havia a possibilidade dos encontros. Dita somava a esperança com a sua força de vontade e determinação. E uma constatação: a esperança faz parte do ser humano, integra a sua natureza. Quando se vislumbrava, nem que fosse apenas um minuto de futuro pela frente, o ser humano coabitava com a esperança. Que força extraordinária e deslumbrante, que nem a escuridão conseguia apagar.

Dita e Hirsch eram jovens de famílias judias checas. Moravam em Praga. De Praga foram levados ao gueto de Terezín e, depois, para o campo de extermínio. Ali eram submetidos constantemente aos registros e ao controle para ver - se iam para a fila dos que ainda tinham forças para o trabalho - ou, já sem essa força, para então serem encaminhados para as filas da morte. O livro está estruturado em 32 capítulos, que ocupam 366 páginas. Além dos capítulos tem um epílogo, dois adendos, sob os títulos "etapa final" e "que fim levaram". O "etapa final" é profundamente revelador.

Acabo de ver um comentário de um livro sob o título A cultura inculta, na tradução brasileira e "o fechamento da mente americana", no inglês original, de Allan Bloom. O comentário atribui muito das tragédias atuais à ausência de leituras significativas, de livros seminais. A bibliotecária de Auschwitz, com certeza, é um livro que preserva o humano em nós.

Eu volto com outro post para apresentar Auschwitz, a partir do livro. Não havia apenas um campo em Auschwitz. As empresas alemãs auferiram enormes lucros nesses campos, como pode ser visto no livro de Vuillard. O livro fala de Auschwitz I e de Auschwitz-Birkenau ou Auschwitz II. O livro também tem muitas reminiscências, tempos de lembranças, de tempos felizes. E como se trata de um livro de amor à leitura e aos livros, retiro dele uma frase, selecionada com pinça de ouro. Dita lembra da leitura de A montanha mágica. Lá, Hans Castorp se encanta com uma jovem russa, Madame Chauchat. Aproveita o carnaval para vencer sua timidez e conversar com ela. Dela recebe uma resposta fulminante que talvez ajude a explicar algo da "essência" alemã: "Vocês, alemães, amam mais a ordem do que a liberdade. A Europa inteira sabe disso". (página 144).

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A fábula do sapo e o pirilampo

Ao ler o belo livro O homem medíocre, do ítalo argentino José Ingenieros, deparei com essa fábula do sapo e do pirilampo. Não vou entrar aqui no mérito do livro. Já fiz isso em outro post. Ele aponta as características daquilo que ele considera como sendo os defeitos morais constituintes da mediocridade. A fábula se encontra no V capítulo do livro, que tem por tema a inveja. Com a fábula o autor encerra um subtítulo sobre a paixão dos medíocres. O livro de Ingeniores data do ano de 1913. Dou o link da resenha.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/06/o-homem-mediocre-jose-ingenieros.html
O homem medíocre,da Editora do Chaim. A fábula se encontra na página 141.

Eis a narrativa da fábula: "Toda a psicologia da inveja está sintetizada numa fábula, digna de ser incluída nos livros de literatura infantil. Um sapo pançudo coaxava em seu pântano quando viu um pirilampo resplandecer no alto de uma pedra. Pensou que nenhum ser tinha o direito de exibir qualidades que ele próprio não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, pulou sobre ele e cobriu-o com seu ventre gelado. O inocente pirilampo atreveu-se a perguntar: Por que me cobres? E o sapo, congestionado pela inveja, só conseguiu interrogar por sua vez: Por que brilhas?"

Moral da história! Ah, não precisa! Está mais do que evidente. A fábula está muito bem colocada num capítulo que trata sobre a inveja.  Mas eu queria saber mais. Queria saber o autor e,.... No Google encontrei mais e fiquei satisfeito. No aprendendocriando.blogspot.com encontrei a fábula em forma de verso, e o pirilampo virou vaga-lume. Está assim:

"Entre o gramado do campo
Modesto, em paz, se escondia
Pequeno pirilampo
Que sem o saber, luzia.

Feio sapo, repelente
Sai do córrego lodoso,
Cospe e baba, de repente
Sobre o inseto luminoso.

Pergunta-lhe o vaga-lume:
- "Por que vens me maltratar?"
E o sapo com azedume
- "Por que estás sempre a brilhar?"

O blogspot tem a assinatura de Amara Pedrosa, que é bióloga, e como tal apela para o politicamente correto: "Como assim, feio sapo, repelente". Com toda a razão. Mas Amara nos dá uma outra informação importante: a fonte. A fábula está contida no livro de João Ribeiro, com o seguinte título: Grande fabulário do Brasil. João Ribeiro tem uma conhecida História do Brasil. Em tempos de tanta inveja, julguei oportuno publicar. Em outra versão o sapo virou uma serpente, mas a moral da história é a mesma.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

O homem medíocre. José Ingenieros.

Sou facilmente induzido a leituras, dependendo das pessoas que me indicam livros. Devo também dizer, que o contrário também se dá. Se admiro uma pessoa e esta me indica leituras, compro e leio os livros recomendados; se não as admiro, simplesmente esqueço a sugestão recebida. Devo confessar também, que esse meu método pode induzir a erros. Foi o que aconteceu com o livro O homem medíocre, do ítalo-argentino José Ingenieros.
A edição de O homem medíocre. Editora do Chaim.

O título do livro também contribuiu para essa espécie de aversão inicial ao livro. O homem medíocre me induziu a uma ideia de sermão, de lições de moral, de pregação ou de catecismo a ser seguido. No meu imaginário vi desfilarem as virtudes a serem seguidas, exemplos a serem imitados e vícios a serem evitados. Nada mais falso. O livro, acima de tudo, é um convite à formação, à formação permanente, uma busca incessante pelo mais, pela transposição de obstáculos. É a inquietação do gênio.

Na última vez em que o professor João Wanderley Geraldi esteve em Curitiba, para participar de trabalhos de formação, ele me deixou o texto de sua participação no Congresso Internacional - 50 anos depois da Pedagogia do oprimido, promovido pelo Instituto Paulo Freire de Portugal, na Universidade do Porto. O texto tem por título: Sala de aula: espaço de "inéditos viáveis". O texto tem duas frases em epígrafe. Uma, de José Ingenieros e outra, por óbvio, de Paulo Freire. Apresento as duas.

"Seria possível a continuidade social, sem essa compacta massa de homens puramente imitativos, capazes de conservar os hábitos rotineiros que a sociedade lhes infunde, mediante a educação?" (José Ingenieros. O homem medíocre.  Vamos a segunda:

"Talvez se pense que, ao fazermos a defesa deste encontro dos homens no mundo para transformá-lo, que é o diálogo, estejamos caindo numa ingênua atitude, num idealismo subjetivista. Não há nada, contudo, de mais concreto e real do que os homens no mundo e com o mundo. Os homens com os homens, enquanto classes que oprimem e classes oprimidas. O que pretende a revolução autêntica é transformar a realidade que propicia este estado de coisas, desumanizante dos homens". Paulo Freire. Pedagogia do oprimido.

Busquei esse texto para dizer que a citação de Ingenieros que o professor Wanderley fez, me motivou definitivamente para ler o livro. Indicações do professor Wanderley estão sempre, para mim, no primeiro caso, no caso dos livros a serem lidos. Também quero dizer que a frase em epígrafe não é uma crítica ao escritor ítalo-argentino, mas uma contestação que o mesmo faz aos sistemas educacionais. Aliás, possivelmente, no livro de Ingenieros, a maior crítica ou definição do que seja um medíocre, seja esta de "homens imitativos". São eles a essência da mediocridade.

Mas, já que temos as duas citações, devo dizer que ao longo da leitura de O homem medíocre, por várias vezes me lembrei de Paulo Freire, especialmente, no que se refere ao "ser mais" como o objetivo essencial da educação e da própria vida dos seres humanos. Bem, acho que já entramos no terreno das sempre necessárias contextualizações. José Ingenieros é bem anterior a Paulo Freire. Ele nasceu em Palermo, na Sicília em 1887 e faleceu em Buenos Aires em 1925, com apenas 48 anos de idade. O livro foi escrito em 1913. Em sua biografia lemos que se tornou farmacêutico e médico e que na medicina se destacou como neurologista e psiquiatra. Tornou-se professor nessas áreas, que foram também o seu campo de estudos e de trabalho: a neurologia, o comportamento de alienados, a psiquiatria e a criminologia. A partir de 1920 deixou a docência e se dedicou à política, combatendo o imperialismo, militando no socialismo, se decepcionando com o "socialismo de Estado", abraçando então o anarquismo.

Isso transparece fortemente em sua obra, especialmente no último capítulo de O homem medíocre,  em que fala do clima da genialidade e de sua admiração pelo presidente argentino Sarmiento. Mas o grande tema do livro é um tratado sobre a mediocridade. Ele o escreve com o chicote na mão, fustigando os homens medíocres, o comum da humanidade. No prólogo do livro, da editora do Chaim, lemos sobre a origem do livro. São as suas lições (aulas) sobre psicologia do caráter, ministradas na Faculdade de Filosofia da Universidade de Buenos Aires, ao longo do ano de 1910, ganhando depois forma de livro. Tomo ainda um parágrafo desse prólogo:

"O autor deste livro pretende tratar sobre os defeitos morais que se chamam rotina, hipocrisia e servilismo, denunciando-os com a intenção de ser útil aos jovens que estão na idade de evitá-los, para que possam formar ideais e enobrecer sua vida. O autor já possui suficientes provas de que o seu esforço não foi estéril, porém, mais, mais do que na eficiência da palavra, acreditou no seu exemplo: desde que ministrou na Faculdade essas lições, terminando sua "carreira" exterior - a uma idade em que todos se preparam para iniciá-la -, viveu de acordo com seus princípios, renunciando aos benefícios de privilégios e costumes que considera nocivos. Dizem, com rigorosa verdade, que indivíduos mais desprezíveis são os predicadores de moral que não ajustam sua conduta a suas palavras. O autor sabe que só poucos moralistas poderiam escrever  o mesmo livro sem que tremessem as mãos".

Antes de mostrar a estrutura do livro queria expressar ainda algumas vivências que eu tive ao longo da leitura. Em primeiro lugar eu senti a presença de Nietzsche. Aquele "torna-te quem tu és", é realmente o extremo oposto para a vida medíocre. Não tenha mestres, não copie ninguém, forjar o ser que se pode ser. Teria também restrições a fazer, como o capítulo sobre a velhice niveladora. Também o seu conceito de igualdade. Sei que é um tema de difícil abordagem. Igualdade jamais poderá ser sinônimo de uniformidade. Sei também o quanto é difícil conciliar o termo singularidade com o da igualdade. Para mim Marx foi preciso quando falou: para cada um, de acordo com as suas necessidades e de cada um de acordo com as suas possibilidades. Entre essas diferenças, creio ser possível construir a igualdade. Para mim também o livro foi um grande manual de leituras. Quanta erudição: Anotei, no mínimo, uma meia dúzia de livros para posterior leitura. Mas não se trata apenas de um guia de leitura, o livro pode ser positivamente visto como um guia para a própria vida, sem cair nos nivelamentos, tão combatidos.

O livro tem uma pequena apresentação, afirmando o valor atemporal e universal das lições, um pequeno prólogo, que contextualiza o livro. e uma introdução maravilhosa. Segue o corpo da obra, com oito capítulos. Cada capítulo tem o seu título, subtítulos e um quadro ilustrativo de cada tema. Essas ilustrações tem a sua representação junto ao capítulo e, ao final do livro, a indicação de sua fonte. Eis a introdução: - A moral dos idealistas. Seis tópicos são abordados: 1. A emoção do ideal; 2. o idealismo baseado na experiência; 3. O caráter idealista; 4. O idealismo romântico; 5. O idealismo estoico; 6. Símbolo. Seguem os capítulos.

Capítulo I. O homem medíocre: 1. "Aurea mediocritas"; 2. Homens sem personalidade; 3. O homem medíocre; 4. Conceito social de mediocridade; 5 O espírito conservador; 6. Perigos sociais da mediocridade; 7. A vulgaridade. Capítulo II. A mediocridade intelectual. 1. O homem rotineiro; 2. Os estigmas da mediocridade intelectual; 3. A maledicência: uma alegoria de Boticelli; 4. O caminho da glória. Capítulo III. Os valores morais. 1. A moral de Tartufo; 2. O homem honesto. 3. Os desertores da honestidade. 4. A função social da virtude. 5. A pequena virtude e o talento moral; 6. O gênio moral: a santidade. Capítulo IV. O caráter medíocre. 1. Homens e sombras; 2. A domesticação dos medíocres; 3. A vaidade; 4. A dignidade.

Capítulo V. A inveja. 1. A paixão dos medíocres; 2. A psicologia dos invejosos; 3 Os roedores da glória; 4. Uma cena dantesca; seu castigo. Capítulo VI. A velhice niveladora: 1. Os cabelos brancos; 2. As etapas da decadência; 3. O fracasso dos gênios; 4. A psicologia da velhice. 5. A virtude da impotência. Capítulo VII. A mediocracia. 1. O clima da mediocridade; 2. A pátria; 3. A política dos corruptos; 4. Os arquétipos da mediocracia; 5. a aristocracia do mérito. Capítulo VIII. Os forjadores de ideais. 1. O clima da genialidade; 2. Sarmiento; 3. Ameghino; 4. A moral do gênio.

Lembrando, o livro tem a sua construção entre 1910 e 1913. O clima mundial, após as euforias da virada do século, com a relativa distância das guerras, da crença na diplomacia e no progresso, mergulha em profunda depressão com o vislumbrar da proximidade das guerras, causadas pelo imperialismo. No meu imaginário também consegui ver José Ingeniores preparando as suas lições para os jovens de 2020, em meio a um clima de niilismo, de hedonismo individualista sem precedentes e os valores morais afirmados em cima do ter. O que ele não teria a dizer? O imaginário é o grande antídoto à mediocridade.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Hamlet. Shakespeare.

Há muito que eu queria ter lido. De tanto ter ouvido falar da obra, de sua importância, de seus significados, fiquei com receio. Em meio a uma fila de livros, o pus na frente. Sobre a sua importância e significados, tudo é verdadeiro. Quanto a sua leitura, não é preciso ter medo, não é difícil. É óbvio que não é para principiantes. Uma boa contextualização histórica é fundamental. Estou me referindo a Hamlet, uma das obras primas de William Shakespeare. Li a edição da L&PM Pocket, com tradução de Millôr Fernandes. Essa tradução é muito elogiada.
A edição de Hamlet da L&PM Pocket, com a elogiada tradução de Millôr Fernandes.

Vamos a uma pequena contextualização. O dramaturgo inglês nasce em 1564 e morre em 1616. O teatro atravessa grande esplendor e Shakespeare será o seu maior nome. O Bardo será o artífice que melhor conseguirá expressar a condição humana. É nisso que reside toda a sua grandeza. Expressa a condição humana em uma nova era, a era do Humanismo e do Renascimento. Maquiavel (1469-1527) já arrebatara o poder aos céus e o confiara aos humanos, em toda a sua grandeza e miséria. Marca a passagem de uma era centrada no teocentrismo para o antropocentrismo. O homem voltará a ser "a medida de todas as coisas". Ganhará vida própria, autônoma.

Shakespeare será o grande cronista do exercício do poder, destes novos tempos. O dramaturgo tanto se coloca ao lado desse poder, como o criticará asperamente, como o será, no caso específico de Hamlet. Logo depois virá o Iluminismo e surgirão os Estados/Nação modernos. Hamlet era o rei da Dinamarca. A peça se desenvolve em cinco atos. Ela gira em torno do assassinato do rei, pelo seu irmão. Esse tomará, tanto o poder, quanto a rainha viúva, tomando-a como esposa. Hamlet, filho do rei assassinado e da rainha que toma o novo rei como esposo, tramará a vingança.

O primeiro ato tem cinco cenas. É uma espécie de introdução, que conta sobre a vitória do rei dinamarquês sobre Fortinbrás, da Noruega. Conta também sobre o assassinato do Rei. Este aparece a Hamlet sob a forma de fantasma, queixando-se que perdera a Coroa, a rainha e a vida. Entram em cena os demais personagens importantes: o rei, a rainha, Polônio, o principal dos cortesões, Laertes e Ofélia (filhos de Polônio), os amigos alemães de Hamlet, Rosengrantz e Guildenstern e, ainda, o amigo e confidente, Horácio. Preste atenção nesses personagens.

O segundo ato se desenvolve em duas cenas. Os personagens mais importantes serão Polônio e os filhos, junto com Hamlet. Chega uma companhia de teatro alemã para encenações na corte. Hamlet dá visíveis sinais de loucura. A companhia encenará uma peça sob o título de "O assassinato de Gonzaga". Hamlet está em busca de provas do assassinato de seu pai. As quatro cenas do terceiro ato certamente são a parte central ou nuclear da peça. Os atores iniciam a sua apresentação. As cenas certamente surpreenderão o leitor. O rei manda suspendê-la. Na segunda cena está a famosa passagem do "ser ou não ser - eis a questão". Na cena quatro, se me permitem, eu destaquei uma frase de Hamlet para Polônio, sobre a subserviência: "Ser prestativo demais - tem seus perigos".

Sete cenas rápidas marcam o quarto ato. A loucura de Hamlet cresce em intensidade. Há um novo assassinato e um suicídio. Rei e rainha, além de Hamlet, também tramam vingança. O cerco começa a se fechar. Isso ocorrerá nas duas cenas do quinto ato. Mais não posso narrar, a não ser, dizer que se trata de uma tragédia. Mas a peça vai para muito além da sua narrativa trágica, a força maior está nos monólogos de Hamlet, onde estão expressos os dramas do homem moderno, reflexos da condição humana, em que os porões profundos do ser humano começam a emergir, buscando vasão.

Na contracapa da edição da L&PM Pocket lemos: "Hamlet, de William Shakespeare é uma obra clássica permanentemente atual pela força com que trata de problemas fundamentais da condição humana. A obsessão de uma vingança onde a dúvida e o desespero concentrados nos monólogos do príncipe Hamlet adquirem uma impressionante dimensão trágica". Ninguém precisa se assustar com a grandeza de Shakespeare. Ele apenas nos apresenta o melhor relato do que é a condição do humano em todas as suas dimensões. Seria a própria condição humana uma grande tragédia?

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Os engenheiros do caos. Giuliano Da Empoli.

Em primeiro lugar quero indicar a fonte para essa leitura. Foi uma indicação de João Pedro Stédile, que dispensa apresentações. Em segundo lugar, apresentar, além do título, o subtítulo do livro. Os engenheiros do caos - como os fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. O livro, como o título indica, nos apresenta os engenheiros do caos e "o resultado é uma galeria de personagens variados, quase todos desconhecidos do público em geral, mas que vêm mudando as regras do jogo político e a face de nossas sociedades", como lemos na contracapa".
A edição original é de 2019 e a brasileira, pela Vestígio, é de 2020.

Quem são eles e como agem? Eles são apresentados na introdução do livro e os seus "feitos" são narrados ao longo dos capítulos. "Este livro é a história deles", lemos na introdução, onde também temos um breve relato biográfico. É a história de: Gianroberto Casaleggio, do Movimento 5 Estrelas (M5E). De Dominic Cummings, diretor da campanha do Brexit. De Steve Bannon, o fundador da Internacional Populista que conduziu Trump à vitória nos Estados Unidos em 2016. De Milo Yannopoulus, que se associará a Steve Bannon. É a história de Arthur Finkelstein, o conselheiro do ministro húngaro Vicktor Orban, o porta-voz da Europa reacionária e ressentida.

Ainda na introdução lemos: "Para os novos Doutores Fantásticos da política (ou engenheiros do caos), o jogo não consiste mais em unir as pessoas em torno de um denominador comum, mas, ao contrário, em inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los, mesmo à revelia. Para conquistar uma maioria, eles não vão convergir para o centro, e sim unir-se aos extremos", e prossegue nesse teor:

"Cultivando a cólera de cada um sem se preocupar com a coerência do coletivo, o algoritmo dos engenheiros do caos dilui as antigas barreiras ideológica e rearticula o conflito político tendo como base uma simples oposição entre "o povo" e "as elites". No caso do Brexit, assim como nos casos de Trump e da Itália, o sucesso dos nacional-populistas se mede pela capacidade de fazer explodir a cisão esquerda/direita para captar os votos de todos os revoltados e furiosos e não apenas dos fascistas". Se Bolsonaro não está na introdução, ele aparecerá ao longo do livro, também como um dos eleitos pelos "engenheiros do caos".

Além dessa preciosa e necessária introdução o livro tem seis capítulos e uma conclusão. Primeiramente apresento os títulos: 1. O Vale do Silício do populismo; 2. A Netflix da política; 3. Waldo conquista o planeta; 4. Troll, o chefe; 5. Um estranho casal em Budapeste; 6. Os "físicos" e os dados. Mais a conclusão: A era da política quântica. Sobra espaço ainda para as notas bibliográficas. O autor, Giuliano Da Empoli, nos é apresentado na orelha da contracapa, "dirige o grupo de pesquisa "Volta", com sede em Milão. Ex aluno da escola Sciences Po, Paris, foi secretário de Cultura da cidade de Florença e conselheiro político de Matteo Renzi (ex-primeiro-ministro italiano). Vive em Paris. Vamos aos capítulos.

1. O Vale do Silício do populismo: Esse vale não fica nos Estados Unidos. Fica na terra dos netos de Maquiavel. Após apresentar os efeitos devastadores da nova maneira de fazer política, o autor entra de forma explícita no tema proposto. É na Itália que se organiza a Internacional Populista. É para Roma que Steve Bannon fazia viagens mensais para se encontrar com Casaleggio e Grillo. Procuram agregar o ódio de todos os raivosos do mundo. Isso só poderia ocorrer na Itália, berço do fascismo e do maior Partido Comunista do Ocidente, portanto, um permanente laboratório. Fala rapidamente da operação "Mãos Limpas", onde juízes, que, antes de mais nada, aplaudiam a si mesmos, destruíram a política tradicional e abriram o caminho para Berlusconi. A Internacional é fundada em 2018, com o Movimento 5 Estrelas (M5E). Os algoritmos substituem a ideologia nos tempos "pós-ideologia". Esse movimento se expandiu e chegou ao Brasil. Na posse de Bolsonaro estiveram presentes Netaniahu e Orban, os dois maiores representantes do movimento na Europa. São contra o mundo das instituições, contra a imigração, o livre comércio internacional, minorias e os direitos civis.

2. A Netflix da política. O tema ainda foca o M5E da Itália. A partir do blog de Casaleggio o movimento se organiza e atua como uma espécie de Partido, impulsionado pelos algoritmos. O que repercute é multiplicado ao infinito. Temas de pouca repercussão ganham toda a evidência desejada. O Partido funciona como uma grande cadeia de lojas, hoje sob o comando de Davide Casaleggio, filho do fundador. O título do capítulo é uma referência a uma frase em que Casaleggio compara os partidos tradicionais com os blokbusters e o M5E e a difusão de suas teses pelos algoritmos, como a Netflix. Entre as teses estão o desmantelamento das instituições, dos políticos tradicionais e o desfazer de reputações. Elegeram 25% dos parlamentares, na primeira eleição de que participaram. Exigem fidelidade absoluta e não se coligam.

3. Waldo conquista o planeta. Waldo é um urso digital, movido por Jamie, especializado em ridicularizar pessoas, especialmente os políticos. Fez enorme sucesso. Waldo torna-se o porta-voz de todos os desalentados. Conta as tramas do Brexit, os artifícios eleitorais utilizados. Para mim, de longe o mais importante dos capítulos. Fala da arquitetura psicológica do Facebook e do Instagram, pela voz de seus fundadores. A simples curtida é um afago no ego, que preenche múltiplas carências. Por eles foi catalizada a raiva e você, de indivíduo, passa a ser legião. Eles promovem um casamento entre a cólera e os algoritmos. Eles permitem o direcionamento dos afetos e sentimentos. Está aí a sua face mais perversa.

4. Troll, o chefe. É outro capítulo precioso que mergulha fundo na cultura americana, a partir das análises de Philipp Roth (Pastoral americana) e das influências da Escola de Frankfurt sobre esta cultura, conferindo-lhe uma visão negativa. Mas antes vamos buscar na Wikipedia a definição da palavra Troll: "pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão e provocar e enfurecer as pessoas nelas envolvidas". O capítulo mostra a impossível eleição de Trump à presidência dos Estados Unidos, sob a influência dos engenheiros do caos. Steve Bannon que já estava associado a Bretbart ganha a soma de mais um dos engenheiros, Yannopoulos. Este é qualificado pelo autor como um niilista imoral e que  confere um novo sentido à 'liberdade de imprensa" e à "livre expressão", com o poder de falar o que se quer. Sob sua influencia, em primeiro lugar são destruídos os "inimigos" internos do partido. Depois serão mirados os democratas Bill e Hillary Clinton e o presidente Obama, o "não nascido" nos Estados Unidos. Troll e Hastag  agora são palavras incorporadas à política. E o "impossível" é que tornou possível a eleição de Trump, segundo o New York Times. Uma campanha contra o instituído, que somou todos os ódios do país, inclusive, o racismo que parecia sepultado com a eleição de Obama.

5. Um estranho casal em Budapeste. O casal é o ministro Orban e o "engenheiro" Finkelstein. A Hungria é um país propício ao florescimento do ódio. Ao final da Primeira Guerra perdeu território e população para os vizinhos Romênia, Checoslováquia e Iugoslávia.  Muito ressentimento, hoje canalizado contra Bruxelas e contra a imigração. Está no poder desde 2010. São especialistas em criar problemas inexistentes.

6. Os físicos e os dados. A essência do capítulo está numa entrevista com o físico Antonio Eredidato. É sobre a aplicação da física à política. É o mecanismo dos algoritmos. Essa forma de fazer política permite reativar todos os ódios latentes nas pessoas, que permite que pessoas intolerantes determinem a história com a liberação das pulsões mais primitivas e das perversidades mais secretas. Permite a eleição de pessoas como Salvini, Trump, Orban e Bolsonaro. E, ao final do capítulo, uma advertência para as novas gerações: "As novas gerações que observam hoje a política estão recebendo uma educação cívica feita de comportamentos e palavras de ordem que irão condicionar suas atitudes futuras. Uma vez os tabus quebrados, não é mais possível colar de novo: quando os líderes atuais saírem de moda, é pouco provável que os eleitores, acostumados às drogas fortes do nacional-populismo, peçam de novo a camomila dos partidos tradicionais. Sua demanda será por algo novo e talvez ainda mais forte".

Da conclusão, retiro apenas uma frase de Woody Allen: "Os maus sem dúvida compreenderam algo que os bons ignoram".  E para concluir, que tal a indicação do João Pedro Stédile? Me somo a ele para indicar, também para você, essa chocante leitura.