segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DOSSIÊ CHINA. DA REVOLUÇÃO DE 1949 ATÉ OS DIAS DE HOJE.

Um dos fatos mais importantes dos últimos tempos é, sem dúvida, a ascensão econômica e da importância política nas relações internacionais da República Popular da China. Ninguém que queira, ao menos minimamente, estar ao par dos acontecimentos, pode ficar alheio a essa ascensão. Recentemente li quatro livros sobre o tema, fiz as suas resenhas e as deixei registradas no blog. Este post de agora tem por finalidade deixá-las registradas num único espaço.


China - o socialismo do século XXI e China - Tradição e modernidade na governança do país.

Os dois primeiros livros eu já os tinha em minha estante. Comprei-os ainda na década de oitenta. Os dois últimos são livros recentes. Eles tem uma ampla abrangência e envolvem a história e a cultura desse povo singular. O foco principal, no entanto, é o entorno do ano de 1949, quando a Revolução, sob a liderança do Partido Comunista e sob o comando de Mao Tsé-Tung, se tornou vitoriosa. Passa pela Revolução Cultural (1966-1976), na qual Mao promoveu expurgos que visavam a preservação dos princípios revolucionários e chega às últimas reformas, iniciados ao final do ano de 1978, sob o governo de Xiaoping, e que, rapidamente, transformaram a economia chinesa na segunda maior economia do mundo. Um mundo a ser desvendado. Foram leituras muito proveitosas  e ilustrativas. Uma espécie de introdução aos estudos sobre esta nova potência mundial de nossos tempos.

O primeiro dos livros nos remete à história da China, especialmente ao longo do século XX. Um país de latifúndios, de economia fechada e de guerras externas e internas. Foram longos anos de Guerra Civil, até chegar o ano de 1949, quando a Revolução de Mao se torna vitoriosa e é proclamada a República Popular da China. O grande foco do livro é Mao.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

O segundo livro é de autoria de um dos conhecidos estudiosos do tema, Wladimir Pomar. Ele integra a coleção Revoluções do século XX. A sua publicação é do ano 2003. O livro examina todo o complexo processo revolucionário, desde suas origens, vitória e consolidação. O livro termina com o exame já das reformas do final dos anos 1980, quando se iniciam as reformas políticas e econômicas da China do século XXI.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

O terceiro livro já é dos tempos da China dos dias de hoje. A sua primeira edição é do ano de 2021. China - O socialismo do século XXI. A autoria é dos pesquisadores Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é dividido em duas partes: I. Capitalismo e socialismo como modos de produção e II. A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. Não é um livro de leitura fácil. Ele pressupõe conhecimentos de história econômica e de economia clássica. Mas vale muito a pena a sua leitura.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

O quarto livro é de 2024. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor é Evandro Menezes de Carvalho. Ele é professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. O livro é dividido em três partes: I. Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; II. Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; III. O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China. Um mergulho, por inteiro, na cultura chinesa e no governo atual de Xi Jinping. Super recomendo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html

Espero dessa forma deixar a minha modesta contribuição para com todos aqueles que queiram se iniciar nesse tão importante e apaixonante tema.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O PRÍNCIPE. Maquiavel.

Depois de ler sobre Maquiavel, creio termos atingido as condições necessárias para ler a sua principal obra e, termos dela, uma razoável compreensão. Vamos então, a algumas questões fundamentais de O Príncipe, no ousado intuito de oferecer algumas dicas que possam, possivelmente, servir de guia para a sua leitura. Sempre ouço falar das dificuldades em sua leitura. Ela decorre dos detalhes históricos que sempre são apresentados para ilustrar a sua argumentação. Ele é um livro de época e, escrito para a sua época. E essa época é de grandes transformações. Uma época em que o poder é arrebatado dos céus e passa a ser exercido aqui na Terra, pelos homens. E esses homens precisam ter algumas qualidades, sem as quais o fracasso dos príncipes será uma mera questão de tempo. Forças exteriores e superiores aos humanos não mais intervirão nos destinos da política.

O príncipe. Maquiavel. L&PM Pocket. 2007. Tradução do italiano: Antonio Caruccio-Caporale.

Datas são importantes. Não para serem decoradas, mas para serem contextualizadas. Dito isso, vamos a Maquiavel e situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527, na cidade de Florença, na destroçada e dividida Itália de seu tempo. São tempos do Humanismo e do Renascimento. É retomada a visão clássica de mundo, dos gregos e romanos. A visão antropocêntrica se contrapõe a uma visão teocêntrica de mundo. Na casa de seus pais não havia grande riqueza material, mas havia a coleção dos volumes da história de Roma, de Tito Lívio. Isso dá origem a um outro grande livro do pensador - Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e a outro importante princípio seu, a importância do estudo da história passada para a interpretação do tempo presente.

A visão que Maquiavel tinha dos seres humanos também é fundamental para a compreensão de sua obra. Vamos primeiramente ver uma definição sua a respeito: "Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis, fementidos, e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos. Enquanto ages em seu benefício, e contanto que a tua necessidade esteja ao longe, todos estão ao teu lado e oferecem-te o seu sangue, os seus bens, as suas vidas e os seus filhos. Ao avizinhar-se, porém, essa necessidade, eles esquivam-se. Um príncipe que se fie inteiramente na palavra desses homens, sem prover-se de quaisquer outras garantias, sucumbirá" (Capítulo XVII).

Outra questão importante diz respeito ao caráter repetitivo dessas características. Elas pertencem à própria natureza humana. E como são repetitivas, elas são previsíveis. Cabe ao príncipe fazer essas previsões e, a forma de fazê-lo, será o estudo da história, dos grandes príncipes do passado, especialmente, os do tempo de Roma, do seu período republicano. A história lhe dará exemplos de como agir e não agir. Eis a importância da presença dos livros de Tito Lívio em sua casa.

Também considero fundamental que se saiba algo em torno da forma da escrita de O príncipe. A forma é a do aconselhamento. Quando ele tinha em torno de 30 anos, ele exerceu um importante cargo político (segundo chanceler). Isso lhe conferiu bastante experiência política, assimilada a partir de suas observações e análises. Assim ele se viu na condição de dar conselhos aos governantes de seu tempo, aos príncipes. Quais os tipos de principados existiam, quais as qualidades necessárias ao príncipe, o que ele deveria evitar, que tipos de exércitos ele deveria ter, que estratégias aplicar... etc., etc. Estes conselhos estão ao longo de toda a obra, mas se concentram mais quando ele fala especificamente do príncipe. A leitura é bastante facilitada pelos títulos que ele dá aos 26 capítulos da obra, uma espécie de síntese de cada um deles.

A grosso modo, assim eles são apresentados: Do I ao XI ele fala sobre os principados. Os resultantes de conquistas, dos hereditários, dos mistos, exemplos históricos de como foram governados, sobre a importância do príncipe ter o povo a seu lado, sobre a prudência no agir, no medir a correlação de forças. Na sequência, dos capítulos XII ao XIV ele fala dos vários tipos de exército, de soldados mercenários, de forças próprias, do conhecimento do príncipe a respeito da estratégia militar. Mas creio que não erramos, em apontar nos capítulos XV ao XXV, o coração, a centralidade da obra, ao apontar as qualidades do príncipe para os novos tempos. Tempos em que a política não mais se guiará por desígnios divinos, mas estará na mão dos príncipes. Dela advirão os conceitos fundamentais da obra.

Já no capítulo XV, aparece o conceito da verdade efetiva das coisas. Da política como ela é e não como ela deveria ser. Vejamos: "Contudo, sendo o meu intento escrever coisas úteis àqueles que as lerão, parece-me mais conveniente conformar as minhas palavras à verdade efetiva do meu objeto que a uma visão imaginária do mesmo. Muitos foram os que conceberam repúblicas e principados que jamais foram vistos ou reconhecidos como tais" (Capítulo XV). Mas vamos adiante, com o título dos capítulos, acrescidos de alguma citação ou observação.

Capítulo XVI. Da liberalidade e da parcimônia. Que capítulo atual! Versa sobre os gastos do príncipe. Se ele agir perdulariamente ele terá que explorar o povo para praticar as suas liberalidades, o que não será um bom caminho. Vejam a pregação de hoje contra os impostos para cobrir os gastos públicos com os direitos sociais. Capítulo XVII. Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado que temido ou o contrário. Vejamos, a partir do próprio Maquiavel. "Nasce daí o debate: se é melhor ser amado que temido ou o inverso. Dizem que o ideal seria viver-se em ambas as condições, mas, visto que é difícil acordá-las entre si, muito mais seguro é fazer-se temido que amado, quando se tem de renunciar a uma das duas" (Capítulo XVII). Isso é uma decorrência da sua concepção da natureza humana, tema exatamente tratado neste capítulo, possivelmente o mais importante do livro.

Capítulo XVIII. Como devem os príncipes honrar a sua palavra. Mais polêmicas à vista. Vejamos também pelo autor. "Em sendo assim, o príncipe deve fazer por onde alcançar e sustentar o seu poder: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos elogiados, e isto porque apenas às suas aparências e às suas consequências ater-se-á o vulgo, este vulgo cuja presença é predominante no mundo". É o capítulo onde aparece a famosa comparação com os animais. A astúcia do lobo e a força do leão. Vejamos as razões pelas quais o príncipe nem sempre precisa cumprir com a sua palavra: "Portanto, não pode nem deve um soberano prudente cumprir as suas promessas quando um tal cumprimento ameaça voltar-se contra ele e quando se diluem as próprias razões que o levaram a prometer. Se os homens fossem bons, bom não seria esse preceito; mas, visto que eles são pérfidos e que, em teu favor, tampouco honrariam a sua palavra, etiam tu não tens de sentir-te no dever de, em seu favor, honrar a tua".

O capítulo XIX é o mais longo dos capítulos. O seu título é: subtraindo-se ao desprezo e ao ódio. O que o príncipe não pode ser. Ele deve furtar-se de ser odiado e desprezado. Ele será odiado e desprezado "ao ser encarado como volúvel, fraco e leviano, e como pusilânime e irresoluto". Ao contrário disso, ele "deverá precaver-se contra isso como contra um escolho marinho, e empenhar-se para que em suas ações transpareça a grandeza, a coragem, a austeridade e a firmeza". É outro conceito fundamental em Maquiavel. O príncipe deverá ser dotado da virtù, para que, por ela, seja merecedor da fortuna. Ao príncipe é imprescindível a aliança entre a virtù e a fortuna. Isso está maravilhosamente exposto no penúltimo capítulo, o de número XXV, onde ele também explicita a forma pela qual o príncipe seduzirá a fortuna: "Dito isso, concluo que, sendo a sorte (fortuna) inconstante e os homens obstinados em suas formas de agir, estes serão felizes pelo tempo em que com ela convergirem e desditosos quando dela divergirem. E considero o seguinte: que vale mais ser impetuoso que circunspecto, pois que a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la [sic]. Notamos que ela deixa-se melhor dominar por quem assim procede do que pelos que se portam com frialdade. Por esse motivo, como é mulher, ela é sempre amiga dos jovens: estes são menos judiciosos, mais aguerridos e mais audazes ao comandá-la".

Voltemos agora ao capítulo, em nossa sequência, ao capítulo XX. - Se as fortalezas e tantas outras coisas produzidas pela ação quotidiana dos príncipes são úteis ou não. Ele pondera entre o armar e desarmar o povo, para evitar dissidências e revoltas e, depois de mostrar vantagens e desvantagens, dá o conselho de que a melhor forma de intentar os seus objetivos é o ser benquisto e respeitado pelo povo. No capítulo XXI, - Como deve portar-se um príncipe para fazer-se benquisto, a exortação mais uma vez se volta às qualidades do príncipe, ele "deve esmerar-se  para oferecer de si, em cada gesto seu, a ideia de um homem com grandeza e que excele no pensar". De novo, a ideia da virtù. E o que acontece aos não portadores dela: "Os príncipes irresolutos, para escapar a esses perigos, seguem, o mais das vezes, pela via da neutralidade, e o mais das vezes caem em ruína". O príncipe deve sempre posicionar-se com resolução e firmeza. 

O capítulo XXII - Dos ministros dos príncipes e o XXIII - Como escapar dos aduladores me parecem temas mais óbvios. Os aduladores são tidos por Maquiavel como verdadeiras pestes, mas o príncipe, também, jamais deve abrir mão de bons conselhos e bons conselheiros. O capítulo XXIV fala da ruína da Itália de seu tempo, dividida e esfacelada, em razão de nenhum príncipe ter a virtù necessária para promover a sua unificação e retornar ao período da grandeza dos tempos de Roma, sua fonte e inspiração, especialmente os tempos da República, regime pelo qual demonstra sempre sua preferência. Ao capítulo XXV já fizemos a referência, às relações entre a virtù e a fortuna.

Já o último capítulo, o de número XXVI - Exortação à tomada da Itália e à sua libertação dos Bárbaros. É a razão de ser da escrita do livro: "Não se deve portanto, deixar passar esta ocasião: a Itália, tanto tempo passado, há de ver, enfim, a chegada do seu redentor. E faltam-me palavras para exprimir com que amor seria ele recebido em todas aquelas províncias que padeceram com o alúvio invasor dos estrangeiros; com que sede de vingança, com que inabalável fé, com que devoção, com que lágrimas. Que portas fechar-se-lhe-iam? Que povos negar-lhe-iam a obediência? Que inveja ser-lhe-ia oposta? Que italiano negar-lhe-ia o respeito? A cada um repugna esta dominação bárbara. Que a vossa ilustre casa assuma esta missão, com aquela esperança de que são tomadas as justas iniciativas, a fim de que, sob o seu estandarte, nossa Pátria seja engrandecida, e a fim de que, sob os seus auspícios, se comprove este dito por Petrarca: 'Bravura contra o furor // tomará armas; o destruirá num zás // que o antigo valor // no peito italiano inda não jaz'".

Ah sim! Ainda falta a dedicatória - De Nicolau Maquiavel para o magnífico Lourenço de Médicis, certamente no afã, da volta a um cargo público. Depois de considerações várias ele assim conclui: "Destarte, receba, Vossa Magnificência, este singelo dom com o mesmo espírito que anima-me a enviá-lo. Lendo-o e considerando-o atentamente, nele notará meu grande anseio de que Ela eleve-se à majestade que a fortuna e que os seus outros atributos lhe prometem. Se Vossa Magnificência, do alto de sua magnanimidade, vez por outra voltar os olhos para cá embaixo, saberá o quanto me degrada suportar o meu fado (fortuna) infinda e perenemente funesto".

E uma última frase. Eu a tenho anotado num livro que faz a abordagem de Maquiavel. A frase é de Le Goff, mas não apontei a fonte. Ela é profundamente esclarecedora: "O poder político sai em favor das forças econômicas". Por isso, os principados precisam de estabilidade de poder, e tudo fazer para mantê-la. Talvez isso se traduziria, nos dias de hoje, pela necessidade de segurança jurídica.

Deixo ainda os posts relativos a interpretações de O príncipe. Primeiramente o ensaio bibliográfico de Newton Bignoto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

Depois a apresentação de seu pensamento por Maria Tereza Sadek para o livro Os clássicos da política.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html

E, a revista História Viva.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/historia-viva-maquiavel-o-genio-de.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

História Viva. Maquiavel, o gênio de Florença. O homem que revolucionou o pensamento político.

Tenho em minha biblioteca algumas revistas que são verdadeiras preciosidades. Entre elas está  História Viva - Grandes temas - edição especial temática número 15, da Duetto Editorial. O tema da edição especial é Maquiavel, o gênio de Florença - O homem que revolucionou o pensamento político. São 98 páginas de contextualização histórica, de análise e de repercussão da principal obra do gênio, que viveu na cidade de Florença entre os anos de 1469 a 1527. O esplendor da principal cidade do Renascimento ocorreu entre os séculos XIV e XVI. Esta revista, com certeza, mereceria outra edição especial, na forma de livro.

Revista História Viva. Grandes temas. Maquiavel, o gênio de Florença.

Como no meu blog estou fazendo algumas resenhas em torno de Maquiavel, eu não quero deixar de por os leitores  em contato com um dos trabalhos mais bem feitos em torno do seu O Príncipe. Mas como o espaço do blog não é apropriado para análises mais longas, vou tentar, ao menos, apresentar os temas abordados por diferentes especialistas e dar destaque a algumas frases essenciais presentes na obra. Creio que vai ser bastante útil. São 20 os temas abordados. Apresento o título do Sumário, o título do artigo e os subtítulos. Vejamos:

Apogeu cultural. Os 300 anos em que Florença esteve no centro artístico e político do mundo. A autoria é de Maria Berbara (Páginas 6 a 19). 300 anos no epicentro comercial e cultural do mundo. - O controle dos Médici foi fundamental para elevar o poderio econômico e expansionista da região italiana. - A partir de Dante, a língua italiana seria estabelecida, e a partir de Giotto, as artes visuais ganhariam unidade. - No final do século XIV, Florença viveu uma série de desastres naturais, políticos e financeiros, que levaram a cidade à beira do cataclismo, com a revolta dos Ciompi, os fiadores de lã. A família Médici emergiu na arena política ao final do século XVI. Uma cilada, preparada por uma família rival, levou uma tragédia ao lar dos Médici; Giuliano foi assassinado, - Savonarola assume o poder de Florença com o objetivo de livrar a cidade do profano: cosméticos, jogos, livros e arte. - A Contra-Reforma fez Florença abandonar seu projeto republicano, que havia sobrevivido por 400 anos. Os Médici governariam até 1737.

Galeria de arte. O ápice do Renascimento e as obras que marcaram o século XVI. O texto tem a assinatura de Luiz Marques (Páginas 20 a 29). Galeria de arte Florentina. - Como nos indica o título, trata-se de uma galeria onde figuravam as principais obras de arte do período.

O príncipe inspirador. A ascensão de César Bórgia, o filho do papa, que quase unificou a Itália. A autoria do texto coube a  Alain Decaux (Páginas 30 a 39). César Bórgia, o protagonista da obra prima. - O homem que melhor incorporou a ideia de que os fins justificam os meios trocou o hábito religioso pelas armas e tentou barbaramente reunificar a Itália. Na suntuosa Roma, César Bórgia viveu sua ascensão como filho de um grande senhor, no caso, o papa Alexandre VI. - A preferência explícita do pai pelo irmão alimentava o ódio em César, ao mesmo tempo que o afastava das armas. -  Com a sensação de ter o mundo nas mãos, César solidificou a amizade com o rei francês Luís XII e combateu a seu lado. - Com a morte de Alexandre VI, o duque Valentino (César) perdeu tudo. Exilou-se no reino de Navarra, onde viveu sua batalha final.

Contexto histórico. A compreensão do pensamento de Maquiavel é indissociável da análise de sua época. O texto, mais uma vez é de Luiz Marques (Páginas 40-41). Consta de um mapa político da época de Maquiavel e uma sugestiva frase: "Não inflige dor um porco a outro um cervo a outro: somente o homem outro homem mata, crucifica e despoja" (O asno, de Maquiavel).

Vida e obra. Pontos cruciais do percurso do pensador florentino. É mais um texto de Luiz Marques (Páginas 42 a 43). Trajetória para a criação de uma filosofia. Entre a prática e a análise, momentos determinantes na vida do florentino.

Biografia. A vida do secretário da República que se tronou o mais brilhante historiador e teórico da política florentina. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 44 a 53). De homem de Estado a pensador político. - Maquiavel colocou a serviço da República toda sua lucidez para entender e antever os momentos cruciais de Florença.  - Em suas legações pela Europa conhece César Bórgia e Leonardo da Vinci, que se tornaria seu grande amigo. - Livre da prisão e da tortura, Maquiavel retirou-se para Percussina, onde escreveu sua grande obra, O príncipe. - De volta à vida política, o pensador florentino viu sua bandeira triunfar, mas já era tarde para a Itália.

A gênese da obra. Durante o exílio forçado, Maquiavel compõe seu livro mais célebre. A autoria é de Luiz Marques (Páginas 54-55). No exílio nasce o teórico. Afastado de Florença, Maquiavel mantém uma rotina simples e intelectualmente produtiva. 

A natureza das coisas. O teórico visita as questões morais da tradição clássica e mostra no Príncipe, que a política é fruto da história real dos homens. A autoria é de Newton Bignotto ( Páginas 56 a 59). O Príncipe - a história real dos homens. - Na sua célebre obra, Maquiavel muda o tradicional foco de análise e aprende com o regime existente. - Maquiavel procede a uma luta feroz contra a tradição, produzindo uma nova compreensão do que seja a política. 

Os jogos do poder. As considerações morais apresentadas por Maquiavel em dois momentos de sua vida. O texto é de José Alves de Freitas Neto (Páginas 60 a 63).  A Moral do Poder. - As incômodas considerações éticas sobre como os governantes devem proceder para serem amados e temidos pela população. - Maquiavel não distingue ética de política em sua obra, mas faz críticas a uma certa ética cristã e aos resultados que esta provocou na Itália. 

Nem manual, nem tratado. Obra de Maquiavel deve ser lida como uma explicação sobre a busca da manutenção do poder. A autoria coube a Rafael Ruiz. (Páginas 64 a 67). De Aristóteles à tradição moderna. Maquiavel rompe com o modelo clássico ao considerar a capacidade de obter resultados de um governante, mais importante que a moral. - O homem prudente de Maquiavel, que sabe usar o momento, as ações e as palavras para bem governar, pode não existir, é utópico.

A cidade vista por dentro. Livro encomendado por um Médici retrata o amor do pensador por Florença. O texto é de Helton Adverse (Páginas 68-69). A visão pessoal da cidade. - Obra encomendada pelo cardeal Médici marca a volta de Maquiavel à vida política.

Influência do pensamento. O legado das ideias de Maquiavel percorre cinco séculos de filosofia política. O texto novamente é de Luiz Marques (Páginas 70-71). A Fortuna crítica.

A reação iluminista. Voltaire assina refutação dos escritos do florentino. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 72 a 75). Voltaire contra a arte da maldade. - O filósofo francês, revisou os manuscritos, editou e assinou o prefácio para o libelo Anti-Maquiavel, escrito por Frederico II, rei da Prússia. - A crítica de Voltaire visa historiografia, que tendia a justificar o absolutismo, e sobretudo Amelot de la Houssaye, o tradutor para o francês.

Contra o moralismo. Hegel analisa O Príncipe como metáfora do Estado. Mais um texto de Luiz Marques (Páginas 76 a 79). Entre o Renascimento italiano e a Alemanha de HEGEL. Filósofo critica moralistas e transforma a figura do príncipe de Maquiavel na imagem de um poder legítimo e universal, metáfora do Estado. Para Hegel, Maquiavel soube ter o frio juízo a ver que, para salvar a Itália, era preciso unificá-la em um único Estado.

Escritos do cárcere. Para Gramsci, Maquiavel encarna revolução falida. Mais uma vez Luiz Marques (Páginas 80 a 83). - Gramsci e a revolução burguesa falida. Nos escritos do pensador italiano, Maquiavel ocupa uma posição central, como o teórico dos Estados Nacionais regidos pela monarquia absoluta. 

Eternas interrogações. Raymond Aron e o caráter enigmático do autor. De novo Luiz Marques (Páginas 84 a 87). Aron e as interrogações sem resposta. Para o pensador francês, O Príncipe é uma obra cuja clareza aparente ofusca e cujo mistério e os simples leitores tentam em vão penetrar. 

Mal versus liberdade. Strauss ressalta o pensamento diabólico. Novamente Luiz Marques é o autor do texto (Páginas 88 a 91). Strauss e o retorno do "Old Nick". Para o filósofo do neoconservadorismo norte-americano, os Estados Unidos são o único país fundado em uma explícita oposição aos princípios maquiavélicos.

O Príncipe e a prosa. De Sanctis situa escritos na história literária. Texto mais uma vez de Luiz Marques (Páginas 92-93). A prosa italiana moderna por DE SANCTIS. Sem preocupar-se com a forma, o pensador florentino teria criado um modo puro de escrever.

A verdade libertadora. Para Papini, Maquiavel põe à mostra a feiura que ninguém quer ver. Outra vez, texto de Luiz Castro (Páginas 94 a 97). Papini e o estilo realista no pós-guerra. Polêmico e pragmático, o escritor defende e compara sua prosa ao modelo duro adotado por Maquiavel. 

Ponto final.  Por Antônio Valverde. (Página 98). Como ler Maquiavel hoje. Compreender o escritor florentino atualmente é pensar a política como ação que mira o bem público futuro.

Deixo ainda os dois posts anteriores sobre o pensador. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

NICOLAU MAQUIAVEL. O cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù. Maria Tereza Sadek.

O meu segundo post sobre Maquiavel é retirado do livro Os clássicos da política. Volume 1. Maquiavel - Hobbes - Locke - Montesquieu - Rousseau - O federalista. O livro é organizado por Francisco Weffort e os comentários e os textos selecionados dos diferentes autores ficaram a cargo de renomados especialistas sobre cada autor. O livro é uma preciosidade. O comentário sobre Maquiavel coube a Maria Tereza Sadek e tem um belo título, já uma espécie de síntese de seu pensamento. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù.


Os clássicos da política. Volume I. Francisco Weffort, organizador. Ática. 2002.

Conheço bem este livro. O utilizei muito, quando professor de Teoria Política na Universidade Positivo. A forma do livro obedece a um critério maravilhoso. A análise feita pelo especialista é acompanhada por textos, especialmente da obra principal do autor, ou então, somando outros livros para explicitar melhor o seu pensamento. Se constitui assim, num extraordinário guia para ler a obra ou obras do autor, na sua íntegra. Nos comentários também já encontramos a indicação ou a localização na obra dos principais enfoques trabalhados. Dentro das limitações do texto, não há capítulos, mas aparecem grifadas as ideias centrais do autor, para facilitar a leitura.

No primeiro tópico, Sadeck nos apresenta o adjetivo e o substantivo - maquiavélico e maquiavelismo, onipresentes no debate político atual. Os termos, absolutamente pejorativos, tem o significado de perfídia, traição, astúcia, velhacaria, entre outros tantos similares. Maquiavel recebeu, inclusive, o nome de Old Nick, um apelido do diabo. Ele é acusado de ser o inspirador de todos os tiranos. Posteriormente foi reabilitado pelos maiores nomes da ciência política. 

O segundo tópico, as desventuras de um florentino já nos apresenta o pensador em seu tempo e espaço. Maquiavel nasceu na cidade de Florença, (1469 - 1527), um dos cinco Estados, que marcaram a península italiana até o ano de 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico. Depois houve um caos generalizado. A instabilidade política era total. Os governantes duravam menos de dois meses no poder, nos conta Sadeck. Maquiavel sempre foi um aluno estudioso e brilhante. Mas o seu ingresso na vida pública demorou para acontecer. O primeiro cargo de destaque lhe veio aos 29 anos, em 1498, após o governo do moralista Savonorola. Ele foi deposto, enforcado e queimado, uma pequena amostra da política de seu tempo. Maquiavel ocupou a Segunda Chancelaria, cargo de grande relevância, mas por pouco tempo. Foi torturado, preso e acusado de conspiração. Exilado em sua própria cidade se dedica à reflexão e à escrita. Estas obedecem a uma descrição de sua experiência à frente de um importante cargo político. Seu último trabalho foi o de escrever a história de sua cidade, uma encomenda de sua Universidade. A República de Florença o considerou como um inimigo seu. Desgostoso e amargurado adoeceu e morreu.

No terceiro tópico, A verdade efetiva das coisas, a comentadora entre na análise de seu pensamento. A um amigo seu Maquiavel confidenciou que estava destinado a escrever sobre o Estado. "Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem", nos afirma a comentadora. Ela continua: "Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verità effettualle - a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade como ela é e não como se gostaria que ela fosse". Isso é absolutamente determinante em seu pensamento. Contraria assim a visão dominante do idealismo na política e o fato gerador das instabilidades. Aí vem a missão do príncipe. Vejamos, mais uma vez a comentadora:

"A ordem, produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita". Isso posto, o que mais é fundamental no famoso pensador florentino? O estudo da natureza humana e como nela intervir.

Assim o tema do quarto tópico é Natureza humana e história. Sobre esta natureza vem uma das mais conhecidas frases do autor, contida no capítulo XV: "São ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro". Estas características são constantes ao longo da história. Por isso mesmo, o estudo da história é importante fonte para o estudo da política e de seu objetivo primordial na manutenção da ordem e da estabilidade do poder. A história é cíclica, ela se repete. Vejamos o que nos diz a comentadora: "O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria 'malignidade' que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder aparece como única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de 'domesticação' seja precária e transitória. Não há garantias de sua permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar, mesmo que tenha permanecido oculta por algum tempo".

O quinto tópico aborda a questão dos regimes. Anarquia X Principado e República. No capítulo IX, Maquiavel fala do Príncipe. Além da natureza humana, outras duas forças contribuem para a tendência ao caos e à anarquia política: Uma delas quer dominar e a outra não quer ser dominada. Diante disso, qual é a forma que o Estado deve adquirir para que haja a estabilidade social. Como conseguir a estabilidade no jogo dessa correlação de forças? Existem duas possibilidades: O principado e a República. O Príncipe será aquele que deverá eliminar o caos inicial, quando ele assume o poder. Depois ele deverá instaurar a República, fundada nas leis e nas instituições. Assim Sadeck encerra este tópico: "Face à Itália de sua época - dividida, corrompida, sujeita às invasões externas - Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um Príncipe". Mas quais seriam as virtudes desse Príncipe?

Virtù X Fortuna. Estes são possivelmente os dois conceitos mais polêmicos na obra de Maquiavel. Se não polêmicos, ao menos, os que lhe causaram mais dissabores. Para explicá-los, recorreu aos clássicos. Lembremos que estamos na época do Humanismo e do Renascimento. Lembremos ainda, que na concepção de Maquiavel a política era uma prática de homens, sem freios extra terrenos, sujeitos de sua própria história. Esta prática, afirma a comentadora "exigia virtù, o domínio sobre a fortuna".

Fortuna era a deusa possuidora dos bens mais desejados pelos homens, como a honra, a riqueza, a glória, o poder. Ela era uma deusa feminina e adorava o jogo de sedução. Ela favorecia aos que possuíam a qualidade da virtù, "um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna", nos afirma Sadeck. Era o oposto das virtudes cristãs, em vigor na época. A deusa Fortuna tinha poderes sobre o destino dos homens. Estamos chegando ao final do livro. Vejamos o título do capítulo XXV, o penúltimo da obra: O quanto influi a fortuna nas coisas humanas e como reagir a elas. As qualidades exigidas do Príncipe são agora, as de um homem viril, enérgico e determinado diante dos acontecimentos. Mas toda a parte final, já a partir do capítulo XV, Maquiavel destina às qualidades necessárias ao Príncipe para os tempos modernos. Sadeck assim encerra seus comentários:

"É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se manter no poder 'incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for indispensável para salvar o Estado' (Capítulo XV). Os ditames da moralidade convencional podem significar a sua ruína". E assim arremata:

"A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de suas proposições é seguramente o que dá origem ao 'maquiavélico'. A evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas substantivas.

O mito, uma constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita como quer a tradição - algo natural e eterno.  Recupera no mito as questões que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as concepções acomodadas, de há muito estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento. Transformado em mito, é novamente vitimado.

O pensamento político moderno e crítico, para decifrar o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e em sua verità effettualle. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù".

Nos textos selecionados, Maria Tereza, apresenta parte dos capítulos I a XII, do XIV e XV, dos XVIII ao XXII, do XXV e XVI.

Já dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ela analisa o capítulo IV e V, o VII, o IX, o XI, e os do XVI ao XVIII.

Deixo ainda a resenha do post anterior, a análise do professor Newton Bignotto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MAQUIAVEL. Newton Bignotto. - Filosofia Passo a Passo.

Vou fazer uma série de posts sobre Maquiavel. Isso se justifica, uma vez que foi Maquiavel, que nos tempos modernos, do Humanismo e do Renascimento, lançou um novo olhar sobre a política. Este novo olhar tornou-se a principal referência de toda a filosofia política da modernidade. Então, a primeira coisa a fazer é situar o autor no tempo e no espaço: Ele é um pensador da cidade italiana de Florença, que nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527. A biografia que hoje apresento é de autoria de Newton Bignotto, da coleção - Filosofia Passo a Passo -. Ela é uma biografia ensaio, focado na essência do pensamento do autor. É um pequeno, mas precioso livro, de apenas 76 páginas. Uma precisa síntese, possível apenas, a um profundo conhecedor. Bignotto é doutor pela École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Seu orientador foi ninguém mais, nem menos do que Claude Lefort.

Maquiavel. Newton Bignotto. Filosofia Passo a Passo. Jorge Zahar. 2003.

Antes de qualquer observação sobre tão importante personagem, quero registrar o que consta na página 9, logo no início do livrinho, ainda na introdução. Depois de constar que a sua família, embora das mais tradicionais de Florença, não pertencia à aristocracia, - lemos: "Tendo vivido sempre de maneira modesta e mesmo com dificuldades, ele transmitiu ao filho o grande amor pelos livros e pelas coisas do passado. Na casa de Maquiavel o grande luxo eram os volumes de Tito Lívio, historiador romano que era uma referência obrigatória para todos os jovens que se iniciavam no movimento humanista que imperava no período".  Interesse pelo passado e amor pelos livros, de maneira geral e, os livros de Tito Lívio, de modo todo particular. (O historiador Tito Lívio é autor de Ab urbe condita - que traduzido significa - Desde a fundação da cidade -, a mais completa história de Roma. Nos diz a Wikipédia que ela tinha originalmente 142 livros dos quais se preservaram 35). A história de Roma está onipresente no pensamento de Maquiavel.

A referência final da citação também nos lembra outra importante influência na origem do pensador florentino: o movimento humanista. Pelas aulas de história, certamente nos lembramos que o Renascimento e o Humanismo se caracterizaram por uma volta à cultura clássica, ao tempo dos gregos e dos romanos. Essa cultura foi um tanto abafada ao longo do período medieval, uma cultura toda centrada no teocentrismo. Lembremos apenas o título da obra política de santo Agostinho: A cidade de Deus. Com o Humanismo, o homem voltou a ser "a medida de todas coisas", inclusive da política. A política se  refere à Polis, à cidade. Assim a política ou a cidadania, os fatos que ocorrem na cidade, obedecem a determinações tomadas pelos homens, por seus dirigentes em disputa pelo poder. É algo relativo ao -  O Príncipe.

Ainda mais uma observação. Os tempos de Maquiavel são tempos de grande agitação comercial e política. As instituições eram frágeis à medida da volubilidade e das inconstâncias dos homens. Florença não fugia a essa realidade. Maquiavel procurou ler os desejos que a cidade queria ver de seus governantes, de seus príncipes, ou melhor, de seu O Príncipe. Nesses tempos de progresso e enriquecimento o povo queria que os governantes, além de chegarem ao poder, também nele se mantivessem, para assegurar aos cidadãos a paz social através de leis e instituições. A grandeza e o poder de Roma era a sua fonte de inspiração. 

O belo livrinho de Bignotto é de uma meada só. Ele não está separado em capítulos, mas ele tem títulos que servem de guia. Vou preservá-los, assinalando-os. Introdução. Nela é apresentado o pensador, seu meio, a sua cidade e a recepção de suas primeiras influências. César Bórgia e o moralista Savonarola. O secretário florentino. Sua primeira experiência e o contato com a realidade. A história como guia para a interpretação do presente. Como lidar com os povos conquistados - temor ou assimilação. A natureza humana é repetitiva e, portanto, é previsível. César Bórgia e o poder excessivo. A vida solitária: O nascimento de O Príncipe. Após uma derrocada política e pessoal seguem os tempos de reflexão e de escrita. A escrita obedece a forma do aconselhamento. Os conselhos para o príncipe dos novos tempos. Como conquistar o poder e nele se manter. Quando tiver de enfrentar os adversários, deverá conhecê-los. Isso é possível, uma vez que a sua natureza é repetitiva. As pessoas são más, ingratas, volúveis e ávidas de ganho. César Bórgia é uma espécie de modelo de governante. Savonarola, 'um profeta desarmado' e frágil. Alcançou o poder mas nele não se manteve.

A fortuna e a virtù. César Bórgia chegou ao poder pela Fortuna (a divindade grega da sorte, do destino) e nele se manteve pela virtù (a virilidade, a coragem, a energia). Fortuna e virtù são os dois grandes componentes da política, lembrando que a divindade grega Fortuna é feminina, condição que lhe confere o gosto pela virtù. Quando Maquiavel fala de virtu, ele nunca se refere às virtudes cristãs, próprias aos governantes da Cidade de Deus, do período medieval. Ela não provém da ética, nem da religião. É uma exigência do novo tempo. É preferível ser impetuoso a ser circunspecto. O governante não pode tremer ante os perigos. A Fortuna e a Virtù sempre andam juntas, são inseparáveis. A Fortuna sempre sorri e se deixa seduzir pela virtù.

Uma moral para a política. É um dos grandes temas da época e que ensejou grandes debates. Uma época, como já vimos, em que a política começa a se separar e a se distanciar do cristianismo. O príncipe deve se guiar pela - verdade efetiva - e não por uma verdade idealizada., é - o ser -, - o é -, e não o - deve ser -. Uma retomada de Aristóteles. O príncipe se autonomiza diante da ética. A política é um campo independente da moral. O Príncipe deverá decidir. O não uso do poder poderá ser nocivo ao bem, diante da natureza inconstante dos homens. Diante da situação objetiva, isto é, diante da realidade, é preferível ser temido do que amado. Porém, provocar temor em excesso e injustificável também ajudará na queda do príncipe. Os gastos públicos também não permitem muita liberalidade ao Príncipe O indivíduo e o governante obedecem a princípios distintos. O temor também não pode fazer uso constante da violência. O uso da astúcia faz parte da política. Os governados detestam serem enganados. O uso dos conceitos religiosos é bom, mas não podem servir de guia para a política. Lembrando que as melhores armas do Príncipe são o uso das leis e das instituições. Nesse contexto se insere a frase nunca dita por Maquiavel de que os fins justificam os meios.

Maquiavel republicano. O regime republicano tem a sua preferência porque ele enseja mais facilmente as mudanças. Mas, mais uma vez, a realidade dos fatos prevalece sobre a  realidade idealizada. Ele faz a defesa da vida política ativa. Um humanismo cívico no desejo da paz. Resguardar a liberdade e buscar a paz. Enfrentou grandes dificuldades por romper com as concepções do cristianismo medieval. Defende o apego a interesses republicanos (res publica). Liberdade e conflito. Como construir uma República e manter a sua estabilidade? Por uma série de instituições e o enfrentamento dos inimigos com destemor. Diante da assimetria dos desejos humanos, agir com equilíbrio, sem hesitações. Reduzir os conflitos, sem evitá-los quando necessário. A soberania da Lei.

A morte do corpo político. A degradação é um fenômeno natural. A imortalidade pertence aos deuses. Buscar sempre as instituições mais adequadas, dentro da perspectiva da circularidade do tempo. A corrupção é um fenômeno universal que degrada a tudo, seus efeitos são incontroláveis. É preciso criar boas leis no intuito da preservação do Estado. As instituições são o freio aos desejos irrefreáveis. Os dois eixos centrais da política são a liberdade e a igualdade. A não renovação da política corresponde à sua morte. 

Conclusão. Como político, Maquiavel não teve sucesso. Os seus êxitos se situam no campo da permanência de seus princípios ao longo dos tempos modernos. Ele lançou sobre a política um novo olhar, olhar com o qual continuamos a examinar a política até os dias atuais. 

Outro livro de Maquiavel são os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Neste livro Bignotto busca dois textos que em muito ajudam na compreensão geral de seu pensamento político. Nesses textos ele mostra toda a sua admiração por Roma, ao passado romano como possibilidade da interpretação do tempo presente.

No próximo post, recorreremos ao livro Os clássicos da política (volume 1)um livro organizado por Francisco Weffort. Dele tomaremos o primeiro capítulo que versa sobre Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna o intelectual da virtù, de autoria de Maria Tereza Sadek.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Movimento Operário no Brasil (1964-1984). Edgard Carone.

Entre os livros em minha biblioteca não lidos, encontrei este: Movimento operário no Brasil (1964-1984), do historiador Edgard Carone. Não faço ideia de como cheguei ao livro, bem como o motivo de não tê-lo lido. O ano de publicação é o de 1984. O livro integra uma trilogia do autor. Os dois volumes anteriores abrangem os períodos de  1877 a 1944, o primeiro volume e de 1945 a 1964, o segundo volume. Creio ser importante dar uma palavra sobre o teor do livro.

Movimento operário no Brasil. 1964 -1984. Edgar Carone. DIFEL. 1984.

Ele consiste em uma bela síntese do movimento operário a partir do golpe civil-militar de 1964, com a posterior hegemonia militar na condução do governo, apresentada como introdução. A partir daí, o autor se limita a apresentar documentos, como entrevistas, manifestos, textos de livros, resoluções de encontros e congressos dos diferentes grupos e suas versões sobre a realidade brasileira. Creio que a importância do livro para os dias de hoje se dá para os projetos de pesquisa do período. Como livro para simples leitura, é óbvio que ele é importante, mas ele se torna um pouco monótono em sua leitura, uma vez que ele é muito repetitivo, uma vez que as posições dos diferentes grupos são muito semelhantes, divergentes, na maior parte das vezes, nas formas de ação.

Pela importância do livro nos dias de hoje, eu destacaria uma entrevista do presidente Lula, encontrada na parte D do livro, que versa sobre os tempos atuais, lembrando que o livro apareceu no ano de 1984. A entrevista foi dada a Mário Morel, retirada do seu livro - Lula - o metalúrgico, das páginas 179-183. Ela tem por título Lula e a ideologia. Trata-se de uma questão em aberto até os dias de hoje. No livro, a entrevista encontra-se nas páginas 244-247. Uma preciosidade. Algo um tanto nebuloso, de um período de indefinições, com o declínio dos partidos comunistas e de ascensão do chamado socialismo democrático. Luta de classes versus sindicalismo de resultados?!

Apresento a estrutura básica do livro, de 314 páginas, de introdução e quatro capítulos: Capítulo A). Período da Guerrilha: Grupos originados do Partido Comunista Brasileiro (ALN, PCdoB, MR8 e PCBR); B). Período da Guerrilha: Grupos de Origem Diversa (VPR, POLOP, AP); C). Os Grupos de Origem Trotskista (O Posadismo, Convergência Socialista, Libelu); D). Os Tempos Atuais (Partido dos Trabalhadores; Partido Revolucionário Comunista, Movimentos Operários e Camponeses). 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, recorro a uma apresentação do mesmo, assinada por José Ênio Casalecchi, na orelha da capa e contracapa. "[...] O atual volume documenta o período após o golpe de 1964. Na Introdução há uma breve explicação deste momento histórico e da razão de cada um dos movimentos que existiram nestes anos. A seguir, temos a publicação de documentos que ilustram as posições ideológicas de cada um dos grupos.

A parte documentária se divide em quatro seções, obedecendo cada uma delas a uma dinâmica própria. Elas se denominam, respectivamente, Período da Guerrilha: grupos originados do Partido Comunista Brasileiro; Período da Guerrilha: grupos de origem diversa; Os Grupos de Origem Trotskista e Os Tempos Atuais.

Como o próprio título sugere, a primeira seção trata dos grupos dissidentes do PCB. A Ação de Libertação Nacional (ALN) é um dos mais importantes e é responsável por toda uma formulação ideológica da luta de guerrilha, cujo mentor é Carlos Marighela. Sua ação é ampla, traduzida em assalto a bancos, sequestros de embaixadores etc. Importante também é o papel do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de João Amazonas, cuja dissidência é de 1961, e que desenvolveu luta no campo, como no caso da Guerrilha do Araguaia. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) são outros grupos que defendem a tese das guerrilhas urbana e rural. A ação de ambos é importante, apesar de não serem tão amplas como a dos dois primeiros grupos.

A segunda seção trata também do período da guerrilha, mas expõe o pensamento dos grupos que não se originam do PCB. São os casos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da Política Operária (Polop) e da Ação Popular (AP). Na verdade, a matriz de cada um dele varia, indo do catolicismo (AP) até o luxemburguismo, isto é, às ideias de Rosa Luxemburgo (Polop). A esta gênese, eles acrescentam o pensamento de Regis Debray, fato que também se repete com os grupos originados do PCB.

A partir de 1971, começa o declínio dos movimentos de guerrilha. As razões são várias, indo do despreparo existente entre alguns grupos até a contra-ofensiva militar das forças de repressão. Neste momento, as esquerdas elaboram novas táticas, que variam de grupo para grupo. A ideia dominante, porém, é a de que a ditadura teria que ser derrotada através de instrumentos legais, já que se tornara impossível derrubá-la à força.

Com o recuo dos grupos de tendência stalinista, os Grupos de Origem Trotskista, título da terceira seção, ocupam espaços políticos momentaneamente vagos. O posadismo, a Convergência Socialista, a Liberdade e Luta (Libelu), por exemplo, começam a articular-se e pregam a necessidade de organização do movimento operário e até o boicote às estratégias eleitorais oposicionistas do MDB, atual PMDB.

A fraqueza orgânica destes grupos, no entanto, obriga-os a participarem de uma frente única dos trabalhadores, que é o PT. Este partido engloba tendências obreiristas e pequeno-burguesas e compõe-se de elementos sindicalistas, de facções da Igreja, de universitários e de grupos trotskistas. Esta composição leva o PT a comportar-se ideologicamente de maneira divergente em vários momentos, o que mostra, ao mesmo tempo, a sua complexidade e sua debilidade.

Afinal, na quarta seção, que trata dos Tempos Atuais, assinala-se o aparecimento de um grupo divergente do PT, que é o Partido Revolucionário Comunista, do deputado José Genuíno. A última parte, que trata dos Movimentos operários e Camponeses, reúne textos sobre a Reforma Agrária, as Comissões de Fábrica , a CUT e a CONCLAT". Lembrando que José Genuíno, posteriormente se reincorporou ao PT, tendo sido, inclusive, o seu presidente nacional, e ex deputado federal.

Em 1993 eu me mudei da cidade de Umuarama, para onde fui em 1969, após a formatura na Faculdade de Filosofia de Viamão (RS), para Curitiba, integrar a direção estadual da APP-Sindicato. A ida ao interior do Paraná me afastou do centro do furacão, nos anos de chumbo da ditadura. No sindicato havia pessoas com origem nas lutas do período retratado pelo livro. Havia enorme curiosidade. Mas eu creio ser mais importante compreender a origem mais longínqua que fundamentou as diferentes posições ideológicas dos trabalhadores. As Quatro Internacionais. Deixo o post dessas diferentes posições.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/02/proletarios-de-todos-os-paises-uni-vos.html

O livro representa uma bela fonte para a historiografia brasileira.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O sonho chinês X O sonho americano. O coletivo X O individual.

Ultimamente tenho lido bastante sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Dois livros me chamaram mais a atenção. São eles: China - O socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e China - Tradição e modernidade na governança do país, de Evandro Menezes de Carvalho. Fiz a resenha desses dois livros. Do primeiro eu chamei a atenção para um conceito todo especial. A desmistificação da economia clássica como um sistema natural, com a sua ênfase na competição. Assim me referi com relação à questão:


Os dois livros sobre a China.

"Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas". Somos mais felizes quando cooperamos do que quando competimos. E, lembrando, que no processo de competição sempre existirão infinitamente mais perdedores do que vencedores.

Mas o que me motivou a escrever este post é o que está na terceira parte do livro de Evandro Menezes de Carvalho. Esta terceira parte versa sobre o O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China, mais precisamente sobre o capítulo 20 - O sonho chinês: a revitalização da nação chinesa. No capítulo anterior já encontramos a provocativa frase "O sonho americano agora é encontrado na China", dita por um dirigente do Partido Comunista Chinês e, ante ela, o autor apresenta a não menos provocativa interrogação a respeito. "Mas será que o sonho chinês é idêntico ao sonho americano?" (Página 391). Vejamos então Xi Jinping (No poder desde 2012) e a abordagem do tema:

Encontramos uma primeira referência numa exposição temática "O caminho para a revitalização", no Museu Nacional, em 2012. Vejamos o seu contexto: "Ela abrangia o período de derrotas, sofrimentos e humilhações sofridas pelos chineses desde as Guerras do Ópio do século XIX até o fim da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente fundação da República Popular da China pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Falar em 'sonho chinês' no contexto desta exposição é associar esta expressão à restauração completa da soberania territorial e econômica do país e da dignidade do povo chinês. Para Xi Jinping, 'realizar a grande revitalização da nação constitui o maior sonho da nação chinesa desde o início da época moderna' (Página 397). Autoestima!

O tema é retomado por Xi Jinping no encerramento da Primeira Sessão da 12ª APN (Parlamento), em março de 2013. Foi o tema mais comentado do início do seu mandato. Vejamos a descrição dessa repercussão: "A mídia e as instituições acadêmicas chinesas discutiram o conteúdo deste sonho e a sua distinção em relação ao sonho americano. Na exposição dos contrastes entre um sonho e outro, destacava-se aquilo que é próprio da sociedade chinesa e que a colocava em uma trilha de desenvolvimento que lhe é peculiar. Não era um debate trivial naqueles primeiros anos do mandato de Xi, pois se tratava de um mote que tinha uma função mobilizadora da população ante um cenário de crescimento do PIB em torno de 6%. O objetivo do líder chinês era persuadir os chineses a se empenharem ainda mais na realização de seus projetos de vida e se unirem em torno do projeto de rejuvenescimento da nação. O 'sonho chinês' ressoou como um chamado patriótico ao buscar a sua força discursiva em uma ideia primordial do imaginário do povo chinês: a sua grandeza civilizacional.

O tema voltou ao debate num encontro de think tanks chineses e latino-americanos do PCCH, em Pequim, no ano de 2014. Uma das palestras versou sobre O sonho chinês e o mundo. Indagado sobre as diferenças do 'sonho chinês' do 'sonho americano', assim ele explicou: "que o sonho estadudinense consiste  no desenvolvimento do país através dos êxitos individuas; enquanto o 'sonho chinês dá mais atenção ao desenvolvimento integral da nação como foco, mas também estrutural". E o palestrante continuou evidenciando as diferenças.

"Na cultura chinesa, a proteção do interesse coletivo prevalece sobre o individual que, se preciso, deve ceder diante do bem comum. Na cultura estadunidense, refletindo a gramática política do Ocidente, a proteção dos indivíduos em torno da noção de propriedade privada rege a lógica de constituição normativa da sociedade.. Para Wasserstrom, 'o tipo de apego às tradições e fortalecimento do Estado que Xi exalta é às vezes visto como mais propensos a impedir do que ajudar os Sonhadores dos EUA'. Entretanto, para a China, os sonhos do Estado e dos indivíduos não se separam. Xi expressa esta compreensão do seguinte modo: 'a história nos ensina que o futuro e o destino de cada um estão estreitamente vinculados com os do país e da nação'. É o conceito de harmonia, imbricado com o de sonho. Vejamos:

" Nós estamos bem quando o nosso país está bem. Esta indissociabilidade entre nação e indivíduo é a base da já referida noção de 'Grande Harmonia' no pensamento confucionista. Gerenciar a Grande Harmonia de uma nação é uma tarefa de cada indivíduo dentro de uma rede social maior na qual está inserido e dela depende. [...] Para a realização da Grande Harmonia, não é bastante a virtude dos governantes, é preciso que cada indivíduo se dedique ao seu aperfeiçoamento. Diferentemente das sociedades ocidentais capitalistas, onde a virtude muitas vezes é associada  à riqueza material individual conquistada e da qual se pressupõe promover o bem comum, na cultura tradicional chinesa o desenvolvimento do bem-estar social provém do autocultivo da virtude por parte de cada indivíduo. Sem isto, a estabilidade social estaria ameaçada e, consequentemente, a sua riqueza material". 

O capítulo termina com a apresentação de pesquisas relativas à realização dos sonhos. Eles migram quando o estágio do atendimento das necessidades  básicas  já foi atendido. Aí surgem necessidades mais elevadas. O autor assim termina este capítulo: "O consumo passou a desempenhar um papel importante na satisfação das expectativas da população. Mas não é a única demanda do povo chinês. Observou Xie Chuntao que 'os cidadãos chineses já não estão simplesmente satisfeitos com o fato de serem alimentados e vestidos. Eles esperam mais direitos democráticos e um ambiente jurídico melhor', mas para ir ao encontro destas reivindicações, o governo chinês sabe que precisa fortalecer a sua capacidade de governança. Não é sem razão que o 'Pensamento de Xi Jinping' expôs que a tarefa de modernização do país para a grande revitalização da nação exige o desenvolvimento de uma 'governança baseada na lei'. Na China, ela terá qualidades distintas se comparada com as culturas jurídico-políticas ocidentais. É a chamada para o capítulo seguinte sobre A governança baseada na lei e no Estado de Virtude.

Neste capítulo aparecem importantes reflexões sobre a questão do Direito e da Justiça. Reflexões sobre os conceitos de racionalidade (do Iluminismo ocidental) e da relacionalidade e do Estado Democrático de Direito e do Estado de Virtude. Esta busca do Estado de Virtude provém do sonho chinês, do aperfeiçoamento de seu mundo de sonhos. 

E, cá comigo, eu verifico em minhas conversas que uma das maiores insatisfações brasileiras está no pagamento de impostos, que teoricamente poderiam melhorar a vida de toda a população através da ampliação das políticas públicas. Sei que é difícil entrar nesse debate em virtude de razões históricas de nossa formação cultural. E, eu me lembrando de Tom Jobim, de Wave. "É impossível ser feliz sozinho". Ah! A relacionalidade. Deixo ainda o post da resenha dos dois livros acima citados:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html?m=1

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html


sábado, 8 de agosto de 2026

CHINA - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho.

Nos dias atuais, quase toda a minha curiosidade está voltada para a China. A grande questão é a de como este país fez tão grandes transformações em tão pouco tempo. Busco explicações nas leituras. Há alguns dias recebi de presente, da minha amiga Suzi, um livro sobre a China. O livro é simplesmente fantástico. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor, Evandro Menezes de Carvalho, tem todas as credenciais para este empreendimento. Ele é, entre outros tantos atributos, professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim e condecorado com o Chinese Government Friendship Award, a mais alta honraria dada a estrangeiros pelo governo central da China.

China - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho. Batel. 2024.

Na contracapa encontramos o desvelar da hipótese desenvolvida ao longo das 498 páginas do livro: "A prática e a sabedoria chinesas influenciam o modo de organização da República Popular da China. Desde esta perspectiva, sustentamos a hipótese de que a China promove uma mudança gradual do 'sistema socialista com características chinesas' para uma governança chinesa com características socialistas. Invertemos os termos para despertar a reflexão. O 'socialismo' - naquilo que o substantivo possa ser referenciado, na forma e no conteúdo, às teorias e processos políticos do século XX - torna-se adjetivo qualificador do que se pretende ser um modelo de governança próprio e original da China para o século XXI. Há muitos aspectos relativos ao modo de organização política do país que antecedem em centenas de anos a fundação da República Popular da China e são reelaborados para acompanhar os novos tempos. E se o tempo der razão à tese que costura o conteúdo deste livro, estaremos diante de um fato que pode mudar totalmente o rumo dos debates e reflexões sobre a China, sobre o socialismo e sobre o papel deste país no sistema internacional daqui em diante".

Antes de mais nada, duas datas são fundamentais em todo esse processo de rápidas transformações: 1921 e 1949. A estas, uma terceira data pode ser acrescentada. Mas, o que aconteceu nestas datas para elas serem tão importantes? Em 1921, depois da Revolução russa de 1917, ocorre a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCH). Em 1949 ocorre a fundação da República Popular da China (RPC), após a Revolução vitoriosa, liderada por Mao Tsé-Tung. E em 1978, após o fim da chamada Revolução Cultural, a China inicia as reformas que a levaram para o seu atual modelo de governança, de abertura para o mercado mundial e para o que o mundo hoje designa como "Socialismo de mercado" ou "Socialismo para o Século XXI".

E, ainda antes de mais nada, afirmar que o órgão que define estas políticas é o Partido Comunista Chinês (PCCH). É ele que, através de seus Congressos define as políticas a serem efetivadas na República Popular da China. O PCCH é enorme e bem estruturado. Ele consiste em organizações centrais, locais e de base e possui aproximadamente cem milhões de filiados. Todo o capítulo 12 (Páginas 219 a 237) é dedicado à descrição de sua organização. Há ainda outros  oito partidos, órgãos de cooperação e consulta política. São remanescentes do período pré-Revolução de 1949. Não são antagônicos. Bem, mas vamos à estrutura do livro. 

Ele se divide em três partes. Primeira parte: Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; Segunda parte: Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; Terceira parte: O governo de Xi Jinping e a "Nova Era" pela revitalização da China.

Na primeira parte é apresentada a longa história da China, especialmente a sua história moderna de dominações e sofrimentos impostos pelo colonialismo e imperialismo ocidental. Esta história é apresentada ao longo de nove capítulos: 1. Introdução: entre o céu e a terra, as entrelinhas; 2. A continuidade ameaçada: invasões estrangeiras e revoltas internas; 3. A dinastia agonizante e as reformas tardias; 4. A República nascente: o declínio dos conservadores e a ascensão dos reformadores e revolucionários; 5. GMD (Guomindang - burguesia) e PCCH: alianças e disputa pelo destino da nação; 6. A reconquista da independência da nação chinesa pelo Partido Comunista da China (PCCH); 7. A República Popular da China de 1949 a 1976: as contradições na era maoísta; 8. Mao Zedong e Fei Xiaoping: o marxismo e o confucionismo na interpretação da sociedade chinesa; 9. Deng Xiaoping e a nova longa marcha para o auto fortalecimento da China: a conciliação dos antagonismos.

Na segunda parte são apresentadas as instituições básicas que governam a China, os chamados pilares institucionais. São mais nove capítulos: 10. A República Popular de uma Nação-Família; 11. A busca por talentos e virtude na nova burocracia; 12. O Partido Comunista da China; 13 A República Popular da China: a divisão administrativa do Estado chinês; 14. O sistema de Autonomia Étnica Regional; 15. Órgãos centrais do poder do Estado (cinco sub-itens); 16. Sistema de cooperação multipartidária e consulta política (dois sub-itens); 17. Os Partidos não comunistas e a questão democrática na China; 18. A democracia popular de processo integral.

A terceira parte é dedicada a uma análise do governo de Xi Jinping. Tem sete capítulos. 19. Xi Jinping e a Nova Era do Socialismo Chinês; 20. O Sonho Chinês: a revitalização da nação chinesa; 21. A governança baseada na Lei e no Estado de Virtude; 22. A Política Externa de Xi Jinping e a Comunidade Global do Futuro Compartilhado; 23. A iniciativa Cinturão e Rota: uma Nova Rota da Seda para o século XXI; 24. A nova diplomacia chinesa, sabedoria milenar; 25. Conclusão: Uma nova governança chinesa com características para o século XXI.

Desta terceira parte, sublinhei alguns traços que merecem uma reflexão mais cuidadosa. O mundo deve ser governado pela racionalidade ou pela relacionalidade? O mundo é uma mera soma de indivíduos com apregoava a senhora Thatcher, ou o fruto de uma complexa relacionalidade? "O sonho americano, agora é na China", diz um dirigente do PCCH. Mas o que distingue o sonho americano do sonho chinês? O Estado democrático de Direito é suficiente? Ele não necessita também da busca de um Estado de Virtude? Influências cristãs e confucionistas! E um grande questionamento da Racionalidade ocidental do Iluminismo. Chamo uma atenção toda especial para o capítulo 20, onde são apresentadas as características do sonho chinês, um sonho coletivo, sem o submergir do indivíduo.

E uma frase final: "A sabedoria milenar chinesa tem séculos de acúmulo intelectual e prática social, e o modo como os chineses lidam com os problemas e buscam soluções nem sempre é coincidente com aquele com o qual os ocidentais estão acostumados. O relativo desengajamento das potências ocidentais na defesa de um multilateralismo inclusivo reforça a adesão internacional à globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional mais diversificada em diversos aspectos, e, portanto, mais complexa. Compreender a história da China, os mecanismos institucionais de governança no âmbito interno, suas raízes filosóficas e culturais, bem como a nova orientação diplomática do país, será crucial para entendermos este século XXI que tende a ser um século cada vez menos ocidentalizado" (Paginas 467-8). E para a Suzi, um beijo, junto com os meus agradecimentos pelo maravilhoso presente. 

Como eu tenho outras leituras sobre o tema, eu apresento os posts. Nele encontramos análises sobre a China do século XX, sobre a era das guerras civis e estrangeiras, sobre os triunfos de Mao, sobre a Revolução Cultural e sobre as reformas a partir dos anos 1980. Destaque todo especial para o último -China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ATENEU (1888). Raul Pompeia.

O livro da vez - O Ateneu, de Raul Pompeia. Devo dizer que  ainda não tinha lido esse clássico, embora o livro figurasse em uma de minhas estantes. Coisas do tempo em que ainda estava em sala de aula. Fatos mais urgentes e prementes relegavam as leituras, remetendo-as para o futuro. No título do post grifei a data da publicação do livro, o ano de 1888. Uma data significativa de nossa história e de fundamental importância para a compreensão da leitura. Para além do contexto brasileiro, da abolição do regime de escravização e da transição do regime da monarquia para a República, imperava no mundo um espírito de euforia, a ideia, - ainda hoje me lembro de aulas do ano de 1968, dadas pelo inesquecível professor D. Antônio Cheuiche, - do progresso indefinido,  do triunfo da racionalidade, do entendimento humano. Se o passado é marcado pelo progresso, o futuro será a continuidade desse mesmo progresso. Raciocínio perfeito. A realidade nem tanto.

O Ateneu. Raul Pompeia. Penguin & Companhia das Letras. 2013.

Esse progresso seria assegurado, acima de tudo, pela educação. O Ateneu é um livro que fala de educação, ele figura entre os chamados romances de formação. O romance termina em tragédia. Um incêndio consome o educandário. Raul Pompeia é um especialista em caricaturar, exímio no uso de metáforas: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas" (Página 276). Tudo termina num "De profundis". também a vida de Raul Pompeia (1863-1895), aos 32 anos.

A edição da Penguin & Companhia das Letras, que eu li, é primorosa. Ela mantém as 44 ilustrações originais da publicação. Ela tem também duas contextualizações extraordinárias: A introdução - o domínio do sujeito: O Ateneu, de Pedro Meira Monteiro e o posfácio - Sobre as ilustrações d'O Ateneu, de José Paulo Paes. Vou me ater aos seus comentários, nesse post. A primeira das vinhetas é uma espécie de síntese do que iremos ler ao longo livro. Vejamos o comentário de José Paulo Paes:

"Começa a série na primeira página do livro, numa vinheta mostrando Sérgio (narrador e protagonista) e o pai, de costas para o observador, parados diante do portal de entrada do Ateneu; o pai tem a mão protetoramente espalmada nas costas do filho, como que a impeli-lo e a confortá-lo ao mesmo tempo; a legenda da figura é a abertura do romance: 'vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta'"(Página 291). 

E assim continua o comentário: "Daí por diante, Sérgio terá de caminhar sozinho, Dante sem nenhum Virgílio a guiá-lo pelos círculos infernais da vida do internato. A menos que se queira ver tal Virgílio em Rebelo, o colega veterano que aparece ao lado de Sérgio numa das vinhetas do capítulo II, a adverti-lo dos perigos à sua espera: 'Olhe, um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se, [...] os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo'. A vinheta seguinte da série, no capítulo VIII, mostra dois colegas ajoelhados, com o rosto oculto pelo braço dobrado. Trata-se de Tourinho e Cândido, obrigados por Aristarco (o proprietário e diretor do Ateneu) a ajoelharem-se em pleno refeitório, diante de todos os colegas, como 'acólitos da vergonha'. Interceptara o diretor uma carta amorosa assinada "Cândida' e, após rigorosa devassa, apura ter sido escrita por Cândido a Tourinho, marcando um encontro secreto no bosque. Uma frase da página contígua da vinheta serve-lhe à maravilha de legenda: 'Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confrontando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno'" (Página 291-292).

É possível esse caminhar? Ou essa pedagogia tenderia para o malogro. Vejamos outro comentário: "Com isso, a pequena vinheta do capítulo II tem o seu alcance grandemente ampliado, num efeito de eco ou ressonância, passando a servir de índice do próprio malogro da pedagogia do Ateneu e do seu diretor. Contra a hipocrisia dessa pedagogia e desse pedagogo, cujo moralismo palavroso não alcança esconder-lhe a rapacidade de essência, o incêndio final ateado por um dos alunos constitui, tanto quanto os vícios e as abjeções de outros alunos evocados ao longo do livro, um gesto prometeico de rebeldia. Rebeldia da natureza humana, selvagem que seja, mas autêntica, contra tudo que busque falseá-la; revolta da criatura imperfeita contra o criador ainda mais imperfeito do que ela" (Página 290). Ah! a hipocrisia. Ah! a falsidade.

Da introdução sublinhei alguns traços: "O que talvez se possa dizer, para auxiliar a leitura, é que seu autor está todo impregnado do espírito do tempo, e que em 1888, quando O Ateneu vinha a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente das forças que nos ultrapassam? Mas de onde viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza?" (Página 7-8).

O comentarista prossegue: "Um leitor informado verá aí as marcas do século XIX. O pensamento científico, que prevalecera e se multiplicava em inúmeras tendências, pretendi explicar o mundo a partir de um materialismo mais ou menos estrito. Não poucas mentes brilhantes se deixaram seduzir pela ideia de que havia um progresso necessário, inelutável, que nos conduziria a todos, como se o gênero humano fosse o natural portador e combatente da civilização. Evidentemente, no quadro mental que então prevalecia, uns eram mais civilizados que outros e, no limite, caberia ao homem branco carregar às costas o 'fardo' do atraso que se espalhava nas zonas para além do mundo culto, isto é, da Europa com suas luzes. Em sua inflexão imperialista, vemos aqui o princípio expansivo e otimista do progresso, cujas raízes apontam para o Iluminismo do século anterior. Mas o século XIX ofereceria entraves importantes para a seta invencível da civilização" (Página  8).

Dentro desse contexto Pedro Meira Monteiro também volta um olhar sobre o Brasil: "No Brasil, a própria escravidão era a marca do debacle civilizador, nódoa incômoda que razões econômicas justificavam e perpetuavam. O Império brasileiro, nesse sentido, sustentou uma ordem iníqua que a República falharia em consertar. A escravidão está praticamente fora do romance de Raul Pompeia, embora possamos senti-la como uma 'presença ausente', ou como a base inconfessável da riqueza familiar de quase todos os meninos que se ilustram no Ateneu. E como ser otimista com um monstro desses no armário?" (Página 8).

Pedro Meira Monteiro assim termina a sua introdução: "Talvez O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha" (Páginas 18-19).

Raul Pompeia era republicano e abolicionista. Foi, inclusive, amigo do Dr. Luiz Gama. Era fervoroso adepto do Marechal Floriano Peixoto. Seus dissabores lhe abreviaram os sofrimentos da vida. Ah! a educação. Ah! a escola. Ah! os internatos. Ah! a formação do ser humano. Raul Pompeia estudou no colégio Ateneu, ops, desculpem, no colégio Abílio, o colégio da elite do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O romance é profundamente autobiográfico. Uma pequena síntese, na contracapa:

"A inesquecível galeria de tipos humanos imortalizada por Raul Pompeia no microcosmo do Colégio Ateneu constitui o centro deste romance, publicado originalmente em 1888 como folhetim na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e até hoje um marco de nossa prosa.

A partir das memórias do autor como aluno do Colégio Abílio no bairro das Laranjeiras, onde estudou entre 1873 e 1877, o romance narra as experiências de Sérgio, um tímido garoto de onze anos como aluno interno no Colégio Ateneu.

Esta edição de O Ateneu conta com texto introdutório de Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria e História Literária pela Unicamp e professor no Departamento de Espanhol e Português na Universidade Princeton, além de detalhada cronologia biográfica do autor". Um imenso mal- estar.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

ITAPIRANGA. Minha terra. Recorte histórico e memórias. José Nedel.

Recebi do meu irmão Hédio José o belo livro Itapiranga - Minha terra. Recorte histórico e memórias. A autoria é de José Nedel, sem dúvida um dos cidadãos mais ilustres da terra, filho de pioneiros dessa então tão promissora terra. A história nos remete aos idos da década de 1920 para apresentar os seus primeiros registros. Na época havia, no extremo oeste de Santa Catarina, dois portos no rio Uruguai, que formaram os núcleos iniciais da colonização: o Porto Feliz, atual Mondaí (10.066 hab.) e o Porto Novo, atual Itapiranga (16.638 hab. censo IBGE - 2022). Essa colonização foi uma extensão da colonização alemã do Rio Grande do Sul, iniciada em 1824. O tema remonta às minhas origens, à minha formação primeira em Harmonia e depois continuada em Bom Princípio, Gravataí e Viamão. 

Itapiranga. Minha terra. Recorte histórico e Memórias. José Nedel. Oikos.

A história da colonização alemã é bastante conhecida. Os primeiros colonos se estabeleceram em São Leopoldo e São José do Hortêncio, expandindo-se depois pelos vales dos rios dos Sinos, Caí, Taquari e Pardo. As famílias foram se multiplicando e novas frentes de colonização foram sendo abertas. Isso se transformou em uma necessidade. As famílias eram muito numerosas. Cito o exemplo dos meus avós. A família dos avós paternos teve nove filhos e a dos avós maternos quatorze. Alguns dos seus filhos, meus tios, estão nessa saga de pioneiros em Itapiranga. Meu irmão foi para essa região nos anos 1950, como professor. Passou por Palmitos, Linha Catres e Cambucica. Hoje mora em Mondaí.

A história do autor, José Nedel, é bastante semelhante a minha. A diferença é que meus pais ficaram nas chamadas colônias velhas, Harmonia no caso, e os dele, foram para Itapiranga, emigrados da região de Nova Petrópolis. Ele é mais velho do que eu. Nasceu em 1934 e eu em 1945. A semelhança entre nós se deu pela ida ao seminário. Ele, com os jesuítas, em Salvador do Sul e eu com os seculares, em Bom Princípio. A semelhança se dá também pelo exercício da função de professor. José Nedel, além de professor, foi também juiz de direito no Rio Grande do Sul. Mas essa história, a de juiz, ele não conta nesse livro. A diferença é a de que,  enquanto eu me estabelecia no Paraná, ele voltou ao Rio Grande do Sul.

Mas vamos ao livro. Ele é maravilho e, como se trata de recortes históricos e de memórias, ele é de leitura fácil e agradável. Adotou uma narrativa num estilo jornalístico, fugindo do academicismo. Ele consta de apresentação, cinco capítulos, considerações finais e preciosas referências bibliográficas. Os cinco capítulos tem os seguintes títulos: I. Aspectos da ação dos jesuítas no sul; II. Porto Novo - Itapiranga: Do início à emancipação política; III. Itapiranga: autonomia e desenvolvimento; IV. Linha Jaboticaba: Paulo e Catarina Nedel pioneiros; V. Memórias pessoais: tópicos seletos. Os três primeiros capítulos remetem à história, enquanto que os dois últimos à crônica familiar e pessoal.

Para mim, o capítulo de maior interesse foi o primeiro. Confesso que me senti um tanto jesuíta, tal foi a sua influência em minha formação, embora eu tenha ido para o seminário dos padres seculares e o padre Oscar Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos, também fosse um padre secular, mas de formação jesuítica.

José Nedel nos oferece um panorama sobre a ordem dos padres jesuítas, desde a sua fundação em 1534, sua vinda e expulsão do Brasil, o seu retorno em 1842, as suas intensas atividades no sul do Brasil, a fundação dos colégios, até hoje colégios de formação de elite. O aspecto mais interessante do capítulo é a sua forma de atuação, sempre interligando a igreja com a escola. Como, com a República, o Brasil se tornou um país laico, as paróquias se encarregaram da criação de escolas paroquiais, sob o seu comando. No início dos anos 1950, foi numa dessas escolas que eu fui alfabetizado. As paróquias tinham também a seu encargo a organização da vida da comunidade. O termo Verein se tornou onipresente: Lehrerverein, Bauersverein, Volksverein. Dessas instituições, o Volksverein se tornou a instituição mais interessante. Ela preservou a língua alemã (foi ela a minha primeira língua), os costumes e impulsionou a formação de novas colônias, tendo o cuidado de mantê-las sob a influência alemã e católica. Itapiranga é um exemplo dessa colonização.

Da organização da vida comunitária e a unidade em sua manutenção eu teria dois destaques a fazer. As colônias se intercomunicavam através de dois veículos de comunicação, praticamente presentes em todas as comunidades. O St. Paulus Blatt e o anuário Ignatius Kalender, escritos em alemão. Creio que o St. Paulus Blatt continua circulando até os dias de hoje. Ele foi um importante veículo de propaganda da colonização de Porto Novo - Itapiranga. O outro aspecto é o da organização cooperativa, especialmente no setor financeiro. A poupança dos colonos, depositada nas Sparkasse, financiavam especialmente os novos casais que vinham se formando, ajudando-os, especialmente na aquisição de um pedaço de terras. Nesse setor teve grande destaque o padre Theodor Amstad. Essa forma de crédito deu origem as atuais cooperativas de crédito como a Sicredi e a Sicoob. A Sicredi, em Linha Imperial (Nova Petrópolis e a Sicoob, em Itapiranga. Vejam bem que o espírito cooperativo acompanhou os colonos em sua migração para o extremo oeste catarinense. Sobre esse tema também tenho a recomendação de um interessante livro, do qual eu ofereço uma resenha. Trata-se de A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

O segundo capítulo nos leva ao extremo oeste de Santa Catarina, ao Porto Novo, hoje Itapiranga. Como vimos, a sua colonização é uma extensão da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Após cem anos, ela precisava de uma expansão. O St. Paulus Blatt se encarregou da propaganda da nova terra prometida. A narrativa passa pela organização das empresas colonizadoras, das possibilidades econômicas oferecidas e das dificuldades encontradas. O rio Uruguai garantia o fluxo das riquezas. Ganham destaque na narrativa as famílias dos pioneiros e a presença dos padres jesuítas que vivamente acompanharam os colonos em seu processo migratório. Esse núcleo pioneiro fez surgir três municípios: Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis. O grande destaque desse capítulo é o da atuação do Volksverein, em todo esse processo e no espírito da preservação do germanismo e do catolicismo. O germanismo ocasionou sérios problemas no entorno da Segunda Guerra Mundial. Nos mesmos moldes, só que sob o comando dos luteranos, alguns anos antes houve a colonização do Porto Feliz, atual Mondaí. Também tenho a resenha de dois livros sobre o tema. Os livros também me foram remetidos pelo meu irmão.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/08/porto-feliz-mondai-o-centenario-da.html

No terceiro capítulo já adentramos na segunda metade do século XX. O foco está no desenvolvimento da região. Os antigos lugarejos agora se transformam em municípios, desmembrados de Chapecó, o grande município mãe. O desenvolvimento ocorre com a abertura de estradas, com a chegada da energia elétrica, do saneamento básico, de estabelecimentos educacionais, comerciais e industriais. A presença do Estado se tornou efetivamente presente: CELESC, TELESC... Também o espírito cooperativo se fez presente. E, ao que parece, em meio a isso, tem uma história um tanto complicada. A da cooperativa SAFRITA - agropecuária, que ainda hoje existe, sob o domínio da JBS, me informa uma consulta Google. O espírito do cooperativismo creditício se fez presente com a Creditapiranga, raiz da atual SICOOB.

O quarto capítulo é dedicado à família do autor. Paulo e Catarina Nedel são os pioneiros, que se estabeleceram na Linha Jaboticaba, hoje pertencente ao município de São João do Oeste. Nesse capítulo, meu irmão sublinhou dois nomes que adquiram lotes na referida colônia: Pedro Rech e Arnoldo Fridolino Reichert. Reichert é o sobrenome de minha mãe, de quem Arnoldo Fridolino era irmão. me lembro vagamente de uma visita sua, numa de suas vindas para Harmonia. Não tenho lembranças de Pedro Rech. Meu irmão os visitava constantemente.

O quinto capítulo é de foro particular do autor, suas memórias pessoais. Foi aí que estabeleci muitas de suas memórias com as minhas, especialmente a vida de seminaristas. O seminário foi o grande elemento constituidor de nossas vidas. Acima de tudo, ele nos deu uma sólida formação humanística e nos fez portadores de virtudes que felizmente preservamos. Também numa rápida consulta ao Google, vi que José Nedel faleceu no dia 14 de junho de 2025, e que ainda em seus tempos derradeiros manteve intensa produção cultural. O presente livro é um exemplo disso. A sua edição é do ano de 2025.

Recomendo ainda as ricas indicações bibliográficas, que interessam a todos os que tem interesse na colonização alemã no Rio Grande do Sul, que 2024 festejou o seu bicentenário. Dessa bibliografia me chamou especial atenção um livro sobre esse bicentenário. Trata-se de Duzentos anos de imigração alemã: flagrantes - de autoria de Arthur Blásio Rambo. Editora Oikos, 2023. A essa bibliografia eu tenho um acréscimo a fazer. Uma indicação de Antônio Cândido sobre a colonização alemã. A aculturação dos alemães no Brasil - de Emílio Willens, da Companhia Editora Nacional, 1980. Tenho uma resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-aculturacao-dos-alemaes-no-brasil.html

E como essas leituras me provocam um enorme saudosismo também deixo um post do blog sobre Harmonia, a minha querida terrinha natal. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/11/tributo-harmonia-i-terra-em-que-eu-nasci.html