terça-feira, 29 de agosto de 2017

Lima Barreto - Triste visionário.

Em minha vida acadêmica sempre ouvi dizer que a grande referência em termos de biografia é a de Trotski, em três volumes, escrita por Isaac Deutscher. Efetivamente ela é extraordinária. Além do mais, o personagem armado, desarmado e banido também ajuda com a sua agitada e densa vida. Agora, com o lançamento de Lima Barreto - Triste visionário, de Lilia Moritz Schwarcz, creio que temos uma nova grande referência.
Em matéria de biografia, seguramente o livro do ano. Lima Barreto, para compreender o Brasil.

A biografia não tem os três volumes de Deutscher. É condensado em um só, mas de 645 páginas, 511 de texto e 134 de notas e com uma - quase necessidade de lupa. Quanto ao biografado, ele também colaborou com as desventuras, desencontros e as marcas de sua vida, devidamente registradas em sua obra. Os seus escritos são o seu retrato. Ele escreveu à clef, termo que aprendi com esta leitura. Este escrever à clef  foi também a maior crítica que o escritor recebeu quanto à sua obra. Lima Barreto teve vida breve. Nasceu em 1881 e morreu em 1922, ano do centenário da independência e da realização da semana de arte moderna.

O autor de Policarpo Quaresma foi testemunha de muitos fatos. Quando menino, seu pai o levou ao Paço para assistir a cerimônia da abolição, bem como, alguns dias depois, à missa comemorativa ao ato. Viveu sob o impacto de fatos históricos como a Proclamação da nada republicana República, da Revolta da Armada de 1893, de Canudos e de suas consequências, bem como os impactos mais distantes - da Primeira Guerra, dos Tratados de Paz e da Revolução comunista na Rússia em1917. Quanto a literatura, viveu um "entre". Entre os naturalistas e realistas e os modernos que chegavam, enquanto ele se despedia do mundo. 

Ele viveu a literatura de seu tempo e teve convivência diária com os literatos que retratou. Alguns cordialmente, outros criticamente e a outros ainda, procurou desmontar. Teve muitos desafetos. Os literatos da época pouco viviam da literatura. Os bem sucedidos eram embaixadores e os não tão bem nascidos, os de cor azeitonada, como ele descrevia a sua, tinham que se contentar com funções burocráticas menores. Ele mesmo era um amanuense, vivendo nas entranhas burocráticas do Ministério da Guerra, onde a sua enorme capacidade criativa era entravada. Até parece uma sina dos grandes escritores.

Por que um triste visionário? Como qualquer ser humano que minimamente compreende o seu estar no mundo, ele teve desejos de ascensão social e reconhecimento profissional. Mas a cor da pele era o impedimento. Esta pele azeitonada é presença constante em sua obra. Ele a sofreu. Em Isaías Caminha e Clara dos Anjos ela está mais presente. Estes personagens são o próprio Lima. Ele teve formação esmerada. A mãe era professora e o pai tipógrafo e contava com padrinho. Estava destinado a ser doutor e fez o mais difícil, que era chegar ao ensino superior. Ingressou na Escola Politécnica, no curso de engenharia, mas segundo ele, felizmente, não se formou. Comparando com Machado de Assis, a sua formação escolar foi muito superior. Machado foi mais autodidata.

Precocemente perdeu a mãe. O pai sempre foi tudo em sua vida. No aspecto positivo ele não mediu esforços em sua formação. Já negativamente, ele ficou sob seus cuidados em seu longo tempo de loucura necessitando sempre de cuidados especiais. O livro de Lilia tem 17 capítulos, introdução e uma quase conclusão. O livro além de biografia é também um ensaio sobre a sua obra. A introdução é muito simbólica: Criatura e criador. Apresento o título dos capítulos e depois faço algum destaque:

1. O casal Barreto: quando educação parece sinônimo de emancipação; 2. Vira mundo, o mundo virou: a doença de Amália (a mãe), a ascensão e a queda de João Henriques (o pai); 3. Vivendo nas colônias de Alienados da Ilha do Governador; 4. Experimentando a vida de estudante: o curso da politécnica; 5. Arrimo de família: como ser funcionário público na Primeira República; 6. Central do Brasil: uma linha simbólica que separa e une subúrbios e centro; 7. Floreal: uma revista "do contra"; 8. O jornalismo como ficção: Recordações do escrivão Isaías Caminha; 9. Política de e entre doutores; 10. Bebida, boemia e desânimo: a primeira internação; 11. Cartada forte e visionária: fazendo crônicas, contos e virando Triste fim de Policarpo Quaresma; 12. Limana: a biblioteca do Lima; 13. Um libertário anarquista: solidariedade é a palavra; 14. Literatura sem "toilette gramatical" ou "brindes de sobremesa": a segunda internação; 15. Clara dos Anjos e as cores de Lima; 16. Lima entre os modernos; 17. Triste fim de Lima Barreto.

Dos dados biográficos destacaria o esforço dos pais em sua formação escolar e um apadrinhamento político, mas acima de tudo, a questão da cor, de uma abolição nunca metabolizada. A abordagem da questão racial, seguramente é dos pontos mais brilhantes do livro. As teorias científicas do atraso e da impossibilidade de desenvolvimento do país como determinismo oriundo da raça negra, e pior, da miscigenação. Teorias mundiais e nacionais (Nina Rodrigues) nos teriam predestinado ao fracasso.  No que isso pode ter contribuído na psique do pai e da sua?

Quanto à literatura, o título da introdução é um belo resumo. A sua literatura é um reflexo, uma exteriorização de seus problemas e de suas angústias existenciais. Desejo de ascensão, recusa dos padrões estabelecidos, crítica aos bem sucedidos e, ao mesmo tempo, o desejo do sucesso (Ingresso na ABL) e acima de tudo, o reconhecimento de sua obra que em termos de venda, nunca ocorreu. No entanto, foi muito percebido pela crítica. Era um leitor assíduo dos clássicos franceses e russos. Eles frequentavam a sua biblioteca, uma biblioteca de quase oitocentos volumes. Era a Limana, a mana de Lima, na disjunção da palavra.

Em seu Diário Íntimo, Lima Barreto escreveu: "A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori". Esta era a sua dor existencial, o seu impedimento. E este, ele procurou afogar na bebida. Ela já esteve presente na vida do pai e, em maior volume, na sua.  Bebia na mesma medida com que escrevia. Sofreu duas internações, que também viraram livro: Diário do hospício e O cemitério dos vivos. A bebida o levou a uma vida de dificuldades e a uma morte precoce e, de imediato, lhe mereceu mais juízos morais do que a sua obra. 

Lima Barreto hostilizou muita gente e isso gerou incompatibilidades e, de imediato, um relativo esquecimento, tanto dele, quanto de sua obra. Ao final dos anos 1940 despertou a atenção de Francisco de Assis Barbosa, que escreveu a sua primeira grande biografia (1952). Mas não foi só isso. Fez também a reedição de sua obra, com notáveis prefaciadores (1956), entre eles Tristão de Ataíde, Sérgio Buarque de Holanda, Lúcia Miguel Pereira, Gilberto Freyre, Antônio Houaiss, entre outros. E neste ano de 2017 Lima Barreto foi o homenageado especial da maior Feira Literária do país, a Feira Literária Internacional de Paraty. Embora tardio, reconhecimento.

Quanto a Lilia Schwarcz, a autora, o que dizer. Foram dez anos de pesquisa e dedicação. Ela é suficientemente conhecida para lhe fazer loas. Mas o seu conhecimento e a sua capacidade de estabelecer conexões e contextualizações é extraordinária. O livro é uma preciosa radiografia dos primeiros anos de uma República, que até hoje insiste em não ser republicana. Deixo apenas um exemplo da vasta erudição de Lilia, quando ao final do livro ela traça um paralelo entre a Limana de Lima com a biblioteca de Peter Kien, do Auto de fé, de Elias Canetti. 

Se eu tiver alguma credibilidade para fazer uma recomendação de leitura, eu a faço, com a indicação de Lima Barreto - Triste visionário. Faço também uma pequena advertência: é um livro para leitores. Enquanto não terminei a sua leitura, não consegui me desgrudar do livro.

domingo, 20 de agosto de 2017

O significado perverso da fórmula 16 + 49 = 65.

O golpe parlamentar, midiático e jurídico de 2016 já completou o seu primeiro aniversário. Já entendemos a sua finalidade e sentimos os seus efeitos, os seus malévolos efeitos. A perversidade dos golpistas não tem limites. Noções de Pátria, de construção de nação autônoma, de país que busca ser justo e desenvolvido e que almeja cidadania, foram abolidas e trocadas pela impiedosa lógica do mercado. Neste mercado há poucos vencedores e muitos perdedores. Sob a Pátria, o pai comum, os perdedores seriam acolhidos. Haveria um país para todos. Sob o mercado, a lógica da exclusão passa a imperar. Além disso, são ainda culpabilizados pelos seus fracassos, pela auto indulgente ideologia da meritocracia, propagada por uma elite sórdida.
 A imagem espelho do golpista.



Golpes no Brasil não são novidade. A abolição não foi assimilada e o espírito bandeirante predomina. De 1988 a 2016 vivemos a nossa mais longa experiência democrática. Antes - de 1930, quando o Estado brasileiro começa a se constituir, a 1984 vivemos sob duas longas ditaduras e uma tentativa de golpe a cada três anos. É interessante observar como foram tratados e que fim levaram os governantes mais populares deste país. Qual foi o destino de Getúlio, de Juscelino e de Jango? Qual será o destino de Lula e de Dilma? 

É difícil falar em cidadania no país que pratica as mais altas taxas de juros do mundo e que é campeão em desigualdades entre os países de economia significativa. Mas, sem grandes esforços, poderíamos nominar quatro fatores que ao menos a iniciaram: a educação, mesmo com todos os seus problemas; a junção de todas as leis trabalhistas em sistema, a CLT; e outros dois fatores que vieram com a Constituição de 1988: a Previdência Social e a universalização da Saúde, o SUS. Ambos figuram no capítulo da Seguridade Social que teria, a exemplo dos países desenvolvidos, financiamento tripartite: Estado, empresários e trabalhadores.

A que veio o golpe? Vejamos as ações sistemáticas do governo golpista, já tomadas e as que estão por vir. Todas apontam para a destruição de nossa incipiente cidadania e estão envolvidas, num sequestro de linguagem, sob a bela palavra - reformas. Alteração da legislação trabalhista que significa o fim da CLT, a reforma do ensino médio (observem o primeiro número da fórmula - 16), a reforma da previdência que praticamente a extinguirá e o fim gradativo do sistema SUS. Tudo isso em meio a um festival de abundância perdulária para os poderes legislativo e judiciário e, em meio a primeira denúncia da história republicana, de envolvimento de um presidente em atos de corrupção. Tudo devidamente registrado sem, no entanto, gerarem provas, de acordo com a subjetividade dos juízes. Quando o Direito é exercido por padrões subjetivos de julgamento é porque já vivemos em um estado de exceção em sua plenitude. É visível uma oposição entre as instituições e o povo em seus direitos.

Poderia eleger várias imagens ou símbolos para expressar o desalentador momento da nossa ainda jovem democracia. O primeiro seria uma expressão encontrada no livro A armadilha da globalização - o assalto à democracia e ao bem-estar, dos sociais democratas alemães Martin & Schuman, a imagem da "Sociedade 20 por 80, ou seja, 20% das pessoas incluídas no mercado e com empregos estáveis e 80% de excluídos, a serem acolhidos pelo Comunidade Solidária (lembram deste Ministério no governo FHC), ou pela caridade cristã, que pode gerar bons sentimentos mas não universaliza o atendimento às necessidades geradas pelos direitos.
Poderia também lembrar a tentativa de diminuir o valor real do salário mínimo para 2018 em R$ 10,00, na contrapartida de treze anos de sua valorização contínua. Esta medida está sendo proposta em nome da "austeridade" ou da "responsabilidade fiscal". O seu impacto social e mesmo econômico, de uma economia em contração, empobrecerá ainda mais aqueles que o recebem. A economia que ele pode representar será a sua transferência para promover ainda maior desigualdade. Isso me faz lembrar uma frase de Márcia Tiburi, de que o sistema capitalista só é democrático na "partilha da miséria".

Mas creio que a fórmula que melhor representa a perversidade do governo golpista é a fórmula enunciada no título: 16 + 49 = 65. Ela está contida no projeto da Reforma da Previdência enviada pelo Executivo ao Legislativo e reza que, se a pessoa ingressar no mercado de trabalho aos 16 anos (adeus universidade) e ficar trabalhando formalmente por 49 anos, anotem, formalmente, ela poderá se aposentar com o salário integral quando completar a idade de 65 anos. Sobre as consequências sugiro uma olhada nos estudos do professor Eduardo Fagnani, da Unicamp. Já as conclusões ficam a cargo de sua reflexão. E o país vive um silêncio anestesiante e ensurdecedor.

domingo, 13 de agosto de 2017

Um milhão por dia. Uma história oriental.

Já encontrei muitos libelos contra o dinheiro, especialmente quando ele se torna fim em si e provoca os desejos de acumulação e não de seu usufruto diário para suprir as necessidades. Lembro de uma passagem em especial, quando Shakespeare, no Timão de Atenas, solta impropérios contra o vil metal, rameira da humanidade. Isto nos é contado nos Manuscritos econômico filosóficos de Marx. Também lembro da bela história da lenda da índia Teiniaguá ou da Salamanca do Jarau, imortalizada na obra de Érico Veríssimo, sobre a não acumulação do dinheiro. Um dia eu a conto.
Num livro tão polêmico, uma história tão singela. É que falamos dos Estados Unidos.


Mas hoje vou transcrever uma história de um livro polêmico e sisudo, A ilusão americana, de Eduardo Prado. Foi o primeiro livro censurado e apreendido na República. Foi publicado em 1893 e teve apenas uma hora de livre circulação. Como é um livro que fala sobre os Estados Unidos, as palavras ganância e acumulação fluem facilmente. Mas vamos a ela, à historinha.

"Há uma história oriental - do homem a quem o destino deu um milhão por dia com a condição de o homem gastá-lo todo no tempo compreendido entre duas auroras.

A falta de cumprimento desta condição era a morte do infeliz. Prazeres, gozos, prodigalidades, tudo isto bastou, nos primeiros dias, para consumir o milhão diário.  Em pouco tempo veio a fadiga, o esgotamento e debalde trabalhava a imaginação do homem para achar o meio de esvaziar os últimos sacos de ouro que ainda estavam cheios quando já alvorecia a aurora do outro dia. Apareceu o Anjo da Morte e anunciou ao desgraçado o seu fim. Lamentou-se o homem: Não consegui gastar o meu milhão! E o anjo da morte respondeu-lhe: - É que tu esqueceste o único meio que havia para isso! - Qual era? - Fazer o bem"!

Como esta história tem o caráter de uma fábula, com os seus inevitáveis fins morais, deixo a conclusão para a reflexão de cada um. Mas não deixa de ser uma bela resposta quando alguém te pergunta sobre o que você faria com o dinheiro se você ganhasse uma soma fabulosa em um prêmio de loteria.

O livro é um libelo contra o imperialismo dos Estados Unidos e a sua ação econômica, diplomática, intelectual e moral sobre a América Latina em geral e sobre o Brasil, em particular.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Ilusão Americana. Eduardo Prado.

Este é um livro bem datado e também de muitas peculiaridades. O autor assina as suas conclusões no dia 7 de novembro de 1893 e já no dia 4 de dezembro do mesmo ano ele chega às livrarias, onde fica exposto apenas por uma única hora. Na capa da quinta edição de 1980 (Ibrasa) tem uma tarjeta publicitária com os seguintes dizeres: O primeiro livro apreendido pela polícia, na república. Creio que observaram bem o título. A Ilusão Americana. A autoria é de Eduardo Prado. A tarjeta publicitária da capa continua: Um livro para ser lido à luz dos acontecimentos históricos.


Quero também me vangloriar, porque recebi esta indicação de leitura através de Lima Barreto. Calma, eu ainda não enlouqueci. Eu sei que Lima Barreto morreu em 1922. Acontece que em um livro que reúne crônicas suas, publicadas na imprensa entre os anos de 1918 e 1922, em coletânea reunida pela Editora Expressão Popular sob o título A crônica militante, o autor faz referências a este livro. Facilmente o localizei na Estante Virtual. E como valeu a pena.

O tema do livro, como o título nos indica, trata dos Estados Unidos, da América Latina e dos Estados Unidos do Brasil. Este era o nome do Brasil, após a proclamação da República, numa espécie de agrado àquele país do norte. A ilusão é nossa, latina americana e brasileira, com relação a política externa dos Estados Unidos. Creio que a melhor resenha que eu posso fazer é usar o próprio autor. Tomo três parágrafos de seu capítulo V, uma espécie de conclusão. Diz ele:

-"Que a história da política internacional dos Estados Unidos não demonstra por parte daquele país, benevolência alguma para conosco ou para com qualquer república latino-americana; 

- Que todas as vezes que tem o Brasil estado em contato com os Estados Unidos tem tido outras tantas ocasiões para se convencer de que a amizade americana (amizade unilateral e que, aliás, só nós apregoamos) é nula quando não é interesseira. - Que a influência moral daquele país, sobre o nosso, tem sido perniciosa" (O destaque é meu). Já aproveitando, - os tópicos analisados se relacionam com a diplomacia, a economia, além da ordem moral e intelectual.

Quanto ao Brasil, as principais questões estão ligadas ao apoio americano a Solano Lopes na guerra do Paraguai, pelo fomento do tráfico negreiro (em 1849 o presidente Taylor dizia: "Não se pode negar que este tráfico é feito por navios construídos nos Estados Unidos, pertencentes a americanos e tripulados e comandados por americanos"), pelo retardamento da proclamação da abolição e antes de tudo isso, o tardio reconhecimento da nossa independência. Os Estados Unidos foram o último país a fazê-lo, apesar do princípio da Doutrina Monroe, de 1823.

Quanto a América Latina estão contadas as histórias do México, da América Central, da Colômbia e da Venezuela e de modo particular os conflitos que envolvem a Bolívia, o Chile e o Peru. Fiquei impressionado com a riqueza que o guano representou para o Peru e os nitratos do deserto de Atacama para o Chile. Busco uma frase do autor que representa o espírito da força imperialista dos Estados Unidos, por parte do sr. Blaine secretário de Estado do presidente Garfield, presidente assassinado após poucos meses de governo, de março a setembro de 1881. Assim Eduardo Prado se expressa.

"Ele imaginava a águia americana pairando, de polo a polo, com as asas poderosas expandidas. A águia simbólica ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra, como acredita a ingenuidade de alguns sul-americanos. Ele queria que ela dominasse, que o seu olhar perscrutasse as solidões geladas do polo, os vales profundos dos Andes, as planuras do Amazonas, a vastidão dos pampas e o infinito dos mares. Ele queria que o bico adunco daquele pássaro apocalíptico rasgasse os inimigos, e que as garras colossais se apoderassem de todo o continente de Colombo. Blaine no poder, era uma ameaça para toda a América".

Deixo ainda uma advertência com relação a autonomia dos países,  deixada por George Washington, o Pai maior da Pátria, em sua mensagem de adeus. "Deveis sempre ter em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra, e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde com uma parte de sua independência. Não pode haver maior erro do que esperar favores reais de uma nação a outra".

É impossível terminar este post sem falar de Eduardo Prado. Ele era um fervoroso monarquista e não se conforma com o fato de os Estados Unidos terem se constituído, com a sua independência, numa república. Quanto ao Brasil, também encontrava na república as mazelas de nossa subserviência. Tem interessantes observações sobre as monarquias e a sua relação com as questões sociais. Um livro absolutamente polêmico e instigante. Por isso mesmo, abri o post alertando que o livro, para ser lido, precisa ser datado e, agora acrescento este dado, de que o autor também precisa ser contextualizado.

Ainda deixo uma questão que se aplica ao Brasil de hoje. A questão da traição dos vices, no regime presidencialista. É Temer. É Maia. Vejam o que diz o autor: "Diz-se que os príncipes herdeiros são em geral os chefes da oposição. Nas repúblicas, o vice-presidente é o inimigo natural do presidente efetivo. Quem é o segundo é sempre contra quem é primeiro. Nas repúblicas sul-americanas, o vice-presidente acaba, quase sempre, conspirando contra o presidente, muitas vezes depondo-o..."

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

LER - COMPARTILHAR. Cláudia de Arruda Campos. Crônica militante.



Este é um dos textos que marca. A vontade de compartilhar. É aquela vontade de que mais gente leia aquilo que eu estou lendo. É um maravilhamento diante da leitura. É um forte fator de humanização. É um remédio contra a solidão. Terminaria dizendo que compartilhar leituras é uma espécie de dever ético. Este texto só poderia ser encontrado mesmo, num livro de abertura de crônica militante e de Lima Barreto. Que autor fantástico e comprometido com os seus.

A leitura também é remédio contra a timidez e ajuda a espantar a solidão, como nos diz Albert Jacquard em seu maravilhoso Filosofia para não filósofos: "Eu era certamente tímido, incapaz de me expressar, persuadido de que cada palavra pronunciada por mim seria falsa, obstruída pelo meu corpo, procurando refúgio na solidão, ao mesmo tempo que a achava dolorosa. Mas tive a sorte de povoar essa solidão com todos os autores encontrados nas prateleiras das biblioteca e que foram bastante amáveis comigo; nunca zombaram de mim, levaram-me a desejar contato com os seres de carne e osso, que são mais inquietantes, embora muito mais atraentes do que aqueles de quem só restam as palavras". E imaginar que Alberto Manguel lia para Borges, quando este foi atingido pela cegueira... Mas vamos ao brilhante texto de Cláudia de Arruda Campos.
Este livro tem duas apresentações que condizem com o livro. Ler - compartilhar e o que é uma crônica.
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Uma pessoa, um livro, o silêncio - esta é uma imagem clássica da leitura. Há séculos nossos olhos percorrem os textos sem que externamente nenhum som se manifeste. Mas no íntimo de quem lê, e no entorno da leitura, muitas vozes sussurram. A primeira de natureza física, é a do próprio leitor, que ouve internamente aquilo que lê em aparente silêncio.

Outras vozes, cuja presença nem sempre percebemos durante a leitura, são aquelas do diálogo constante entre o que diz o texto e as experiências do leitor: experiências de vida e de leitura. Se essa conversa falha ou empaca, empaca a leitura. Ou desistimos imediatamente do texto, achando que ele nada tem a ver com a gente, ou nos interrogamos: o que isso quer dizer? Se a dúvida for de alguma forma resolvida, se encontrarmos a ponte entre a informação nova e aquilo que somos ou aquilo que já sabemos, o contato prossegue.

Mais vozes: aquelas que nos levaram a determinado texto. Chegamos a uma obra por alguma referência: alguém nos falou dela; tínhamos lido algo a seu respeito, a respeito do autor, do tema, do personagem, do contexto cultural, histórico; ou apenas havíamos dado uma passada de olhos em algum trecho, ou na capa, e fomos chamados para dentro do livro.

Muitas vezes, leitura feita, a nossa voz se externa: temos o desejo de comentar com alguém. Como a pedra jogada na água, os círculos se expandem, ondas de vozes, levando e trazendo novas leituras.

Promover leitura passa por ajudar a perceber essas vozes e colocá-las em ação. Para isso pode haver bons exercícios, mas nada que supere nem dispense a única "técnica" imprescindível - o compartilhar. E esse compartilhamento pode se dar de várias formas, do comentário e sugestão de leituras até o ler com, ler junto, e mesmo o ler para alguém se, por algum motivo, essa pessoa não pode decifrar a letra ou as vozes do texto.

Ler com. Algumas imagens de leitura, que não a do isolamento, aparecem em quadros e gravuras antigas: duas pessoas leem juntas o mesmo livro. E essas imagens não passam a ideia de compartilhamento forçado, mas de calorosa intimidade. Duas ou mais pessoas lendo o mesmo texto, ainda que cada uma tenha seu próprio exemplar em mãos, parece esbater a frieza ou insegurança de que alguns se ressentem na leitura inteiramente individualizada. Ler, interromper, comentar, perguntar, rir ou se emocionar em companhia podem ser meios estimulantes para o melhor aproveitamento, seja de um texto envolvente, seja de um texto que requisite maior esforço.

Ler para. Outras imagens reforçam a ideia de compartilhamento: um adulto lê, ou conta histórias para a criança pequena; um círculo de pessoas, olhos e ouvidos ávidos dirigidos a um contador de histórias. As duas situações relacionam-se, geralmente, a estágios em que não se tem ainda acesso aos mistérios da escrita e nos quais a transmissão tem que se fazer pela oralidade.  Embora presas a um tempo superado, ou a ser superado para se chegar à leitura, essas situações têm alguma coisa a nos sugerir. O encantamento do ouvir pode, em certas situações, estimular o ler. Explica-se: a história narrada, o poema declamado, o discurso proferido, a aula, todas essas modalidades baseadas na comunicação oral, permitem que se vá processando a apropriação de formas, estruturas, tons, o reconhecimento de assuntos e gêneros. Isso é importante para que o leitor (ou futuro leitor) vá adquirindo segurança, sentindo pisar num terreno que não é inteiramente desconhecido. Daí talvez o fato de que a leitura em voz alta permita uma maior compreensão de um trecho mais difícil. O som das palavras nos torna familiar aquele mundo que nos é transmitido.

Qualquer das vozes que acompanham a leitura só se fixa em nós se a ouvimos e distinguimos verdadeiramente. Isso demanda tempo e atenção, que são sempre variáveis: cada leitor, assim como cada texto, tem um ritmo próprio. Promover leitura entendendo-a como um compartilhamento pressupõe o respeito pelos ritmos e a aceitação dos vários movimentos que ocorrem nessa prática, tais como divagar e voltar ao texto; perguntar-se e resolver; voltar atrás e reler; interromper e continuar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O que é uma crônica? Zenir Campos Reis.

A editora Expressão Popular fez uma bela edição de uma série de crônicas de Lima Barreto. A maioria delas foi escrita entre os anos de 1918 e 1922. Elas são um perfeito retrato do que era o mundo, dominado em sua conjuntura internacional pelo fim da primeira grande guerra e da Revolução Russa de 1917. Já no Brasil cresciam as insatisfações com a vetusta República Velha e as manifestações do novo, em torno da formação de uma nação brasileira, mesmo com todos os seus problemas. Muitas dessas crônicas já faziam parte de uma seleção, feita pelo próprio Lima Barreto e publicadas no livro Bagatelas.

Já que o livro consta de uma seleção de crônicas, na sua apresentação existe uma bela conceituação sobre o que é uma crônica. Achei muito ilustrativa e por isso resolvi transcrevê-la. A autoria é de Zenir Campos Reis.
A coletânea de crônicas. Uma coletânea temática. A militância política.

Crônica

Na acepção rigorosa do termo, "crônica" não pertence a um gênero literário. Desse modo, buscar enquadramento preciso entre os gêneros tradicionais parece improdutivo. Os escritos atualmente conhecidos como crônicas podem apresentar-se como narrativas curtas, como fragmentos dramáticos, dialogados, como comentários gerados a partir de um fato qualquer sugerido pelo noticiário do momento. Podem fingir uma carta, ou expressar-se de maneira subjetiva, lírica, vizinha do poema, em prosa ou verso.

Na advertência escrita para a coletânea Bagatelas, datada de 13 de agosto de 1918, Lima Barreto observa que o livro era "composto de artigos de várias naturezas e que podem merecer várias classificações, inclusive a de não classificáveis..."

"Crônica" é o apelido mais genérico para nomear o escrito em que o "tempo" (Chronos em grego) fornece a matéria bruta. Entre os termos afins encontramos os diários, anais, comentários, fastos, memórias, relações, anedotas, biografias. A sugestão consta do útil e esquecido Dicionário dos sinônimos da língua portuguesa (Lisboa: Aillaud e Bertrand, s.d., "Introdução" de janeiro de 1848).

Em "mãos dadas", Carlos Drummond de Andrade declara: "o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes. // a vida presente", sincronizado com o seu momento, conflituoso, tenso, exigente do empenho de cada cidadão responsável.  O poeta se nutre da mesma matéria bruta do cronista, para elevá-la ao patamar da palavra artística.

O tempo, na definição de Alain (nome literário do filósofo e educador francês Émile Chartier (1868-1951), é a "forma universal da mudança". Enquanto se desenrola, só pode ser capturado de forma provisória. O cronista captura momentos, elabora, e a "crônica" tanto pode ser apreciada nessa forma limitada como pode constituir-se base ou matéria-prima para futuras sínteses, possibilitadas pela história de mais longa duração, que explicita o desdobramento até então apenas possível - um possível entre muitos.

O livro das Crônicas, no Antigo Testamento, título hebraico, chama-se, na tradução grega e na Vulgata, Paralipômenos, literalmente "(fatos) deixados de lado, omitidos", episódios desgarrados da história do povo judeu. Se essas narrativas foram "deixadas de lado" é porque lhes foi atribuída importância menor.

Quando, em 1951, desejou organizar as reflexões políticas de Alain, extraídas dos conjuntos dos seus "propos" (como Alain os denominava, isto é "palavras", "falas"), Michel Alexandre salientou: "uma política não é em nenhum grau uma crônica". As crônicas (ou os "propos") "visavam sobretudo os homens do dia ou [...] seguiam de perto acontecimentos esquecidos ou ultrapassados". Certamente continuavam valiosos para muitas modalidades de interesses, históricos, literários e outros. No entanto, para a organização de uma antologia temática, política, deveria ser descartado grande número delas.

A crônica expressa um ponto de vista sobre a matéria contingente e mobiliza conhecimento e vivência do observador-escritor. Os nexos que consegue perceber ou construir dependem fundamentalmente da amplitude dessa bagagem mobilizada na operação.  O grau de comprometimento nessa modalidade de escrita se explica com nitidez, e isto contribui fortemente para explicitar posturas políticas e valores que, na ficção, onde as mediações exigem mais distanciamento, ficam apenas sugeridos.

E vamos às crônicas com o viés político militante de Lima Barreto.  Astrojildo Pereira nos dá um interessante dado sobre a formação de Lima Barreto. "Desde jovem se fizera ao trato dos livros, mas sua formação sofria do mal muito comum do ecletismo, uma certa mistura de materialismo positivista, de liberalismo spenceriano, de anarquismo kropotkiniano e de outros ingredientes semelhantes". Uma espécie de lamento por não ter tido uma formação dentro do marxismo. Sob esta ótica, sob esta visão de mundo é que Lima Barreto analisava os fatos de seu tempo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Crônica militante. Lima Barreto.

Lima Barreto é um dos escritores brasileiros que hoje em dia mais está em evidência. Vários fatores são responsáveis para que isso ocorresse. Mas creio que um dos principais é de ordem econômica. As suas obras caíram em domínio público, fato que motivou muitas editoras a se interessarem pela reedição de sua obra. Lima Barreto teve vida curta, mas intensa (1881-1922). Foi extremamente ativo, tanto como romancista e talvez, mais ainda, como cronista. Como cronista se tornou um atento crítico das mazelas da Bruzundanga, nome pelo qual ironicamente designava as inacreditáveis mazelas brasileiras.
 Uma edição com boa apresentação e um excelente posfácio. Leitura militante.

A crônica militante é uma coletânea de trinta e cinco crônicas escritas especialmente ao longo dos anos 1918 e 1922. Esta coletânea data de 2016, da Expressão Popular, uma editora que não ostenta gratuitamente o seu título de ser uma oportunidade para a expressão do povo. A maior parte dessas crônicas já haviam sido reunidas pelo próprio escritor e publicadas postumamente, em 1923, sob o título de Bagatelas. Lima Barreto sempre encontrou jornais e revistas interessadas em publicá-lo, apesar de seu posicionamento em favor da classe da qual se originou e da sua conflituosa relação com a imprensa conservadora dominante. A sua preferência era por pequenos e frágeis jornais e revistas.

A crônica militante tem três textos introdutórios. O primeiro é uma nota editorial, com explicações úteis em torno da edição. O segundo texto é maravilhoso. É de autoria de Cláudia de Arruda Campos e tem por título ler - compartilhar. Vou dedicar-lhe um post em separado. O terceiro texto é Lima Barreto militante, de Zenir Campos Reis, que se constitui na apresentação do autor e das crônicas presentes no livro. Seguem as trinta e cinco crônicas escolhidas e um primoroso posfácio, de autoria de Astrojildo Pereira, texto que servira de prefácio para a apresentação de Bagatelas, em sua segunda edição, de 1956. Um primor de contextualização.

Sobre o que escrevia Lima Barreto? Crônica tem a ver com o tempo. Assim, com certeza, Lima Barreto se ocupou de seu tempo em suas crônicas. Então vejamos o acontecia em seu tempo no Brasil e no mundo. Já vimos que as crônicas eram especialmente datadas entre os anos de 1918 e 1922. No Brasil tínhamos os governos oligárquicos da República Velha e das primeiras rebeliões contra ela, quando ainda menino, como a Revolta da Armada em 1893, e depois, dos movimentos dos trabalhadores, sob a liderança dos anarquistas. Os temas do imperialismo e da reforma agrária também sempre se fizeram presentes. No cenário internacional, ocorria o final da Grande Guerra e os tratados de paz, verdadeira causa para novas guerras, pela não erradicação das causas que a provocaram. Com entusiasmo também recebeu a Revolução Comunista da Rússia, em 1917.

Em que jornais escrevia? Lima Barreto tinha a vocação para o jornalismo. Recordações do Escrivão Isaías Caminha se constitui numa primeira grande observação crítica do comportamento e comprometimento dos grandes jornais brasileiros, os hoje chamados jornalões. Escrevia nos pequenos jornais, aqueles que sobreviviam por curtos espaços de tempo e que eram frutos da indignação e da militância de seus idealizadores. As crônicas desta edição vem datadas e com a indicação dos jornais ou revistas que as publicaram. Os títulos mais presentes são: ABC, de tendência anarquista, Revista Contemporânea, O País, Hoje, Gazeta de Notícias, O Estrela, Careta, Revista Argos, A Voz do Trabalhador. A presença mais constante está no ABC, com quem rompeu por uma questão racista.

Astrojildo Pereira em seu posfácio nos dá uma boa ideia sobre a formação de Lima Barreto. Afirma que ele nunca foi um marxista ou formado dentro do marxismo. "Desde jovem se afizera ao trato dos livro, mas sua formação sofria do mal muito comum do ecletismo, uma certa mistura de materialismo positivista, de liberalismo spenceriano, de anarquismo kropotkiniano e de outros ingredientes semelhantes" (p. 329). Tinha vasta formação e criticava os notáveis por não a terem. As suas crônicas se alimentavam em uma ampla formação teórica. A informação também esteve sempre presente em sua vida. Em sua casa havia uma biblioteca.

Ele teve origem numa família muito pobre, não miserável, porém. Tanto o pai, quanto ele, se ocupavam em modestas funções públicas. Teve estudos regulares e chegou ao ensino superior na área da engenharia. Por sorte, conforme ele afirma, não se formou. Conhecia a literatura mundial e tinha fluência em línguas. Foi por duas vezes internado no Hospital Nacional dos Alienados, por delírios provocados pelo álcool. Escreveu sobre isto e, inclusive, houve agora uma reedição destes seus escritos, numa edição da Companhia das Letras, que ficou entre os mais vendidos na FLIP - 2017. Trata-se de Diário do Hospício - Cemitério dos vivos. Chama também atenção o seu curto tempo de vida, de 1881 a 1922. Bem, mas os dados biográficos ficam por conta de Lilia Schwarcz e da sua biografia do autor, Lima Barreto - triste visionário, que vou começar a ler.
A próxima tarefa.Uma pesquisa de mais de dez anos.


Mas não posso encerrar este post sem trazer presente a máxima capitalista, vitoriosa com a Revolução burguesa e presente nos Estados Unidos, em sua longa ação imperialista, na crônica O nosso "ianquismo". Diz esta máxima: Make money, honestly if you can, but make money". Ou seja: "Enriqueça, honestamente se puder, mas enriqueça" (p.130).




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O Ensino em Bruzundanga. Lima Barreto.

 Na contracapa de Os Bruzundangas, se lê sobre o livro: "Os Bruzundangas é um romance de Lima Barreto que fala da Bruzundanga, um país de ficção, localizado nas zonas tropical e subtropical, parecidíssimo com o Brasil, onde se encontram elites pouco cultas dominando e explorando o povo. O narrador, que é um brasileiro que morou uns tempos por lá, vai fazendo uma crítica satirizada a todas as organizações institucionais e algumas pessoas desse país". Vejamos o que ele fala sobre o seu sistema educacional.
Um dos temas, entre tantos outros, é sobre o sistema de ensino em Bruzundanga.

O Ensino em Bruzundanga.

Já vos falei na nobreza doutoral desse país; é lógico, portanto, que vos fale do ensino que é ministrado nas suas escolas, donde se origina essa nobreza. Há diversas espécies de escolas mantidas pelo governo geral, pelos governos provinciais e por particulares. Estas últimas são chamadas livres e as outras oficiais, mas todas elas são equiparadas entre si e os seus diplomas se equivalem. Os meninos ou rapazes, que se destinam a elas, não tem medo absolutamente das dificuldades que o curso de qualquer delas possa apresentar. Do que eles têm medo, é dos exames preliminares. De forma que os filhos dos poderosos fazem os pais desdobrar bancas de exames, pôr em certas mesas pessoas suas, conseguindo aprovar os pequenos em aritmética sem que ao menos saibam somar frações, outros em francês sem que possam traduzir o mais fácil autor. Com tais manobras, conseguem sair-se da alhada e lá vão, cinco ou seis anos depois, ocupar gordas sinecuras com a sua importância de "doutor".

Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó.
Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram. São estes tais que berram: "Sou formado! Está falando com um homem formado!" Ou senão quando alguém lhes diz:
- "Fulano é inteligente, ilustrado...", acode o homenzinho logo:
- É formado?
- Não.
- Ah!
Raciocina ele muito bem. Em tal terra, quem não arranja um título como ele obteve o seu, deve ser muito burro, naturalmente.
Há outros, espertos e menos poderosos, que empregam o seguinte truque. Sabem por exemplo, que, na província das Jazidas, os exames de matemática elementar são mais fáceis. Que fazem eles? Inscrevem-se nos exames de lá, partem e voltam com as certidões de aprovação.

Continuam eles nessas manobras durante o curso superior. Em tal escola são mais fáceis os exames de tais matérias. Lá vão eles para tal escola, frequentam o ano, decoram os pontos, prestam ato e, logo aprovados, voltam correndo para a escola ou faculdade mais famosa, a fim de receberem o grau. O ensino superior fascina todos na Bruzundanga. Os seus títulos, como sabeis, dão tantos privilégios, tantas regalias, que pobres e ricos correm para ele. Mas só são três espécies que suscitam esse entusiasmo: o médico, o de advogado e o de engenheiro.

Houve quem pensasse em torná-los mais caros, a fim de evitar a pletora de doutores. Seria um erro, pois daria o monopólio aos ricos e afastaria as verdadeiras vocações. De resto, é sabido que os lentes das escolas daquele país são todos relacionados, têm negócios com os potentados financeiros e industriais do país e quase nunca lhes reprovam os filhos.

Extinguir-se as escolas seria um absurdo, pois seria entregar esse ensino a seitas religiosas, que tomariam conta dele, mantendo-lhe o prestígio na opinião e na sociedade.
Apesar de não ser da Bruzundanga, eu me interesso muito por ela, pois lá passei grande parte da minha meninice e mocidade.
Meditei muito sobre os seus problemas e creio que achei o remédio para esse mal que é seu ensino. Vou explicar-me sucintamente.
O Estado da Bruzundanga, de acordo com a sua carta constitucional, declararia livre o exercício de qualquer profissão, extinguindo todo e qualquer privilégio de diploma.
Feito isso, declararia também extintas as atuais faculdades e escolas que ele mantém.
Substituiria o atual ensino seriado, reminiscência da Idade Média, onde, no trivium, se misturava a gramática com a dialética e, no quadrivium, a astronomia e a geometria com a música, pelo ensino isolado de matérias, professadas pelos atuais lentes, com os seus preparadores e laboratórios.
Quem quisesse estudar medicina, frequentaria as cadeiras necessárias à especialidade a que se destinasse, evitando as disciplinas que julgasse inúteis.
Aquele que tivesse vocação para engenheiro de estrada de ferro, não precisava estar perdendo tempo estudando hidráulica. Frequentaria tão somente as cadeiras que precisasse, tanto mais que há engenheiros que precisam saber disciplinas que até bem pouco só se exigiam dos médicos, tais como os sanitários; médicos - os higienistas - que têm de atender a dados de construção, etc.; e advogados a estudos de medicina legal.
Cada qual organizaria o programa de seu curso, de acordo com a especialidade da profissão liberal que quisesse exercer, com toda a honestidade e sem as escoras de privilégio ou diploma todo poderoso.
Semelhante forma de ensino, evitando o diploma e os seus privilégios, extinguiria a nobreza doutoral; e daria aos jovens de Bruzundanga mais honestidade no estudo, mais segurança nas profissões que fossem exercer, com a força que vem da concorrência entre homens de valor e inteligência nas carreiras que seguem.

Eu não suponho, não tenho a ilusão que alguém tome a sério semelhante ideia.
Mas desejava bem que os da Bruzundanga a tomassem, para que mais tarde não tenham que se arrepender.
A nobreza doutoral, lá, está se fazendo aos poucos irritante, e até sendo hereditária. Querem ver? Quando por lá andei, ouvi entre rapazes este curto diálogo:
- Mas T foi reprovado?
- Foi.
- Como? Pois se é filho do Doutor F.?
Os pais mesmo tem esta ideia; as mães também; as irmãs da mesma forma, de modo a só desejarem casar-se com os doutores. Estes vão ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras, pois o povo admite isto e o tem achado justo até agora. Há algumas famílias que são de verdadeiros Polignacs doutorais. Ao lado, porém, delas vai se formando outra corrente, mais ativa, mais consciente da injustiça que sofre, mais inteligente, que, pouco a pouco, há de tirar do povo a ilusão doutoral.
É bom não termos que ver, na minha querida Bruzundanga, aquela cena que a nobreza de sangue provocou, e Taine, no começo da sua grande obra sobre as origens da França Contemporânea, descreve em poucas e eloquentes palavras. Eu as traduzo:
"Na noite de 14 para 15 de julho de 1789, o Duque de Larochefou-Caud-Liancourt fez despertar Luís XVI para lhe anunciar a tomada da Bastilha.
- É uma revolta? diz o rei.
- Sire, respondeu o duque, - é uma revolução".

Uma revolução. Já estamos em 2017. O livro foi publicado em 1923, mas as crônicas já haviam sido publicadas anteriormente. Mudou muita coisa? Hoje o sistema educacional de Bruzundanga foi entregue ao ultra conservador partido do DEM. Conseguem imaginar o significado disso?

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Temer corrupto ou inocente. Os votos dos deputados do Paraná.

Ontem, 2 de agosto de 2017 foi mais um dia triste na história política deste país. Ontem houve a absolvição, pela Câmara dos Deputados, do primeiro presidente brasileiro indiciado por corrupção, pela Procuradoria Geral da República. Todos os trambiques imagináveis e inimagináveis foram usados em favor da absolvição, inclusive negociações dentro do Plenário. Temer recebeu 263 votos em favor do relatório que o absolvia e mais 21 ausentes e duas abstenções. Já os contrários, que votaram não ao relatório da CCJ, somaram 227 votos. As cenas foram de um raro ridículo político.
Sobre a estetização do ridículo político. Quem foi o vencedor na sessão de ontem?


Assim Temer se fortaleceu, permanecendo no poder, ao menos por enquanto, enquanto não chegarem novas denúncias, e ganhou ânimo para continuar o seu programa de reformas, em especial, para a reforma da previdência. Esta não é tarefa fácil, pois se trata de uma reforma constitucional, para a qual são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado (De 513 e 81). Temer quis mostrar força na votação e provar que teria força para efetivar estas reformas. Estes serão os próximos enfrentamentos, dentro da mais explícita luta de classes já vista no Brasil. Mas o objetivo deste post, é deixar registrado, num espaço permanente, como votou a bancada paranaense no dia de ontem, para consultar, especialmente às vésperas de eleições, se os deputados votaram a favor ou contra a corrupção, da qual Temer foi acusado.

Os votos favoráveis a Temer, para que a corrupção não seja investigada não trouxeram surpresas. São contumazes votos contra os interesses da classe trabalhadora. Dou a lista e as siglas partidárias.

Votaram favoráveis ao relatório do deputado do PSDB mineiro, Paulo Abi-Ackel (por isso sim), para que Temer não fosse investigado, para que a corrupção fosse varrida para debaixo do tapete, os seguintes deputados:

Alex Canziani - PTB.
Alfredo Kaefer - PSL.
Dilceu Sperafico - PP.
Edmar Arruda - PSD.
Evandro Roma - PSD.
Giacobo - PR.
Hermes Parcianello - PMDB.
João Arruda - PMDB. Este é sobrinho do senador Requião.
Luiz Carlos Hauly - PSDB.
Luiz Nishimori - PR.
Nelson Meurer - PP.
Nelson Padovani - PSDB.
Osmar Bertoldi - DEM.
Sérgio Souza - PMDB.
Takayama - PSC.
Toninho Wandscheer - PROS.
Total: 16.

Votaram contra o relatório do deputado do PSDB mineiro, Abi-Ackel, que absolvia Temer, (por isso não) e em favor da investigação e julgamento do primeiro presidente brasileiro acusado de corrupção. Isso não significa que todos eles sejam confiáveis, sob a ótica dos interesses dos trabalhadores.

Aliel Machado - REDE.
Assis do Couto - PDT.
Christiane Yared - PR.
Delegado Francischi - SD.
Diego Garcia - PHS.
Enio Verri - PT.
Leandre - PV.
Leopoldo Meyer - PSB.
Rubens Bueno - PPS.
Sandro Alex - PSD.
Zeca Dirceu - PT.
Total: 11.

É preciso ainda ver os ausentes, que são votos que devem ser computados em favor de Temer. Estes deputados se acovardaram diante da repercussão de seu voto diante da Opinião Pública, confiando na ignorância do povo em saber sobre o fato. São eles:

Luciano Duci - PSB.
Osmar Serraglio - PMDB.
Reinold Stephanes - PSD.

Guardem bem esta listinha e façam muito uso dela.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Os dez mais vendidos da FLIP 2017. O OSCAR dos livros.

Terminada a Feira Internacional do Livro de Paraty, edição 2017, já saiu um primeiro balanço dos livros mais vendidos. A relação é da Livraria da Travessa, a famosa livraria do Rio de Janeiro, que é também a livraria oficial do evento. O grande homenageado deste ano foi o escritor Lima Barreto, pouco reconhecido em sua curta e atribulada vida (1881-1922). Isso não o impediu de lançar uma aguda visão sobre a sua cidade e as mazelas da sociedade republicana, nada republicana, que se instalava. Por essa homenagem e pelo crescente interesse pela sua obra, a sua presença com dois títulos, entre os mais vendidos.

Outra questão importante a ser observada é a presença dos títulos que envolvem a questão racial e a questão feminista entre os mais vendidos. Me chamou particularmente a atenção, a escritora ruandense Scholastique Mukasonga, que eu não conhecia. Será agora a oportunidade. Todos os livros estão disponíveis na Livraria da Travessa, com bons descontos. Mas, sempre que eu compro, eu faço pesquisas. Existem boas diferenças. A entrega leva três dias, com postagens gratuitas, creio, acima de R$ 100,00.

E antes de ir para a lista, um recado para o governador beto richa. É notório e sabido que ele não é um aficionado pela leitura, mas ele, na qualidade de governador, tem por obrigação fomentá-la e, especialmente, proporcionar aos professores as possibilidades da leitura, que é a fonte principal que alimenta o seu trabalho com a devida qualidade. E para que isto aconteça, reposições salariais são absolutamente necessárias. Mas lamentavelmente creio que ele não tem sensibilidade para tanto. Mas vamos a lista:

1º. Na minha pele. Lázaro Ramos. Companhia das Letras. R$ 34,90. Biografia e memória. Foi na fala de Lázaro Ramos que ocorreu o momento mais emocionante da Flip 2017. A intervenção da professora paranaense Diva Guimarães.

2º. A mulher dos pés descalços. Scholastique Mukasonga. Editora Nós. R$ 35,00. Romance em que a escritora conta sobre a morte da mãe na guerra civil de Ruanda, morta pelos hutus. (Sugestão: para minimamente conhecer a guerra civil de Ruanda ver o filme de 2004 - Grande Hotel Ruanda).
Este é o próximo livro da minha agenda de leituras.


3º. Lima Barreto - triste visionário. Lilia Schwarcz. Companhia das Letras. R$ 69,90. Biografia. Mais de dez anos de pesquisa. Já está na minha estante e agenda.

4º. Nossa Senhora do Nilo. Scholastique Mukasonga. Editora Nós. R$ 45,00. Romance em que é contada a educação com a presença do ódio racial que levou à guerra civil de Ruanda. O conflito entre tutsis e os hutus. Um colégio para meninas.

5º. Com o mar por meio. Jorge Amado e José Saramago. Companhia das Letras. R$ 59,00. É a correspondência trocada entre os dois escritores entre os anos de 1992 e 1998. São comentários sobre os temas mais palpitantes do mundo.

6º. Esse cabelo - A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Djamilia Pereira de Almeida. Leya. R$ 34,90. Um romance que mistura memória, crítica social, racismo, feminismo e identidade. Conheci a autora através da revista Cult. Gostei demais.

7º. Diário do hospício - cemitério dos vivos. Lima Barreto. Companhia das Letras. R$ 49,90. Trata-se de uma reedição dos apontamentos de Lima Barreto, internado duas vezes no Hospício Nacional dos Alienados, em virtude de delírios alcoólicos. A reedição ficou por conta de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura e prefácio de Alfredo Bosi.

8º. Para educar crianças feministas. Um manifesto. Chimamanda Ngozi Adichie. Companhia das Letras. R$ 14,90. Trata-se de 15 sugestões para uma educação dentro dos princípios feministas. A autora fez muito sucesso com Americanah e especialmente com Sejamos todos feministas. Ela é nigeriana.

9º. O Vendido. Paul Beatty. Editora Todavia. R$ 54,90. É uma narrativa das experiências raciais de seu pai, um polêmico sociólogo de Los Angeles. É uma mordaz crítica as questões raciais ainda tão fortemente presentes no mundo.

10º. Bíblia - Novo Testamento - Os quatro evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. Companhia das Letras. R$ 69,90. Consta ser a mais completa versão da Bíblia, fundamentada em questões históricas. Não são apenas os quatro  Evangelhos e sim vinte e sete. Trata-se apenas do primeiro volume.  Frederico Lourenço é um reconhecido historiador.

Pronto, estão aí sugestões mais do que interessantes para as próximas leituras.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Bruzundangas. Lima Barreto.

Estou me preparando para a leitura da grande biografia  Lima Barreto - triste visionário, de Lilia Moritz Schwarcz, lançado neste julho de 2017, creio eu, na grande Feira Internacional do Livro de Paraty, da qual Lima Barreto é o homenageado, na sua edição de 2017. Para isso acabo de ler, aquele que seguramente é o mais irônico dos livros deste triste visionário, como o qualifica a biógrafa. Trata-se de Os Bruzundangas, ou melhor, da República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Qualquer referência ao Brasil será fruto da tua imaginação, ou talvez, da ironia do escritor.
A edição de Os Bruzundangas da Difusão Cultural do Livro.

Os Bruzundangas é uma coletânea de crônicas que foram publicadas no semanário ABC (de tendência anarquista) a partir do ano de 1917. Lima Barreto, a estas alturas, já era autor consagrado. Em livro, com as crônicas reunidas, só houve uma edição póstuma, um ano após a sua morte em 1923. Lima Barreto nasceu em1881 e morreu em 1922, no ano do centenário da independência. Na última página da edição que eu li, da Difusão Cultural do Livro se lê algo sobre a sua obra que se aplica perfeitamente a esta república. Vejamos.

"Lima Barreto foi um dos mais legítimos cronistas do Rio de Janeiro. Tudo quanto acontecia à sua volta, o escritor atento registrava nas suas crônicas, pois colaborava em quase todos os jornais. Sob este aspecto foi um "marginalizado" ou "perseguido" pelos escritores estabelecidos, como muitos pensam. Lima Barreto nunca teve dificuldade em publicar os seus às vezes contundentes artigos panfletários, ou as suas sátiras cortantes, que muitas vezes atingiam homens de prestígio de seu tempo".

É o que lemos em Os Bruzundangas. As crônicas são realmente ácidas. Alguns políticos ou escritores são nominados e outros apenas subentendidos. Quem conhece razoavelmente a história consegue identificar a muitos deles. Alguns eu não consegui identificar. Os personagens favoritos em sua caracterização são os políticos, os ministros em particular, os escritores, os militares e os artistas de uma maneira geral.  Lhes critica muito a falta de originalidade e a preocupação com a cópia e a vontade de pertencerem a Academia de Letras, mesmo sem se dedicarem a elas.

Trata-se de um pequeno livrinho de apenas 112 páginas. Tem 22 capítulos, um prefácio e ainda não numerados em capítulo outras histórias dos Bruzundangas e uma nota informativa. Dou o título de cada um dos capítulos a fim de que conheçam mais de perto este rico e pobre país, qual seja a República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Ainda faço um esforço de síntese para cada um destes.Vejamos: 

I. Um grande financeiro. Trata-se de um deputado especializado em orçamento que virou ministro. Sua especialidade era aumentar impostos. II. A nobreza de Bruzundanga. As qualifica pela sua origem, a de toga e a dos costumes. A de toga são os doutores, advogados, médicos e engenheiros. III. A outra nobreza de Bruzundanga. Era formada pelos que ocupavam os mais bem remunerados cargos na administração do Estado. Eram marcados por duas grandes características, a ingenuidade infantil e a idiotice senil. IV. A política e os políticos de Bruzundanga. Eram os ricos em meio a miséria. Eram ajudados pelas freiras dos educandários que arranjavam para os rapazes - ricas herdeiras, para lhes alavancar a carreira.

V. As riquezas de Bruzundanga. A república é descrita como a mais rica do mundo. Tem carvão, café, cana e borracha. VI. O ensino em Bruzundanga. Este capítulo vai ganhar um post especial. VII. A diplomacia em Bruzndanga. Um dos mais irônicos. A diplomacia é a profissão dos escritores que fazem algumas cópias e se candidatam à Academia de Letras de Bruzundanga. Trazem também honrarias, comendas e condecorações. VIII. A Constituição. Outro capítulo de fina ironia. Dá vontade de transcrever alguns artigos. Mas o certo é que a República tem uma Constituição. As leis formam o esqueleto da sociedade. IX. Um mandachuva. É assim que chamam o presidente. Descreve as características mas a que mais se destaca é o fato de abominar a cultura. X. Força Armada. A conclusão do cronista é a de que não existe força armada, mas que há 175 generais e 87 almirantes. A maior preocupação é com os uniformes.

XI. Um ministro. Um país agrícola sem agricultura, com misto de latifúndio e propriedade feudal. XII. Os herois. Outro capítulo ácido. Quem são os herois de Bruzundanga? Izabel, o velho marechal? XIII. A sociedade. Os privilegiados do serviço público com a marca de sua mediocridade. XIV. As eleições. Um capítulo dedicado às falsificações. XV. Uma consulta médica. O medo de gastar e o médico que não consulta. XVI. A organização do entusiasmo. dez mil soldados para recepcionar políticos, embaixadores e capitalistas. XVII. Ensino Prático. Tudo prático, uma escola de comércio. XVIII. A religião. É suficiente dizer que é católica, apostólica e romana. XIX. Q.E.D. Quod erat demonstrandum. Versa sobre a administração da república. XX. Uma província. Talvez o ponto alto da obra. Uma descrição imperdível de São Paulo. XXI. Pâncome, as suas ideias e o amanuense. Outro capítulo de ironia intensa. Trata-se de um ministro de relações exteriores, que ocupou o cargo por dez anos e que escolheu um amanuense pela sua beleza. Não ousei identificá-lo. Dele quero apresentar uma propaganda que ele fez em Paris a respeito de seu país: "Bruzundanga, País rico - Café, cacau e borracha. Não há pretos".  XXII. Notas soltas. E seguem ainda Outras histórias dos Bruzundangas e uma nota informativa. Nesta república os mulatos eram chamados de javaneses.


Uma pergunta final. O que mudou na quase centenária República dos Estados Unidos de Bruzundanga para a atualidade de 2017?