sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mensagem de Feliz Ano Novo.

Pensando numa mensagem de fim de ano, lembrei-me de uma aula de abertura de um ano letivo. Revirando minhas agendas a localizei. A agenda é de 1994. É a seguinte:

"Se pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais... correria mais riscos, faria mais viagens, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios"

"Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem ter um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um para quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Começaria a andar descalço, no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono".

Tenho anotado na agenda que isso é de Jorge Luís Borges, citado por Clóvis Rossi. Por um ano novo mais moleque, era o título. Na mesma agenda encontrei anotado o seguinte:

"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós
Então está tudo dito
E é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música - ternura e aventura".

Tá combinado - de Caetano Veloso. Vai mais um aperitivo. Esse é de Niemeyer, das Curvas do Tempo. É sabido que ele não gostava de andar de avião. Daí vem o seguinte:

"Fiz muitas viagens entre o Brasil, a Europa e os Estados Unidos. Não gostava de andar de avião. De navio, eram 10 dias de férias no mar imenso, sem telefone, inteiramente livre.
Gostava de olhar o mar, cada dia diferente. Mar imenso a lembrar a eternidade. Gostava daqueles dias de ócio, sem fazer nada, a ler, conversar, estirado nas cadeiras de bordo".

Vou viajar, vou contemplar entardeceres, vou ver o mar. Vou ver as cachaçarias de Paraty. Vou me entregar ao ócio, sem ter medo de que ele seja a oficina de satanás. A todos desejo um ano novo repleto de ócio, de tempo livre e, absolutamente sem culpa.

Esta foi a minha mensagem para o ano de 2013. A repito integralmente para 2014, com o acréscimo de um texto apropriado para refletir em viradas de ano, de autoria de Mário de Andrade:

"Contei meus anos e descobri", escreveu Mário de Andrade "que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas... As primeiras ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, roi o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica são imaturos. Detesto fazer acareação de desafetos, que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir dos seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta viver o essencial". Viver é uma questão de paladar. Aprende-se a viver saboreando a vida.

E eu cá comigo, vou saboreando a vida, usufruindo do bem mais precioso, que é o meu tempo livre e a cada dia que passa, me apaixonando cada vez mais pelo humano e odiando, com uma uma intensidade muito mais profunda, tudo aquilo que é desumano. Gostaria de compartilhar com todos esta minha mensagem.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Velho Graça - Uma Biografia de Graciliano Ramos.

"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Esta é praticamente a caracterização final que Dênis de Moraes faz de Graciliano Ramos na magnífica biografia que ele escreve sobre o escritor alagoano.
O velho Graça, uma biografia de Graciliano Ramos, escrita por Dênis de Moraes. Boitempo.

Dênis deixa uma palavra aberta a mais para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade". 

Creio que estas frases que aparecem ao final da biografia se constituem numa síntese do que foi efetivamente a vida deste sofrido escritor, o Dostoiévski do sertão ou o Tolstoi brasileiro. Com relação à felicidade, parece mesmo, que poucos momentos felizes ele teve. Era um homem muito exigente, especialmente consigo mesmo. Era um homem extremamente sensível, e lhe doíam as injustiças sociais com as quais sempre conviveu, desde os sofridos tempos de sua Alagoas natal, até os cárceres no Recife e no Rio de Janeiro e na vida difícil que levou, depois no Rio de Janeiro, enfrentando as dificuldades econômicas para prover o sustento da família.
Uma marca registrada na vida de Graciliano. A companhia do livro e do cigarro.

O escritor nasce na cidade de Quebrângulo, em Alagoas no ano de 1892. É o mais velho entre 16 irmãos. A família muda-se para Buíque, em Pernambuco e volta para Viçosa em Alagoas. Graciliano vai estudar em Maceió. Aos 18 anos passa a morar em Palmeira dos Índios, Alagoas. Terá uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, voltando novamente para Palmeira dos Índios, onde se estabelece como comerciante. Aos 23 anos já se encontra casado, mas a esposa falece no parto da quarta filha. Em 1928 casa-se com Helena, a esposa que o acompanhou pelo resto de sua vida. A sua vida de escritor começa em 1925, quando começa a esboçar Caetés, o seu primeiro romance.

Tem passagem pela política, elegendo-se prefeito de Palmeira dos Índios aos 35 anos de idade. Passa a exercer cargos políticos no Estado como a de diretor da Imprensa Oficial e diretor da Instrução Pública. Isso foi no ano de 1933, anos de ascensão das ideologias fascistas no Brasil, sob as bandeiras do integralismo. A política lhe trouxe muitos dissabores e sem saber dos motivos, é preso em 1936. Fora julgado subversivo e ele estabelece conjecturas sobre o seu caráter subversivo:
Capa do último livro escrito pelo velho Graça. O desenho foi feito pelo camarada amigo Cândido Portinari.

"Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Ficou preso entre os dias 3 de março de 1936 e 3 de janeiro de 1937, conhecendo o terror da prisão da Ilha Grande. As observações deste período produziram o seu Memórias do Cárcere, publicado logo após a sua morte, em 1953.

Os seus primeiros livros são escritos quando ainda morava em Alagoas. Na sequência, são eles - Caetés, São Bernardo e Angústia. Vidas Secas e Infância são escritos no Rio de Janeiro e são as rememorações de seu sofrido tempo no sertão nordestino. Seus últimos livros serão Memórias do cárcere e Viagem. Estes dois livros causaram muita polêmica. Graciliano sempre foi um homem incomodado com o sofrimento imposto aos homens pelas desumanas condições de vida e foi até preso como subversivo e, subversivo, nesta época, era sinônimo de comunista. Mas Graciliano só veio a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro, o PCB ou partidão em 1945, chegando até a disputar, sem sucesso, uma vaga para a Constituinte pelo seu estado natal de Alagoas.
Capas dos livros de Graciliano Ramos.

A polêmica destes livros se deu em razão de uma radicalização do partidão nos períodos da guerra fria e do macartismo caboclo, que entre outras coisas pôs o partidão na clandestinidade e cassou a sua representação no Parlamento brasileiro. Também apareceram os Zdanovs tupiniquins, ou os seus ventríloquos, que lhe queriam censurar os seus livros, o que ele jamais permitiu. O fato que o levou para o partidão certamente foram as vitórias de Stalin contra o nazismo. Ao mesmo tempo que o PCB lhe trouxe grandes alegrias, também lhe causou muitos dissabores. O seu livro Viagem, retrata a sua visão da URSS, que visitou a convite do partido. De maneira geral gostou do que viu, mas não se isentou de criticar o que vira de errado. A morte o poupou de ouvir as denúncias que Kruschev fez dos crimes praticados por Stalin, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 1956.
Última foto do escritor, que veio a falecer em 20 de março de 1953.

A consagração como escritor lhe veio apenas após a morte. Memórias do Cárcere vendeu dez mil exemplares logo após o seu lançamento. Ganhou depois as universidades e o mundo. E as suas obras também chegaram ao cinema, com os premiados filmes Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do cárcere. Uma coisa ainda a destacar da biografia de Dênis de Moraes. A sua vida foi vivida sob a égide de dois valores maiores, os da dignidade e da integridade.  

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Os Dez Melhores Romances do Mundo. Indicações de Graciliano Ramos.


Já passei a lista dos dez melhores romances brasileiros, numa indicação de Graciliano Ramos. Hoje passo a lista dos dez melhores do mundo. Gosto muito destas curiosidades. Quando você lê biografias, você encontra muitas coisas, que, na maioria das vezes, você nunca esperava. Estas indicações de melhores livros eu encontrei no livro de Dênis Moraes, O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, da Boitempo.
Neste livro do Dênis Moraes, se encontram as indicações dos melhores romances do mundo.

Não deve ter sido fácil para Graciliano fazer a lista. Ele era criterioso demais. Eu o imagino pedindo desculpas para todos os autores não incluídos nesta lista. A sua elaboração atendeu a um pedido da Revista Acadêmica, isto no ano de 1938. Muitos destes autores exerceram profundas influências sobre o grande escritor. Mas, vamos as indicações:

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes;

Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift;

Gargântua, de François Rabelais;

As Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac;

Ana Karenina, de Leon Tolstoi;

Candide, de Voltaire;

Crime e castigo, de Dostoiévski;

Pickwick, de Charles Dickens;

Os sete enforcados, de Leonid Andreiev e

Os Maias, de Eça de Queirós.

Como já fiz no post anterior, quero destacar a data da publicação desta lista. Isto foi no ano de 1938. Graciliano chegou a ser chamado de Dostoiévski do Sertão, ou o Tolstoi brasileiro.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Íntegra do Texto do Ato Institucional nº 5.

No dia 13 de dezembro fui na APP-Sindicato fazer uma análise de conjuntura para o seu Conselho Estadual. Como fazia 45 anos da edição do AI-5 eles distribuíram a cópia, na íntegra, deste ato medonho. Guardei o documento, sem lhe dar a devida importância. Depois, em casa comecei a lê-lo, ver as suas peculiaridades e os nomes dos ministros que o assinaram, resolvi publicá-lo. Afinal de contas, trata-se de um documento histórico. Ei-lo. Ele foi o golpe dentro do golpe, aplicado pela linha dura do exército. Um modelo para um Estado democrático e de direito.

Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968.

O Presidente da República Federativa do Brasil, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e  CONSIDERANDO que a Revolução Brasileira de 31 de março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao país um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, "os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

CONSIDERANDO que o Governo da República, responsável pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário, ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente que "não se disse que a revolução foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento não pode ser detido;

CONSIDERANDO que esse mesmo Poder Revolucionário, exercido pelo Presidente da República, ao convocar o Congresso Nacional para discutir, votar e promulgar a nova Constituição, estabeleceu que esta, além de representar "a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução", deveria "assegurar a continuidade da obra Revolucionária" (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se tornou imperiosa a adoção de medidas que impeçam que sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranquilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores da ordem são contrários aos ideais e à consolidação do movimento de março de 1964, obrigando os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências necessárias, que evitem sua destruição,

resolve editar o seguinte

Ato Institucional

Art. 1º - São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art. 2º - O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sítio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.
§ 1º - Decretado o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.
§ 2º - Durante o período de recesso, os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa dos subsídios.
§ 3º - Em caso de recesso da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das Contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art. 3º - O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.
Parágrafo Único - Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art. 4º - No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.
Parágrafo Único - Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados subsídios, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art. 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:
I - Cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
IV - Aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:
a) liberdade vigiada;
b)proibição de frequentar determinados lugares; domicílio determinado;
§ 1º - O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.
§ 2 - As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicados pelo Ministro de Estado da Justiça, defesa e apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário.

Art. 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, mamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.
§ 1º - O Presidente da República poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedade de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.
§ 2 - O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art. 7º - O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art 8º - O Presidente da República poderá, após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.
Parágrafo Único - provada a legitimidade da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art 9º - O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário à defesa da Revolução, as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição.

Art 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.

Art 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art 12 - O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.
Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da independência e 80º da República.

A. COSTA E SILVA                                                        Jarbas Passarinho

Augusto Hamann Rademaker Grünewald                            Márcio de Souza e Mello

Aurélio de Lyra Tavares                                                      Leonel Miranda

José Magalhães Pinto                                                          José Costa Cavalcanti

Antônio Delfim Netto                                                          Edmundo de Macedo Soares

Mário David Andreazza                                                       Hélio Beltrão

Ivo Arzua Pereira                                                                 Afonso A. Lima

Tarso Dutra                                                                          Carlos F. de Simas

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os Dez Melhores Romances Brasileiros. Indicações de Graciliano Ramos.

Estou terminando de ler O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis Moraes. Um monumento de biografia. Como se aprende lendo biografias. A contextualização da época é simplesmente fabulosa, tanto em sua conjuntura nacional, quanto internacional. Adoro as curiosidades, como esta, em que Graciliano apresenta os dez maiores romances brasileiros.
Neste livro do Dênis Moraes se encontram as indicações de Graciliano.

Deve ter doído profundamente a ele fazê-lo. Se o fez, certamente o fez por necessidade econômica. A sua vida, a sua literatura e os seus escritos sempre foram motivados pelas dificuldades econômicas, embora também fosse escritor por ofício. Era totalmente avesso a qualquer exposição pública. O forte em sua vida era efetivamente a sua vida interior, espaço onde construía os seus personagens. A lista dos dez melhores romances foi feita em atendimento a um pedido da Revista Acadêmica, isto no ano de 1938. Eis a lista:

Inocência, do Visconde de Taunay;

Casa de Pensão, de Aluísio de Azevedo;

Dom Casmurro, de Machado de Assis;

Jubiabá, de Jorge Amado;

Os Corumbas, de Armando Fontes;

Doidinho, de José Lins do Rego;

As Três Marias, de Rachel de Queiroz;

Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira;

O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos e

Os Caminhos da Vida, de Octávio de Faria.

Sem comentários. Apenas gostaria de destacar a data destas indicações. Foi no ano de 1938.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Minha Experiência em Fraiburgo.

Era o dia 4 de dezembro. No dia 5 eu estava escalado para participar de uma mesa de análise de conjuntura por ocasião da realização do X Congresso Estadual do SINTE/SC, na cidade de Fraiburgo. Como seria difícil chegar lá de ônibus, teria que me deslocar para Caçador ou Videira, optei por ir de carro, embora eu faça pouco gosto por essa opção. Teria 300 e poucos quilômetros pela frente. Saí de Curitiba com folga e cheguei lá, ainda com sol.
Placa do hotel BIZ que homenageia o seu idealizador e proprietário.

Me hospedei no hotel em que eu já tinha uma reserva e fiz a primeira incursão exploratória na cidade. Não fui longe. Fiquei hospedado no hotel BIZ, iniciais de Bogmil Izidoro Ziolkowski, seu idealizador e proprietário. É o hotel econômico que está situado junto ao hotel Renar, este sim um hotel turístico, de luxo. Os dois empreendimentos pertencem à mesma família. Não fui longe, pela beleza e pelos encantos do lugar. Saí pelos fundos do hotel e já estava num belo parque com muitos pinheiros e com muitas hortênsias floridas, no alto de uma colina. Logo avistei um lago, que era um luxo só.
Os bosques e gramados que cercam este hotel são uma das maravilhas da cidade. O hotel se situa em uma colina, acima do lago da cidade.

Desci até o lago e aproveitei para fazer a caminhada do dia. Depois fui em direção oposta, passando por uma praça que homenageia uma das fundadoras da cidade, a praça Maria Fray. Contornando a colina avisto um castelo. Um castelo europeu. Uma placa indicativa me conta a história deste castelo. Vou passar esta história para a Suzi escrever a sua tese de doutoramento sobre a bucetocracia, com o perdão da palavra. A mulher, para ficar no Brasil, exigiu a construção do castelo e o castelo ali está. A placa me levou a outro local, uma gruta do monge João Maria, o Antônio Conselheiro do Contestado.
Como ainda não havia chegado nenhum dos meus anfitriões ao hotel, fui sozinho jantar no hotel Renar, já que no BIZ não tinha. Mas antes olhei muitas fotografias e indicações e vi sobre o balcão da recepção do hotel um livro que logo me interessou; Fraiburgo - Marcos da História, de Gerda Maria Frey Ziolkowski. O livro tem uma bela apresentação e é impresso em papel de qualidade. Como o preço era honesto, não tive dúvidas. Comprei-o. Antes da viagem já tinha especulado um pouco no Google. Tinha visto um pouco a saga dos Frey e na placa junto ao castelinho vi outros sobrenomes, aparentemente franceses. Isto tudo me encheu de curiosidade e me induziram à compra do livro.

A história de Fraiburgo é muito particular. Santa Catarina e o seu meio oeste e o seu extremo oeste tem uma história muito particular. Os problemas de fronteira com a Argentina e depois, mais especificamente, o seu meio oeste teve problemas de fronteira com o Parana e teve como resultado destes conflitos a guerra do Contestado. Resultado. Ninguém se estabelece em áreas de conflitos, especialmente quando eles se tornam muito violentos. Por isso a história de Fraiburgo é recente, completará o seu cinquentenário no ano que vem, quando a guerra do Contestado completará o seu centenário.
O portal de entrada da cidade, para quem vem de Lebon Regis.

As terras de Fraiburgo pertenciam a uma das famílias mais poderosas de Santa Catarina, a família Ramos, que junto com os Konder e os Bornhausen já detiveram quase todo o poder no Estado e ainda continuam muito poderosos. Estas terras foram vendidas para dois irmãos vindos de Estrasburgo, terras que trocaram de mãos entre alemães e franceses, por ocasião dos conflitos da primeira guerra e em seus tratados de paz. Estrasburgo pertence hoje à França. Carlos Guilherme Frey traz a sua família para o Brasil. Entre seus filhos estão os conhecidos irmãos René e Arnoldo que tudo tem a ver com a história da cidade. A família passa pelo Rio Grande do Sul, se estabelecem em Castro no Paraná, mas vão estabelecer raízes mesmo, na hoje cidade de Fraiburgo, o então Campo da Dúvida.
Praça homenageando a pioneira Maria Frey, esposa de René.

Os irmãos Frey chegam ao vale do rio do Peixe, montando uma serraria, como tantas outras que existiam na região. Só que em vez de irem embora após a derrubada geral dos pinheiros, ali se estabelecem e se reinventam economicamente. Já deviam ter algum grau de poder. Depois disso tudo, simplesmente tudo, da história de Fraiburgo passa pelos irmãos  René e Arnoldo. A história é bonita e vai bater na maçã. Fraiburgo é hoje a capital nacional da maçã. Os irmãos nunca foram amadores e a história da maçã caminha junto com a história da tecnologia de sua produção. Técnicos em sua cultura foram buscados pelo mundo para ali estudarem condições climáticas e escolherem as variedades que melhor se adaptariam à região. Estão aí os sobrenomes franceses apontados na placa indicativa do castelinho. Devem ter sido aproveitados os conflitos da França na guerra da independência da Argélia, para trazer técnicos franceses para a região.
Um caminho entre as flores para ser percorrido no hotel Renar.

Hoje, em seu cinquentenário, Fraiburgo é uma cidade que conta com 35.000 habitantes. A pomicultura, cultura de frutas de clima temperado, com todo o destaque para a maçã, se constitui na grande atividade econômica do município. A industrialização destas frutas, as atividades ligadas a reflorestamento e hoje as atividades ligadas ao turismo são o complemento desta economia.

Fraiburgo comporta a localidade de Taquaruçu. nesta localidade ocorreu uma das maiores batalhas, senão a maior de todas as batalhas da guerra do Contestado. Lá funciona um museu, lembrando a epopeia. Li o livro de uma das pioneiras da região mas a minha curiosidade pede por mais coisas. Por isso, já consta na minha agenda uma volta para este maravilhoso lugar, tão cheio de história.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O X Congresso Estadual dos Educadores de Santa Catarina.

Sob o lema "Por uma educação crítica, transformadora e que promova a emancipação da classe trabalhadora", realizou-se nos dias 5, 6 e 7 de dezembro na bela e aprazível cidade de Fraiburgo o Xº Congresso Estadual do SINTE/SC, o sindicato dos educadores de Santa Catarina. Por indicação de meus companheiros da APP-Sindicato, especialmente através do professor Paixão, recebi um honroso convite para participar dos debates sobre a conjuntura brasileira. O convite do SINTE me veio através do seu coordenador estadual, o professor Luiz Carlos Vieira.
A faixa anunciando o Xº Congresso Estadual do SINTE/SC. Quero dar destaque para a frase do Paulo Freire.

Ao longo da minha vida já participei de muitos congressos, mas confesso que há muito tempo não via mais um ambiente tão acalorado de polêmicas e de debates. É que estava em questão a permanência ou não da filiação do sindicato à Central Única dos Trabalhadores. A manutenção da filiação foi defendida pela direção estadual, majoritariamente ligada ao Partido dos Trabalhadores e a desfiliação era uma proposta da oposição à direção, aglutinada por partidários do PSTU. O clima foi de beligerância. Nomes de expressão nacional estiveram presentes ao Congresso. Favoráveis à CUT falaram Carlos Augusto Abicalil, ex deputado federal e ex presidente da CNTE e Roberto Franklin de Leão, atual presidente da CNTE. Pela desfiliação falaram Susana de Sá Gutierrez, diretora do SEPE/RJ, o sindicato dos educadores do Rio de Janeiro e Atnágoras Teixeira Lopes, membro da Secretaria Nacional da CSP/Conlutas, a central sindical, ligada ao PSTU.

Uma representação das lutas na Guerra do Contestado. Belíssima encenação.

Participei de todos os debates do primeiro dia. A minha intervenção foi pautada na análise de Brasil, especialmente da diferenciação das concepções de Brasil como um mercado emergente, concepção defendida pelos neoliberais e a concepção de Estado/Nação e Pátria, a visão dominante nos dez anos de governo de Lula e Dilma. A contestação a minha fala feita pelo representante da CSP/Conlutas foi a de que o PT e a CUT (a discussão estava mais vinculada à central) já não representavam mais os interesses dos trabalhadores, alegando para isso, a privatização da Petrobrás pela Concessão de Libras e os movimentos de junho/2013, que seriam a manifestação clara da insatisfação do povo brasileiro com relação ao governo da presidenta Dilma. Estes dois argumentos foram, aliás, a tônica de todo o debate em torno da desfiliação à CUT.

Dei destaque aos anos 1980 no Brasil. Os anos 1980 foram os anos de aprendizado de democracia no Brasil. Nesta década surgiram os movimentos de resistência à ditadura, como o movimento pela Anistia, pelas Diretas Já e pela Assembleia Nacional Constituinte. Foi a década em que os sindicatos ganharam nova vitalidade e a sua Central, em que surgiram os movimentos sociais, destacando-se entre eles o MST. E dessas massas em movimento surgiu um partido político, pela primeira vez em nossa história, um partido surge das massas e não de conchavos entre as elites, o Partido dos Trabalhadores. Estas mobilizações colheram o seu melhor resultado com as eleições de 2002, quando o poder de tomar decisões mudou de mão e começaram a ser implementadas políticas sociais de larga repercussão. Para contrapor esta base de organização popular, questionei a representatividade dos oposicionistas presentes no Congresso, apenas para pegar de leve.
Uma vista da plenária do Congresso.

Eu aprendi muito neste Congresso. Gostei especialmente da apresentação de abertura, uma representação da Guerra do Contestado, numa encenação feita por uma escola do MST. A guerra do Contestado foi transformada numa espécie de mito fundador do povo catarinense, herdeiro do espírito de luta contra as marcantes injustiças sociais de o que o povo fora vítima. Outra fala que apreciei muito foi a do professor Reinaldo Lindolfo Lohn, chefe do departamento de história da UDESC, que traçou um belo quadro da história e da geografia econômica de Santa Catarina e a forma como estes fatores se combinam na condução da política conservadora no Estado. As outras falas foram falas mais táticas, embora todos os votos dos congressistas já estivessem pré carimbados. Também houve uma comovente sessão de homenagens a pessoas já falecidas e que tinham em suas vidas a marca da luta pela justiça social.

Quero aqui expressar os meus agradecimentos pelo honroso convite recebido, especialmente ao professor Vieira, que foi o mediador da minha ida para participar deste Congresso. No dia 6 aproveitei para conhecer um pouco mais da região. Fui até Treze Tílias. Também fiquei muito mais motivado em conhecer melhor a história do Contestado, que no ano que vem já completará cem anos. Sobre o ardor dos embates que eu vi no Congresso, lembro de uma fala de Paulo Freire, de 1992, em Umuarama. É certo que não existe anúncio sem a denúncia e, a indignação e a denúncia fazem parte do anúncio de um tempo novo, mas é também preciso analisar a nossa forma de indignação. Vejamos Paulo Freire.
Uma vista da cidade de Fraiburgo, que abrigou o Congresso. Uma cidade que tem história para contar.

"...porque você tem formas de indignação diferentes. Às vezes você pode ter uma indignação meio..., ineficaz, que a gente chama, em linguagem popular, da gíria política, de porralouquice. Essa, na verdade, não dá. A porralouquice é a maneira melhor de você ajudar a direita no país, com ares de revolucionário. E isso é o que é pior, com pinta de revolucionário. Um porra louca é um direitista sem saber, sem saber. Dizem que o céu está cheio "assim" de porra loucos".   Mas como o Congresso estava voltado para a educação transformadora ficarei com outro pensamento do grande mestre, relativa à necessidade da construção de uma sociedade socialista: "Eu hoje estendo a radicalidade democrática ao mundo da vida natural. Para mim hoje uma democracia social, que não é necessariamente a social democracia, é uma experiência socialista".

O Congresso continuaria a se desenvolver nos dois dias seguintes. Certamente houve novos embates, dos quais ainda não fiquei sabendo os resultados.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Seriam os índios seres humanos? Teorias a respeito.


Termino de ler o livro de Manuela Carneiro da Cunha Índios no Brasil - história, direitos e cidadania. O livro é estruturado em cinco capítulos sobre os temas expressos no subtítulo. Dois deles me impressionaram mais especificamente, por abordarem a questão de como os brancos viram os índios ao longo do tempo. O capítulo segundo aborda as visões do século XVI e o terceiro as visões do século XIX. A ganância e a ambição determinaram estas visões. É impressionante como as teses do século XIX, que em nome da racionalidade chegaram a argumentos que eram simplesmente irracionais. Coisas da derivação da lógica formal.
É fundamental a leitura deste livro para a compreensão da questão indígena no Brasil.

Os dois mais impressionantes documentos do século XVI sobre os índios são a carta de Caminha e os relatos de Américo Vespúcio. Além de descrições superficiais já se constatam nestes documentos observações mais profundas como as de gente bestial a ser amansada e de animais racionais. Em 1532 a igreja católica se pronuncia declarando os índios como entes humanos como os demais homens, declaração esta, que causou tantos incômodos a muitos e tentativas de provas em contrário.

As tentativas maiores de provar cientificamente a não humanidade dos índios se dão ao longo do século XIX. As motivações obviamente são econômicas. Ganância e ambição, como já afirmamos são o motivo fundamental. Vejamos como Manuela Carneiro da Cunha enuncia a questão: Paradoxalmente, com efeito, é no século XIX que a questão da humanidade dos índios se coloca pela primeira vez. O século XVI - contrariamente ao que se podia supor pela declaração papal de 1532 afirmava que os índios tinham alma - jamais duvidara de que se tratava de homens e mulheres. Mas o cientificismo do século XIX está preocupado em demarcar claramente os antropoides dos humanos, e a linha de demarcação é sujeita a controvérsias. Blumenbach, um dos fundadores da antropologia física, por exemplo, analisa um crânio de Botocudo e o classifica a meio caminho entre o orangotango e o homem". Certamente é a isso que se chama de racionalidade técnica ou instrumental.

Mas o motivo que me leva a escrever este post é o raciocínio elaborado por um cidadão de Estrasburgo, ainda por cima um abade, que procrastina toda a possibilidade de futuro na América. Trata-se de Cornelius de Pauw. Eu explico. Só não entendo como esta teoria não foi mais explorada para justificar possíveis teorias sobre a nossa inferioridade. Talvez porque a abrangência da teoria atinge a todos, não se restringindo a classes. Estas teorias estão no conjunto das teorias raciais e deterministas da inferioridade intransponível do povo que veio se formar aqui no Brasil e de uma maneira geral em toda a América. Mas vejamos a história contada por Manuela:

"O célebre naturalista francês Buffon havia defendido a tese de que a natureza nas Américas fenecia sem chegar a seu pleno acabamento: era o continente dos animais miúdos, que não rivalizavam com os portentosos elefantes e rinocerontes africanos". Até aí tudo bem, uma simples constatação. Mas vejam o que fez o abade de Estrasburgo. Manuela continua contando:

"Alguns anos mais tarde, em 1768, um abade de Estrasburgo, Cornelius de Pauw, publica um livro em que extrapola à humanidade nas Américas o que Buffon havia dito de sua fauna. Assim como grandes animais não podiam vingar no Novo Mundo, a espécie humana estava igualmente destinada a degenerar nessas regiões sem chegar a atingir a maturidade: como prova bastavam os índios, que seriam a senescência de uma humanidade prematuramente envelhecida e destinada à extinção". O que não faz o estudo..., a ciência?
A razão cínica, instrumental e técnica produziu teorias absurdas sobre os indígenas e que foram pouco refutadas no Brasil.

Manuela ainda faz uma observação muito perspicaz a respeito da repercussão dessa teoria: "Pouco discutida no Brasil, embora muito mal recebida nos EUA e nos países latino-americanos, que a entendiam como uma condenação global da possibilidade de civilização no Novo Mundo, essa teoria conheceu no entanto aqui dois defensores célebres. Um foi Von Martius que, em ensaio oferecido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sobre o Estado de Direito entre os índios do Brasil, concluía com as exatas ideias de De Pauw; outro foi o grande historiador Varnhagen..."

Eu fico impressionado sempre que vejo as interpretações de Brasil feitas pela nossa elite. Fico admirado de sermos o que somos, apesar de termos sido assim pensados. Mas tomo as palavras da antropóloga e professora Manuela Carneiro da Cunha para concluir este texto. "Essas ideias, que atribuem à natureza e à fatalidade de suas leis o que é produto de política e práticas humanas, são consoladoras para todos à exceção de suas vítimas".


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Índios no Brasil - História, Direitos e Cidadania. Manuela Carneiro da Cunha.


A cada dia que passa, mais cresce a minha admiração por Antônio Cândido. Termino de ler mais uma de suas indicações dos dez livros fundamentais para se compreender o Brasil. Uma indicação sua nunca deixará de ser uma grande referência. Trata-se de Índios no Brasil - História, direitos e cidadania, de Manuela Carneiro da Cunha, uma publicação da claroenigma, do grupo da Companhia das Letras. A autora é antropóloga, professora da USP e da Universidade de Chicago e foi uma das principais responsáveis para inscrever na atual Constituição brasileira o capítulo relativo aos direitos dos indígenas.
Índios no Brasil - História, direitos e cidadania. O belo livro de Manuela Carneiro da Cunha.

O livro possui cinco capítulos e, como o sub-título do livro nos indica, ele abrange história, direitos e cidadania. Escolho um parágrafo do livro como sendo uma espécie de síntese: "No século XVI, os índios eram, ou bons selvagens para uso na filosofia moral europeia, ou abomináveis antropófagos para uso na colônia. No século XIX, eram, quando extintos, ou símbolos nobres do Brasil independente e, quando de carne e osso, os ferozes obstáculos à penetração que convinha precisamente extinguir. Hoje, eles são ora os puros paladinos da natureza ora os inimigos internos, instrumentos da cobiça internacional sobre a Amazônia".

O livro é estruturado em cinco capítulos, sendo o primeiro, introdução a uma história indígena, o segundo, imagens dos índios do Brasil no século XVI, o terceiro, a política indigenista no século XIX, o quarto, três peças de circunstância sobre direitos dos índios e o quinto e último irá tratar sobre o futuro da questão indígena. Após a sua leitura você poderá dizer que você tem uma visão bastante abrangente sobre este tema, tão controverso ao longo de nossa história.
A gravura que ilustra o primeiro capítulo do livro, um capítulo de introdução ao tema.

O primeiro capítulo dá destaque aos signos sob os quais se deu a colonização, sendo os principais a ganância e a ambição dos colonizadores. Descreve as consequências de sua aculturação, como as epidemias que os dizimavam, facilitadas pelos aldeamentos promovidos pelas atividades missionárias. Também mostra as diferentes utilizações que deles fez o branco, usando-os para a escravidão, como parceiros para o escambo ou ainda, como aliados na luta contra os invasores estrangeiros. Mostra ainda o deslocamento das intenções do branco com relação ao seu foco de interesses, como a exploração do trabalho escravo, de seu extermínio para se apoderar de suas terras e, finalmente estavam de olho nas riquezas do subsolo.
Quadro que ilustra o segundo capítulo livro.

O segundo capítulo junta a literatura sobre os índios que existia no século XVI, coletando o que sobre eles se escreveu ao longo dos descobrimentos, com destaque aos primeiros relatos escritos por Américo Vespúcio e os contidos na carta de Caminha. A carta escrita num belo português foi o primeiro documento relativo a eles, embora fosse conhecido tardiamente, apenas em 1773. Foi um diário com preciosas anotações entre os dias 22 de abril e 10 de maio de 1500. A estas versões se acrescentaram depois, depoimentos de missionários e viajantes. Os primeiros relatos lhes conferem as qualidades de inocência e docilidade além de constatarem a ausência de crenças. Gândavo destaca a ausência das letras F - L - R em seu alfabeto. Não tinham Fé, não tinham Leis e não tinham Religião. O canibalismo e a sua vida sexual também faziam parte destes relatos. Também aí se encontram as duas famosas observações de Montaigne sobre os índios que haviam sido levados à Europa. Eles estranharam demais que homens feitos obedecessem a uma criança (o rei) e de que houvesse numa mesma sociedade a existência de ricos e de mendigos.

O terceiro capítulo tem a abrangência de todo o século XIX. O Brasil no século XIX foi ao longo de seu curso, uma colônia no seu começo, uma monarquia ao longo de quase todo o seu curso e uma república ao seu final. Isso necessariamente provocou diferentes olhares sobre a questão indígena. Duas teorias rivalizavam com relação ao que fazer com os índios.  O dilema estava entre dizimá-los ou civilizá-los. Se eram humanos ou não fundamentava estas teorias. Havia uma teoria interessante que dizia que não havia possibilidades civilizatórias no Novo Mundo, alegando para isso, que na América, até no reino animal, só havia aqui animais de pequeno porte, o que se diria então dos humanos. A visão começou a mudar com as intervenções de José Bonifácio. D. João VI era partidário de extermínio. Já a Constituição de 1824 simplesmente omite por completo a questão dos índios.
Fotografia que ilustra o quarto capítulo do livro.

O quarto capítulo, as três peças, são três textos da autora em que ela aborda os principais temas relativos às questões indígenas. Do SPI à Funai, sobre a concepção de tutela e sobre a questão de seus direitos. Junto com frei Francisco da Vitória, um espanhol do século XVI, contesta o direito da descoberta, propondo uma inversão desta descoberta. O que teria acontecido com a Europa, se esta tivesse sido descoberta pelos americanos.Também a visão do marechal Rondon e o seu positivismo é examinado.

O tema do quinto capítulo está explícito no seu enunciado. O futuro da questão indígena. População indígena, direito às terras,o seu subsolo, a sua cidadania e seus direitos inscritos na Constituição formam a base do capítulo. É impressionante o seu relato com relação ao conflito das terras. Em 85% dos territórios demarcados existe algum tipo de conflito. A discussão dos recursos hídricos e minerais, a biodiversidade e a sociodiversidade completam os temas do texto. O tema da biodiversidade é algo de extraordinário e merece muito maior destaque do que normalmente o tema desperta. É preciso formar a consciência.
A fotografia que ilustra o quinto e último capítulo do livro.

Em suma, é o tema que menos estudamos na formação do povo brasileiro e em consequência é também o tema do qual menos consciência temos. Creio que em muito ainda prevalece a mentalidade do século XIX, quando se discutia sobre o seu extermínio ou a sua aculturação, quando o direito fundamental de um povo é o direito de ser ele próprio.    

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Vale dos Vinhedos. Bento Gonçalves.


Um dos encantos deste país é a serra gaúcha. Num raio de um pouco mais de cem quilômetros ela mostra todas as suas maravilhas. Mostra pujanças industriais e grandes centros urbanos como Caxias do Sul e o seu polo metal mecânico e Bento Gonçalves, o maior parque moveleiro do país. Mostra belezas incomparáveis, de engalanamento da natureza em Canela, Gramado e Nova Petrópolis. Canela mostra a sua imponente igreja, competindo com a obra da natureza, a cascata do Caracol. Gramado, além do belo lago Negro foi transformada, não pela minha vontade, num enorme shopping a céu aberto. Nova Petrópolis, a cada dia que passa, se transforma  mais no seu fabuloso pórtico de entrada, que a todos dá as boas vindas.
Um mapa sempre ajuda na localização. O verde junto a Garibaldi e Bento Gonçalves, indica a localização do Vale dos Vinhedos.

Em meio a este cenário existem também as pequenas e bucólicas cidadezinhas, que preservam as tradições italianas e o seu maravilhoso dialeto, trazido da região do Vêneto. Inspirados em Verona e no seu casal de adolescentes alucinados, cultivam seus amores e suas paixões, rompendo todas as barreiras. Uma santa milagreira opera milagres, quando as dificuldades da vida se tornam intransponíveis. A Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha.
Veja as distâncias que devem ser percorridas para se chegar ao paraíso do Vale dos Vinhedos.

Embora  toda a religiosidade trazida pelos imigrantes católicos, ritos pagãos também são cultivados e, generosos agradecem, não sei a Dionísio ou a Baco, pela procedência deve ser Baco, o maravilhoso presente da uva. Lhe cantam canções repletas de saudade e de nostalgia, canções trazidas da pátria distante. Mas o amor à nova terra, tão cheia de prodigalidades, os faz cantar também novas canções, derretendo seus corações em novos amores na terra abençoada: Da uva vem o vinho - Do povo vem o carinho - Bondade nunca é demais. Estas são as lembranças que leva da região o turista visitante. O vinho, o carinho e a bondade.
Aqui se inicia a visita na vinícola da Miolo.

Este povo chegou ao Rio Grande a partir dos idos de 1871 e na região, a partir de 1875. Teve que subir a serra para se estabelecer. Os vales já estavam ocupados pelos alemães. Mas, para quem transpôs o mar, trazendo na bagagem pouca coisa a mais do que a enorme esperança, insignificantes seriam as dificuldades da subida da serra, terra de muitas encostas, que logo foram desbravadas e cobertas de parreirais. A uva passou a ser a grande marca deste povo. Primeiro num vinho rústico, mas puro, para o próprio consumo. Com o passar do tempo, vai ganhando sofisticação. Hoje seus vinhos e espumantes, pela qualidade, ganham o mundo.

A bondade, como diz a música, os congraçou no espírito comunitário e cooperativo. Este espírito atingiu o econômico e uma de suas melhores experiências comunitárias se traduz pelo que ficou conhecido, como o Vale dos Vinhedos. O vale é maravilhoso. Ele se compõe de uma rodovia, ao longo da qual se estabeleceram as vinícolas e as suas cantinas. Hotéis, restaurantes e outras lojas, especialmente de produtos da agricultura e do artesanato local complementam o caminho e, tudo isso, em meio a uma paisagem deslumbrante. A Géia e Dionísio te aproximam do mágico, especialmente se você já tiver feito algumas degustações.
No início da visita na Miolo, as diferentes qualidades da uva e a sua procedência.

As vinícolas, associadas na Aprovale, oferecem degustações e vendas a varejo. São quase trinta as vinícolas que podem ser visitadas. Sempre gostei da visita e degustação da Miolo. Lá vale a pena comprar a degustação mais cara, pois além de degustar os melhores vinhos, você recebe o dinheiro de volta para fazer compras na sua loja, no varejo. A visita começa nos parreirais, onde são mostradas as principais uvas e a sua procedência. Na sequência, todo o processo de transformação da uva em vinho é mostrada, com destaque ao envelhecimento dos vinhos e os seus ganhos em qualidade. A visita termina com degustação e compras. A degustação na Casa Valduga também vale a pena e o D. Cândido é uma figura humana típica que vale a pena conhecer. Compras para o consumo cotidiano eu compro na Vinhos Larentis, honestos na qualidade e no preço. Para os de domingo, mais caros, fica a critério.
Uma vista geral da vinícola da Miolo.

A cozinha italiana é outro atrativo. São mais de dez restaurantes. Como sou muito fiel aos lugares que me servem bem, sempre vou ao Sbornea's Restaurante, do qual, segundo o seu dono, os meninos do Tangos e Tragédias, tomaram o nome da República da Sbórnia. É impossível experimentar de tudo. Até dá vontade de comer apenas a sopa de capeletti. Hotéis e pousadas de muitas estrelas se entremeiam ao céu estrelado. Outra coisa importante. O vale dos vinhedos é absolutamente chique. Se veste de acordo com cada estação do ano, seguindo rigorosamente a moda da estação, num colorido de encher os olhos. Assim, para conhecer bem o vale, você deverá visitá-lo, ao menos quatro vezes por ano. E, de quebra, você faz o reabastecimento.

Em Garibaldi, o milagre da uva transformada em vinho, jorrando de uma fonte.

A última batalha em que os vitivinicultores estão envolvidos é a da qualidade inconteste de seus vinhos, na busca da certificação da Denominação de Origem. Veja como a Aprovale apresenta esta busca: "Os vinhos do Vale dos Vinhedos apresentam identidade, sendo os únicos no Brasil a pleitear a classificação de denominação de origem (D.O.). A região foi a primeira no país a ser reconhecida como Indicação Geográfica, sendo garantida pela APROVALE a origem dos vinhos finos aqui produzidos. Os rótulos que irão ostentar a D.O. exprimem a excelência do terroir do Vale dos Vinhedos, seguindo rígidos padrões tanto no cultivo das uvas como na elaboração dos vinhos. Entretanto, a qualidade dos produtos pode ser comprovada em cada uma das garrafas elaboradas pelas empresas associadas. As mais de três dezenas de vinícolas situadas no vale estão abertas à visitação ao longo de todo o ano, assim como podem ser realizadas visitas guiadas, degustações comentadas e jantares harmonizados com atendimento feito por enólogos e pelas famílias dos empreendedores".
Este é o Vale dos Vinhedos. Ao longo desta rodovia estão as vinícolas, as cantinas e as outras atrações.

Junto ao Vale dos Vinhedos existem outras pequenas cidades muito aprazíveis e centradas em torno da produção do vinho e dos espumantes, com destaque especial para Garibaldi, a vizinha tão próxima. E, como comecei, não distante dali existem os outros encantos, os de Canela, Gramado e Nova Petrópolis. Seguramente um dos lugares que você deve por na lista daqueles que vale a pena visitar. Com certeza, não haverá arrependimento.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Tributo a Harmonia III. A Terra em que eu nasci. Fotos.

Recebi algumas fotos antigas de Harmonia. Um tributo à sua história. Uma é do cônego Oscar Francisco Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de 50 anos. A foto me foi enviada por Antônio Kunzler e mostra o cônego Mallmann em visita ao seu avô, José Arhtur Rech, que era o meu tio, irmão do meu pai. Vejam como era o trabalho de um pároco naqueles tempos. Antônio Kunzler é hoje uma das maiores lideranças comunitárias de Harmonia e uma força maior, na sua expressão política.
De quando será esta foto? Eu nasci nas proximidades deste lugar.

O cônego Mallmann foi vigário de Harmonia de 1930 a 1981, como mostra a placa que está na entrada da igreja matriz de Harmonia. Depois disso, ainda ficou mais algum tempo como padre auxiliar. Dá para imaginar o poder que este homem tinha sobre a população?

Outra foto do cônego Mallmann está na porta de entrada da igreja matriz de Harmonia. Foto em sua homenagem, obviamente.

Outras fotos antigas de Harmonia eu copiei do FB de Enio Roberto Klein, que em nossos saudosos tempos de piá, foi colega de escola. 
Creio que os saudosistas de Harmonia facilmente conseguem identificar estas fotos. Mas vamos também por duas fotos da Harmonia de hoje, fotos por mim tiradas, agora no mês de outubro, quando lá estive.
A primeira é de sua pomposa igreja matriz e a segunda é uma visão panorâmica de sua rua central, tirada das proximidades da matriz. Esta é a Harmonia que me moldou em meus anos de formação, a Harmonia da minha infância, adolescência e mesmo de algum tempo da minha juventude. Depois o Paraná me acolheu. Primeiramente em Umuarama e agora e definitivamente, na cidade de Curitiba.
Hoje é 06.10.2017. Faço o acréscimo desta foto que encontrei no livro Os Muckers, do padre Ambrósio Schupp SJ. Pelos meus cálculos, o livro é anterior a 1910. É da segunda edição e é uma tradução do alemão, feita por Alfredo Cl. Pinto. Possivelmente seja a primeira foto de Harmonia.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Aqui se misturou tudo que é nação, para formar a nação brasileira". Jorge Amado. Tereza Batista.

Quando as diversidades são tão valorizadas e ao mesmo tempo provocam tantos preconceitos, deixo aqui um belo texto de Jorge Amado, de exaltação da mesma. O texto é retirado de Tereza Batista - cansada de guerra. Quase ao final do livro, Jorge, pela voz de Dona Lalu, sua mãe, anuncia que Tereza Batista é o povo brasileiro. Ao mesmo tempo tão sofrida e tão alegre e esperançosa. Vejamos Dona Lalu, na voz geral da benquerença, em sua proclamação: "...lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece com o povo, e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão". A exaltação à diversidade vem em forma de literatura de cordel, possivelmente a mais brasileira , a mais característica das literaturas.
Neste livro de Jorge Amado encontramos esta bela exaltação à diversidade, na formação do povo brasileiro

"Da nação de Tereza Batista, meu egrégio, não posso lhe render contas. Tem uns sabidos por aí, alguns letrados de faculdade, outros com bolsas de estudo, que lidam com tais assuntos, destrinchando com ciência e ousadia os avós de cada um, obtendo resultados positivos, não sei se exatos mas de certo favoráveis aos netos; e até conheço um topetudo que se apresenta como descendente de Ogum - imagine que pesquisador mais porreta lhe pesquisou a família, certamente foi ele próprio e com muita galhardia, não se devendo confiar a terceiros fundamento tão melindroso.

Como sabe o nobre patrício, aqui se misturou tudo que é nação para formar a nação brasileira. Num traço do rosto, num meneio do corpo, na feição do olhar, na maneira de ser, quem tem olho e conhece do assunto encontra um rastro e partindo daí esclarece parentesco remoto ou como a mistura se deu. Vai se ver e o garganteiro é mesmo primo de Ogum, nem que seja bastardo, pois se conta que tanto Ogum como Oxóssi frequentavam, com fins de descaração, umas filhas-de-santo na Barroquinha. Se lhe parece invenção, cobre o dito ao pintor Carybé, é ele quem espalha essas histórias de encantados, pondo na frente Oxóssi, como aliás é justo e certo fazer.
A primeira edição de Tereza Batista. 1972.

Falando de Tereza Batista, por quem o ilustre tanto se interessa, muita coisa se diz e há pleno desacordo, total; opiniões diferentes, discussão prolongada na cachaça e no prazer da conversa. por malê, muçurunim e hauçá houve quem a tomasse e lhe dissesse em achegos de frete. Alguns a enxergaram cigana, ledora de mão, ladrona de cavalo e de criança pequena, com brincos de moeda nas orelhas, pulseiras de ouro, dançando. Segundo outros, cabo-verde, pelos rasgos de índia, certa reserva quando menos se espera, os negros cabelos escorridos. Nagô, angola, jejê, ijejá, cabinda, pela esbeltez congolesa, de onde veio seu sangue de cobre a tantos outros sangues se misturar?Com a nação portuguesa se melou, todos aqui se melaram. Não me vê negro assim?Pois quem primeiro se deitou na cama de minha avó foi um militar português.

Nas brenhas dão de barato um mascate nas amizades de Miquelina, bisavó de Tereza; quando digo mascate espero não ser preciso esclarecer tratar-se de árabe, sírio ou libanês, na voz geral tudo é turco. No sertão onde Tereza nasceu passa a divisa, ficando por isso difícil saber quem é da Bahia, quem de Sergipe, quanto mais se o mascate chamou aos peitos a roceira apetitosa. Até onde a memória alcança, as mulheres da família eram de encher o olho e de levantar cacete de morto e foram se aprimorando até chegar a Tereza, embora eu já tenha ouvido dizer por mais de um fofoqueiro ser ela feia e malfeita, cativando os homens no feitiço, na mandinga, no ebó ou por gostosa e sabida de cama, não por bonita. Veja o preclaro patrício quanta contradição; e depois querem que se acredite em testemunha de vista e nos calhamaços de história.
Histórias de Tereza Batista em literatura de cordel.

Não há muito eu estava bem do meu, comendo uns beijus molhados, na minha barraca, quando um presepeiro começou a contar a uns senhores paulistas e a uma paulistinha rosada, quindim para boca de rico, toda em sorrisos, ai se eu não fosse um homem bem casado... Como ia lhe dizendo antes que me interrompesse a mimosa flor de São Paulo, o gabola, menino moderno sem traquejo na mentira, querendo fazer média com os visitantes, garantiu que Tereza era loira, brancarrona e gorducha, da verdadeira só lhe deixando a valentia e assim mesmo com o fim de bancar o machão e acabar com a fama de Tereza à força de gritos - disse que estando Tereza a fazer arruaça, ele a chamou à ordem, com um carão de dois berros - e durma-se com um barulho desses. Aqui, no Mercado Modelo, meu eminente, a gente ouve cada coisa de estarrecer, mentiras de se pregar na parede com martelo russo e prego caibral.

Se eu fosse o nobre patrício deixava de parte esse negócio de nação; que vantagem lhe rende saber se nas veias de Tereza corre sangue malê ou angola, se o árabe teve a ver com o assunto ou se foram os ciganos acampados na roça. Me contou um moço de lá ter uma certa dona Magda Moraes, em depoimento na polícia, apoiado pelas irmãs, classificado Tereza de negrinha de raça ruim, estupor. De loira a negrinha, de formosa sem igual a feiona e malfeita, nesses pátios do Mercado, Tereza anda de boca em boca; em minha barraca, ouço e me calo; quem dela sabe mais do que eu, não me tomou de compadre?
As histórias de Tereza Batista contadas pelo mundo, nas mais diferentes línguas.

Sobre a nação de Tereza outras referências não posso lhe adiantar, não me consta fosse ela a própria Iansã; mabaça ou prima possa ser, seguindo nas águas do parente Ogum. Quanto à vossa própria nação, meu graúdo, sem ir longe nem faltar à verdade, posso de logo enxergar a mistura principal: escuto sob a brancura da pele um ronco surdo de atabaques - o lorde é de nação de primeiríssima lhe digo eu, Camafeu de Oxóssi, obá de Xangô, estabelecido no Mercado Modelo, com a Barraca São Jorge, na cidade da Bahia, umbigo do mundo".

De todas as mulheres de Jorge Amado, apesar de aproximações, de flertes e namoricos com Gabriela e Tieta, confesso que, por quem eu me apaixonei mesmo, foi por Tereza Batista. Tereza Batista, ou o povo brasileiro.



   

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Tereza Batista - Cansada de Guerra. Jorge Amado.

Jorge Amado escrevia fácil e bonito, embora ele negasse o fácil. Estou eu aqui, pensando bobagem, querendo comparar os livros de Jorge. Tarefa impossível. Todos tem a sua grandeza, a grandeza de Jorge. Mas se tem um livro em que Jorge efetivamente se empenhou, deve ter sido este, Tereza Batista - Cansada de Guerra. Para isto ele tinha um motivo. Tereza Batista é o povo brasileiro, o sofrido povo brasileiro. Ao mesmo tempo tão sofrido e tão feliz, mais sofrido do que feliz, mas que viveu, nos seus momentos de felicidade, uma felicidade sem par. Não tem como não se apaixonar por Tereza Batista. Não tem como não se apaixonar pelo povo brasileiro.
A versão da edição comemorativa do centenário de Jorge Amado de - Tereza Batista - cansada de guerra. Companhia das Letras

Para dizer que Tereza Batista é o povo brasileiro, o escritor, para anunciar este fato, recorre a toda a sua família e a ninguém menos do que a sua própria mãe para dizê-lo: "Eulália Leal Amado, Lalu na voz geral da benquerença, lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido e nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão". Eis o anúncio feito e, em literatura sob a forma de cordel.
Capa da edição de lançamento de Tereza Batista, em 1972, pela Livraria Martins Editora.

A partir de uma entrevista de Lygia Fagundes Telles, é escrito o posfácio do livro. Ela fala de três Jorges que ela conheceu e daí parte para as mulheres, personagens de Jorge e em especial para Tereza Batista: "Não são mulheres solitárias, elas precisam do homem assim como o homem precisa delas, na alegria, sim, principalmente na alegria. Assim essas mulheres - as de família e as putas - estão sempre liderando as histórias de amor. A vida virou um artigo de luxo? Então as mulheres consideradas alegres tem que ser pagas por assim compensar as mulheres casadas e em geral tristes, lamurientas, porque, ah! os filhos, os gastos, os problemas... Olha aí o homem fugindo do cotidiano familiar para se divertir nos cabarés das profissionais pagas pelos coronéis para o amor sem compromisso, viva o presente que é irresponsável e tem bebida e tem marinheiros e música... As mulheres sem máscaras, essas as grandes personagens que Jorge Amado escolhia sem o menor preconceito e sem perder a doçura porque quem gosta da vida não gosta da morte. Daí não atormentar essa vida com a ameaça do fim, ah! a saudável alegria antes do ponto final A vida com bom humor. Repito, neste país país tão pobre e tão rico era preciso mesmo conquistar o leitor, parceiro do escritor, ou melhor, cúmplice desse escritor..."
Tereza Batista e suas colegas de ofício salvam a população da epidemia da bexiga negra.

Para os materialistas e para os racionais, Jorge deixa uma advertência, afinal, a história se passa na Bahia: "Não discuto a conta feita pelo amigo, o número certo das intervenções indébitas mas não se esqueça que o caso se deu na cidade da Bahia, situada no oriente do mundo, terra de esconjuros e ebós. Aqui, meu prezado, os absurdos são o pão de cada dia desse povo incapaz de inventar uma mentira ainda mais no propósito de assunto tão mexido". São milagres demais que acontecem, especialmente, na parte final do livro, no episódio do balaio fechado das prostitutas, quando o próprio Exu faz as mais terríveis ameaças para todos os envolvidos neste movimento. Ai de quem furasse a greve!

A primeira aparição de Tereza Batista no livro, ocorre em um bordel de Aracaju, a famosa casa Paris Alegre, de Flori Pachola. Nesta casa a artista dança e intervém nas confusões, especialmente, quando mulher apanha. Tereza Batista, em antecipação à lei Maria da Penha, não suporta ver mulher apanhando e quando isto acontecia, ela intervinha, feroz. Um encontro casual em Aracaju, com o homem do mar, o navegador Januário Gereba, o Janu, de "algemas na mão e grilhetas nos pés", a enfeitiça, num amor impossível. Mas não para ela. Ela esperaria o tempo necessário.

Os sofrimentos de Tereza Batista começaram muito cedo, quando a pequena órfã foi vendida pela tia para o capitão Justiniano Duarte da Rosa, no qual Jorge personifica toda a maldade e perversidade da elite brasileira. O capitão usa uma coleira com argolas de ouro, cada argola representando uma menina deflorada. Só as meninas virgens mereciam argola. Tereza Batista tentou resistir. A obediência lhe veio com pancadas e tabefes, com chicotadas de taca de couro cru e com o ferro de passar, aceso. A maldade prossegue com Daniel, o filho do meritíssimo, que corneando o capitão, se aproveita da menina e a ilude e engana. Um mundo de horrores e falsidades. Nestas circunstâncias comete assassinato, mata o próprio capitão.
Edições, mundo afora, de Tereza Batista - cansada de guerra.

As doçuras ela experimenta com o coronel, usineiro e banqueiro, Emiliano Guedes,o homem do rebenque e da Rosa. Para Tereza, apenas a Rosa. Além de dinheiro ele possuía uma família, totalmente desajustada. Agora passa a ter também Tereza. As tragédias de sua vida familiar, lhe interrompem seis anos de vida feliz. Morre de felicidade, em cima de Tereza, para escândalo da sociedade. Novamente abraça o infortúnio. Isso tudo se passa na cidade de Estância, no Sergipe.

Não lhe sobrando alternativas de vida, com a vida que leva com as companheiras, escreve novas páginas de heroísmo em Buquim e Muricapeba. Entre as doenças brabas, como a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, xistossomose, a mais braba era a bexiga, de rápida contaminação e morte ligeira. A bexiga fez médico e enfermeira fugir. Só sobrou Tereza para lavar feridos e aplicar vacina. Tereza e suas colegas de ofício. Como gratidão, em vez de busto na praça, o medo da contaminação lhe roubou a freguesia. Foi procurá-la em outras plagas.

Atrás de Janu, vem se estabelecer na Bahia. Todos os dias vai ao porto saber de Januário. Fica sabendo que ele não tem mais as mãos algemadas, nem grilhetas nos pés. A esposa falecera. Entre a espera de notícias de Janu, ocorre o mais grave dos episódios narrados no livro, a greve das prostitutas. Elas deveriam ser transferidas da Barroquinha para a ladeira do Bacalhau. A greve do chamado Balaio Fechado, que seria uma sexta feira da paixão, em pleno romper da primavera, irrompeu  no dia em que no porto chegaram três navios de soldados americanos. Tereza e as ameaças de Exu a possíveis fura-greves, tornaram o movimento vitorioso. Até fuga para a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Negros houve, como também, procissão em honra de Santo Onofre, o padroeiro das prostitutas. Por que santo Onofre é o padroeiro das prostitutas eu não sei dizer e, muito menos, Jorge o contou.

O famoso episódio da greve do Balaio Fechado, em literatura de cordel.

Nas suas andanças, as paixões de homens sempre se renovaram por causa de sua extraordinária beleza. Um novo homem bom entra em sua vida, o viúvo Almério das Neves. Agora é ela que tem as algemas nas mãos e grilhetas nos pés, pelo amor por Janu, aquele do encontro de Aracaju e já sabedora da morte de sua mulher. Mas descobre-o morto no mar, num naufrágio nas costas do Peru. Esta morte a fere de dor mortal. Vida para dar, já não tem mais. Assim oferece companhia para Almério, num casamento em que a Bahia inteira foi convidada para a festa. Os que não foram vieram de incheridos. Na festa, a maior que a Bahia já conheceu, Caymmi, Caetano e Gil cantaram, a orquestra dos castelos e seus jazz band animaram os convidados. Mas festa mesmo, só aconteceu, quando o trio elétrico puxou animada festa de carnaval. Era o povo brasileiro em festa.

Quando o casamento ia se celebrar, Januário Gereba apareceu. O casamento "embucetou", não aconteceu e muito menos o povo ficou sem festa. A festa era de Tereza Batista. A festa era de todo o povo brasileiro.