terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Seriam os índios seres humanos? Teorias a respeito.


Termino de ler o livro de Manuela Carneiro da Cunha Índios no Brasil - história, direitos e cidadania. O livro é estruturado em cinco capítulos sobre os temas expressos no subtítulo. Dois deles me impressionaram mais especificamente, por abordarem a questão de como os brancos viram os índios ao longo do tempo. O capítulo segundo aborda as visões do século XVI e o terceiro as visões do século XIX. A ganância e a ambição determinaram estas visões. É impressionante como as teses do século XIX, que em nome da racionalidade chegaram a argumentos que eram simplesmente irracionais. Coisas da derivação da lógica formal.
É fundamental a leitura deste livro para a compreensão da questão indígena no Brasil.

Os dois mais impressionantes documentos do século XVI sobre os índios são a carta de Caminha e os relatos de Américo Vespúcio. Além de descrições superficiais já se constatam nestes documentos observações mais profundas como as de gente bestial a ser amansada e de animais racionais. Em 1532 a igreja católica se pronuncia declarando os índios como entes humanos como os demais homens, declaração esta, que causou tantos incômodos a muitos e tentativas de provas em contrário.

As tentativas maiores de provar cientificamente a não humanidade dos índios se dão ao longo do século XIX. As motivações obviamente são econômicas. Ganância e ambição, como já afirmamos são o motivo fundamental. Vejamos como Manuela Carneiro da Cunha enuncia a questão: Paradoxalmente, com efeito, é no século XIX que a questão da humanidade dos índios se coloca pela primeira vez. O século XVI - contrariamente ao que se podia supor pela declaração papal de 1532 afirmava que os índios tinham alma - jamais duvidara de que se tratava de homens e mulheres. Mas o cientificismo do século XIX está preocupado em demarcar claramente os antropoides dos humanos, e a linha de demarcação é sujeita a controvérsias. Blumenbach, um dos fundadores da antropologia física, por exemplo, analisa um crânio de Botocudo e o classifica a meio caminho entre o orangotango e o homem". Certamente é a isso que se chama de racionalidade técnica ou instrumental.

Mas o motivo que me leva a escrever este post é o raciocínio elaborado por um cidadão de Estrasburgo, ainda por cima um abade, que procrastina toda a possibilidade de futuro na América. Trata-se de Cornelius de Pauw. Eu explico. Só não entendo como esta teoria não foi mais explorada para justificar possíveis teorias sobre a nossa inferioridade. Talvez porque a abrangência da teoria atinge a todos, não se restringindo a classes. Estas teorias estão no conjunto das teorias raciais e deterministas da inferioridade intransponível do povo que veio se formar aqui no Brasil e de uma maneira geral em toda a América. Mas vejamos a história contada por Manuela:

"O célebre naturalista francês Buffon havia defendido a tese de que a natureza nas Américas fenecia sem chegar a seu pleno acabamento: era o continente dos animais miúdos, que não rivalizavam com os portentosos elefantes e rinocerontes africanos". Até aí tudo bem, uma simples constatação. Mas vejam o que fez o abade de Estrasburgo. Manuela continua contando:

"Alguns anos mais tarde, em 1768, um abade de Estrasburgo, Cornelius de Pauw, publica um livro em que extrapola à humanidade nas Américas o que Buffon havia dito de sua fauna. Assim como grandes animais não podiam vingar no Novo Mundo, a espécie humana estava igualmente destinada a degenerar nessas regiões sem chegar a atingir a maturidade: como prova bastavam os índios, que seriam a senescência de uma humanidade prematuramente envelhecida e destinada à extinção". O que não faz o estudo..., a ciência?
A razão cínica, instrumental e técnica produziu teorias absurdas sobre os indígenas e que foram pouco refutadas no Brasil.

Manuela ainda faz uma observação muito perspicaz a respeito da repercussão dessa teoria: "Pouco discutida no Brasil, embora muito mal recebida nos EUA e nos países latino-americanos, que a entendiam como uma condenação global da possibilidade de civilização no Novo Mundo, essa teoria conheceu no entanto aqui dois defensores célebres. Um foi Von Martius que, em ensaio oferecido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sobre o Estado de Direito entre os índios do Brasil, concluía com as exatas ideias de De Pauw; outro foi o grande historiador Varnhagen..."

Eu fico impressionado sempre que vejo as interpretações de Brasil feitas pela nossa elite. Fico admirado de sermos o que somos, apesar de termos sido assim pensados. Mas tomo as palavras da antropóloga e professora Manuela Carneiro da Cunha para concluir este texto. "Essas ideias, que atribuem à natureza e à fatalidade de suas leis o que é produto de política e práticas humanas, são consoladoras para todos à exceção de suas vítimas".


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