quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Velho Graça - Uma Biografia de Graciliano Ramos.

"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Esta é praticamente a caracterização final que Dênis de Moraes faz de Graciliano Ramos na magnífica biografia que ele escreve sobre o escritor alagoano.
O velho Graça, uma biografia de Graciliano Ramos, escrita por Dênis de Moraes. Boitempo.

Dênis deixa uma palavra aberta a mais para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade". 

Creio que estas frases que aparecem ao final da biografia se constituem numa síntese do que foi efetivamente a vida deste sofrido escritor, o Dostoiévski do sertão ou o Tolstoi brasileiro. Com relação à felicidade, parece mesmo, que poucos momentos felizes ele teve. Era um homem muito exigente, especialmente consigo mesmo. Era um homem extremamente sensível, e lhe doíam as injustiças sociais com as quais sempre conviveu, desde os sofridos tempos de sua Alagoas natal, até os cárceres no Recife e no Rio de Janeiro e na vida difícil que levou, depois no Rio de Janeiro, enfrentando as dificuldades econômicas para prover o sustento da família.
Uma marca registrada na vida de Graciliano. A companhia do livro e do cigarro.

O escritor nasce na cidade de Quebrângulo, em Alagoas no ano de 1892. É o mais velho entre 16 irmãos. A família muda-se para Buíque, em Pernambuco e volta para Viçosa em Alagoas. Graciliano vai estudar em Maceió. Aos 18 anos passa a morar em Palmeira dos Índios, Alagoas. Terá uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, voltando novamente para Palmeira dos Índios, onde se estabelece como comerciante. Aos 23 anos já se encontra casado, mas a esposa falece no parto da quarta filha. Em 1928 casa-se com Helena, a esposa que o acompanhou pelo resto de sua vida. A sua vida de escritor começa em 1925, quando começa a esboçar Caetés, o seu primeiro romance.

Tem passagem pela política, elegendo-se prefeito de Palmeira dos Índios aos 35 anos de idade. Passa a exercer cargos políticos no Estado como a de diretor da Imprensa Oficial e diretor da Instrução Pública. Isso foi no ano de 1933, anos de ascensão das ideologias fascistas no Brasil, sob as bandeiras do integralismo. A política lhe trouxe muitos dissabores e sem saber dos motivos, é preso em 1936. Fora julgado subversivo e ele estabelece conjecturas sobre o seu caráter subversivo:
Capa do último livro escrito pelo velho Graça. O desenho foi feito pelo camarada amigo Cândido Portinari.

"Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Ficou preso entre os dias 3 de março de 1936 e 3 de janeiro de 1937, conhecendo o terror da prisão da Ilha Grande. As observações deste período produziram o seu Memórias do Cárcere, publicado logo após a sua morte, em 1953.

Os seus primeiros livros são escritos quando ainda morava em Alagoas. Na sequência, são eles - Caetés, São Bernardo e Angústia. Vidas Secas e Infância são escritos no Rio de Janeiro e são as rememorações de seu sofrido tempo no sertão nordestino. Seus últimos livros serão Memórias do cárcere e Viagem. Estes dois livros causaram muita polêmica. Graciliano sempre foi um homem incomodado com o sofrimento imposto aos homens pelas desumanas condições de vida e foi até preso como subversivo e, subversivo, nesta época, era sinônimo de comunista. Mas Graciliano só veio a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro, o PCB ou partidão em 1945, chegando até a disputar, sem sucesso, uma vaga para a Constituinte pelo seu estado natal de Alagoas.
Capas dos livros de Graciliano Ramos.

A polêmica destes livros se deu em razão de uma radicalização do partidão nos períodos da guerra fria e do macartismo caboclo, que entre outras coisas pôs o partidão na clandestinidade e cassou a sua representação no Parlamento brasileiro. Também apareceram os Zdanovs tupiniquins, ou os seus ventríloquos, que lhe queriam censurar os seus livros, o que ele jamais permitiu. O fato que o levou para o partidão certamente foram as vitórias de Stalin contra o nazismo. Ao mesmo tempo que o PCB lhe trouxe grandes alegrias, também lhe causou muitos dissabores. O seu livro Viagem, retrata a sua visão da URSS, que visitou a convite do partido. De maneira geral gostou do que viu, mas não se isentou de criticar o que vira de errado. A morte o poupou de ouvir as denúncias que Kruschev fez dos crimes praticados por Stalin, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 1956.
Última foto do escritor, que veio a falecer em 20 de março de 1953.

A consagração como escritor lhe veio apenas após a morte. Memórias do Cárcere vendeu dez mil exemplares logo após o seu lançamento. Ganhou depois as universidades e o mundo. E as suas obras também chegaram ao cinema, com os premiados filmes Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do cárcere. Uma coisa ainda a destacar da biografia de Dênis de Moraes. A sua vida foi vivida sob a égide de dois valores maiores, os da dignidade e da integridade.  

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