quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O fim do império cognitivo. A afirmação das epistemologias do sul. Boaventura de Sousa Santos.

Um livro denso. Um livro que se impõe, se você efetivamente pensa num mundo melhor, em que a convivência humana seja minimamente possível. A grande tese do livro O fim do império cognitivo -A afirmação das epistemologias do sul, de Boaventura de Sousa Santos, é a de que as chamadas epistemologias do norte fracassaram e que são absolutamente insuficientes para resolver os graves problemas que a humanidade enfrenta nessas primeiras décadas do século XXI.
O extraordinário livro de Boaventura de Sousa Santos. Pela Autêntica. 2019.

As epistemologias do norte correspondem ao paradigma da racionalidade que emergiu junto com o mundo moderno e em que, basicamente, a razão substituiu a fé, ou nas palavras eruditas de Kant, ao afirmar que "nossa época é propriamente a época da crítica, à qual tudo tem de submeter-se. A religião, por sua santidade, e a legislação por sua majestade, querem comumente esquivar-se dela. Mas desse modo suscitam justa suspeita contra si e não podem ter pretensões àquilo que foi capaz de sustentar seu exame livre e público". Assim a razão substituiu, tanto o altar, quanto o trono. 

Foi uma época de grandes progressos e de muita esperança. O mundo adentrou ao século XX como um século de grande progresso, de prosperidade e, sobretudo, de paz. A razão, pela via da ciência e do entendimento traria a ideia do "progresso indefinido". Mas, mal o século começou e tudo ruiu. Duas guerras, a primeira, a mais sangrenta de todas, e a segunda, com horrores inimagináveis, desacreditaram as crenças. Adorno denuncia a razão como a razão instrumental. O mundo se refez, tanto por revoluções, quanto por reformas. As duas estão desacreditadas no início do século XXI.

Assim, diante da ausência de esperanças e de perspectivas, o mundo das teorias precisa se refazer. As ideologias do norte, representadas pela "deusa razão" são insuficientes para continuar oferecendo esperança, ingrediente fundamental da natureza humana, para que o mundo continue com a ideia do dia de amanhã e ofereça princípios que, minimamente, assegurem a convivência e a sobrevivência da humanidade.

Como as ideologias do norte não mais oferecem essa possibilidade, o mundo da teoria precisa ser reinventado. Boaventura de Sousa Santos nos oferece essa possibilidade, pelo que ele chama de "ideologias do sul". Se as ideologias do norte brotam da razão, da razão instrumental, distante do coração (do corazonar), temos que buscar alternativas nas epistemologias do sul. Nelas o conhecimento emerge não da razão, mas da necessidade. As ideologias do norte impuseram três categorias ao mundo e trouxeram muitas injustiças e, em consequência, muitas revoltas. Essas categorias são o capitalismo, o colonialismo e o patriarcalismo. Nenhuma dessas categorias foi superada, pelo contrário, elas se refizeram a cada dia e continuam impondo cada vez mais dor, sofrimento e riscos permanentes.

Somente as ideologias do sul, com a oferta de conhecimentos que em muito ultrapassam os da fria razão e que são ricas em diversidade, podem se oferecer como alternativas. Alternativas aos "riscos de morte em contexto de conflitos armados dos quais as vítimas, civis inocentes, não são participantes ativos; o risco de doença causado pelo uso massivo - quer legal, quer ilegal - de substâncias perigosas; o risco de violência causado pelo preconceito racial, sexista, religioso, xenófobo e outros; o risco de ver saqueados os seus próprios magros recursos, seja o salário, a pensão de reforma, ou a casa hipotecada [...]; o risco de precariedade no emprego e o risco de frustração das expectativas relativas à estabilidade de emprego necessárias para elaborar planos para o próprio e sua respectiva família. Esse é o grande mundo da experiência do medo sem esperança...".

Como já afirmei o livro tem rara densidade teórica. Estabelece diálogos absolutamente plurais. É dividido em três partes e doze capítulos, além de prefácio, introdução, conclusão e bibliografia. As três partes são: 1. Epistemologias pós-abissais; 2. Metodologias pós-abissais e 3. Pedagogias pós-abissais. Os temas são desenvolvidos ao longo de 478 páginas.

A parte 1 tem os seguintes capítulos: 1. Percursos para as epistemologias do sul; 2. Preparar o terreno; 3. Autoria, escrita e oralidade; 4. O que é a luta; 5. Corpos, conhecimentos e corazonar. Chamo especial atenção para este capítulo 5, para mim, o mais belo do livro.

A parte 2 tem os seguintes capítulos: 6. Descolonização cognitiva: uma introdução; 7. Sobre as metodologias não extrativistas; 8. A experiência profunda dos sentidos; 9. A desmonumentalização do conhecimento escrito e arquivístico.

A parte 3 tem os seguintes capítulos: 10. Gandhi, um arquivista do futuro; 11. Pedagogia do oprimido, investigação-ação participativa e epistemologias do sul (capítulo dedicado a Paulo Freire e ao espanhol Fals Borda); 12. Da universidade à pluriversidade  e à subversidade. A conclusão é uma espécie de síntese muito bem feita do livro e tem por título "entre o medo e a esperança", que segundo Spinoza são as duas emoções básicas da vida. O atual quadro se apresenta como "uma vida na expectativa, sem expectativas".

Dessa conclusão tiro uma passagem muito significativa: "Face a tal fato, o argumento central deste livro é o de que qualquer intervenção que tenha como objetivo interromper esse tipo de política requer a interrupção da epistemologia que lhe está subjacente. Isso significa que a intervenção epistemológica é também uma intervenção política. A essa interrupção dou o nome de epistemologias do sul. Baseado nelas, defendo que não faltam alternativas ao mundo. Falta sim, um pensamento alternativo de alternativas. Esse é o caminho mais seguro para recuperarmos a esperança no nosso tempo. Não esperança sem medo, mas esperança suficientemente resiliente para não se deixar vencer pelo medo sem esperança".

E para deixar claro a grande finalidade do livro, de combate ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcalismo, recorro aos dois parágrafos da contracapa: "Afinal de contas, por que é que o pensamento crítico eurocêntrico se rendeu? Por que desistiu de formular alternativas críveis que explicassem e fortalecessem as lutas contra a dominação e a opressão? Defendo neste livro que para responder a essas questões é imprescindível questionar os alicerces epistemológicos do pensamento crítico eurocêntrico e ir além dele, por mais brilhante e magnífico que seja o conjunto de teorias que ele gerou.

Para recuperar a ideia de que existem alternativas, bem como para reconhecer que as lutas contra a opressão que continuam a ter lugar no mundo são portadoras de alternativas potenciais, é necessária uma mudança epistemológica. O argumento deste livro é que essa mudança se encontra naquilo que chamo de epistemologias do sul". E... vamos cravar bem os inimigos que oprimem: capitalismo, colonialismo e patriarcalismo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Samba-enredo. Mangueira 2020. A Verdade Vos Fará Livre. E também o da Portela.

Mangueira fazendo história. Já em 2019 a escola brindou o povo brasileiro com uma maravilhosa aula de história, de história do Brasil, de um Brasil não oficial. Uma história de um povo negro e índio, num tempero de raças e muita dor. Vamos relembrar.
Já em 2020 a escola volta com outro tema maravilhoso, um tema religioso. Jesus volta à terra, volta para o Rio de Janeiro, volta para o "Buraco quente", onde começou a Mangueira. Jesus volta, filho de carpinteiro, pai desempregado. E a mãe: Maria das Dores Brasil. Os tempos são obscuros, mas a esperança brilha, mesmo na escuridão. E seguem duas mensagens fantásticas: Não tem futuro sem partilha - Nem Messias de arma na mão.
O samba, que é uma reza, foi composto por Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. É narrado em primeira pessoa, isto é, o Jesus da gente é o próprio narrador. Uma letra para tempos obscuros e de muita intolerância não apenas no campo religioso, mas em todas as formas possíveis. Vamos primeiro à letra e depois ao samba cantado pela escola.
Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do Buraco Quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E num domingo verde-e-rosa
Ressurgi pro cordão da liberdade
Vamos ao samba cantado pela escola:
Por ser lindo demais, também deixo o samba enredo da Portela:

“GUAJUPIÁ, TERRA SEM MALES” Autores: Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D’Sousa e Araguaci Intérprete: Gilsinho Clamei aos céus A chama da maldade apagou E num dilúvio a terra ele banhou Lavando as mazelas com perdão Fim da escuridão Já não existe a ira de Monã No ventre há vida, novo amanhã Irim Magé já pode ser feliz Transforma a dor Na alegria de poder mudar o mundo Mairamuana tem a chave do futuro Pra nossa tribo lutar e cantar Auê, auê, a voz da mata, okê, okê arô Se Guanabara é resistência O índio é arco, é flecha, é essência Ao proteger karioka Reúno a maloca na beira da rede Cauim pra festejar… purificar Borduna, tacape e ajaré Índio pede paz mas é de guerra Nossa aldeia é sem partido ou facção Não tem “bispo”, nem se curva a “capitão” Quando a vida nos ensina Não devemos mais errar Com a ira de Monã Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver Pro imenso azul do céu Nunca mais escurecer Índio é tupinambá Índio tem alma guerreira Hoje meu Guajupiá é Madureira Voa Águia na floresta Salve o Samba, salve ela Índio é dono desse chão Índio é filho da Portela

https://www.youtube.com/watch?v=xsPswtxm3cE

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Parasita. Bong Joon Ho. Melhor filme e melhor filme estrangeiro.

Oscar 2020. Algo inédito. Parasita, o filme do diretor e roteirista sul coreano, Bong Joon Ho, ganhou, pela primeira vez na história, o Oscar de melhor filme não falado em língua inglesa. E de quebra e, por óbvio, levou também o prêmio de melhor filme estrangeiro. É..., o mundo do cinema vai para além de Hollywood.
Cartaz promocional de Parasita.

Vou começar o post definindo o que é um parasita, já que o termo, nesta semana, ganhou notoriedade também no Brasil, quando o ministro "Posto Ipiranga" de Bolsonaro, indevidamente chamou os funcionários públicos brasileiros de parasitas. Se o uso de Paulo Guedes do termo "parasita" foi absolutamente inadequado, o mesmo não se pode dizer do diretor e roteirista Bong Joon Ho. Vamos ao conceito, buscando-o no "Aurélio":

1. "Organismo que, pelo menos em uma fase de seu desenvolvimento, se encontra ligado à superfície ou ao interior de outro organismo, dito hospedeiro, do qual obtém a totalidade ou parte de seus nutrientes. 2. Indivíduo que não trabalha, habituado a viver, ou que vive, à custa alheia. (Seria às custas da extração de mais valia)? [...] 5. "Que vive à custa alheia, arrimadiço, pançudo". Me permito aqui buscar uma imagem de um parasita, extraído da natureza. A imagem é a foto, tirada na bela cidade de Bonito, no MS. Na foto uma figueira parasita uma palmeira. Deixo até o post que escrevi a respeito. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/09/bonito-ms-roteiro-de-uma-viagem-forca.html
Fotos em que a figueira vai se entrelaçando com a palmeira e lhe suga a seiva. O resultado é a deformação, tanto da palmeira, quanto da figueira.

Bem, voltamos ao filme. Ou melhor, ao uso do seu título Parasita. Uma metáfora do sistema capitalista. Mas volto, mais uma vez, à palavra e ao seu significado, recorrendo a Hegel, à sua dialética do escravo. A vida fácil, de quem detém meios para não fazer nada, vivendo na ociosidade,  com o tempo, desaprende o próprio fazer, tornando-se dependente daquele a quem ele paga para o fazer, que ele já desaprendeu. Tornando-se dependente dele, transforma-se, ele mesmo, em escravo.

O filme mostra duas famílias. Ambas tem quatro membros. A de Ki-Taek é muito pobre, vive mal e todos estão desempregados. Vivem buscando uma conexão no WiFi, captado da vizinhança. Já a família Park vive no maior dos luxos, casa projetada por arquiteto famoso e todos os meios de tecnologia à disposição. O filho da família pobre entra na casa rica como professor de inglês. Aos poucos e com muitas artimanhas emprega a família inteira na casa dos Park. A sabedoria "Google" ajuda até a arrumar emprego extremamente sofisticado. O contraste das habitações é mostrada como uma das contradições do capitalismo da Coreia, uma das vitrines do sistema. Êxitos recentes. Mazelas sempre ocultadas. Mas na casa rica existe vida também no porão. A cozinheira da casa "comia demais". Até enchente afetando a população pobre aparece.

A parasitagem é dupla. A da família Park, pelos mecanismos tradicionais e o da família Ki-Taek, pelos mecanismos da malandragem e até algo mais pesado, como as falsificações arquitetadas pelos planos do chefe da família. Por esses planos também pretendem chegar à vida de parasitas. A partir daí, o filme que começa meio comédia, vira tragédia. Tudo termina em violência. A festa é um bom momento para o seu começo. A violência que o sistema hospeda dentro de si, explode. O filme não é tão simples e a compreensão exige concentrada atenção. De preferência, vê-lo duas vezes.

Voltando às minhas fotografias. Figueira e palmeira definham, se atrofiam. Nenhuma terá o seu esplendor original, natural. Da mesma forma a sociedade, que em sua estrutura organizacional permite a parasitagem, definhará e se atrofiará. Só vamos lembrar que a parasitagem do filme atinge a esfera do humano. Não mais teremos a ação da natureza mas sim, a intervenção humana. E a resposta será dada através da violência e do medo dela, que por si só, já é o maior dos horrores.

Assim como muitos que estão lendo este post e, certamente, não estão gostando, assim também  deve ter outros tantos que não estão gostando nada deste filme e da temática por ele abordada. Afinal de contas, pensadores do sistema capitalista já chegaram a proclamar o próprio fim da história. Atingimos a única forma viável da organização humana, proclamam. Deixo ainda uma afirmação com a sabedoria de mais de dois mil anos de história. Ela é de Aristóteles. O seu pensamento afirma que a sociedade que não é boa para todos, não o será para ninguém. Quanto ao Paulo Guedes, personagem menor de nossa história, e que nela só entrou por um infeliz acidente, deixa ele de lado. Merece o esquecimento. É ele um parasita do sistema financeiro internacional, o pior de todos. A sua violência anda em outra velocidade. A sua necro-política ocorre num ritmo um pouco mais lento, mata aos poucos.

Bong Joon Ho, além de diretor também é o roteirista do filme. Cinema de autoria. O filme levou seis indicações de Oscar, a saber:

Melhor filme;
Melhor filme estrangeiro;
Melhor direção;
Melhor roteiro original;
Melhor direção de arte;
Melhor montagem.

Na premiação, levou quatro estatuetas: Melhor filme, melhor direção, melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original. Todos prêmios muito significativos.




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Oscar 2020. Os vencedores.

Neste post vou me limitar apenas à indicação dos vencedores. Em posts separados eu faço comentários de alguns dos filmes premiados. Outros, eu ainda farei, como é o caso de Parasita, o maior vencedor. Vamos à lista:

Melhor filme: Parasita;
Parasita. Cartaz promocional. O primeiro vencedor não falado em língua inglesa.

Melhor atriz: Renée Zellwegger (como Judy) em Muito Além do Arco-Íris;

Melhor ator: Joaquin Phoenix - Coringa;

Melhor direção: Bong Joon Ho - Parasita;

Melhor canção original: I'am Goona - de Rocketman;

Melhor trilha sonora: Coringa;

Cartaz promocional de Coringa.

Melhor filme estrangeiro: Parasita;

Melhor cabelo e maquiagem: O Escândalo;

Melhores efeitos visuais: 1917;

Melhor montagem: Ford vs. Ferrari;

Melhor fotografia: 1917;

Melhor mixagem de som: 1917;
Cartaz promocional de 1917.

Melhor edição de som: Ford vs. Ferrari;

Melhor atriz coadjuvante: Laura Dern- em História de um casamento;

Melhor documentário curta-metragem: Leaming to Skateboard in a Warzone;

Melhor documentário: Indústria americana;

Melhor figurino: Adoráveis mulheres;

Melhor design de produção: Era uma vez em ... Hollywood;

Melhor curta-metragem: The Neighbor's Window;

Melhor roteiro adaptado: Jojô Rabbit;

Melhor roteiro original: Parasita;

Melhor curta-metragem de animação: Hair Love;

Melhor animação: Toy Story - 4;

Melhor ator coadjuvante: Brad Pitt em Era uma vez em... Hollywood;

Fonte: UOL.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Democracia em vertigem. Petra Costa. Indicado ao Oscar de melhor documentário.

A proximidade da solenidade de premiação do Oscar 2020 me fez ver  um dos indicados, no caso, o de melhor documentário de longa metragem, Democracia em vertigem, de Petra Costa. A sua indicação já foi uma surpresa que será, ainda maior, caso receba a indicação do prêmio maior. Na abertura do documentário tem uma nota, registrando que o tema será o da ascensão e queda do PT e a polarização do Brasil que se estabeleceu, especialmente, após os movimentos de extrema direita, iniciados nos protestos de 2013.
Brasília, o epicentro. Cartaz promocional.

Democracia em vertigem é um documentário para a história, um verdadeiro arquivo dos fatos,  todos devidamente registrados pela mídia. É também inegável, que é um documentário de autoria, com forte posicionamento de Petra, que é também a roteirista do documentário. Esse posicionamento é absolutamente legítimo, a exemplo dos grandes documentaristas.

Para quem acompanhou mais de perto a política desse período, não há grandes novidades. A novidade maior foi para o público internacional, que teve os fatos catalogados e reunidos nesse documentário. São duas horas de duração. Certamente foi este o motivo maior para a sua indicação ao Oscar.

O documentário inicia com uma espécie de apresentação de Petra, de sua origem familiar. Seus pais se posicionaram contra a ditadura militar de 1964, atuando na clandestinidade. O seu nome, Petra, é uma homenagem a um personagem forte e influente do período, Pedro Pomar. Petra também não esconde a ligação de sua família com uma das maiores construtoras do país: A Andrade Gutierrez.  São retomadas cenas da ditadura, da repressão, violência e tortura. Entram em cena também as reações. Lula aparece como líder sindical e fundador de um partido político, vinculado aos trabalhadores, o PT. Lula concorre às eleições de 1989, 1994, 1998 e vence em 2002, com um discurso de conciliação.

Após mostrar a euforia da posse e a obsessão de Lula para acabar com a fome no país, as dificuldades começam a ser mostradas. A governabilidade e a aliança com o PMDB, o maior partido político brasileiro. Surge o mensalão. Lula sai ileso mas dois importantes nomes do PT, importantes na linha sucessória, são defenestrados: José Dirceu e Antônio Palocci. Lula se reelege em 2006. Amplia o leque de alianças, mas elas tem um preço. O país descobre o pré-sal. Lula, com 87% de aprovação popular, elege Dilma Rousseff, como sua sucessora. Ela começa bem, mas vem os significativos protestos de 2013.

Os grupos de extrema direita começam a atuar fortemente. Dilma tem dificuldades em governar. Falta-lhe a habilidade política. Adere à austeridade e cria mecanismos de combate à corrupção, entre eles, o mecanismo da delação premiada. Apesar de tudo, Dilma se reelege. Aécio Neves, seu principal oponente e com quem Petra tem vínculos familiares, não reconhece os resultados e começa a tramar. Cada dia mais, até chegar ao impeachment. Entram em cena outros personagens decisivos, Cunha e Temer. O impeachment é marcado e aprovado pela Câmara e o julgamento vai para o Senado. O golpe se confirma em 31 de agosto de 2016.

São marcantes os votos dados pelos deputados a favor do impeachment e os seus discursos em favor de Deus, da família e, notórios corruptos, pelo combate à corrupção. Mas o voto mais marcante, nesse processo é dado por Jair Bolsonaro, que homenageia o notório torturador Carlos Brilhante Ustra. Lança-se candidato, tendo nesse momento 2% das intenções de voto. Aos poucos, o mercado e a elite conservadora o transformam em Messias e mito.

Esse voto com a homenagem a um torturador me fez lembrar uma fala de Adolfo Pérez Esquivel, o argentino detentor de um Nobel pela Paz, no curso de Direito da UFPR: "Sobre a impunidade não se constrói a democracia". Tivesse sido Jair Bolsonaro preso nesse momento, por exaltação à tortura, a nossa frágil democracia talvez tivesse tido maiores chances de sobrevivência. 

Tem também a famosa frase de Romero Jucá: Com Supremo e com tudo, quando Dilma anunciou mais fortes mecanismos de combate à corrupção. Mas o golpe não estava consumado. Lula precisaria ser afastado do processo sucessório de 2018. Ele aparecia em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto. A força tarefa da Lava-Jato se encarregou disso. O conluio entre o Poder Judiciário e a mídia fez o pré-julgamento do ex-presidente, condenado por Moro e com a pena ampliada pelo TRF-4, em tempo de uma velocidade nunca vista. Aí sim o golpe estava consumado. Bolsonaro será eleito presidente e Sérgio Moro será o seu ministro da justiça.

O documentário receberá o Oscar? A crônica especializada aponta que não. Mas o mais importante já se realizou. Um registro para a história e uma denúncia perante o mundo. Por parte da direita, sempre raivosa, muita indignação. É acusada de traidora e contrária aos interesses do país. Nenhuma novidade. Os seus concorrentes são: American Factory, The Cave, For Sana e Honeyland. Vamos aguardar o dia 9 de fevereiro e, para o Brasil, a volta da democracia e o funcionamento pleno das instituições.










segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Temas educacionais. Discussões pedagógicas. 2020.

O grupo de professores ligados à oposição da direção estadual da APP-Sindicato, denominado APP Independente, recebeu uma bela convocação, assim expressa pelo professor Luiz Paixão, um dos coordenadores do grupo: "Atendendo um pedido de um grupo de pedagogas da rede pública do Paraná gravamos uma série de vídeos para contribuir com a reflexão das políticas educacionais em implementação no Paraná".
Professor Luiz Paixão, um dos coordenadores dos trabalhos de formação da APP-Independente.

Aproveito esse espaço do blog, um espaço permanente, para deixá-los à disposição de quem delas quiser fazer uso. A primeira fala é do professor Luiz Paixão, que, além da saudação inicial, fala sobre a avaliação, que não pode ser reduzida a treinamentos para a realização da "Prova Paraná" e de seus objetivos visando o IDEB. A avaliação sempre deve ser sobre o processo de aprendizagem. Aborda ainda o tema do currículo e os desmontes que ele vem sofrendo. Eis a fala:   

A segunda fala é minha. Abordo a questão da história da educação pública, fruto da modernidade e que tomou forma através de um longo processo histórico, como educação pública religiosa, estatal, nacional e democrática, na sucessão dos diferentes interesses. A sua forma mais consagrada é a da educação pública, gratuita, universal, obrigatória, laica e progressista. Foi instituída pelos Sistemas Nacionais de Educação ao longo da segunda metade do século XIX. Por ela se eliminou o analfabetismo e se formou o trabalhador exigido pelo mundo do trabalho da Revolução Industrial. Dois princípios sempre a nortearam. A unidade entre a formação filosófica e a preparação para o mundo do trabalho. Quando essa unidade é quebrada, formam-se, segundo um belo texto do professor Milton Santos, os deficientes cívicos. Eis o vídeo:

Deixo também o texto do professor Milton Santos , Os deficientes cívicos:

A terceira fala também é minha. Verso sobre a educação como um enorme campo de disputas, entre os interesses do capital e os interesses do trabalho. Essas disputas se dão pela formulação das teorias pedagógicas, que de forma geral se apresentam como a pedagogia tradicional, centrada no professor e nos conteúdos, na pedagogia da escola nova, centrada no aluno e nas suas atividades e as pedagogias tecnicistas, não centradas, nem no professor, nem no aluno, mas nos meios. As chamadas tecnologias educacionais. As pedagogias tecnicistas ganharam evidência a partir dos anos 1950, com a Teoria do Capital Humano. Você mesmo é o teu capital. Faça de você uma máquina de alta tecnologia. Com a teoria do Capital Humano os filósofos, pedagogos e psicólogos foram relegados na formulação das políticas educacionais, preteridos pelos economistas. O Banco Mundial monopolizou essa função. No Brasil essas políticas se afirmaram especialmente em três momentos: Na ditadura civil militar de 1964, na primeira onda neoliberal dos anos 1990 e na segunda onda neoliberal, após o golpe de 2016. Toda a ênfase será no treinamento e no menosprezo às disciplinas do pensar. Eis o vídeo:

A quarta fala é do professor Sebastião Donizete Santarosa. Faz uma calorosa saudação mas logo se centra no clima de tristeza e desânimo que tomou conta das escolas, em função das políticas pedagógicas dissociadas da realidade e das necessidades dos educandos, implementadas pela Secretaria de Estado da Educação. Essas políticas desconsideram a autonomia dos professores e lhes impõem controles e tutorias, que redobram a burocratização em seus trabalhos. Os professores tem a capacidade do discernimento e da autonomia pelos seus estudos, pela realização de seus concursos e pela sensibilidade humana adquirida ao longo de seus anos de trabalho. Reclama também da redução dos objetivos da educação a treinamento para a "Prova Paraná" e não às exigências clássicas atribuídas à educação. Conclama a todas e a todos para a resistência e para a unidade em torno das reivindicações por dignidade profissional e condições de trabalho. Eis a fala:

A quinta fala é da professora Cláudia Gruber. Ela se apresenta e fala do ambiente escolar que a Secretaria de Estado da Educação pretende que seja positivo. Que tudo seja perfeito e que todos os conflitos sejam superados pela força do diálogo e do entendimento. Para obter esse clima citam até Paulo Freire. Cláudia nos lembra, no entanto, que não podemos esquecer o nosso ontem dos últimos anos, sob pena de comprometer o nosso hoje e o nosso amanhã, também citando Paulo Freire. Não podemos esquecer a perda dos direitos, as repressões nas greves, a redução das garantias trabalhistas e a precarização das condições de trabalho. Isso se quisermos ter o nosso respeito profissional afirmado e assegurado. Eis a fala da professora Cláudia:
https://www.facebook.com/APPindependente/videos/pcb.2899418636746768/120761995942468/?type=3&theater

A sexta e última fala é novamente do professor Luiz Paixão. Ele também se refere ao ambiente escolar, que deseja ser saudável, aconchegante e alegre. Para que ele se efetive o professor deve ficar atento para não entrar no jogo divisionista do governo, que chega até o extremo de provocar que professores, por meio de atas, incriminem os próprios colegas. Reclama de um clima adverso contra os professores provocado pelo governo e certos setores da sociedade. O seu trabalho é criminalizado por conteúdos trabalhados e chega a ser até culpabilizado pelo fracasso escolar. Reconhece que há problemas nas escolas mas discorda dos controles, fiscalização e tutorias como solução. Essas políticas geram o quadro de adoecimento que grassa em nossas escolas, fruto do mau ambiente escolar criado por esses meios que cerceiam a autonomia e a liberdade do professor. Somos humanos e não máquinas. Eis a fala:

Como o professor Luiz Paixão se referiu ao fato de sermos humanos e não máquinas lembrei de Charles Chaplin, de seu filme O Grande Ditador, em que profere o seu último discurso:

A todas e a todos um ótimo ano letivo de 2020. As imperfeições nos vídeos são fruto da luta contra a exiguidade do tempo que travamos. Se servirem para alavancar debates expressamos a nossa satisfação e agradecimento.




1917. Sam Mendes. Oscar 2020.

Domingo chuvoso e sonolento. A temporada do Oscar 2020 me fez assistir o segundo filme com maior número de indicações, dez no total. Trata-se de 1917, do diretor e roteirista Sam Mendes. A data de 1917 remete a um dos mais tristes episódios da história da humanidade, a Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre os anos de 1914 e 1918. Foi uma das mais sangrentas das guerras e que atingiu, especialmente, toda a parte central da Europa.

A guerra teve as suas causas imediatas, relacionadas ao Império Austro-húngaro, mas os verdadeiros motivos eram de ordem econômica. Foi uma guerra de impérios econômicos, em que se confrontaram a Alemanha e a Inglaterra. Vamos lembrar as alianças que se formaram. De um lado estava a Tríplice Entente, com o império austro-húngaro, a Alemanha e, por um breve tempo, também a Itália. Do outro lado, A Tríplice Aliança formada pela Grã Bretanha, França e Rússia. A Rússia sai dessa guerra, fazendo a sua Revolução de 1917. Mas 1917, não é essencialmente um filme de guerra. Usa o seu cenário para mostrar particularidades dela.
Cartaz promocional do filme. O tempo é o inimigo, além de todos os obstáculos.

1917 faz uma exaltação a dois personagens dessa guerra, que normalmente seriam absolutamente anônimos, seriam os heróis sem medalhas, que se formam ao longo de todas as guerras. São dois cabos que recebem uma missão especial, a de levar ao Coronel Mackenzie uma mensagem do Comando, para deter o seu exército, diante de uma cilada armada pelos inimigos alemães. Os dois teriam que atravessar uma região dominada pelo inimigo. Era uma missão totalmente impossível de ser realizada. Se fosse realizada com êxito poderia salvar 1600 soldados.

Ao final aparece na tela uma mensagem bem ilustrativa sobre o roteiro do filme, de autoria de Sam Mendes e de Krysty Wilson-Cains. As letras que aparecem nos informam que Sam ouviu a história dos dois cabos, contada pela sua avó. Os dois cabos são Schofield e Blake. Blake tinha um irmão nesse exército a ser salvo. Assim começa a missão, que tem como prazo o imediato de um único dia, o dia 6 de abril de 1917. A realização dessa missão leva uma hora e cinquenta e nove minutos na tela.

Como vimos, a missão seria impossível, pois, teriam que atravessar campos inimigos. As cenas são impressionantes e mostram bem o cenário devastador da guerra, tida como a mais sangrenta de todas. Aparecem trincheiras abandonadas, túneis escavados com armadilhas que poderiam desabar com a passagem e o leve toque de um simples e inevitável rato. Inimigos estão à espreita em todos os cantos. Um avião cai na proximidade dos dois. Eles salvam o piloto do avião em chamas, mas este retribui com um tiro em Blake. Schofield o mata. Blake também não resiste. Schofield terá que cumprir a missão sozinho.

Novos obstáculos. Pontes destruídas, águas correntes em torvelinhos traiçoeiros. Finalmente chega aos companheiros. Aí entra em cena a burocracia e a disciplina militar. Schofield tem enormes dificuldades em se encontrar com o comandante, que o recebe com reticências, após já ter ordenado o primeiro dos ataques. As tramas abertas ao longo do filme começam a se fechar. Schofield encontra o irmão de Blake, lhe entrega os seus pertences e escreve a carta prometida para a mãe do companheiro de sua missão. É medicado, alimentado e recebe o descanso após total exaustão. O valor desses dois soldados é o verdadeiro tema do filme.

O filme me fez lembrar muito da batalha de Maratona em que o exército de Atenas venceu o poderoso e invencível exército persa. Essa vitória deveria ser comunicada a Atenas. Fidípedes foi encarregado dessa missão. Após percorrer os 42,195 quilômetros que o separavam de Atenas, chega exausto, comunica a mensagem e morre. Como glória, sobrou a homenagem realizada em todas as olimpíadas.

O filme é dirigido por Sam Mendes, que divide o roteiro com Krysty Wilson-Cains. Na interpretação dos cabos estão George Mac Kay, como cabo Schofield e Dean-Charles Chapman, como o cabo Blake. Chamam atenção também a fotografia e a trilha sonora. O filme recebeu o prêmio maior no Globo de Ouro e conta com dez indicações ao Oscar, a saber:
Melhor filme
Melhor diretor
Melhor roteiro original
Melhor fotografia
Melhor trilha sonora original
Melhores efeitos visuais
Melhor direção de arte
Melhor mixagem de som
Melhor edição de som
Melhor maquiagem e penteado.

Recebeu três Oscar. Os de:
Melhores efeitos visuais, melhor fotografia e melhor mixagem de som.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A Nova Ordem. Bernardo Kucinski.

Este livro eu li por causa de seu autor. Estou falando de A Nova ordem, de bernardo Kucinski. Conheci o autor por um texto seu, nos Cadernos Diplô do Le Monde Diplomatique, especiais para o Fórum Social de 2002, realizado na cidade de Porto Alegre. Nesse Cadernos ele comparece com um texto com o título "Do discurso da ditadura à ditadura do discurso", em que apresenta dez paradoxos do jornalismo brasileiro. Um texto brilhante, do qual dou uma especie de síntese/epígrafe:

"No Brasil, a mídia adotou como cartilha o pensamento neoliberal, enterrou a pluralidade e o debate de ideias. Mas a era da adesão irrestrita é também a da grande crise econômica do setor". Esses dez paradoxos também podem ser encontrados em livro seu, Jornalismo na era virtual. Ensaios sobre o colapso da razão crítica. Usei  muito este texto no curso de jornalismo da Universidade Positivo. Na revista eu tenho uma anotação extremamente interessante, uma frase que, segundo eu li, foi encontrada no sindicato dos jornalistas de Buenos Aires. Diz: "A ditadura não me deixava escrever o que penso. O pensamento único não me deixa pensar o que escrevo". Também escrevi um post para o meu blog. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/02/do-discurso-da-ditadura-ditadura-do.html
O belo e triste livro de Bernardo Kucinski. A Nova ordem. Pela alameda.


Agora, não me lembro exatamente onde, eu li sobre este seu livro. Comprei e li. Na contracapa dele lemos: " Ariovaldo quer chegar a um método que assegure, com a mais absoluta certeza, que o preso falou tudo o que sabe, seja qual for sua estrutura mental e psíquica. Um método científico que extraia da memória do preso todas as informações ali armazenadas para a prática da subversão e da contestação da Nova Ordem, sem depender da vontade ou da determinação do próprio preso".

Creio que essa frase nos dá a ideia e o personagem central do romance ou novela. A Nova Ordem instaurada queria o controle absoluto dos utopistas, ou dos que se opunham ao estabelecimento da Nova Ordem. Isso seria feito por métodos científicos, por estudos do médico militar, rapidamente promovido a coronel, o Dr. Ariovaldo. A orelha do livro nos dá outros detalhes interessantes sobre o livro.

"Assim como na sua obra maior K, B. Kucinski poderia iniciar A Nova Ordem repetindo 'tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu" ou "está acontecendo". A narrativa aterradora e envolvente sobre a "nova ordem" no Brasil da ficção nos lembra aquilo que Hannah Arendt nomeou de "banalidade do mal", referindo-se aos criminosos nazistas e a seus crimes. A insanidade e o grau de desumanização daqueles que comandam a "nova ordem" é de tal magnitude que a sociedade anestesiada não consegue acreditar no que vê e, da mesma forma, não sabe como reagir. O inimigo principal são os "utopistas" e todos os portadores de pensamento crítico.

Como o tamanho do "mercado" interno necessário é de 30 milhões de famílias, há de se reduzir o "excesso populacional". Não interessa se constituem um grupo humano de 90 milhões de pessoas. Busca-se então, a forma mais eficiente de livrar-se deles ao menor custo e no prazo mais curto. Os principais personagens da narrativa são figuras patéticas. Dois são especialmente representativos da "nova ordem": o capitão médico psiquiatra Ariovaldo, que conquista fama internacional por suas descobertas e práticas de controle humano através de chip obrigatoriamente instalado nos cérebros da população, e o ex-engenheiro Angelino, tornado catador de rua, que tem flashes de lucidez diante da monstruosidade vigente. Ao que parece a "nova ordem" entra em colapso por suas próprias loucuras. Em algum momento constata-se que as pessoas haviam deixado de sonhar. E, sem sonho, não há como sobreviver. Nem mesmo na "nova ordem". A leitura muito me lembrou de Adorno e a sua terrível exortação Educação após Auschwitz e a pergunta que não quer calar: Quem serão as próximas vítimas?

O livro é uma paródia do Brasil, após o golpe de 2016, quando se instaurou a "nova ordem", embora isso não esteja dito explicitamente. O livro tem 21 capítulos que descrevem este Brasil. A "nova ordem" vai se implantando por uma série de Editos da "Nova Ordem", doze no total, Por eles se extinguem as universidade públicas, se fecham os órgãos de pesquisa e de proteção ambiental, até a extinção do próprio SUS. Em suma, tudo o que Bolsonaro e seus asseclas governadores gostariam de fazer e ainda, vejam bem, ainda não fizeram.

Gostaria de registrar alguns destaques: O primeiro vai para o capítulo XIX, em que o militar Humberto é condenado, sem haver causa para isso. Ele reexamina toda a sua vida e considera que nada de errado fizera e se suicida. Com todos os horrores cometidos, ele não conseguiu enxergar erros. O mal tornara-se banal. Por não enxergar essa banalidade, aplaude a "nova ordem" e liquida sua própria vida em vez de se opor a ela. E, por óbvio, em segundo lugar apontar para o pesquisador da padronização ou customização do comportamento humano, Ariovaldo, o Freud da "nova ordem". De Angelino, o engenheiro catador destaco uma frase significativa: "Pelo lixo se mede a miséria de um povo". Já não havia nele, nada de valor.

Deixo com vocês o capítulo XXII, que serve de epílogo. Ele é significativo: "Apesar de suas descobertas e invenções espetaculares, e do sucesso do programa de customização de humanos, que alcançou fama mundial, Ariovaldo jamais conseguiu capturar um fragmento que fosse do conteúdo manifesto de um sonho. Começaram a lhe faltar cobaias. Presos subversivos, já não havia; a sublevação utopística fora há muito dizimada. E com o encerramento do programa de ajuste populacional cessaram os comboios de retirantes. Ariovaldo ainda tentou capturar os sonhos de pessoas presas por descuidos no trânsito, ou internadas devido a acidentes no trabalho. Foi quando se deu conta de que ao suprimir desejos e paixões, as forças impulsionadoras dos sonhos, o chip de customização havia suprimido os próprios sonhos. Na Nova Ordem, as pessoas tinham deixado de sonhar.

Dizem que foi esse o motivo da crise depressiva de Ariovaldo e da internação no pavilhão psiquiátrico do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, onde se encontra até hoje, sofrendo alucinações seguidas de surtos de hiperatividade. Nesses surtos escreve freneticamente horas e horas, às vezes até dez horas seguidas. Não se sabe o que escreve. Nunca deixou que seus escritos fossem lidos. O rumor mais persistente é o de que se auto-injeta com doses cavalares de melatonina que o fazem dormir profundamente e, assim que desperta, põe-se a escrever o que sonhou".

Termino por afirmar que a crítica, o humor e a ironia mantém viva a alma de uma nação. Este livro é essa alma.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Rinoceronte. Eugène Ionesco.

No dia 6 de setembro de 2019 iniciávamos o Segundo ciclo de leitura e debates da obra de Paulo Freire, centrado em um de seus últimos livros, ou no dizer de Nita, "o livro testamento de sua presença no mundo", Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa. Houve solenidade na abertura e a apresentação de uma peça de teatro, com um grupo do Rio de Janeiro, que nos trouxe Paulo Freire - Andarilho da utopia. Vale relembrar.

Na peça havia uma forte referência a Ionesco e à sua peça de teatro mais famosa - Os rinocerontes. A peça é de 1959 e deixou marcas em Paulo Freire. Fiz uma rápida busca e encontrei duas referências. Uma em Ação cultural pela liberdade e outra em À sombra daquela mangueira. Sandro Castro Pitano nos mostra Paulo citando a frase final e comentando "Não posso ser se os outros não são; sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Todos haviam se tornado rinocerontes, menos Bérenger.
O Rinoceronte. Edição da Nova Fronteira, 2015. Tradução de Luís de Lima.

Fui ao livro que traz a famosa peça. Uma edição da Nova Fronteira, da coleção 50 anos. Como não sou muito familiarizado com o teatro, observei atentamente o livro. Na contracapa um diálogo entre Jean e Bérenger sobre moral. Jean defende uma moral da natureza: "A natureza tem as suas leis. A moral é antinatural". Bérenger retruca: "Se estou compreendendo bem, você quer trocar a lei moral pela lei da selva". Cultura versus natureza, seria isso?

Fui à orelha: "...os habitantes de uma cidade são atacados por uma estranha moléstia que os transforma, pouco a pouco em rinocerontes. O animal encarna o fanatismo que desfigura pessoas, tira-lhes a humanidade". Fui ao prefácio. Zora Seljan versa sobre teatro. Diferenças entre o teatro de Brecht e o de Ionesco. O teatro realista contra o teatro do absurdo. O teatro de Ionesco "traz os demônios à superfície"... 

O Rinoceronte é uma peça em três atos, com cenários relativamente simples, uma mercearia, um escritório e o quarto de dois dos personagens, Jean e Bérenger. As discussões começam pelas obviedades da vida. Beber ou não beber, as vantagens de uma vida disciplinada, do esforço e da dedicação ao trabalho, sobre os ideais da vida. Entre os personagens há até um lógico. Mas todos, praticamente todos, são adeptos da racionalidade, que Adorno já havia chamado de instrumental. O primeiro rinoceronte aparece, seguido de mais um. Unicórnio ou bicórnio? Africano ou asiático? Uma discussão infindável. Jean sai ofendido e magoado com Bérenger.

O cenário das discussões se transfere para o escritório em que trabalham vários dos personagens. O rinoceronte é o grande tema, com grandes teimas. Novos rinocerontes aparecem e desfazem as incredulidades. Bérenger vai ter com Jean. Bons sentimentos, quer o perdão pelos desentendimentos do dia anterior. Mais e mais rinocerontes aparecem. Chamam os bombeiros e a polícia. Entre eles também já há rinocerontes. Jean também adere a essa "doença nervosa".

Todos viram rinocerontes. Todos, o cardeal, os intelectuais, os prelados e os clássicos. Sobra Bérenger e Daisy. O amor será o antídoto. Daisy não resiste. Se considera anormal e se soma aos rinocerontes, deixando Bérenger sozinho em desespero, com as suas resistências incompreendidas e o medo de também sucumbir: "Mas eles não nascem! Minhas mãos estão suadas. Será que ficarão rugosas? Tenho a pele flácida. Ah, este corpo tão branco e peludo! Como eu gostaria de ter uma pele dura e aquela soberba cor esverdeada, uma nudez decente, sem pelos como a deles! Há um certo atrativo no canto deles, um pouco rude, mas mesmo assim é atraente! Se eu pudesse fazer como eles. Ahh! Ahh! Brr! Não, não é assim! Preciso experimentar outra vez, mais forte! Ahh, Ahh, Brr! Não, não é isso! Isto é fraco, não tem vigor! Não consigo dar barridos, só dou berros. Ahh, Ahh, Brr! Berros não são barridos!

Ah! Como eu me arrependo. Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar  para meu rosto. Tenho vergonha! Como eu sou feio! infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina. Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim. Não me rendo".

E, uma palavrinha sobre Ionesco (1909-1994). Nasceu na Romênia, mas a sua formação se deu em Paris, cidade em que também veio a morrer. Junto com Samuel Beckett  é considerado o criador do teatro do absurdo. O pós guerra está muito presente em sua obra. Certamente o pré guerra, mais ainda. Como tudo isso pode ter acontecido?

É. Paulo Freire tem toda razão: "Não posso ser se os outros não são. Sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Pode haver atualidade maior? Da minha parte, não temo os rinocerontes. Eu temo os bozos. Já se transformaram em maioria e já minaram prelados...... É preciso, com a máxima urgência, detê-los. Ah, as massas! O teatro será sempre um bom antídoto, seja o do realismo ou o do surrealismo, do absurdo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Budapeste. Chico Buarque.

A atual situação política brasileira me proporcionou uma grande mudança de hábitos. Deixei de frequentar ambientes que reuniam elevado PIB de ignorância, e os troquei por outros, em que as conversas fluem, envolvendo, preferencialmente, temas políticos e culturais. Confesso que obtive grandes ganhos.

Num dia desses, as conversas envolveram uma viagem que fiz pela Alemanha e por uma série de capitais que foram o grande palco dos acontecimentos do início do século XX e que ainda preservam todo o seu charme histórico. Estávamos falando, particularmente, de Budapeste, um dos monumentos do Império austro-húngaro. Contava das grandes diferenças do povo húngaro com relação aos seus vizinhos, sobre a sua origem oriental, sobre os seus costumes e tradições e da atual situação política, em que impera uma rigorosa censura à imprensa. O país até mereceu uma visita da ministra brasileira que disse ter visto Jesus na goiabeira. Questão de afinidades.

Na mesa ao lado, um moço estava entretido com o seu lanche, mas que, ao ouvir falar da Hungria, entrou na roda de conversa nos falando do orgulho magiar em torno de sua língua, tida como uma das mais complexas e mais difíceis de aprender e fez referência ao romance de Chico Buarque, Budapeste. Foi assim que retomei a minha viagem e fui conhecer melhor a encantadora cidade e descobri que dela não conhecera praticamente nada, apesar dos encantos que ela me provocara.
O livro do Chico Buarque. 2017. 2ª. edição. 27ª. reimpressão.

Li o romance escrito pelo Chico em 2003. Ele tem uma estrutura narrativa complexa, alternando os cenários entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Os livros, ou os seus autores, são o grande tema. Autor e personagem se confundem. Mas a beleza do livro não está na história contada, mas sim, na beleza de sua escrita, totalmente imbuída de poesia. José Costa ou Zsoze Kósta é o personagem central. José Costa e o seu amigo e colega de escola, Álvaro, tinham uma especie de agência de publicidade, que entre outros trabalhos, também escreviam livros, especialmente biografias ou livros de memórias, vendendo a autoria para endinheirados, obviamente. O Ginógrafo, retratando a vida de um alemão, fez extraordinário sucesso.

Mas como o José Costa foi parar em Budapeste? Assim começa o romance. Numa viagem de Istambul para Frankfurt, com escala em Budapeste, por problemas técnicos o avião foi retido na cidade por uma noite. Foi o suficiente para que José se envolvesse e começasse a gostar do idioma do país magiar. Soube-se depois que o problema não era técnico. O que houve, foi suspeita de bomba. O terrorismo grassava solto pelo mundo. Mas José conseguiu voltar tranquilamente ao Rio de Janeiro, onde a vida do cotidiano o atormentava. Como não aprendera nenhuma palavra húngara, a não ser Lufthansa, ele teimou em voltar para aprendê-la.

Kriska ou Cristina foi sua professora e algo a mais. Antes, no Rio de Janeiro, conhecera o sucesso de um livro seu, de autoria de Kaspar Krabe. Em pouco tempo Zsose domina a língua e escreve um livro de poesia para um notável escritor de nome Kocsis Ferenc. Mas a vida não lhe era fácil. Brigou com Kriska e o flagraram como imigrante ilegal, e devidamente, o deportaram. De volta ao Rio de Janeiro, só desencontros e amarguras. Esse quadro se altera quando recebe um comunicado do consulado da Hungria junto com um envelope que continha uma passagem para Budapeste, que tinha como remetente a maior editora da cidade. Zsose Kósta virara um famoso escritor húngaro.

Escolho algumas referências ao livro, contidas na orelha da capa. A mais precisa, no meu entendimento é a de Beatriz Resende, do Jornal do Brasil: "À maneira dos relatos de Cortázar ou das narrativas do Borges de Ficções [em Budapeste], cada vez mais, narrar e ser narrado confundem-se, como se confundem autor e personagem, criador e criatura". Deixo também a opinião de dois notáveis escritores. José Saramago e Luís Fernando Veríssimo. Começamos por Saramago:

"Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, o do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro".  E o Veríssimo: "O livro do Chico é uma vertigem. Você é sugado pela primeira linha e levado ao estilo falso-leve, a prosa depurada e a construção engenhosa até sair no fim lamentando que não haja mais, assombrado pelo sortilégio deste mestre de juntar palavras. Literalmente assombrado".

E quanto a mim, quero registrar os ganhos com a troca de ambiente. Trocar locais de elevado PIB de ignorância por elevado PIB de cultura, só poderá te trazer ganhos, muitos ganhos. Ah sim. O fato se deu no Gilda Bar e Restaurante, local que recomendo. Deixo ainda o link do post da visita à Budapeste.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/08/europa-2019-9-budapeste-e-hungria.html



domingo, 19 de janeiro de 2020

MEDO. Trump na Casa Branca. Bob Wooddward.

O acesso que tive a Medo - Trump na Casa Branca, de Bob Woodward se deu em consequência do episódio em que Sérgio Moro compareceu ao programa de Pedro Bial na televisão. Moro, perguntado sobre leituras, confessou-se assíduo leitor, mostrando especial preferência por biografias. Perguntado sobre as últimas lidas, não conseguiu se lembrar de nenhuma. Posteriormente, Gregório Duvivier, em artigo na Folha de S.Paulo, deu ao ministro três sugestões. Entre elas, a de Bob Woodward. Foi assim que cheguei ao livro.
A edição brasileira da Todavia.

Vou começar a resenha falando de Woodwward, o autor. Na orelha da contracapa lemos: "Bob Woodward é editor associado do Washington Post, onde trabalhou nos últimos 47 anos. Cobriu nove presidências nos Estados Unidos. Foi vencedor de dois prêmios Pulitzer, o primeiro ao lado de Carl Bernstein pela cobertura do caso Watergate e o segundo em 2003, como chefe de reportagem da cobertura dos ataques terroristas do Onze de Setembro. É autor de dezoito livros, todos eles best-sellers". Bob nasceu em 1943.

Essas são as suas credenciais. Na capa, junto ao título lemos: "Mais de um milhão de livros vendidos na primeira semana nos Estados Unidos". "Explosivo", "devastador", "sem precedentes", "um retrato assombroso", "diligente, rigoroso, minucioso e ético" e "assustador" são algumas qualificações do livro apresentadas na contracapa.

Quanto ao título, Medo, nos deparamos nas justificativas, numa frase em epígrafe, pronunciada em 2016, que bem define quem é Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos: "O verdadeiro poder - nem quero usar tal palavra - é o medo". Depois, na página 188, temos uma explicitação ainda maior: "O verdadeiro poder é o medo. O que conta é a força.  Jamais demonstre fraqueza. Você tem que ser sempre forte. Nunca se deixe intimidar. Não existe escolha". Assustador.

Vamos à apresentação do livro pela orelha da capa: "... Medo é o mais íntimo retrato já concebido dos primeiros anos de uma presidência norte-americana. Partindo de uma campanha que elegeu Trump, Woodward realizou dezenas de entrevistas e juntou centenas de documentos, notas, diários e memorandos para detalhar os bastidores do controverso mandato de Trump. Conhecido pela minúcia de suas investigações, Woodward coloca o leitor dentro das reuniões que decidiram assuntos tão fundamentais quanto o declínio do apoio dos Estados Unidos à Otan, a saída do Acordo Climático de Paris, as relações com a Coreia do Norte, Rússia, China e Irã e a violência racial de Charlottesville em 2017.

O leitor conhecerá o processo, muitas vezes caótico, que levou a essas decisões, e também o jogo de traições entre assessores, as disputas internas de poder e as crises quase diárias que o governo Trump enfrenta. Um painel assustador, em que funcionários do alto escalão do governo roubam documentos do Salão Oval para que Trump não os assine e o Partido Republicano precisa lidar com um presidente avesso a protocolos, desconfiado da diplomacia e em guerra aberta com a imprensa. Poucas vezes um governo foi visto de forma tão crua e, em tempos de fake news, tão elucidativa e real".

O livro contém 42 capítulos, sem títulos, mas sempre dedicado a um tema determinado. Quem acompanha a política, tem uma ideia dos principais temas abordados. As questões com a Coreia do Norte e também a do Sul (Korus e presença do exército), o Irã, o Iraque, a Síria, o Estado Islâmico, o Afeganistão e os Talibãs e a Rússia, talvez a sua dor de cabeça maior. Na questão interna, os tributos, as tarifas que remetem aos problemas do globalismo confrontado com o nacionalismo, as questões de racismo e da imigração. A grande questão é a instabilidade do presidente, a sua aversão a reuniões de planejamento e decisões e a sua absoluta imprevisibilidade. Sobra ainda o veneno de seus tuítes. Creio que que já tem seguidores entre outros presidentes. Está fazendo escola.

Em meio ao livro tem um bloco de fotografias de seus principais assessores e o relato sucinto dos problemas que com eles enfrentou. Os primeiros e principais já foram demitidos. É uma espécie de síntese do livro. Os relatos são realmente minuciosos, mas a leitura flui. O livro é um relato perfeito das tramas e das sujeiras que envolvem o mundo da política, que vão para muito além dos limites de nossa inocente imaginação.

Para deixar uma imagem do livro, recorro à sua última frase. Nela é narrada a opinião de Dowd, o seu advogado para tratar da relação com a Rússia, e que abandona a causa em virtude da absoluta desobediência de Trump em seguir as suas orientações: "Mas naquele homem e em sua presidência, Dowd havia enxergado uma imperfeição catastrófica. Entre todas as ferramentas que utilizava no debate político - as evasões, as negações, os tuítes, as omissões, as acusações de notícias falsas e a indignação -, Trump tinha um problema primordial que Dowd sabia muito bem qual era, mas que jamais seria capaz de dizer ao presidente: 'Você é um puta mentiroso'".

A edição brasileira tem 397 páginas e é uma edição da Todavia. Trabalharam na tradução André Czarnobai, Paulo Geiger, Pedro Maia e Rogério Galindo. Só o futuro nos dará respostas com relação ao imprevisível e perigoso presidente.

Creio que no Brasil temos também agora um livro similar sobre Bolsonaro. Trata-se de Tormenta - o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, da jornalista "BRASILEIRA" Thaís Oyama, com edição pela Companhia das Letras.
A edição brasileira Tormenta, de Thaís Oyama. Companhia das Letras.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Sociedade do cansaço. Byung-Chul Han. Sobre a sociedade do desempenho.

"O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obriga a trabalhar ou que poderia explorá-lo. É senhor e soberano de si mesmo. Assim não está submisso a ninguém ou está submisso apenas a si mesmo. É nisso que ele se distingue do sujeito de obediência. A queda da instância dominadora não leva  à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho.

O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa auto-exploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorador e o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa auto-referencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal". (Trecho da obra). Esse trecho selecionado está transcrito na orelha da contracapa do livro e é uma síntese perfeita do teor do livro.
Sociedade do cansaço, pela Vozes. 5ª. Reimpressão. 2019.

Como integro grupos de trabalho de formação de professores, neles detectamos uma grande necessidade de debater os adoecimentos que são próprios da categoria, como o burnout, a depressão e, em casos extremos, o suicídio. Os trabalhos foram desenvolvidos e se formaram grupos para o acompanhamentos da situação nas escolas. Não acompanhei mais de perto esses trabalhos mas o tema me interessou e fui em busca de referências bibliográficas. Foi dessa forma que me deparei com o pequeno livrinho Sociedade do Cansaço, do coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han.

Que livrinho denso. Ele aponta para uma total mudança na estrutura psicológica dos seres humanos sob a égide do capitalismo financeiro ou do neoliberalismo e das novas e desregulamentadas relações de trabalho que nele ocorreram e continuam ocorrendo. Um subtítulo cairia muito bem para o livrinho: Da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho. Isso, além de representar uma total mudança de paradigma, mudaria também as categorias de análise.

Começo apresentando o sumário. São sete capítulos e dois anexos, distribuídos ao longo de apenas 128 páginas, num formato de quase livro de bolso: 1. A violência neuronal; 2. Além da sociedade disciplinar; 3. O tédio profundo; 4. Vita Activa; 5. Pedagogia do ver; 6. O caso Bartleby. 7. Sociedade do cansaço. Os dois anexos tem os seguintes títulos: 1. Sociedade do esgotamento; 2. Tempo de celebração - a festa numa época sem celebração.

No primeiro capítulo o autor começa apresentando as doenças características de cada época e a forma como elas foram enfrentadas. Assim combatemos as doenças bacteriológicas e virais com a técnica da imunologia. O inimigo era detectado e combatido. Havia "uma divisão nítida entre o dentro e o fora, amigo e inimigo ou entre o próprio e o estranho". No século XXI surgiram novas doenças, as do campo neuronal, burnout e depressão e as da hiperatividade e similares. Os princípios da imunologia não as combatem. Por que não? Aí é que entram as mudanças de paradigma.

Assim, no capítulo 2, Além da sociedade disciplinar, são apresentadas as características dessa sociedade, tão estudada por Foucault. Dessa sociedade da repressão partiu-se, não mais da obediência externa, mas da obediência interna, ou da auto-obediência. Os sujeitos da obediência foram transformados em sujeitos de desempenho, de produção. Desaparece a referência de classe. O explorador é o próprio explorado e o agressor é a própria vítima. Tudo fruto de uma liberdade paradoxal.

No terceiro capítulo o tédio é mostrado como positividade. Ele é fuga para o excesso de atenção e de atividades. Hoje não há mais atenção profunda. Há a hiperatividade. Enquanto o tédio é uma direção para o novo, a hiperatividade é apenas uma aceleração. Não há espaço para o espanto filosófico.

Hannah Arendt e Agamben são as referências para  o quarto capítulo sobre a Vita Activa. Na sociedade de desempenho morre a vida contemplativa. Renuncia-se a ela, não para viver melhor, mas para funcionar melhor. Voltamos ao estágio pré darwiniano do animal, antes de seus movimentos evolutivos. Todos nos transformamos em homo sacer, um muçulmano. Essa era a designação dada ao homem antes de entrar para os campos de concentração, em estado de tensão e apavoramento total. Vivemos um nervosismo total decorrente da falta da vida contemplativa.

No quinto capítulo é afirmado o princípio de que a vida contemplativa é uma decorrência de um modo de ver, de um ver amplo, demorado e lento. Precisamos escapar da mera atividade, que leva para a estupidez mecânica como a do computador, que não tem vida contemplativa. O autor dialoga com Sartre (Náusea) e Heidegger (Angústia). O sexto capítulo toma como referência um personagem da literatura de Melville para diferenciar o cansaço na sociedade disciplinar da de desempenho.

Os dois anexos são maravilhosos. O primeiro mostra com muita nitidez as contraposições entre a sociedade do cansaço e de desempenho, da sociedade do "dever", para a sociedade do "poder hábil", do dever imposto a si mesmo. Faz uma bela análise da palavra sujeito, que dentro da sociedade da disciplina era um sujeito com relação a outro, a um ser externo que determinava. Agora ele é sujeito a si próprio, das autoimposições. Selecionei duas passagens. Vejamos: "A partir de um certo nível de produção, a auto exploração é essencialmente mais eficiente, muito mais produtiva que a exploração estranha, visto que caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade [...] O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até  consumir-se completamente (burnout). Ele desenvolve nesse processo uma agressividade, que não raro se agudiza e desemboca num suicídio".

A outra talvez seja ainda mais explícita: "O sujeito de desempenho está livre da instância de domínio exterior que o obrigue ao trabalho e o explore. Está submetido apenas a si próprio. Mas a supressão da instância de domínio externa não elimina a estrutura de coação. Ela, antes, unifica liberdade e coação. O sujeito de desempenho acaba entregando-se à coação livre a fim de maximizar seu desempenho. Assim ele explora a si mesmo. Ele é o explorador e ao mesmo tempo o explorado, o algoz e a vítima, o senhor e o escravo. O sistema capitalista mudou o registro da exploração estranha para a exploração própria, a fim de acelerar o processo. O sujeito de desempenho, que se imagina como soberano de si mesmo, como homo liber, aparece como o homo sacer". Como estão vendo, o diálogo agora foi estabelecido com Agamben.

Mas o segundo anexo é o mais bonito. Tempo de celebração - a festa numa época sem celebração. Não tem como resenhar, sem mexer na beleza da totalidade do texto. O texto foi uma palesta do autor sobre o tema festa. Pela primeira vez no livro Marx entra nas análises, mas a retomada vai até Aristóteles e a sua exaltação aos livres: os poetas, os políticos e os filósofos. Não os políticos de hoje, que não passam de "capangas do sistema". Mas muito cuidado para não confundir entre festa e euforia. A euforia é o primeiro sintoma  do burnout, a euforia do "tudo poder".

Uma questão final, reflexão para além das análises do livro. Não sei se deixei claro que estamos diante de uma radical mudança de paradigmas no mundo do trabalho e de toda a estrutura psíquica do ser humano sob o mundo do capitalismo financeiro e da desregulamentação no mundo neoliberal, Uma desreferencialização total. E as mudanças na educação? O que significa a mudança de uma educação fundada no conhecimento e a sua passagem para o mundo das competências e habilidades?

O autor coreano desempenha suas atividades acadêmicas na Alemanha e é um profundo analista da sociedade atual. A tradução do presente livro é de Enio Paulo Giachini. Leitura obrigatória. A primeira edição alemã é de 2010. No Brasil foi lançado em 2017 e já está, em 2019, na sua 5ª reimpressão.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Joaquim Silvério dos Reis e a delação "premiada" contra Tiradentes.

Vou começar este post apresentando um fato de grande repercussão. No programa de Televisão de Pedro Bial, o ex juiz e agora Ministro da Justiça, Sérgio Moro concede uma entrevista. Uma das perguntas feitas pelo entrevistador não deve ter seguido as regras do programa, uma vez que deixou o entrevistado numa situação profundamente constrangedora. Bial perguntava sobre livros. Moro se declarou assíduo leitor e manifestou grande preferência pela leitura de biografias. Bial então perguntou sobre as últimas que tinha lido. Tentou enrolar..., mas não teve jeito. Não lembrou de uma única sequer. Situação de absoluto vexame.

Posteriormente, em artigo na Folha de S. Paulo (18.092019), Gregório Duvivier tentou socorrer o ministro, lhe recomendando três biografias, entre elas O Tiradentes, de Lucas Figueiredo. Li o livro, excelente, por sinal. Uma passagem me chamou atenção especial e me fez lembrar da recomendação do articulista. Ela está no capítulo 16 e ocupa as páginas 247 a 250. O capítulo não tem título mas versa sobre a reação da Coroa ao levante de Tiradentes e de seus companheiros. Versa sobre a questão da delação. Esse instrumento de origem medieval foi muito utilizado pelo então juiz que estava à frente da Força Tarefa Lava-jato. Certamente um dos motivos da recomendação.
A bela biografia de Tiradentes. Da Companhia das Letras. 2018.

É amplamente sabido que entre os que alimentavam "o louco desejo de liberdade", havia um arrependido. Até aí nada demais. O passo seguinte era o de delatar o movimento, esperando em troca, favorecimentos pessoais. Joaquim Silvério dos Reis tinha notória experiência no lidar com os governantes. Vamos a uma das passagens em que me detive:

"De acordo com as Ordenações Filipinas, havia uma única chance de salvação para quem cometesse o crime de lesa-majestade. O caminho da redenção era dado no livro 5, título 6, parágrafo 12: delatar os cúmplices. Quem traísse o rei, mas em seguida traísse os comparsas, entregando-os à justiça, mereceria perdão. O dispositivo determinava que, além de ficar livre de qualquer penalidade, o denunciante era, dependendo do caso, merecedor de 'mercês'". Mais adiante é relatado o seu encontro com o governador:

"Entre assustado e cauteloso, Silvério dos Reis desfiou seu rosário - e começou mentindo.  Disse que o que o trazia até ali era seu senso de lealdade para com a 'augusta soberana', d. Maria, dever que ele cumpria com risco de perder a vida. Feita a lacrimosa introdução, ele continuou adulterando os fatos. Contou ao governador que, no mês anterior, havia tomado conhecimento - acidentalmente - de que um grupo de 'poderosos e magnatas' de Minas planejava tomar a capitania de sua majestade, tornando-a independente. Segundo Silvério dos Reis, a descoberta da trama se dera graças a um acaso guiado pelos desígnios de Deus. Como andava desgostoso pela iminente perda do título de coronel e de seu regimento de milícia, ele caíra na besteira de fazer queixas contra a Coroa publicamente, o que teria aberto uma brecha para que os conspiradores tentassem recrutá-lo. Ele teria então sido convidado a participar da 'falsidade que se fulmina[va]' sob a promessa de ter extintas suas dívidas com a Real Fazenda..." Aí começou a desfiar a lista de nomes de seus ex companheiros.

Em outro post eu já manifestei a minha absoluta inconformidade com o instrumento da delação. Creio que a leitura dessas passagens, entre outras tantas, só me fez crescer a convicção. O sujeito é duplamente criminoso. Pela sua ação primeira e pela delação de companheiros, na segunda. Eis o Post: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/06/a-partir-de-agamben-reflexoes-em-torno.html

Joaquim Silvério dos Reis, chegou a ser preso por alguns meses, obtendo depois a liberdade, negada aos ex companheiros. Por toda a sua vida continuou a se vangloriar como o delator primeiro, o de número um, à espera de "mercês". Algumas, de fato, ele obteve. Mas a história o julgou pesadamente.Deixo também a resenha de O Tiradentes - uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/o-tiradentes-uma-biografia-de-joaquim.html

No post a que já fiz referência, eu citei Agamben, a quem eu retorno, com três parágrafos de transcrição de parte de seu livro Meios sem fim. Notas sobre política. São um pouco longos mas vale a pena a sua leitura. São sobre delação. Ei-los:


"Começaram como membros de brigadas e mafiosos, e, desde então, assistimos a um desfile interminável de rostos torvos em sua convicção, decididos no seu próprio vacilar. Às vezes, no caso dos mafiosos, o rosto aparecia na sombra para impedir que fosse reconhecido e - como da sarça ardente - escutávamos 'apenas uma voz'. Com essa voz profunda da sombra chama, nos nossos dias, a consciência, como se ele não conhecesse outra experiência ética fora do arrependimento. Precisamente aqui, no entanto, se trai a sua inconsciência, pois o arrependimento é a mais traiçoeira das categorias morais - aliás, não é nem mesmo certo se ela pertence à classe dos conceitos éticos genuínos. É conhecido o gesto decisivo com que Espinoza nega ao arrependimento todo direito de cidadania em sua Ética: quem se arrepende, escreve ele, é duas vezes infame, uma vez por ter cometido um ato do qual teve que se arrepender, e uma segunda vez porque se arrependeu dele. Mas quando, já no século XII, o arrependimento penetra com força na moral e na doutrina católica, logo se apresenta como um problema. Como provar, com efeito, a autenticidade do arrependimento?  Aqui o campo logo se divide entre quem, como Abelardo, exigia apenas a contrição do coração, e os 'penitenciais', para os quais importante não era, ao contrário, a insondável disposição interior do arrependimento, como o cumprimento de inequívocos atos exteriores. Toda a questão, portanto, se envolveu imediatamente em um círculo vicioso, no qual os atos exteriores deviam atestar a autenticidade do arrependimento e a contrição interior, garantir a genuinidade das obras, segundo a mesma lógica para a qual, nos processos atuais, denunciar os companheiros é garantia da veracidade do arrependimento e o arrependimento íntimo sanciona a autenticidade da denúncia.

Que o arrependimento tenha ido parar nas salas dos tribunais não é, de resto, um acaso. A verdade é que ele se apresenta desde o início como um compromisso equívoco entre moral e direito. Através do arrependimento, uma religião, que havia ambiguamente chegado a um acordo com o poder mundano, procura sem êxito dar razão ao seu compromisso, instituindo uma equivalência entre penitência e pena, entre delito e pecado, mas não há indício mais certo da ruína irreparável de toda experiência ética que a confusão entre categorias ético religiosas e conceitos jurídicos, que chegou hoje ao seu paroxismo. Atualmente, onde quer que se fale de moral, as pessoas têm categorias do direito na ponta da língua, e onde quer que  façam leis e processos, a serem manejados como obscuros feixes de lictor (Em italiano, fascio littorio: símbolo de origem etrusca, associado ao poder e à autoridade, que foi usado pelo Império Romano e pelo fascismo na Itália), são, ao contrário, conceitos éticos.

Tanto mais irresponsável é a gravidade com que os laicos se apressaram a cumprimentar a entrada do arrependimento - como ato incontestável de consciência - nos códigos e nas leis. Pois se realmente desventurado é quem é constrangido por uma convicção inautêntica a jogar toda a sua experiência interior em um conceito falso, para ele ainda há, talvez, uma esperança. Mas para os mediocratas que se vestem de moralistas e para os maîtres à penser televisivos, os quais em sua desventura edificaram vitórias pedantes, para estes, não, não há realmente esperança".  AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim - notas sobre política. Autêntica. Belo Horizonte - São Paulo. 2015. pp. 115-117. A edição brasileira é de 2015.