sábado, 31 de julho de 2021

Um novo lar na imensidão da mata. Memórias de Paul Ramminger. Imigrante de Mondaí - SC. Década de 1920.

Recebi do meu irmão, Hédio José, o mais velho entre nós, que acaba de completar 87 anos de vida, um presente valioso. Trata-se do livro Um novo lar na imensidão da mata - Reminiscências de Paul F. Ramminger, um imigrante alemão no oeste catarinense na década de 1920. O meu irmão mora na cidade de Mondaí, a antiga Porto Feliz, cidade retratada pelo livro. Porto Feliz foi colonizada essencialmente por protestantes e rivalizava com Porto Novo (Hoje Itapiranga), colonizada por católicos, com forte apoio dos padres jesuítas. Em Itapiranga se estabeleceram alemães oriundos das antigas colônias ou das primeiras colônias, das imigrações a partir de 1824, dos vales dos rios dos Sinos e Caí. A nossa família teve por berço a cidade de Harmonia, no vale do rio Caí.

Um novo lar na imensidão da mata. Oikos, 2020. Leandro Mayer, organizador.

O livro retrata a saga da família Ramminger, originária da Alemanha, da cidadezinha de Aldinger, que, conforme vislumbrei no mapa, se situa nas proximidades de Freiburg (Alemanha) e de Basileia, na Suíça. Faço a citação de Basileia porque ali se situava a Missão de confissão luterana, à qual pertencia Karl, o pai de Paul, o protagonista do livro. Karl se tornara pastor e trabalhou em missões de sua igreja na China. Por questões familiares, manutenção de sua unidade, veio trabalhar no Brasil, na localidade de Neu-Württenberg, hoje Panambi. Dono de uma personalidade forte, se desentende com a comunidade e decide se embrenhar em meio à floresta, às margens do rio Uruguai, na nascente localidade de Porto Feliz, a atual Mondaí (SC). Isso era no ano de 1921. Com uma coleção de selos e outra de moedas chinesas comprou duas colônias de terras, o equivalente a 48 hectares.

O livro é organizado pelo historiador Leandro Mayer, a partir das memórias escritas de Paul, que chega ao local, com apenas 11 anos de idade. Muitos e muitos sacrifícios! Saber grego, hebraico, aramaico e o Antigo Testamento quase de cor, além de seguir de ser adepto do pietismo, de pouco valeram para a derrubada da floresta, o corte da madeira e a sua transformação em tábuas e telhas para a construção de suas primitivas residências. Quando estas primeiras dificuldades, oriundas da natureza, foram sendo domadas, problemas de outra natureza aparecem, como a Coluna Prestes (1924) e a febre tifoide que assolou a colônia em sequência e consequência. Chegaram, inclusive, a participar da Revolução Constitucionalista de 1932 e, mais estranho ainda, ao lado de São Paulo. 

Mas nada se comparou com os sofrimentos passados ao longo dos anos de 1942 e 1943, período da Segunda Guerra Mundial, quando foram presos e torturados, unicamente por serem alemães. O alinhamento, por parte do governo Vargas, de alemão com nazista era praticamente automático. Não havia oportunidade para esclarecimentos. Conheceram as prisões da região e até de Porto Alegre. Um dos mais bonitos relatos é escrito por Erich, um dos filhos de Paul. Com a melhora da situação financeira da família, ele irá estudar em Panambi e depois em Porto Alegre. Lá cursou Ciências Econômicas na UFRGS. Revoltado com as injustiças do sistema capitalista, ingressou em movimentos clandestinos contra a ditadura militar, movimentos que abandona, após muitas advertências do pai, para se tornar executivo de uma das maiores empresas do capitalismo global. Chegou a ser o diretor presidente brasileiro do Thyssen-Grupp, trabalhando em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. O livro termina com o legado histórico da família para a cidade de Mondaí e para toda a região do oeste catarinense, com a montagem de um museu.

O livro se estrutura, sempre tendo como base as memórias escritas por Karl, de Paul, na maior parte das vezes, e por seu filho Erich, em oito capítulos, recheados de notas dadas por Leandro Mayer, o organizador do livro, num memorável trabalho de contextualização. Eis os capítulos, não numerados no livro: I. Um novo lar na imensidão da mata!- Reminiscências de minha vida, escrito por Paul em alemão e traduzido  pelo filho Erich; II. 1876-1976: o centenário do pastor karl e Hedwig Ramminger, com base no texto de Paul e mais uma vez traduzido pelo filho Erich Centenário de Karl e Hedwig Ramminger; III. Um voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932, com base no texto de Paul O diário do voluntário Paul F. Ramminger, com tradução de Gisela Dreger; IV. "Vítimas da nacionalização": repressão, prisões e torturas contra alemães, com base num depoimento de Paul para o Livro Colonização e desenvolvimento do Oeste de Santa Catarina, de 1997, de autoria do padre Luiz Heinen;

V. "Balsas no rio Uruguai": um testemunho, um texto escrito por Paul, que relata as atividades de extração, transporte e comercialização da madeira com a Argentina; VI. Um ponto fora da curva: o conflito entre gerações. Trata-se do brilhante texto escrito pelo filho Erich, de suas aventuras estudantis em Porto Alegre e de seu envolvimento no combate à Ditadura Militar; VII. O legado histórico de Paul F. Ramminger. Trata da criação do museu e do acervo fotográfico deixado em Mondaí, fruto do zeloso trabalho na preservação da memória familiar, bem como da cidade, que ajudara a desbravar; VIII. O centenário da imigração da família Ramminger no Brasil. O adeus. Tem até uma narrativa de participação do casal Paul e Erika no programa Em nome do amor, no SBT, comemorativo às bodas de diamante do casal.

O livro tem ao todo 127 páginas, recheadas de memórias escritas, acompanhadas de um rico acervo fotográfico e de esclarecedoras notas de contextualização. Confesso que foi uma leitura extremamente agradável e de aquisição de novos conhecimentos e de contextualização e inserção dessa história local, com a história do Brasil e Universal. Todos os envolvidos na produção desse livro de memórias são merecedores dos melhores elogios por este brilhante trabalho de preservação de memória. E que vida! Que saga! São narrados os destinos de pessoas indomáveis e intrépidas. O livro é editado pela Oikos, de São Leopoldo. Essa editora se ocupa muito com o tema da imigração alemã. E para o meu irmão, os meus melhores agradecimentos pelo presente. Se não fosse por ele, provavelmente jamais teria tido acesso a este belo livro.

terça-feira, 27 de julho de 2021

A história dos Cavaleiros Templários e do Templo. Charles G. Addison.

Há muito eu queria enveredar no campo da leitura sobre os Cavaleiros Templários. As minhas referências eram poucas, retiradas apenas de livros didáticos. Recentemente li o memorável romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott. Nele aparecem os reis Ricardo Coração de Leão e João sem Terra, reis muito vinculados os Cavaleiros e às Cruzadas. Isso me motivou a buscar literatura e atender às minhas curiosidades. O livro que comprei foi A história dos Cavaleiros Templários e do Templo, escrito por um dos membros do Templo Interno de Londres, no ano de 1842. Livro, portanto, escrito por um membro pertencente à ordem, que subsistiu e ainda subsiste, mesmo após a condenação papal da entidade.

A edição da Contraponto de A história dos Cavaleiros Templários e do Templo. 2012. Tradução Vera Ribeiro.

Mesmo com o posicionamento favorável aos Templários, as minhas curiosidades foram inteiramente satisfeitas. O livro é fiel aos fatos históricos e chamo a atenção para os dois temas tratados pelo livro: a história dos templários e a história do Templo. O Templo é uma enorme igreja que pertencia à ordem e que sobreviveu à sua extinção. Charles G. Addison (1812 - 1866), advogado e historiador inglês, escreveu o livro e a sua edição data do ano de 1842. O livro que eu li é da Contraponto e publicado no ano de 2012. Mostro este dado para ilustrar a importância do livro e a curiosidade que o tema desperta. Um livro de 1842 ganhando nova edição.

Recorro inicialmente a uma pequena síntese, de autoria de César Benjamin, retirada das orelhas do livro: "Em 1118, doze anos depois da Primeira Cruzada, um grupo de nove cavaleiros obteve permissão do rei cristão Balduíno II para se estabelecer no antigo Templo de Salomão, em Jerusalém, no lugar onde hoje existe a mesquita de Al-Aqsa. Pretendiam criar um contingente militar permanente para proteger os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa. Dez anos depois o papa Honório II formalizou a existência da Ordem dos pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, formada por monges combatentes que faziam voto de pobreza e castidade (Acrescento também o voto de obediência, seguramente o mais cobrado). Subordinados diretamente aos papas, independentes de qualquer poder secular ou eclesiástico, eles logo adquiriram grande reputação como principal força militar cristã na linha de frente contra os muçulmanos. O manto branco que usavam, com uma cruz vermelha no lado esquerdo do peito, tornou-se famoso em toda a cristandade e respeitado nos campos de batalha. "Um Cavaleiro Templário", dizia São Bernardo de Claraval (o padroeiro da ordem), "é destemido e está seguro por todos os lados. Sua alma é protegida pela armadura da fé, assim como seu corpo está protegido pela armadura de aço. Está, pois, duplamente armado. Não precisa temer nem demônios nem homens".

Uma ilustração dos guerreiros templários. Tenho vários souvenirs.

Durante 180 anos (1095 ou 1099 - 1291) que duraram as Cruzadas, os Templários acumularam enorme poder e fortuna em castelos, terras, imóveis, navios e tesouros com os quais criaram o primeiro grande sistema bancário europeu, tornando-se credores de nobres e reis. Porém, depois que a Terra Santa foi conquistada pelos muçulmanos, em 1291, o apoio à Ordem diminuiu, até que Filipe IV, rei da França, obteve autorização do papa Clemente V para lançar uma implacável perseguição contra ela, sob a implausível acusação de praticar cultos demoníacos. Prisões, torturas e execuções públicas se sucederam. Em 18 de março de 1314, Jacques de Molay, o último grão-mestre, foi queimado vivo em Paris, lançando desafios e imprecações contra o rei e o papa.

Os documentos originais dos julgamentos nunca foram divulgados. A grande frota templária desapareceu sem ser capturada. E o arquivo central da Ordem foi destruído em 1571 pelos otomanos. O fascínio em torno dos Templários subsistiu na forma de lendas e especulações, com poucas fontes confiáveis. Em 1842, o advogado e historiador inglês Charles G. Addison publicou, finalmente, o resultado de suas extensas pesquisas, que usaram fontes hoje indisponíveis. É o livro que o leitor tem em mãos. É uma completa história da Ordem, desde sua criação até a recuperação do Templo de Londres, que ainda hoje está em pé. Uma história real, feita de fé, proezas militares, conspirações, traições e grande emoção".

O livro está assim estruturado: Os nomes dos grão-mestres da ordem, de 1118/19 a 1314; várias ilustrações; sumário e apresentação de César Benjamin e o prefácio do autor. Aí começa o corpo do livro que tem 14 capítulos. Tudo isso ocupa 365 páginas. Os dez primeiros contam a história da ordem e os quatro últimos são sobre a restauração e a organização em torno do Templo de Londres. Tenho algumas observações a fazer. Tratava-se de uma organização religiosa militar, uma espécie de um exército papal europeu, muito poderoso. Havia a Ordem dos Templários, organizada em torno da proteção aos peregrinos em romaria à Terra Santa, peregrinação que rendia polpudas indulgências, e a Ordem dos Hospitalários que atendiam os doentes e feridos em viagem. Os Hospitalários não sofreram a extinção papal. Eram admirados e muito queridos pela população. Acumularam grande fortuna, oriunda de doações. Todo o capítulo V se ocupa em traçar um mapa de seus bens. Estavam ativos em toda a Europa, com destaque para Inglaterra e França. 

O Convento de Cristo. Tomar. Portugal. Do meu arquivo de fotos. Em Portugal os Templários apenas trocaram de nome: Cavaleiros de Cristo.

Os muçulmanos forram os seus grandes adversários, primeiramente sob o comando de Saladino. Mas a derrota final foi para as forças egípcias. Suas regras, minimamente detalhadas, eram muitas e a obediência era cega. As desavenças ocorreram por causa dos choques com os reis, com o papa e com as ordens religiosas. O extermínio foi feito com extrema violência. Por meio de torturas arrancavam qualquer confissão que fosse desejada pelos inquisidores. Como ilustração, para conhecer um pouco da ordem, apresento um item de seus princípios, revelador de todo o fanatismo de que eram impregnados. "Mas os soldados de Cristo travam com segurança as batalhas do Senhor, sem temor algum do pecado por liquidarem o inimigo ou do perigo de sua própria morte. Pois que dar ou receber a morte por Cristo nada tem de crime, e sim de muita glória (página 54)".

O Templo de Londres foi reconstruído e os "novos" Templários se dedicaram ao Direito e ao seu ensino. A defesa de seus princípios agora se daria através das instituições jurídicas e não mais pelas armas. Muitos de seus hábitos, costumes e tratamentos mútuos são hoje incorporados pela maçonaria. O último grão-mestre, observem a designação, foi Jacques de Molay, que até hoje tem seguidores entre católicos extremamente conservadores. Em suma, repito, foi uma leitura muito valiosa. Confesso que fiz uma certa leitura "dinâmica" quando ela se tornava repetitiva e martelava em cima de descrições muito detalhadas. Com certeza, recomendo.  Sim, também os reis Ricardo Coração de Leão e João sem Terra apareceram. Inclusive existe uma alusão à Magna Carta, que o rei João foi obrigado a assinar na chamada rebelião dos barões. Deixo também o link do livro Ivanhoé. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/ivanhoe-walter-scott-as-origens-do.html



sábado, 24 de julho de 2021

Discurso sobre a origem da desigualdade. Jean Jacques Rousseau.

Em 2004 comprei um livro raro. O comprei na Feira dos Livros Usados, um sebo aqui de Curitiba. A edição do livro não tem data, mas o seu antigo proprietário anotou o mês e o ano da compra. Novembro de 1949. O livro é  Discursos sobe as ciências e as arte e sobre a origem da desigualdade de Jean Jacques Rousseau (1712- 1778). O patrono da Revolução Francesa escreveu esse discurso no ano de 1775. O título completo é Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Desde já aponto para a propriedade como sendo esta origem e fundamento. O primeiro ensaio eu li no ato da compra e o segundo, o li agora, lendo sobre o grande democrata. O li com muito cuidado, pois o livro se esfarelava diante de qualquer falta de cuidado.

É esta edição que eu tenho. Tradução de Maria Lacerda de Moura. Atena Editora. 

A tese do discurso é exatamente a de que o ser humano, bom em seu estado de natureza, passa a ser portador de todas as maldades possíveis a partir da instituição da propriedade privada e da legislação que se seguiu e que se constituiu nos fundamentos que arruinaram o mundo. O autor com quem ele estabelece o contraponto é Thomas Hobbes, o da teoria de que o homem em seu estado de natureza é o Homo homini lupus, o da guerra de todos contra todos.

O discurso, depois de uma breve apresentação, tem dois capítulos. No primeiro ele apresenta o homem em seu estado de natureza e afirma que ele não é nem bom, nem mau, uma vez que os padrões morais de julgamento já são uma invenção da sociedade. Considera que o homem em seu estado de natureza é feroz em sua defesa e busca por alimentos, mas é incapaz de ser efetivamente mau. Examina a fragilidade do ser humano e a sua lenta evolução. Um destaque todo especial é dado para os avanços da linguagem que evoluiu na formação dos conceitos a partir da realidade concreta até atingir a abstração, com o metafísico e o moral. Mostra grande simpatia para com os índios caraíbas, donde deve derivar a sua imagem do bom selvagem.

Contra Hobbes aponta para o erro de origem de sua pesquisa. O seu homem em estado de natureza, já não vivia nesse estágio primitivo. Já estava contaminado pela vida civilmente constituída. Não chega nem a comentar o Estado Leviatã, preconizado pelo autor. Faz uma pergunta interessante, já puxando para o mundo das instituições. A quem recorreria o homem em estado de natureza quando ele se sentia injustiçado? Tomo um parágrafo já do final desse capítulo como ilustração: "Sem prolongar inutilmente esses detalhes, cada qual deve ver, sendo os laços da servidão formados exclusivamente da dependência mútua dos homens e das necessidades recíprocas que os une, é impossível sujeitar um homem sem o por antes na situação de não poder passar sem outro homem; situação que, não existindo no estado de natureza, deixa cada um livre do jugo e torna vã a lei do mais forte".

O segundo capítulo começa de forma bombástica, com uma frase que se tornou famosa: "O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: 'Livrai-nos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esqueceres que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!'.

Eu continuo mais um pouco: Parece, porém, que as coisas já tinham chegado ao ponto de não mais poder ficar como estavam: porque essa ideia de propriedade, dependendo muito de ideias anteriores que só puderam nascer sucessivamente, não se formou de repente no espírito humano: foi preciso fazer muitos progressos, adquirir muita indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de idade em idade, antes de chegar a esse último termo de estado de natureza". Passa a fazer então uma retrospectiva dessa evolução. De John Locke toma uma frase que é lapidar; "Não pode haver injúria onde não há propriedade". Em sua análise mostra que quando a propriedade se instaurou, desaparece a bondade original, Instaura-se a desigualdade, afirma-se o amor próprio e institui-se o trabalho e a escravidão. Tudo garantido por leis. Segue-se ainda dominação, violência, rapina, traições e o permanente estado de guerra.

Me permito ainda apresentar o parágrafo final, como uma espécie de síntese do capítulo: "Tratei de expor a origem e o progresso da desigualdade, o estabelecimento e o abuso das sociedades políticas, tanto quanto essas coisas se podem deduzir da natureza do homem, pelas luzes exclusivas da razão, e independentemente dos dogmas sagrados que dão à autoridade soberana a sanção do direito divino. Resulta do exposto que a desigualdade, sendo quase nula no estado de natureza, tira a sua força e o seu crescimento do desenvolvimento das nossas faculdades e dos progressos do espírito humano, tornando-se enfim estável e legítima pelo estabelecimento da propriedade e das leis. Resulta ainda que a desigualdade moral, autorizada unicamente pelo direito positivo, é contrária ao direito natural todas as vezes que não concorre na mesma proporção com a desigualdade física. Essa distinção determina suficientemente o que se deve pensar, nesse sentido, da espécie de desigualdade que reina entre todos os povos policiados, pois é manifestamente contra a lei da natureza, de qualquer maneira que a definamos, que uma criança mande num velho, que um imbecil conduza um homem sábio, ou que um punhado de pessoas nade no supérfluo, enquanto à multidão esfomeada falte o necessário".

Vou continuar trabalhando com Rousseau. Possivelmente seja ele o autor que melhor fundamenta a democracia. Lê-lo serve de alento num momento em que a democracia sofre tantas ameaças. Já comprei, de Ernst Cassirer A questão Jean-Jacques Rousseau, com prefácio e posfácio de Peter Gay. o  grande interprete da modernidade.  É. Pelo jeito, a razão foi sempre instrumental. Também recomendo a litura do primeiro discurso, que mereceu o Prêmio da Academia de Dijon. O recomendo especialmente para os avaliadores de dissertações e de teses. Creio que se tornariam bem mais rigorosos. Muita cópia e pouca criação é a principal constatação de Rousseau.

Um adendo. 21.08.2021. Na introdução do pequeno livro de Ernst Cassirer, A questão Jean-Jacques Rousseau, Peter Gay, cita Emile Faguet falando do Discurso sobre a origem da desigualdade. Vejamos a citação: "E este 'romance da humanidade', como Faguet o chama, tem um tema central: o homem é bom e a sociedade o corrompe" (Página 11). O romance da humanidade! Que bonito.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara.

Costumo acompanhar os livros do Rubens Casara. Dele, já li, Estado pós-democrático (2017), Sociedade sem Lei, (2018) e Bolsonaro: o mito e o sintoma (2020). Agora foi a vez de Contra a miséria neoliberal (2021). Um crescendo extraordinário. Creio que, sem favor nenhum, Rubens Casara é hoje um dos mais densos intelectuais brasileiros. Ele tem o domínio dos campos da política, da história e da filosofia do direito, da linguagem e da psicanálise. Este seu último livro, certamente é o mais denso entre eles.

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara. Autonomia Literária. 2021.

Contra a miséria neoliberal é ao mesmo tempo uma densa análise do imaginário neoliberal e um forte apelo para a insurgência contra esta "nova razão do mundo" que tanto desfaz o ser humano, reduzindo-o à lógica mercantil da mercadoria, da concorrência e de seu auto-empobrecimento. O neoliberalismo como a "nova razão do mundo" impregna todas as atividades humanas e subordina-as ao lucro e à acumulação, agindo como um poder soberano ilimitado para a obtenção de seus objetivos. A democracia e os ideais humanitários são a sua grande vítima.

Na contracapa do livro encontramos uma apresentação, escrita por nada mais, nada menos, do que Christian Laval, um dos maiores estudiosos e referência mundial sobre o tema. Laval escreve: "Fala-se constantemente do neoliberalismo, atribuindo-lhe significados muito diferentes uns dos outros, numa espécie de inflação verbal descontrolada. Rubens Casara tem razão em escrever que o 'significante 'neoliberalismo' é usado de tantas maneiras que acaba por se tornar uma espécie de conceito 'guarda chuva', um nome vago e impreciso". Tal imprecisão é uma fonte de erro no diagnóstico e também na resposta política ao fenômeno. Por conseguinte, qualquer trabalho acadêmico que vise definir rigorosamente o neoliberalismo e colocá-lo de novo no centro da discussão é uma salvação pública. Esse é o caso do livro de Rubens Casara que estás prestes a ler.

O autor oferece ao leitor brasileiro uma entrada extremamente clara em toda uma série de análises e pesquisas que compõem o que poderia ser chamado, para usar uma expressão inglesa, neoliberalism studies, que têm se desenvolvido há cerca de vinte anos em nível internacional. Esses estudos permitiram corrigir uma sequência de erros, como o que consiste em identificar o neoliberalismo como uma completa abstenção do Estado na vida econômica e social. O neoliberalismo não é, e nem pode ser, no plano da prática algo 'antiestado', como proclamado por doutrinas que são mais ligadas ao libertarismo do que propriamente  neoliberais. É preciso dar ao termo o sentido mais exato que está presente nos trabalhos de pesquisa inspirados pelas intuições de Michel Foucault: de um certo tipo de governo de indivíduos, que, por sua vez, exige um certo exercício de poder por meio de um Estado forte, autoritário, por vezes violento, que visa uma articulação entre as esferas pública e privada".

O livro, de 380 páginas, tem prefácio de Christian Laval, apresentação de Márcio Sotelo Fellippe, a apresentação do autor, quatro capítulos e as preciosas referências bibliográficas. O prefácio tem por título, levar o neoliberalismo a sério, a apresentação, sem título é simplesmente notável. A apresentação do autor leva o título de um novo mal-estar. Os capítulos tem os seguintes títulos: I. Racionalidade neoliberal; II. A normatividade neoliberal; III. O imaginário neoliberal e o IV, Vamos falar de alternativas.

Márcio Sotelo Fellippe usa uma imagem de Isaiah Berlin, que divide os pensadores e escritores entre raposas e ouriços. As raposas são dispersas e se ocupam com muitas coisas, já os ouriços se fecham em torno de uma ideia, de um pensamento central. Casara é então comparado ao ouriço. Ele "sabe uma coisa grande grande: sem solidariedade não há sentido para a existência humana". A apresentação é maravilhosa.

O livro do Casara tem uma apresentação extremamente didática, com títulos e subtítulos, numa sequência lógica fantástica. Vou apresentar estes títulos e os subtítulos: I. Racionalidade neoliberal. I. 1. Racionalidade e poder: o que pode?; I. 2. Governo, projetos e racionalidade: sobre revoluções culturais; I. 3. A razão de Estado: poder de polícia e vale-tudo; I. 4. A racionalidade liberal: promessas de liberdade; I. 5. A crise do liberalismo: a fraude desvelada; I. 6. A hegemonia da racionalidade neoliberal: um mundo para os detentores do poder econômico; I. 7. O nascimento do neoliberalismo; I. 8. O meio, o sujeito e a governabilidade: como se constrói uma servidão voluntária; I. 9. Neoliberalismo, geopolítica, guerras híbridas e novos golpes: os velhos 'donos do mundo' mostram suas armas; I. 10. As resistências neoliberais: mudar para dominar; I. 11. Os 'novos' neoliberalismos: ultra-autoritarismo como resposta; I. 12. A 'democracia' neoliberal como mercado de ideias; I. 13. Ainda sobre a colonização neoliberal: o buraco negro neoliberal; I.14. O neoliberalismo como razão de mundo; I. 15. O sistema neoliberal. Um capítulo de muitos conceitos, de pensamentos fundadores e de história, até formar, me permito o termo, a Weltanschaung, ou a razão neoliberal que tudo ordena.

II. A normatividade neoliberal. II. 1. Uma lógica normativa global; II. 2. Poder, norma e neoliberalismo; II. 3. Normatividade e poder numérico; II. 4. As normas neoliberais; II. 5. Normatividade neoliberal: o conceito de interesse; II. 6. Mais cinco normas neoliberais; II. 6. 1. As decisões devem ser tomadas a partir do critério da exclusiva satisfação pessoal; II. 6. 2. Os direitos e as garantias fundamentais devem ser afastados sempre que necessário à eficiência do mercado; II. 6. 3. Os concorrentes-inimigos devem ser vencidos ou destruídos; II. 6. 4. Tudo e todos devem ser tratados como coisas; II. 6. 5. Tudo deve ser simples (e transparente). Este simples é o pensamento binário, que se opõe ao pensamento complexo, fruto de reflexão. Este item foi para mim um dos pontos altos do livro. Do capítulo eu concluo: pronto, - o direito também está subjugado à racionalidade neoliberal.

III. O imaginário neoliberal. III. 1. Breves considerações sobre a imaginação, as imagens, as ideias e o imaginário; III. 2. Um conceito de imaginário neoliberal. III. 3. É preciso levar a sério o imaginário neoliberal; III. 4. A naturalização dos absurdos. III. 5. Tudo é impossível de mudar (O TINA - There Is Not Alternative - da senhora Tatcher); III. 6. A descivilização (a modernização regressiva - gostei do termo. Eu sempre usei - a modernização conservadora); III. 7. As mutações do imaginário em direção ao neoliberalismo. III. 8. Imaginário neoliberal e as massas. Um fantástico capítulo com conceitos de linguagem, de psicanálise, de conceitos e também de história.

IV. Vamos falar de alternativas. Desse capítulo apresento o parágrafo final: "Em suma, para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade, uma normatividade e imaginário do comum, daquilo que vale por ser construído por e para todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável. Por isso é preciso insistir na força do comum, desdemonizar a palavra e refundar o conceito de comum como objeto da política. Não é impossível". Com certeza, o melhor livro lido neste ano de 2021. 


quarta-feira, 14 de julho de 2021

1984. George Orwell.

Como conhecia 1984 apenas pela sua versão levada ao cinema e como ainda tenho um projeto de leitura de grandes clássicos, adiantei o livro na fila de leitura, colocando-o em primeiro lugar. É uma leitura fascinante e que provoca, segundo palavras de Erich Fromm, uma "esperança desesperada". 1984 é o último romance de George Orwell. Ele é datado de 1949, um ano antes da morte do escritor. Este é um dado fundamental para a compreensão do livro. Orwell tinha em mente, vivos, os horrores do progresso da civilização ocidental: Primeira Guerra, crise econômica de 1929, nazi-fascismo, stalinismo, Segunda Guerra Auschwitz, e, acima de tudo, a bomba atômica e a perspectiva da corrida armamentista. Havia possibilidade para a esperança? Está abeto o caminho para a sua distopia.

1984. George Orwell. Companhia das Letras. Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn.

O livro é relativamente longo e é dividido em três partes. Na primeira, em oito capítulos, é feita uma descrição e uma contextualização geral do Sistema que estará implementado no mundo a partir de 1984 (ele escreve em 1949, como já vimos). Nela também emergem os protagonistas da obra, com destaque para o ainda esperançoso Winston Smith. Aparecem as três potências da época: Oceânia, Eurásia e Lestásia. Winston vive na Oceânia. Ela é governada pelo Partido e seus ministérios, sob a inspiração do Grande Irmão. Todos são controlados pela onipresença das teletelas (pan-ópticos), que, tanto captam, quanto transmitem o que interessa ao Sistema. As potências vivem em guerras permanentes.

Na segunda parte, Winston se apaixona por Júlia. Como os sentimentos humanos haviam sido abolidos pelo Sistema, vivem em erro e sofrem as penas de sua rebeldia. Há esperanças! O'Brien (observem bem este personagem da alta hierarquia do Partido) coloca Winston em contato com a Confraria. Ela representava a Revolução. Esta era pregada por Goldstein, o difamado e temido líder do Partido. Para sobreviver, o Sistema precisa de inimigos. Goldstein era o inimigo. Winston e Júlia são flagrados pela Polícia das Ideias. Essa narrativa consta de dez capítulos.

Na terceira parte, narrada em seis capítulos, Winston inicia o seu processo de adaptação ao mundo do Grande Irmão. Ele consta de torturas e de lavagem cerebral. Constava de três partes: aprendizado, compreensão e aceitação. O'Brien é um dos chefes supremos do Partido e comanda o processo. As dores são inimagináveis e terminam no quarto 101, onde o processo é finalizado. "Duas lágrimas recendendo a gim correram-lhe pelas laterais do nariz. Mas estava tudo bem, estava tudo certo, a batalha chegara ao fim. Ele conquistara a vitória sobre si mesmo. Winston amava o Grande Irmão" (página 346). Winston finalmente estava adaptado.

O livro tem um apêndice extraordinário, Os princípios da Novafala, do próprio autor. No mundo do Grande Irmão uma nova linguagem seria necessária. O número de palavras deveria ser mínimo. O passado deveria ser abolido e, junto com ele, tudo o que ele havia produzido, especialmente o mundo político das utopias, da democracia, da liberdade e da igualdade. Foi, creio eu, a parte que mais exigiu da criatividade do escritor. É o que assistimos no mundo neoliberal de hoje. O empobrecimento da linguagem e a redução do imaginário. 

Apresento agora a síntese da contracapa, para depois, dar espaço aos posfácios acrescidos ao livro. "1984 é uma das obras mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante, tem como herói o angustiado Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo, pois o Grande irmão (Big Brother), líder simbólico do partido que controla a tudo e todos, 'está de olho em você'.

No íntimo, porém, Winston se rebela contra a sociedade totalitária na qual vive: em seu anseio por verdade e liberdade, ele arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Julia, e com uma organização revolucionária secreta".

Então vamos aos posfácios. O primeiro é de Erich Fromm, datado de 1961. Vou me ater mais a ele. Em primeiro lugar ele nos lança uma advertência e nos provoca uma espécie de desespero. "O sentimento que expressa é de quase desespero acerca do futuro do homem, e a advertência é que, a menos que o curso da história se altere, os homens do mundo inteiro perderão suas qualidades mais humanas, tornar-se-ão autômatos sem alma, e nem sequer terão consciência disso".

Apresenta depois as três obras que representam as utopias com relação ao futuro da humanidade, proporcionadas pelo entendimento, da razão esclarecedora: Utopia de Thomas More; A cidade do sol, de Campanella e Cristianópolis, de Johanes Valentinus Andreae. A elas contrapõem as três grandes distopias, ou utopias negativas: Nós, de Zamyatin; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e a do próprio George Orwell, 1984.

Do posfácio de Erich Fromm anotei duas observações que considerei mais significativas: A primeira é a de que a paz é impossível em meio à corrida armamentista travada entre as grandes potências e, a segunda, a da natureza da verdade dentro do regime do Grande Irmão. A verdade é aquela que é ditada pelo Partido. Ela se dá sob o duplipensamento. Dois e dois são quatro, ou são cinco, conforme a conveniência.

Fromm afirma que 1984 nos coloca diante de duas possibilidades: ele, ou nos torna totalmente desesperançados e resignados, ou nos proporciona a clareza para ações ainda mais corajosas para o enfrentamento e a resistência. Assim Fromm termina a sua análise; "A esperança só pode concretizar-se, nos ensina 1984,  se percebermos o perigo que confronta os homens de hoje, o perigo de uma sociedade de autômatos que terão perdido todos os traços de individualidade, amor e pensamento crítico, e que não serão capazes de percebê-lo em decorrência do 'duplipensamento'. Livros como o de Orwell são advertências poderosas, e seria lamentável se o leitor, de modo autocomplacente, interpretasse 1984 como mais uma descrição da barbárie stalinista, sem perceber que o livro se refere também a nós" (Página 378-9).

O segundo posfácio é de Ben Pimlott, datado de 1989. O historiador britânico faz uma pequena mas memorável síntese do livro e destaca o "duplipensar", presente no personagem de O'Brien. Destaquei uma pequena frase: "É um livro sobre o presente contínuo: uma atualização da condição humana. O que mais importa é que ele nos lembra de muitas coisas nas quais normalmente evitamos pensar" (Página 386).

O terceiro e último posfácio é do escritor norte americano Thomas Pinchon (2003). Ele nos apresenta uma contextualização da obra e nos põem em contato com a sua gênese. Pinchon deve ser um estudioso de Orwell. Também destaca o "duplipensamento" e mostra algumas ausências nas previsões do livro, como os fanatismos religiosos e o ódio entre raças, que facilmente ele poderia ter previsto. Os posfácios, devo dizer, são profundamente esclarecedores. Os autores, seguramente foram escolhidos meticulosamente, a dedo.

No momento estou lendo Contra a miséria neoliberal, de Rubens Casara (Autonomia literária, 2021). O tempo inteiro ele me remete ao 1984. Especialmente ao apêndice Os princípios da Novafala. O empobrecimento da linguagem é um dos pressuposto dos regimes totalitários. Ela produzirá a redução do imaginário, necessária à adaptação a um nível menor de exigências. Por isso o neoliberalismo promove tantas agressões aos sistemas educacionais, aos incentivos culturais e tanto estimula o negacionismo, nos remetendo aos tempos medievais.

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara. Autonomia  Literária. 2021.


terça-feira, 6 de julho de 2021

O Novo Conservadorismo Brasileiro. Marina Basso Lacerda.

Cheguei a este livro por força de outras leituras, por indicações bibliográficas de leituras em que procurava entender o atual e triste momento da política brasileira. Falo de O Novo Conservadorismo Brasileiro, o livro de doutoramento pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de Marina Basso Lacerda. A relevância do tema e o aprofundamento da pesquisa transformaram a tese no presente livro, que ilumina o atual cenário brasileiro. Marina é advogada e analista legislativa da Câmara dos Deputados. Tomo a liberdade de indicar esta leitura para todos os que buscam uma alternativa de democracia efetiva para o complicado quadro da atual realidade brasileira.

O novo conservadorismo brasileiro. Marina Basso Lacerda. 2019.

O livro tem um prefácio, escrito por Flávia Birolli, uma das integrantes da banca examinadora, uma apresentação com uma visão dos temas pesquisados e o corpo do trabalho dividido em seis capítulos, não numerados e um grande número de subtítulos. O pressuposto básico é que existe uma relação entre o neoconservadorismo surgido nos EUA e os movimentos neoconservadores no Brasil, que culminaram com a ascensão de Jair Bolsonaro como presidente da República. A base de observação da política brasileira é a ascensão e atuação das bancadas evangélica e da segurança pública na Câmara dos Deputados, em sua 55ª Legislatura, que corresponde aos anos de 2015-2018.

O primeiro capítulo, tem por título Neoconservadorismo nos Estados Unidos: histórico e conceito. É um capítulo de fundamentação teórica. O tempo delimitado é o do final dos anos 1970, com a ascensão de Reagan ao poder, até o governo Trump. Lembrando que ao final da Segunda Guerra Mundial imperou o espírito da Guerra Fria. Quem exerceu primordial influência nesse cenário foi a ascensão da "direita cristã", evangélica e católica, na contenção dos avanços das pautas feministas e LGBT. A "direita cristã" era pautada pela defesa intransigente da família patriarcal, do sionismo, do militarismo, do espírito punitivista criminal e da pauta econômica neoliberal.

O segundo capítulo, Defesa da família patriarcal: atuação parlamentar em combate ao feminismo e às demandas do movimento LGBT, traça um paralelo da atuação dos parlamentares nos Estados Unidos e no Brasil. As questões mais sensíveis foram as de conter os avanços em favor da descriminalização do aborto, da diversidade e de barrar os debates nas escolas sobre a homofobia, tidos pelos conservadores como "ideologia de gênero", que, segundo uma afirmação de João Paulo II, pretendia uma alteração da natureza humana. Creio que os leitores brasileiros lembram dos debates em torno do "Kit Gay". Neste capítulo também é traçado um perfil da bancada evangélica, que atua em consonância com os deputados católicos conservadores, contrários à Teologia da Libertação. 

O terceiro capítulo, Idealismo punitivo: atuação parlamentar pelo rigor criminal, mostra o entrelaçamento entre as bancadas evangélica e a de segurança pública, bem como os fundamentos dessa aliança. A defesa da família patriarcal e de seus valores no estabelecimento da ordem e da hierarquia é o principal alvo. Lei e Ordem. Este seria o principal antídoto para o controle da pobreza. Pessoas de bem, pessoas respeitadoras da ordem estabelecida terão mais facilidades no mercado de trabalho. Os itens principais da pauta punitivista são os da redução da maioridade penal, da exposição pública de fotos de menores infratores, da defesa de policiais em casos de abusos ou excessos cometidos, da obstrução à Comissão Nacional da Verdade, da defesa da aprovação das leis anticorrupção e antiterror e a defesa da intervenção militar no Rio de Janeiro. Lembram do bordão "Bandido bom é bandido morto"?

O quarto capítulo, Bolivarianismo e sionismo: Inserção internacional religiosa e anticomunista, trata da pauta da política externa do movimento. A atuação se dá mais pelo discurso do que pelas tentativas de legislação. O bolivarianismo é o substituto do comunismo da antiga União Soviética dos tempos da Guerra Fria. É o comunismo do século XXI. Já o sionismo é definido pela questão religiosa, dos fundamentos do Antigo Testamento, dos valores ali apregoados, comuns a judeus e cristãos. A aproximação com Israel também se dá para afagar a política externa dos Estados Unidos. As divergências históricas entre cristãos e judeus são esquecidas. Lembram do "Vá para a Venezuela"?

O quinto capítulo, Neoliberalismo: atuação parlamentar por desnacionalização, desregulamentação, privatização e  valores de mercado, aborda as questões econômicas do movimento. Os temas trabalhados são os da agenda neoliberal, contida no título do capítulo. Os temas discutidos na Câmara dos Deputados são os referentes a Petrobras e ao Pré-Sal, ainda no Governo Temer, bem como a reforma da legislação trabalhista e da votação da PEC-95, a que limita os gastos públicos. Em vez de políticas públicas, é aplicado o espírito punitivista de caráter penal do Estado neoliberal. Há uma perfeita harmonia entre a direita cristã e o discurso do livre mercado, do empreendedorismo e da meritocracia.

O sexto capítulo, Jair Bolsonaro e o neoconservadorismo quarenta anos depois, mostra a atuação parlamentar do deputado, pautado no discurso conservador, até o seu alinhamento perfeito e total para ser o candidato do entrelaçamento entre a direita cristã, do seu moralismo punitivista e pró-família patriarcal e a pauta econômica do neoliberalismo com os seus apregoados valores do livre mercado.

Deste sexto capítulo eu destaco o seu discurso após a eleição em primeiro turno. Foi um discurso para a sua base, com um ligeiro olhar também para o segundo turno: "Boa noite brasileiros. Primeiro, meu muito obrigado aos quase cinquenta milhões de pessoas que acreditaram em mim no último domingo. O nosso compromisso, a nossa plataforma, a nossa bandeira, baseia-se em João 8:30: 'Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará'. Meu muito obrigado às lideranças evangélicas; aos homens do campo, quer seja do agronegócio, quer da agricultura familiar. Obrigado, caminhoneiros. Obrigado, policiais civis e militares, integrantes das forças armadas. Obrigado, família brasileira, que tanto clama para que seus valores sejam respeitados. E mais ainda, que a inocência da criança em sala de aula esteja acima de tudo. Muito obrigado em especial à região Nordeste, que, apesar de eu ter perdido lá, nunca alguém que fez oposição ao PT teve uma votação tão expressiva como eu tive" (página 193).

Ainda, deste sexto capítulo, quero destacar cinco razões apontadas pela pesquisadora como responsáveis pela eleição de Bolsonaro e a consequente ascensão da direita neoconservadora ao mais elevado cargo da representação política brasileira. Vou apresentar em tópicos: 1. a ascensão e mobilização da "direita cristã"; 2. o combate à ideologia de gênero e a defesa à família patriarcal; 3. Olavo de Carvalho, o auto proclamado "parteiro" da nova direita brasileira; 4. o antipetismo; 5. o argumento neoconservador dos valores cristãos, sólidos e estáveis. Pulso firme e hierarquia.

Ainda dá tempo para apresentar a orelha do livro: "Este livro trata do paralelo entre a ascensão do neoconservadorismo nos Estados Unidos no fim da década de 1970 e o surgimento do novo conservadorismo no Brasil a partir de meados de 2015 - que culmina com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Neoconservadorismo ou nova direita se refere originalmente à coalisão contrária às políticas de bem-estar social e ao avanço de feministas e LGBTs, que reuniu parcela majoritária do evangelismo, elementos da direita secular do Partido Republicano e intelectuais para a eleição de Ronald Reagan em 1980.

O neoconservadorismo - fundado na tríade militarismo, absolutismo do livre mercado e família tradicional - forneceu o berço ideológico que viabilizou o neoliberalismo no mundo, no laboratório chileno de Pinochet, com os Chicago boys. A retórica da ortodoxia econômica entre nós é possibilitada com o resgate do mesmo ideário, expresso no combate à "ideologia de gênero", na Escola sem Partido, no Estatuto da Família, no fim do Estatuto do Desarmamento, no estabelecimento do teto de gastos públicos com a preservação de juros, na proposta de mudança da embaixada para Jerusalém e na crítica ao "marxismo cultural globalista". Simplesmente - um livro necessário.