domingo, 30 de maio de 2021

Servidão Humana. Somerset Maugham.

Entusiasmado com a leitura de O Fio da Navalha, de imediato emendei com a leitura de Servidão Humana, livros do escritor francês/inglês Somerset Maugham. Não consigo conter meu entusiasmo diante deste escritor, especialmente, pela sua qualidade de narrador. Maugham nasceu em 1874, em Paris e morreu em Nice, em 1965. O Fio da Navalha é do ano de 1944 e Servidão Humana, de 1946. Os dois livros são bastante autobiográficos.

Servidão Humana. Coleção: Imortais da Literatura Universal. Abril. 1971. Tradução: António Barata.

Maugham ficou órfão de pai e de mãe muito cedo e a sua educação foi confiada a um tio, que seguia a carreira religiosa. A exemplo do pai, Somerset também se tornou médico, mas não seguiu a carreira, dedicando-se integralmente à literatura. Philip Carey, o personagem principal de Servidão Humana, também muito cedo se tornou órfão de pai e de mãe e a sua educação foi confiada ao seu tio, que respondia pelo vicariato de Blackstable. Philip, por intercessão de sua tia, consegue fazer estudos de alemão em Heidelberg, voltando depois para a Inglaterra e, mais uma vez, por intermédio da tia bondosa e compreensiva, consegue ir a Paris para se dedicar à pintura, depois de uma passagem por estudos de contabilidade. Dois anos após, sente-se um fracassado e retorna para a casa dos tios.

Preocupado com os rumos de sua vida, resolve seguir os passos de seu pai e se dedicar ao curso de medicina. Quando se formou e se encaminhou profissionalmente termina a narrativa do romance. Em síntese, este é o enredo deste romance de 122 pequenos capítulos, que ocupam 563 páginas de letra miudinha, de Servidão Humana, da coleção Os Imortais da literatura Universal, da  qual ocupa o volume de número 19. A sua leitura me ocupou por mais de uma semana. É fácil perceber que se trata de um romance de formação. E é nisso que está todo o seu valor.

Cada diferente personagem é um novo mundo que se descortina. O tio e a tia Carey. Ele, em contradição com a sua vida de pregação e a tia cheia de dedicação, bondade e generosidade. Os amigos estudantes, cada um com a diversidade de seus mundos e interesses. Os estudantes de pintura de Paris e os de medicina de Londres. A simplicidade da família Athelny, que o cativam profundamente, a sabedoria de Cronshaw, que se deixa consumir em sua sabedoria e pela bebida. Mas tem também Mildred, a personagem mais emblemática e perversa do romance, por quem Philiph arde em incompreensíveis paixões, que tantos sofrimentos lhe causam. Sally, a filha dos Athelny, merece uma atenção toda especial. Além disso muitos projetos de vida e interrogações em torno da mesma. A busca pelo sentido da vida está sempre presente na obra do escritor.

Esta é a história, junto com outros personagens que vão se cruzando na vida do jovem, perdido em suas buscas. Mildred é uma personagem feminina de Maugham. Sobre elas lemos, na biografia que acompanha a coleção: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se". E como Mildred é perversa. A paixão incontida de Philiph por essa megera, para dizer pouco, é irritante. E lá está ele, novamente a acudi-la, de novo e mais uma vez.

O livro de biografias, ao se deter na análise de Servidão Humana, traça o seguinte perfil de Philip: "...Philip, que recusara Deus por não lhe haver curado o pé, despreza as explicações religiosas e prefere ver na vida apenas um sentido estético. Compara-a a um tapete persa: 'Assim como o tecelão elabora o tapete sem outro cuidado senão o prazer estético, um homem pode viver a sua vida... Nada impede que se considere a vida como um desenho', composto de 'acontecimentos, ideias'. Nessa elaboração, pouca importância tem a dor ou a felicidade, simples detalhes do desenho final'. Ao morrer, cada homem deixará a sua trama, e ela sempre será pessoal e bela, mesmo que ninguém venha a conhecê-la". Mas haja sofrimento, penúria e servidão. O que seria a tal da servidão humana?

Ele lida muito com a falta de dinheiro e conhece bem os estragos por ele provocados. No livro encontramos passagens que refletem bem a questão, como esta: "(Philip) Achava delicioso ter o coração livre e o bolso suficientemente cheio para prover às suas necessidades. Ouvira outros falar com desprezo do dinheiro. Teriam experimentado um dia viver sem ele? Sabia que a falta de dinheiro torna o homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o caráter e o faz olhar o mundo por um prisma vulgar. Quando se tem de levar em conta cada vintém, o dinheiro assume uma importância grotesca. É preciso que estejamos numa situação desafogada para atribuir-lhe o seu valor real" (Página 531).

No livro de biografias encontramos a descrição de sua relação com o tio, responsável por sua educação, baseada nos relatos de Servidão Humana. O tio Henry Carey é descrito como "um homem sumamente egoísta, mesquinho e provinciano. A casa do pastor era severa e fria, ausente de crianças, cheia de livros e quadros religiosos. A noção de pecado era recordada a cada instante, o menino vivia em sobressalto. Tia Sofia, uma aristocrata alemã, procurava atenuar a dureza do marido e compensar a ausência dos pais no coração do sobrinho, apesar de sua sincera afeição".

Interessante também é observar um pequeno defeito no pé (Talipes ou pé torto), que o personagem Philip carregava. Era uma fonte permanente de preconceitos e até de xingamentos de "seu aleijão". Um dos mais belos capítulos do livro é o de número 113, onde Philip, fazendo seus últimos estágios para a sua formação em medicina, entra diretamente em contato com a realidade econômica e social do povo, dependente dos serviços médicos de um obstetra. Realiza 63 partos, geralmente de crianças indesejadas, vindas ao mundo, acompanhadas pelo desespero dos pais.

Por tratar-se de um romance de formação, separei duas passagens para posts especiais. Eu os qualificaria como textos retirados da literatura para aulas de filosofia. O primeiro é quando vai para Heidelberb, e um novo mundo de relações lhe amplia a visão de mundo e promove a sua ruptura com a religião herdada e o segundo, quando já está em Paris, e lhe são lançadas as questões fundamentais perante a vida. E uma recomendação final. Leiam e recomendem William Somerset Maugham.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Fio da Navalha. William Somerset Maugham.

Buscando em minha biblioteca livros ainda não lidos, deparei com O Fio da Navalha, do escritor francês/inglês W. Somerset Maugham. O livro integra a coleção da Biblioteca Folha, fato que explica o não tê-lo lido logo após a compra. Livros que integram uma coleção... Nunca tinha lido nada desse escritor maravilhoso. A sua forma simples e direta de narrar me surpreendeu agradavelmente. Depois li no livro de biografias que acompanha a coleção Os imortais da literatura universal, que O Fio da Navalha é uma de suas melhores obras e que o personagem Larry reflete as suas próprias preocupações diante da vida.

O Fio da Navalha. Biblioteca Folha. 2003. Tradução: Lígia Junqueira Smith.


W. Somerest Maugham nasceu em Paris, em 1874. Terá uma longa vida, vindo a morrer em Nice no ano de 1965, depois de percorrer o mundo inteiro. Os seus relatos biográficos o apontam, acima de tudo, como um grande contador de histórias. No caso de O Fio da navalha ele próprio toma parte da história contada, sendo ele o Mr. Maugham. O romance foi escrito no ano de 1944. A primeira guerra mundial e a depressão econômica de 1929 e as ruínas econômicas por ela provocada fazem parte da história. 

O romance começa  com Mr. Maugham empreendendo uma viagem ao oriente, no ano de 1919. Em meio a viagem, se detém em Chicago por três semanas, atendendo convite de seu amigo Elliot Templeton, um americano radicado em Paris, com gosto pela vida social, nobreza e obras de arte. Sua vida é uma festa. Dessa estadia, surgem os personagens do romance. Nas recepções Mr. Maugham conhece Isabel, filha de Louisa Bradley e sobrinha de Templeton, namorada de Laurence Darrell, ou simplesmente Larry, o personagem central do romance. Ainda é personagem de destaque Gray Maturin, filho de um rico corretor de títulos na cidade e um eterno apaixonado pela bela Isabel. Bem, esses são os personagens. O cenário mais frequente será a cidade de Paris, junto com a Riviera francesa. A história, por óbvio, eu não vou contar. Existem alguns outros personagens, também dignos de notas. Você os encontrará: Sophie, Suzzanne, o industrial Achille...

Dou, no entanto, uma visão do romance, a partir da orelha do livro da edição da Biblioteca Folha: "O século 20 produziu uma quantidade enorme de histórias sobre ex combatentes de guerra que, ao voltarem para casa, não se reconhecem mais naquilo que veem e precisam  de algum modo reencontrar o fio da meada. No entanto poucas obras literárias se tornaram tão emblemáticas dessa situação quanto esse romance de W. Somerset Maugham.

Depois de ver seu melhor amigo morrer nos campos de batalha da Primeira Guerra, o jovem norte-americano Larry Darrell retorna aos Estados Unidos completamente transformado. Em pouco tempo, decide deixar a vida burguesa de Chicago e adiar seu casamento com a bela Isabel. Como muitos jovens de sua geração, Darrell vai passar uma temporada de aprendizado existencial em Paris, onde perambula pelos cafés e começa a ler livros sobre a Índia e o Nepal.

Entusiasmado com as descobertas e a possibilidade de um mundo radicalmente novo, Darrell viaja para esses países em busca de iluminação espiritual - assim como o próprio autor fez na década de 30. Anos mais tarde, de volta a Paris, Darrell reencontra Isabel e vários amigos americanos que haviam deixado os EUA depois da crise financeira de 1929".

A história, com o narrador participante, se desenvolve ao longo de sete capítulos, sendo o de número seis todo dedicado a Larry e seu encontro com os sábios do budismo na Índia e no Nepal. Larry é um personagem ímpar e imprevisível. Traz a marca profunda de sua participação na Primeira Guerra, quando um amigo seu morre para salvar-lhe a vida. Daí a busca para dar à sua vida um significado e um sentido. Será incompreendido por todos, menos pelo narrador, que passara por questões semelhantes.

Do livro de biografias, anotei algumas passagens marcantes sobre o escritor e os seus personagens, passando antes por algumas marcas nessa sua biografia, como a precoce orfandade de mãe e pai, passando pela presença meio nefasta de um tio padre, pela sua formação no curso de medicina em Londres e o seu abandono para se dedicar inteiramente a literatura. Pelo fato de Isabel ser a personagem feminina mais importante, uma nota sobre as mulheres em seus livros: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se. Amor é ilusão, diz Maugham ao longo de sua obra: amor provoca mais sofrimento que felicidade e, quando se restringe à mera atração física, é uma fonte de contínua tortura e servidão".

Quanto a Suzzanne, uma das personagens femininas de O Fio da Navalha, que se casa, possivelmente por interesse, ela mesma afirma: "Creia-me, amigo, os outros podem dizer o que quiserem, mas o casamento continua sendo a melhor profissão para uma mulher".

Mas a tese central do livro é a busca de um sentido para a vida, assim expresso em Larry, numa das respostas a Mr. Maugham, quando este lhe pergunta se a América é o melhor lugar para por em prática a filosofia de vida que aprendera em sua viagem para a índia: "Não sei por que não. Vocês europeus, nada conhecem da América. Pelo fato de amontoarmos grandes fortunas, acham que é só dinheiro que nos interessa. Pouco ligamos a ele; assim que o possuímos tratamos logo de gastá-lo, às veze bem, às vezes mal, mas em todo caso o gastamos. Dinheiro nada significa para nós; é apenas o símbolo do sucesso. Somos os maiores idealistas do mundo; só que, no meu modo de pensar, pusemos o nosso ideal onde não devia estar; acho que o maior ideal que um homem possa ter é o seu próprio aperfeiçoamento". Com essa busca pelo "próprio aperfeiçoamento", concluo o post, para que essa imagem seja a que continue ocupando o espaço em nossa mente.

Mas antes vamos lembrar que Maugham também fez muito sucesso com a adaptação de sua obra para o cinema. Com meia dúzia de clicks você localiza O Fio da Navalha. No cinema essa obra ganha maior dramaticidade. Lembrando que o romance teve a sua primeira publicação no ano de 1944, dado fundamental para entender o espírito da obra.


terça-feira, 18 de maio de 2021

DRUK. Mais uma rodada. Melhor filme estrangeiro.

No domingo, 25 de abril  de 2021, ocorreu a solenidade da premiação do Oscar - 2021. Com a pandemia tudo foi diferente. A cerimônia e a forma de ver os filmes. Mas, com listagem em mãos, vamos dar um jeito para assistir, ao menos, os que receberam as principais estatuetas. Comecei pelo melhor filme em língua estrangeira, Druk. Mais uma rodada, por saber que o filme contava com a atuação de professores, embora a educação, propriamente dita, não seja o tema central. Ele versa sobre bebidas alcoólicas e desempenho profissional e relacional.

Druk. Mais uma rodada. Thomas Vinterberg. Melhor filme estrangeiro. Dinamarca.

Com o tema do álcool já apresentado, vamos a algumas considerações em torno do filme. O filme é dinamarquês e os quatro atores principais são professores do ensino médio (Mads Michelsen, como Martin, o ator protagonista, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Rauthe). Como professor, a primeira percepção que eu tive foi a dos ambientes frequentados pelos professores. Seriam ambientes totalmente proibidos a professores brasileiros desse mesmo nível de ensino. Me refiro especialmente ao restaurante frequentado, na cena principal do filme, aquela em que o tema do álcool começa a ser discutido.

Com vida estável e relativamente tranquila (embora a questão econômica, de longe, resolva todos os problemas do ser humano), os quatro professores se reúnem num jantar, para discutirem, no país berço do existencialismo, o tédio em suas vidas e o baixo desempenho profissional e relacional em suas vidas. Martin, professor de História, acabara de dar uma entediante aula sobre Winston Churchill. Os das outras áreas não tinham performance melhor, como é mostrado pelas aulas de música e de educação física. E surge a proposta.

De acordo com a teoria de um conterrâneo, o ser humano tem uma defasagem de 0,05º de álcool em sua corrente sanguínea, o que explicaria o baixo desempenho em suas atividades. Isso pode ser facilmente corrigido, tomando cerveja, vinho ou vodca, para que o organismo humano sempre esteja nesse nível, que seria o adequado. Convenhamos, uma teoria um tanto estranha. Eles passam a testá-la e, efetivamente melhoram, e muito, os seus desempenhos. E, ainda em caráter experimental, aumentam as doses, até tomarem porres homéricos.

Martin, em uma aula de história contrapõe personagens que beberam a outros que eram até abstêmios. Entre os beberrões se situa Churchill e Hemingway e entre os abstêmios figurava Adolf Hitler. (Eu, particularmente me lembrei do nosso grande e querido Lima Barreto e os seus Diário de hospício e O cemitério dos vivos). Em casa, no começo, dão mais atenção a filhos e esposas. Mas com o aumento das bebedeiras, o óbvio acontece. Os quatro resolvem escrever sobre os resultados da experiência e não a recomendam a ninguém. Concluem que, por em prática essa teoria, eles seriam levados ao alcoolismo.

Até um aluno, tímido e travado na fala, na prestação de uma prova oral, é induzido pelo professor a tomar o gole do encorajamento, do se soltar. Isso faz com que ele, de travado, passe a fazer uma excelente explanação sobre o pai da filosofia existencialista dinamarquês, Soren Kierkegaard.

O filme é tratado de forma leve e com muito humor. Vi até classificações em que é apontado como um drama/comédia. Creio que a questão do álcool merece uma palavra ou uma interrogação. O filme induz ao hábito de beber, reforça o uso da bebida de quem tem tendências? Da minha parte, não faço juízos morais, mas confesso que senti uma vontade bastante grande de tomar uma cervejinha ou uma taça de vinho, num brinde ao fantástico Dionísio. O filme começa e termina com festa e a presença de muita bebida, com a participação, tanto dos professores, quanto dos alunos. A cena final é uma alusão ao subtítulo do filme - Mais uma rodada. Cena que, por sinal, está sendo muito elogiada pela crítica. O filme tem a direção segura de Thomas Vinterberg.

Quanto a palavra Druk, do título, pesquisei bastante, mas não encontrei nenhuma explicação quanto ao seu uso. Então, eu recorri ao vizinho povo alemão e busquei o significado da palavra Druck, que eu sabia que significava - pressão, ou impressão - de imprimir. Pode ser, então, pressão por desempenho? Vou investigar um pouco mais.

Também lembrei de uma cena já distante na memória, possivelmente dos anos 1970. Eu acompanhava a minha mãe em uma consulta médica, na cidade de São Sebastião do Caí. Minha mãe morava na cidade vizinha de Harmonia. Eu já morava no Paraná. Após a consulta, iniciei uma rápida conversa com o médico, que foi parar no filho de um vizinho de minha mãe, que tratava do problema do alcoolismo com ele. Lembro da fala. "Ontem, eu o dispensei do tratamento aqui no consultório". Especificando, ele declarou que o rapaz, antes de iniciar o tratamento queria, ainda antes, fazer a sua mais uma rodada. Ao que o médico lhe retrucou: "Ou o tratamento começa agora, ou não te trato mais".


sexta-feira, 14 de maio de 2021

NOMADLAND. O Oscar 2021. Chloé Zhao.

É óbvio que o maior interesse, quando do anúncio das premiações anunciadas na cerimônia do Oscar, sempre recai sobre o melhor filme. Neste ano de 2021 ele recaiu sobre Nomadland, que tem na direção a chinesa Chloé Zaho, radicada em Los Angeles, desde os tempos de seu ensino médio, onde também se graduou em Ciência Política e iniciou os seus estudos em cinema. Chloé Zaho também ganhou a estatueta de melhor direção e Frances McDormand - a Fern - foi contemplada como a melhor atriz feminina.

Nomadland, de Chloé Zaho. O grande vencedor do Oscar de 2021.

O roteiro do filme também é de Chloé Zaho, em parceria com Jéssica Bruder. Então, vamos a este roteiro. Fern é uma mulher cinquentona/sessentona, marcada por perdas; do marido, do emprego e da moradia. Fern é uma ex-professora  que vive de trabalhos temporários, como empacotadora da Amazon, como cozinheira em lanchonetes ou ainda como faxineira em acampamentos. E será nos acampamentos e em sua van que encontrará uma nova forma de vida, uma vida nômade, tendo a sua van como moradia.

Em sua vida nômade, ela reconstitui a histórica "marcha para o oeste", na terra do empreendedorismo, das liberdades e do self made man. Mas não é bem assim. Quase duzentos anos já se passaram. O imaginário e os valores do próprio capitalismo hoje são outros. Vivemos na ditadura do dólar, da especulação financeira, da mercantilização da saúde e da era pós-industrial. Vivemos a era da precarização da vida. O filme é um grito, no mínimo, de inconformismo diante da situação.

Fern ouve falar de um movimento de vida nômade, em que as pessoas vivem em vans e perambulam de acampamento em acampamento, vivendo da troca de trabalhos e numa vida de escambo. Em meio a isso, as belas passagens do meio oeste dos Estados Unidos e lições de vida exemplares, com destaques para a vida simples e solidária. A vida nômade ganhou uma forma de organização.

O filme é uma crítica ao mundo capitalista, consumista, marcado pelo crescimento do desemprego ou pela geração de empregos precários e temporários e que já não mais proporcionam o american way of life. O premiado filme é sensível a toda essa problemática mas a crítica lhe aponta falhas. Fern individualiza e romantiza a saída ou a solução para esse problema, ao voltar-se para a família em busca de ajuda e a volta para empregos temporários, simbolizados pela Amazon, na solução para saldar os compromissos assumidos com os familiares.

Particularmente me lembrei muito de  As vinhas da ira, o memorável romance de John Steinbeck, de 1939. Quanto sofrimento e quantas perdas, já nesta marcha da história real, que foi a marcha para o oeste. Perdas infligidas pelo sistema, pelo banco (no abstrato) e não pelas pessoas que operacionalizavam o sistema. O sistema já era perverso e já gerava a fome, símbolo maior de toda a perversidade. Nenhum sistema pode ser considerado como exitoso se ele permitir a convivência com a fome. Conviver com a fome é o habituar-se a conviver com toda a miséria humana e dela tomar partido e obter ganhos.

Uma das cenas mais memoráveis é a da velha senhora de 75 anos, portadora de doença degenerativa, que resolve morrer junto da natureza e da solidariedade das pessoas e não na opressão, tristeza e solidão dos hospitais, como li numa bela crítica ao filme.

O filme tem a sua notoriedade pela abordagem do tema do futuro do capitalismo, um sistema que não dá conta de resolver nem mesmo os problemas econômicos da humanidade e provoca, em consequência, toda uma série de distúrbios mentais, doenças psíquicas e físicas, tédio, desesperos e desesperanças. Vários críticos consideraram o filme como uma espécie de documentário. A sua notoriedade é a problemática suscitada. Lembrando que a direção e o roteiro são de Schloé Zaho e a interpretação é de Frances McDormand. Estas também são as três estatuetas ganhas no episódio maior do cinema mundial.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Vita Brevis. A carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho. Jostein Gaarder.

Creio que todas a pessoas, que minimamente conhecem a formação da cultura ocidental, concordam que um dos livros mais importantes em sua gênese é  Confissões, o livro de memórias de Santo Agostinho, o Aurélio Agostinho (354-430), bispo de Hipona, no norte da África, atual Argélia. O livro é autobiográfico, um relato de sua vida até os anos de sua conversão por influência de Santa Mônica, sua mãe. Pelas Confissões, o convertido lamenta o seu passado de volúpia e concupiscência da carne, pois vivera em concubinato com uma mulher, da qual tivera um filho, de nome Adeodato, dádiva de Deus.

Confissões, como vimos, é um dos mais influentes livros na formação da cultura ocidental. Ele representa uma transição da cultura clássica (especialmente Platão) para o cristianismo, que busca se transformar em uma religião universal. Assim ele é um dos livros mais impactantes de todos os tempos e se transformou num livro de leitura obrigatória. Se Confissões tem toda essa importância, imagina então, a sua primeira contestação, que Agostinho teria recebido ainda em vida. Esta contestação é Vita brevis - a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho, um manuscrito, conta Jostein Gaarder, o famoso autor de O mundo de Sofia, do qual ele teria encontrado uma cópia num sebo da cidade de Buenos Aires, onde havia participado de uma Feira de Livro.

Vita Brevis. Jostein Gaarder. Companhia das Letras. 2003. Tradução: Pedro Maia Soares.


No prefácio do livro de Gaarder está a história do encontro da cópia deste manuscrito e de sua compra e as possíveis hipóteses sobre a existência do original e da cópia, cópia esta, datada do final do século XVI. Gaarder ainda relata que levou esta cópia ao Vaticano, que veementemente negou a sua existência. O livro de Jostein Gaarder é a transcrição desta carta que Flória, a concubina de Aurel, a ele escreve. O livro de Gaarder data do ano de 1996.

A carta, de dez capítulos, teria consumido quase todas as economias de Flória, na compra dos pergaminhos. A carta é belíssima, profundamente humana e reflexiva. Reflexões sobre a religião, a qual Agostinho se convertera, mudando completamente os rumos de sua vida, que antes compartilhava com Floria. Depois de sua conversão, abomina esta vida, passando a considerar o próprio filho Adeodato como um "fruto do pecado", da lascívia de sua paixões. Transcrevo a orelha do livro para dele dar uma visão sem a minha interferência. Depois destaco algumas passagens que sublinhei ao longo da leitura.

"O Aurélio Agostinho do título deste livro é nada mais, nada menos que Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão e da Igreja católica. Em suas famosas Confissões, Agostinho relata a própria trajetória atormentada de jovem inquieto, amante dos prazeres sensuais, até a conversão plena ao cristianismo, que para ele significou renunciar totalmente aos bens terrenos e às paixões do mundo e levar uma vida de rigorosa continência sexual. Entre as coisas (? - interrogação minha) a que renuncia, está a mulher que foi sua concubina durante doze anos (era costume na época os homens terem concubinas antes de casar), a quem se diz afeiçoadíssimo e com quem teve um filho aos vinte anos. Apesar dessa longa convivência e dos protestos de amor, ela não merece mais que duas frases das caudalosas confissões e nem mesmo tem seu nome mencionado.

É do teor desse parágrafo que parte Gaarder, recriando aqui a história desse amor interrompido sob o pretexto de que Agostinho iria casar com menina nobre, cuja família exigia o fim da relação. Mas o ponto de vista que o autor adota é o da mulher abandonada, questionando severamente o comportamento e as ideias de Agostinho. Aquilo que para o futuro santo é busca de salvação da alma, libertação dos baixos instintos e aproximação de Deus, para ela representa traição, negação da mais alta forma de amor, desrespeito pela pessoa humana, afastamento de Deus. Influenciado pelo neoplatonismo, Agostinho aceita uma divisão radical entre corpo - fonte dos pecados - e alma - espiritualidade pura -, enquanto Flória Emília defende o espírito encarnado e a dignidade do corpo, também criação divina.

Escrito na forma de longa carta, o texto que Gaarder atribui à concubina de Agostinho mescla os sentimentos mais pungentes à reflexão madura, a linguagem coloquial e afetiva à erudição refinada, tal como fez o próprio Agostinho, mestre do virtuosismo literário, que combinava em seus textos o estilo elevado clássico com o sermo humilis, o estilo simples da cristandade".

Na contracapa o texto é mais incisivo: "Flória Emília amou profundamente Aurel, entregando-se a ele  e aos prazeres sensuais em que ele era mestre. Foi sua companheira fiel nas horas difíceis e dele gerou um filho. Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua mãe. Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria. Mesmo assim, jurou fidelidade eterna a Aurel, a ele que se tornaria exemplo cristão, bispo de Hipona, Padre da Igreja católica, e por fim santo. Santo Agostinho. E agora, Flória Emília escreve-lhe esta carta".

Que forma criativa de escrever um livro. O leitor fica na dúvida - se o que está lendo é realmente obra de Flória ou do sábio narrador. Destaco três passagens do último capítulo, que considero absolutamente relevantes. São falas de Flória: "Deixaste de amar, Aurel. Assim como deixaste de apreciar a comida, de cheirar as flores,  [...] Oxalá tais atrativos não me acorrentem a alma. Que ela seja somente possuída por aquele Deus que criou essas coisas tão boas".

Vamos a segunda. Nela Flória pede uma volta: "Acho que deves estar exausto depois de tudo o que passaste, realmente exaurido, nem escondes isso. Se pudesses  ao menos me dar agora - e, portanto, ao mundo físico - umas poucas horas a mais de tua vida na terra. Vai para a rua, Aurel! Sai e deita-te sob a figueira. Abre teus sentidos, nem que seja pela última vez. Por mim, Aurel, e por tudo o que demos um ao outro. Aspira o ar, escuta o canto dos pássaros, olha para a abóbada celeste e chama todos os odores para ti. É isso que é o mundo, Aurel, e está aqui agora. Aqui agora. Estiveste no labirinto dos teólogos e dos platônicos. Mas não mais, agora voltaste para o mundo, para nosso lar humano".

A terceira é uma grave advertência. Envolve a questão da mulher: "Sou assediada pelo medo, Aurel. Tenho medo daquilo que os homens da Igreja possam um dia fazer a mulheres como eu. Não apenas porque somos mulheres - pois Deus criou-nos mulheres. Mas porque tentamos a vocês, que são homens - pois Deus criou-os homens. Achas que Deus ama os eunucos e castrados acima daqueles homens que amam uma mulher. Então cuida como louvas a obra de Deus, pois ele não criou o homem para se castrar".

Na questão referente a mulheres, no que diz respeito à igualdade, Agostinho não é nenhum exemplo. Pelo contrário, certamente, tem forte influência no machismo que impera na cultura ocidental. No livro IX, 9, sob o título Mônica - esposa modelar, Agostinho fala do padrão de esposa, sobre a sua submissão ao marido. Deve ser submissa, conformada e tudo suportar. Vejamos um post específico sobre o tema: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/confissoes-livro-ix-9-monica-esposa.html.

De Agostinho também trago na memória uma oração sua, contida nas Confissões, Livro IX, 10, oração essa, que Flória também lhe lembra. Ela diz assim: "Dá-me a castidade e a continência, mas que não seja para já".  Enfim, um livro maravilhoso, escrito com muita humanidade e bons sentimentos. E, pela importância que o santo exerce na formação da cultura ocidental, esta leitura como uma crítica, se torna leitura absolutamente imprescindível. Um grande livro.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A Metamorfose. O Veredicto. Franz Kafka.

Depois de ler o magnífico Franz Kafka & Praga, de  Harald Salfellner, decidi avançar nas leituras desse grande e emblemático escritor. O livro/biografia é um passeio pelos locais de formação, de trabalho e de seus escritos. Pode servir até de guia para quem alimenta o desejo de visitar essa fantástica capital europeia, que nos tempos de Kafka, nada devia em efervescência cultural a capitais como Paris, Viena e Berlim. Além disso, o livro também envereda pela vida familiar complicada, embora de leve, especialmente a relação com o seu pai, um comerciante de origem judaica. Os negócios marcaram a vida do pai. Ele era unidimensional. Não havia espaço para atenção e afeto.

A obra de Kafka precisa ser lida com muita atenção. Não é leitura de entretenimento. Recentemente eu reli O Processo e agora retomei A metamorfose, "a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras", conforme nos conta Marcelo Backes em Prefácio ao livro, na edição da L&PM. Dele, Kafka se ocupou ao longo de 20 dias, entre os meses de novembro e dezembro de 1912. Na mesma edição temos uma pequena resenha biográfica do escritor. Vejamos o que se lê sobre o ano de 1912:

A Metamorfose. Franz Kafka. L&PM. Tradução e notas de Marcelo Backes.

"O ano capital na vida de Kafka. Viaja com Max Brod (seu maior amigo, confidente e responsável pela internacionalização da obra e a sua não destruição) a Weimar e conhece de perto o ambiente dos grandes clássicos, Goethe e Schiller. [...] Em setembro escreve O veredicto (Das Urteil), sua primeira obra de importância. Em outubro é tomado, conforme pode-se ver nos Diários iniciados quatro anos antes, por pensamentos de suicídio. De 17 de novembro a 7 de dezembro escreve A metamorfose (Die Verwandlung), a mais conhecida de suas obras".

Esta obra inicia com a impactante frase - "Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso". Assim começa a metamorfose do trabalhador Gregor Samsa/Franz Kafka. A transformação do ser humano em animal/coisa. A novela é profundamente autobiográfica. Na exata medida em que se metamorfoseou também lhe vieram cobranças. Devia ter levantado para pegar o trem das cinco horas da madrugada para cumprir a sua jornada de trabalho. Suas frágeis perninhas, perninhas de inseto, não o sustentavam. O mesmo acontecia nos horários seguintes.

Toda a família dependia de Gregor Samsa. O pai havia falido e não mais trabalhava. A irmã Grete era ainda uma mocinha. Com o seu trabalho Gregor mantinha a família no  padrão de classe média, o que implicava pagar também aulas de violino para a irmã. Na medida em que o tempo passava e o quarto não se abria, vinham e aumentavam as cobranças. O pai mandara chamar o serralheiro para arrombar a porta, a mãe mandara chamar um médico, o gerente veio lhe cobrar a ida ao trabalho e lhe fazer cobranças de produtividade. A irmã, junto com a mãe, se preocupavam com o seu estado.

Com o passar do tempo as coisas só foram se agravando. Samsa já não andava, apenas se arrastava. O trabalhador, um caixeiro viajante, não se recuperava. A novela é dividida em três capítulo. O primeiro deles descreve a metamorfose, a coisificação do pobre rapaz, as cobranças e o desespero da família e a incompreensão e a brutalidade do pai. No segundo, Gregor já se adaptara a sua nova situação, já tinha o domínio de si, já vivia a sua coisificação. Seu quarto passa por adaptações para melhor se adaptar a vida de rastejante. Do pai, apenas via o gigantismo de suas botas opressoras a lhe dedicar uma guerra com o jogar nele as frutas existentes na casa. Joga-lhe uma maçã nas costas e ela se aloja nelas. Tudo é profundamente simbólico. A maçã lhe é jogada por trás, nas costas. A maça simbolizando o pecado original do existir e, ainda por cima, pelas costas.

O terceiro capítulo trata da nova situação da vida familiar. O pai trabalha de funcionário num banco, A mãe costura para um empresário e Grete, atrás de um balcão. O aluguel do quarto de Grete para três forasteiros complementa o orçamento da casa. Gregor é mantido no quarto, às escondidas. O pai se desmancha em cuidados com os inquilinos. Estes se assustam quando Gregor consegue dar uma escapada do quarto. A situação se torna insustentável quando Grete reclama que esta "coisa" não pode mais ficar na casa. Quando esta "coisa" percebe a situação, Gregor simplesmente morre. A família muda de casa e assim a vida simplesmente continua.

Uma obra profundamente existencialista, que põe o ser humano frente ao trabalho opressivo, frente ao emprego e o medo de perdê-lo e a coisificação da existência. Kafka chegara a frequentar clubes socialistas. Também o põe em contato com as relações familiares, a convivência entre marido e mulher e filhos e a figura opressora do pai. Kafka sempre tivera graves problemas em suas relações familiares, tanto com o pai (Carta ao pai) quanto com as suas noivas. Vamos em frente, com O Veredicto.

Homenagem a Kafka, na casa de seu nascimento, em Praga.

O veredicto é um conto de apenas 20 páginas, em livro de bolso, escrito num domingo à noite. Foi iniciado as dez horas e, as seis da manhã de segunda, já estava concluído. Ele trata de toda a relação complicada que existe entre pai e filho, a morte da mãe, o noivado do filho que amadurece, de um amigo distante e o veredicto condenatório do pai. Uma obra profundamente emblemática.

sábado, 1 de maio de 2021

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.

No dia 27 de julho de 2019, num sábado pela manhã, saímos da cidade de Berlim com destino a Praga, numa distância de 350 km. No meio do caminho fizemos uma parada na bela e rica cidade de Dresden, que já havíamos conhecido no tour alemão. Esta cidade chegou até ser a capital da Polônia. Ela fica a  menos de 200 quilômetros de Berlim. Agora, olhando os mapas, percebe-se com facilidade a concentração de importantes cidades num raio de distâncias relativamente curtas. Assim visualizamos Berlim, Praga, Budapest, Bratislava e Viena, muito próximas.

O famoso relógio astronômico de Praga no prédio da prefeitura da cidade velha.

Pela tarde chegamos em Praga. Visitamos o Castelo, a Ponte Carlos e o relógio astronômico (de 1410) no prédio da prefeitura da cidade velha. No dia seguinte fizemos um tour panorâmico, que incluiu os jardins do Palácio Wallenstein, sede atual do senado, a igreja de São Nicolau, a igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde se encontra a famosa imagem do Menino Jesus de Praga, fizemos um passeio pelo rio Moldava e outro a pé pelo bairro judaico, terminando mais uma vez no prédio da prefeitura, com o seu famoso relógio. Tivemos ainda, uma tarde inteira ao nosso dispor, para tomar a cerveja tcheca. Deixo aqui o post desses dois dias fantásticos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/08/europa-2019-8-praga-na-republica-tcheca.html

Kafka na casa em que ele nasceu. Muito próximo do relógio astronômico.

Bem, vamos ao livro. Creio que logo entenderão o motivo pelo qual eu fiz essa abertura. Segundo um escritor tcheco, "Franz Kafka era Praga e Praga era Franz Kafka". Kafka e a cidade estavam umbilicalmente interligados, assim como também com a sua Boêmia, povo que serviu de base para a formação do que é hoje a República Tcheca. Ela foi formada pela Boêmia, Moldávia e Silésia. Com a viagem e, agora com o livro, aprendi muito sobre a região, sempre conturbada, especialmente na primeira metade do século XX, com a passagem por duas guerras mundiais, das quais podemos dizer que ela foi um de seus epicentros. Estou falando do livro Franz Kafka & Praga, de Harald Salfellner.

Com a leitura do livro, além de conhecer Kafka e a sua relação com Praga e outras peripécias da vida do escritor, revivi os meus dois dias em Praga.  O livro, eu o comprei em 2012, certamente numa promoção e só fui lê-lo agora. Ele se alonga por sete capítulos, 361 páginas e a inserção de 269 fotografias de época. Notas, tabela de equivalências (em português, tcheco e alemão - dos principais lugares citados no texto), Referências bibliográficas e dois mapas da cidade complementam o livro.

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.  Tinta Negra. 2011. Tradução: André Delmonte.

Os sete capítulos tem os seguintes títulos: I. Resumo biográfico; II. A Praga de Franz Kafka; III. Os primórdios da família Kafka em Praga; IV. Itinerário de Kafka em Praga; V. Passear por Praga. VI. Praga e a Boêmia nas obras de Kafka; VII. A Boêmia amada por Kafka. Os mais densos são os de número quatro e sete. Um prefácio, escrito por Hugo Rokyta, apresenta o livro. Nele é mostrada a importância do amigo Max Brod na preservação da obra do amigo; que Kafka escrevia em alemão e que o biógrafo austríaco Harald Salfellner mostra a cidade de Praga como Kafka a enxergava.

Do primeiro capítulo - Resumo biográfico - anotei os seguintes destaques: Nascimento em 1883 e morte por tuberculose em 1924; que era o primogênito da família e que estudou em escolas alemãs; que o seu primeiro encontro com Max Brod aconteceu no ano de 1902 e que em 1906 concluiu o seu doutorado em Direito. Grande destaque é dado ao fato de ter toda uma formação em escolas alemãs, em meio ao nacionalismo tcheco em formação. Antes da primeira guerra a região integrava o império austríaco.

Do segundo capítulo - A Praga de Franz Kafka -, rico em história, economia e geopolítica, nos mostra a cidade de Praga, capital da Boêmia, uma província austríaca dos Habsburgos. Na cidade havia uma efervescência cultural equivalente a Paris, Berlim e Viena. O sentimento nacional tcheco estava em formação e havia forte oposição entre alemães e tchecos. Judeus e alemães eram como que aliados. Os alemães ocupavam as áreas mais nobres da cidade. Ao fim da primeira guerra surge a Tchecoslováquia, enquanto as antigas forças austríacas se esvaíam. A Praga eslava não era a Praga de Kafka.

No terceiro capítulo - Os primórdios da família Kafka em Praga, tomei os seguintes apontamentos: a família chega do interior e se dedica ao mundo dos negócios; as suas queixas constantes de que não havia vida familiar, apenas negócios; as constantes mudanças de endereço da família e o ambiente triste em que viviam.

Já o capítulo quarto, razão principal de ser do livro - Itinerário de Kafka em Praga - é o mais interessante e o mais longo de todos. É o passeio pela cidade. São apresentados 38 lugares que são as marcas de Kafka na cidade, entre eles os pontos históricos da cidade, o local de nascimento, as escolas em que estudou, a praça central da cidade e o seu famoso relógio astronômico, a ponte Carlos e o rio Moldava, o coração da cidade, seus locais de trabalho, terminando pela apresentação do cemitério judaico e pelo monumento em sua homenagem. 

No quinto capítulo -  Passear por Praga - mostra os momentos de lazer do escritor e onde os passava: as ruas, as praças, os parques, os cafés...

No sexto capítulo - Praga e a Boêmia nas obras de Kafka - encontramos os lugares que são descritos ou serviram de inspiração para a sua obra.

O sétimo capítulo - A Boêmia amada  por Kafka - é de novo um capítulo que cresce em importância. Devido aos seus compromissos de trabalho ele viajava pouco ou o fazia a trabalho, no que diríamos hoje, seria no Ministério do Trabalho ou da Previdência Social. Conhecia e adorava as cidades do interior da Boêmia, ricas e fortemente industrializadas. Ao fim de sua vida as conhece em função dos seus tratamentos de saúde, mas a sua tuberculose a cada dia se tornava mais irreversível.

Tomo ainda os três parágrafos da contracapa do Livro: "Você já se imaginou andando pelas ruas de Praga, a capital mais charmosa da Europa, na companhia de Franz Kafka?

Um dos escritores de maior renome do mundo guiará você pelas ruas, cafés, hotéis e monumentos da cidade natal. Franz Kafka & Praga lança um novo olhar sobre a cosmopolita e clássica capital da República Tcheca. Uma viagem à "nova Paris" do início do século XX, ponto de efervescência político-cultural, uma cidade recriada sob a ótica de um de seus habitantes mais ilustres".

"Um tesouro incrível dotado de acontecimentos políticos, história cultural e citações de Kafka se abre aos olhos do leitor quando Harald Salfellner começa sua narrativa" Deutsche Welle. Gostei demais e super recomendo a leitura.