quarta-feira, 31 de março de 2021

A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? Michael J. Sandel.

Mais um livro que comprei por efeito da publicidade, daquela que aparece quando você compra livros e eles oferecem outros com temas similares. Mas, o motivo maior da compra foi em função do instigante e polêmico tema da meritocracia. Trata-se de A tirania do mérito - O que aconteceu com o bem comum?, de Michael J. Sandel. Confesso que desconhecia o autor, mas já tinha ouvido falar de outro livro seu O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. O seu livro mais famoso, no entanto, anunciado até na capa do presente livro, é Justiça: o que é fazer a coisa certa. Sandel é professor na Universidade de Harvard. Pelo seu curso Justice já passaram mais de quinze mil alunos. O livro é de 2020.

A tirania do mérito. Michael J. Sandel. Civilização Brasileira. 2020. Tradução: Bhuvi Libanio.

Como a orelha da capa nos põe em contato com o tema central do livro, começo por aí a resenha. A questão posta é esta: "As democracias liberais estão em risco. E, de acordo com o filósofo Michael J. Sandel, o princípio do mérito, um de seus pilares básicos, é o responsável por esse cenário". Não imaginava que toda a pregação em torno da "força do indivíduo" pudesse atingir tal nível de contestação. Mas, vamos m frente:

"Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre "ganhadores" e "perdedores", esconde privilégios e vantagens e justifica o status quo  por meio de ideias como "Eu quero, eu posso, eu consigo" e "Quem acredita sempre alcança". O resultado concreto é um mundo que reforça a desigualdade social e, ao mesmo tempo, culpabiliza as pessoas, o que gera uma onda coletiva de raiva, frustração, populismo, polarização e descrença em relação ao governo e aos demais cidadãos.

Ao analisar conceitos em torno da ética do estudo, do trabalho, do sucesso, do fracasso, da tentativa e de quais são os meios considerados legítimos para trilhar esses caminhos, Sandel sugere um novo olhar para essas relações. O autor salienta as contradições do discurso meritocrático, seus contextos estruturais e a arrogância dos "vencedores", que julgam duramente os "perdedores".

A tirania do mérito propõe que, para existir uma ética diferente e dignificadora, o sucesso deve ser compreendido em prol da coletividade. Indica que uma alternativa de pensamento guiado pela humildade, pela compreensão do papel do acaso na vida humana e pela criação real da oportunidade poderá ser, então, a melhor bússola para a democracia, para o bem comum".

Do prólogo tomo os três parágrafos finais, que também considero uma boa provocação para a leitura do livro, que é a finalidade dessa resenha: "Essa maneira de pensar sobre sucesso torna difícil acreditar que "Estamos todos juntos nisso". Ela persuade os vencedores a considerarem que o sucesso deles é resultado de suas ações e os derrotados a sentirem que aqueles no topo olham para baixo com desdém. Isso ajuda a explicar por que os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e por que se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança.

Agora, são essas figuras políticas, apesar de desconfiarem da experiência científica e da cooperação global, que deverão conter a pandemia. Não será fácil.  Mobilizar para confrontar a crise global de saúde pública que encontramos exige não só habilidades médicas e científicas, mas também renovação moral e política.

A mistura tóxica de arrogância  com ressentimento que arremessou Trump ao poder não é uma fonte possível da solidariedade que necessitamos agora. Qualquer esperança de renovarmos nossa vida moral e cívica depende de entender como, ao longo das últimas quatro décadas, nossos laços sociais e nosso respeito um pelo outro se desmantelaram. Este livro procura explicar como isso aconteceu e refletir sobre como poderemos encontrar o caminho para uma política do bem comum".

O livro, de 349 páginas, está dividido em sete capítulos, além de prólogo, introdução e conclusão. A introdução é explosiva, mostrando as fraudes no sistema de ingresso nas universidades renomadas que formam a  IVY LEAGUE. Os sete capítulos tem os seguintes títulos: 1. Ganhadores e perdedores; 2."Grandioso porque é bom", uma breve história moral do mérito; 3. A retórica da ascensão; 4. Credencialismo: o último preconceito aceitável; 5. Ética do sucesso; 6. A máquina da triagem; 7. O reconhecimento do trabalho. A conclusão tem por título - O mérito e o bem comum.

Tenho a síntese dos capítulos, mas seria um trabalho muito longo, por isso vou selecionar algumas categorias trabalhadas ou outras pequenas dicas do que se ocupa cada capítulo. Assim, no primeiro temos: globalização, arrogância, humilhação, ressentimento, discórdia. No segundo: Graça divina, recompensa por mérito, prosperidade, sofrimento e a "América é grande porque é boa".  No terceiro: sucesso, esforço próprio, fé, responsabilidade, discurso inspirador ou discurso ofensivo. No quarto: credenciais universitárias, educação, igualdade e desigualdade, o smart X Stupid, tecnocracia X democracia. No quinto: aristocracia X meritocracia, liberalismo e neoliberalismo, o estigma burro/inteligente. No sexto temos a triagem. Por óbvio, o tema é o do ingresso nas universidades, os vencedores e a felicidade, o trabalho em nível superior e em nível técnico. No sétimo temos análises estatísticas da remuneração, a degradação da dignidade do trabalho e o grave problema de que a questão financeira não é a única que gera angústias, mas que as agrava. Volta também a questão do ressentimento. Trata também dos suicídios, denominados de "mortes por desespero".

E, ainda como provocação para a leitura, duas passagens: A primeira é retirada do capítulo 3, a retórica da ascensão: "A tirania do mérito é resultado não só da retórica da ascensão. Ela consiste em um conjunto de comportamentos e circunstâncias, que, agrupadas tornaram a meritocracia tóxica. Primeiro, sob condições de desigualdade desenfreada e mobilidade barrada, reiterar a mensagem de que nós somos responsáveis por nosso destino e merecemos o que recebemos corrói a solidariedade e desmoraliza pessoas deixadas para trás pela globalização. Segundo, insistir na ideia de que algum diploma universitário é o principal caminho para um emprego respeitável e uma vida decente cria um preconceito credencialista que enfraquece a dignidade do trabalho e rebaixa pessoas  que não chegaram à universidade; e terceiro, insistir na ideia de que problemas sociais e políticos são mais bem resolvidos por especialistas com educação de nível superior e valores neutros é presunção tecnocrática que corrompe a democracia e tira o poder de cidadãos comuns". p. 105.

A segunda é a exortação final do livro: "A convicção meritocrática de que pessoas merecem quaisquer que forem as riquezas que o mercado concede a partir de seus talentos faz a solidariedade ser um projeto quase impossível. Por que as pessoas bem-sucedidas devem algo aos membros com menos vantagens na sociedade? A resposta para essa pergunta depende de reconhecer que, para todos os nossos esforços, não vencemos por conta própria nem somos autossuficientes; estar em uma sociedade que recompensa nossos talentos é sorte, não é obrigação. Uma sensação viva do contingente de nosso destino pode inspirar certa humildade: "Aí vou eu, mas pela graça de Deus ou por acidente de nascimento, ou ainda, por mistério do destino". Essa humildade é o começo do caminho de volta da dura ética do sucesso que nos divide. Aponta para além da tirania do mérito na direção de uma vida pública menos rancorosa e mais generosa". pp.325-6.

Por fim, dois depoimentos da contracapa: "Acessível e profundo, A tirania do mérito é uma análise reveladora da perversa injustiça da nossa sociedade, movida em parte por uma ingênua e míope confiança na noção de mérito. Em tempos de retórica fácil e tribalismo irrefletido, este livro provocativo é leitura obrigatória àqueles que ainda se importam com o bem comum". E "Sandel oferece uma crítica convincente e profunda da meritocracia, essa que [...] deteriorou nosso senso de comunidade e respeito mútuo [...]. Uma análise instigante de um grave problema político e social".

É a velha distinção entre o ser como um indivíduo ou como um ser social. Uma questão de concepção. Uma leitura necessária.


terça-feira, 23 de março de 2021

FASCISMO - um alerta. Madeleine Albright.

Cheguei a este livro por meio da publicidade virtual que é feita quando você compra livros. Eles aparecem como sugestões por afinidade de temas com os livros que você comprou. Também ouvi boas referências no programa do Reinaldo Azevedo, que agora, praticamente, se transformou num programa referência nas questões políticas e jurídicas. Quem diria? A compra também foi efetuada em virtude da autora do livro, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos. Confesso que até o deixei numa fila de espera, pensando se tratar de um livro de teoria que exigiria grande concentração de esforços. Nada disso. O livro é fluente e de agradável leitura, apesar da nebulosidade do tema. Trata-se do livro: Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright.

Fascismo - um alerta. Madeleine Albreight. Crítica. 2020. Tradução: Jaime Biaggio.

Na página final do livro lemos sobre a escrita do mesmo: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência". p.284. A edição estadunidense do livro data de 2018 e a brasileira de 2020. E, como diz o subtítulo, um alerta, evidencia que a democracia está sob sérios riscos.

O livro começa profundamente autobiográfico, mostrando a fuga da família de Madeleine, de Praga, sua cidade natal, para a Inglaterra durante a ocupação nazista da Tchecoslováquia e depois com a ocupação do país pelo regime soviético. Posteriormente a família se estabeleceu nos Estados Unidos, onde ela exerceu importantes atividades políticas, foi professora universitária (Georgetown University - Washington) e escritora. Escreve este livro, portanto, a partir de um posto de observação extremamente privilegiado. Ela foi a poderosa secretária de Estado no governo Clinton. Um governo neoliberal, diga-se de passagem.

O livro acompanha a sua trajetória de vida e aponta os principais entraves ou retrocessos mundiais para assegurar o processo democrático. Isso é narrado ao longo de dezessete capítulos, ao longo de 299 páginas. Vou enunciar os títulos dos capítulos para depois tecer breves comentários: 1. Uma doutrina de raiva e de medo; 2. O maior espetáculo da terra; 3. "Queremos ser bárbaros"; 4. "Não tenham piedade no coração"; 5. A vitória dos Césares; 6. A Queda; 7. A ditadura da democracia; 8. "Há muitos corpos lá em cima"; 9. Uma difícil arte; 10. Presidente vitalício; 11. Erdogan, o magnífico; 12. O homem da KGB; 13."Somos quem um dia fomos"; 14. "O líder sempre estará conosco"; 15. Presidente dos Estados Unidos; 16. Sonhos ruins"; 17. As perguntas certas. Vamos aos comentários.

1. Nesse capítulo Madeleine narra a sua familiaridade com o tema do fascismo, que o acompanha desde a sua tenra infância de fugas, primeiro do nazismo e depois do regime soviético, de sua cidade natal, a bela Praga, para a Inglaterra, para depois se estabelecer nos Estados Unidos. De lá, com notoriedade acompanhou os grandes fatos políticos do mundo, até, com estarrecimento, acompanhar o governo de Trump, "o primeiro presidente antidemocrático  na história moderna dos EUA".

2. Nesse capítulo é narrada a ascensão do fascismo na Itália, com destaque para a crise generalizada, que se tornou o campo fértil para a ascensão de Mussolini. A Itália, no imaginário popular, sentia a necessidade de um Duce.

3. O terceiro capítulo é dedicado a Hitler e às condições da Alemanha para a sua ascensão. Pesaram para isso a insatisfação popular, o Tratado de Versalhes e a fragilidade da República de Weimar. De Hitler ela destaca o uso do rádio, a Internet da época, e as fortes autoconvicções de grandeza do Führer, o Duce alemão.

4. O quarto capítulo é particularmente lindo. Ele começa com o filme de Chaplin - O Grande Ditador. Então, por óbvio, o tema são as relações entre os dois comandantes, especialmente no que diz respeito à Guerra Civil Espanhola, onde entra em cena um terceiro comandante fascista, o general Franco, que, contudo, não se alinhou. A minha referência à beleza desse capítulo é a relação estabelecida com o filme de Chaplin e não às relações entres os ditadores. Também as divisões entre os grupos de esquerda na Espanha ganha a sua abordagem.

5. O capítulo tem por tema o poderoso Império Austro-húngaro e a sua adesão ao nazismo. Também é analisado o Zeitgeist da época, de grande perigo de adesão em massa ao regime do nazi/fascismo, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

6. O tema do capítulo não poderia ser outro, senão o do enunciado do título. A queda, primeiro de Mussolini e depois de Hitler. Ao final, Chaplin volta à cena com o seu fantástico discurso, cheio de humanidade, de seu Último Discurso.

7. Um belo capítulo sobre o pós-guerra. Ela retoma as memórias de sua cidade natal e os desesperos de uma menina de oito anos a estabelecer paralelos entre dois regimes totalitários, que falavam a mesma língua, a língua da violência. Fala de sua adaptação nos Estados Unidos, a sua nova pátria, envolvida com os horrores do macarthismo, onde o medo do comunismo alavancava o espírito fascista.

8. Este capítulo começa com o discurso de Truman, em São Francisco, na recém fundada ONU. "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos". A grande abordagem é o perigo representado pelo fanatismo da tradição e dos nacionalismos. O traço biográfico está de volta, com a narrativa de suas intervenções, já como Secretária de Estado, especialmente no que diz respeito à Guerra dos Balcãs, com o esfacelamento da antiga Iugoslávia. Uma história de muito horror.

9. Outro capítulo extraordinário. Ela apresenta as suas percepções de mundo. A deterioração geral dos salários a partir do final dos anos 1970 (Lembrando que são os anos em que se iniciam as políticas neoliberais, com as ascensões de Thatcher, em 1979, Reagan em 1980 e Kohl em 1982). Ela destaca quarenta anos de insatisfações, em contraposição aos anos imediatamente posteriores à Guerra. Faz alusão às semelhanças entre os climas da ascensão do fascismo e do nazismo com o clima hoje existe em, no mínimo, setenta países. Esses sintomas foram agravados com a crise de 2008 e com a generalização da propagação de falsas verdades, as famosas fake news.

10. Este capítulo é dedicado à Venezuela de Chávez e Maduro e sobre as origens do bolivarianismo. Uma bela análise em que condena a política de ameaças de Trump a Maduro.

11. O capítulo é dedicado à Turquia e ao presidente Erdogan.

12. Interessante capítulo sobre a Rússia pós 1991. Todo o destaque vai para Putin e aos problemas que ele enfrenta e como os enfrenta. Putin é sempre um amigo de governos autoritários.

13. O capítulo versa sobre a União Europeia, seus avanços, dificuldades e crises. Orban da Hungria é o personagem mais retratado. Os inimigos de Bruxelas.

14. Capítulo dedicado aos problemas da Coreia, desde a Guerra Fria, com destaque para a única família no poder, desde aqueles tempos, até os dias de hoje na Coreia do Norte. É claro que o líder Kim Jong-un e a sua política de armas nucleares é o personagem central.

15. O presidente do título é Donald Trump, "o primeiro presidente antidemocrático da história moderna dos EUA". O capítulo termina com uma advertência de Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, sobre os sintomas do fascismo que se manifesta "não só através do terror da intimidação policial, mas pela negação e distorção das informações, pelo enfraquecimento dos sistemas de justiça, pela paralisação do sistema educacional e pela disseminação, de várias formas sutis, da nostalgia por um mundo onde reinava a ordem". Os sintomas estão visíveis.

16. O capítulo apresenta as percepções da autora sobre o mundo atual, em que, lamentavelmente, predominam os aspectos negativos.

17. Um grande capítulo final, o capítulo do grande alerta, do subtítulo do livro. Uma interrogação fundamental paira sobre o capítulo, bem como sobre todo o livro: Quando começa o fascismo? Quando "queremos que nos digam para onde marchar". Eis a resposta. É quando perdemos a capacidade da autodeterminação e, cegamente, obedecemos. Comando e massa unificados. Essa sempre foi a senha. É quando morreu a contradição. Quando ocorre a sintonia absoluta e inquestionável entre quem manda e quem obedece. Aí mora o perigo. As pré-adesões, com a ausência da crítica e da deliberação.

A resenha ficou um pouco longa, mas foi o meu desejo de fazer a provocação para a leitura por meio desse aperitivo do livro. E, para os meus amigos professores dos cursos de relações internacionais, ligados à geopolítica e disciplinas afins. Eis um programa de aulas pronto, quase completo. Leitura imperdível. Sim, uma última observação. O livro é escrito em parceria com o grande jornalista Bill Woodward. Quanto ao olhar, o ponto de observação do livro, apresento uma frase da autora: "Ninguém que um dia tenha estado em um cargo de confiança, inclusive eu mesma, pode olhar para trás sem arrependimento pelos muitos problemas deixados sem resolução". p. 223. Ela enxerga o mundo a partir de sua morada e da cultura de seu entorno.

terça-feira, 16 de março de 2021

O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida. Piero Leirner.

Procurando compreender os bastidores da política brasileira recente, mais precisamente após o golpe 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, me deparei, entre outros, ao menos com três livros bem interessantes: Bolsonaro - o mito e o sintoma, de Rubens Casara, A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso e, por último, O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida - militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. Três livros profundamente reveladores e impactantes.

O Brasil no espectro de uma guerra híbrida. Piero Leirner. Alameda 2020.

A República das milícias e O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida tem em comum o delicado tema da ação das forças armadas. Em ambos, são os herdeiros dos militares da chamada "linha dura", dos "anos de chumbo" que são os protagonistas. Militares inconformados e ressentidos com o desfecho do golpe de 1964, regime do qual queriam a continuidade. No primeiro livro é abordada a questão dos esquadrões da morte e a sua migração para as milícias e, no segundo, o protagonismo exercido pelo grupo, especialmente pela ação dos generais Augusto Heleno e Villas Boas nos bastidores do governo Dilma e provocando a "guerra híbrida", da qual resultou a eleição de Bolsonaro, guerra que, longe está por acabar.

Por fidelidade ao livro, apresento primeiramente a orelha do livro, numa bela síntese: "Este livro trata de um tema novo, a assim chamada Guerra Híbrida, e o modo que ela está sendo realizada no Brasil. Não se trata de uma "guerra clássica", com fogo, mas de uma guerra que visa sobretudo a captura e neutralização de mentes. Suas "bombas" são antes de tudo informacionais, visam causar dissonâncias cognitivas e induzir as pessoas a vieses comportamentais: percepção, decisão e ação passam a trabalhar a favor de quem ataca. Seu objetivo último é o que se chama nas teorias desse tipo de guerra de uma "dominação de espectro total". Essa ideia de "totalidade" está no âmago da Guerra Híbrida: não há mais a separação entre guerra e política, ou "tempo de guerra/tempo de paz"; todos passam a ser, voluntária ou involuntariamente, combatentes; e não se vê exatamente nem seu princípio, nem seu fim.

A hipótese central aqui levantada é que o Brasil foi, e é, um laboratório onde este modelo foi aplicado. Embora estejamos falando de algo que remonte a vários fenômenos que atravessaram a última década - sociais, políticos, culturais e militares - constatou-se aqui o acionamento de elementos que estavam latentes há muito tempo. O caso aqui estudado leva a um dos protagonistas principais desta forma de guerra e sua estratégia: um certo grupo de militares, operações psicológicas e o modo como isso se disseminou na política. O resultado, que vai muito além da eleição de 2018, é a dissonância generalizada que impera no Brasil hoje, que aqui segue um dos conceitos centrais da Guerra Híbrida - a cismogênese".

É um livro complexo e exige muitos pré-requisitos para a sua leitura, especialmente no campo da teoria. O livro tem um prefácio, de Marco Antônio Gonçalves, sob o título Adeus Tocqueville! A Guerra Híbrida e novos sentidos da democracia, que fala da retomada do poder pelos militares e da forma como isso foi feito, especialmente pelo uso das redes sociais. Tem-se nele o primeiro contato com os termos Guerra Híbrida e Cismogênese.

O livro está estruturado em três capítulos, precedidos por uma longa introdução e sucedidos por uma conclusão, que bem poderia também ser o capítulo final do livro. Os três capítulos tem por título: 1. O lugar do antropólogo; 2. O lugar da guerra: problemas conceituais e terminológicos; 3. A cismogênese Dilma - militares e além. A conclusão leva por título o termo alemão Blitzkrieg.

Na introdução temos uma breve análise de conjuntura dos fatos, a partir de 2014, como a Lava Jato, Comissão da Verdade e o governo Dilma e a relação com os militares; as palestras de Olavo de Carvalho no Clube Militar, as paranoias em torno do Foro de São Paulo, as ações do Poder Judiciário em orquestração com os setores militares; estes e a Guerra Híbrida e, ainda, a relação entre etnografia, Guerra Híbrida e redes sociais.

No capítulo primeiro o foco vai para os estudos que os antropólogos fazem dos movimentos militares, para estudar em profundidade a sua cultura e o seu pensamento, chegando até o novo momento das guerras, que são as Guerras Híbridas, com o aprisionamento das mentes pela produção de consensos em torno das novas formas das operações militares. Um capítulo de muita história dos últimos movimentos militares, especialmente por parte dos Estados Unidos.

No segundo capítulo é apresentado o Estado neoliberal, que para transferir a renda para o 1% privilegiado da sociedade, em favor dos papeis e contra a produção e o trabalho, precisa de uma guerra total e permanente e da militarização do Estado. Isso só pode ser atingido por uma nova forma de fazer a guerra, a Guerra Híbrida, com o captar das mentes. O caso brasileiro, a partir de 2013. passa a ser o tema abordado.

Creio que a maior razão de ser do livro é o seu capítulo terceiro: A cismogênese Dilma, em que são analisadas as células que se formam nos meios militares, a sua observação das ações do governo da "ex-guerrilheira"  e a "janela de oportunidades" que se abre para o personagem Jair Bolsonaro. Ó capítulo é uma extraordinária contextualização dos fatos e dos personagens envolvidos. Chama a atenção também a fraca percepção das ações militares pelo governo Dilma, especialmente pelos Ministérios da Justiça e da Defesa.

Na conclusão continua a análise da fraca percepção da movimentação dos militares contra o governo Dilma, uma breve análise do governo Temer e a captura de sua pauta das reformas, com a intervenção militar no Rio de Janeiro e o direcionamento do mercado em favor da campanha da candidatura de Bolsonaro. Por fim detalhes da campanha.

Piero Leirner também merece uma palavra. Que pesquisa! Que pesquisador! Na orelha da contracapa lemos: "Piero Leirner é Doutor em Antropologia pela USP e Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFS-Car. Estuda temas relacionados aos militares, guerras e hierarquia desde o começo da década de 1990. Super recomendo a leitura.

quarta-feira, 10 de março de 2021

SAPIENS. Uma breve história da humanidade. Yuval Noah Harari

Há uns dois anos fui consultar um oftalmologista. Coisas de rotina, nada de especial. A conversa, por óbvio, girou em torno de leituras. Falei das minhas preferências pelos clássicos, das biografias, dos romances históricos e dos livros de teoria política. Ele, por sua vez, confessou todo o seu entusiasmo pelo best seller do Yuval Noah Harari, Sapiens - Uma breve história da humanidade. Falei que não conhecia o livro e prometi que iria lê-lo.

Sapiens - Uma breve história da humanidade. 2020. L&PM. Tradução de Janaína Marcoantonio.

Tenho uma certa prevenção com relação a best sellers e dificilmente os leio. Mas agora, lendo o livro do Juremir Machado da Silva, Raízes do conservadorismo brasileiro - a abolição na imprensa e no imaginário social, vi referências muito elogiosas ao livro e, como o Juremir tem bons créditos comigo, li o livro. O projeto do livro é realmente grandioso. Não deve ser nada fácil querer condensar toda a história do Homo sapiens em apenas 459 páginas. Mas o Yuval o conseguiu.

Para a primeira apresentação tomo a contracapa do livro: "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras?

Nossa capacidade imaginativa. Somos a única espécie que acredita em coisas que não existem na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos.

Partindo dessa ideia, Yuval Noah Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, aborda em Sapiens a história da humanidade sob uma perspectiva inovadora. Explica que o capitalismo é a mais bem sucedida religião; que o imperialismo é o sistema político mais lucrativo; que nós, humanos modernos, embora sejamos muito mais poderosos que nossos ancestrais, provavelmente não somos mais felizes.

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie - de primatas insignificantes a senhores do mundo".

Essa eletrizante aventura é narrada em quatro partes e ao longo de vinte capítulos. Na primeira parte é apresentada a Revolução Cognitiva. Ela nos é descrita em quatro capítulos, a saber: 1. Um animal insignificante; 2. A árvore do conhecimento; 3. Um dia na vida de Adão e Eva; 4. A inundação.

Na parte dois, outra revolução nos é apresentada, a Revolução Agrícola. Também ela nos é mostrada em quatro capítulos: 5. A maior fraude da história (Seria o sedentarismo?); 6. Construindo pirâmides; 7. Sobrecarga de memória; 8.  Não existe justiça na história.

Na parte três, o autor nos apresenta o que ele chama de: A unificação da história, contada ao longo de cinco capítulos: 9. A seta da história; 10. O cheiro do dinheiro; 11. Visões imperiais; 12. A lei da religião; 13. O segredo do sucesso.

Na quarta parte, estamos de volta com as revoluções. Dessa vez nos é apresentada a Revolução Científica, esta em sete capítulos: 14. A descoberta da ignorância; 15. O casamento entre ciência e império; 16. O credo capitalista; 17. As engrenagens da indústria; 18.  Uma revolução permanente; 19. E eles viveram felizes para sempre; 20 O fim do Homo sapiens. Por fim o epílogo, de apenas uma página e meia, O animal que se tornou um deus nos é apresentado.

Na contracapa também lemos a nota do Financial Times, de que "Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo". Também eu tomo esse caminho, mas não sem antes apontar para três capítulos irretocáveis. Os de número oito, sobre as injustiças das desigualdades entre os homens ao longo de toda a história, o de número 16, sobre o credo capitalista, em que ele conta a história da Holanda, para depois nos mostrar o inferno do mundo da ganância e o de número 19, onde mostra as relações entre a economia, o progresso e a felicidade.

Como costumo deixar um ou dois parágrafos como aperitivo para a leitura, tomo dois, já da parte final do livro. O primeiro, do capítulo 19 em que o autor nos faz este belo questionamento: "Nosso mundo moderno se orgulha de reconhecer, pela primeira vez na história, a igualdade elementar entre todos os humanos, porém pode estar prestes a criar a sociedade mais desigual de todas. Ao longo da história, as classes superiores sempre afirmaram ser mais inteligentes, mais fortes e, em geral, melhores do que as classes inferiores. Normalmente, elas estavam se iludindo. Um bebê nascido em uma família camponesa pobre tendia a ser tão inteligente quanto o príncipe-herdeiro. Com a ajuda de novas capacidades médicas, as pretensões das classes superiores podem logo se tornar uma realidade objetiva". p. 422.  Eita  Admirável mundo novo!

O segundo, é o parágrafo final do livro: "Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas a galés a navios a vapor e naves espaciais - mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca.  Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos conta a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?". pp. 427-8.



terça-feira, 2 de março de 2021

Racismo estrutural. Sílvio Almeida.

A leitura necessariamente chama ou clama por novas leituras. Lendo sobre a questão da escravidão, e a sua permanência dentro da realidade brasileira, mais cedo ou mais tarde, você se depara com o livro de Sílvio Almeida, Racismo estrutural. O livro é extraordinário e, como o título define, o fenômeno do racismo é visto em sua forma estrutural, isto é, ele está nas entranhas do sistema capitalista, colonialista, imperialista, sistema em que estamos inseridos, quer queiramos ou não.
Racismo estrutural. Sílvio Almeida. Jandaíra. 2020. Coleção Femismos Plurais.

Na orelha do livro, Marcelo Paixão, professor do Departamento de Estudos Africanos e Afro-diaspóricos da Universidade de Austin, do Texas, e que foi debatedor com o Sílvio Almeida numa comunicação sobre o movimento negro na Universidade de Harvard, assim se expressou sobre o livro: "O livro Racismo estrutural reflete o que ouvi naquela apresentação. E, como tal, é uma importante contribuição de um jovem intelectual negro para o avanço do pensamento social do país rumo a novas abordagens mais críticas e ousadas sobre os antigos, novos e novíssimos problemas enfrentados pelo Brasil". A partir disso eu faço a minha confissão: com a leitura do livro, pela primeira vez, também eu me senti nesta Universidade, entre os presentes à palestra.

O livro todo é maravilhoso. O encanto me veio já a partir das primeiras páginas, quando o autor fala sobre raça e racismo, de uma perspectiva histórica. Assinalo dois parágrafos que para mim se constituíram na chave para a compreensão do livro. Eles põem em cheque o processo civilizatório do mundo moderno, do projeto do iluminismo. A fundamentação está em Achile Mbembe. São eles: "Achile Mbembe afirma que o colonialismo foi um projeto de universalização, cuja finalidade era 'inscrever os colonizados no espaço da modernidade'. Porém, a 'vulgaridade, a brutalidade tão habitualmente desenvolvida e sua má-fé fizeram do colonialismo um exemplo perfeito de anti-liberalismo'. No século XVIII, mais precisamente a partir do ano de 1791, o projeto de civilização iluminista baseada na liberdade e igualdade universais encontraria sua grande encruzilhada: a Revolução Haitiana". E continua:

"O povo negro haitiano, escravizado por colonizadores franceses, fez uma revolução para que as promessas de liberdade e igualdade universais fundadas na Revolução Francesa fossem estendidas a eles, assim como foram contra um poder que consideraram tirano, pois negava-lhes a liberdade e não lhes reconhecia a igualdade. O resultado foi que os haitianos tomaram o controle do país e proclamaram a independência em 1804" p. 27. Pronto estava instaurado o mundo moderno. O iluminismo virou capitalismo, colonialismo, nacionalismo, imperialismo, escravidão, racismo, apartheid e toda a sorte de dominações e sofrimentos.

A negação dos princípios da liberdade e da igualdade se instauraram nas entranhas da estrutura capitalista em seu todo. Logo o iluminismo se consorciou com o positivismo e procurou legitimar todo o sistema de opressão em nome do processo civilizatório. Além de mostrar essas preciosas observações históricas, o cerne do livro está ancorado em quatro capítulos essenciais, dos quais apresento a estrutura. São eles: 1. Racismo e Ideologia; 2. Racismo e Política; 3. Racismo e Direito; 4.Racismo e Economia. Vamos começar pelo primeiro: racismo e ideologia: Como naturalizamos o racismo; racismo, ideologia  e estrutura social; racismo ciência e cultura; branco tem raça?; racismo e  meritocracia.

O segundo desses capítulos é racismo e política: Mas o que é o Estado?; Estado e racismo nas teorias liberais; Estado poder e capitalismo; raça e nação; representatividade importa?; da biopolítica à necropolítica; racismo e necropolítica. O terceiro capítulo aborda: racismo e o direito. O que é direito?; o direito como justiça; o direito como norma; o direito como poder; o direito como relação social; raça e legalidade; direito e antirracismo.

O quarto capítulo é dos mais importantes, mostrando o entrelaçamento entre o racismo e a economia. As questões levantadas e debatidas são: racismo e desigualdade; uma visão estrutural do racismo e da economia; racismo e subsunção real do trabalho ao capital; o racismo e sua especificidade; sobre a herança da escravidão; classe ou raça?; racismo e desenvolvimento; crise e racismo; o que é a crise, afinal?; o racismo e as crises; o 'grande pânico' de 1873; o imperialismo e neocolonialismo; a crise de 1929, o Welfare State e a nova forma do racismo; neoliberalismo e  racismo.

É a essência do livro, mostrando as interligações do racismo com a ideologia, com a política, com o direito e com a economia. Depois disso é impossível não dizer que o racismo é efetivamente estrutural. O livro é acompanhado de muitas análises históricas e dos melhores referenciais teóricos sobre os temas abordados.

A leitura me fez lembrar de aulas de filosofia que eu dei e me fez buscar duas anotações que fiz ao pé da página do manual de filosofia da Marilena Chauí, Convite à Filosofia, que eu usava muito. A primeira é a frase de Marx, que chama para a necessidade do estudo e da investigação científica; "Se a aparência fosse igual à essência, não haveria a necessidade da ciência" e a segunda é a anotação de quatro palavras, com as quais pode ser instaurada ou explicitada uma base para a dominação e a submissão. São elas: dividir, hierarquizar, naturalizar e universalizar.

E como aperitivo provocativo para a leitura do livro, um parágrafo que fala do atualíssimo tema da austeridade fiscal e de suas consequências: "Chama-se por austeridade fiscal o corte das fontes de financiamento dos direitos sociais a fim de transferir parte do orçamento público para o setor financeiro privado por meio dos juros da dívida pública. Em nome de uma pretensa 'responsabilidade fiscal', segue-se a onda de privatizações, precarização do trabalho e desregulamentação de setores da economia. Do ponto de vista ideológico, a produção de um discurso justificador da destruição de um sistema histórico de proteção social revela a associação entre parte dos proprietários dos meios de comunicação de massa e o capital financeiro: o discurso ideológico do empreendedorismo - que, na maioria das vezes, serve para legitimar o desmonte da rede de proteção social de trabalhadoras e trabalhadores -, da meritocracia, do fim do emprego e da liberdade econômica como liberdade política são diuturnamente  martelados nos telejornais e até nos programas de entretenimento.

Ao mesmo tempo naturaliza-se a figura do inimigo, do bandido que ameaça a integridade social, distraindo a sociedade que, amedrontada pelos programas policiais e pelo noticiário, aceita a intervenção repressiva do Estado em nome da segurança, mas que, na verdade, servirá para conter o inconformismo social diante do esgarçamento provocado pela gestão neoliberal do capitalismo. Mais do que isso, o regime de acumulação que alguns denominam de pós-fordista dependerá cada vez mais da supressão da democracia". p. 206. O livro, entre capítulos e notas, tem 255 páginas.

Por fim a contracapa do livro, por ser bem ilustrativa: "Racismo estrutural traz reflexões inovadoras acerca da construção das noções de raça e racismo.  Depois de fornecer argumentos e tecnologias para a escravidão e o colonialismo, tais conceitos desafiam as sociedades contemporâneas como o Brasil, onde crescem anseios por igualdade racial. A indagação central da obra exige resposta complexa, englobando aspectos históricos, políticos, sociais, jurídicos, institucionais. O autor nos convida à sua demonstração, tecida em análises feitas à luz da Filosofia, da Ciência Política, da Economia e da Teoria do Direito. Com escrita sedutora e admirável erudição, Sílvio Almeida finca o produtivo conceito de racismo estrutural. 

Seu livro constitui-se, desde já, em importante referência para a educação antirracista, calcada nos valores da igualdade, da liberdade e do direito à vida". A referência é da professora Lígia Fonseca Ferreira, da UNIFESP. Sílvio Almeida é professor e advogado, com pós doutorado pela Faculdade de Direito da USP, do Largo de São Francisco.