terça-feira, 24 de novembro de 2015

Qual é a razão para se controlar tanto os currículos e que meios são usados para fazê-lo?

No dia 11 de janeiro de 2013 publiquei um post no blog com o título " Os controles sobre a educação. Um contrato". Este post teve até hoje (19.11.2015) 2.090 acessos e diversos comentários, especialmente, sobre a origem e veracidade deste contrato. Ele é uma verdadeira peça de humor. Como estamos diante de novas ofensivas conservadoras sobre os controles do currículo e da educação e, como estamos discutindo bases curriculares nacionais, achei interessante voltar ao tema do currículo, fundamental para se discutir a escola e a educação.
Saudades de um tempo de aprendizado maravilhoso.


A origem do post está num texto que estudamos no mestrado em História e Filosofia da Educação, na PUC de São Paulo. Isso foi no ano de 1997 ou 1988. O texto se encontra na revista Teoria & Educação, 4, 1991, editada em Porto Alegre. O texto, de autoria dos professores Michael Apple (U. de Wisconsin) e Kenneth Teitelbaum (U. de Syracuse), tem por título "Está o professorado perdendo o controle de suas qualificações e do Currículo"? Ele tem origem num encontro de professores de currículo, em que se debatia o tema "Possíveis direções para os estudos de currículo", na cidade de Chicago, em 1985. Posteriormente foi publicado no Journal of Curriculum Studies, 18(2), 1986 e chegou à publicação brasileira com a tradução do professor Tomás Tadeu da Silva.

Como os autores recomendam que se tenha em mente o contrato ao ler o texto, vamos a ele:

CONTRATO DE PROFESSORA - 1923.

Este é um acordo entre a senhorita............................................, professora, e o Conselho de Educação da Escola...................................................., pelo qual a Senhorita.......................................concorda em ensinar por um período de oito meses, começando em 1º de setembro de 1923. O Conselho de Educação concorda em pagar à Senhorita............................................... a soma de setenta e cinco dólares por mês. A Senhorita concorda com as seguintes cláusulas:

1. Não casar-se. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora se casar.
2. Não andar em companhia de homens.
3. Estar em casa entre as 8 horas da noite e as 6 horas da manhã, a menos que esteja assistindo a alguma função da escola.
4. Não ficar vagando pelo centro em sorveterias.
5. Não deixar a cidade em tempo algum sem a permissão do presidente do Conselho de Curadores.
6. Não fumar cigarros. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada fumando.
7. Não beber cerveja, vinho ou uísque. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professor for encontrada bebendo cerveja, vinho ou uísque.
8. Não andar de carruagem ou automóvel com qualquer homem exceto seu pai ou irmão.
9. Não vestir roupas demasiadamente coloridas.
10. Não tingir o cabelo.
11. Vestir ao menos duas combinações.
12. Não usar vestidos mais de duas polegadas acima dos tornozelos.
13. Conservar a sala de aula limpa.
(a) varrer o chão da sala de aula ao menos uma vez por dia.
(b) esfregar o chão da sala de aula ao menos uma vez por semana com água quente e sabão.
(c) limpar o quadro-negro ao menos uma vez por dia.
(e) acender a lareira às 7 horas da manhã de forma que a sala esteja quente às 8 horas quando as crianças chegarem.
14. Não usar pó no rosto, rímel, ou pintar os lábios.
Eis a revista que contém o texto. Teoria&Educação, nº 4, 1991.


Na introdução ao texto, ou autores chamam atenção para o surgimento de uma nova onda conservadora, não só nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha e no Canadá. Esta onda tem implicações no controle dos currículos e do ensino, que se estendem também sobre a cultura, sobre a política e sobre a economia em geral. Existem culpabilizações e isto atinge diretamente os trabalhadores em educação, uma profissão predominantemente exercida por mulheres. Como exemplo aventam para o contrato.

No corpo da análise, os autores tentam explicitar a maneira pela qual o professorado está perdendo o controle sobre o seu trabalho. Consideram como premissa para um ensino de qualidade e de ações auto refletidas, levar em conta os grupos desprivilegiados da sociedade, estudando-lhes suas origens e causas. Mas nem todos desejam que estes temas estejam presentes nas escolas. E isso trará para dentro das mesmas, o olho que as controlará e avaliará o que é feito. Aí chamam para uma reflexão maior sobre todo o processo de trabalho.
O xerox do texto que guardo cuidadosamente.


A degradação do trabalho ocorre com a sua taylorização, ou seja, a racionalização e a padronização do trabalho com vistas ao lucro. Isso traz duas consequências graves. A perda da visão geral sobre o trabalho com a separação entre a concepção e a execução e que traz como consequência, a desqualificação. A capacidade do trabalho criativo sofrerá uma atrofia pela execução de tarefas meramente mecânicas e repetitivas. A questão seguinte leva a investigar como este processo atingiu o trabalho docente, como essa taylorização do trabalho atingiu também o professorado.

Antes é preciso lembrar, que o ser professor passa por um longo processo de formação, de qualificação profissional, que o leva ao domínio de seus afazeres, como o sujeito do processo. E diante disso, a pergunta faz muito mais sentido. As causas são então explicitadas. Embora o discurso seja hoje mais democrático "na maior parte das áreas do currículo, existem forças agindo sobre as escolas que podem tornar estas escolhas (do sujeito) quase sem sentido. Nos níveis local, estadual, e federal, os movimentos por sistemas estritos de avaliação do trabalho de professores, de educação baseada na competência, de testagem, sistemas gerenciais, uma visão truncada das 'aprendizagens fundamentais', objetivos e conteúdos curriculares determinados por decreto, e assim por diante, são visíveis e estão em ascensão. De forma crescente, métodos de ensino, textos, testes, e resultados estão sendo retirados das mãos das pessoas que devem pô-los em prática". Ilustram a sua afirmativa com exemplos que consideram como a crescente intervenção estatal no processo.
Apontamentos/síntese, feitas ao final do texto, quando o estudamos.


E quais são as consequências? Na escola ocorrerá o mesmo processo do trabalho em geral. A atrofia do trabalho criativo e além da atrofia, o seu esquecimento. É anulado também todo o seu trabalho de formação. "As habilidades que os professores construíram ao longo de décadas de trabalho árduo - estabelecendo objetivos curriculares relevantes, determinando conteúdos, planejando lições e estratégias instrucionais, individualizando a instrução com base num conhecimento íntimo dos desejos e necessidades dos estudantes [...] são perdidas". Pouco adiante os autores continuam. "Não existe nenhuma fórmula melhor para a alienação e o desânimo que a perda de controle do próprio trabalho". E a conclusão deste processo é terrível. "Em vez de professores profissionais que se importam muito com o que fazem e por que o fazem, podemos ter executores alienados de planos alheios".

Uma outra análise ainda é feita e que também é uma consequência da perda do controle do seu trabalho, é dividir o conhecimentos em três tipos. Um tipo "o quê", a informação factual; um tipo "como", constituído, por exemplo, de habilidades de uso de uma biblioteca, de fazer pesquisas; e um tipo "para", que inclui normas, valores e propensões. Estes são modelos de comportamento e inspiradores de uma vida. Os autores dão ênfase a este terceiro tipo. "Incluem saber ser honesto, ter orgulho da própria herança racial, saber aprender depois que a escolarização formal terminou, ser intelectualmente aberto, ou ver a si mesmo como parte de uma comunidade democrática e agir cooperativamente". Se postos em hierarquia, qual será o conhecimento mais importante, perguntam os autores. Pela padronização, se perguntará sobre o mais fácil.

Creio que já dá para fazer sérias reflexões sobre o texto, que hoje, possivelmente, seja encontrado apenas em bibliotecas especializadas. Mas creio que os educadores facilmente poderiam ilustrar o texto, com os exemplos de suas práticas. Tenho para mim que a mais importante categoria da filosofia é a do trabalho, o trabalho como práxis, pela qual jamais o trabalho será dividido entre aqueles que o concebem e aqueles que o executam. A unidade entre o saber e o fazer, entre a mente e a mão. Mas vamos à conclusão dos dois especialistas.

"À medida que a desigualdade cresce firmemente na economia, à medida que as divisões de classe, de gênero, e de raça nos empregos e nas riquezas crescem inexoravelmente ao longo do tempo, estamos frente a uma situação em que os métodos empresariais tendem a dominar a maior parte do nosso discurso e decisões públicas. Não apenas na economia, mas nas escolas, as ideologias empresariais têm entrado mais diretamente no conteúdo do currículo e nas discussões sobre políticas nos níveis local, estadual, e federal. Uma ética do lucro e do ganho privado está não apenas deslegitimando uma visão educacional mais progressista, mas está também tornando difícil para nós como um povo lembrar que existem alternativas mais democráticas para as formas como nossa economia e nosso trabalho são atualmente controlados. Possivelmente a fim de que o professorado retenha uma grande porção de sua autonomia, seja antes necessário lutar em favor dessas alternativas democráticas na sociedade mais ampla. Isto certamente merece uma reflexão mais profunda".
Um livro que me acompanha para os estudos sobre currículo.


Termino citando uma frase do meu post anterior, retirada do livro Escola e Cultura, de Jean Claude Forquim. "Ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos". E o que dizer das atuais tentativas em controlar a liberdade dos professores, de politizarem os conteúdos, quando o ato de ensinar é, por excelência, um ato político. E para externar o que é verdadeiro e válido, o bem mais precioso sempre será o da liberdade.







sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sagarana. A Hora e a vez de Augusto Matraga. Guimarães Rosa.

Sagarana é o livro que lançou João Guimarães Rosa como escritor. A primeira edição é de 1946 e é uma coletânea de nove contos. Na orelha do livro lemos sobre o significado do título. "O título, Sagarana, é uma criação do autor, que juntou a palavra saga ('narrativa histórica ou lendária') o sufixo tupi - rana, que expressa a ideia de semelhança. Então temos em Sagarana - nove narrativas semelhantes a um conto. Creio que, sem favor nenhum, A hora e a vez de Augusto Matraga é o que se tornou o mais famoso. Sobre ele o próprio autor comentou:
Os nove contos de Sagarana. Uma bela edição da Nova Fronteira.

"A hora e a vez de Augusto Matraga - História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir". Quando Graciliano Ramos leu estes contos, manifestou vivo desejo de vê-lo escrevendo romances. Isto viria dez anos depois, com o consagrado Grande Sertão: Veredas.

Os nove contos são: O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois e a hora e a vez de Augusto Matraga. Poucos são os autores que conseguem tanta perfeição em abordar o regional e transformá-lo em tema universal. Psicologia e ética estão presentes num tosco personagem, desencontrado e reencontrado da vida, produto do sertão. 
O conto A Hora e a vez de Augusto Matraga também foi levado ao cinema.

Augusto Matraga é Augusto Esteves, ou simplesmente Nhô Augusto. É filho de coronel, arruinado, porém. O encontramos em fim de festa de procissão, arrematando Sariema, em Leilão. Dionóra, junto com a filhinha Mimita o abandonam, fugindo com Ovídio. Revoltado, junta os seus bate-paus, mas já não os encontra. Tinham se bandeado para o lado do major Consilva. Lhe sobra apenas o Quim Recadeiro. Assim Augusto Matraga tem duas missões pela frente, matar o major e lavar a honra.

Na primeira tarefa se dá muito mal. É jogado longe e dado como morto pelo pessoal do major Consilva. Foi encontrado pelo preto Nhô Augusto, que junto com a sua preta, o recolheram e lhe aplicaram um terrível diagnóstico; "Deus que me perdoe, - resmungou a preta, - mas este homem deve ser ruim feito cascavel barreada em buraco, porque está variando que faz e acontece, e é só braveza de matar e sangrar... E ele chama por Deus, na hora da dor mais forte, e Deus não atende, nem para um fôlego, assim num desamparo que eu nunca vi". Lhe chamam um padre.
O grande escritor integrou a Academia Brasileira de Letras. Este, merecidamente.

"Peça a Deus assim, com esta jaculatória: 'Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso", lhe ordenou o padre e o milagre aconteceu. Mudou de vida. Vejamos o que aconteceu: "Nos domingos, tinha o seu gosto de tomar descanso: batendo mato, o dia inteiro, sem sossego, sem espingarda nenhuma e nem nenhuma arma para caçar; e, de tardinha, fazendo parte com as velhas corocas que rezavam o terço ou os meses dos santos. Mas fugia às léguas de viola ou sanfona, ou de qualquer outra qualidade de música que escuma tristezas no coração". E assim foi vivendo e o autor nos avisa:

"E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque e esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor". Em todos os casos, a história continua. Um dia passa um andante que lhe dá notícias da mulher e da filha e de Quim Recadeiro. Os desejos de vingança se reacendem, mas prefere a oração. "Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso". Um novo contratempo veio com a passagem de um bando de jagunços, o bando de Joãozinho Bem-Bem. Se afeiçoam e o novo Nhô Augusto tem especial atenção para com Juruminho. Recebe convite para se integrar ao bando. De nova reza: "Jesus manso ....", e..., fica.
Outra edição dos contos reunidos em Sagarana.

Mais tarde resolve ir embora, para onde o jumento o levasse. O destino lhe marcou um reencontro. Com o bando de Joãozinho Bem Bem. Novo convite e,... pergunta por Juruminho. Recebe a notícia da sua morte. Ainda estavam aí para vingá-lo. O pai do assassino clama por clemência. Joãozinho impõe a lei do bando. O convertido Augusto Matraga se defronta com Joãozinho. Na luta os dois morrem. Primeiro Joãozinho e depois Augusto Matraga. Esta foi a hora e a vez de Augusto Matraga, reencontrado e pacificado consigo próprio. Mas vejamos o comentário do crítico Paulo Rónai, de 1946, junto com a primeira edição:

"Aplicação ainda mais perfeita deste processo (Espera-se em "O burrinho pedrês", um assassínio, que todos os indícios fazem prever... e sobrevém um desastre de proporções maiores, que resolve a tensão por um cataclismo imprevisto) observa-se em 'A hora e a vez de Augusto Matraga', a novela talvez mais densa de humanidade de todo o volume. A vida retraída do valentão arrependido que, depois de ter sido deixado como morto pelos capangas do adversário, levou anos a restaurar a saúde do corpo e a amansar o espírito sedento de vingança inspira ao leitor uma inquietação crescente. Treme-se por esta alma perdida e reencontrada, que por fim só escapará à tentação da desforra por outro ato louco de valentia que o redime, mas ao mesmo tempo o aniquila".

 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Ninguém nasce mulher - tornar-se mulher". Simone de Beauvoir.

Recebi várias provocações para escrever algo sobre a questão de gênero, a partir da questão do ENEM, que solicitava uma contextualização da frase de Simone de Beauvoir de que "ninguém nasce mulher, torna-se mulher".  Recebi, inclusive por messenger, uma matéria de um site - Midia Livre - FCS Brasil, que qualificava este exame como um"Vexame Nacional do Ensino Médio Bolivariano". Nele o exame sofria duras críticas. Mas o que chamou mais atenção foi um vídeo que acompanhou a matéria.
O Segundo Sexo. Eis o livro da polêmica do ENEM. Sua publicação primeira foi em 1949. A obra está disponível nas livrarias em volume único. Da editora Nova fronteira.

Neste vídeo, já devidamente removido, uma menina, qualificada como estudante de direito, manifestava a sua certeza de que a questão de gênero não precisava ser discutida, porque quem não sabe que "homem nasce com pinto e mulher com boceta". Assim a condição biológica seria determinante e os aspectos culturais da construção do humano não seriam levados em conta. Achei que não valeria a pena entrar na discussão, pelo nível absolutamente pré primário do argumento, uma vez que o ser humano se constrói culturalmente, Em cima do ser animal é que é construído o ser cultural, e é isto o que o torna um ser humano. Jamais esta pobre menina teria chegado a esta conclusão, se em seus estudos, tivesse havido uma abertura, ao menos de uma pequena aresta, para um pensar plural, múltiplo e diverso. Se tivesse dado um mínimo olhar para a palavra "transcender", também lhe teria feito um bem enorme.

Ao receber a revista CULT deste mês (novembro/2015 - edição nº 207), com um dossiê sobre Simone de Beauvoir, resolvi tomar a coragem de escrever este post. E o faço, no sentido de provocar para o mais, para a busca de mais leituras e debates, tão necessários para efetivamente se viver e conviver na busca da compreensão da alteridade e, em que, as relações humanas avancem para além da palavra tolerância e atingir o nível do respeito.
Edição nº 207, da revista CULT, com dossiê especial sobre Simone de Beauvoir.


O dossiê Simone de Beauvoir recebe o nome de O pensamento filosófico-feminista de Simone de Beauvoir e tem textos de Magda Guadalupe dos Santos, que afirma que a "obra da pensadora permanece como ponto de interlocução no debate atual sobre o gênero", uma entrevista "Simone por Sylvie", em que a herdeira e editora da obra da filósofa, Sylvie Le Bon de Beauvoir analisa o legado intelectual deixado pela pensadora, um texto de Carla Rodrigues em que é mostrado como a filósofa percebeu que para a mulher só havia uma definição negativa: aquela que não é homem e por último o texto, de Djalmila Ribeiro, sob o título de "figurações do outro" em que é mostrado como a autora de O segundo sexo se pergunta como um ser humano pode realizar-se dentro da condição feminina. Vou me ater, especialmente, a este último texto.

O texto é uma espécie de síntese de O segundo sexo. O livro tem método e responde a questão sobre a possibilidade da emancipação feminina vivendo sob a opressão. Ela procura responder as seguintes questões: "Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais ela pode superar". A situação da mulher mais ou menos poderia ser assim definida: "A situação da mulher lhe é infligida e assume um aspecto de opressão, de um 'beco sem saída', como um destino institucionalizado que petrifica sua existência num modelo de não liberdade". Mas ela via tudo dentro da perspectiva hegeliana e por isso, lá no horizonte, enxergou a superação.
Tem Hegel no meio de toda essa história. Devenir. Ideia de movimento e de futuro. Tornar-se.


"Quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, ele é de fato inferior; mas é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a má fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o sentido dinâmico hegeliano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-lhes possibilidades menores". Ao identificar as barreiras é que se abre a possibilidade da ultrapassagem. Mostro mais um pequeno trecho do texto para mostrar toda a sua importância.

"A desnaturalização do gênero feita por Beauvoir foi ponto de partida para diversas pesquisadoras. Ao mostrar que 'ninguém nasce mulher, torna-se mulher' a filósofa rompe com a visão determinista biológica, elucidando que os valores femininos são construídos socialmente". No texto de Carla Rodrigues é dada toda a ênfase na palavra devenir, do original, que significa tornar-se, para marcar fortemente a ideia de movimento e de futuro. Tornar-se mulher. 
A performatividade de gênero e do político. A entrevista na revista CULT.





Se Simone de Beauvoir usava a palavra sexo, depois se evoluiu para o uso da palavra gênero, passando por novos conceitos de libertação, que passaram por outros filósofos, com destaque para Foucault. Judith Butler é hoje considerada como uma das pensadoras que transcendeu a obra de Beauvoir. vejam só a capa de uma outra revista da CULT, a de sua edição nº 205, em que aparece uma frase síntese de seu pensamento "Temos que pensar o lugar de corpos movendo-se livremente dentro de uma democracia". Apenas provocações que clamam por mais leituras.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Discurso diante da sepultura de Marx. Engels.

"No dia 14 de março (1883), às três horas menos um quarto da tarde, deixou de pensar o maior pensador  de nossos dias. Mal o deixamos dois minutos sozinho, e quando voltamos foi para encontrá-lo dormindo suavemente em sua poltrona, mas para sempre.
O discurso de Engels se encontra neste segundo volume das obras escolhidas.

É totalmente impossível calcular o que o proletariado militante da Europa e da América e a ciência histórica perderam com este homem.  Logo se fará sentir o claro que se abriu com a morte desta figura gigantesca.

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o fato tão simples, mas que até ele se mantinha oculto pelo ervaçal ideológico, de que o homem precisa, em primeiro lugar comer, beber, ter um teto e vestir-se antes de poder fazer política, ciência, arte, religião, etc; que, portanto, a produção dos meios de subsistência imediatos, materiais, e, por conseguinte, a correspondente fase econômica de desenvolvimento de um povo ou de uma época é a base a partir da qual se desenvolveram as instituições políticas, as concepções jurídicas, as ideias artísticas e inclusive as ideias religiosas dos homens e de acordo com a qual devem, portanto, explicar-se; e não o contrário, como se vinha fazendo até então.
A assinatura dos presentes no cemitério de Highgate.

Mas não é isso só. Marx descobriu também a lei específica que move o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa criada por ele. A descoberta da mais valia iluminou de súbito esses problemas, enquanto que todas as pesquisas anteriores, tanto as dos economistas burgueses como as dos críticos socialistas, haviam vagado nas trevas.

Duas descobertas como essas deviam bastar para uma vida. Quem tenha a sorte de fazer apenas uma descoberta dessas já se pode considerar feliz. Mas não houve um campo sequer que Marx deixasse de submeter à pesquisa - e esses campos foram muitos, e não se limitou a tocar de passagem em qualquer deles - incluindo a matemática, em que não fizesse descobertas originais.

Tal era o homem de ciência. Mas não constituía, por muito que fosse, a metade do homem. Para Marx a ciência era uma força histórica motriz, uma força revolucionária. por mais puro que fosse o prazer que oferecesse uma nova descoberta feita em qualquer ciência teórica e cuja aplicação prática talvez não pudesse ser ainda prevista de modo algum, era outro o prazer que experimentava quando se tratava de uma descoberta capaz de exercer imediatamente uma influência revolucionadora na indústria e no desenvolvimento histórico em geral. Por isso acompanhava detalhadamente a marcha das descobertas realizadas no campo da eletricidade, até as de Marcel Deprez nos últimos tempos.
Os dois pensadores que produziram o referencial teórico e prático para as lutas proletárias.

Pois Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Cooperar, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições políticas por ela criadas, contribuir para a emancipação do proletariado moderno, a quem ele havia infundido pela primeira vez a consciência de sua própria situação e de suas necessidades, a consciência das condições de sua emancipação: tal era a verdadeira missão de sua vida. A luta era o seu elemento. E lutou com uma paixão, uma tenacidade e um êxito como poucos. Primeira Gazeta Renana, 1842; Vorwärts de Paris, 1844; Gazeta Alemã de Bruxelas, 1847; Nova Gazeta Renana, 1848/1849; New York Times, 1852 a 1861 - a tudo isso é necessário acrescentar um montão de folhetos de luta e o trabalho nas organizações de Paris, Bruxelas e Londres, até que nasceu, por último, como coroamento de tudo, a grande Associação Internacional dos Trabalhadores, que era, na verdade, uma obra da qual o seu autor podia estar orgulhoso ainda que não houvesse criado outra coisa.

Marx, por isso, era o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Os governos, tanto os absolutistas como os republicanos, o expulsavam.

Os burgueses, tanto os conservadores como os ultra-democratas, competiam em lançar difamações contra ele. Marx punha de lado tudo isso como se fossem teias de aranha, não fazia caso; só respondia quando isso era exigido por uma necessidade imperiosa. E morreu venerado, querido, pranteado por milhões de operários da causa revolucionária, como ele, espalhados por toda a Europa e a América, desde as minas da Sibéria até a Califórnia. E posso atrever-me a dizer que se pode ter muitos adversários, teve somente um inimigo pessoal.

Seu nome viverá através dos séculos, e com ele a sua obra".
Na biografia de Engels, detalhes sobre o enterro de Marx e o discurso em homenagem.

Esse discurso retirado das Obras escolhidas, volume 2, da editora Vitória, foi proferido no cemitério de Highgate, em Londres, perante 11 pessoas da família, por ocasião de seu enterro, conforme nos é contado, na magnífica biografia de Engels, Comunista de casaca, de Tristam Hunt. Trago o texto ao presente pela sua importância de síntese. Num discurso fúnebre existe todo o esforço de exaltar o essencial de toda uma vida e de uma obra. Vale destacar a comparação com Darwin, as duas grandes descobertas, que Engels já exaltara no Do socialismo utópico ao socialismo científico, que é a dos conceitos do materialismo histórico e da mais valia, bem como um panorama de suas principais trincheiras de luta.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Comunista de Casaca. A vida revolucionária de Friedrich Engels.

Cada vez mais sou fã incondicional de biografias bem escritas. O que eu mais aprecio nelas é o grande poder de contextualização. Você não vê apenas o biografado, mas também todo o seu panorâmico entorno. Isso ocorreu mais uma vez, agora com a leitura de Comunista de Casaca. A vida revolucionária de Friedrich Engels, do professor de história da Universidade de Londres, Tristam Hunt. Na obra você encontra toda a evolução industrial dos meados do século XIX, até o seu final e vê especialmente as discussões filosóficas que levaram a filosofia ocidental ao seu apogeu com Hegel e ao seu recomeço com a dialética.
A monumental biografia de Engels, da Record.

A obra foi lançada pela Record, em 2010. Possui 471 páginas, divididas em dez capítulos, com direito a prefácio e epílogo, muitas páginas de notas, ilustrações, mapas e um bloco de fotos históricas. Talvez o seu maior mérito seja a anotação feita pelo Observer, posta na contracapa do livro: "Hunt tira Engels da sombra de Marx". Para situá-lo bem, Engels nasceu em Wuppertal em 1820, na industrializada área nas proximidades de Düsseldorf e morreu em 1895, em Londres, passando muitos anos em Manchester, cuidando dos negócios da família, para atender interesses de seu pai e dar a viabilidade econômica para Marx, na elaboração de O Capital.
Barmen, (Wuppertal) a cidade natal de Engels e Trier, a de Marx.


O primeiro capítulo é dedicado a descrição da família, onde são retratados os pais protestantes calvinistas e pietistas, ricos industriais ligados ao algodão, à tintura e à tecelagem. Mostra ainda os anos de formação, em que entra em contato com o pensamento romântico de Goethe e assiste ao empobrecimento vertiginoso do operariado. Em Bremen tem seu primeiro contato com a obra de Hegel.  O segundo capítulo, para mim foi extraordinário, uma verdadeira aula de filosofia. Já  encontramos Engels em Berlim, assistindo as aulas em que Schelling desanca o pensamento de Hegel. Os hegelianos se dividem em dois grupos, os conservadores, que seguem na esteira do esclarecimento e que veem o Estado como o aperfeiçoamento máximo da razão, pela dialética idealista e, os de esquerda, que enxergam para além disso, criando a perspectiva para o materialismo histórico. Nestas aulas dá-se o primeiro encontro com Marx. Neste capítulo também é marcado um encontro com os socialistas utópicos.

Preocupações do pai e os negócios da família levam Engels para Manchester, o que é narrado no terceiro capítulo. Irá trabalhar na Ermen&Engels, a grande empresa familiar. De suas observações nasce A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Inicia também os seus estudos sobre os economistas clássicos, Smith e Malthus. Em Manchester dá-se o encontro com a sua eterna querida, a operária irlandesa Mary Burns. É óbvio que ali acontece o grande despertar para a questão da consciência de classe.
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, o primeiro livro de Engels.


No quarto capítulo é mostrada a sua pouca vocação para os negócios e logo vamos encontrá-lo em Paris, se aprofundando no estudo dos economistas clássicos e se envolvendo nas disputas pela hegemonia da doutrina que conduziria os operários à emancipação. Aí se encontra novamente com Marx e, agora, é que se dará a grande afinidade entre os dois pensadores e que irá durar para sempre. Escrevem conjuntamente duas obras de extrema importância para a filosofia e para a luta revolucionária, A ideologia alemã e O Manifesto do Partido Comunista. Já o quinto capítulo é dedicado às revoluções de 1848, que estouram na França e se propagam por toda a Europa. Nelas os dois intelectuais veem os avanços dos ideais burgueses como o estágio preparatório para o socialismo. Engels terá ativa participação nas lutas na sua Prússia natal.
O Manifesto do Partido Comunista, o primeiro trabalho em dupla.


O sexto capítulo cresce em intensidade mostrando um Engels conformado em seu trabalho na empresa familiar. Reconhece a superioridade intelectual de Marx e se submete a uma vida rotineira e monótona para dar a Marx todas a condições para que ele avançasses nos estudos de sua obra maior, O Capital. Neste capítulo também são mostradas algumas intimidades da vida dos dois pensadores. A situação financeira de Marx era caótica e ele também não obedecia a nenhuma regra, do que se chamaria hoje, de "educação financeira". Vivia entre a miséria e grandes banquetes e, sempre sem dinheiro. Mais da metade dos ganhos de Engels eram destinados ao amigo e à sua família e este não abria mão de uma vida burguesa. A bebida farta também sempre esteve presente na vida de ambos.
Engels em companhia da família de Marx.


No sétimo capítulo Engels renuncia à sua vida de "mascate" e passa a colaborar mais diretamente com a produção teórica de Marx. Passam a ser vizinhos. Engels aprofunda os conceitos do materialismo histórico e estende a sua aplicação para as ciências naturais. Em 1867 sai a edição do primeiro volume de O Capital, do qual Engels destaca as duas maiores qualidades, a clareza em torno do conceito do materialismo histórico e o conceito de mais valia. O cuidado com a edição e com a difusão do livro será o próximo caminho de Engels. Já no oitavo capítulo, quando os dois moram ainda em Londres, começam mais ativamente os trabalhos com a Associação Internacional dos Trabalhadores, a AIT e a Primeira Internacional, em 1864. A disputa pela hegemonia se acirra, com a briga com Bakunin e os seus anarquistas. São mostrados também dados financeiros da fortuna de Engels, agora afastado dos negócios, mas grande investidor financeiro, após a sociedade desfeita. A fortuna era incalculável. São ainda descritas as morte de Jenny e do próprio Karl.
Após a morte de Marx, Engels assume o papel de primeiro violino.


O nono capítulo tem um título sugestivo, o buldogue de Marx. O buldogue é uma referência ao cão de guarda que ele passa a ser, para que não houvesse a deturpação da obra do grande amigo. Vê nele o Darwin das ciências sociais. É a fase de seus Anti- Dühring e Do socialismo utópico ao socialismo científico e, o que certamente mais trabalho lhe deu, a organização das anotações de Marx para o segundo e o terceiro volumes de O Capital. Encontra tempo, ainda, para a elaboração de A origem da família, da propriedade privada e do estado, com interessantes incursões nas questões de gênero.
A supremacia teórica das lutas de emancipação do proletariado. Marx e Engels.


O décimo capítulo é dedicado ao seu esforço na preservação do legado de Marx e na manutenção da unidade de sua interpretação e a sua participação na Segunda Internacional em 1889, com a grande preocupação de que o marxismo seja a grande teoria guia para os ideais emancipatórios do proletariado. Isso será conseguido, ao menos no início, desta Segunda Internacional. Fala de sua doença, de seus dissabores familiares e do vislumbrar de sua morte por câncer. Por curiosidade, a fortuna deixada em testamento, atingia a cifra de quatro milhões de dólares. O epílogo procura inocentá-lo, como também a Marx, das barbaridades cometidas, posteriormente, em seu nome, mais dele do que Marx, pois o seu Do socialismo utópico ao socialismo científico, parece ter sido maior referência de estudos do que o grosso volume de O Capital. E..., um convite à leitura.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

ABC de Castro Alves. Jorge Amado.

O que é um ABC? O próprio Jorge Amado nos diz que o ABC é um canto de louvor. É muito mais uma louvação ou um canto do que uma biografia. Jorge Amado diz isso para deixar bem claro que o seu livro, muito mais do que uma biografia é um canto para demonstrar o encanto que ele sente pelo homenageado, o poeta libertário e igualitário Castro Alves. Apesar disso ele dá a referência das melhores biografias do poeta, com destaque para a de Afrânio Peixoto. Os ABCs se tornaram famosos no Brasil, com a literatura de cordel, exaltando os personagens do cangaço, contra o latifúndio, especialmente, no nordeste. Tomara que o meu post seja contaminado também com o espírito libertário, tanto de Castro Alves, quanto o de Jorge Amado.
O ABC de Jorge Amado. Não é uma biografia, é uma louvação. Castro Alves merece.

Castro Alves teve vida breve, compensada pela intensidade. Nasceu no interior baiano, mas a sua formação se deu em refinados ambientes urbanos. A formação básica se deu em Salvador e a superior, na Faculdade de direito do Recife. O livro de Jorge Amado é também um ABC em homenagem à cidade de Recife, onde fervilhavam os ideais libertários, que outrora buscavam a independência e que agora abraçavam as causas da abolição e da República.

O contato com os temas de sua vida de poeta lhe vieram especialmente através de seu tio, o alferes João José Alves, de quem herdou um belo bordão libertário. "A praça é do povo como o céu é do condor". Já o tema do amor penetrou em suas veias através de uma história nada exemplar, porém espetacular. Um "crime de paixão", com bala confeccionada em ouro. Os seus amores sempre foram glamourosos, sendo a artista Eugênia Câmara a sua grande e eterna paixão, isso já no curso do direito, em recife.
Os ABCs são muito famosos no Brasil com a literatura de cordel. Até a cachaça tem o seu.

Castro Alves foi um poeta romântico, já da fase final do romantismo. A abordagem de Jorge Amado é muito bonita, falando que Castro Alves não era o poeta que romanticamente terminaria ou conduziria ao suicídio, como o Lorde Byron, seguido no Brasil por Aloísio de Azevedo. Pelo contrário, a vertente de Castro Alves era Victor Hugo. Sem Victor Hugo ele não seria Castro Alves. "Em Hugo já aprendera o significado de liberdade, soube pela voz dos atabaques que havia um povo a libertar".

Jorge Amado também o contrapõe a Tobias Barreto, que queria alcançar a condição de elite para dominá-la, enquanto que o nobre ideal do poeta era o de libertar um povo. Assim como toda noite tem auroras, assim também todo o povo amanheceria sob a liberdade e a igualdade. Os seus ideais abolicionistas e republicanos só se fortaleceram na Faculdade de Direito e nos teatros do Recife. O tema dos escravos já aparece em sua poesia. Do Recife volta a Salvador, com incursões pelo teatro. Depois busca cenários maiores para a sua voz libertária, buscando-os no Rio de Janeiro e em São Paulo. Castro Alves, ressalta Jorge Amado, nunca fez arte pela arte. Ele "é conscientemente um poeta popular, a aspiração de sua poesia é servir o povo. O povo escravo das senzalas, o povo semiescravo das praças públicas".
Especialmente se forem as vozes da liberdade.

São Paulo marca o auge de sua poesia, mas também o seu declínio. Aí compõem Vozes d'Africa e Navio Negreiro, mas também, numa caçada fere o pé, que será o começo da sua morte. Foi também um tempo de desgosto, pelas desavenças com a amada, Eugênia Câmara, por quem sempre esteve disposto a cometer loucuras. Começa a empreender o seu caminho de volta. Rio de Janeiro e Salvador. Com o pé amputado e o pulmão definhando e, já sem saúde e sem amor, só lhe lhe resta o povo, como observa Jorge Amado. "O amor do povo é o bem que resta a este poeta sem saúde e sem amor". "Mas um amor, negra, quando é de fato grande, não precisa de ser correspondido", complementa Jorge. Observem o tom coloquial da fala. Jorge constantemente se dirige para a negra, para a amiga.
Mas o amor, quando é de fato grande, não precisa ser correspondido. Eugênia Câmara.

Mesmo assim, em Salvador o poeta ainda encontra inspiração para A cachoeira de Paulo Afonso e para Espumas Flutuantes, o único impresso em vida e dedicado ao romântico dos indígenas, José de Alencar. A elegia do ABC, já sob a letra Y, encontra esta bela homenagem. "Do fundo da vida vêm os herois que ele cantou: Tiradentes, com sua corda de mártir, Andrada com um mundo na mão, Pedro Ivo no seu cavalo negro. E sobre eles, esplendorosamente bela, a mais amada de todas as amadas, a liberdade. Passam num galopar de sonho, cantam os cânticos que ele escreveu, hinos de amor e de revolta. Vão para o futuro, há outras cadeias a romper. É uma multidão gigantesca que se move ao sonoro rumor de versos seus. Agora na frente de todos vai a liberdade. Outras cadeias que romper".

"Quero morrer olhando o infinito azul", diz o poeta e acolhendo a morte, ainda a poetar, "mas tu serás o meu último amor. Partirei contigo, irei feliz, és divina, minha amada". Mas antes de, com ela partir, ainda sobra um tempo para se despedir dos amigos. Uma voz da liberdade parte, ao mesmo tempo em que muitas vozes se multiplicam para entoar novos cantos de liberdade. Em julho de 1871, aos 24 anos de idade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A Quarta Internacional. Trotski.

Recorro a monumental biografia de Trotski, volume 3, escrita por Isaac Deutscher, Trotski - o profeta banido - 1929 - 1940, para apresentar os dados referentes à Quarta Internacional. Antes quero apresentar a obra de Deutscher, que escreveu a biografia do revolucionário, em três volumes, com os seguintes títulos: Trotski - o profeta armado - 1879 - 1921. Trotski - o profeta desarmado - 1921 - 1929 e o já citado Trotski - o profeta banido - 1929 - 1940. A edição é da Civilização Brasileira. São mais de 1.800 páginas de pura história.
Deste terceiro volume da biografia de Trotski buscamos os dados sobre a Quarta Internacional.

Trotski organiza a Quarta Internacional, a partir de seu exílio no México. O profeta teve perseguição implacável, tanto pelo stalinismo soviético, quanto pelo mundo ocidental capitalista. Do stalinismo recebeu a expulsão do país e dos países capitalistas, a negação de asilo político. Foi um verdadeiro peregrino, mundo afora, terminando os seus dias no México, sob um abrigo conturbado, oferecido pelo casal Diego Rivera e Frida Kahlo.  Deutscher assim descreve a fundação da nova Internacional.

"Durante o verão de 1938, Trotski manteve-se ocupado no preparo do programa e das resoluções para o 'Congresso de fundação' da Internacional. Na verdade, esse congresso era uma pequena conferência de trotskistas, realizada na casa de Alfred Rosmer em Périgny, aldeia perto de Paris, em três de novembro de 1938. Estavam presentes 21 delegados, pretendendo representar  as organizações de onze países. A conferência foi instalada ainda sob o impacto dos recentes assassinatos e raptos. Elegeu três jovens mártires, Liova, Klement e Erwin Wolf, como seus presidentes honorários. Juntamente com Klement, que era o secretário de organização da conferência, desapareceram relatórios dos trabalhos dos trotskistas em vários países, o esboço dos estatutos da Quarta internacional e outros documentos. A fim de impedir outro golpe pela GPU (polícia secreta soviética), a conferência realizou apenas uma sessão plenária, que durou todo o dia, sem qualquer interrupção, e recusou-se a admitir observadores do POUM catalão e do Parti Socialiste Ouvrier et Paysan francês". [...] A conferência foi mais ou menos secreta. Um dado interessante, porém:
Os três volumes da biografia de Trotski, escritos por Isaac Deutscher.

"Na conferência, porém, Étienne 'representou' a 'seção russa' da Internacional. Dois 'convidados' estavam também presentes: um deles era uma certa Sílvia Agelof, trotskista de Nova York, que serviu de intérprete. Chegara algum tempo antes aos Estados Unidos e em Paris conhecera um homem que se dizia chamar Jacques Monard, de quem se tornou amante. Ele permaneceu do lado de fora da sala de conferências, mostrando-se desinteressado da reunião altamente secreta e esperando apenas  a saída de Sílvia" [...]

Trotski, por motivos óbvios de segurança, não participou da Conferência e um de seus participantes chegou a dizer que ela "pouco mais era do que uma ficção: nenhum de seus chamados Bureaux Executivo e Internacional fora capaz de qualquer atuação nos últimos anos". Mas, na votação desta Conferência houve a proclamação da Quarta Internacional. Ela tem devotados seguidores até hoje. De maneira geral estão organizados em pequenos partidos, extremamente aguerridos, ou então se abrigam dentro de partidos maiores, figurando como tendências. Assim temos no Brasil correntes trotskistas dentro do PT e os pequenos partidos como o PSTU e o PCO.
Jorge Amado foi implacável na caracterização dos trotskistas, em seus três volumes de os subterrâneos da liberdade.

Mas vamos a mais uma descrição, não mais sobre a Quarta Internacional, mas sobre o personagem desinteressado na conferência de Paris, o tal namorado de Sílvia Agelof. Sílvia era também a secretária de Trotski. "Atrás dos hóspedes tão queridos, os Rosmer, se infiltraria uma sombra pressaga, a sombra de Ramon Mercader", que se preparava para uma missão sinistra, que seria a de assassinar o próprio Trotski, em seu refúgio mexicano. Ele namorou Sílvia com a finalidade de se aproximar de Trotski e assim assassiná-lo, cumprindo um mandato do PC soviético. Sugiro duas leituras interessantes a respeito do assassinato "espetacular" do profeta banido. A própria biografia de Deutscher e o extraordinário livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros.
Para ler este maravilhoso livro é fundamental saber algo sobre as Internacionais. Tem resenha no blog. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/o-homem-que-amava-os-cachorros-leonardo.html

Sugiro ainda a leitura dos três volumes dos Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, para se ter uma noção do tratamento que os partidos comunistas oficiais davam aos militantes trotskistas. Estas referências também dão um interessante panorama das divisões internas que sempre acompanham os partidos de esquerda.

A Terceira Internacional. O Komintern.

O livro de Max Beer, História do Socialismo e das lutas sociais, da Editora Expressão Popular, que usamos como guia em nossos posts anteriores, abrange em suas análises, apenas até os anos de 1921-1922. Em função disso, a Terceira Internacional ou o Komintern, recebe apenas um único paragrafo em seu livro, que passo a reproduzir.
Encontramos ainda um parágrafo neste livro sobre a Terceira Internacional.

"A fim de preparar o proletariado para a revolução, tarefa de que a Segunda Internacional se mostrou incapaz de realizar, os bolcheviques fundaram em março de 1919, a Terceira Internacional, que se propõe conduzir o proletariado pelo caminho da luta implacável, ao mesmo tempo pela defesa de seus interesses cotidianos e pela sua libertação definitiva do jugo da burguesia".
 Em nome dos princípios marxistas foi feita a Revolução Russa de 1917, sob o comando de Lênin.

Com a vitória dos bolcheviques na Rússia em 1917, este país pretende organizar os partidos socialistas para o rumo do socialismo mundial. Já em janeiro de 1919 começam as reuniões preparatórias para a organização de um novo movimento internacional e já em março deste mesmo ano de 1919 se realiza o seu primeiro Congresso. A grande diferença, é que agora haveria uma unidade nos partidos comunistas ou socialistas sob o comando do comunismo russo, já instalado no poder.
 Sob Stálin o fim da Terceira Internacional e a degeneração dos ideais marxistas.

Do Congresso de fundação participaram 52 delegados, que representaram  35 organizações de trabalhadores de 21 diferentes países. Em 24 anos de existência foram organizados sete congressos. A principal diferença das duas Internacionais anteriores é que agora haveria um comando centralizado, sendo os partidos comunistas nacionais integrados ao comando do Partido Comunista Soviético, uma espécie de filiais. O regime soviético, após Lênin, passou a ser extremamente rígido, se perdendo na burocracia e na degeneração do Estado sob o governo de Stálin, que instaurou uma verdadeira "ditadura do proletariado" em regime permanente. 

Mas não foi o culto à personalidade e ao rigoroso controle imposto aos partidos comunistas membros do Komintern que provocaram a implosão da organização, que certamente também iria ocorrer. A implosão se deu na Segunda Guerra Mundial, em 1943, em virtude das alianças celebradas com o mundo ocidental capitalista, para evitar desconfianças que poderiam recair sobre a União Soviética com relação ao combate ao regime nazista alemão. A desintegração da Internacional precedeu a desconfiança e a queda do regime do chamado socialismo real, que perdeu credibilidade, especialmente, a partir do XX°  PCUs, em 1956, quando Krushév denuncia as barbáries cometidas sob o regime de Stálin.
Seis volumes de história do marxismo no Brasil.

No Brasil, o Partido foi fundado em 1922 e foi admitido na organização internacional em 1925. Para isso contamos com farta literatura, da qual eu gostaria de destacar a coleção de seis volumes da História do marxismo no Brasil, editados primeiramente pela Editora da Unicamp. Quem quiser uma boa análise sobre a questão, pode ler também os três volumes de Jorge Amado, Os subterrâneos da Liberdade, ou Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. O PCB, o tradicional Partidão sofreu uma divisão durante a ditadura militar, quando foi criado o PCdoB, e o Partidão mesmo, virou o PPS., nos anos 1990, restando uma pequena dissidência que mantém a sigla original do PCB. As dissidências entre Stálin e Trótski, na União Soviética, deram origem à formação da Quarta Internacional, no ano de 1938. Trotski queria  a expansão da revolução socialista por todo o mundo, enquanto que Stálin queria consolidá-la na União Soviética. Coisas da geopolítica.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Segunda Internacional. Associação Internacional dos Trabalhadores.

Max Beer, em seu livro História do Socialismo e das lutas sociais, nos conta que a Segunda Internacional aconteceu em Paris, em 1889, por ocasião da grande Exposição Internacional. Reparem bem na data. Nela se comemora o centenário da Revolução Francesa. Nesse ano realizaram-se na cidade, dois congressos de trabalhadores. Um foi convocado pelos possibilistas e o outro pelos marxistas. Como podem ver, de novo havia divisão, embora nem Marx, morto em 1883, e nem Bakunin, morto em 1876, estivessem presentes. Novas divisões passaram a existir. O primeiro ato da Segunda Internacional foi declarar o dia primeiro de maio como o dia internacional do trabalhador.
O livro de Max Beer continua sendo a referência para este segundo post.

A sede da Segunda Internacional ficava em Bruxelas e foram organizados oito Congressos. Estes foram realizados em Bruxelas, Zurique, Londres, Paris, Amsterdã, Stuttgart, Copenhague e Basileia. A associação era formada com dois delegados de cada país. Beer divide a Segunda Internacional em três períodos, assim descritos: "No primeiro período, procurou-se estabelecer uma linha divisória entre o socialismo e o anarquismo. No segundo, procurou-se fixar os princípios da luta de classe e a atitude dos partidos socialistas em face dos governos burgueses. Finalmente, no terceiro, procurou-se chamar a atenção dos povos para as crescentes ameaças de uma guerra imperialista e fixar posição da Internacional em face do perigo da guerra".
A Segunda Internacional proclama o primeiro de maio como o dial mundial do trabalhador. Sempre houve grandes comemorações.


O autor faz dura crítica ao movimento, atribuindo-lhe, como o único resultado positivo, a exclusão dos anarquistas, no Congresso de Londres, em 1896. Já no Congresso de Paris ficou estabelecido que somente seriam aceitos como membros da organização quem professasse os princípios do socialismo e aceitasse a necessidade da luta política. A Segunda Internacional ainda proibiu que os membros dos partidos socialistas participassem de governos burgueses, a não ser em  "circunstâncias excepcionais". Mas um grande número de partidos socialistas europeus participaram de governos de coalizão. E uma frase de lamento do autor. "A ação empreendida pela Internacional contra os perigos de guerra fracassou completamente".

Mais lamentos do autor. "Infelizmente, a psicose guerreira, que atacou os dirigentes e as massas nos primeiros dias de agosto de 1914, foi mais forte que todas as decisões dos Congressos. Só algumas pequenas frações do movimento operário começaram pouco a pouco a aplicar os princípios da luta de classe". mais adiante continua. "A guerra mundial (1914-1918) despedaçou a Segunda Internacional. Ou melhor: a "Segunda Internacional foi vítima da contradição entre o patriotismo e o internacionalismo, que trazia em si mesma".
Os seguidores de Bakunin, os anarquistas foram excluídos da Segunda Internacional.


Beer ainda faz uma análise da atuação dos partidos socialistas da Alemanha, da Áustria-Hungria, da Grã Bretanha, da França, da Itália, da Rússia e também dos Estados Unidos. Faz ainda uma análise da atuação da Internacional durante a guerra e no pós-guerra, como a Revolução Russa de 1917 e a Revolução Alemã de 1918-1919 e, ainda a atuação dos partidos na França e na Inglaterra.  As informações de Beer terminam por aí, mas buscamos mais alguns complementos.

Oficialmente a Segunda Internacional foi dissolvida em 1916, mas teve uma espécie de refundação em 1920, mas não de forma unificada. Abdicou das principais convicções socialistas para aderir às convicções social-democratas. Esta durou até 1940 e foi mais uma vez refundada após a Segunda Guerra Mundial, dentro dos princípios da social democracia, mas sem grande expressão política.
A rosa como símbolo do PDT é uma herança da Segunda Internacional.


Mais algumas informações complementares. No Brasil a Segunda Internacional passou a ser representada pelo Partido Democrático Trabalhista, e tendo em Leonel Brizola o seu grande representante. O Partido dos Trabalhadores sempre a recusou. Para avivar a memória, ela é representada pelo símbolo da rosa, que também está presente nos símbolos do PDT. A Segunda Internacional também foi a responsável pela oficialização do Hino da Internacional.

A Primeira Internacional. A Associação Internacional dos Trabalhadores.

Considero o tema das internacionais absolutamente relevante. Em primeiro lugar para entender o movimento de organização dos trabalhadores  e localizar e compreender as divergências entre si e por fazer parte de uma leitura de mundo, em que precisamos tomar posições, pois, a apatia e a indiferença nunca conduziram a bons resultados. Vou fazer uma breve resenha das quatro internacionais, usando como texto básico o livro História do Socialismo e das lutas sociais, de Max Beer, da editora Expressão Popular. Como a sua análise só chega aos anos 1920, precisamos buscar outra bibliografia para a terceira e especialmente para a quarta.
Principal referência para a elaboração deste post.

Os trabalhadores tiveram grandes avanços teóricos com as obras de Marx e de Engels, primeiramente, no campo filosófico e, depois, na análise do funcionamento da economia capitalista. Creio que não erramos ao dizer que, efetivamente, o primeiro grande marco foi o lançamento do Manifesto Comunista, em 1848. Os autores tinham convicção plena de que o capitalismo teria vida curta. O mundo vivia um clima revolucionário. Um novo grande avanço veio a partir dos anos 1860.
O livro de luta política revolucionária. O Manifesto Comunista, de Marx e de Engels.

A Primeira Internacional, ou a formação de uma espécie de central sindical mundial, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) ocorreu em 1864 e tinha a sua sede na cidade de Londres. Dela fizeram parte trabalhadores ingleses, alemães, franceses e italianos. Em meio a representação alemã estava Karl Marx. Os grandes objetivos estavam na Mensagem Inaugural, onde se defendia a organização dos trabalhadores em partidos de classe, a luta em torno de legislação social e a criação de cooperativas operárias e, de forma mais distante, os princípios já contidos no manifesto de 1848. Nunca foi uma organização de massa. Era uma espécie de Central Sindical Mundial, ou a cúpula dos dirigentes sindicais dos países membros. Pode ser também considerada como uma universidade, onde se estudavam as táticas e as estratégias das grandes causas operárias.
A disputa pela liderança na Primeira Internacional se deu entre Marx e Bakunin

A AIT realizou cinco Congressos, em Genebra (1866), em Lausane (1867), em Bruxelas (1868), em Basileia (1869) e o último em Haia (1872). Os primeiros anos foram dominados por Proudhon, mas Marx foi sendo alçado como a grande liderança, logo a seguir. Em 1868 se registra o ingresso do revolucionário russo Miguel Bakunin e no Congresso de Haia ocorreu uma cisão sem volta. A sede da Associação ainda é transferida para Nova York, numa última tentativa de manutenção, mas ela é dissolvida em 1876. A sua grande contribuição foi o crescimento da organização dos trabalhadores e o grande evento do período foi a Comuna de Paris, em 1871. Também, por ela, Marx passou a ser o grande referencial teórico das causas proletárias.
A grande referência teórica para a análise econômica do sistema capitalista.

A divergência intransponível girava em torno da palavra, ou da concepção do Estado. Enquanto os anarquistas enxergavam os seus males como evidentes e o rejeitavam, os marxistas queriam dele se apoderar pela via revolucionária, fazer dele um instrumento de classe, pela ditadura do proletariado, para depois, já numa sociedade sem classes, aboli-lo definitivamente. A estratégia anarquista de combater o Estado burguês era a conspiração secreta e a insurreição armada.
Os anarquistas tiveram forte presença na Primeira Internacional e foram a causa da sua dissolução. Quem precisar de referências...

A reorganização dos Trabalhadores em nível internacional teria que esperar alguns anos. A Segunda Internacional só ocorre a partir de 1889 e, ainda permanece, não tão ativa e sem grande expressão e representação, até os dias de hoje. Mas este já o tema de um segundo post.

Prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política". Marx.

Este texto eu guardo desde os anos 1980, dos cursos de formação no 13 de maio, do curso básico que eles ministravam, chamado - Como funciona a sociedade. Como são conclusões de um determinado momento da vida de Marx, trata-se de um texto síntese muito importante. Razão pela qual resolvi fazer o seu compartilhamento.
Segundo Marx, depois da tomada de consciência, a revolução.


"O resultado geral a que eu cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.
O Capital, o mais importante livro de Marx.


Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas, nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam por resolvê-lo.
A mais explosiva das obras de Marx. O Manifesto Comunista.


E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material
, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Nenhuma formação social desaparece antes de que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência.
Uma das obras da primeira fase de Marx, quando se dedicava mais à filosofia. A ideologia Alemã.


Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que esses objetivos só brotam quando já existem, ou pelo menos, estão em gestação as condições materiais para a sua realização. A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção: antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos. As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré história da sociedade humana".

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Conceitos de Infraestrutura e Superestrutura da sociedade. O Mundo de Sofia.

Este post tem finalidade prática. Por isso não vou interagir com o texto, que é retirado do livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. As partes do texto são retiradas do capítulo em que ele apresenta Marx. Marx... um espectro ronda a Europa. A edição que estou usando é a de 2014, 5ª reimpressão. Assim, os parágrafos utilizados estão situados entre as páginas 416 e 434. O objetivo é apresentar os conceitos de infraestrutura e superestrutura e diferenciar a dialética marxista da dialética hegeliana.
O belo livro de filosofia. O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder.

"Hegel resolveu chamar de "espírito do mundo" a força que alavanca a história. É isso que para Marx  era inverter as coisas. Ele queria demonstrar que as transformações materiais é que são determinantes. Também não seriam, portanto, os "pressupostos espirituais" que criariam as transformações materiais, mas o contrário. As transformações materiais é que permitem o surgimento de novos pressupostos espirituais. Marx dava especial importância às forças econômicas da sociedade e às transformações que possibilitam, dessa forma fazendo girar a roda da história. [...]

As tais relações materiais, econômicas e sociais de uma sociedade Marx chamou de bases dessa sociedade. A maneira como as pessoas se inserem nela, as instituições políticas que ela possui, as leis vigentes e também a religião, moral, arte, filosofia e ciência de uma sociedade são denominadas por Marx de superestrutura. Base e superestrutura, então. [...]
A famosa tese número 11 contra Feuerbach. Os filósofos apenas interpretaram o mundo diferentemente, importa é transformá-lo.

Podemos também identificar três níveis na base da sociedade. O mais "basilar" é o que chamamos de "condições de produção". Ele vai determinar as relações ou recursos naturais existentes na sociedade. Aqui eu me refiro às relações que têm a ver com o clima e com as matérias-primas disponíveis. Só isso já estabelece as paredes que dividem a sociedade, e essas paredes estabelecem fronteiras bem claras para o tipo de produção que essa sociedade pode ter. E com isso estarão estabelecidas também fronteiras igualmente claras para cada tipo de sociedade e de cultura que vai prosperar ali.[...]

O degrau seguinte consiste nas "forças produtivas" que existem na sociedade. Aqui Marx está se referindo aos tipos de ferramentas, equipamentos e máquinas disponíveis. Antigamente a pesca era feita manualmente em pequenos barcos a remo, mas hoje em dia se pesca com redes de arrasto em traineiras gigantescas. E aqui você acaba de passar para o próximo degrau da base social, ou seja, quem possui os meios de produção. A organização do trabalho, como ele é dividido, as relações com os proprietários, Marx chamou de relações de produção da sociedade. [...]
A convocação revolucionária de Marx.


Até aqui podemos concluir que é o modo de produção de uma sociedade que determina o tipo de relações políticas e ideológicas que existirão nessa sociedade. Não é por acaso que hoje pensamos um pouco diferente, e temos uma moral ligeiramente diferente, das pessoas que viviam numa antiga sociedade feudal. - Então Marx não acreditava num direito natural válido válido em qualquer época? Não, a pergunta sobre o que é moralmente certo é, segundo Marx, um produto da base da sociedade.[...]

Marx enfatiza ainda que, em geral, a classe dominante da sociedade é quem determina o que é certo ou errado. Pois toda a história é a história da luta de classes. O que significa que à primeira vista a história se refere a quem detém os meios de produção. - Mas os pensamentos e ideias dos homens não podem transformar a história? - Sim e não. Marx estava convencido de que as relações na superestrutura da sociedade poderiam influenciar a sua base, mas ele negava que a superestrutura tivesse uma história independente. O que movimentara a história, desde a escravidão da Antiguidade até a sociedade industrial do seu tempo, fora primeiramente determinado pelas mudanças na base da sociedade".