segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Conservatória I. A Capital da Seresta. Um pequeno histórico.

Felizmente tenho bons vizinhos. Um deles, o Celso, me contou de suas andanças. Foi então que, pela primeira vez em minha vida, ouvi falar de Conservatória. A impressão que a cidade deixou no meu vizinho foi muito forte e o que realmente lhe chamou a atenção foi este fato de ser ela a capital da seresta. Prometi ao Celso conhecer a cidade na primeira oportunidade que eu tivesse. Como tenho um filho trabalhando no Rio de Janeiro, mais precisamente no COMPERJ, em Itaboraí, isso não seria uma tarefa muito difícil. Na primeira visita que lhe faria, conheceríamos a tal de Conservatória.

Isto aconteceu agora, entre os dias 20 e 22 de setembro (2013), de uma sexta feira até o domingo. E esta é a primeira informação importante. A cidade praticamente só tem existência nos finais de semana, que é quando os turistas chegam. Tomei de todas as informações possíveis e lá chegamos nós, eu e o meu filho Alexis. Quando o maravilhamento tomou conta de mim, prometi, para mim mesmo, divulgar a cidade ao máximo, para que mais pessoas possam usufruir deste verdadeiro paraíso. Farei alguns posts com este objetivo e, no de hoje, vou abordar um pouco de sua origem histórica.
Hoje é a rodoviária, mas já foi a estação ferroviária, nos áureos tempos do café.

A curiosidade é a minha grande companheira de viagens. Eu queria conhecer tudo sobre a cidade, especialmente sobre a sua vocação para a música. Para conseguir este intento é preciso conversar com as pessoas. Aliás uma das frases que também sempre me acompanha diz, que quando você conversa com alguém é um mundo novo que se abre para você. Nestas conversas recebi a indicação de um livro, que eu poderia encontrar na Pousada 206. De fato lá o encontrei. Creio ser um dos últimos exemplares: A Conservatória dos Índios - Um Arraial esquecido. A autoria é de F.A. Noronha Santos.

O livrinho não atendeu a minha curiosidade mais específica, sobre a questão da música, mas me possibilitou um histórico da região, do hoje denominado Vale do Café, nos áureos tempos do império, quando a região conheceu o seu tempo de maior prosperidade. Com a abolição da escravidão toda a região conheceu o seu declínio. Fui ver a data de publicação do livrinho. Surpresa absoluta. A sua primeira publicação se deu em 1928 e teve uma republicação em 2007. Isto me indica que todos os dados nele constantes chegam no máximo ao ano de 1928, fato que os torna mais preciosos, uma vez que revestidos do caráter histórico. O seu autor tem conhecimento do lugar e familiaridade com a pesquisa. Noronha Santos aposentou-se como diretor do Arquivo Municipal da cidade do Rio de Janeiro.
A Serra da Beleza é a cadeia de montanhas que rodeia Conservatória.

As páginas iniciais são as mais interessantes. As outras, as finais,  são muito específicas de números e datas. As iniciais descrevem a região. Creio que antes disso devo contextualizar o mapa geográfico da região. Conservatória é um distrito do município de Valença -RJ. Para chegar a Conservatória você larga a rodovia presidente Dutra, indo para Volta Redonda ou para Piraí. Em ambos os casos deve-se ir até a Barra do Piraí e daí seguir até Conservatória. Como já falamos ela pertence ao Vale do Rio Paraíba, ao Vale do Café. A região é montanhosa e uma de suas atrações turísticas é um mirante, donde se avista a Serra da Beleza. Vou transcrever alguns dados, mantendo a grafia da época:

"O clima de Conservatória e de suas redondezas é excellente e dos mais salubres e recommendáveis das regiões serranas do estado do Rio" [...] "Goza-se sempre de suave temperatura, mesmo na época das chuvas - de outubro a março- na qual são frequentes fortes, mas passageiras, trovoadas de verão. Nesses mezes, apesar dos dias quentes, as manhãs e as tardes são agradabilíssimas. No inverno, os dias são lindos. O céo é de um azul diaphano, sendo communs as noites estrelladas e claras". Talvez esteja aí, nestas noites claras e estreladas uma das raízes para a cidade das serestas. Ainda diz que as temperaturas de inverno podem chegar aos 4 ou 5 graus e no verão a 28 ou 30.
As casas de Conservatória seguem o padrão do Segundo Reinado. Por isso ela é muito procurada para a filmagem de novelas de época.

E olhem  o encanto do autor com a cidade: "A demographia sanitária concorre para a bôa fama da salubridade local. Morre-se pouco. Vive-se muito, rastejando a longevidade por 80 e 90 annos". vejam também a preocupação do autor com as questões sociais, ao falar da mortalidade das crianças, especialmente das crianças pobres: "É lastimável que localidade, tão aprazível e dispondo de excellentes condições de salubridade, e onde a natureza é sempre acolhedora e risonha - não se nos apresente bemfazeja ás crianças dos lares desprotegidos da fortuna". Seleciono ainda uma última frase, simultaneamente de encanto e desencanto pelo local:
Olha aí a preciosidade que eu encontrei. F. A. Noronha Santos conta a história de Conservatória, até 1928, amo da publicação do livrinho.

"Nada lhes falta. Ar puríssimo, agua em abundancia e altitudes razoaveis, sobre o nível do mar, aconselhaveis aos doentes que precisam de socego e refazer forças. Permanecem, porém, abandonadas; - desconhecem-n'as os que têm recursos e que se abalançam a longas viagens a terras estranhas, desprezando o que é nosso - porque é brasileiro".

A maior riqueza de Conservatória é o seu povo e o seu cultivo da música - A capital mundial da seresta.

Com a abolição da escravidão veio a decadência das lavouras de café. As terras foram perdendo o seu valor e o povo abandonou a região. A cana e milho foram as lavouras que se seguiram, mas também abandonadas, para que a região fosse dominantemente ocupada pela pecuária. Mas vejam a suavidade bela do lamento do historiador ao descrever a decadência econômica do lugar. "Quem viu, naquella época a bacia do Parahyba, ostentando soberbamente o vasto oceano de suas culturas e observe hoje a desolação de suas terras despidas, a decadencia de suas cidades e a depreciação geral das propriedades, o esqueleto das fazendas, cuja casaria deixa a impressão de um monte de ossadas, sente a tristeza apertar-lhe o coração e pergunta a si mesmo, se a obra dos nossos maiores correspondeu, ao menos á devastação do patrimonio, com sacrificio das gerações futuras". Saudosismo, nostalgia. Pois é: este lindo e aprazível lugar continua existindo e o seu charme é altamente benfazejo e contagiante. Amanhã eu conto mais.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A ÁGUIA QUE (quase) VIROU GALINHA.

Hoje publico mais um texto que já usei bastante. Ele tem várias versões e a história também é contada com diferentes finalidades. Não importa. Conheço uma versão do Leonardo Boff, que inclusive, tem um livro com título semelhante, mas prefiro usar esta versão, que é do Rubem Alves, que eu aprecio muito. Como esta história é totalmente auto explicativa, não me dou ao trabalho de fazer qualquer interpretação. Me desculpem, mas não sei dar a fonte do livro em que está esta história. A tenho em xerox e a página é da nº 125, mas não sei dizer de que livro. Mas vamos a Rubem Alves que primeiramente fala sobre a história, para depois contá-la, a sua maneira.
O voo soberano da água.

"O tempo está chegando quando o homem não mais lançará a flecha do seu desejo para além de si mesmo e a corda do seu arco se esquecerá de como vibrar... O tempo está chegando quando o homem não mais dará à luz uma estrela. O tempo do mais desprezível dos homens...

O tempo está chegando quando todas as águias se transformarão em galinha. A ideia desta história não é minha. Meu é só o jeito de contar..."

Sobre uma águia que foi criada num galinheiro.

"E foi aprendendo sobre o jeito galináceo de ser, de pensar, de ciscar a terra, de comer milho, de dormir em poleiros...

E, na medida em que aprendia, ia esquecendo as poucas lembranças que lhe restavam do passado. É sempre assim: todo aprendizado exige um esquecimento... e ela desaprendeu.

os cumes das montanhas.
os vôos nas nuvens.
o frio das alturas.
a vista se perdendo no horizonte. 
o delicioso sentimento de liberdade...

Como não havia ninguém que lhe falasse destas coisas, e todas as galinhas cacarejassem os mesmos catecismos, ela acabou por acreditar que ela não passava de uma galinha com perturbação hormonal, tudo grande demais, aquele bico curvo, sinal de acromegalia, e desejava muito que o seu cocô tivesse o mesmo cheiro certo do cocô das galinhas...

Um dia apareceu por lá um homem que vivera nas montanhas e vira o voo orgulhoso das águias.

'Que é que você faz aqui?', ele perguntou.

'Este é o meu lugar', ela respondeu. 'Todo mundo sabe que galinhas vivem em galinheiros, comem milho, ciscam o chão, botam ovos e finalmente viram canja: nada se perde, utilidade total...'

'Mas você não é galinha', ele disse. 'É uma águia.'

'De jeito nenhum. Águia voa alto. Eu nem sequer voar sei. Prá dizer a verdade, nem quero. A altura me dá vertigens. É mais seguro ir andando, passo a passo...'

E não houve argumento que mudasse a cabeça da águia esquecida. Até que o homem, não aguentando mais ver aquela coisa triste, uma águia transformada em galinha, agarrou a águia à força, e a levou até o alto da montanha. A pobre águia começou a cacarejar de terror, mas o homem não teve compaixão: jogou-a no vazio do abismo. Foi então que o pavor, misturado a memória que ainda moravam em seu corpo, fez as asas baterem, a princípio em pânico, mas pouco a pouco, com tranquila dignidade, até se abrirem confiantes, reconhecendo aquele espaço imenso que lhe fora roubado. E ela finalmente compreendeu que o seu nome não era galinha, mas águia...

Esta estória foi escrita na África, um profeta dizendo aos seus companheiros: 'Vejam a que estado os brancos nos reduziram: águias que andam como galinhas... É preciso voar de novo'".

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Caminho do Bezerro. Do pensamento.

Trago comigo um velho manual de sociologia, meio aos pedaços, de tanto o ter usado. Neste livro tem uma história muito bonita e que explica muita coisa. A história é muito útil para os dias de hoje, em que assistimos um recrudescimento da onda conservadora. O livro é Uma Introdução à Sociologia, dos autores americanos Walfred A. Anderson e Frederick B. Parker. Um livro de mais de 700 páginas. A história que eu vou transcrever está nas páginas 689 - 690, inserida num capítulo em que os autores tratam do tema da mudança social.
gado em execução
Olha aí! O que tu aprontastes!

Sei que o texto é usado em palestras de motivação, quando o foco recai sobre as inovações, sobre a audácia, sobre o ousar. Não é o meu foco. Eu conto esta história com o objetivo de mostrar a origem da obtusidade de muitas pessoas, sobre raízes do conservadorismo e sobre os seus resultados desastrosos, do tempo que se perde e do desenvolvimento que se impede. Pessoas obtusas, de mentes rígidas, em nome de repetir o que sempre foi feito. Mas vamos à história:

"Certo dia,, em meio à mata virgem, um bezerro se encaminhava para casa, como o fazem todos os bons bezerros;
Mas o fez por uma trilha em curvas, um caminho tortuoso, como costumam fazer os bezerros.
Desde então, duzentos anos se passaram e, presumo, o bezerro já morreu. mas lá deixou sua trilha e é sobre isso que versa a narração, de fundo moral.
A trilha foi utilizada, no dia seguinte, por um cão solitário que por ali passava
E, então, um carneiro guia passou a usar o caminho, indo para o vale e para as alturas,
E levou o rebanho consigo, também, como o fazem todos os bons carneiros-guia.
E, desde então, pelas colinas e clareiras, pelos velhos bosques, um caminho foi rasgado;
E muitos homens por ele se enfiaram, para lá e para cá, dobrando, voltando e serpenteando
E murmuravam palavras de justa revolta, pois era um caminho um bocado tortuoso.
Mas mesmo assim o seguiam - não riam - pela trilha do primeiro bezerro,
E caminhavam cautelosamente por este caminho serpenteante mato a dentro, pois hesitavam enquanto andavam.
O caminho na floresta se transformou em uma pista, virando para lá, para cá, virando novamente;
A pista tortuosa transformou-se em estrada, onde muitos pobres cavalos, com suas cargas
Avançavam lentamente sob o sol inclemente e faziam três milhas para progredir uma.
E, desta forma, por século e meio seguiram as pegadas do bezerro.
Os anos se passaram velozmente e a estrada passou a ser a rua de uma cidadezinha;
E, antes que os homens se dessem conta, a movimentada artéria de uma grande cidade;
E logo a rua central de famosa metrópole;
E os homens, dois séculos e meio depois, ainda seguiam as pegadas do bezerro.
Todos os dias, cem mil passantes seguiam o ziguezague do bezerro;
E por seu tortuoso caminho passou a se fazer o tráfego de um continente.
Cem mil homens se deixavam levar por um bezerro, desaparecido havia quase três séculos.
Ainda seguiam seu caminho em curvas e perdiam cem anos por dia;
Daí, esta alusão ao precedente muito arraigado.
Isso poderia ensinar uma lição moral se eu tivesse sido mandado e convocado para pregar;
Para os homens predispostos a seguir cegamente os caminhos de bezerro do pensamento,
E trabalhar de sol a sol para fazer o que os outros homens já fizeram.
Seguiram a trilha já tão batida, para lá e para cá, para a frente e para trás.
E ainda perseguem seu traçado tortuoso, para se conservar no caminho feito pelos outros.
Mas como devem rir os velhos e sábios deuses da floresta, os que viram aquele primeiro bezerro na mata virgem!
Ah! Esta narrativa poderia ensinar muitas coisas, - se eu tivesse sido mandado pregar".

Os autores dão a autoria da história. Sam Walter Foss (1858-1911).

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O 20 de setembro. A semana farroupilha.

Como estamos no 20 de setembro, preciso dizer alguma coisa sobre o Rio Grande do Sul, o meu querido estado. Nasci em Harmonia, cidade de colonização alemã, no vale do rio Caí, numa região propriamente mais riograndense do que gaúcha. Mas já se foi o tempo em que se faziam estas distinções. Toda a minha formação inicial e acadêmica a fiz aí, para depois levar a minha vida em outras plagas, aqui no Paraná. Sobram muitas saudades e belas recordações.
O recanto gaúcho, aqui em minha casa. 

Quem quiser se iniciar um pouco na cultura do Rio Grande do Sul deixo aqui algumas sugestões. A primeira obra que eu recomendaria são os contos gauchescos do Simões |Lopes Neto, da Artes e Ofícios, que tem introdução e notas de Luís Augusto Fischer. Chamo atenção para as notas, que constituem um verdadeiro dicionário. Do mesmo Simões Lopes Neto tem  Contos gauchescos & Lendas do Sul, pela LPM - Pocket. Entre as lendas está A Salamanca do Jarau, em que aparece a teiniguá, que reaparece depois na obra de Érico Veríssimo, em O Tempo e o Vento, no segundo volume de O Continente. Transcrevo um pedacinho desta lenda da Salamanca, para mim o mais sábio e o mais bonito:

"Nada quiseste, tiveste a alma forte e o coração sereno, tiveste, mas não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua!... Não te direi se bem fizeste ou mal. Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente, que te dou. É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ela te dará tantas quantas quiseres, mas sempre de uma em uma e nunca mais que uma por vez; guarda-a em lembrança de mim". Que sábia lição. Apenas de acordo com as necessidades. Nunca para acumular! Simões Lopes Neto é considerado como o precursor da literatura regional.

Para quem quiser conhecer sobre a Revolução Farroupilha, onde entra o 20 de setembro, a história está muito bem contada por Tabajara Ruas, em três volumes: 1. O país dos Centauros; 2. A República de Anita e 3. A carga dos lanceiros. A sina destes lanceiros, os lanceiros negros também está contada, aí sim, já num livro acadêmico sobre o Duque de Caxias. Dou a referência: Duque de Caxias - o homem por trás do monumento, de autoria de Adriana Barreto de Souza. Mas quem efetivamente quiser amar esta terra terá que passar pelo O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo. São sete volumes assim distribuídos: Dois sobre O Continente; dois sobre O Retrato e três sobre O Arquipélago. A leitura, além de profundamente ilustrativa é agradabilíssima e apaixonante. São retratos da alma gaúcha.

Entre 1835 e 1845 o Rio Grande viveu a epopeia da República do Piratini. A paz foi negociada e a secessão não se consumou. Sobrou muita história, muito orgulho e um dos mais belos hinos. A sua letra diz tudo e, por isso a deixo falar: o hino do Rio Grande do Sul.
Se você quiser ouvir uma das mais belas versões do hino do Rio Grande do Sul, você o encontrará neste DVD. Aí ele é cantado por uma plêiade de cantores nativistas.

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de setembro
O precursor da liberdade

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas 
De modelo a toda terra.

Sim, também preciso contar isso. O rio Grande do Sul também é a terra do único imortal do futebol brasileiro, que por sinal também tem um dos mais belos hinos, o Até a pé nós iremos, uma composição do Lupicínio Rodrigues. O Grêmio Futebol Porto Alegrense. Em tempo, no Rio Grande do Sul também existe mais um outro time de futebol.

  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

23 comparações entre 2002 e 2012. Dados do Ministério da fazenda.

Uma vez, já no final da década de 80, numa assembléia do sindicato dos professores (APP-Sindicato), após apresentação de dados numéricos sobre a realidade apresentada, alguém cobrou que os números deveriam ser mais politizados. Lembrei que neste dia eu dei uma risada meio amarela. Não existe nenhuma necessidade de politizar números. Não existe maior eloquência do que a fala dos números. Eles falam por si. Não necessitam de nenhuma interpretação.

No livro O Príncipe da privataria, de Palmério Dória existem 23 indicadores numéricos, comparando o Brasil de 2002, portanto, o Brasil que foi deixado por Fernando Henrique Cardoso para Lula e 2012. Este de 2012 é o Brasil de hoje, após dez anos de governos pós-neoliberais, ou seja, os governos Lula e Dilma. Depois da apresentação de desastrosos dados sociais do governo FHC, Palmério Dória recorre a números para estabelecer comparações. Os dados são retirados do Ministério da Fazenda. Assim os apresenta:

"Quanto a questão 'econômica' contida no libelo contra outro ex-presidente, a matemática será mais útil para nos trazer a verdade do que a retórica. É ela que vai nos esclarecer sobre quem leva a melhor nesse cabo de guerra entre o príncipe e o metalúrgico. Recorremos aos dados da 14ª edição de Economia Brasileira em Perspectiva, informe de fevereiro de 2012, do Ministério da Fazenda. Que flagra que alguma coisa mudou no Brasil entre 2002 e 2012. Números também falam:


1) Produto Interno Bruto:                          2002: U$ 500 bilhões
2012: U$ 2,6 trilhões
2) PIB Per Capita:                                     2002: U$ 2,8 mil
2012: U$ 13,3 mil
3) Produção de Automóveis:2002: 1,8 milhões - unidades
2011: 3,4 milhões - unidades
4) Safra de Grãos:                                      2002: 96,8 m -toneladas
2011: 163 m. toneladas
5) Taxa de investimento sobre o PIB:2002: 16,4.                            
2011: 20,8.
6) Investimento estrangeiro direto:2002: U$ 16,5 milhões            
2011: U$ 66,6 bilhões
7) Inflação - IPCA:                                        2002: 12,5                              
2012: 4,7.
8) Desemprego:  2002: 12,9
2011: 4,7.
9) Formalização do Trabalho:                          2002: 45,5%                          
2011: 53,2%
10) Salário Mínimo Nominal:   2002: R$ 200
2012: R$ 622
11)  Coeficiente de GINI: (ref neg.1)2002: 0,589                       
2012: 0,541                       
12) Taxa de Pobreza:                                       2002: 26,7%                         
2012: 12,8%                         
13) Classe C sobre o total da População:2002: 37%
2012: 50%
14) Nº de matrículas no ensino profissional:2002: 565 mil
2012: 924 mil
15)  % força de trabalho c. 11 anos de estudo:2002: 44,7%
2012: 60,5%
16) Bolsas de mestrado e doutorado:2002: 35 mil
2012: 105 mil
17) Títulos em Doutorado:2002: 6.894
2012: 13.304
18) Dívida externa:2002: U$ 165 bilhões
2012: U$ 79,1 bilhões
19) Reservas Internacionais:2002: U$ 36 bilhões
2012: U$ 353  bilhões
20) Exportações: 2002: U$ 60 bilhões
2012: U$  256 bilhões
21) Juros - Taxa SELIC:2002: 25% aa.
2012: 10,5aa.
22) Dívida do Setor Público sobre o PIB:2002: 60,4% 
2012: 36,9%
23)Despesas de pessoal:2002: 4,8 do PIB
2012: 4,4% do PIB.

    sexta-feira, 13 de setembro de 2013

    O Príncipe da Privataria. Palmério Dória.

    O livro do Palmério Dória teve lançamento nacional no dia 30 de agosto de 2013, numa sexta feira. Como não consegui comprá-lo em livraria em Curitiba, no sábado, no mesmo sábado comprei-o pela Internet. Veio com um defeito feio da gráfica, nas páginas 157 e 158, mas paciência. Falta de revisão final, nos controles de qualidade. Erro grave e imperdoável. O livro é da Geração Editorial e o seu editor Luiz Fernando Emediato apresenta, na abertura do livro, uma nota do editor, explicando as razões pelas quais aceitou a sua publicação, apesar da amizade que mantém com o denominado Príncipe da privataria.
    O livro de Palmério Dória. Uma análise dos oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso.

    O livro possui trinta e seis capítulos e a estrutura narrativa é apresentada no subtítulo que o livro leva. A história secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso ganhou sua reeleição. O livro, porém, não se limita a estes dois temas. Também traça um perfil da carreira acadêmica e política de FHC e dos principais elementos que compõem os tucanos de alta plumagem de São Paulo. Também o tema do filho, tido fora do casamento, com uma jornalista da rede Globo perpassa quase todo o livro, tendo como foco, não a questão moral mas, mais uma vez, traçando um perfil do ex-presidente e, especialmente, o comportamento da grande imprensa com relação ao caso, merecendo destaques a TV Globo, os jornalões e as revistas semanais.

    As revelações contidas no livro não constituem grande surpresa para os leitores da revista Caros Amigos, pois, a revista foi a única que noticiou o caso, em abril de 2000, em sua edição de número 37. Palmério Dória, o autor de O Príncipe da privataria, por um bom tempo, trabalhou nesta revista. O jornalista também traz em seu currículo e que, certamente, lhe confere muitos créditos, ter trabalhado na revista Realidade. Seus colegas do tempo da Caros Amigos são constantemente citados, especialmente as entrevistas feitas em conjunto.
    Frase de Pedro Simon e de José Aparecido sobre o Príncipe da Privataria. Compra de votos para a reeleição e a desnacionalização são os grandes focos do livro. 

    Duas palavrinhas sobre o título. Príncipe é o título que constantemente é atribuído a FHC, especialmente em função da sua carreira acadêmica e a seus estudos no campo da sociologia. O seu principal livro, sobre a teoria da dependência, não escapa das ironias do autor, quando ele trata da entrada do Príncipe na Academia Brasileira de Letras. Já a segunda palavra, privataria, tem uma explicação mais precisa. Conta que o neologismo foi criado por Elio Gaspari e que apesar de ainda não constar nos dicionários, todos já conhecem o significado deste verbete, por seu uso corrente. Ele o explicita da seguinte forma:

    "Mistura privatização com pirataria e se refere ao esquema adotado na era FHC para entregar, em mãos privadas, empresas estatais - ou seja, do governo, por extensão do povo brasileiro; e isto, a pulso, reprimindo manifestantes contrários; cooptando a mídia em peso; vendendo empresa por preço menor do que o dinheiro que ela tinha em caixa, pondo do dinheiro do BNDS na mão do comprador, ou seja, 'pagando' para o estrangeiro 'comprar'; com indícios e mesmo provas de que rolaram desvios na casa dos bilhões, e de que muita gente ficou com as chaves de cofres em paraísos fiscais que guardam fortunas".
    Um outro foco sobre o Príncipe da Privataria.

    Os episódios mais detalhados do livro com relação a privataria são os das telecomunicações e da Vale. E, o que foi pior, não houve apenas a privatização, houve também a desnacionalização completa de todos estes setores que foram privatizados. As novas donas não tinham nenhum compromisso em usarem componentes nacionais, provocando a desindustrialização de setores em que íamos até muito bem. Compra-se tudo no mercado. O conceito de Nação, ou do seu derivado, o nacionalismo precisava ser apagado da história, segundo os tucanos. O Brasil passaria a ser visto como um mercado emergente.

    Não consigo aqui estabelecer em que momento, o Príncipe e a sua corte, formada por economistas da PUC /RJ, ou asseclas do tucanato paulista, agiram de forma pior. Se foi na privataria ou se foi no episódio da reeleição. Consigo ver, isto sim, uma perfeita inter relação entre os dois, pois, afinal de contas, o projeto de destruir a memória de Vargas, de destruir um Estado/Nação, não seria tarefa para apenas quatro anos. Queriam 20 anos de poder e, para isso, o primeiro passo foi o da reeleição. A história da compra da reeleição é única e ímpar: foram punidos os comprados ou os vendidos e nunca se conseguiu identificar os compradores. FHC, cinicamente, diz que também prefeitos e governadores estavam interessados no projeto.
    Felizmente o ciclo de governos tucanos foi interrompido e assim não precisamos ver este símbolo para a nossa maior empresa.

    No livro você também se encontra um belo quadro comparativo, em que é mostrado o Brasil de 2002, como ele foi deixado por FHC, e o de 2012, ou como ele está hoje, após dez anos de governos do PT. O livro termina contando a história da criação do Instituto Fernando Henrique Cardoso - o IFHC, com uma passada de chapéu, pelo então, ainda presidente, e encerra mesmo com a história da negação da paternidade do filho com a jornalista, fato que ele tinha reconhecido quando ele completara 18 anos. O que será que houve? 

    quinta-feira, 12 de setembro de 2013

    Diário de uma Viagem. O Quarto e Último Dia em Paris.

    Mais uma vez estávamos a sós em Paris e, a pé. Previamente estabelecemos um roteiro. Privilegiaríamos o Panthéon e o Jardin du Luxenbourg. No entanto, conseguimos fazer algo a mais, ou uma nova investida pelo Quartier Latin e pela universidade de Sorbonne. Não sabíamos calcular as distâncias, mas elas estão muito próximas entre si. Estão em áreas contíguas. O táxi nos deixou no Panthéon e, como ele ainda não estava aberto, logo localizamos nas suas proximidades o famoso Jardin.
    Vista da igreja de Santa Genoveva, transformada no Panthéon. Na sua cripta estão os túmulos dos grandes nomes nacionais.

    O que é o Jardin du Luxenbourg? É uma enorme área verde em pleno centro de Paris. Ocupa uma área de 25 hectares de magníficos e caprichados jardins. Ali existe o palácio homônimo, construído para Maria de Médici, viúva de Henrique IV. Este palácio abriga hoje o Senado da França. Em frente ao palácio existe um belo lago e precisa ver o capricho que há com os jardins que o margeiam. Existem enormes gramados, onde os franceses vem tomar banho de sol. O local também abriga uma creche. Deve ser algo semelhante ao Parque da redenção em Porto Alegre, ou ao parque Barigui, em Curitiba. Os jardins, como todos os jardins franceses são geometricamente desenhados.
    Vista do Palácio de Luxembourg, no jardim homônimo. O Palácio é hoje a sede do Senado francês. 

    Voltamos ao Panthéon. Vamos ver um pouco de história. Com a Revolução Francesa as igrejas da França foram fechadas. Napoleão as reabriu. Reservou, porém, a de Santa Genoveva, a padroeira de Paris, para nela estabelecer o Panthéon Nacional. Esta igreja fora construída entre os anos de 1764 e 1790. Já no período da Revolução ela começou a receber os corpos dos herois franceses. O local é maravilhoso e grandioso, como o foram os personagens nele enterrados. Ali o simbólico é trabalhado à exaustão, procurando se criar no povo francês um sentimento de pertencimento comum - de um povo junto com os seus heróis. As solenidades ali realizadas são grandiosas, como necessariamente precisam ser.
    Vista da cúpula do Panthéon. O arquiteto, na sua construção, se inspirou em várias cúpulas similares e não queria perder em grandeza e majestade.

    Nos porões da igreja estão os túmulos sagrados. Ali também assisti a um vídeo, em que se mostrava a chegada de restos mortais de pessoas ilustres, para ali repousarem para sempre, com o reconhecimento de seus compatriotas. As solenidades são pomposas, com presença de autoridades, desfiles e toques militares. São muito mais que coreografias, verdadeiras liturgias de reverenciamento e devotamento. Tudo isto deve ter como resultado, um imenso sentimento pátrio. Anexo aqui uma foto de uma placa explicativa na frente do Pantheón, com um pouco de sua história. Aos grandes homens da Nação. Alguns, inclusive, estão aí nominados.
    A placa explicativa em frente ao Panthéon. A homenagem aos grandes homens da Nação.

    Ali estão enterradas setenta pessoas. Eles estão divididos de acordo com os diferentes períodos históricos do país, mas os mais reverenciados são Rousseau, Voltaire e Balzac. Na placa constam os nomes de Victor Hugo, Voltaire, Emile Zolá, Jean Moulin e Marie Curie. Consta também o nome do arquiteto da igreja, transformada no Panthéon, Soufflot. Em fotografias registrei mais alguns nomes significativos: Antoine de Saint Exupery, Henri Bergson, Jean Jaures e Diderot. O google localiza fácilmente uma lista completa.

    Como o Panthéon se localiza junto ao Quartier Latin, aproveitamos para mais uma caminhada neste histórico bairro, guardando ainda na memória os grandes nomes da filosofia, da literatura, da ciência e de outras áreas de destaque da história francesa. A Sorbonne e a igreja de São Severino mereceram a nossa atenção maior. Já estávamos quase familiarizados com estas áreas centrais da cidade. Mais uns dias e já dominaríamos a cidade. Que dó ter que sair de um lugar desses.
    Afinal, são os jardins que dão nome ao lugar. Jardin du Lulembourg.

    Almoçamos no Jardin du Luxenbourg e pretendíamos por ali permanecer por mais algum tempo. Uma chuva torrencial atrapalhou completamente os nossos planos. Neste magnífico local não dá para passar sede. Um chopp de 500 ml. custa exatos 11 euros. Quando a chuva amenizou e permitiu a nossa locomoção, procuramos um táxi, para nos deixar no hotel. Também já passava das três da tarde e no dia seguinte teríamos um dos mais longos dias da vida, com a incorporação de cinco horas de fuso horário, além de uma viagem interminável. O destino seria Paris - Lisboa e Lisboa - Porto Alegre e finalmente, Porto Alegre - Curitiba. A volta por Porto Alegre tem uma vantagem. Nenhuma fila na Polícia federal.

    Um resumo de tudo. Um grande sonho realizado. Uma viagem que superou todas as expectativas. Portugal é um país maravilhoso. Pena que esteja vivendo esta crise profunda. Precisam urgentemente se livrar de seus governantes neoliberais e reaprender que o mercado não é tudo. De Portugal levarei comigo para sempre o Zeca Afonso e a sua cantiga revolucionária Grândola, vila morena. Da Espanha levo recordações imensas. Santiago de Compostela, os seus caminhos, as suas igrejas e as histórias da Reconquista. E, como descendente ibérico, rendo o tributo aos mouros e as marcas de sua cultura, bemfazejamente presentes em nós. Foi uma mistura, das melhores que o mundo conheceu e que nos deixou, também, tantas maravilhas para serem vistas. Triste é também o seu atual momento político. E o que falar de Paris. Fico com a imagem do Panthéon. Que os herois ali consagrados continuem inspirando o mundo para os dias de amanhã.

               

    quarta-feira, 11 de setembro de 2013

    Diário de uma Viagem. O Terceiro Dia em Paris.

    Desde que li o livro de Lorànt Deutsch - Próxima estação, Paris - é que gostei ainda mais do rio Sena e de sua ilha, a Île de la Cité, Creio que isto se deve ao fato de ter compreendido melhor a importância histórica do rio e, especialmente, a de sua ilha para o desenvolvimento da cidade. A Ilha da cidade, em forma de barco, é o coração e a alma da cidade. Nela está, ao menos no entendimento de muitos, a sua maior maravilha, que é catedral de Notre Dame.  O nosso terceiro dia em Paris, já sem pacote turístico, começou exatamente, na ilha da cidade, junto a catedral. A catedral está de aniversário especial. Neste ano ela está completando 850 anos. Foi aí que pedimos para o táxi nos deixar. O dia se resumiria a andar a pé. E olha que andamos!
    A magnífica catedral gótica de Notre Dame. Não é todo dia que se inicia um passeio num lugar destes.

    Seguimos costeando o rio, de acordo com a sua correnteza, ou seja, pela sua margem direita. O nosso primeiro destino seria a Torre Eiffel. É muito gostoso fazer este passeio a pé. Paris vai se desvelando para você. Não sei quantas pontes tem o rio. São inúmeras. A cada 500 metros, praticamente, tem uma. Algumas delas são verdadeiras obras de arte e tem atrás de si muitos anos de história. Em outras existem milhares e milhares de cadeados, que são ali colocados por enamorados, na certeza de fazerem amarrações no amor. Da minha parte não coloquei nenhum. Desde o ano passado, eu sigo a filosofa do motorista do nosso ônibus na Itália. Por que devo fazer a infelicidade de uma mulher, se a tantas, eu posso tornar felizes!
    Os cadeados com amarrações do amor, numa das pontes do rio Sena.

    Numa caminhada lenta, com muitas paradas para olhares e fotografias, depois de quase duas horas, chegamos até o local da Torre. Ela seguramente merece toda a fama que tem. Subir as suas escadas (num total de 1665 degraus, da base ao topo) foi uma tarefa na qual nem mesmo pensei. Além do mais as filas para a compra de ingresso e para a subida são enormes. Existem diferentes níveis de paradas e o acesso mesmo é feito por elevador. Ela foi construída para as comemorações do centenário da Revolução Francesa e para a Exposição Internacional do mesmo ano. A sua origem, portanto, é a de muita celebração e festa. Nos contou o guia, que Gustave Eiffel, o seu projetista, a ofereceu para o governo francês, que a recusou, por problemas financeiros. Eiffel então propôs construí-la com recursos próprios, desde que pudesse explorá-la economicamente por 30 anos. Em apenas um ano e meio a obra se pagou.
    De mais perto é impossível. Foto a partir de uma de suas laterais. Os números desta Torre impressionam.

    Alguns números: Tem 324 metros de altura. Foi a edificação mais alta do mundo até a construção do Empire State Building de Nova York. Nela foram usados mais de 2 milhões e meio de rebites, e ela nunca balança mais do que sete centímetros. Pesa 10.100 toneladas. Ela é pintada de sete em sete anos, gastando-se nesta pintura 50 toneladas de tinta. A sua iluminação noturna constitui-se num espetáculo à parte. É o monumento mais visitado do mundo, por mais de seis milhões de turistas por ano. Da torre, teríamos algumas opções. A escolha se deu pela ida ao Arco do Triunfo e à Champs Elysées. Mais uma caminhada e o Arco estava à nossa frente.

    O Arco do triunfo lembra os feitos de Napoleão Bonaparte. Foi sua promessa, após a sua maior vitória, a batalha de Austerlitz (1805), que seus soldados voltariam sob arcos triunfais. As obras foram iniciadas já no ano seguinte, mas o declínio de Napoleão fez com que o monumento esperasse até 1836 para ser concluído. Ele tem 60 metros de altura e o seu charme está nas esculturas que retratam cenas de batalhas militares. Ali, em 1921 foi enterrado o soldado desconhecido, e familiares de vítimas das guerras mantém viva a tradição de irem ali prestarem homenagens. Ali são realizadas as grandes festas cívicas da França.
    O Arco do Triunfo foi originariamente concebido para celebrar a vitória de Napoleão em Austerlitz. Neste local acontecem os grandes eventos cívicos de Paris.

    O Arco do triunfo está no começo, ou seria o final de uma das avenidas mais famosas do mundo. A Champs Elysées. Ela data de 1667. Também é chamada de caminho triunfal, pois foi por ali que passou o corpo de Napoleão, após a sua chegada da ilha de Santa Helena. O seu charme se deve ao seu projeto paisagístico, com a beleza de seus jardins. Nesta avenida, já nas proximidades do Sena, estão o Grand Palais e o Petit Palais, que serviram de palco para a exposição universal de 1900. Os dois lados desta avenida são os lugares mais disputados do mundo para servirem de palco para as suas marcas. Até eu, que não sou chegado a este mundo, vi lojas, como a do famoso maleiro de Paris, um tal de Louis Vuiton e a loja do time de futebol da cidade, o Paris Saint Germain.
    Uma das avenidas mais famosas do mundo. A Champs Elysées.

    A estas alturas já eram umas duas da tarde, um calor intenso e a caminhada nos extenuou. Terminamos na Place de La Concorde, oito hectares de terra em pleno centro de Paris e onde se encontra o fabuloso obelisco. La Concorde foi a praça das execuções da Revolução Francesa. Mais de 1300 pessoas teriam sido ali executadas. Entre as vítimas mais famosas estão Luís XVI e Maria Antonieta, Robespierre e Marat.
    O Obelisco na Place de la Concorde. É a praça das execuções da Revolução Francesa.

    A Place de La Concorde fica nas proximidades do Louvre, onde almoçamos e não tínhamos mais forças, além daquelas que nos levariam de volta ao hotel, na Porta da Itália, de táxi. Não nos aventuramos a andar de metrô pela cidade. Afinal, ficaríamos poucos dias. Mas quem fizer a opção por um tempo um pouco maior, ou mais econômica, andar de metrô é altamente vantajoso e de seu serviço, só se ouve elogios. No dia seguinte mais uma aventura estava a nossa espera. Optamos pelo Pantheón e pelo Jardim de Luxenbourg. Conto na sequência.

    terça-feira, 10 de setembro de 2013

    Diário de uma Viagem. O segundo dia em Paris.

    Dois pacotes junto a EuropaMundo marcariam o nosso segundo dia em Paris. O primeiro seria um passeio no Bateaux Mouche, pelo rio Sena e mais uma caminhada pelo Quartier Latin com uma visita à catedral de Notre Dame, com um guia local e o segundo, uma visita ao Louvre, também com guia local e, evidentemente, uma pessoa formada em artes. Tanto o nosso guia pelo Quartier Latin e Notre Dame, quanto a guia do Louvre deram um verdadeiro show. O guia da caminhada caprichou no humor. Tudo foi maravilhoso e os preços não foram tão caros. Cada um dos passeios custou quarenta euros. Como a cidade ficou intransitável, ao final da tarde, por causa da chegada do Tour de France, a volta ao hotel ficou por nossa conta.
    Passeio absolutamente imperdível em Paris pelo rio Sena no Bateaux  Mouche.

    Para quem for a Paris pela primeira vez, este passeio pelo Sena é um muito bom começo. Paris foi construída às margens do rio Sena. Nada lhe escapa. Do rio você tem uma noção de tudo e isto é excelente, pois, te ajuda a dar norte nos próximos dias. O passeio dura aproximadamente uma hora e meia. É bom comprar os ingressos antecipadamente, pois as filas, além de incômodas, são grandes. Este passeio também pode ser feito a noite. A iluminação da cidade é um show a parte. Também pode ser feito com um jantar a bordo.Creio que isto divide atenções, além de ser caro.

    Um prospecto do passeio é distribuído pela empresa em que se promete a vista de treze atrações, começando por uma, que na realidade não é uma atração, por ser o local da atracação dos barcos. Depois você terá, a praça da Concórdia, a praça da guilhotina, onde hoje está um obelisco, o museu do Louvre, o Hôtel de Ville, a Câmara Municipal da cidade, o Conciergerie, provavelmente o primeiro palácio real de Paris e depois prisão de reis. Tem-se a visão da Ilha da cidade, onde tudo começou e onde está construída a Catedral de Notre Dame. Tem também uma segunda ilha e bem menor, que é a ilha de São Luís. E o passeio continua, o museu D'Orsai, uma antiga estação de trens, o Hôtel dos Inválidos, com sua cúpula dourada e onde está enterrado Napoleão Bonaparte e ainda, a maior de todas as atrações, que é a Torre Eiffel. O Sena é também cheio de pontes, muitas delas, verdadeiras obras de arte. As velhas são preservadas e novas, são constantemente construídas. Algumas destas pontes estão cheias de cadeados, com amarrações de amor.
    As amarrações de amor com os cadeados nas pontes do rio Sena.

    O passeio a pé pelo Quartier Latin foi memorável. O bairro se construiu em torno da universidade de Sorbonne, fundada em 1257 por Robert Sorbon, o confessor do rei Luís IX. O bairro leva o nome de Quartier Latin em virtude do latim, a língua dos estudantes. A universidade tem toda uma história. Foi fundada para que estudantes pobres também pudessem estudar teologia. Por ter sido uma referência nos estudos teológicos, chegou a ser fechada com a chegada das ideias liberais. É a sede da universidade de Paris. As casas e as ruas do Quartier Latin remontam aos tempos medievais. Originariamente as casas são de madeira, tendo sido recobertas por alvenaria, posteriormente. É um dos metros quadrados mais caros de Paris, com um custo em torno de quinze mil euros por metro quadrado.. Ao comprá-lo, você ainda tem que assinar um contrato de risco, pois o desmoronamento sempre é possível.
    A igreja de São Severino, no Quartier Latin, o bairro da Sorbonne, da Universidade de Paris.

    O guia com o seu refinado humor nos contava detalhes do bairro e da cidade. Sobre o risco nos prédios contou sua própria experiência. No condomínio onde mora tiveram que fazer uma chamada de capital de trinta e cinco mil euros, cada um, para re-alavancar as fundações. Os apartamentos em Paris tem na média trinta e oito metros quadrados e as famílias se compõe de 3,5 filhos. Como as famílias não estão sendo bem sucedidas com os filhos, muito tempo de estudo,dificuldades de colocação no mercado, incompreensão e rebeldia, as famílias adotam cachorros, mais dóceis e mais reconhecidos.
    A catedral de Notre Dame. A famosa catedral gótica de Paris.

    Nos contou dos transportes e da formação da nova consciência urbana. A ruas pertencem aos pedestres e ao transporte público e não aos automóveis. O uso da bicicleta está começando. Representa 5% do transporte da cidade. Existem os bicicletários públicos, com mais de cinco mil bicicletas, em locais estratégicos. Você paga um taxa anual, algo em torno de quarenta euros, e pode usá-las. O tempo de uso é de quarenta e cinco minutos, se for mais, caracterizará apropriação indébita. Você poderá ir de um lugar para outro, poderá até andar pelo dia todo, mas tem que ir trocando a bicicleta. Há muitos acidentes com bicicletas e uma morte diária e, nunca acontece de morrer a mesma pessoa, brincava o guia. O Quartier Latin é também um bairro boêmio, o que é óbvio, uma vez que se trata de um bairro de estudantes.

    A caminhada terminou na Catedral de Notre Dame. Catedral deriva de cátedra, a cadeira do bispo. Desta palavra também deriva a outra: catedrático. Não vou aqui entrar em detalhes desta catedral, uma tarefa enciclopédica. É igreja do mais puro estilo gótico. Imagens e mais imagens. Mas, creio que o seu ponto alto são os seus vitrais, com um significado de luzes e cores impressionante. A tecnologia da fabricação destes vitrais foi perdida. Isto significa que, quando um vidro quebra, ele não pode ser substituído por um da mesma qualidade. Damos uma volta em seu interior, boquiabertos. Uma de suas relíquias mais preciosas é a coroa de espinhos de Jesus Cristo. O número de pessoas também dá fobia.
    Uma das maiores riquezas da catedral de Notre Dame, seguramente são os seus vitrais.

    Junto a catedral de Notrre Dame conhecemos também uma figura típica dos locais de grande concentração em Paris. Moças coletam assinaturas em diferentes abaixo-assinados. Nem queira saber do que se trata. Com a coleta de assinaturas elas distraem os turistas com o objetivo de praticar furtos. São as famosas carteiristas. Elas estão por toda parte. Até no Louvre, a guia não se conformou e falou indignada: "Mas até por aqui estão estas romenas". Na torre Eiffel a polícia, sem a menor cerimônia e também sem nenhuma resistência,  prendeu várias delas. Atuam sempre em grupos.

    A tarde ainda seria longa. Almoçamos já nas proximidades do Louvre, nos restaurantes do mundo e nos preparamos para a visita. A guia foi fantástica e fez uma seleção de arte grega, do renascimento e do romantismo. Mostrou a evolução da escultura grega, mostrando expressões de rosto, geometria e proporção, até chegar a incorporação do movimento nas figuras humanas representadas. Coisa de  guia profissional. Mostrou ainda os aposentos reais, um luxo só. O Louvre voltou a ser palácio real, usado especialmente por napoleão III. O museu recebeu grandes reformas sob o governo François Miterrand, que reformulou completamente a sua entrada, com a famosa pirâmide invertida, em vidro. É o maior museu do mundo com cerca de nove quilômetros de galeria. A Monalisa recebe uma tal concentração de gente, que lembra até uma massa em pânico. Um conselho para os visitantes iniciantes. Vá com guia, ou no mínimo com muito preparo e guias de mapas.
    Pode não ser uma boa foto, mas é uma foto da Monalisa, no Louvre.

    Ao final da visita ficamos retidos nos arredores do Louvre. A cidade parou em função da chegada a Paris do Tour de France, uma corrida de bicicletas que envolve toda a Europa, mas que move, particularmente, a França. O desfile dos patrocinadores e a chegada dos participantes se daria pela famosa rua de Rívoli, em direção à Champs Elysées e  ao Arco do Triunfo. Depois do desfile dos patrocinadores houve um intervalo até a chegada dos atletas e isto nos permitiu atravessar a rua e encontrar um táxi, que nos levou para o merecido descanso no hotel. Amanhã, passeio a pé por Paris.

    quinta-feira, 5 de setembro de 2013

    Diário de uma Viagem. O primeiro dia em Paris.

    Na verdade, o primeiro dia em Paris foi de acomodações. Translado de aeroporto para hotel, reconhecimento do terreno e um merecido descanso. O primeiro dia pleno de atividades, foi assim, o dia seguinte. E como seria pleno! Pela manhã, ida a Versalhes. Na volta, um tour panorâmico pela cidade e ainda, a noite, visita a Montmartre, a igreja Sacre Coeur e para quem ainda tivesse fôlego e, 120 euros, um show no Moulin Rouge, com direito a um drink. Em Montmartre se concentra tudo o que se refere a sexo na cidade. Eu não tive disposição para tomar este drink.
    Vista do Palácio de Versalhes. Vinte mil pessoas formavam a corte de Luís XIV.

    O impacto de chegar em Versalhes foi enorme. Mil aulas de história vieram a tona. Duas opções nos foram postas. Visita ao palácio ou aos seus jardins. Fizemos a opção pelo palácio. Duas filas enormes. A primeira para comprar o ingresso de quinze euros e a segunda, para entrar. Tudo compensa. O guia já nos havia dado uma bela aula de história, sobre Luís XIII e obviamente Luís XIV e o cardeal Mazarino. Especialmente nos contextualizou a época e as razões para a construção do palácio, simplesmente, o maior de toda a Europa. Ele chegou a abrigar vinte mil pessoas. De Luís XIII, o guia focou em sua conduta sexual e de Luís XIV, o foco somente poderia ser, o seu enorme gosto pelo poder.

    A vida de Luís XIII foi bastante conturbada. Ler uma biografia sua, dever ser algo muito divertido. Ele era filho de Henrique IV e Maria de Médici. Foi rei aos 9 anos, ficando a mãe como regente. Com a mãe teve violentas lutas pelo poder. O grande nome de seu governo foi o cardeal Richelieu. Mas certamente a sua maior e mais difícil obra foi deixar para a França um herdeiro. Foi casado com Ana da Áustria, filha do poderoso rei espanhol, Felipe II, de quem ele não gostava. Ou por esterilidade dela, ou por falta de relações sexuais, o filho só viria após vinte e três anos de casamento. Em função das complicações na sucessão, os franceses consideraram o nascimento de Luís XIV, como um verdadeiro milagre divino. Luís XIII morreu assassinado.
    O interior do Palácio de Versalhes. É tudo um luxo só.

    O assassinato do pai deve ter pesado muito na vida de Luís XIV e na decisão da construção do palácio de Versalhes, trinta quilômetros distante de Paris. A construção se deveu, fundamentalmente, a questões de segurança, com a manutenção da nobreza ao seu redor e sob o seu controle. Para isso reuniu-os em único lugar e os mantinha devidamente ocupados. Isso lhe possibilitou ser o Rei Sol e viver por 76 anos, e dar muito poder e glória para a França. No local havia antes uma pequena casa de caça, pertencente a seu pai. As obras foram iniciadas em 1668.

    A grandeza do palácio e de seus jardins realmente impressiona. O seu luxo representa, acima de tudo, uma grande demonstração de poder. Afinal de contas, estamos no auge do absolutismo. A maior atração do palácio é o salão dos espelhos, onde se realizavam as grandes cerimônias e onde foi celebrado o Tratado de Versalhes, que deu fim à Primeira Guerra Mundial. São 17 espelhos ao longo de 70 metros. Do interior do palácio você tem belas visões dos jardins, geometricamente desenhados. Nos jardins existem palácios menores, onde o rei se deleitava com suas amantes. Um cenário grandioso da época dos reis absolutistas.
    Mais uma vista do interior do Palácio de Versalhes.

    Voltamos a Paris, parando num endereço famoso. A perfumaria Belux, na rua de Rivoli. Ela marca a entrada para as galerias em que se encontra a famosa pirâmide de vidro, invertida, onde está a entrada para o museu do Louvre. Ali se encontram os restaurantes do mundo, onde almoçamos. A tarde faríamos a visita panorâmica pela cidade. Ruas próximas ao Sena, uma parada nas proximidades da Torre Eiffel, uma subida na Champs Elysées, um contorno no Arco do Triunfo, mais uma parada no Les Invalides,onde está enterrado Napoleão Bonaparte, e o encerramento nas proximidades da catedral de Notre Dame e do Palácio da Justiça. Depois disso voltamos para o hotel para um rápido descanso.
    Uma das primeiras fotos que tirei da Torre Eiffel, durante o tour panorâmico. Ela está onipresente.

    O passeio a Montmartre foi muito bonito. Como é um tanto distante do centro, certamente não teria feito este passeio se não fosse com o grupo. O local a ser visitado foi a igreja romana bizantina Sacre Coeur, construída em cima de uma colina. A subida da colina pode ser feita pelas escadarias, num belo jardim em frente a igreja ou por um funicular. Foi o que fizemos. Lá de cima, literalmente se tem a cidade aos pés. A vista abrange Paris por inteiro. Nos arredores se concentram pintores jovens, artistas em busca de afirmação. Nas ruas abaixo da igreja se concentra o comércio de souvenir, com ampla variedade e os preços condizentes. A igreja começou a ser construída em 1876 e teria sido uma promessa dos franceses, caso a França não fosse destruída na guerra franco prussiana. Muita concentração de gente e vendedores ambulantes forçando a barra. Confesso que senti uma certa fobia, certamente de multidões. Senti uma certa insegurança.
    A bela igreja de Sacre Coeur, em Montmartre. Ela fica em cima de uma colina, donde se tem uma das mais belas vistas de Paris.

    Na volta deixamos o povo no Moulin Rouge e aproveitei para tirar uma foto. Minha formação judaico cristã não permite frequentar este tipo de espetáculo. Show de variedades em meio ao mais famoso bairro que envolve sexo e o seu comércio e com censura livre. Não fui. Dizem ser o lugar mais perigoso em toda a Paris. Você corre um sério risco, o risco de dormir durante o show. Amanhã, passeio pelo rio Sena, andança a pé pelo Quartier Latin, com a Sorbonne e a igreja de São Severino e visita guiada pela Notre Dame. Mais ainda, visita guiada pelo Louvre. Eu conto amanhã.
    Para não decepcionar ninguém, está aí uma foto do Moulin Rouge.

    quarta-feira, 4 de setembro de 2013

    A morte e a morte de Quincas berro dágua. Jorge Amado.

    A morte e a morte de Quincas berro dágua é o título de um dos livros de Jorge Amado. Na orelha do livro se lê o seguinte: "A morte e a morte de Quincas berro dágua se destaca como uma pequena obra-prima de concisão narrativa e poética, tida por muitos como uma das mais extraordinárias novelas de nossa língua". O que tem de estranho neste pequeno livro do Jorge Amado? Terminei de ler, recentemente, do mesmo autor, Tieta do Agreste. São 646 páginas e agora tomo em mãos o Quincas e ele tem apenas 109, sendo 15 delas de posfácio e cronologia. E ainda por cima o tamanho das letras é enorme. O que eu quero, afinal de contas dizer, é que o Quincas é um livrinho, se o considerarmos pelo seu tamanho.
    O pequeno livro de Jorge Amado. A novela - A morte e a morte de Quincas berro dágua.

    Outra coisa que imediatamente chama a atenção é a repetição do nome do sujeito que morreu, o tal do Quincas. Seriam duas pessoas diferentes que morreram, ou seriam diferentes apenas as versões sobre a sua morte? É exatamente em cima disso que está construída a história. Outro aspecto interessante é o sobrenome deste Quincas. Obviamente que o berro dágua não é sobrenome, mas é algo mais do que um qualificativo da pessoa. O melhor a fazer é partir imediatamente para a sua leitura e tentar entender. Ao final do livro existe um posfácio bastante ilustrativo, mas creio ser melhor deixá-lo para o final mesmo. A autoria é de Afonso Romano de Sant'Ana.

    Outra coisa que eu vi, é que o pequeno livro é chamado de novela. Não é, portanto, nem romance e nem um conto. Curioso, fui ver as diferenças. Tenho ainda o velho hábito de consultar dicionários. O Aurélio me acompanha. Vejamos. Romance: descrição longa das ações e sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para um plano artístico. Novela: Narração usualmente curta, ordenada e completa, de fatos humanos fictícios, mas, por via de regra, verossímeis. Conto: Narrativa pouco extensa, concisa, e que contém unidade dramática, concentrando-se a ação num único ponto de interesse. Creio que posso dizer que a novela é maior que o conto e menor que o romance.
    Manuscritos do Quincas. Foi escrito sob encomenda. Ficou pronto em uma semana.

    O Quincas e o Quincas são duas pessoas diferentes, mas também o são, uma única pessoa. O episódio narrado é o de sua morte e, mais precisamente ainda, o do seu velório. E é neste detalhe que está focada a novela. O Quincas tem dois velórios diferentes. Acima de tudo a história é muito divertida. Jorge a colheu em muito lugares e, certamente, um grande escritor é também um bom observador e acima de tudo um bom ouvinte. Zélia Gattai ajuda a contextualizar a obra. Ela foi escrita em 1959, a pedidos, para o lançamento da revista Senhor. O pedido lhe fora feito pelo amigo de Jorge, o pintor Carlos Scliar. Zélia nos dá algumas dicas do personagem: "Fui me apaixonando pela figura maravilhosa do vagabundo de tantas mortes". Me chamou atenção o fato de ele ser considerado um vagabundo. Também com este qualificativo de berro dágua, não dava para esperar coisa diferente. Afonso Romano de Sant'Ana, nos dá outras dicas fabulosas, mas o melhor é recorrer às primeiras páginas da novela, ou menos ainda, bastam as primeiras páginas para você ter uma noção do personagem. Jorge costuma ser assim. Ele entrega a história já nas primeiras páginas.

    Afonso Romano de Sant'Ana fala de realidade e ficção e estabelece relação com obras similares de outros autores. Mas como já falei, pelas primeiras frases do livro, você tem uma ideia do duplo Quincas, ou dos dois Quincas, se é que eles existiram. Vejamos Jorge: "Até hoje permanece certa confusão  em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia".
    Capa da primeira edição do livro. Anteriormente saiu no lançamento da revista Senhor, em 1959 e em 1961 foi publicado em livro - Os velhos marinheiros, junto com o Capitão-de-longo-curso.

    Parece que o cenário está montado. Existem duas versões sobre a morte de Quincas. Uma da família e a outra, que partiu das orlas do cais do porto. Mas vamos em busca de mais alguns detalhes. As duas versões são dadas por pessoas com uma visão de mundo muito diferente.  O narrador mostra a versão da família de Quincas e a do próprio, esta supostamente, da seguinte forma:  "Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem eles, vitoriosamente, o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio dia e com esse simples papel - tentam apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro Dágua até sua partida, por livre e espontânea vontade, como declarou, alto e bom som, aos amigos e outras pessoas presentes".

    Também existem duas versões sobre quem é Quincas. Como a família o vê e como esta mesma família vê os donos da outra versão. Vejamos a versão dos familiares sobre Quincas: "A família do morto - sua respeitável filha e seu formalizado genro, funcionário público de promissora carreira; tia maroca e seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito num banco".  E agora a visão da família de Quincas sobre os da outra versão: "afirma  não passar toda a história de grossa intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes à margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser as grades da cadeia e não a liberdade das ruas, o porto da Bahia, as praias de areia branca, a noite imensa".

    Já deu para perceber que existe forte animosidade entre as versões. E parece que o narrador, se não tomou partido, tem enorme simpatia por uma das versões. A riqueza da novela está na apresentação dos personagens e de suas falas, que compõem estes mundos, um mundo real e um mundo de simulações. A história é muito engraçada e toda ela perpassada pelo humor ácido de Jorge, mas Zélia nos deixa uma advertência: "Se a história é leve e engraçada, eu cá tenho as minhas dúvidas". 

    terça-feira, 3 de setembro de 2013

    Getúlio. 1930-1945. Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo.

    Uma das boas novidades no mundo do livro, neste mês de agosto, foi o lançamento do segundo volume da biografia de Getúlio Vargas, escrita pelo competente biógrafo, Lira Neto. Ele está se consagrando como biógrafo nesta trilogia sobre Getúlio Vargas. A abrangência deste volume, está limitada ao ocorrido no período compreendido entre 1930 e 1945, o que convenhamos, não é pouco. Revolução, fundamentalmente, é transformação e, estas ocorreram largamente ao longo deste período. Com todas as imprecisões do termo, creio ser possível denominá-lo como o período em que se operou a revolução burguesa no Brasil.
    O segundo volume da biografia de Getúlio Vargas, de Lira Neto. Pela Companhia das Letras.

    O biógrafo conta a trajetória de sua pesquisa. Se, para escrever o primeiro volume, ele encontrou dificuldades em coletar fontes, sobre os anos de formação do menino Getúlio, agora, neste segundo volume, o material precisou ser selecionado criteriosamente, tal a abundância de textos e documentos históricos existentes. Trata-se de um dos períodos mais estudados, devido aos inúmeros acontecimentos ocorridos. No plano interno, foram praticamente 15 anos ininterruptos de ditadura, mesmo no período de seu governo constitucional. Já no cenário externo, tivemos a Segunda Grande Guerra, e toda a sua gestação, com a constituição dos regimes nazi fascistas europeus.

    O biógrafo registra duas fontes primárias fundamentais para a realização do seu trabalho. As duas fontes estão sob a custódia da Fundação Getúlio Vargas, sendo a primeira o seu acervo pessoal, catalogado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil e a segunda o seu diário de anotações pessoais, que foi editado em livro, em dois volumes. Esta segunda fonte é extremamente interessante e serve de fio condutor para a narrativa, ao menos, do período em que Getúlio fazia as suas anotações. Nelas constam todas as suas hesitações frente ao governo e também um caso amoroso, extra conjugal do presidente, a jovem Aimée, uma paixão desmedida.
    Getúlio num desfile. O seu amplo sorriso é uma das marcas registradas de sua popularidade.

    Casos pessoais pouco conhecidos estão aí relatados, como os dois acidentes com automóvel em que foi envolvido, o enorme gosto que ele nutria pela prática do esporte do golf, a sua enorme predileção por trabalhar em Petrópolis e o ataque de poliomelite que acometeu o filho mais novo, o Getulinho, que inclusive o levou à morte. Outro ponto de destaque é o fato de ter estado sempre rodeado de fascistas em seu governo e as suas muitas dúvidas com relação ao posicionamento do Brasil, na Segunda Guerra. As previsões  iniciais, todas apontavam para uma fácil vitória alemã. Equipar o exército e montar a indústria siderúrgica sempre foi a moeda de troca usada por Vargas.
    Getúlio Vargas com o fardão da Academia Brasileira de Letras. Como o poder adora o poder. 

    Uma Revolução vitoriosa, um Governo Provisório ditatorial, uma Guerra Civil, ao menos assim é vista a Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo, uma Constituição e um mandato presidencial sob esta Constituição, mesmo sendo poucas vezes obedecida, a Intentona Comunista, O Estado Novo, e a visão do estado autoritário, o Putsh Integralista, a Segunda Grande Guerra e, finalmente, o Golpe Branco que apeia Vargas do poder, são os temas que preenchem os vinte capítulos da estrutura narrativa do livro. A condução dos fatos é criteriosa e objetiva. Apenas, já ao final, o autor faz um balanço do que foram estes quinze anos de exercício do poder. O livro é acompanhado por dois blocos de fotografias, cada um com 16 páginas. Belos retratos de época.

    Me permito uma transcrição já da parte final do livro, quando Lira Neto faz uma análise do que foram estes quinze anos de poder. "[...] o país sofreu transformações significativas - políticas econômicas e sociais. De nação essencialmente agrária e semicolonial, o Brasil iniciara um processo de industrialização crescente, que se intensificaria nos decênios seguintes. Os setores da manufatura mais tradicional assistiram à expansão do parque industrial de base, representado em particular pela área metal-mecânica. Grandes institutos de pesquisa e empresas estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Fábrica Nacional de Motores, surgiram sob o influxo da política desenvolvimentista do Estado Novo".
    Uma foto bem tradicional do presidente Vargas.

    Lira Neto destaca ainda a questão dos direitos sociais, como a fixação de um salário-mínimo e a instituição da CLT. Embora ditador, procurava legitimar o seu governo com o apoio das massas urbanas, em crescimento, devido ao desenvolvimento industrial. Em suma, é o período que os manuais de história costumam apresentar como o período em que o Brasil adquiriu a sua fisionomia de um país moderno, pelos processos de industrialização e urbanização. Uma obra valiosíssima. Sua edição é da Companhia das Letras, o que, por si só, já é um selo de qualidade. 

    segunda-feira, 2 de setembro de 2013

    As Manifestações de Junho. Marilena Chauí comenta.

    Marilena Chauí é hoje, seguramente, uma das maiores intelectuais brasileiras e das poucas que tem condições de sustentar um debate com os maiores representantes da intelectualidade mundial. Hoje ela comparece pouco ao debate, por uma opção sua. Já se foi o tempo em que os intelectuais foram muito ouvidos. A mídia prefere ouvir os tais de especialistas. Estes sim são apreciadíssimos. Já ouvi dizer de alguém, que quando foi solicitado para conceder uma entrevista ou para fazer uma palestra, ele perguntava ao interlocutor, se era para falar a favor ou contra. Isso jamais acontecerá com um intelectual.
    Capa da revista Cult de agosto, com a entrevista de Marilena Chauí.

    Marilena Chauí abriu uma exceção e concedeu entrevista de dez páginas para a revista Cult, da qual eu sou assinante e pretendo continuar sendo, por um longo tempo. Ela é de uma qualidade excepcional. Chauí opina sobre as manifestações de junho, fala sobre a classe média e da inexistente nova classe média brasileira, tece críticas ao PT e ao governo e aponta para as origens da atual crise política brasileira, para a qual defende sim, uma consulta popular direta.

    Perguntada sobre a sua reação às manifestações populares de junho, respondeu que levou um susto inicial sim, em função do número de pessoas que as redes sociais conseguiram arregimentar. Mas o susto foi apenas esse, de terem usado as redes sociais e conseguido tanta gente. Não se assustou, porém, quanto aos motivos. Ouviu as primeiras manifestações relacionadas com o transporte, de seu preço e de sua má qualidade. Diz não ter estranhado estas manifestações, embora ela tenha ocorrido num tempo em que, aparentemente, não havia motivos para tal, como a inflação estar sob controle, os programas sociais estarem em funcionamento, as taxas de desemprego diminuindo e de haver estabilidade econômica e política. Ela há tempos insiste em dizer, ao menos no que refere a São Paulo, que a cidade se transformou num inferno urbano. Está impossível viver nela, pelo seu trânsito, pela indecência de seu transporte coletivo, pela explosão demográfica e com a expansão de seus condomínios e shoppings.

    Afirma ter sentido um certo temor, quando viu gente tentando pegar carona nestes movimentos. Ao identificar certos tipos de participantes percebeu uma tentativa de apropriação dos movimentos por parte da direita autoritária. Isso ocorreu especialmente através do discurso que negava a mediação política. Um movimento sem os partidos. O que querem os que negam a mediação das relações sociais através da política? Negar a mediação política é o mesmo que pedir a instauração da ditadura. Assim foram as manifestações dos anos 20 e 30, que levaram ao fascismo e ao nazismo e os movimentos de 64 e 68, que levaram ao golpe e ao golpe dentro do golpe.

    Sobre a participação de partidos como o PSOL e o PSTU ela afirma que procuram a sua legitimação através de discursos mais violentos, legitimação que não conseguem com a sua não inserção junto às massas populares. Problemas de representação. Faz também uma diferenciação entre as manifestações que ocorrem nas periferias e nos centros das grandes cidades. Os interesses dos manifestantes da periferia sempre tem reivindicações bem específicas, pontuais e concretas e lideranças plenamente identificáveis, enquanto que as do centro são mais difusas e genéricas. As da periferia podem ser atendidas, enquanto as do centro, da classe média, só agravam problemas, pela natureza de suas reivindicações, pelos seus sonhos individuais. Serão programas de estímulo às montadoras, às empreiteiras imobiliárias, às importadoras, aprofundando ao mesmo tempo o consumo, a competição e o isolamento. Só fazem explodir o inferno urbano.

    Extraordinária é a sua visão da classe média, ao dizer que somente existe a antiga classe média, negando assim peremptoriamente a existência de uma nova classe média no Brasil. Estas classificações em termos de classe A -B - C - D - E, não passam de divisões mercadológicas. O que ocorre no Brasil de hoje é uma expansão da antiga classe média, com todas as características que sempre a marcaram. A acidez maior de sua crítica se dirige, exatamente a esta classe média, com as suas três abominações: uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta e uma abominação cognitiva porque ela é ignorante.

    Ela defende a consulta direta ao povo sobre a necessidade da reforma política e identifica a atual crise da estrutura política com as maquinações feitas por Golbery do Couto e Silva, ainda sob o regime militar. O modelo de governabilidade na formação de uma base aliada, fragmentada em partidos políticos sem ideologia e, se não tem ideologia, estão em busca de outra coisa. Assim a governabilidade está vinculada à corrupção.

    Quanto ao PT, cita diversos fatos que gradativamente a afastaram de sua organicidade, destacando entre eles a sua burocratização, que o transformou em máquina eleitoral e o afastamento dos movimentos sociais que marcaram as origens do partido. Não obstante a sua posição crítica, continua na defesa do PT. Faço aqui uma transcrição deste trecho de sua entrevista, em que ela fala desta sua relação com o partido:

    "Dizer que eu estou cegada pelo PT, dizer que eu não faço críticas ao PT é coisa de gente que não lê a literatura política" Aí cita algumas publicações relativas ao tema e continua: "mas o fato de eu ser crítica não significa que invalido o partido que vi nascer e que foi a condição do estabelecimento da democracia no Brasil, porque foi o único que introduziu a ideia dos direitos sociais, políticos e culturais, pois a democracia se define pela criação e garantia de direitos novos. Eu não abro mão disso. O partido não me traiu (como dizem os que o abandonaram). Ele me encoleriza, me enraivece. Eu quero fazer outro com ele, mudá-lo de cima para baixo. Mas sou petista. Isso faz parte da minha história política, da minha luta e do enorme respeito que tenho pelos grandes militantes ao longo de sua história".

    Não sei se consegui expressar corretamente as ideias apresentadas na revista. Muitos conceitos precisariam de maior explicitação. Em função disso remeto a todos os que sentem a necessidade de mais...-  ao texto completo da entrevista na Cult de agosto, em seu número 182. No mesmo número e sobre basicamente o mesmo tema, tem uma entrevista com quatro líderes do movimento "por uma vida sem catracas".