quinta-feira, 21 de abril de 2016

Esta terra selvagem. O romance do fascismo brasileiro.

Cheguei ao livro de Isabel Moustakas, Esta terra selvagem - quando o ódio e a intolerância assombram uma cidade, por uma indicação do blog do João Wanderley Geraldi. Geraldi assim apresenta o livro: O ROMANCE DO FASCISMO BRASILEIRO. O livro é uma prova de que ele não precisa ser necessariamente longo para conter uma grande denúncia.
Esta terra selvagem. O romance de estreia de Isabel Moustakas.


O momento atual vivido no Brasil é estarrecedor. Vi ontem no facebook, a declaração de um sociólogo paulista de que já vivemos em pleno fascismo no Brasil. Ele já está implantado, afirmava ele. Não guardei a informação e hoje não consegui mais localizar, em parte, pelo eficiente serviço de internet, esta maravilha de lentidão no paraíso da eficiência das privatizações, no altar sagrado do livre mercado. Tudo bem. Afinal de contas, a força do romance nos mostra exatamente isto e o epíteto ao livro, dado pelo Geraldi, não poderia ser mais portentoso. 

João é um jornalista, repórter policial do Estadão. Ganhou notoriedade com uma matéria de impacto. A investigação de um grupo, assim descrito por Marta, a personagem por onde a investigação começa: "Tatuagem? Sim. Aqui em cima. Uma suástica. Usavam máscaras? Sim. Usavam. E calças e uns coturnos pretos, camisetas brancas [...] E tinha os cadarços. Verde amarelos".

Marta guardara silêncio por sete meses. Só conta a história para João. Questão de confiança. Depois de contar, busca o suicídio, enterrando uma faca em seus próprios olhos. Nos olhos. É profundamente simbólico.

O grupo escolhe as suas vítimas. A polícia conta: "Pelo menos dez ocorrências por noite. Os alvos de praxe: gays, nordestinos, imigrantes, judeus. É como se os filhos da puta tivessem, sei lá, despertado alguma coisa que estava latente (Adorno e Hannah ajudariam a explicar isso). A gente prende dez, aparecem trinta. Não sei de que buraco esses desgraçados são cuspidos". 

Seriam todos aqueles que, o deputado gaúcho Luis Carlos Heize, que disputa exalar fascismo com o seu competidor, Jair Bolsonaro, assim nominou: "quilombolas, índios, gays, lésbicas". E não satisfeito, emendou: E "tudo o que não presta". Márcia Tiburi interpreta este "tudo o que não presta, em seu maravilhoso Como conversar com um fascista.

O romance vai num crescendo, inclusive com surpresas e suspenses. Afinal de contas, o mal sempre se supera. Não me sinto no direito de fazer antecipações. A provocação para a leitura já está feita. O romance é ambientado em São Paulo, a capital do Tukanistão. Não faço a mínima ideia do porque do nome de um policial, meio chefe, se chamar Saulo.

Transcrevo ainda dois parágrafos da contracapa do livro, informando também que o livro marca a estreia da autora, Isabel Moustakas, no mundo da literatura. Estreia auspiciosa. O livro já vem revestido de enorme prestígio. A edição é da Companhia das Letras.

"Sete meses. O caso fora muito noticiado durante algum tempo (até ser engolido por outros, tão escabrosos quanto, e cada vez mais frequentes). Uma ONG se dispusera a pagar pela internação hospitalar e, depois, pela estadia numa clínica ou coisa parecida, onde ela permaneceu por dois meses. A polícia não conseguiu identificar os responsáveis. Ninguém preso, ninguém acusado. Fantasmas".

"Encenado numa São Paulo subitamente tomada pelos mais tenebrosos crimes de ódio, Esta terra selvagem é um thriller sangrento sobre um repórter no encalço de uma gangue racista e homofóbica".

O livro termina com um triste prenúncio. João está sozinho numa praia em Santos. Ao final, até o vendedor de água e cerveja desaparecera e "restaram, então, o mar raivoso e a promessa de tempestade".



quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Filho de Saul. O Oscar de melhor filme estrangeiro - 2016.

"A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação". Assim Adorno abre o seu conhecido texto, originário de uma entrevista em rádio, Educação após Auschwitz, que no Brasil faz parte do livro Educação e Emancipação. Tenho a nítida impressão que esta exigência, dia a dia está perdendo força. Dia a dia se elevam e se unem vozes em favor da repetição dos horrores ocorridos nos campos de concentração.
Auschwitz não pode se repetir. Educação e emancipação.

No Brasil, ainda no domingo (17 de abril 2016), no triste palco de horrores que foi a votação para a abertura do processo de impedimento da presidente da República, o deputado Jair Bolsonaro dedicou o seu voto ao coronel Ustra, um conhecido torturador do período da ditadura militar. Foi festejado por muitos como heroi. O fato de pontuar em pesquisas eleitorais como candidato a presidente da República, pelo, pasmem, Partido Social Cristão, nos dá a evidência de que muito poucos estão preocupados com a exigência que nos foi posta por Adorno.
Ontem fui ao cinema. Fui ver O filho de Saul. O filme tem a direção de László Nemes e é uma produção húngara, vencedora do Festival de Cinema de Cannes (2015) e o Oscar de melhor filme  estrangeiro (2016), da Academia Americana. Prêmios mais do que merecidos.

A história é simples e não fornece um roteiro de suspenses e de surpresas.  O filme se centra numa ideia, numa obsessão de Saul, que insiste em dar ao seu filho, um enterro decente, mas impossível. Dentro do campo de concentração, enterrar o seu filho, dentro da tradição judaica, com a presença de um rabino no comando do ritual.
Cartaz promocional do filme húngaro, premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, 2016.


Saul pertence ao Soderkommando. Na divisão do trabalho dentro do campo de concentração (Auschwitz - 1944) cabia aos membros deste grupo preparar os corpos dos judeus já mortos para a sua cremação nas câmaras de gás, bem como cuidar da  limpeza destas, removendo as cinzas e higienizando o ambiente, enquanto esperavam a sua vez. Trabalhavam naquilo que os alemães se recusavam a fazer e, diante da perspectiva iminente da morte. Que cenário.

A narrativa passa então a ter dois focos. Saul encontra um menino, ainda vivo, e o toma como um filho. Ele imediatamente é executado por um oficial alemão. Então a preocupação de Saul passa a ser o enterro do menino, o filho de Saul. O outro foco passa a ser a organização de uma rebelião dentro do campo. Um espelho do que o ser humano tem de pior. Delações, subornos e propinas também ocorrem num cenário destes. Inacreditável.

O filme tem o seu forte no visual. As técnicas de cinema devem ter sido muito bem empregadas, pois, geraram um impacto fabuloso. Você se sente incomodado e indignado o tempo todo. Expressões de rosto retratam o ser humano em seu momento de aflição maior.

E eu, cá comigo, fiquei pensando sobre a força do enterro, dentro dos rituais e das simbologias comandadas pela tradição. No caso, um enterro com a presença de um rabino recitando a Kadish dos enlutados. Me lembrei de Antígona afrontando as leis positivas contra as da natureza; me lembrei da interrupção da guerra de Troia, para que se cuidasse do funeral de Heitor; me lembrei dos laços de solidariedade em torno dos funerais dos primeiros cristãos das catacumbas; me lembrei dos enterros solidários dos quais se originaram as Ligas Camponesas e me lembrei da Colônia Cecília, em que os padres poloneses de Santa Bárbara impediam o enterro das crianças mortas ente os colonos anarquistas e que, ainda hoje, em Palmeira existe este cemitério dos renegados. Quer dizer, se sabe do lugar. Que força poderosa!

Este é o filme. Numa resenha li que ele é o anti espetáculo. Seguramente não é cinema de entretenimento, da indústria cultural. É cinema formador de consciência. E mais uma triste constatação. Fui a uma sessão das 19 horas. A das 13 foi eliminada já na primeira semana do filme em cartaz. Ao começar a projeção, eu era o único espectador. Passados uns cinco minutos se formou o público definitivo de cinco pessoas. E, apenas lembrando que Auschwitz foi uma invenção dos filhos da Aufklärung.

E, em se tratando de Auschwitz é impossível não fazer referência aos dois monumentais livros de Primo Levi. É isto um homem? e Os afogados e os sobreviventes. Reflexões de quem testemunhou e refletiu muito


terça-feira, 19 de abril de 2016

Como votaram os deputados do Paraná no processo de impedimento da presidente Dilma.

A experiência do blog me diz que é importante registrar. Fica para a memória. A farsa trágica do domingo, dia 17 de abril de 2017, não pode ser esquecida. O Parlamento brasileiro, pela sua Câmara dos Deputados, tentou aplicar um golpe. Pelo menos abriu o caminho para isso. E para tristeza geral, tudo comandado por um réu celerado.

Procuro acompanhar um pouco a atividade parlamentar dos deputados. Da maioria não dá para acompanhar, porque literalmente não fazem nada. Uns se destacam pela grosseria. creio que nem é preciso citar. Prefiro as crianças pela sua afabilidade. Mas detesto profundamente adultos infantilizados.

Alguns deputados se destacam pela defesa intransigente do réu, que presidiu a farsa. Sempre tive dificuldades em entender a eleição de Galdinos. Mas creio ser este o perfil dominante. Talvez tenham um pouco mais "capacidade" para articular.

A maioria não me decepcionou. Deles não esperava nada mesmo. Mas confesso que dois deputados me despertaram um certo inconformismo, por ter percebido uma certa incoerência com os seus posicionamentos anteriores. Melhor dizendo, uma deputada e um deputado. A Christiane Yared e o João Arruda. Respeito a dor de uma mãe que perdeu o filho numa tragédia. A tragédia teve um causador, uma origem. Gente poderosa. Temo que a deputada se alinhou junto a esta gente poderosa.

Quanto ao João Arruda, esperava que a convivência com o tio lhe tivesse proporcionado alguma lição, especialmente, nas concepções de Estado/Nação, defesa das riquezas nacionais e uma opção preferencial por aqueles que efetivamente necessitam das ações positivas do estado/pátria. E também por ter estado conosco nos embates com o governador do PSDB.

Christiane Yared e João Arruda registraram em sua biografia, ao menos um dia em que se nivelaram, em que se igualaram com um voto em uníssono com um Francischini, com um Eduardo Cunha e com um Jair Bolsonaro e tantos outros. Espero que não se orgulhem disso.

Quanto ao Aliel Machado, tão importante, ou mais importante ainda do que o seu voto, foi o seu posicionamento e a sua denúncia. 

Vivemos tempos em que a traição e a delação foram consagrados como valores supremos. Temo que estejamos cultivando, com todo o cuidado, o ovo da serpente, se é que ela já não está entranhada na mente, no ventre e no fígado dessa gente.

Que fique registrado para a posteridade. Votaram a favor da tentativa do golpe parlamentar:

Alex Canziani (PTB)
Alfredo Kaefer (PSL)
Christiane Yared (PR)
Diego Garcia (PHS)
Dilceu Sperafico (PP)
Evandro Roman (PSD)
Fernando Francischini (SD)
Giacobo (PR)
Hermes Parcianello (PMDB)
João Arruda (PMDB)
Leandre (PV)
Leopoldo Meyer (PSB)
Luciano Ducci (PSB)
Luiz Carlos Hauly (PSDB)
Luiz Nishimori (PR)
Marcelo Belinati (PP)
Nelson Meurer (PP)
Nelson Padovani (PSDB)
Osmar Serraglio (PMDB)
Paulo Martins (PSDB)
Ricardo Barros (PP)
Rubens Bueno (PPS)
Sandro Alex (PSD)
Sergio Souza (PMDB)
Takayama (PSC)
Toninho Wandscheer (PROS). Este fora eleito pelo PT.

Votaram contra a tentativa do golpe parlamentar:

Aliel Machado (Rede)
Assis do Couto (PDT)
Enio Verri (PT)
Zeca Dirceu (PT).

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Reflexões sobre o impedimento da presidente Dilma.

Hoje eu amanheci com uma tristeza profunda. Imaginei que melhor teria sido se, talvez, nunca tivesse estudado. Poderia estar até feliz, quem sabe, como muitos estão. Temo que seja ampla maioria.
Este texto faz parte do livro Crônicas da Resistência - uma democracia ameaçada. O livro é organizado pela jornalista Cleusa Slaviero.

Talvez fosse melhor nunca ter saído da caverna, pois, a luz incomoda. Melhor teria sido ver as sombras como realidade, sombras devidamente projetadas, como o faz a Rede Globo. Ela procura intelectualizar o senso comum e nos impossibilitar o pensar.

Talvez fosse melhor nunca ter lido a Eneida de Virgílio. Aí eu não teria o conhecimento do significado de Pátria, de ter tido um pai comum, - autor, - autoridade, que tem responsabilidade sobre todos os seus filhos. E fico imaginando, se em vez de Pátria, o conceito desenvolvido tivesse sido Mátria. Sempre, mil vezes mais generosa e afetuosa para com os seus filhos.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado o cristianismo primitivo, nascido na solidariedade, especialmente, pelo ato de dar um enterro decente aos mortos e de se reunirem à sombra, nas catacumbas. Aí talvez eu seria um cristão medieval, ardoroso cavalheiro de Cristo, empunhando a cruz e a espada, escravizando e exterminando povos e lamentando não existirem mais as cerimônias festivas dos autos de fé.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Kant, pois assim, estaria eternamente imerso na menoridade sem nunca emergir para a maioridade, sem nunca ter ouvido o Sapere Aude - o ouse saber.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Hegel, Marx e Engels e assim nunca teria ouvido falar em dialética e sempre continuaria confundindo a aparência com a essência.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Freud e, assim, nunca teria sabido sobre os nossos subterrâneos e sobre toda a complexidade do ser humano e nunca teria penetrado no mundo dos desejos.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Adorno, pois, assim eu nada saberia sobre a formação da personalidade autoritária, nunca teria me preocupado em transmitir os valores burgueses em sala de aula, coisa que até os próprios, não tem a coragem de o fazer e, sobretudo, não me preocuparia com o fato de que Auschwitz pudesse se repetir.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Hannah Arendt e assim nada eu saberia sobre as origens do totalitarismo. do regime nazista.

Talvez fosse melhor nunca ter lido Primo Levi - É isto um homem? ou Os afogados e os sobreviventes e assim eu jamais saberia dos horrores ocorridos em um campo de concentração. Eu jamais teria sabido que o suicídio é um ato exclusivo do ser humano e que a desumanização foi tal, que não se concebia sequer, a ele recorrer.

Talvez fosse melhor nunca ter assistido um filme de Chaplin, especialmente, o Grande Ditador e assim, talvez, eu fosse tocado menos pelo humano.

Talvez fosse melhor nunca ter assistido O ovo da serpente de Ingmar Bergman, e assim, Jair Bolsonaro não me causaria nenhum horror e não sentiria nenhuma vontade de lhe dar uma cusparada, ainda que, ao menos simbolicamente.

Talvez fosse melhor eu nunca ter assistido A Fita Branca, e então ser um educador frio, neutro,  distante e sem nenhuma afetividade e, de preferência, fosse assexuado e com voto de castidade, sem me importar com as consequências.

Talvez fosse melhor nunca ter lido e visto, A Revolução dos bichos, 1984 e Fahrenheit  451, do magnífico Ray Bradbury e assim, talvez eu tivesse a coragem de queimar todos os meus livros, para a partir de então, ver e comentar apenas a programação da rede globo de televisão.

Talvez fosse melhor nunca ter pensado, nem nunca ter metabolizado o conhecimento e, assim, sempre me teria limitado a apenas reproduzi-lo mecânica e repetitivamente e produzido por uma indústria privada de apostilas.

Talvez fosse melhor nunca ter lido, estudado e convivido com Paulo Freire e assim não veria a educação como uma prática da liberdade e não saberia o significado de uma pedagogia em favor do oprimido.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado um pouco de ontologia e, assim, nada saberia sobre a tridimensionalidade do ser humano, do tempo passado, presente e futuro e, assim, não anteveria o futuro sombrio que nos aguarda.

Talvez fosse melhor nunca ter lido a frase de Albert Jacquard que diz: "A coexistência é fonte de tensão; ela inicia uma dinâmica, a da comunicação. Comunicar é colocar em comum; e colocar em comum é o ato que nos constitui. Se alguém considera esse ato impossível, recusa qualquer projeto humano".

Talvez fosse melhor.....

Talvez fosse melhor.....

Talvez fosse melhor nunca ter lido Valter Hugo Mãe, o filho de mil homens, e ter visto o encontro de pessoas absolutamente desencontradas, mas que, ao final e - depois de terem se encontrado - rezam e celebram um dos mais belos poemas da humanidade, que diz assim:

"Sabes pai, gosto de pensar que nunca mais vou ficar sozinho e que alguém há de ficar comigo para sempre sem me abandonar.

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais de mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

Mas eu estudei. Estou triste, profundamente triste e indignado. O incômodo da luz, ao menos hoje, não me permite estar feliz, como o está a maioria. E graças ao estudo me fiz humano e solidário e com a percepção de nunca estar só.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A noite do meu bem. Ruy Castro.

O meu gosto por biografias e, não é só biografia de pessoas, me levou à compra e à leitura de uma espécie de biografia do samba-canção. O livro é best seller, figurando entre os mais vendidos, desde o seu lançamento. Trata-se de A noite do meu bem. A história e as histórias do samba-canção. A autoria é de Ruy Castro e a Companhia das Letras é a editora. O título é uma referência à musica homônima, de autoria de Dolores Duran.
O belo livro A noite do meu bem, de Ruy Castro.

Vou inverter o processo. Começo com os dois parágrafos finais da obra. "O samba-canção nunca morreu. Transformou-se, abriu-se, libertou-se de velhas rimas e soluções. Ganhou uma liberdade com que Ary, Herivelto e Custódio nunca sonharam. Rejuvenesceu com Tom Jobim, cooptou Francis Hime, Ivan Lins, Dory Caymmi. Mas à sua maneira, discreto, longe das luzes, continuou a ser a grande reserva emocional da música brasileira. É a música a que duas pessoas apaixonadas sempre poderão recorrer quando sentirem o seu amor em perigo.

O samba-canção é uma emergência, uma cirurgia, uma UTI. Sua especialidade é o coração. A diferença é que chega a este pelo ouvido".

O cenário para esta biografia começa pelo Copacabana Palace, em seu Golden Room e o Meia-Noite, para se estender, pela zona da Cinelândia e proximidades, pelo Catete por toda a zona sul do Rio de Janeiro, se centrando na praia de Copacabana, onde quase tudo acontecia. Este cenário tem um apêndice no livro. O nome, a localização e os anos de glória das principais casas que serviram de abrigo para os milionários, ou seriam os biliardários frequentadores. Também num dos apêndices estão os principais cantores e os seus discos, na época, os 78 rotações, com uma música de cada lado. Era o que a tecnologia da época possibilitava. Também existe um mapa com os mais famosos endereços.
O mapa da localização das boates mais famosas.

O luxo era obrigação. O seu acesso era para poucos. Os frequentadores eram praticamente os mesmos, em todas as noites. Os trajes eram a rigor e as colunas sociais insistiam em descrever vestidos, penteados, em suma, a elegância das frequentadoras. Embora a palavra ainda não estava na moda, já se faziam rankings das celebridades. Artistas internacionais se apresentavam com frequência. Um grande número de cantores, cantoras, compositores e algumas compositoras mostravam a alta qualidade de seus trabalhos. O tema, como vimos no parágrafo final do livro, é o coração. O coração em todos os seus estados de espírito, mas geralmente um coração traído e magoado, ainda alimentado pela esperança da reconciliação.

Já que situamos o espaço, vamos fazer o mesmo com o tempo. O livro abre com o Golden Room, no Copacabana Palace em 1938, mas o evento pelo qual o livro começa mesmo, foi o decreto de Dutra, o mais frio de nossos presidentes, que fechava os cassinos, já no início de seu governo, em 1946. Neles o jogo e a música ocupavam os principais espaços. Com o fim dos cassinos, abriu-se o espaço para as boates. Para frequentá-las precisava ter cacife. Desde as pré condições para entrar, marcada por trajes e berço. Os gastos de uma única noite consumiam salários, devidamente no plural. O whisky era a grande bebida. E a beleza da música e a grandeza das orquestras?
Ruy Castro promovendo o seu livro no programa do Jô.

Ruy Castro dá a origem dos frequentadores. Tudo a ver com a nossa história. Os frequentadores seriam os herdeiros dos que se estabeleceram no Rio de Janeiro com a transferência da Corte em 1808. Desde aquele tempo o povo já pagava o principal da conta. A narrativa termina com os anos 1960, e mais especificamente, com a implantação do golpe civil-militar de 1964. Até ali os políticos continuavam sendo os grandes frequentadores, sendo os mais perdulários. Por que será? Dividiam os espaços com ricos comerciantes e industriais emergentes.

Não vou entrar nos detalhes dos cantores, compositores, cronistas sociais que se tornaram famosos. O livro foi escrito para isso. Este é o tema de que se ocupam os 18 capítulos do livro, acompanhados de prólogo e epílogo, uma cançãografia, a primeira existente, ao menos é o que se afirma no livro, uma discografia, filmografia e bibliografia. Também existem dois blocos de fotografias. Um rico acervo.
Depois da leitura do livro, um complemento. Ouvir a coleção da Folha. Raízes da MPB.

Se eu tivesse que destacar um capítulo para, possivelmente, transformá-lo numa aula em algum curso de comunicação, eu escolheria o capítulo de número 17. Nele é narrada a transferência da capital para Brasília, a criação do estado da Guanabara e um Rio que não se esvaziou, que não foi para Brasília. O Rio continuava sendo a capital real do Brasil. Mas o tema mais importante foi a do surgimento da televisão e a mudança dos padrões culturais. Tudo se encolheu. As noites ficaram mais curtas e menos glamourosas, diminuiu a audiência das emissoras de rádio, o grande meio de difusão cultural até então, os cinemas se esvaziaram e o próprio carnaval de rua se transformou e se encolheu. Nostalgia. O resto da história nós conhecemos e não vamos entrar no mérito.
Lupicínio eu nunca abandono. Dele tenho tudo, inclusive o hino do Grêmio.


O sucesso do livro se justifica plenamente. Ruy Castro já é um nome consagrado e a beleza e leveza de seu texto, junto com a qualidade de sua exaustiva pesquisa (o livro tem 510 páginas) merecem plenamente o êxito alcançado. O tema também é apaixonante. Vou complementar a leitura do livro ouvindo alguns dos meus velhos discos, não os 78 rotações, que eu não tenho, mas os de 33 que guardo como relíquia e ainda tenho aparelho para ouvir. Também vou ouvir a coleção da Folha - Raízes da Música Popular Brasileira, meus discos, Cds e DVDs com as músicas de Lupicínio Rodrigues


sábado, 9 de abril de 2016

Da Terra Nasceram Gritos. Cenair Maicá.

Mais uma vez a violência com morte se instaura no campo. Mais uma vez num "confronto" existem vítimas, apenas de um lado. Quem luta pela vida ou pelos meios de se manter vivo, tem a sua vida ceifada. Triste realidade de um Brasil, ainda herdeiro de capitanias hereditárias.

Com estas duas mortes, o governador Beto Richa assume a sua filiação ideológica com Jaime Lerner, agora iguais na criminalização e vitimização  daqueles que buscam cumprir a função social da terra, prevista em todos os códigos humanitários e na Constituição brasileira. Só não temos mais o Niemeyer para construir um monumento. Mas este será edificado no santuário de nossos corações.

Vamos à frase de Brecht: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas  as margens que o comprimem".
O canto missioneiro é acima de tudo um lamento. Mas nunca de submissão.

E o belo canto missioneiro de Cenair Maicá, herdeiro do "santo experimento" da Missões, destruídas para expulsar das terras missioneiras coletivas, os índios guaranis, para nelas impor a ganância e a violência permanente do latifúndio. "Só não entendo é tanta terra - E pouco dono"!
https://www.youtube.com/watch?v=blHbgGa9uSE 


Mataram meus infinitos
e me expulsaram dos campos;
Da terra nasceram gritos,
Dos gritos brotaram cantos!

E me fiz canto
De tropeiros e ervateiros
Rasgando sulcos,
Com arado e saraquá;
Nas alpargatas dos “quileiros”
e “chibeiros”,
Andei as léguas
De Corrientes e Aceguá!

Meu canto é rio,
Meu canto é sol,
Meu canto é vento,
Eu tenho berço, Eu tenho pátria,
Eu tenho glória,
Eu só não tenho terra própria
Porque a história
Que eu escrevi,
Me deserdou no testamento!

Entretanto - bem ou mal,
Não me emociono,
Com os que combatem
As verdades do meu canto;
Sem ter direito de comer nem o que planto,
Só não entendo é tanta terra
E pouco dono!

Mas mesmo assim,
Tenho pra dar um outro tanto,
Se precisarem do meu sangue
Noutra guerra;
Mesmo sem terra,
Hei de voltar grito de terra,
Pelo milagre
Das espigas do meu canto!!! 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Trumbo. A vida do romancista ganhador do oscar que derrubou a lista negra de Hollywood. Bruce Cook

Ver o filme Trumbo - Lista Negra, me levou a comprar o livro, Trumbo, que serviu de roteiro para o filme. A autoria do livro é de Bruce Cook e a sua primeira edição apareceu nos Estados Unidos, em 1977, um ano após a morte do célebre roteirista do cinema americano. A primeira edição brasileira é de 2015. O que me levou, tanto ao cinema, quanto a compra do livro é a importância do tema, o tema do ódio ao diferente e da impossibilidade da convivência entre os diferentes.
A biografia que originou o filme. Trumbo.

Na compra do livro, na verdade, eu esperava uma grande contextualização sobre a guerra fria, a bipolaridade e, mais especificamente, sobre o Macarthismo. Isso não ocorre neste livro. Ele se limita a apresentação da biografia de Dalton Trumbo e ao Macarthismo dentro do cinema e a atuação do Comitê de Atividades Anti Americanas do Congresso americano, responsável pela inquisição que promoveu a caça às bruxas, no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Dalton Trumbo, além de figurar na lista dos 10 de Hollywood, composta especialmente por roteiristas do cinema, ficou preso por um período de dez meses, por desacato ao Congresso e se negar a fornecer o nome de comunistas para o tal de comitê. A palavra delação não figurava em seu dicionário.

É importante registrar que isso ocorreu na terra das liberdades individuais. E não por um curto espaço de tempo. A lista durou entre os anos de 1947 e 1960. Quem nela figurava não poderia trabalhar no cinema. Sendo assim, os roteiristas, para garantirem a sobrevivência, tiveram que emprestar nomes de colegas, atuando num "mercado negro" de trabalho, recebendo pouco e não recebendo os devidos créditos. O desemprego é, dentro do sistema capitalista, o equivalente à aplicação da pena de morte, ao negar o acesso aos meios que possibilitam o sobreviver. Negar o trabalho é negar a sobrevivência. Na lista figuravam as pessoas filiadas ou simpatizantes do Partido Comunista.
Uma imagem clássica de Dalton Trumbo, escrevendo na banheira.

Trumbo teve uma infância muito pobre e conviveu com inúmeras injustiças, como a demissão do emprego de seu pai e a baixa remuneração salarial que ele próprio recebia, trabalhando numa padaria. Desde muito cedo Trumbo se tornou arrimo de família. A descrição destas cenas ocupam os primeiros capítulos do livro. Trumbo sempre teve uma inclinação para a escrita, desde os seus tempos escolares. Entrou para o mundo das letras por artigos de seu tempo de escola e por algumas publicações em revista. O escrever o levou ao cinema, trabalhando especialmente para filmes B, de rápida produção e retorno. Era o caminho percorrido pelos roteiristas.

O escritor passou por todas as crises em consequência do crack da bolsa de 1929. Foram longos e terríveis anos, que atingiram o seu pai com o desemprego. Quando estava se afirmando pela escrita, vem a guerra e a sua filiação ao Partido Comunista, uma espécie de reconhecimento à União Soviética. O pior viria com a paz, com o fim da guerra. Um verdadeiro período de terror, de caça às bruxas e de listas.

Nos interrogatórios, Trumbo sempre permaneceu em silêncio. Nunca entregou ninguém. Depois de cumprir dez meses na prisão começou a sua rotina de trabalhos no chamado "mercado negro". Os êxitos de bilheteria dos filmes que o tinham como roteirista, sempre lhe garantira trabalho. Uma das cenas mais hilárias ocorre no ano de 1957, quando o filme Arenas sangrentas recebe o Oscar de melhor roteiro. O autor era um desconhecido e, improvisadamente, alguém recebeu o prêmio. Foi o começo da implosão da lista. Ela passou a ser algo jocoso. O fim da lista veio com o filme Êxodus, em que Otto Preminger e Kirk Douglas, os responsáveis pelo filme, resolveram desobedecer, dando a Trumbo o crédito nas telas do filme. Trumbo também fizera enorme sucesso com o filme Spartacus. Eram os anos 1960. Kennedy se elegera presidente.
Um dos filmes que ajudou a marcar o fim da "lista negra", junto com Êxodus.

O capítulo de número onze, de um total de treze, intitulado Violando a lista negra é o capítulo mais importante do livro. Nele é narrada a forma como a lista caiu em desuso, pela desobediência de diretores e produtores. Depois da lista, Trumbo fez muito sucesso e ganhou muito dinheiro. Ele sentia a necessidade de ganhar dinheiro, uma vez que este era a expressão viva da liberdade. Em 1970 Trumbo recebe um prêmio, o Laurel Award, uma espécie de reparação pelas injustiças que sofrera ao longo da vida. Fez discurso que se tornou célebre  e lhe rendeu muitos dissabores.
Papillon, último filme em que Trumbo trabalhou.

A polêmica ocasionada pelo discurso foi uma frase mais ou menos nos termos de que a lista não gerara nem heróis, nem vilões, apenas perdedores. Um discurso de contemporização. Havia sim, vilões, e muitos. E havia também herois, entre eles Trumbo, possivelmente, o maior de todos. Em 1975, um ano antes de sua morte, a Academia de cinema, aquela que confere os Oscars, repara a injustiça cometida em 1957, lhe conferindo a estatueta pelo roteiro de Arenas sangrentas. Outros tempos, melhores tempos.



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Viagem ao Recife. 5. Igarassu e Ilha de Itamaracá.

Por duas vezes tive o passeio para as históricas Igarassu e para a Ilha de Itamaracá transferido. E por muito pouco, ele não se concretizou. Não fosse a chegada de um casal, vindo de Belém, certamente eu não teria ido. Nesta semana santa todas as opções se voltam para Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, do município de Brejo da Madre de Deus, distante do Recife, mais de 200 quilômetros, passando por Caruaru.
A igrejinha de São Cosme e Damião, em Igarassu. 1535.

Ali foi construído o maior teatro a céu aberto do mundo, onde é encenada a Paixão de Cristo, com a presença de atores globais. Todo ano ela atrai milhares de turistas, que só de ingresso pagam de R$ 100,00 a R$ a 120,00 reais, fora as despesas de locomoção. Os passeios passam por Caruaru, que hoje é o grande polo têxtil do nordeste, e voltam para Recife pelas duas horas da madrugada, após o término do espetáculo, se é que assim pode ser chamada a representação da Paixão. Como tenho verdadeira fobia por multidões, não fiz esta opção.

Mas voltando às históricas Igarassu e Ilha de Itamaracá. Desta vez o destino segue para o litoral norte. Tudo é história. Passa-se pelas cidades de Olinda, Paulista, a famosa cidade das Casas Pernambucanas, que tem a sua origem, quando, em 1902, ali se estabeleceu a família sueca Lundgren, que se dedicou a indústria têxtil, por Abreu e Lima, Itapissuma e, finalmente, se chega a ilha de Itamaracá, ligada ao continente pela ponte Getúlio Vargas.
Na ilha de Itamaracá. O forte Orange.

A primeira parada foi em Igarassu. A cidade é toda história. Ali aportou Duarte Coelho, o donatário da capitania de Pernambuco. Ali travou combate com os índios Caetés e os venceu no dia de São Cosme e Damião, 27 de setembro de 1835. Ali foi edificada a igreja em homenagem aos dois santos. É a segunda mais antiga do Brasil, perdendo para a de São Vicente. Como esta está em ruínas, a de Igarassu é a mais antiga, ainda em pleno funcionamento. O nome Igarassu deriva de Igara (canoa) e assu (grande), dando assim o significado de Canoa Grande, que foi o navio avistado pelos Caetés, na chegado do donatário.

Os meninos dos projetos sociais são os guias, orientados por professores de história. Fico com as informações do nosso menino guia. Ele nos levou a igreja do Sagrado Coração de Jesus, uma igreja do século XVIII, onde numa placa está anunciada a visita de dois padres jesuítas, sendo um deles o famoso padre Gabriel Malagrida, que chegou a ser o confessor real, mas que não foi poupado pela inquisição, sendo queimado na fogueira santa, num auto de fé, no Rossio. Ao nos mostrar a igreja, o menino nos deu a informação sobre os lugares ocupados pelas classes sociais dentro da igreja. Os camarotes laterais, a frente, junto ao altar e a missa rezada de frente para Deus e de costas para o povo e, ainda, o fundo da igreja, o lugar reservado para os pobres.
Um passeio de barco te leva a este belo local. Um forno de cal.


Esta informação do menino guia me remeteu ao Brasil atual, que tanto tenta esconder a sua atroz desigualdade e luta de classes. Certamente, para não gerar convulsão social, o juiz ou justiceiro Sérgio Moro, teria mantido esta informação sob sigilo. Já na saída da igreja do Sagrado Coração, mais informações do menino: Os Caetés deveriam ser exterminados porque resistiram a qualquer forma de escravidão. Eram muito ferozes. Não conseguiriam pacificá-los. Lembrando que foram os caetés que fizeram o banquete antropofágico, do primeiro bispo brasileiro D. Pero Fernandes Sardinha. Uma bela história.
A beleza da paisagem na ilha de Itamaracá.


Depois da igreja de São Cosme e Damião rumamos para a ilha de Itamaracá. Paramos numa barraca de praia, junto ao Forte Orange, onde se contrata almoço e se ouve a opção de passeios, que são, ou um passeio ecológico, ou então, a ida a piscinas naturais. Tudo encaminhado devidamente pelo guia. A única alternativa é não passear nem comer. Optamos pelo passeio ecológico. Este nos levou a um antigo forno de cal e a ilha da Coroa do Avião. Mais uma vez, numa barraca de praia, conduzidos agora, pelo guia da embarcação.
Este robalo foi o nosso almoço. Muito bom.


Além da paisagem natural, a ilha é marcada pela presença do Forte Orange, construído pelos  holandeses, durante o período da ocupação. A ilha fora colonizada, possivelmente, por náufragos que progrediram com a cultura canavieira. O nosso almoço foi bom. Um robalo em "homenagem" a Jader Barbalho. A "homenagem" foi proposta pelo casal de Belém, com quem fiz esta viagem. Como não ouvira nada sobre ciranda, eu perguntei. A resposta foi simples. Ah, isso acontece lá no povoado. Nada sobre sobre Lia, a famosa cirandeira da cidade. Mas valeu. E assim os meus oito dias de Recife foram ricamente aproveitados. Ainda teria muito para contar.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Viagem ao Recife. 4. Porto de Galinhas.

Oito horas em ponto. O receptivo chega ao hotel. O destino era a promessa do paraíso terrestre. Porto de Galinhas. Preferi, por pura comodidade, ir com o receptivo. Existe a opção mais barata do ônibus. Já tinha percebido isso no próprio aeroporto, onde passa uma linha de ônibus urbano para este destino. Os taxistas disputam estes clientes, organizando grupos. Mas na Boa Viagem, quem preferir esta opção, a linha é a de número 195. Porto de Galinhas é um pequeno lugarejo. Não tem como você se perder.
As muitas jangadas que te levam às piscinas naturais.

Gostei da opção do receptivo, especialmente pelas explicações do motorista guia. Imediatamente percebi que o exercício desta profissão está cheia de problemas. Além de todos aqueles mostrados na belíssima comédia Falando grego, existe hoje um novo problema. O celular em tempo de WhatsApp. Quanto mais o guia fala, mais a turma fica grudada no aparelhinho. Porto de Galinhas se situa ao sul do Recife. No roteiro passa-se por Jaboatão dos Guararapes, a segunda cidade pernambucana, com algo em torno de 700.000 habitantes, pelo Cabo de Santo Agostinho, por onde, antes mesmo do descobrimento, teria passado o espanhol Vicente Iáñez Pinzón, e Ipojuca, a sede do município que abriga o Porto de Galinhas.

Esta região é o novo grande polo de desenvolvimento de Pernambuco. Grandes investimentos do Estado foram para ali canalizados. A Refinaria Abreu e Lima, o Porto de Suape e todo o complexo portuário e industrial no seu entorno. O motorista guia não escondia o seu entusiasmo pelo ex governador, Eduardo Campos. Sabe-se que Eduardo Campos era grande amigo do ex presidente Lula, que para lá destinou muitos investimentos do governo federal. O motorista guia também não deixava de dar as suas alfinetadas irônicas, falando dos sócios anônimos da refinaria. E, apenas para lembrar, a refinaria que tem o nome Abreu e Lima, um general do exército de Simón Bolívar, não está localizada na cidade de Abreu e Lima, que se situa ao norte de Recife.
Esta piscina é meio patriótica ao formar um mapa do Brasil.

Porto de Galinhas tem o seu nome efetivamente ligado a atividades portuárias. Era o grande porto onde se contrabandeava o Pau Brasil. Mas a ferocidade dos índios Caetés impediu a continuidade desta atividade. Neste tempo era chamado de Porto Rico. As atividades portuárias voltaram no século XVIII, com o contrabando de escravos. Como estes chegavam ao porto escondidos sob engradados de galinhas d'angola e eram anunciados com o disfarce de "Tem galinha nova no porto", a designação pelo nome de Porto de Galinhas foi se fixando. Que pena. Um lugar tão bonito com uma memória tão horrorosa. Mas ela não deve ser apagada. Ainda mais, num país que ainda cultiva um saudosismo escravista.
O banho nas piscinas, enquanto as jangadas esperam para a volta.


Mas vamos às belezas do lugar. A grande atração são as piscinas naturais. Na maré baixa, elas são alcançadas pelas jangadas a um preço de vinte reais por algumas remadas e por uma permanência de algo em torno de uma hora. A cor das águas é uma atração a parte, assim como os milhares de peixes que te cercam. É recomendável o uso de chinelos de dedo, tipo havaianas, para evitar pisadas em bichos e também é preciso ter cuidado com os acidentes de terreno. Além das piscinas grandes existem inúmeras de tamanho menor, uma delas forma até um mapa do Brasil. Outra alternativa de passeio é o bug, que leva a outras praias da região. Também existem opções de mergulho. Nas barracas existe opção de deixar os pertences, tudo devidamente pago, é óbvio. Na maré alta, a opção pelas piscinas, simplesmente desaparece.

A vila é pequena e o comércio é feito de artesanatos e gastronomia. Nos arredores estão os modernos resorts, que fazem a delícia dos turistas. As opções noturnas também prometem agitos, como nos garantiram. Na gastronomia tem opções para todos. Pratos com frutos do mar, até as opções simples dos "por quilo". A disputa pelos fregueses é grande. Cada receptivo procura "fechar" os seus turistas, com restaurantes previamente acertados.
Muitos e muitos peixes. Eles disputam o espaço com os banhistas.

O caminho da volta foi bem interessante. O motorista guia fez a opção litorânea, passando por diversas praias, inclusive por um mirante, donde se avista Itapuama, a praia dos surfistas. Passamos pela reserva ecológica do Paiva e por inúmeros projetos de loteamentos tidos como ecológicos, mas como pude perceber, também muito criticados. Já em Jaboatão dos Guararapes, muitas obras viárias ligadas a Copa 2014. Lembrando que Porto de Galinhas não é sede de município. É um distrito de Ipojuca, uma das cidades da Grande Recife, com aproximadamente cem mil habitantes. O seu crescimento foi impulsionado pelo Porto de Suape, da refinaria Abreu e Lima, pelo turismo e por inúmeros empreendimentos imobiliários. 

Existem comparações entre Porto de Galinhas e a ilha de Fernando de Noronha. Não concordo muito com elas. A beleza da ilha é simplesmente ímpar. 



terça-feira, 5 de abril de 2016

III Simpósio sobre a Colônia Cecília, a grande experiência anarquista.

Realizou-se no dia 2 de abril de 2016 o III Simpósio sobre a Colônia Cecília. O local só poderia ser o Museu Sítio Minguinho, localizado a menos de 10 quilômetros da cidade de Palmeira, na estrada que liga com São João do Triunfo, a PR 151. O encontro foi promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Palmeira, pelo Museu Sítio Minguinho e pelo Núcleo de Pesquisa "Marques da Costa",
 Para quem tiver interesse em visitar o Museu Sítio Minguinho, está aí uma pequena orientação.

O idealizador deste encontro é o professor Arnoldo Monteiro Bach, pesquisador e escritor, que se ocupa especialmente dos temas relacionados à cidade de Palmeira. Entre os seus livros está o Colônia Cecília, um denso livro de mais de mil páginas sobre este experimento, que ocorreu entre os anos de 1890 e 1894, na cidade de Palmeira. O livro é uma narrativa que começa traçando o perfil de Giovanni Rossi, o idealizador e fundador da Colônia, pela narrativa do cotidiano da experiência, deixado pela memória escrita e por inúmeros depoimentos dados pelos descendentes, que tiveram contato com esta rica experiência.

Arnoldo é o proprietário do Museu Sítio Minguinho, que reúne riquíssimo acervo deixado pelos colonos e por seus descendentes. Os seminários ganharam muita densidade teórica quando Arnoldo consegui contato com o Núcleo de Pesquisa "Marques da Costa", um coletivo anarquista de luta de classes, presente em várias universidades brasileiras, especialmente, nas do Rio de Janeiro.
Arnoldo Monteiro Bach entrevista Arnaldo Gattai, 86, primo de Zélia Gattai.


As programações do dia começaram cedo. As falas programadas foram intercaladas com música e ricos depoimentos de pessoas ligadas aos colonos e seus descendentes. Um rico depoimento foi dado por Arnaldo Gattai, um primo de Zélia. Zélia é a grande memorialista brasileira, que entre as suas memórias escreveu o Anarquistas - Graças a Deus e o Città di Roma, o nome do navio que trouxe os colonos anarquistas, entre os quais o nono Gattai, o avô de Zélia. Livros interessantíssimos. O hino da Colônia foi cantado ao longo de todo o dia e com a presença de músicos.  Gaita e saxofone.
No exato local onde se situava a colônia, o seu hino foi cantado "Leco delle foreste".


A primeira fala coube a Robledo Mendes, pesquisador do Núcleo Marques da Costa e professor da UFRJ. Versou sobre a Colônia Cecília - uma experiência libertária camponesa. Uma bela contextualização do pensamento anarquista em sua versão camponesa. O final do século XIX e as lutas operárias e camponesas perfilaram ao longo da exposição. O segundo tema foi explanado por Rogério Geraldo Lima. Versou sobre o anarquista Pimpão, Andrea Giuseppe Agottani, um personagem simplesmente extraordinário. Rogério é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Palmeira e tem um livro sobre o anarquista praticamente pronto. Uma bela biografia nos aguarda.

Depois destas atividades começaram as tarefas práticas. Visita aos lugares históricos. O cemitério dos renegados, local onde foram enterrados os mortos anarquistas, já que o padre polonês não permitia o seu enterro no cemitério da comunidade, o local onde se situavam os 200 hectares da colônia, hoje uma propriedade privada, em que as visitas não são permitidas, a igreja de santa Bárbara, a igreja construída pelos pedreiros anarquistas e, em frente ao qual o anarquista Pimpão construiu um salão de baile, para desgosto do padre e alegria geral do povo. Depois fomos ao memorial da Colônia e só voltamos ao Sítio Museu Minguinho depois das 14h00 para o almoço.
A igreja de Santa Bárbara. Ela foi construída por anarquistas.


Os trabalhos da tarde começaram com uma fala sobre os trabalhadores, anarquismo e o sindicalismo revolucionário no Brasil, proferida pelo doutorando em história pela Universidade Rural do Rio de Janeiro, Rafael Viana da Silva. Uma brilhante contextualização. A próxima atividade foi presidida pelo palmeirense Celso Perota, hoje professor na Universidade Federal do Espírito Santo que falou sobre o projeto de obtenção de chancela como Paisagem Cultural para a área que envolveu a Colônia, junto ao IPHAN. Quanta riqueza, quantas possibilidades e quantos olhares diferentes.

Os trabalhos continuaram com uma visita ao museu. O foco maior foi dado para uma maquete construída a partir dos dados fornecidos pelo próprio Giovanni Rossi. Dá para ter uma ideia perfeita do que foi realmente a Colônia. Ainda nos deslocamos a um outro local onde se desenvolve o "Projeto Videira", um projeto de uma experiência alternativa, onde o sr. Cláudio Oliver nos falou sobre "As rachaduras do sistema como espaço libertário". Um espaço a ser visitado. Marquem isto na agenda. Foi muito interessante. O local está aberto para um dia de trabalho em conjunto com o pessoal do projeto.
Com uma pequena inclinação os construtores anarquistas deixaram a sua marca na igreja.


Uma última experiência nos reuniu num jantar. Este jantar não teve preço estipulado. Todos os participantes sabiam mais ou menos os preços do que foi consumido e contribuía com o pagamento das despesas. Ninguém tirou proveito ou se escondeu às sombras. Ao final conversamos com a promotora do evento, que nos confirmou que tudo ocorreu dentro da previsão. Com cálculo de um pequeno lucro e tudo mais, sobrou algum dinheiro. A organizadora da janta é proprietária do restaurante Girassol, um belo restaurante no trevo da cidade.
Participantes do seminário junto a área de 200 hectares onde se localizava a Colônia Cecília.


Mas a noite ainda não acabara. Junto com meus amigos Marco e Valdemar, ainda fomos ao baile do Pimpão. Ao menos nós o denominamos assim. Ver o povo em festa, sempre é muito bom. Um dia pleno e extremamente gratificante. Aos promotores do evento os efusivos parabéns. Não poderia ter sido melhor E lembrando, que a luta emancipatória  também se dá pelo cultivo da memória.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Viagem ao Recife. 3. A cidade de Olinda.

Munido de informações e mapas recebidos no posto de informações turísticas da Praça da Boa Viagem, estou no ponto de ônibus a espera da linha 910 que me levaria até o sítio histórico de Olinda, a cidade mais antiga do Brasil, que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. E mais um detalhe, é um dos mais bem conservados. O motorista do ônibus foi de extrema gentileza, pois, não apenas me indicou o ponto onde deveria descer, mas quase traçou um roteiro inteiro a ser percorrido.
O mosteiro de São Bento, em Olinda.

Parei num ponto perto de um mercado em reforma e segui as placas de sinalização, da rota do pedestre. Imediatamente me deparei com muita história e com muita cultura e rememoração de meus tempos de formação. Estava em frente ao mosteiro de São Bento, em pleno domingo de ramos. Leio as placas. O mosteiro hospedou a primeira Faculdade de Direito do país, fundada em 11 de agosto de 1827 e instalada já no ano seguinte. A hospedou até o ano de 1854, quando a sua sede foi transferida para o Recife.  Em meio a olhares curiosos eu vi a procissão do domingo de ramos, que seria finalizada com missa e canto gregoriano. Sorvi momentos de profunda paz.

Mas eu precisava seguir. Queria subir a famosa colina para ter aquela vista que fez Duarte Coelho exclamar "Oh, linda situação para se construir uma vida". esta é uma das versões, muito apreciada pelos guias turísticos, para explicar as origens do nome dado à cidade. Eles indicam até o local exato onde a frase teria sido proferida. Versões mais ligadas a história, nos contam que uma cidade portuguesa teria sido a homenageada, ou ainda, a personagem feminina do romance de cavalaria da época, Olinda, de Amadis de Gaula.
Olinda vista do alto, do mirante da caixa d'água.

Para não ter sustos, subi pela ladeira da misericórdia, lembrando de Alceu Valença e o seu canto das ladeiras de Olinda e me imaginei participando do mais famoso carnaval do mundo, brincando adoidado num clube de frevo, maracatu, afoxé, à sombra dos enormes bonecos gigantes. Estes você consegue ver. Estão em permanente exposição. Depois da ladeira da misericórdia, as demais ladeiras não mais assustam. Aí você está no Alto da Sé, com a sua praça, cheia de cantores de repentes, sempre dispostos a cantar elogios, exaltando especialmente a beleza das mulheres e a feliz escolha de seus maridos. Igrejas e lojas de artesanato complementam o cenário.
A famosa ladeira da Misericórdia.

As principais igrejas são as do Mosteiro de São Bento, a igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, a igreja de São Salvador do Mundo, mais conhecida como a Igreja da Sé, que dá o nome a toda essa região mais alta, a da Sé. Esta igreja também dá abrigo a um dos brasileiros mais queridos, o bispo D. Hélder Câmara. Continuando você chega na área franciscana, com o cruzeiro e a igreja de São Francisco de Assis e, continuando a descer, você encontra outra igreja maravilhosa, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Muitos começam o roteiro pelo sítio histórico de Olinda por esta igreja. Aí é só inverter os caminhos.

No alto do Passo da Sé também se encontra o Museu de Arte Sacra, um observatório astronômico, a caixa da água. Nomino esta, por ela estar aparelhada com um elevador, que te leva ao alto, donde você terá a melhor vista panorâmica, de um posto absolutamente privilegiado. De um lado a cidade de Olinda, com seus quase 400.000 habitantes, o seu farol famoso e do outro lado, uma bela visão da não distante cidade do Recife. Olhando para mais perto, as ladeiras e as igrejas. No Passo da Sé também tem um belo restaurante, com comida extremamente bem temperada, o restaurante Sítio das Artes.
Igreja de São Francisco.

Olinda é a terceira cidade mais populosa de Pernambuco e está voltada ao turismo e a prestação de serviços. O seu centro de eventos é um dos mais requisitados do Brasil. Existe todo um calendário de eventos para a cidade. Um folheto turístico nos apresenta o "viver Olinda", nos pondo em contato com o circuito das artes, da fé e das ladeiras. Senti falta daqueles cartões postais que formam livrinhos com as muitas igrejas da cidade. Só no folheto turístico da cidade, são apresentadas  vinte e uma. Por falta de igreja, ninguém deixará de se salvar.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A concepção e a gênese do livro - Como Conversar com um fascista.

Ontem, 31 de março de 2016, me dirigi novamente ao prédio histórico da UFPR. Desta vez foi para ouvir a fala da professora Dra. Márcia Tiburi, autora do livro, entre outros, de Como conversar com um fascista - Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. O evento foi promovido pelo Núcleo de Criminologia e Política Criminal, vinculado ao Programa  de Pós Graduação em Direito desta universidade. Este programa é hoje dirigido pelo pelo meu ex colega e amigo, o Dr. Luiz Fernando Lopes Pereira. Recentemente eu tinha assistido a magistral Aula Magna, de abertura do ano letivo, deste mesmo curso. Foi um acontecimento notável.
A professora Dra. Márcia Tiburi em sua fala na UFPR, no curso de Direito.

Conhecia a Dra.Márcia como colunista da revista Cult e pelo seu mais recente livro, Como conversar com um fascista, já em 6ª edição e, recentemente, lançado também em Portugal. Depois de devidamente apresentada, ela complementou com uma auto apresentação. Contou de sua demissão da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao final do ano passado, por haver participado de uma atividade no Senado da República, em favor da descriminalização do aborto. A dra. Márcia é uma conhecida e combativa feminista.

Falou ainda de sua formação. Graduada em filosofia pela PUC/RS e mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O tema de seus estudos: Adorno. Como sabemos, Adorno viveu atormentado pelo fascismo na versão nazista, passando longa parte de sua vida em fuga dele e, buscando interpretá-lo. É óbvio que Adorno esteve muito presente na sua fala. A personalidade autoritária, Educação após Auschwitz, Mínima Moralia, Dialética do esclarecimento foram constantemente lembrados.

Sobre a motivação de escrever este livro, fez primeiramente algumas considerações gerais. Apresentou a leitura como um antídoto ao fascismo e considerou que, seria por isso, que somos tão pouco convidados para ler e muito menos ainda, para escrever. Conta que fez uma série de brincadeiras em torno do tema, - machistas, idiotas ou fascistas, como título para o livro, mas que a decisão de escrevê-lo mesmo, ocorreu em uma festa de família, numa noite de natal, quando alguém teceu elogios ao deputado Bolsonaro.
O livro de Márcia Tiburi. O livro surgiu num momento extremamente oportuno.


Disse que o ficou observando. Como ninguém o contestava, ele virou um sacerdote, começou a pregação e promoveu o emudecimento. Aí destilava todo o seu ódio contra os negros, contra as mulheres e contra as pessoas de periferia, contra todos os diferentes. Ou como diz em seu livro, citando o deputado gaúcho Luis Carlos Heize: "quilombolas, índios, gays, lésbicas. Tudo o que não presta" Discursava para disfarçar os seus medos e desfilava todos os seus preconceitos. Aí decidiu escrever. O fascista começa pela recusa ao diálogo, quando a conversa não flui espontaneamente, quando as pessoas se tornam insuportáveis.

Aí a sua conversa fluiu para o diálogo, o objeto de toda a filosofia. Definiu a filosofia como a busca da vida contemplativa e a vida contemplativa ocorre porque as pessoas convivem. Contemplar é o preparo para o diálogo e o verdadeiro saber é o encontro com o outro e este encontro se dá pelo diálogo, o encontro com o outro, com quem eu penso. O inventor do método do diálogo foi, sem dúvida, Platão, embora as muitas besteiras que tenha escrito. Pelo diálogo nos tornamos seres de linguagem e o que assistimos hoje, é o empobrecimento da linguagem, o empobrecimento do diálogo.

Falou também das reações ao seu livro. Disse que está sendo muito xingada, especialmente, por aqueles que não leem e nem estão dispostos a ler o seu livro. Falou ainda do ódio, que não é o pior dos sentimentos humanos, porque ele pode propiciar a dialética e se transformar em amor. Apresentou então, aquele que é efetivamente o pior dos sentimentos humanos, aquele que não permite a dialética, aquele que jamais se poderá transformar em amor, aquele que jamais permitirá qualquer sentimento de generosidade, que é a inveja. A inveja é o oposto da gratidão, ela é totalmente destrutiva. Contou que existem pessoas que vão às livrarias, simplesmente  para esconder o seu livro.

Versou depois sobre o desaparecimento do diálogo com o surgimento das novas invenções tecnológicas da sociedade capitalista. Ela formou pessoas vidiotizadas, que transformaram instrumentos meio, em instrumentos fim. Os modernos celulares são partes do corpo humano. Substituíram o coração e, assim, já não existem mais pessoas cordiais. A tecnologização de nossas vidas nos torna impotentes para o diálogo. O cotidiano da vida das pessoas não pode se resumir ao facebook.

Falou ainda de seus livros de filosofia, o Filosofia Comum e Filosofia Prática e com eles foi encerrando a sua fala. Definiu através de vários filósofos que a idiotice ou a burrice é a negação do outro. E da negação do outro nasce todo o ódio fascista, expresso por atitudes cotidianas em nossa cultura como o xingar e o humilhar. E nos fez o grande convite para fugir da idiotice e da burrice pela convivência. O verdadeiro cuidado de si é a busca do bom conviver, pois, nos constituímos, nos construímos como seres humanos, no conviver, na abertura que temos para com o outro. E isso pode ser expresso pela alegria do conviver com repetidos encontros, com muitas conversas, com muitas trocas, com muitas expressões da generosidade humana.

Fez ainda algumas considerações sobre alguns dos capítulos do livro, como a cultura do assédio e a lógica do estupro. E cada vez que entravam os temas feministas, ela se iluminava e falava com maior veemência. Houve ainda a intervenção das debatedoras e novas considerações da Dra. Márcia. A noite terminou com autógrafos. Ganhei o meu, junto com um beijo.
O meu autógrafo, junto com um beijo.


A curiosidade ainda me moveu a pesquisar, hoje pela manhã, sobre a personalidade autoritária trabalhada pelo Adorno. Basicamente as características desta personalidade autoritária são as marcas do fascista, apresentadas pelo Dr. Rubens Casara, com  quem a Márcia é casada, na apresentação do livro. Apenas para provocar, listo aqui as nove características traçadas por Adorno em sua pesquisa. 1. Convencionalismo 2. Submissão acrítica. 3. Agressividade autoritária. 4. Destruição e cinismo 5. Poder e rudeza. 6. Superstição e estereotipia. 7. Exteriorização. 8. Projeção. 9. Sexo. Adianto apenas alguma coisa sobre o nono item. O fascista tem uma preocupação exagerada com o sexo como fruto da ansiedade e da repressão. Os outros itens, os deixamos para um próximo post.


Viagem ao Recife. 2. A cidade de Recife.

Cheguei em Recife pelo aeroporto internacional - Recife/Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes, a segunda cidade mais populosa de Pernambuco. Mais de 700.000 habitantes. O aeroporto homenageia o escritor e sociólogo Gilberto Freyre. Ele deve se situar bem na divisa das duas cidades, pois, com menos de vinte reais de táxi, eu já estava em meu hotel, na aristocrática praia de Boa Viagem, um dos cartões postais da cidade moderna.
Praia da Boa Viagem. Na altura do número 4.000 não tem tubarão.

A primeira coisa que eu estranhei em Boa Viagem, é que ele é um bairro residencial. A sua orla atlântica é tomada por enormes e luxuosos edifícios. Na praia, apenas modestos quiosques. Na avenida também não circulam ônibus. Fiz um primeiro reconhecimento do terreno e me localizei na praça da Boa Viagem, com uma bela igreja, toda em azul e uma feirinha. Ali também tem um ponto de informações turísticas, onde tomei as minhas primeiras informações e me muni de mapas. Recife, Olinda e outros pontos turísticos já estavam sob meus domínios. Também não existem receptivos na Boa Viagem. Apenas vendedores ambulantes.  O hotel recebe encomendas de passeios.
Na praça da Boa Viagem tem esta igreja e uma feirinha.

Da boa Viagem ao centro da cidade, para Olinda e para toda a região metropolitana, existe um sistema de transportes que funciona bem. Ele funciona em um sistema binário. Uma rua que leva ao centro e outra que volta. Estes ônibus urbanos também te levam até Porto de Galinhas. Se você assim optar, não é necessário o sistema dos receptivos. No Recife a minha primeira incursão foi pelo Marco Zero. Ele se situa na Ilha do Recife, bairro do Recife, ou ainda, o Recife Antigo. Por três pontes você alcançará os bairros de Santo Antônio e São José e por outras quatro você alcançará Boa Vista. O centro é mais ou menos este trecho todo.

O bairro do Recife foi onde tudo começou. Ali se situava o porto e as atividades comerciais. Toda esta área passa por um processo de revitalização. As grandes atividades do porto foram deslocadas para Suape e parte dos antigos cais foram transformados em praça gastronômica e outra em atividades culturais com o cais do sertão, que homenageia Luiz Gonzaga. Ali também já funciona o Centro de Artesanato de Pernambuco, muito bem estruturado.
Este mapa te ajuda na orientação pelo centro da cidade. São sete pontes.

A região onde se situa a cidade era ocupada pelos índios Caetés, índios extremamente ferozes. Recife sempre teve íntima ligação com Olinda, sendo o seu porto. Olinda, por estar melhor protegida, era a área das residências. O desenvolvimento maior ocorreu sob o domínio holandês, sendo a capital durante os 24 anos desta ocupação (1630-1654). Sob Maurício de Nassau, Recife se tornou uma cidade tolerante e cosmopolita. Ali conviviam judeus, calvinistas e católicos. Uma de suas ruas leva até hoje o paradoxal nome de rua do Bom Jesus e rua dos Judeus. Nesta rua se situa a primeira sinagoga das Américas, a sinagoga Kahal Zur Israel, aberta a visitação pública. Nesta rua também está o primeiro observatório astronômica da América, a Torre Malakoff. O Recife antigo é um museu a céu aberto. Ali também se situa a igreja Madre de Deus, a igreja dos casamentos da gente de bens.
A igreja dos casamentos chiques.
 
Atravessando as pontes você atinge os bairros Santo Antônio e São José. Na ponta, junto aos braços do rio está o Palácio das Princesas, sede do governo do estado, o Palácio da Justiça e o Teatro Santa Isabel. Atravessando outra ponte, já em Boa Vista, estará a Assembleia Legislativa. Mas, ainda permanecendo nos bairros de Santo Antônio e São José você encontrará as ruas apinhadas de gente e ruas comerciais extremamente movimentadas. Tudo isso em meio a um número sem fim de igrejas. Merecem destaque a Capela Dourada, com museu de arte sacra, a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, de São Pedro dos Clérigos, de Nossa Senhora da Penha, entre outras tantas. Se conseguir visitar todas, o céu estará praticamente assegurado.
O mercado São José. Deve ser o lugar mais popular de toda a cidade.

Duas atrações turísticas, além das igrejas também ganham destaque, o Mercado São José e a casa da cultura. O mercado São José data de 1871. Ele tem estruturas de ferro, pré fabricada na Europa, tendo sido projetado e construído por arquitetos franceses e imitado o mercado de Grenelle de Paris. Apesar disso ele é bem povão. Um belo lugar para se tomar cerveja e comprar o que se possa imaginar, em termos de produtos do nordeste. A casa da cultura é um antigo cadeião, cujas selas foram transformadas em lojinhas de artesanato. É ponto de parada de todos os receptivos. Você certamente também cruzará pelo restaurante Leite, na praça Joaquim Nabuco, considerado o mais antigo do Brasil, fundado em 1882. O restaurante tem até a sua história contada em livro. O leite ao sabor do tempo - a história de um restaurante.

 Recife tem também um passeio imperdível, o passeio de catamarã. Ele passa por debaixo de cinco pontes e te dá uma bela vista panorâmica da cidade. Ao passar por baixo das pontes, você poderá fazer pedidos, que, superstições ou crendices, dizem eles, nunca falham. Não deixei de fazer os meus. Os passeios saem de lugar próprio, mas em dias de maior movimento saem também do Marco Zero. Na descida você sempre pode optar também por descer no Marco Zero. Ele também funciona como camarote fluvial durante o carnaval. Um passeio maravilhoso.
A vista da cidade pelo passeio de catamarã é muito bonita. A cidade e as suas pontes.

A praia de Boa Viagem é enorme e emenda com Piedade já em Jaboatão dos Guararapes. Eu fiquei hospedado na altura do número 4.000. É um lugar privilegiado, uma vez que ali não existem os ataques de tubarão. Recifes impedem a sua chegada até a proximidade com os banhistas. A linha de ônibus que te leva ao Marco Zero é a de número 32.  Recife, pela confluência de seus rios, é conhecida como a Veneza brasileira. mas tem uma diferença fundamental. Em Veneza são canais, em Recife são enormes braços dos rios Capibaribe e Beberibe. Albert Camus lhe deu um outro nome, certamente bem mais charmoso, exaltando a sua cultura, a Florença brasileira.