segunda-feira, 18 de abril de 2016

Reflexões sobre o impedimento da presidente Dilma.

Hoje eu amanheci com uma tristeza profunda. Imaginei que melhor teria sido se, talvez, nunca tivesse estudado. Poderia estar até feliz, quem sabe, como muitos estão. Temo que seja ampla maioria.
Este texto faz parte do livro Crônicas da Resistência - uma democracia ameaçada. O livro é organizado pela jornalista Cleusa Slaviero.

Talvez fosse melhor nunca ter saído da caverna, pois, a luz incomoda. Melhor teria sido ver as sombras como realidade, sombras devidamente projetadas, como o faz a Rede Globo. Ela procura intelectualizar o senso comum e nos impossibilitar o pensar.

Talvez fosse melhor nunca ter lido a Eneida de Virgílio. Aí eu não teria o conhecimento do significado de Pátria, de ter tido um pai comum, - autor, - autoridade, que tem responsabilidade sobre todos os seus filhos. E fico imaginando, se em vez de Pátria, o conceito desenvolvido tivesse sido Mátria. Sempre, mil vezes mais generosa e afetuosa para com os seus filhos.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado o cristianismo primitivo, nascido na solidariedade, especialmente, pelo ato de dar um enterro decente aos mortos e de se reunirem à sombra, nas catacumbas. Aí talvez eu seria um cristão medieval, ardoroso cavalheiro de Cristo, empunhando a cruz e a espada, escravizando e exterminando povos e lamentando não existirem mais as cerimônias festivas dos autos de fé.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Kant, pois assim, estaria eternamente imerso na menoridade sem nunca emergir para a maioridade, sem nunca ter ouvido o Sapere Aude - o ouse saber.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Hegel, Marx e Engels e assim nunca teria ouvido falar em dialética e sempre continuaria confundindo a aparência com a essência.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Freud e, assim, nunca teria sabido sobre os nossos subterrâneos e sobre toda a complexidade do ser humano e nunca teria penetrado no mundo dos desejos.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Adorno, pois, assim eu nada saberia sobre a formação da personalidade autoritária, nunca teria me preocupado em transmitir os valores burgueses em sala de aula, coisa que até os próprios, não tem a coragem de o fazer e, sobretudo, não me preocuparia com o fato de que Auschwitz pudesse se repetir.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado Hannah Arendt e assim nada eu saberia sobre as origens do totalitarismo. do regime nazista.

Talvez fosse melhor nunca ter lido Primo Levi - É isto um homem? ou Os afogados e os sobreviventes e assim eu jamais saberia dos horrores ocorridos em um campo de concentração. Eu jamais teria sabido que o suicídio é um ato exclusivo do ser humano e que a desumanização foi tal, que não se concebia sequer, a ele recorrer.

Talvez fosse melhor nunca ter assistido um filme de Chaplin, especialmente, o Grande Ditador e assim, talvez, eu fosse tocado menos pelo humano.

Talvez fosse melhor nunca ter assistido O ovo da serpente de Ingmar Bergman, e assim, Jair Bolsonaro não me causaria nenhum horror e não sentiria nenhuma vontade de lhe dar uma cusparada, ainda que, ao menos simbolicamente.

Talvez fosse melhor eu nunca ter assistido A Fita Branca, e então ser um educador frio, neutro,  distante e sem nenhuma afetividade e, de preferência, fosse assexuado e com voto de castidade, sem me importar com as consequências.

Talvez fosse melhor nunca ter lido e visto, A Revolução dos bichos, 1984 e Fahrenheit  451, do magnífico Ray Bradbury e assim, talvez eu tivesse a coragem de queimar todos os meus livros, para a partir de então, ver e comentar apenas a programação da rede globo de televisão.

Talvez fosse melhor nunca ter pensado, nem nunca ter metabolizado o conhecimento e, assim, sempre me teria limitado a apenas reproduzi-lo mecânica e repetitivamente e produzido por uma indústria privada de apostilas.

Talvez fosse melhor nunca ter lido, estudado e convivido com Paulo Freire e assim não veria a educação como uma prática da liberdade e não saberia o significado de uma pedagogia em favor do oprimido.

Talvez fosse melhor nunca ter estudado um pouco de ontologia e, assim, nada saberia sobre a tridimensionalidade do ser humano, do tempo passado, presente e futuro e, assim, não anteveria o futuro sombrio que nos aguarda.

Talvez fosse melhor nunca ter lido a frase de Albert Jacquard que diz: "A coexistência é fonte de tensão; ela inicia uma dinâmica, a da comunicação. Comunicar é colocar em comum; e colocar em comum é o ato que nos constitui. Se alguém considera esse ato impossível, recusa qualquer projeto humano".

Talvez fosse melhor.....

Talvez fosse melhor.....

Talvez fosse melhor nunca ter lido Valter Hugo Mãe, o filho de mil homens, e ter visto o encontro de pessoas absolutamente desencontradas, mas que, ao final e - depois de terem se encontrado - rezam e celebram um dos mais belos poemas da humanidade, que diz assim:

"Sabes pai, gosto de pensar que nunca mais vou ficar sozinho e que alguém há de ficar comigo para sempre sem me abandonar.

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais de mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

Mas eu estudei. Estou triste, profundamente triste e indignado. O incômodo da luz, ao menos hoje, não me permite estar feliz, como o está a maioria. E graças ao estudo me fiz humano e solidário e com a percepção de nunca estar só.

10 comentários:

  1. Manter acesa a percepção de nunca estar só é íntimo de quem, realmente, nunca está só. Estamos juntos em conceitos, concepções, ideias e ideais. A argamassa que nos une é mais resistente que aquela frágil e tênue que (des)une os que hoje estão exibindo vexados as suas melhores caras de CUnha.

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  2. Rogério, que bom que a gente se conheceu no maravilhoso seminário anarquista. Nos congrassamos por ideais e não por interesses. E quando certas ingenuidades quiserem invadir a nossa mente, lembremo-nos dos anarquistas libertários. E quando a biografia do pimpão for lançada, avise.

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  3. Que ótimo seu desabafo argumentativo e de grande valia para o momento trágico e por que não falar também de hipocrisia. Quando saímos da caverna, ou pisamos para fora ou quando a mosca nos pica nunca mais Pedro! Vamos aguardar as cenas do segundo capítulo deste terrível momento e o que falar aos nossos alunos dos alcunhas e dos temerosos...
    Parabéns Pedro.
    Marcelo.

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  4. Terrível momento, você disse bem, Marcelo. Réus se transformando em ídolos, torturadores sendo homenageados e a delação e a traição sendo os valores maiores, não dá para ter grandes esperanças. Muito obrigado pelo seu comentário.

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  5. PENA eu não ter capacidade para entende los

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  6. O que é isso seu Arnaldo. Muita humildade.

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  7. Comigo ocorreu o mesmo caro companheiro. Apagar da humanidade a HIPOCRISIA. O sentimento de impotência nos leva ao menos temporariamente a tentar uma fuga. Mas é impossível, para grande parte é preciso vivenciar sentindo na carne , para que o aprendizado aconteça. Não basta o exercício da leitura dos fatos da história para prever o óbvio. E assim caminha a humanidade com avanços e recuos que nossa curta passagem pela vida não permite entender. Agora com a CANALHOCRACIA instalada eu só sinto pelas crianças e as populações mais vulneráveis. Mas a luta continua sigamos em frente sempre na LUTA. Parabéns pelo belo texto. Paz e bem!!!

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    1. Oi João Bello. Sentimento de impotência. As pessoas não querem ver. Não é por nada, mas Sócrates, o homenageado na alegoria da caverna, foi morto pelos seus contemporâneos. Preferiam ver as trevas, as sombras. Mas o sonho na perseguição aos ideais justos, igualitários e humanitários continua. Muito obrigado pelo comentário e um abraço.

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  8. Eterno professor, eu que não tenho 1/5 de sua sabedoria me sinto profundamente triste, imagino o Sr. Mas venho aqui agradecer. Que bom que o Sr. estudou, desta forma, contribuiu para que, pelo menos eu, repensasse os conceitos e ideais de uma sociedade justa e igual. O Sr. foi um dos responsáveis por me fazer pensar, e por isso sou eternamente grata.

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  9. Oi Ana Carla. Isso é deixar o jovem velho professor feliz. Muito obrigado.

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