quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÉTICA da libertação. Introdução: História mundial das eticidades. Enrique Dussel.

Em minhas rodas de conversa o tema das raízes de nossa cultura sempre estão vivamente presentes. Quais teriam  sido os mitos fundadores dessa cultura, que costumamos chamar de ocidental, capitalista e cristã. Que ela é eurocêntrica e, mais particularmente, helenocêntrica. Estamos até tentando formar um grupo, para uma imersão no tema. Por óbvio, essa questão passa pela religião e pela moral. Moral ou ética? As religiões sempre procuraram assumir a paternidade das doutrinas morais. A moral sempre enseja  em si, todo um complexo de paixões, interpretações e, porque não dizer, hipocrisias. Já a ética, é um acerto de contas, contigo mesmo. Creio não existir um tema mais atual do que esse, que possa ser merecedor de estudos em tempos tão conturbados como os que estamos vivendo.

Ética da libertação - na idade da globalização e da exclusão. Enrique Dussel. Vozes. 2002.

Pois bem. Revendo em minha biblioteca alguns títulos, separei o livro Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, do filósofo argentino, Enrique Dussel (1934-2023). Tenho este livro em meu poder desde 2002, mas ele foi apenas folheado e não lido. Agora eu vejo que ele vai para muito além de ser lido. É um livro para ser estudado. É um livro que preenche todos os requisitos para ser uma das fontes para o grupo de estudos a que nos referimos no parágrafo acima: as origens do nosso modo de pensar, ou seja, as origens e os fundamentos da cultura ocidental. 

Estou impressionado com o livro. E desde já, tenho a certeza de que será impossível fazer uma resenha. Talvez sim - um texto centrado em provocações para a sua leitura. E olha..., eu terminei apenas a leitura da primeira seção da introdução e já quero deixar registradas as minha primeiras anotações de leitura. E digo bem, anotações de leitura. Não pretendo fazer comentários, apenas situar algumas citações para fundamentar diferentes concepções bem como o seu enfoque fundamental. Então vamos lá. Elas estão na introdução: História mundial das eticidades. Seção 1. As altas culturas e o sistema inter-regional. Além do helenocentrismo (Das páginas 25 a 50). Essa seção aborda quatro tópicos, a saber: 01. A origem do sistema inter-regional: O Egito africano-bantu e os semitas do oriente médio. 02. Culturas sem relação direta com o sistema. O mundo meso-americano e inca. 03. O mundo "indo-europeu": Do império chinês ao romano. 04. O mundo bizantino, a hegemonia muçulmana e o Oriente. A Idade Média europeia periférica. 

Os tópicos 1 e 2, privilegiam as necessidades de um ser indiviso, privilegiando as necessidades corporais, as do viver e do manter-se vivo e saudável. Já os itens 3 e 4 nos apresentam o ser dividido entre corpo e alma, com toda a centralidade focada na salvação da alma e com o menosprezo ao corpo.

Do primeiro tópico, tomamos uma citação do Livro dos Mortos, uma coletânea reunida em torno de 1500 anos antes de Cristo. Um ser, o Ka (o princípio individual da pessoa) assim se apresenta diante do Juízo Final e exclama: "Não cometi iniquidade contra os homens... Não empobreci um pobre em seus bens... Não fiz padecer fome... Não acrescentei peso à medida da balança... Não roubei com violência... Não roubei pão... Satisfiz a Deus cumprindo o que ele desejava. Dei pão ao faminto, água ao sedento, vesti o que estava nu e uma barca ao náufrago... Fazei-o vir, dizem os deuses falando de mim. Quem és tu? me dizem. Qual é o teu nome? me perguntam".

O autor assim comenta essa passagem: "A existência humana concreta, individual, com nome próprio vivida responsável e historicamente à luz do Juízo de Osíris, constitui a 'carnalidade' real (a sua materialidade) da vida do sujeito humano como referência ética suprema: dar de comer, de beber, de vestir, hospedagem... à carne faminta, sedenta, nua, exposta às intempéries" (Página 27).

Do segundo tópico tomamos um texto com o qual os astecas promoviam a sua arte de educar: Mesmo que fosse pobre ou miserável //  mesmo que sua mãe e seu pai fossem os pobres dos pobres // não se via a sua linhagem, // só se atendia ao seu gênero de vida, // à pureza de seu coração, // a seu coração bom e humano, firme, // dizia-se que tinha o divino em seu coração, // que era sábio nas coisas divinas. 

Vejamos o comentário do autor: "A partir dos costumes (Huehuetlamanitiliztli - a antiga regra da vida) que juridicamente alcançaram um alto grau de precisão, com códigos de leis e tribunais de justiça, sempre entre os astecas - os tlamantinime racionalizaram uma doutrina unitária sobre o sentido da práxis humana individual e comunitária" (Página 32).

Do terceiro tópico tomamos duas passagens de Plotino, um dos adaptadores da filosofia de Platão ao cristianismo:

Se as almas (individuais) tivessem permanecido no Inteligível com a Alma do mundo, teriam evitado o sofrimento... Permanecendo durante longo tempo no afastamento e na separação do Todo, sem dirigir seu olhar para o Inteligível, tornaram-se um fragmento, isoladas, debilitadas, multiplicaram-se em ação.

Vejamos o comentário do autor:

"Toda a ética consiste agora num 'retorno' ascendente para o Um, quer dizer, 'a necessidade que a alma sente de fugir de seu trato com o corpo... que consiste em se libertar das gerações a fim de se  encaminhar para a Substância (divina Ousian)'. Este ato de retorno é a dialektike da ascensão para a Ideia de Bem em Platão, a bios theoretikós do exercício do noús em Aristóteles, a apatheia dos estoicos, a ataraxia de Epicuro, a gnose dos gnósticos, o 'conhecimento' do monge maniqueu, o êxtase final do monge budista pelo qual se liberta do samsara (eterno retorno da ensomatose ou reincorporação da alma) no estado de nirvana, e a via contemplativa como perfeição humana na Idade Média Latina.

E, uma segunda frase de Plotino: A purificação consiste - escreve ainda Plotino - em isolar a alma, não a deixando se unir às coisas, não as olhar mais; não ter mais opiniões estranhas à sua natureza [divina]. Quanto  à separação [o êxtase] , é o estado da alma que não se encontra mais no corpo, como a luz que não se encontra mais nas trevas.

Assim o autor comenta essa passagem: 

"É assim que desde a Grécia e Roma, até os persas, os reinos da Índia e da China taoísta, uma ontologia  do absoluto como o Um, uma antropologia dualista da superioridade da alma sobre o corpo (de alguma maneira, sempre causa do mal), instaura uma ética ascética de 'libertação' da pluralidade material como 'retorno' à Unidade original - movimento da ontologia neoplatônica e, posteriormente, do idealismo alemão, especialmente da Lógica de Hegel. É a lógica ética da Totalidade" (Páginas 35-36).

Do quarto tópico, por ser mais complexo e já, com muitas interconexões e de um período de tempo de longa duração, deixo uma transcrição de caracterização mais geral do período, um período marcado por crises, mas com a "ontologia indo-europeia e a eticidade dualista" já estabelecidas. 

Assim o autor comenta esse quarto tópico: "A visão de mundo do primeiro estágio do sistema inter-regional, o egípcio mesopotâmico-semita, voltará a se fazer presente, embora realizando, por seu lado, um desenvolvimento universalizador expansivo (tanto pelo fenômeno do cristianismo como pelo islamismo) e, talvez, como vimos acima, pela insuportável situação dos oprimidos dos impérios. A ética crítica de um pequeno povo dominado e escravo nas mãos do poder dos que dominavam a técnica da guerra e da agricultura, como o cavalo e o ferro (os filisteus e seu simbólico guerreiro "Golias nos tempos de Amarna) é reformulada numa região periférica do Império Romano, oportuna para explorados e excluídos...".

Não vou fazer outro post a partir desse livro. Creio que com essas quatro visões do mundo dá para deduzir e explicar muito do que se dá com as religiões e a sua pretensão de serem as donas das doutrinas morais. Salvar a alma, sem antes criar as condições de uma vida decente não faz o menor sentido. Esses dia vi um comentário interessante sobre os sete pecados capitais, a saber: Soberba (orgulho), avareza (ganância), inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Faltaria um oitavo, que seria o que efetivamente se chama de pecado capital, o pecado do capital, embora ele esteja implícito no pecado da avareza, ou da ganância. Semana passada tivemos a notícia de que um único ser humano alcançou, como propriedade sua, uma riqueza calculada em um trilhão de dólares, o que equivale quase a metade do PIB brasileiro. É óbvio que isso tem consequências. Libertação, emancipação...

Ainda quero fazer uma recomendação especial. No capítulo quinto do livro - A validade anti-hegemônica da comunidade das vítimas, temos no sub item 5.2. Processo ético-crítico em Paulo Freire, uma das melhores interpretações que eu já vi do principal livro que fundamenta o seu pensamento Pedagogia do oprimido. São 16 páginas (Da 427 a 443) de extrema valia. Vale demais uma conferida.

terça-feira, 23 de junho de 2026

WINSTON CHURCHILL. Stuart Ball.

De volta às biografias. E dessa vez, uma toda especial. A de um dos homens mais importantes e influentes ao longo das seis primeiras décadas do século XX. Foi um personagem decisivo no entorno da Segunda Guerra Mundial e determinante na resistência aos avanços nazistas. A França já havia capitulado. Tornou-se um dos três grandes da época: Churchill, Roosevelt e Stálin. Estou falando de Winston Churchill, do livro Winston Churchill, de autoria de Stuart Ball, da coleção - British Library Historic Lives:  - Winston Churchill. 

Winston Churchill. Stuart Ball. Tradução de Gleuber Vieira. Nova Fronteira. 2006.

Winston Churchill (1874-1965) foi duas vezes Primeiro Ministro inglês. O foi de 1940 a 1945, pela primeira vez, no difícil período da Segunda Guerra Mundial e, pela segunda, de 1951 a 1955, quando foi fundamental na modelação da geopolítica mundial do pós-guerra e na reconfiguração da importância política da Inglaterra, até então a primeira potência mundial, agora, já não sendo mais o Império Britânico. Por óbvio que um personagem de tal tamanho só pode provocar a curiosidade em torno de sua vida. E, diga-se de passagem, que foi alguém extremamente controvertido.

O livro não é longo. São 252 páginas, muitas delas tomadas por fotografias. Está estruturado em seis capítulos, uma cronologia dos fatos e algumas indicações de outras biografias. Vejamos os títulos dos capítulos, que aparecem em sequência cronológica: I. Marcando a presença (1874-1904). II. Mudanças de rumo (1904-1915). III. Navegando os baixios (1915-1929). IV. Sozinho (1929-1940). V. Caminhando com o destino (1940-1945). VI. Refreando os anos (1945-1965). Ele renasce para a política, quando emerge de seu período de solidão dos anos 1930, quando tudo aparentemente parecia ter acabado. A determinação foi a grande marca de sua vida, especialmente nessa fase mais conturbada de todo o século. Vamos aos capítulos, que crescem em importância ao atingirem a fase final de sua vida. Mas ele tem origens, ele tem construção histórica, ele tem vida política ativa, embora um tanto avesso, especialmente a partidos e a fidelidade a eles.

I. Marcando a presença (1874-1904). Uma contextualização da Inglaterra da época e da inserção nela de sua família. Ele pertenceu a uma família aristocrática por parte do pai, de quem herdou o gosto pela política e de uma família de novos ricos dos Estados Unidos, por parte da mãe. Sempre foi um menino desejoso pelas 'luzes da ribalta'. Estes eram os tempos da poderosa Inglaterra, do domínio imperialista, da maior marinha mercante do mundo. Vivia-se ainda o espírito de grandeza da era vitoriana. Na escola nunca foi bom, nem nos estudos, nem nos esportes. Seus anos escolares foram considerados improdutivos, sob o rigor dos regimes de internato. Desejava a carreira militar. As leituras e as viagens o transformaram em autodidata. O jornalismo o levou para a literatura. Com ela ganhou muito dinheiro e ela o levou, inclusive, ao Nobel de Literatura no ano de 1953. Ingressou nos debates políticos e às primeiras instabilidades na fidelidade a eles. 

II. Mudanças de rumo (1904-1915). Na política já trocara o Partido Conservador pelo Liberal. Nela era tido como um aventureiro sem princípios. Em sua atuação política, convivia tranquilamente com as diferenças sociais, mas batalhava para elevar a condição dos pobres a níveis de decência e de boa saúde, mas odiava o termo "luta de classes". Já percebia o antagonismo anglo germânico que estava em formação. Batalhava pela manutenção da superioridade naval britânica. Ocupa e deixa cargos na formação do Ministério. Ocorre a Primeira Guerra. A saída do Ministério marca um aparente fim de sua carreira política. 

III. Navegando os baixios (1915-1929). Aos 40 anos recorre à pintura como fuga à solidão e à depressão. Se apavora com os acontecimentos da Rússia e passa a ter, no combate ao comunismo. uma de suas obsessões. Se mostra favorável às pretensões do sionismo. Escreve sobre a Primeira Guerra. Após reveses políticos, volta a ela como Ministro das Finanças. A crise de 1929. Novas derrotas na política.

IV. Sozinho (1929-1940).Se ocupa e se mantém com viagens, palestras e livros. Relação familiar sempre tumultuada. Problemas com a bebida. Muito uísque, que bebia lentamente. Se ocupa com a questão da Índia, que considerava como o coração do Império. Era contrário a sua independência, que irá ocorrer em 1947, no contexto do pós-guerra. Há suspeitas de que perdera a razão. Tem poucos seguidores. Declara a lealdade à monarquia por temor às ditaduras. Defende uma política armamentista, como precaução contra os alemães. Se declara contra o Acordo de Munique de 1938, de política de apaziguamento. Assiste e condena os avanços alemães e cresce em importância política. Com a queda de Chamberlain (1940), ocupa o cargo de Primeiro Ministro, formando um governo de coalizão. A guerra se expande.

V. Caminhando com o destino (1940-1945). Assume o governo com a famosa promessa de "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e com o brado de " nunca nos renderemos". Aos 65 enfrenta a Blitzkrieg alemã. O auge da resistência ocorre entre o mês de junho de 1940 e maio de 1941. É desse período a sua mais famosa frase: "Nunca na história dos conflitos humanos tantos deveram tanto a tão poucos". A sua aprovação sempre beirava os 80%. Conduzia a guerra como se ela fosse uma ciência, sempre buscando aperfeiçoamentos. A situação melhorou um pouco com a entrada dos Estados Unidos na guerra e com a URSS, retendo o exército alemão em seu território. É um dos estrategistas da guerra nesse período. A frente do governo, assiste ao famoso 7 de maio, o dia D. Participa de todas as difíceis negociações de paz, do pós-guerra, da fundação da ONU e do Conselho de Segurança. As negociações com a URSS o incomodam sobremaneira. Sai da guerra exausto, tanto quanto a exaustão da economia inglesa. Assiste ainda a liquidação do Império Britânico com o espírito anticolonialista pós-guerra. Participa da Conferência de Potsdam. Mas na Inglaterra perde poder e prestígio para os trabalhistas. Era um grande líder apena nos tempos de guerra. Renuncia ao cargo de Primeiro Ministro, aos 70 anos.

VI. Refreando os anos (1945-1965). Foi difícil para ele, depois do protagonismo, a inatividade, longe da política. Ocupou-se mais uma vez com as viagens e a escrita. Intensificou seus ataques a URSS e cuidou para que a Inglaterra, após o declínio de seu Império, se mantivesse alinhada aos Estados Unidos. Temia o armamento nuclear com o acirramento da Guerra Fria. Se ocupa com a narrativa da Segunda Guerra e com a sua autobiografia. Literatura e palestras o tornaram uma pessoa rica e proeminente. Em 1953 é agraciado com o Nobel de Literatura. Em 1951, aos 77 anos, volta ao cargo de Primeiro Ministro e nele permanece até 1955. Se preocupa com a Commonwealth e a manutenção das conquistas trabalhistas e, aos 90, em 1964, comparece pela última vez à Câmara dos Comuns. Morre em janeiro de 1965.

Da parte final, tomamos uma síntese de seus feitos: "A vida política de Winston Churchill abarcou as seis primeiras décadas do século XX e durante todo este tempo ele foi um dos mais conhecidos e importantes homens públicos. Mudou por duas vezes sua filiação partidária e sempre despertou suspeitas de ser um aventureiro ambicioso, diagnóstico aparentemente confirmado pelos equívocos políticos e estratégicos que marcaram sua carreira. A carreira de Churchill não teve paralelo em extensão e variedade. Ficou assinalada por incansável empenho, pensamento inovador, julgamentos imperfeitos e extraordinárias realizações. Tudo fluiu de suas notáveis qualidades e personalidade, mas seu progresso foi sempre atrapalhado pela desconfiança que despertou até chegar em 1940 à liderança, durante a guerra". E arremata:

"A liderança obstinada e triunfante de Churchill na Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, sua maior proeza. Sua 'hora mais bela' de 1940-42, quando a vitória total parecia estar quase ao alcance da mão para a Alemanha nazi, determinou o curso não apenas da Inglaterra mas da história do mundo. Muitas outras coisas na vida de Churchill mereceram bronze ou mesmo chumbo, mas esta façanha foi digna de ouro. É sobre ela que repousa sua posição como vulto mais importante da Inglaterra no século XX". 

terça-feira, 16 de junho de 2026

MINHAS HISTÓRIAS DOS OUTROS. Zuenir Ventura.

Ainda na fase de minhas releituras. E que livro maravilhoso. A crônica de uma época. E é também maravilhoso saber que o grande jornalista ainda continua testemunhando a nossa história, da qual é, simultaneamente, participante e narrador. Estou falando de Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura. Ventura é mineiro de Além Paraíba, mas toda a sua vida se desenvolveu no Rio de Janeiro. Anos de formação e de profissão. Ele nasceu no ano de 1931. Começo esse post com um testemunho seu, de um projeto que norteou a sua vida de jornalista, que encontramos na contracapa do livro:


Minhas histórias dos outros. Zuenir Ventura. Planeta. 2005.

"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhos de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica". Maravilhoso. Críticos foram também os maiores intérpretes da realidade brasileira e muitos deles, colegas seus de profissão. Muitos deles você conhecerá mais de perto através de seu livro. Eu continuo com a contracapa do livro, uma espécie de apresentação.

"Este livro traz o testemunho de Zuenir Ventura, um dos mais brilhantes jornalistas do nosso tempo, sobre um período que vai do final dos anos 50, quando publica suas primeiras reportagens, até os dias de hoje. Em meio a lembranças pessoais e coletivas, estão as principais mudanças comportamentais, políticas e sociais, revividas em episódios conhecidos e desconhecidos, em personagens famosos e anônimos.

Pela excelência do texto e a diversidade da narrativa, minhas histórias dos outros é como o romance real de uma época em que houve do melhor e do pior: revolução sexual e arrojadas aventuras existenciais, mas também flagelos planetários como a aids e o narcotráfico; depressão e euforia, choro de alegria e de tristeza.

Há momentos cômicos e surpreendentes, como a entrevista com Fidel Castro, que nunca pôde ser publicada ou a foto acidental da calcinha branca de Jacqueline Kennedy. E há dramas pungentes como a zaga de uma testemunha marcada pelo destino. Em suma, o livro de Zuenir é uma fascinante aventura humana". A "testemunha marcada pelo destino", adianto desde já, é um dos momentos mais marcantes do livro, já na sua fase final. Ela está presente no último capítulo e envolve profundamente o escritor. O "até os dias de hoje", chega ao início dos anos 2000. O livro foi lançado em 2005, pela Planeta. 

O livro, de 270 páginas está estruturado numa sequência mais ou menos cronológica dos fatos, citando os principais, como também "os outros", de quem conta as histórias. Lembra de sua primeira morada no Rio de Janeiro, na Vila Isabel, de seu ingresso no curso de Línguas Neolatinas da Universidade do Brasil (Hoje UFRJ), de seus professores, com destaque para Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. Da política fala do suicídio de Getúlio Vargas e de seu significado, de JK., da renúncia de Jânio Quadros, de Jango, dos cinco ditadores militares, de Tancredo e Sarney, de Collor, de FHC e de Lula. Vejamos um trechinho da primeira página:

"Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia. Saiu às ruas em várias ocasiões - para enfrentar a polícia, lutar contra a ditadura, exigir liberdade, entoar cantos à anistia, festejar a volta dos exilados, pedir eleições diretas e derramar pranto pela morte de um presidente.

Houve do melhor e do pior. Foram tempos de revolução comportamental, de liberdade sexual, de arrojadas aventuras existenciais, mas também de flagelos planetários como a aids, o narcotráfico, o terrorismo e a violência urbana. Descobriu-se a pílula anticoncepcional e enterrou-se a camisinha, para depois ir buscá-la como defesa contra a aids".

Na sequência, os capítulos em que são narrados os episódios mais marcantes desses acontecimentos anunciados. Os tópicos da apresentação - uma faculdade de bambas e - como se pega um vírus - deveriam ser textos levados a debates nos cursos de formação continuada de professores, em contraposição ao que hoje é apresentado como paradigmas pedagógicos (tecno burocracia, plataformas, militarização em nome da disciplina...). Um tributo aos professores e o gosto pelo desvendar. Quanto ao vírus, trata-se de um vírus bom, o gosto pelo jornalismo, como sendo a sua segunda natureza. 

Na sequência e no espírito de 1968, Zuenir nos leva a Paris, o grande centro das mudanças culturais e comportamentais que se irradiaram mundo afora. É um belo panorama dos acontecimentos do pós Segunda Guerra Mundial, da atuação do presidente Charles de Gaulle, da diplomacia desse período de Guerra Fria e da independência da Argélia. E como De Gaulle enfrentou os generais franceses da extrema direita. Segue um capítulo dedicado a Glauber Rocha e, na sequência, fatos do período: perdão para todos - anistia; um mártir da abertura - Vladimir Herzog; O pênis não preservado - o terrorismo no Riocentro; um verão colorido - uma nova moralidade, um novo comportamento sexual; a chegada da peste -a aids; Bumbum e carteira do PCB - 1985 e a abertura democrática que permitiu exibir bunda e carteira de filiação ao PCB; Se meu computador falasse - sobre a evolução da tecnologia e suas dificuldades em lidar com ela; Enfim, as pazes - um reatar de amizades entre Nelson Rodrigues e Alceu Amoroso Lima; um suicídio mal contado - o do memorialista Pedro Nava, ocultado pela imprensa, na época. A questão da sexualidade; Mostra a tua cara - "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo" (Ulysses Guimarães). Cazuza.

Na sequência, uma série de textos sob a denominação de - notícias de uma guerra civil - em que trata da violência urbana e do crescimento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras. O último tópico é dedicado a alguns temas que lhe mereceram especial atenção, como  a relação do Governo do Rio de Janeiro no combate ao crime (governo Garotinho), a sua relação e admiração por Darcy Ribeiro e a sua interpretação de Brasil (simplesmente magnífico), sobre uma entrevista com Fidel Castro, nunca publicada, sobre a sua relação com os patrões com quem trabalhou e o já referenciado capítulo final - A saga de uma testemunha - a de Genésio Ferreira da Silva, fundamental para condenar o mandante e o executor do assassinato de Chico Mendes. Com certeza, este capítulo faz crescer no leitor, a admiração pelo grande brasileiro, testemunho e protagonista em muitos fatos da história brasileira. Tive um prazer enorme com a releitura desse livro, que li pela primeira vez no ano de 2011. Outro livro imperdível de Zuenir Ventura é 1968, o ano que não terminou. Que livro e que ano!

terça-feira, 9 de junho de 2026

REPARAÇÃO. Ian McEwan.

"Ela (Briony) estava calma, pensando no que tinha de fazer. A carta para os pais e a declaração formal, ela as escreveria rapidamente. Então estaria livre o resto do dia. Sabia o que se exigia dela. Não apenas uma carta, mas um novo rascunho, uma reparação, e ela estava pronta para começar" (Página 418). Assim termina o romance Reparação, de 2001, do escritor inglês, Ian McEwan. Fiz agora uma releitura. Conforme a anotação ao fim do livro, a primeira leitura foi em março de 2006. Não me lembrava praticamente de nada da primeira leitura. 

Reparação. Ian McEwan. Tradução: Paulo Henrique Britto. Companhia das Letras. 2002.

Eis aí o teor do livro. Briony é a grande personagem, a protagonista. Vamos então ver quem é ela e o que lhe aconteceu. Por óbvio, o título a entrega, ela cometeu algo de errado e o seu erro exigia uma reparação. Um erro sempre envolve uma relação com outras pessoas. Quem seriam elas? O parágrafo final também nos dá a ideia de que ela estava disposta ao reparo, a reconsiderar algo errado de um longínquo passado. Briony não era uma menina fácil. Ela sonhava ser escritora. Pertencia a uma família, que tudo indica, pertencia a classe média alta. Os outros dois personagens mais diretamente envolvidos são, a sua irmã Cecília e Robbie, este filho da faxineira da casa. Ele era como alguém da casa. 

Lá pelos idos dos anos 1935, a família de Briony e Cecília recebem a visita de parentes vindos do norte da Inglaterra. Observar a data é importante, são os anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Muitos dos fatos narrados são decorrentes da guerra. Para as visitas, a menina prepara a apresentação de uma peça - Arabela em apuros. Ela queria se exibir. É nessa noite que ocorrem os fatos. Ela flagra Robbie beijando Cecília e também, pouco depois, Robbie estaria aos beijos com a prima Lola. Eis os fatos. Há a penalização em função das acusações fortes e convictas de Briony. Há, em função disso, uma mudança profunda nos destinos de todos.

O livro é dividido em três partes, mais uma espécie de apêndice, sob o título - Londres 1999. Isso ocupa as 444 páginas do livro. A primeira parte é dedicada a apresentação e o envolvimento dos principais personagens e as encrencas da família de Briony e Cecília e a visita de seus parentes. A segunda parte se ocupa especialmente de Cecília e Robbie, envolvidos já na Segunda Guerra. Como soldado ele ameniza a sua pena e Cecília trabalhará como enfermeira, atendendo aos feridos, os seres humanos esfarrapados pela guerra. Já a terceira parte é dedicada a descrever os passos de Briony, que também escolheu ser enfermeira e também envolvida no tratamentos dos feridos. No apêndice, encontraremos, no ano de 1999, uma homenagem a escritora Briony Tallis, onde muitos dos fatos do passado são novamente trazidos à memória. O valor do romance está na força da narrativa e na caracterização psicológica dos personagens. Seu passado, psicanálise...

Como não quero adiantar os relatos, me limito a apresentar ainda, apenas o exposto nas orelhas do livro: "O premiado autor inglês Ian McEwan arma em Reparação uma trama fascinante em torno de Briony Tallis, pré-adolescente que nutre a ambição de se tornar escritora.

No dia mais quente do verão de 1935, numa casa de campo na Inglaterra, Briony vê pela janela uma cena incompreensível: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, filho da arrumadeira da família, despe a saia e a blusa para mergulhar, de sutiã e calcinha, na fonte do quintal. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a aprendiz de romancista, movida por uma imaginação febril e pela inexperiência, comete um crime que marcará a vida de toda a família. Briony passará o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

No nível mais imediato, Reparação é um drama psicológico que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial e as tensões de classe da sociedade britânica. Como vários críticos já observaram, há semelhanças interessantes entre esta obra e Pelos olhos de Maisie, de Henry James: em ambas, o núcleo é uma menina inocente tentando entender o mundo adulto da paixão e da sexualidade. Só que aqui temos, além do ponto de vista da protagonista, também os dos outros personagens centrais, de modo que os mesmos episódios são apresentados sob vários ângulos.

Mas o romance ganha uma nova perspectiva com base num dado que só é revelado no epílogo. Retrospectivamente, o leitor percebe que o que estava em jogo ao longo de toda a obra, além da questão da culpa e do perdão, eram as relações entre estética e ética. E só então se dá conta de que o livro cuja leitura está terminando, à parte ser uma narrativa deslumbrante, é também uma reflexão sofisticada a respeito da natureza da literatura, seus poderes e limitações".

E mais duas apresentações do livro, agora da contracapa: "A narrativa, como sempre em McEwan, mantém uma tensão ameaçadora, lenta e incansável. A leitura é magicamente cativante, e nunca antes McEwan havia mostrado tanta compaixão para com a vulnerabilidade do coração humano" (The Sunday Times).

"McEwan é um contador de histórias irresistível, um criador de narrativas que prendem o leitor até a última página. Mesmo para seus padrões exigentes, este último romance é extraordinário. Marcas registradas do estilo de McEwan, as frases, de grande eloquência e delicadeza, que em obras anteriores por vezes racionalizavam em excesso a evocação dos sentimentos, ganham ressonâncias ainda mais profundas em Reparação" (The Times).

Do escritor temos também a resenha de Sábado. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/sabado-ian-mcewan.html

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Eny e o grande bordel brasileiro. Lucius de Mello.

Leituras de entretenimento. Um livro que guardo comigo desde o seu lançamento em 2002. Eny e o grande bordel brasileiro. O autor é Lucius de Mello, que foi repórter da TV Globo, na cidade de Bauru. Agora já poso contar que o famoso bordel brasileiro ficava na cidade de Bauru. Até hoje não se sabe quem ficou mais famoso, se foi o bordel ou o sanduíche que deu nome à cidade. E, eu cá, após me deliciar com a leitura, me indago: mas o que é que poderia transformar a história de um bordel e a de sua proprietária num belo e marcante livro. Para explicar, recorro a Fernando Morais, que prefacia o livro:

Eny e o grande bordel brasileiro. Lucius de Mello. Objetiva. 2002. 

"Agora cai-me em mãos um novo Lucius de Mello, autor desse delicioso Eny e o grande bordel brasileiro - um livro em que o leitor não consegue descobrir onde termina a reportagem e onde começa a ficção. Se pudéssemos juntar em uma só obra uma personagem e quatro autores, teríamos Eny no papel central e Racine, Nelson Rodrigues, Gabriel García Marquez e Sófocles assinando este trabalho desconcertante que Lucius oferece aos leitores.

É pensando assim que me permito entender este conjunto deslumbrante de fatos, este chafariz surrealista que foi a vida de dona Eny - ou simplesmente, da 'Eny de Bauru', a proprietária de um dos mais célebres e festejados prostíbulos do Brasil.  O fatalismo de tragédia grega, que põe sempre o destino à nossa frente, enquanto fugimos dele, parece confirmar todas as teses literárias, artísticas e psicológicas que colocam a trama da vida como uma folha ao vento, um cão morto na correnteza, à espera apenas do tempo para acontecer, para cumprir o determinismo".

A história de Eny é uma história comum a muitos brasileiros, ou, no caso, brasileiras. Remete à Itália, à bela região de Salerno. De lá, já casado, sai Nicolau Cezarino, em busca de um futuro melhor no Brasil. Depois traria ao Brasil, já com a situação consolidada, Rosa, sua esposa. É assim que começa a tragédia ítalo-brasileira familiar dos Cezarino. Entram em cena uma madrasta e uma Magdalena, personagens do mal, da tragédia. Quis o destino que Eny tivesse as suas origens como um fruto dessa tragédia. Uma semente do sempre atormentador demônio, que sempre assustou tanto a Rosa, amedrontada com as uvas. O nome Eni, explica Lucius, vem do grego oínos, que significa vinho, vinho da Campânia, a terra do nono. Ah, o vinho e seus efeitos.

Assim já entramos no enredo da reportagem romanceada com a qual Lucius nos presenteou. Eny, a protagonista já entrou em cena e, lembrem-se, ela será vista pela família como a portadora de genes maléficos. Rosa jamais se conformará com os caminhos por ela percorridos e jamais a perdoará por causa desses descaminhos. Inconformada com a pobreza e a cotidianidade da vida ela sai de casa em busca de outros caminhos. Estes começam pela própria São Paulo, passando depois pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paranaguá e terminando na florescente cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Em consequência, dinheiro e fama. 

Um pequeno detalhe da vida de Eny não passa despercebido ao autor. Eny e sua irmã tiveram um professor de música, um professor particular, pago enquanto a família tinha condições para tal. Este professor ia para além da música. Falava de cultura e de política. Comentava sobre os acontecimentos do dia a dia, o que aguçava a curiosidade das meninas, suas alunas. É a deixa que o autor encontra para embelezar e revestir o seu livro de grandeza e de valor. Ele transformou seu relato num belo livro de história, de cultura, de psicologia e de sociologia, enfim, num belo livro de realidade brasileira. Uma viagem que começa na distante Itália e que vem ao Brasil, acompanhando a política do fim do Império, da abolição da escravização, da troca do regime imperial pelo republicano e, mais de perto, já envolvendo personagens que passaram pelo famoso Eny's Bar.

Eny gostava dos personagens políticos e afagava a todos. Eles em muito contribuíram para a fama de seu bordel. Assim como também os personagens da música, da literatura e da cultura brasileira. Sem dúvida nenhuma um dos pontos altos do livro. Assim como a história de Bauru, também envolvida em pecado e, por essa razão, carregava uma excomunhão desde o início do século. Evidentemente que a questão religiosa e moral também fazem parte do livro. Discriminação, exclusão e preconceito de um lado e benemerência, solidariedade e caridade do outro. A moral e a eterna hipocrisia que acompanha essa palavra. A generosidade de Eny não tinha tamanho.

Mas veio a decadência. Veio a concorrência dos motéis e a mudança nos padrões de comportamento. Uma aula de sociologia e de psicologia. As rebeliões do ano de 1968 ajudaram a transformar o mundo... A pílula anticoncepcional. Os dois últimos capítulos, os de número 20 e 21 são maravilhosos. O autor fala de sua percepção das mudanças, também percebidas por Eny.

"A cafetina referia-se à mudança dos costumes, inconformada com o grande número de moças que já estavam deitando com os namorados antes do casamento. Para a corretora de amores, ter aquela multidão de clitóris inexperientes como adversários era demais. Um desperdício de moeda. A empresária sabia o valor da matéria-prima dos seus negócios. Com suas meninas em baixa, o mercado desvalorizado, não restava mais nada a fazer senão falir com dignidade e um gole de esperança. Daria o que ainda resta do meu decadente patrimônio pela virgindade das donzelas, confidenciava ao silêncio. Elas abrem as pernas e eu fecho as portas. Será que o nosso tempo acabou mesmo? Será que minha vó Rosa tinha razão? Que o demônio quer se vingar da gente?". E em suas elucubrações procurava acertar as contas com São Jorge, o santo guerreiro, seu protetor (Página 272).

E, do último capítulo, uma frase síntese do tamanho da generosidade de Eny: "Eu sempre ajudei os coitadinhos, posso perder meu patrimônio, minha saúde, mas nunca o meu sentimento de solidariedade" (Página 283). A trajetória de Eny é contada ao longo de 21 capítulos, distribuídos ao longo de 292 páginas. Para corroborar a presença das análises de conjuntura política e cultural da época, ao final existem até as referências bibliográficas utilizadas. 

Mauro Rasi, dramaturgo natural de Bauru, ocupa a orelha da contracapa do livro: "A Casa da Eny foi uma referência da cidade, quase tão famosa quanto o sanduíche. No tempo dos viajantes, era só falar de Bauru que se pensava em sacanagem. Até poucos anos atrás a associação era imediata. Devemos isso a ela. Mas naqueles pudicos anos, quando ia com minha mãe ao Mercado Municipal e éramos obrigados a cruzar a rua do pecado, como era conhecida a famosíssima rua Costa Ribeiro, ou 'aquela rua', como diziam lá em casa, mamãe me fazia baixar a cabeça. Deste modo, fiquei com a visão impressionista da zona do meretrício. Formas difusas, cores fugidias e muita imaginação. Devo ter sido uma das raras pessoas que foram à zona com a mente e não com o corpo. Eny nos faz ter saudade do pecado".

E como começamos com Fernando Morais, vamos também encerrar com ele. Da contracapa, a sua recomendação: "Prepare-se para levar um banho de beleza, de história e de maravilhosa literatura". E eu acabo de sair desse banho.

terça-feira, 26 de maio de 2026

A SANGUE FRIO. Truman Capote.

"Um romance sem ficção". O jornalismo literário. A cobertura de um terrível assassinato de um fazendeiro e sua família, no interior dos Estados Unidos, na cidadezinha de Holcomb, no estado de Kansas. A família Clutter, marido, esposa, filho e filha. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon. Um assassinato cometido pelos ex presidiários Perry Smith e Dick Hickock. Esses são os personagens de um dos maiores best-sellers de todos os tempos. Estamos falando de A sangue frio, de Truman Capote. Junto ao título, um subtítulo. Ou seria uma nota explicativa: A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos, executados cinco anos depois. O crime ocorreu no ano de 1959 e o livro veio a público, através da revista The New Yorker, em 1965.


A sangue frio. Truman Capote. Tradução: Sérgio Flaksman. Companhia das Letras. 2006.

Uma pequena mudança de rumos em minhas leituras, ou melhor, releituras. Em agosto de 2006 eu li esse livro pela primeira vez. Essa leitura veio a reboque de debates que fizemos no curso de jornalismo da Universidade Positivo, a respeito do jornalismo literário. A releitura, agora, foi fruto de querer ler algo mais leve, que fugisse da teoria ou de biografias, uma leitura assim, meio entretenimento. Mas foi bem mais do que isso. No livro encontramos um retrato de época dos Estados Unidos e, especialmente, de seu sistema penitenciário. Muita descrença em meio a muitas crenças. Crenças embebidas de uma profunda moralidade. Ah! A moral.

No posfácio, Matinas Suzuki Jr. nos dá a origem do livro: "Em novembro de 1959, Capote, que estava em dívida com a revista (The New Yorker - recebera uma grande adiantamento para uma reportagem sobre a vida na Rússia da Guerra Fria e não escrevera a matéria), leu nas páginas internas do The New York Times a notícia em uma coluna do assassinato de um fazendeiro e sua família em algum lugar remoto do estado de Kansas. Em princípio, o título da notícia não despertou interesse especial em Capote. Mas, depois de remoer a história em sua cabeça por um dia e meio, viu ali a oportunidade que procurava para realizar um projeto que marcaria para sempre as relações entre o jornalismo e a literatura". Pouco depois ele dá a intenção dos editores:

"Uma das grandes sacadas da dupla (Ross e Shawn, os editores) foi ter percebido que havia uma sedutora zona cinzenta entre o jornalismo e a literatura - e ter feito dessa área de névoas um dos pilares editoriais de uma publicação de periodicidade semanal. Para Shawn, interessavam pouco os detalhes, a descrição ou mesmo a violência do crime 'naquelas planícies plantadas de trigo do oeste de Kansas'. Como editor de uma revista que precisava publicar mais do que fatos, ele queria uma história que mostrasse os efeitos do crime, 'a história de uma pequena cidade do Meio-Oeste respondendo a uma catástrofe sem precedentes'. Capote demorou sei anos para escrever essa história, na qual ele se envolveu profundamente. Ele se tornou o grande confidente dos dois assassinos na prisão. Com Perry Smith houve um envolvimento maior, nos conta Suzuki Jr. :

"Havia uma grande empatia entre o personagem real, Smith, e o escritor Capote. Os policiais estavam certos  que os dois eram amantes e que Truman subornava guardas para encontrar Smith". Ivan Lessa, na apresentação do livro, também nos relata sobre os envolvimentos entre o autor e os seus personagens: "Presos os dois assassinos, conseguiu ter acesso a eles e - seria identificação? - aos trejeitos psicológicos que aproximam dois homossexuais, se um quê homossexual tivesse Perry Smith. Há teses a respeito - acabou íntimo de Perry, ele também pouco mais que um anão, como Capote.

"Capote passou ao todo um ano e meio no Kansas examinando aspectos da 'história' e conversando com quem podia, principalmente os 'dois meninos', como os chamava". O livro tem quatro capítulos, ao longo de 432 páginas, incluídos aí a apresentação e o posfácio. No primeiro capítulo - Os últimos a vê-los com vida - o cenário e os personagens protagonistas são apresentados aos leitores. No segundo capítulo - Pessoas desconhecidas - o pós crime nos é mostrado. O povo de Holcomb e os assassinos em fuga. No terceiro capítulo - Resposta - entramos em contato com as primeiras pistas de elucidação do crime e as investigações decorrentes. No quarto e último capítulo - O Canto - nos revela o local onde estão presos os condenados e as peripécias de seu julgamento. Muita atenção é dada ao histórico familiar dos assassinos. O que os teria levado a fazer o que fizeram. O passado revelando o presente...

Vamos ainda a uma aproximação maior com o livro e com o autor através das orelhas de capa e contracapa: "Com o objetivo de fazer uma reportagem sobre o assassinato do casal Clutter e seus dois filhos, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, Truman Capote passou mais de um ano na região, entrevistando os moradores e investigando as circunstâncias do crime. Sem gravador ou bloco de notas, munido apenas de sua prodigiosa memória e de um talento excepcional para observar detalhes, escarafunchar informações e, sobretudo, contar uma boa história, Capote produziu um clássico do jornalismo literário.

Para narrar a trajetória dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, da cena do crime ao corredor da morte a que terminariam condenados, o autor obteve a amizade e  confiança irrestritas dos dois criminosos. Nada escapou ao olhar do repórter: o dia-a-dia da comunidade, os derradeiros instantes de cada vítima, a repercussão, a aridez arrebatadora das paisagens do Kansas. Os requintes narrativos empregados por Capote revolucionaram um gênero dos mais tradicionais - a reportagem policial - e puseram A sangue frio entre os grandes momentos da literatura americana do século XX,

Publicado em 1965 na revista The New Yorker, em quatro partes, e em livro no ano seguinte, o texto levou fama e prestígio ao autor. A chacina dos Clutter se tornou um desses crimes que volta e meia mobilizam a América. Ao conferir dimensão épica a um assassinato aparentemente revestido de banalidade, A sangue frio escancarou o lado sombrio do sonho americano no pós-guerra. As saídas são poucas, tanto para os assassinos, criados num ambiente pobre e fraturado, como para a família, abastada e exemplar, cujo ideal de realização parece não ir muito além de assar tortas de cereja para a feira do condado.

Nas mãos de Truman Capote, o exame exaustivo da realidade é mais que exemplo de jornalismo brilhante: é também um estímulo à capacidade de reinventá-la". A vida do autor também é uma história: "Truman Streckfus Persons (Truman Capote) nasceu em Nova Orleans, em 1924. Escreveu dez livros, entre peças de teatro, romances e perfis jornalísticos. Pretendia fazer um grande painel da burguesia americana em Answered prayers, romance que nunca seria concluído. Debilitado pelo álcool e pelas drogas, morreu em Los Angeles, em 1984, após uma parada cardíaca. Dele, a Companhia das Letras lançou Bonequinha de luxo e Música para camaleões".

quarta-feira, 20 de maio de 2026

LULA - Biografia. Volume 2. Fernando Morais.

Um presente valioso. Mal e mal fiquei sabendo que o volume número 2 da biografia de Lula acabava de ser lançado, recebo um telefonema, me perguntando se eu já o havia comprado. Como disse que não, veio o pedido para não comprá-lo, que eu iria ganhá-lo de presente. Coisas da minha maravilhosa amiga Suzi. Sem demora recebi Lula - biografia. Volume 2, de autoria de seu consagrado biógrafo Fernando Morais. O Brasil está muito bem de biógrafos.

Lula - biografia. Volume 2. Fernando Morais. Companhia das Letras. 2026.

Como recentemente li a biografia de Castello Branco, de autoria de outro grande biógrafo, o Lira Neto, (Também autor dos três maravilhosos volumes sobre Getúlio), me veio a tentação de fazer uma comparação. Resultado: Empate. Estava maravilhado com a aula de história do Brasil dada pelo Lira Neto com a biografia do Castello, riquíssima em análise de conjuntura de época. Mas agora, com o término da leitura da biografia do Lula, também riquíssima em detalhes de bastidores, além de precisas  análises conjunturais, é que eu optei pelo empate, ou melhor, pela vitória dos dois.

O primeiro volume de Lula, lançado em 2021, não obedeceu ao ritmo normal de uma biografia, começando pela infância, anos de formação e primeiras atividades que lhe deram projeção. Começou pelos movimentos mais recentes de sua vida, pela sua prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018, por obra da nefasta ação em dupla de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dobradinha entre acusador e juiz. O movimento se tronou conhecido como Lava-jato, ou República de Curitiba. Apenas após a narrativa desses absurdos, é que começa a história da infância do filho de Dona Lindu, de sua vida de retirante, vindo para São Paulo, onde mais tarde o veríamos ascender como líder sindical e dar os seus primeiros passos na vida política. Apenas lembrando que em 2021 Lula foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal de todas as acusações de que fora vítima. Enquanto isso, a dupla Moro e Deltan continuam atormentando a vida política dos paranaenses.

Feita essa digressão vamos ao segundo volume. O seu teor abrange um dos momentos mais bonitos de nossa história, o período da saída dos intermináveis 21 anos da ditadura militar e o florescer dos maiores movimentos de participação popular, com a redemocratização. Por ela passamos pelo  movimento em favor das eleições diretas - Eu quero votar para presidente -, pelo movimento em favor da anistia e da constituinte e do retorno das eleições diretas para presidente da República. Água nova brotando e inúmeras novas demandas da democracia encontraram espaço de manifestação e realização. Demandas reprimidas, feito água caçando jeito, para usar a bela expressão do nosso querido poeta Manoel de Barros. E Lula, em todos esses movimentos, sempre protagonista. Este segundo volume termina com a sua eleição em 2002, o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil.

O próprio Fernando de Morais conta o teor deste segundo volume, ao seu final: "Neste segundo tomo eu reencontro Lula já refeito de sua primeira derrota, como candidato a governador de São Paulo, em 1982. Este volume acompanha os bastidores de sua trajetória na campanha das Diretas Já, a retumbante eleição para Constituinte e as Caravanas da Cidadania, em que ele esquadrinha o Brasil de cima a baixo. Trata também das três derrotas nas frustradas campanhas presidenciais, sua tentativa de aliança com o PSDB, na eleição presidencial de 1994, e encerra com o coroamento de sua carreira, na vitória para a Presidência da República de 2002".

O grande valor do livro está na narrativa dos bastidores, nos detalhes que não foram suprimidos, no cotidiano de uma pessoa viva e ativa participante dos fatos, assumindo postura e compromissos sem jamais se omitir. Responsabilidades enormes. O livro é de fácil compreensão por um motivo muito simples. É a narrativa de fatos contemporâneos. Eu pessoalmente, vivenciei esses fatos. Participei de todos esses movimentos. Em Umuarama, lembro perfeitamente da campanha pelas Diretas Já, da Constituinte (Junto com a companheirada da APP, estive três vezes em Brasília), dos comícios pró-Lula, de 1989, dos cara-pintadas e do Fora Collor. Naquele tempo já havia muito ódio contra Lula, um operário querendo disputar um lugar, sempre de exclusiva competência da classe patronal. Nesse tempo eu exercia funções de direção sindical, de direção no Partido dos Trabalhadores, de formação de quadros do PT na escola de Cajamar e na participação do processo eleitoral de 1990, como candidato a deputado federal, na única certeza de ajudar a somar votos para a bancada do PT. Em 1990 o Paraná elegeu três deputados federais: Edésio Passos, Paulo Bernardo e Nedson Nicheletti. Neste micromundo também fui um pouco protagonista. Com a leitura consegui me situar melhor no meu próprio mundo. E isso foi maravilhoso.

O capítulo que mais profundamente me marcou foi de número dez - Lula roda 30 mil quilômetros para fazer um doutorado sobre o Brasil profundo -. É o capítulo da primeira das Caravanas da Cidadania, na qual ele reproduz o seu caminho de retirante nordestino para o sudeste brasileiro, caminho percorrido por tantos outros brasileiros, em busca de trabalho e um pouco de dignidade humana em centros mais desenvolvidos, que, mais cedo que outras, receberam os investimentos do Estado. Essa caravana deve ter contribuído em muito na formação de toda a sensibilidade social da qual Lula é dotado. Não tem como ficar indiferente a tanta miséria sentida por Lula, na repetição de sua trajetória de vida. 

O livro, ao todo, contem 333 páginas, divididas em 14 capítulos. E, reforçado pela leitura da trajetória nada fácil da vida do Lula, de suas dificuldades e de seus êxitos, me confesso reconfortado e animado para mais uma batalha, a batalha deste ano de 2026. É luta por democracia. É luta por civilização. É luta por direitos e dignidade. É luta por humanidade. Vamos continuar construindo o terceiro volume da biografia do maior personagem contemporâneo de nossa história. Concluo como Fernando Morais termina este segundo volume, citando Gilberto Freyre, diante das transformações brasileiras de 1930. Não estranhem:

Eu ouço as vozes

Eu vejo as cores

Eu sinto os passos

De outro Brasil que vem aí. 

Este verso motivou a campanha de 2002 - (Duda Mendonça) da Esperança vencendo o medo.

E o post do volume I.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/lula-biografia-fernando-morais.html



terça-feira, 12 de maio de 2026

CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

Um tema necessário para quem, minimamente, quer acompanhar as estruturas políticas e econômicas do nosso mundo contemporâneo. É impossível não deter um olhar sobre o que está ocorrendo na China. Nesse sentido, entre os livros que comprei para serem lidos no período de recuperação de uma cirurgia de prótese de quadril, incluí China - o socialismo do século XXI. A autoria é de Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é resultante de uma tese acadêmica dos autores, realizado na Universidade da Campânia L. Vanitelli, de Nápoles, sob a supervisão de Francesco Schettino, que também prefaciou o livro e que assim o define:
China - o socialismo no século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele. Boitempo. 2021.

"Com uma abordagem bastante materialista, os autores vão ao cerne da questão, evidenciando as ligações existentes entre as relações de propriedade, por um lado, e, por outro, as formas e a eficácia das ferramentas de planejamento/projetamento, assim como o papel crucial que estas últimas podem desempenhar como alternativa realista à anarquia do capital". Os autores examinam a realidade chinesa que se iniciou com as reformas do ano de 1978, quando se inicia a nova formação econômica e social de um socialismo de mercado. Uma economia de planejamento e de projetamento para o socialismo, com a priorização dos resultados econômicos para o humano. Os autores são os primeiros a reconhecer a polêmica que o livro viria a causar, pelo fato de lançar um novo olhar sobre o socialismo, que eles denominam de O socialismo do século XXI. Creio que o seguinte parágrafo da introdução traduz, tanto esse novo olhar, quanto a própria estrutura do livro:

"Tínhamos clareza de que estávamos rompendo com uma forma de pensar arraigada não somente em duas ou três gerações de intelectuais comunistas ocidentais. Estávamos rompendo também com uma visão poderosa - porque quase mítica - do marxismo e do socialismo. A China e o 'socialismo de mercado' deveriam ser tratados como uma formação econômico-social nova, distinta. Essa observação pode ser considerada a primeira parte da história, e mais difícil. Uma vez convencidos disso, como são testemunha nossos caminhos particulares, observar e classificar as lógicas do funcionamento dessa nova formação econômico social passou a ser a nossa busca comum".

O livro, portanto está estruturado em duas partes: Parte I. Capitalismo e socialismo como modo de produção, com oito capítulos e Parte II, A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. São mais sete capítulos. Essa nova formação econômico-social se constitui em um metamodo de produção, com orientação para o socialismo. Um modo de produção híbrido, que vai se constituindo, sempre em busca, sempre em transformação, com objetivos muito claros e bem delineados. Devo também dizer que não é um livro para principiantes. Seria um livro apenas para economistas? Creio que não. Embora a leitura e a compreensão se tornem difíceis, quando não acompanhados de debate. Este é o verdadeiro sentido de uma aula em universidade. Expor as primeiras compreensões e a partir delas aprofundar as categorias trabalhadas.

Devo ainda dizer que um dos grandes objetivos dos autores foi a de desmentir a tese em voga na década de 1990, a do "fim da história". A tese de que não haveria alternativas e que todos deveriam se render às doutrinas liberais, revestidas e aprofundadas pelo neoliberalismo e impostas ao mundo pelos organismos internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A nova formação econômico-social chinesa é a prova viva do caráter dialético da história e a negação absoluta de que ela teria chegado ao seu fim, teria chegado ao seu estágio final de aperfeiçoamento. Outro ponto alto dos autores é o da constatação de que nessa nova formação econômico social o setor produtivo da economia deverá financiar o setor improdutivo. Em outras palavras, a produção de mercadorias deve financiar os serviços prestados pelo Estado, como educação, saúde, habitação e bens públicos. E, isso é muito importante, a China conseguiu fazer isso. Criou mecanismos para isso. Aí já estamos entrando na segunda parte do livro. 

Se você conseguiu atravessar as duas partes do livro, ao final você encontrará uma síntese fantástica sob o título de - conclusões -, que em muito facilitará a sua compreensão. São doze tópicos, dos quais dou os títulos: 1. Socialismo no século XXI?; 2. O básico; 3. O planejamento, seu potencial e limites; 4. O metamodo de produção; 5. Macrossetor produtivo e macrossetor não produtivo; 6. Estados desenvolvimentistas de orientação socialista; 7. Capacidades estatais; 8. Antes de tudo, reformas rurais; 9. A via chinesa: Estado, mercado e os grandes conglomerados empresariais estatais (GCEE); 10. A Comissão de  Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC) como a principal inovação institucional; 11. Partido Comunista da China; 12. O socialismo de mercado em nível superior: A 'nova economia do projetamento'.

Mais duas observações. Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas.

Outro destaque, além dos pontos que melhor atendem a curiosidade sobre o que a China fez para atingir tamanha grandeza, explicitados, nos itens 8, 9, 10 e 11. quero chamar atenção especial ao item 12. A teoria da economia do projetamento é de um brasileiro. Ela foi desenvolvida por Ignácio Rangel, em seu livro Elementos de economia do projetamento, um livro de 1959. Enquanto o planejamento atinge o macro, o projetamento atinge o micro, o nível das empresas.  Ignácio Rangel (1914- 1994) foi uma das pessoas mais influentes na formulação das políticas econômicas do Governo de Getúlio Vargas, as do nacional desenvolvimentismo, colaborando na formulação dos projetos da criação da Petrobras e da Eletrobras. Foi um dos pensadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, criado em 1955, para pensar projetos para o Brasil. O ISEB foi liquidado pelo governo da ditadura civil-militar ainda no ano de 1964 e Ignácio Rangel foi posto no ostracismo, um decreto de morte ao seu pensamento. Mas, a dialética... E o que não representou para o Brasil este mal fadado golpe?

Vamos buscar esclarecer um pouco mais sobre o livro, pela apresentação de Carlos Eduardo Martins, professor da UFRJ, nas orelhas do livro: " A ascensão acelerada da China no sistema mundial capitalista desde os anos 1980 - que, principalmente a partir da Guerra do Ópio, inverteu o longo declínio iniciado no século XIX - constitui o principal acontecimento geopolítico para a análise das ciências sociais e da economia política contemporâneas. O reencontro da China com a economia mundial capitalista, após a desconexão imposta pela revolução maoísta, não ensejou uma nova ocupação e vitória do imperialismo ocidental como Nixon e, posteriormente, os apologistas da globalização neoliberal imaginaram. Tampouco uma submissão ao dólar e ao poder financeiro estadunidense, que tanto impressionou parte da esquerda brasileira e mundial.

Ao contrário, por meio de um processo de hibridização, a China conserva sua soberania interna e mostra que o domínio científico e tecnológico é uma das fontes estratégicas de poder mundial. Impulsionando uma nova onda de crescimento econômico mundial, arranha a ilusão de totalidade do capital fictício, atravessando o seu espelho com a força dos valores de uso, aos quais o mundo da mercadoria está indissoluvelmente ligado.

Elemento chave nesse processo é a reinvenção do Estado, que em vez de se orientar para um processo de acumulação independente do mundo do trabalho - caminho aventureiro trilhado pelo eixo de poder anglo-saxão -, lidera a mais vasta erradicação da pobreza da história da humanidade. Além disso, uma imensa reorganização empresarial e um vasto desenvolvimento de capacidades de amplas massas lançam os pilares de uma potência territorial de escala muito superior à das potências marítimas ocidentais que lideraram a civilização capitalista.

Elias Jabbour e Alberto Gabriele estão entre os mais destacados estudiosos da China contemporânea e dos processos de transformação em curso, que ultrapassam suas fronteiras e abrem as perspectivas de novas formas de existência. Os autores entregam neste livro um rico material analítico e empírico e propõem uma síntese original entre o marxismo, o estruturalismo e o keynesianismo que não pode ser ignorada pelos cientistas sociais". Vejamos ainda Luiz Gonzaga Beluzzo na contracapa:

"Este livro magnificamente organizado e escrito por Elias Jabbour e Alberto Gabriele, gratificará o leitor com os sabores incomparáveis da aventura intelectual. Na vida do conhecimento e da compreensão da sociedade e da economia devemos sempre almejar à desconstrução do estabelecido e buscar os desafios do novo que nasce do movimento dos homens e de suas relações. É isso que o que nos oferecem Jabbour e Gabriele. A exploração dos autores empenha-se em descobrir no socialismo da China a construção de uma nova formação econômica e social que instiga a perplexidade dos conformistas que não se cansam de indagar: Capitalismo de Estado ou Socialismo de Mercado?". Do livro consta ainda um apêndice sob o título de - Os outros dois membros da nova classe de formações econômico-sociais de novo tipo: Vietnã e Laos. Acrescento também os posts de mais dois livros: Uma história da Revolução de 1949, e a da China sob a Revolução, até as grandes transformações, a partir de 1978.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos.

Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.

Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.

A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935.  O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história.  O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é  constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro). 

Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro). 

Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:

"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:

Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade". 

Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.

Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.

Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere". 

E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".

E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!

É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A milésima segunda noite da Avenida Paulista. Joel Silveira.

Como já falei em outro Post, no dia 11 de fevereiro de 2026, fui submetido a uma cirurgia de prótese de quadril. O mais complicado dessa cirurgia não é ela em si, mas o seu longo tempo de recuperação. A primeira semana de convalescença eu passei na chácara. A dependência é quase total. Um mês de andador. Nela recebi a visita dos amigos Valdemar e do pai Firmino. Pai Firmino ainda me presenteou com um livro de Joel Silveira - A milésima segunda noite da avenida Paulista. Junto a capa, uma nota explicativa: Reportagens, perfis, e entrevistas do repórter que mudou o jornalismo brasileiro. Duas curiosidades: o teor do livro e conhecer, mais de perto, o seu autor.

A milésima segunda noite da avenida paulista. Joel Silveira. Companhia das Letras. 2003.

Vamos então atender as curiosidades: Primeiro a do livro, por uma parte de sua contracapa: "De grã-finos em São Paulo", matéria publicada em 1943, que chega aos dias de hoje como um cult do jornalismo nacional, aos textos mais recentes, igualmente ferinos. A milésima segunda noite da avenida Paulista traz perfis de escritores, artistas e intelectuais e conta episódios dos bastidores da cultura, formando uma painel variado (e sempre divertido) da vida brasileira". E, em segundo, o autor, que nos é apresentado por Fernando Morais, no Posfácio em que apresenta o jornalista, sob o título "A víbora está viva". Este apelido ferino lhe fora dado por Assis Chateaubriand. Joel Silveira era sergipano, nascido na cidade de Lagarto, em 1918 e construiu a sua vida de jornalista no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 2007. Além da descrição das elites da avenida Paulista da década de 1940, também se destacou como ácido crítico da ditadura militar, instituída pelo golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.

Também traz uma série de mini biografias de intelectuais e escritores com os quais conviveu e entrevistou. Entre eles figuram o escritor e crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), retratado por uma entrevista realizada em 1943, 18 poetisas revoltadas contra um mundo em guerra, um trabalho jornalístico seu do ano de 1944, um retrato de Assis Chateaubriand, com quem mais tarde veio a trabalhar, inclusive como correspondente de seu império jornalístico, da Segunda Guerra Mundial, como enviado especial, direto do front. Outro perfil destacado é o do escritor Monteiro Lobato. No campo da reportagem ganharam destaque algumas conversas mantidas com alguns cangaceiros de Lampião.

Voltando aos perfis de intelectuais e escritores encontraremos um belo retrato de Graciliano Ramos, de Manuel Bandeira, de Nássara (Antônio Gabriel Nássara - 1910-1996, compositor e caricaturista), co-autor, com Haroldo Lobo, da clássica marchinha carnavalesca Allah-la-O e uma reportagem, já do ano de 1967, sobre Cândido Portinari, a partir de Brodósqui, sua cidade natal, no interior de São Paulo, além do relato de seus encontros com João Cabral de Mello Neto, com Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, Gilberto Freyre e o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Mas o destaque do livro são os retratos caricaturados da elite paulistana da década de 1940, das duas primeiras, digamos, reportagens. A primeira tem por título: 1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo e a segunda, que empresta o seu título ao livro: A milésima segunda noite da avenida Paulista. Da primeira destaco os quatro grupos de ricos e ricas paulistanas. Vejamos: "Além do 'quarto grupo', o grupo de Alfredo Mesquita e Roberto Moreira, existem outros três grupos, cada qual com suas características próprias. O primeiro grupo é formado pelos grã-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos, e representa o pináculo do grã-finismo. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heroicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades. Morreram todos, estão enterrados na história, mas deixaram aos seus descendentes um presente régio: deixaram um cartão de visita, espécie de permanente com o qual um Prado, um Leme e um Alves Lima podem entrar sem pagar nada" (página 12). Vamos ao segundo grupo.

"Cintilantes de joias, as senhoras do segundo grupo, o grupo 'reserva', tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos, o grupo de d. Odete Matarazzo, d. Débora Zampari, d. Rosa Frontini, d. Irene Crespi, d. Mimosa Pignatari, d. Helena Noquosi. O pai de d. Odete, por exemplo, veio ver o que havia por aqui, e por aqui havia muito. D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais: tem um sobrenome, e os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são os donos de São Paulo. D. Odete tem atrás de si fábricas e exércitos de operários. É uma senhora muito poderosa" (Páginas 12-13). E vamos ao terceiro grupo:

"Mas há o terceiro grupo, um grupo lamentável e melancólico. É uma gente que não vem lá de longe. Uma gente que nasceu por aí, de família recente, de médicos de Barretos ou comerciantes de Bauru. Uma gente que não tem dinheiro. Os homens vivem dos seus pequenos ganchos e comissões. Alguns escrevem em jornais uma literatura precária. Mas a serpente do grã-finismo tomou conta de todos, dos homens e das mulheres. As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento mensal - contanto que se tornem dignas do Roof ou do Jequiti. É o grupo do 'estribo' e o grupo do 'penacho'. Os homens se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser essa a características principal da grã-fina, como o dente de ouro é característico em todo turco" (Página 14). E por aí o cronista vai destilando o seu veneno de "víbora". Na segunda reportagem temos o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo com o 'pracinha' João Lage. Há peripécias deliciosas...

As duas reportagens são uma verdadeira aula de história... E que bela e agradável aula. Ela vai para muito além do conteúdo. Ela é recheada da mais fina ironia e do mais ácido humor. A formação histórica da cidade de São Paulo com os seus bandeirantes quatrocentões e os seus novos ricos, os Babbitts, só que com sobrenomes italianos. Que pintura dos anos 1940. Tempos de guerra e, sobretudo, tempos de grandes negócios. Vejamos ainda as orelhas do livro:

"Mulheres elegantes 'como as orquídeas que nascem de dezenas de enxertos' desfilam em alvoroço pelos 'salões carcamanos' da avenida Paulista. Para lá e para cá, industriais italianos, famílias quatrocentonas (e já meio falidas), cronistas de jornal e arrivistas de toda espécie frequentam 'noites lantejoulantes' em bares, casamentos, livrarias e festas mundanas. O grã-finismo paulistano ferve: é 1943, o mundo está em guerra, mas isso é um mero detalhe para quem cultiva os esplendores da 'vida em sociedade'.

Ao descrever o universo da elite paulistana numa reportagem publicada em Diretrizes, semanário dirigido por Samuel Wainer, Joel Silveira fez muito mais do que o retrato de um deslumbrado grupo de high society tupiniquim. Com seu texto fino, irônico, repleto de sutilezas, adjetivos matadores e metáforas pontiagudas, o então jovem repórter sergipano conseguiu ser original e ousado em meio a um noticiário burocrático, debilitado pela censura do Estado Novo. Por causa da matéria, Assis Chateaubriand lhe daria um emprego e um apelido - 'víbora'. O mérito maior daquele texto, no entanto, foi inaugurar no Brasil um tipo de reportagem que utilizava recursos da narrativa de ficção, e que abriria caminho para o moderno jornalismo brasileiro.

Nesta antologia, que reúne alguns de seus melhores trabalhos (alguns deles inéditos), Joel penetra duas vezes no mundo elegante de São Paulo; entrevista os companheiros de Lampião numa penitenciária de Salvador; colhe um depoimento político de Monteiro Lobato que causaria o fechamento de Diretrizes e o exílio de Samuel Wainer; mostra intelectuais, artistas e expoentes da cultura como João Cabral, Portinari, Manuel Bandeira, Agripino Grieco e Gilberto Freyre em momentos descontraídos e bem-humorados, muito diferentes da imagem solene que o tempo acabou lhes conferindo.

Estes perfis, entrevistas e reportagens dão uma ideia do que pode ser a melhor imprensa brasileira: cáustica, saborosa, provocativa, inteligente. E, é claro, venenosa, como convém a víboras incorrigíveis como Joel Silveira". Aos meus amigos o meu muito obrigado pela visita e ao Pai Firmino o meu melhor agradecimento pelo presente, uma verdadeira preciosidade. Hoje faz exatamente dois meses da minha cirurgia. A recuperação está dentro do esperado e estou me sentindo muito bem.


sexta-feira, 24 de abril de 2026

1964. A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss.

Na esteira da leitura de Castello - a marcha para a ditadura, de Lira Neto, lembrei de outro livro, que trago comigo desde o ano de 1981, o ano de sua publicação. O li, mas com os meus limites desse tempo. Considerei que agora seria um bom momento para a sua releitura. Trata-se de 1964 - A conquista do Estado - ação política, poder e golpe de classe, do cientista político uruguaio René Armand Dreifuss. O foco do livro está, portanto, do final dos anos 1950 e dos primeiros da década de 1960. Antes de entrar na análise, algumas questões da conjuntura política deste período.
1964: A conquista do Estado - Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss. Vozes. 1981.

Retrocedendo um pouco, ao primeiro governo Vargas (1930-1945) quero destacar dois fatos muito significativos. O primeiro refere-se ao modelo econômico dos governos Vargas, incluindo agora, também o segundo (1950-1954), obedecia a um modelo nacional desenvolvimentista, com ênfase na industrialização, pela substituição de importações. Havia nele uma forte participação do Estado, tanto como órgão de planejamento, quanto de implementação. Uma necessidade do capitalismo tardio. O segundo fato diz respeito a participação do exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial, com a expedição da FEB para a Itália, no combate às forças do Eixo, sob o comando do exército dos Estados Unidos. Daí nasce uma sólida amizade entre os comandantes dos dois exércitos, amizade que perdurará, posteriormente, nos tempos da Bipolaridade e da Guerra Fria. Disso resulta uma injunção do exército dos Estados Unidos sobre o exército brasileiro, sob a Doutrina da Segurança Nacional. Força ideológica muito mais forte do que mera amizade. Dela resultará a criação da ESG (Escola Superior de Guerra em 20 de agosto de 1949).

Vamos agora nos aproximar do tempo do livro. Getúlio, após o seu suicídio, tem um conturbado processo de sucessão, reflexo dos interesses conflitantes em disputa. O mineiro JK sai vitorioso nesse processo eleitoral, mas só tomará posse, após dois golpes de Estado, comandados pelo Marechal Lott, golpes preventivos para assegurar a legalidade e garantir a posse do presidente eleito.

JK quer a continuidade do desenvolvimentismo, aliás, quer acelerá-lo. Promete cinquenta anos em cinco. Para isso seria necessário um novo modelo econômico. O nacional desenvolvimentismo já não bastava. Ele precisaria ser aprofundado. Deveria vir capital estrangeiro e o modelo passaria a ser chamado de desenvolvimentismo dependente. Novos atores econômicos necessariamente adquiririam protagonismo. Os empresários das empresas multinacionais, consorciados ou associados aos nacionais. Especialmente os das multinacionais dos Estados Unidos. O desenvolvimentismo de JK ganharia novos contornos de ideologia política e a necessária busca de afirmação junto aos poderes do Estado. Estas empresas querem lucro, lucro máximo. Alguém teria que pagar por isso. Empresários e trabalhadores sabem disso e passam a se organizar. Interesses populares de JK não o tornam inteiramente confiável e ele sofre duas tentativas de golpe - Jacareacanga e Aragarças. JK tenta se equilibrar no poder. Sua sucessão complicará o jogo. Dele sairá vitorioso, como presidente, Jânio Quadros e, como vice, João Goulart. Estavam em campos opostos. Jânio, inesperadamente, renuncia. Jango não deveria assumir, diziam seus inimigos, mas as suas forças o sustentam. Primeiramente sob o regime parlamentarista e, depois, sob o presidencialismo. O conflito está perfeitamente desenhado. O cenário da luta de classes se evidencia.

Jango faz o seu Plano Trienal de governo, acenando para as reformas de base, reformas todas elas voltadas para a classe trabalhadora, de melhorias em suas condições de vida, no campo e na cidade: Reforma tributária, agrária, educacional, eleitoral. Do outro lado, ao longo do governo JK e mais acentuadamente, agora no de Jango, as forças do poder multinacional e associado já contavam com maior organização. Dreifuss chama a estas forças de elites orgânicas. Elas querem a chamada modernização conservadora, com a continuidade do processo de industrialização, mas com a exclusão de seus benefícios para a classe trabalhadora. Deveria ser implantado um regime de eficiência burocrática, de racionalidade administrativa. Se apoderariam dos aparelhos do Estado e implementariam a sua ideologia política, dentro do contexto do capitalismo multinacional associado. Eis o teor do livro.

As entidades de classe ligadas ao novo modelo de desenvolvimento dependente (dos investimentos estrangeiros, das multinacionais) são o Instituto de Pesquisas Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), do lado civil e a Escola Superior de Guerra (ESG), do lado militar. Serão estas entidades as responsáveis pela Conquista do Estado, pelo golpe de classe desferido no 31 de março ou primeiro de abril de 1964. Alguns detalhes dessas entidades civis:

O IPES foi uma entidade civil ativa na desestabilização do governo de João Goulart. Seu financiamento ficou a cargo, tanto das empresas nacionais, quanto das multinacionais. Ela também se encarregou da organização das entidades classistas nos estados, como as associações, federações e confederações patronais da indústria e do comércio. Já o IBAD foi importante peça, junto com o IPES, na preparação para o golpe de 1964. Foi criado em 1959 e extinto em 1963, sob a acusação de corrupção eleitoral. Aproveito também o espaço para apresentar outra instituição muito ativa, bastante presente no livro de Dreifuss, que é a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), uma organização cívica feminina, composta principalmente por mulheres de militares e responsável por grandes mobilizações, marchas, contra Jango e a favor do golpe.

A capa do livro, além do título e subtítulo bem explícitos e objetivos, tem também uma caricatura fantástica. Num tabuleiro de xadrez aparecem três homens, dois em trajes civis e um em traje militar, além de uma mulher. Os dois homens em trajes civis ostentam placas com as siglas - IPES e IBAD e a mulher com a de CAMDE. O militar não ostenta sigla nenhuma, mas que bem poderia ser a da ESG. Estas figuras estão de pé, vitoriosas. Abaixo aparece um civil, com a faixa presidencial. Ele aparece deitado, derrubado, simbolizando a queda de Jango pelo golpe e mais dois peões, com as siglas UNE e CGT, entidades derrotadas, dos estudantes e dos trabalhadores. É, mais uma vez, o teor do livro.

O livro é resultado de uma exaustiva pesquisa, minuciosa e rica em detalhes bibliográficos, como está expresso nas orelhas do livro: "Este livro é o resultado de uma pesquisa realizada entre 1976 e 1980 para uma tese de doutorado na Universidade de Glasgow, Inglaterra. Um período fundamental da história brasileira foi reconstituído em bases documentais. Os fatos e os personagens foram indicados a partir de registros concretos e não de hipóteses ou suposições. O objetivo central desse trabalho foi identificar as forças sociais que emergiram na sociedade brasileira com o processo de internacionalização, em sua etapa moderna, e acompanhar a intervenção no Estado e na sociedade brasileira. Essa história passa pela mediação de atores concretos, de pessoas ou instituições, que respondem a valores, objetivos e estratégias das forças sociais que atuam no cenário político, em conjunturas determinadas. Aqui o que interessa não é tanto identificar o ator, suas intenções e características pessoais, mas descobrir no processo histórico o papel e a função das forças sociais e de que formas concretas elas fazem prevalecer seus interesses e suas concepções no confronto com as demais.

Nessa pesquisa, no entanto, foi possível documentar a relação entre os atores e as forças sociais, em cenários públicos e privados, através da reconstituição da história feitos em grande parte pelos próprios atores. É necessário advertir que a leitura do passado deve ser feita no contexto do presente e com sentido do futuro, onde tanto os atores como os cenários e a dinâmica das forças sociais estão em permanente transformação, podendo não estar hoje no mesmo lugar e nem desempenhando os mesmos papéis. A relação entre os atores e as forças sociais não é imutável. No processo político e econômico tanto podem mudar o sentido e os objetivos das forças sociais, como o papel e a função dos atores. A compreensão deste aspecto é fundamental para o entendimento deste livro".

Ele está estruturado em dez capítulos, dos quais passo a dar os títulos. Eles são bastante ilustrativos para se ter uma primeira noção do teor dos mesmos. Vejamos: I. A formação do populismo. II. A ascendência econômica do capital multinacional e associado. III. A estrutura política de poder do capital multinacional e seus interesses associados. IV. A crise do populismo. V. A elite orgânica: Recrutamento, estrutura decisória e organização para a ação. VI. A ação de classe da elite orgânica: a campanha ideológica da burguesia. VII. A ação de classe da elite orgânica: a campanha política da burguesia. VIII. A ação de classe da elite orgânica: O complexo IPES/IBAD e os militares. IX. O complexo IPES/IBAD no Estado - A ocupação dos postos estratégicos pela elite orgânica. X. Conclusão. Lembrando que por elite orgânica o autor entende a elite vinculada com os interesses multinacionais associados. São estratégias de conquista de hegemonia, essencialmente. O livro tem 814 páginas. As primeiras 495 são dedicadas ao texto e notas e as restantes, a diversos apêndices. 

Eu vivi este tempo. Me formei em filosofia, em dezembro de 1968. Morava em Porto Alegre, no olho furacão. Eu terminava o meu curso de filosofia, ainda junto aos padres, no seminário de Viamão. A mentalidade conservadora em nossa formação era dominante, mas já sopravam ventos de agiornamento da Igreja. Concílio Vaticano II e sopros da Teologia da Libertação. Em 1969 eu iniciei a minha vida profissional, em Umuarama, no Paraná. Fiquei bem afastado das contendas, numa cidade de interior. Dos tempos de Porto Alegre, tenho a memória viva da campanha: Família que reza unida, permanece unida, com a promessa da reza diária do terço, pedindo para que Nossa Senhora de Fátima, a anticomunista por excelência, salvasse o Brasil desse mal terrível (padre Patrick Peyton). Logo, logo, passei a não cumprir essa promessa. 

Algumas leituras paralelas: Reformas de base do governo de Jango:


Sobre os militares e a política, Utopia autoritária brasileira, de Carlos Fico:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/09/utopia-autoritaria-brasileira-carlos.html e, ainda, de Lira Neto, a biografia de Castello Branco.