quarta-feira, 20 de maio de 2026

LULA - Biografia. Volume 2. Fernando Morais.

Um presente valioso. Mal e mal fiquei sabendo que o volume número 2 da biografia de Lula acabava de ser lançado, recebo um telefonema, me perguntando se eu já o havia comprado. Como disse que não, veio o pedido para não comprá-lo, que eu iria ganhá-lo de presente. Coisas da minha maravilhosa amiga Suzi. Sem demora recebi Lula - biografia. Volume 2, de autoria de seu consagrado biógrafo Fernando Morais. O Brasil está muito bem de biógrafos.

Lula - biografia. Volume 2. Fernando Morais. Companhia das Letras. 2026.

Como recentemente li a biografia de Castello Branco, de autoria de outro grande biógrafo, o Lira Neto, (Também autor dos três maravilhosos volumes sobre Getúlio), me veio a tentação de fazer uma comparação. Resultado: Empate. Estava maravilhado com a aula de história do Brasil dada pelo Lira Neto com a biografia do Castello, riquíssima em análise de conjuntura de época. Mas agora, com o término da leitura da biografia do Lula, também riquíssima em detalhes de bastidores, além de precisas  análises conjunturais, é que eu optei pelo empate, ou melhor, pela vitória dos dois.

O primeiro volume de Lula, lançado em 2021, não obedeceu ao ritmo normal de uma biografia, começando pela infância, anos de formação e primeiras atividades que lhe deram projeção. Começou pelos movimentos mais recentes de sua vida, pela sua prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018, por obra da nefasta ação em dupla de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dobradinha entre acusador e juiz. O movimento se tronou conhecido como Lava-jato, ou República de Curitiba. Apenas após a narrativa desses absurdos, é que começa a história da infância do filho de Dona Lindu, de sua vida de retirante, vindo para São Paulo, onde mais tarde o veríamos ascender como líder sindical e dar os seus primeiros passos na vida política. Apenas lembrando que em 2021 Lula foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal de todas as acusações de que fora vítima. Enquanto isso, a dupla Moro e Deltan continuam atormentando a vida política dos paranaenses.

Feita essa digressão vamos ao segundo volume. O seu teor abrange um dos momentos mais bonitos de nossa história, o período da saída dos intermináveis 21 anos da ditadura militar e o florescer dos maiores movimentos de participação popular, com a redemocratização. Por ela passamos pelo  movimento em favor das eleições diretas - Eu quero votar para presidente -, pelo movimento em favor da anistia e da constituinte e do retorno das eleições diretas para presidente da República. Água nova brotando e inúmeras novas demandas da democracia encontraram espaço de manifestação e realização. Demandas reprimidas, feito água caçando jeito, para usar a bela expressão do nosso querido poeta Manoel de Barros. E Lula, em todos esses movimentos, sempre protagonista. Este segundo volume termina com a sua eleição em 2002, o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil.

O próprio Fernando de Morais conta o teor deste segundo volume, ao seu final: "Neste segundo tomo eu reencontro Lula já refeito de sua primeira derrota, como candidato a governador de São Paulo, em 1982. Este volume acompanha os bastidores de sua trajetória na campanha das Diretas Já, a retumbante eleição para Constituinte e as Caravanas da Cidadania, em que ele esquadrinha o Brasil de cima a baixo. Trata também das três derrotas nas frustradas campanhas presidenciais, sua tentativa de aliança com o PSDB, na eleição presidencial de 1994, e encerra com o coroamento de sua carreira, na vitória para a Presidência da República de 2002".

O grande valor do livro está na narrativa dos bastidores, nos detalhes que não foram suprimidos, no cotidiano de uma pessoa viva e ativa participante dos fatos, assumindo postura e compromissos sem jamais se omitir. Responsabilidades enormes. O livro é de fácil compreensão por um motivo muito simples. É a narrativa de fatos contemporâneos. Eu pessoalmente, vivenciei esses fatos. Participei de todos esses movimentos. Em Umuarama, lembro perfeitamente da campanha pelas Diretas Já, da Constituinte (Junto com a companheirada da APP, estive três vezes em Brasília), dos comícios pró-Lula, de 1989, dos cara-pintadas e do Fora Collor. Naquele tempo já havia muito ódio contra Lula, um operário querendo disputar um lugar, sempre de exclusiva competência da classe patronal. Nesse tempo eu exercia funções de direção sindical, de direção no Partido dos Trabalhadores, de formação de quadros do PT na escola de Cajamar e na participação do processo eleitoral de 1990, como candidato a deputado federal, na única certeza de ajudar a somar votos para a bancada do PT. Em 1990 o Paraná elegeu três deputados federais: Edésio Passos, Paulo Bernardo e Nedson Nicheletti. Neste micromundo também fui um pouco protagonista. Com a leitura consegui me situar melhor no meu próprio mundo. E isso foi maravilhoso.

O capítulo que mais profundamente me marcou foi de número dez - Lula roda 30 mil quilômetros para fazer um doutorado sobre o Brasil profundo -. É o capítulo da primeira das Caravanas da Cidadania, na qual ele reproduz o seu caminho de retirante nordestino para o sudeste brasileiro, caminho percorrido por tantos outros brasileiros, em busca de trabalho e um pouco de dignidade humana em centros mais desenvolvidos, que, mais cedo que outras, receberam os investimentos do Estado. Essa caravana deve ter contribuído em muito na formação de toda a sensibilidade social da qual Lula é dotado. Não tem como ficar indiferente a tanta miséria sentida por Lula, na repetição de sua trajetória de vida. 

O livro, ao todo, contem 333 páginas, divididas em 14 capítulos. E, reforçado pela leitura da trajetória nada fácil da vida do Lula, de suas dificuldades e de seus êxitos, me confesso reconfortado e animado para mais uma batalha, a batalha deste ano de 2026. É luta por democracia. É luta por civilização. É luta por direitos e dignidade. É luta por humanidade. Vamos continuar construindo o terceiro volume da biografia do maior personagem contemporâneo de nossa história. Concluo como Fernando Morais termina este segundo volume, citando Gilberto Freyre, diante das transformações brasileiras de 1930. Não estranhem:

Eu ouço as vozes

Eu vejo as cores

Eu sinto os passos

De outro Brasil que vem aí. 

Este verso motivou a campanha de 2002 - (Duda Mendonça) da Esperança vencendo o medo.

E o post do volume I.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/lula-biografia-fernando-morais.html



terça-feira, 12 de maio de 2026

CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

Um tema necessário para quem, minimamente, quer acompanhar as estruturas políticas e econômicas do nosso mundo contemporâneo. É impossível não deter um olhar sobre o que está ocorrendo na China. Nesse sentido, entre os livros que comprei para serem lidos no período de recuperação de uma cirurgia de prótese de quadril, incluí China - o socialismo do século XXI. A autoria é de Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é resultante de uma tese acadêmica dos autores, realizado na Universidade da Campânia L. Vanitelli, de Nápoles, sob a supervisão de Francesco Schettino, que também prefaciou o livro e que assim o define:
China - o socialismo no século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele. Boitempo. 2021.

"Com uma abordagem bastante materialista, os autores vão ao cerne da questão, evidenciando as ligações existentes entre as relações de propriedade, por um lado, e, por outro, as formas e a eficácia das ferramentas de planejamento/projetamento, assim como o papel crucial que estas últimas podem desempenhar como alternativa realista à anarquia do capital". Os autores examinam a realidade chinesa que se iniciou com as reformas do ano de 1978, quando se inicia a nova formação econômica e social de um socialismo de mercado. Uma economia de planejamento e de projetamento para o socialismo, com a priorização dos resultados econômicos para o humano. Os autores são os primeiros a reconhecer a polêmica que o livro viria a causar, pelo fato de lançar um novo olhar sobre o socialismo, que eles denominam de O socialismo do século XXI. Creio que o seguinte parágrafo da introdução traduz, tanto esse novo olhar, quanto a própria estrutura do livro:

"Tínhamos clareza de que estávamos rompendo com uma forma de pensar arraigada não somente em duas ou três gerações de intelectuais comunistas ocidentais. Estávamos rompendo também com uma visão poderosa - porque quase mítica - do marxismo e do socialismo. A China e o 'socialismo de mercado' deveriam ser tratados como uma formação econômico-social nova, distinta. Essa observação pode ser considerada a primeira parte da história, e mais difícil. Uma vez convencidos disso, como são testemunha nossos caminhos particulares, observar e classificar as lógicas do funcionamento dessa nova formação econômico social passou a ser a nossa busca comum".

O livro, portanto está estruturado em duas partes: Parte I. Capitalismo e socialismo como modo de produção, com oito capítulos e Parte II, A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. São mais sete capítulos. Essa nova formação econômico-social se constitui em um metamodo de produção, com orientação para o socialismo. Um modo de produção híbrido, que vai se constituindo, sempre em busca, sempre em transformação, com objetivos muito claros e bem delineados. Devo também dizer que não é um livro para principiantes. Seria um livro apenas para economistas? Creio que não. Embora a leitura e a compreensão se tornem difíceis, quando não acompanhados de debate. Este é o verdadeiro sentido de uma aula em universidade. Expor as primeiras compreensões e a partir delas aprofundar as categorias trabalhadas.

Devo ainda dizer que um dos grandes objetivos dos autores foi a de desmentir a tese em voga na década de 1990, a do "fim da história". A tese de que não haveria alternativas e que todos deveriam se render às doutrinas liberais, revestidas e aprofundadas pelo neoliberalismo e impostas ao mundo pelos organismos internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A nova formação econômico-social chinesa é a prova viva do caráter dialético da história e a negação absoluta de que ela teria chegado ao seu fim, teria chegado ao seu estágio final de aperfeiçoamento. Outro ponto alto dos autores é o da constatação de que nessa nova formação econômico social o setor produtivo da economia deverá financiar o setor improdutivo. Em outras palavras, a produção de mercadorias deve financiar os serviços prestados pelo Estado, como educação, saúde, habitação e bens públicos. E, isso é muito importante, a China conseguiu fazer isso. Criou mecanismos para isso. Aí já estamos entrando na segunda parte do livro. 

Se você conseguiu atravessar as duas partes do livro, ao final você encontrará uma síntese fantástica sob o título de - conclusões -, que em muito facilitará a sua compreensão. São doze tópicos, dos quais dou os títulos: 1. Socialismo no século XXI?; 2. O básico; 3. O planejamento, seu potencial e limites; 4. O metamodo de produção; 5. Macrossetor produtivo e macrossetor não produtivo; 6. Estados desenvolvimentistas de orientação socialista; 7. Capacidades estatais; 8. Antes de tudo, reformas rurais; 9. A via chinesa: Estado, mercado e os grandes conglomerados empresariais estatais (GCEE); 10. A Comissão de  Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC) como a principal inovação institucional; 11. Partido Comunista da China; 12. O socialismo de mercado em nível superior: A 'nova economia do projetamento'.

Mais duas observações. Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas.

Outro destaque, além dos pontos que melhor atendem a curiosidade sobre o que a China fez para atingir tamanha grandeza, explicitados, nos itens 8, 9, 10 e 11. quero chamar atenção especial ao item 12. A teoria da economia do projetamento é de um brasileiro. Ela foi desenvolvida por Ignácio Rangel, em seu livro Elementos de economia do projetamento, um livro de 1959. Enquanto o planejamento atinge o macro, o projetamento atinge o micro, o nível das empresas.  Ignácio Rangel (1914- 1994) foi uma das pessoas mais influentes na formulação das políticas econômicas do Governo de Getúlio Vargas, as do nacional desenvolvimentismo, colaborando na formulação dos projetos da criação da Petrobras e da Eletrobras. Foi um dos pensadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, criado em 1955, para pensar projetos para o Brasil. O ISEB foi liquidado pelo governo da ditadura civil-militar ainda no ano de 1964 e Ignácio Rangel foi posto no ostracismo, um decreto de morte ao seu pensamento. Mas, a dialética... E o que não representou para o Brasil este mal fadado golpe?

Vamos buscar esclarecer um pouco mais sobre o livro, pela apresentação de Carlos Eduardo Martins, professor da UFRJ, nas orelhas do livro: " A ascensão acelerada da China no sistema mundial capitalista desde os anos 1980 - que, principalmente a partir da Guerra do Ópio, inverteu o longo declínio iniciado no século XIX - constitui o principal acontecimento geopolítico para a análise das ciências sociais e da economia política contemporâneas. O reencontro da China com a economia mundial capitalista, após a desconexão imposta pela revolução maoísta, não ensejou uma nova ocupação e vitória do imperialismo ocidental como Nixon e, posteriormente, os apologistas da globalização neoliberal imaginaram. Tampouco uma submissão ao dólar e ao poder financeiro estadunidense, que tanto impressionou parte da esquerda brasileira e mundial.

Ao contrário, por meio de um processo de hibridização, a China conserva sua soberania interna e mostra que o domínio científico e tecnológico é uma das fontes estratégicas de poder mundial. Impulsionando uma nova onda de crescimento econômico mundial, arranha a ilusão de totalidade do capital fictício, atravessando o seu espelho com a força dos valores de uso, aos quais o mundo da mercadoria está indissoluvelmente ligado.

Elemento chave nesse processo é a reinvenção do Estado, que em vez de se orientar para um processo de acumulação independente do mundo do trabalho - caminho aventureiro trilhado pelo eixo de poder anglo-saxão -, lidera a mais vasta erradicação da pobreza da história da humanidade. Além disso, uma imensa reorganização empresarial e um vasto desenvolvimento de capacidades de amplas massas lançam os pilares de uma potência territorial de escala muito superior à das potências marítimas ocidentais que lideraram a civilização capitalista.

Elias Jabbour e Alberto Gabriele estão entre os mais destacados estudiosos da China contemporânea e dos processos de transformação em curso, que ultrapassam suas fronteiras e abrem as perspectivas de novas formas de existência. Os autores entregam neste livro um rico material analítico e empírico e propõem uma síntese original entre o marxismo, o estruturalismo e o keynesianismo que não pode ser ignorada pelos cientistas sociais". Vejamos ainda Luiz Gonzaga Beluzzo na contracapa:

"Este livro magnificamente organizado e escrito por Elias Jabbour e Alberto Gabriele, gratificará o leitor com os sabores incomparáveis da aventura intelectual. Na vida do conhecimento e da compreensão da sociedade e da economia devemos sempre almejar à desconstrução do estabelecido e buscar os desafios do novo que nasce do movimento dos homens e de suas relações. É isso que o que nos oferecem Jabbour e Gabriele. A exploração dos autores empenha-se em descobrir no socialismo da China a construção de uma nova formação econômica e social que instiga a perplexidade dos conformistas que não se cansam de indagar: Capitalismo de Estado ou Socialismo de Mercado?". Do livro consta ainda um apêndice sob o título de - Os outros dois membros da nova classe de formações econômico-sociais de novo tipo: Vietnã e Laos. Acrescento também os posts de mais dois livros: Uma história da Revolução de 1949, e a da China sob a Revolução, até as grandes transformações, a partir de 1978.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos.

Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.

Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.

A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935.  O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história.  O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é  constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro). 

Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro). 

Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:

"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:

Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade". 

Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.

Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.

Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere". 

E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".

E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!

É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A milésima segunda noite da Avenida Paulista. Joel Silveira.

Como já falei em outro Post, no dia 11 de fevereiro de 2026, fui submetido a uma cirurgia de prótese de quadril. O mais complicado dessa cirurgia não é ela em si, mas o seu longo tempo de recuperação. A primeira semana de convalescença eu passei na chácara. A dependência é quase total. Um mês de andador. Nela recebi a visita dos amigos Valdemar e do pai Firmino. Pai Firmino ainda me presenteou com um livro de Joel Silveira - A milésima segunda noite da avenida Paulista. Junto a capa, uma nota explicativa: Reportagens, perfis, e entrevistas do repórter que mudou o jornalismo brasileiro. Duas curiosidades: o teor do livro e conhecer, mais de perto, o seu autor.

A milésima segunda noite da avenida paulista. Joel Silveira. Companhia das Letras. 2003.

Vamos então atender as curiosidades: Primeiro a do livro, por uma parte de sua contracapa: "De grã-finos em São Paulo", matéria publicada em 1943, que chega aos dias de hoje como um cult do jornalismo nacional, aos textos mais recentes, igualmente ferinos. A milésima segunda noite da avenida Paulista traz perfis de escritores, artistas e intelectuais e conta episódios dos bastidores da cultura, formando uma painel variado (e sempre divertido) da vida brasileira". E, em segundo, o autor, que nos é apresentado por Fernando Morais, no Posfácio em que apresenta o jornalista, sob o título "A víbora está viva". Este apelido ferino lhe fora dado por Assis Chateaubriand. Joel Silveira era sergipano, nascido na cidade de Lagarto, em 1918 e construiu a sua vida de jornalista no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 2007. Além da descrição das elites da avenida Paulista da década de 1940, também se destacou como ácido crítico da ditadura militar, instituída pelo golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.

Também traz uma série de mini biografias de intelectuais e escritores com os quais conviveu e entrevistou. Entre eles figuram o escritor e crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), retratado por uma entrevista realizada em 1943, 18 poetisas revoltadas contra um mundo em guerra, um trabalho jornalístico seu do ano de 1944, um retrato de Assis Chateaubriand, com quem mais tarde veio a trabalhar, inclusive como correspondente de seu império jornalístico, da Segunda Guerra Mundial, como enviado especial, direto do front. Outro perfil destacado é o do escritor Monteiro Lobato. No campo da reportagem ganharam destaque algumas conversas mantidas com alguns cangaceiros de Lampião.

Voltando aos perfis de intelectuais e escritores encontraremos um belo retrato de Graciliano Ramos, de Manuel Bandeira, de Nássara (Antônio Gabriel Nássara - 1910-1996, compositor e caricaturista), co-autor, com Haroldo Lobo, da clássica marchinha carnavalesca Allah-la-O e uma reportagem, já do ano de 1967, sobre Cândido Portinari, a partir de Brodósqui, sua cidade natal, no interior de São Paulo, além do relato de seus encontros com João Cabral de Mello Neto, com Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, Gilberto Freyre e o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Mas o destaque do livro são os retratos caricaturados da elite paulistana da década de 1940, das duas primeiras, digamos, reportagens. A primeira tem por título: 1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo e a segunda, que empresta o seu título ao livro: A milésima segunda noite da avenida Paulista. Da primeira destaco os quatro grupos de ricos e ricas paulistanas. Vejamos: "Além do 'quarto grupo', o grupo de Alfredo Mesquita e Roberto Moreira, existem outros três grupos, cada qual com suas características próprias. O primeiro grupo é formado pelos grã-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos, e representa o pináculo do grã-finismo. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heroicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades. Morreram todos, estão enterrados na história, mas deixaram aos seus descendentes um presente régio: deixaram um cartão de visita, espécie de permanente com o qual um Prado, um Leme e um Alves Lima podem entrar sem pagar nada" (página 12). Vamos ao segundo grupo.

"Cintilantes de joias, as senhoras do segundo grupo, o grupo 'reserva', tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos, o grupo de d. Odete Matarazzo, d. Débora Zampari, d. Rosa Frontini, d. Irene Crespi, d. Mimosa Pignatari, d. Helena Noquosi. O pai de d. Odete, por exemplo, veio ver o que havia por aqui, e por aqui havia muito. D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais: tem um sobrenome, e os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são os donos de São Paulo. D. Odete tem atrás de si fábricas e exércitos de operários. É uma senhora muito poderosa" (Páginas 12-13). E vamos ao terceiro grupo:

"Mas há o terceiro grupo, um grupo lamentável e melancólico. É uma gente que não vem lá de longe. Uma gente que nasceu por aí, de família recente, de médicos de Barretos ou comerciantes de Bauru. Uma gente que não tem dinheiro. Os homens vivem dos seus pequenos ganchos e comissões. Alguns escrevem em jornais uma literatura precária. Mas a serpente do grã-finismo tomou conta de todos, dos homens e das mulheres. As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento mensal - contanto que se tornem dignas do Roof ou do Jequiti. É o grupo do 'estribo' e o grupo do 'penacho'. Os homens se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser essa a características principal da grã-fina, como o dente de ouro é característico em todo turco" (Página 14). E por aí o cronista vai destilando o seu veneno de "víbora". Na segunda reportagem temos o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo com o 'pracinha' João Lage. Há peripécias deliciosas...

As duas reportagens são uma verdadeira aula de história... E que bela e agradável aula. Ela vai para muito além do conteúdo. Ela é recheada da mais fina ironia e do mais ácido humor. A formação histórica da cidade de São Paulo com os seus bandeirantes quatrocentões e os seus novos ricos, os Babbitts, só que com sobrenomes italianos. Que pintura dos anos 1940. Tempos de guerra e, sobretudo, tempos de grandes negócios. Vejamos ainda as orelhas do livro:

"Mulheres elegantes 'como as orquídeas que nascem de dezenas de enxertos' desfilam em alvoroço pelos 'salões carcamanos' da avenida Paulista. Para lá e para cá, industriais italianos, famílias quatrocentonas (e já meio falidas), cronistas de jornal e arrivistas de toda espécie frequentam 'noites lantejoulantes' em bares, casamentos, livrarias e festas mundanas. O grã-finismo paulistano ferve: é 1943, o mundo está em guerra, mas isso é um mero detalhe para quem cultiva os esplendores da 'vida em sociedade'.

Ao descrever o universo da elite paulistana numa reportagem publicada em Diretrizes, semanário dirigido por Samuel Wainer, Joel Silveira fez muito mais do que o retrato de um deslumbrado grupo de high society tupiniquim. Com seu texto fino, irônico, repleto de sutilezas, adjetivos matadores e metáforas pontiagudas, o então jovem repórter sergipano conseguiu ser original e ousado em meio a um noticiário burocrático, debilitado pela censura do Estado Novo. Por causa da matéria, Assis Chateaubriand lhe daria um emprego e um apelido - 'víbora'. O mérito maior daquele texto, no entanto, foi inaugurar no Brasil um tipo de reportagem que utilizava recursos da narrativa de ficção, e que abriria caminho para o moderno jornalismo brasileiro.

Nesta antologia, que reúne alguns de seus melhores trabalhos (alguns deles inéditos), Joel penetra duas vezes no mundo elegante de São Paulo; entrevista os companheiros de Lampião numa penitenciária de Salvador; colhe um depoimento político de Monteiro Lobato que causaria o fechamento de Diretrizes e o exílio de Samuel Wainer; mostra intelectuais, artistas e expoentes da cultura como João Cabral, Portinari, Manuel Bandeira, Agripino Grieco e Gilberto Freyre em momentos descontraídos e bem-humorados, muito diferentes da imagem solene que o tempo acabou lhes conferindo.

Estes perfis, entrevistas e reportagens dão uma ideia do que pode ser a melhor imprensa brasileira: cáustica, saborosa, provocativa, inteligente. E, é claro, venenosa, como convém a víboras incorrigíveis como Joel Silveira". Aos meus amigos o meu muito obrigado pela visita e ao Pai Firmino o meu melhor agradecimento pelo presente, uma verdadeira preciosidade. Hoje faz exatamente dois meses da minha cirurgia. A recuperação está dentro do esperado e estou me sentindo muito bem.


sexta-feira, 24 de abril de 2026

1964. A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss.

Na esteira da leitura de Castello - a marcha para a ditadura, de Lira Neto, lembrei de outro livro, que trago comigo desde o ano de 1981, o ano de sua publicação. O li, mas com os meus limites desse tempo. Considerei que agora seria um bom momento para a sua releitura. Trata-se de 1964 - A conquista do Estado - ação política, poder e golpe de classe, do cientista político uruguaio René Armand Dreifuss. O foco do livro está, portanto, do final dos anos 1950 e dos primeiros da década de 1960. Antes de entrar na análise, algumas questões da conjuntura política deste período.
1964: A conquista do Estado - Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss. Vozes. 1981.

Retrocedendo um pouco, ao primeiro governo Vargas (1930-1945) quero destacar dois fatos muito significativos. O primeiro refere-se ao modelo econômico dos governos Vargas, incluindo agora, também o segundo (1950-1954), obedecia a um modelo nacional desenvolvimentista, com ênfase na industrialização, pela substituição de importações. Havia nele uma forte participação do Estado, tanto como órgão de planejamento, quanto de implementação. Uma necessidade do capitalismo tardio. O segundo fato diz respeito a participação do exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial, com a expedição da FEB para a Itália, no combate às forças do Eixo, sob o comando do exército dos Estados Unidos. Daí nasce uma sólida amizade entre os comandantes dos dois exércitos, amizade que perdurará, posteriormente, nos tempos da Bipolaridade e da Guerra Fria. Disso resulta uma injunção do exército dos Estados Unidos sobre o exército brasileiro, sob a Doutrina da Segurança Nacional. Força ideológica muito mais forte do que mera amizade. Dela resultará a criação da ESG (Escola Superior de Guerra em 20 de agosto de 1949).

Vamos agora nos aproximar do tempo do livro. Getúlio, após o seu suicídio, tem um conturbado processo de sucessão, reflexo dos interesses conflitantes em disputa. O mineiro JK sai vitorioso nesse processo eleitoral, mas só tomará posse, após dois golpes de Estado, comandados pelo Marechal Lott, golpes preventivos para assegurar a legalidade e garantir a posse do presidente eleito.

JK quer a continuidade do desenvolvimentismo, aliás, quer acelerá-lo. Promete cinquenta anos em cinco. Para isso seria necessário um novo modelo econômico. O nacional desenvolvimentismo já não bastava. Ele precisaria ser aprofundado. Deveria vir capital estrangeiro e o modelo passaria a ser chamado de desenvolvimentismo dependente. Novos atores econômicos necessariamente adquiririam protagonismo. Os empresários das empresas multinacionais, consorciados ou associados aos nacionais. Especialmente os das multinacionais dos Estados Unidos. O desenvolvimentismo de JK ganharia novos contornos de ideologia política e a necessária busca de afirmação junto aos poderes do Estado. Estas empresas querem lucro, lucro máximo. Alguém teria que pagar por isso. Empresários e trabalhadores sabem disso e passam a se organizar. Interesses populares de JK não o tornam inteiramente confiável e ele sofre duas tentativas de golpe - Jacareacanga e Aragarças. JK tenta se equilibrar no poder. Sua sucessão complicará o jogo. Dele sairá vitorioso, como presidente, Jânio Quadros e, como vice, João Goulart. Estavam em campos opostos. Jânio, inesperadamente, renuncia. Jango não deveria assumir, diziam seus inimigos, mas as suas forças o sustentam. Primeiramente sob o regime parlamentarista e, depois, sob o presidencialismo. O conflito está perfeitamente desenhado. O cenário da luta de classes se evidencia.

Jango faz o seu Plano Trienal de governo, acenando para as reformas de base, reformas todas elas voltadas para a classe trabalhadora, de melhorias em suas condições de vida, no campo e na cidade: Reforma tributária, agrária, educacional, eleitoral. Do outro lado, ao longo do governo JK e mais acentuadamente, agora no de Jango, as forças do poder multinacional e associado já contavam com maior organização. Dreifuss chama a estas forças de elites orgânicas. Elas querem a chamada modernização conservadora, com a continuidade do processo de industrialização, mas com a exclusão de seus benefícios para a classe trabalhadora. Deveria ser implantado um regime de eficiência burocrática, de racionalidade administrativa. Se apoderariam dos aparelhos do Estado e implementariam a sua ideologia política, dentro do contexto do capitalismo multinacional associado. Eis o teor do livro.

As entidades de classe ligadas ao novo modelo de desenvolvimento dependente (dos investimentos estrangeiros, das multinacionais) são o Instituto de Pesquisas Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), do lado civil e a Escola Superior de Guerra (ESG), do lado militar. Serão estas entidades as responsáveis pela Conquista do Estado, pelo golpe de classe desferido no 31 de março ou primeiro de abril de 1964. Alguns detalhes dessas entidades civis:

O IPES foi uma entidade civil ativa na desestabilização do governo de João Goulart. Seu financiamento ficou a cargo, tanto das empresas nacionais, quanto das multinacionais. Ela também se encarregou da organização das entidades classistas nos estados, como as associações, federações e confederações patronais da indústria e do comércio. Já o IBAD foi importante peça, junto com o IPES, na preparação para o golpe de 1964. Foi criado em 1959 e extinto em 1963, sob a acusação de corrupção eleitoral. Aproveito também o espaço para apresentar outra instituição muito ativa, bastante presente no livro de Dreifuss, que é a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), uma organização cívica feminina, composta principalmente por mulheres de militares e responsável por grandes mobilizações, marchas, contra Jango e a favor do golpe.

A capa do livro, além do título e subtítulo bem explícitos e objetivos, tem também uma caricatura fantástica. Num tabuleiro de xadrez aparecem três homens, dois em trajes civis e um em traje militar, além de uma mulher. Os dois homens em trajes civis ostentam placas com as siglas - IPES e IBAD e a mulher com a de CAMDE. O militar não ostenta sigla nenhuma, mas que bem poderia ser a da ESG. Estas figuras estão de pé, vitoriosas. Abaixo aparece um civil, com a faixa presidencial. Ele aparece deitado, derrubado, simbolizando a queda de Jango pelo golpe e mais dois peões, com as siglas UNE e CGT, entidades derrotadas, dos estudantes e dos trabalhadores. É, mais uma vez, o teor do livro.

O livro é resultado de uma exaustiva pesquisa, minuciosa e rica em detalhes bibliográficos, como está expresso nas orelhas do livro: "Este livro é o resultado de uma pesquisa realizada entre 1976 e 1980 para uma tese de doutorado na Universidade de Glasgow, Inglaterra. Um período fundamental da história brasileira foi reconstituído em bases documentais. Os fatos e os personagens foram indicados a partir de registros concretos e não de hipóteses ou suposições. O objetivo central desse trabalho foi identificar as forças sociais que emergiram na sociedade brasileira com o processo de internacionalização, em sua etapa moderna, e acompanhar a intervenção no Estado e na sociedade brasileira. Essa história passa pela mediação de atores concretos, de pessoas ou instituições, que respondem a valores, objetivos e estratégias das forças sociais que atuam no cenário político, em conjunturas determinadas. Aqui o que interessa não é tanto identificar o ator, suas intenções e características pessoais, mas descobrir no processo histórico o papel e a função das forças sociais e de que formas concretas elas fazem prevalecer seus interesses e suas concepções no confronto com as demais.

Nessa pesquisa, no entanto, foi possível documentar a relação entre os atores e as forças sociais, em cenários públicos e privados, através da reconstituição da história feitos em grande parte pelos próprios atores. É necessário advertir que a leitura do passado deve ser feita no contexto do presente e com sentido do futuro, onde tanto os atores como os cenários e a dinâmica das forças sociais estão em permanente transformação, podendo não estar hoje no mesmo lugar e nem desempenhando os mesmos papéis. A relação entre os atores e as forças sociais não é imutável. No processo político e econômico tanto podem mudar o sentido e os objetivos das forças sociais, como o papel e a função dos atores. A compreensão deste aspecto é fundamental para o entendimento deste livro".

Ele está estruturado em dez capítulos, dos quais passo a dar os títulos. Eles são bastante ilustrativos para se ter uma primeira noção do teor dos mesmos. Vejamos: I. A formação do populismo. II. A ascendência econômica do capital multinacional e associado. III. A estrutura política de poder do capital multinacional e seus interesses associados. IV. A crise do populismo. V. A elite orgânica: Recrutamento, estrutura decisória e organização para a ação. VI. A ação de classe da elite orgânica: a campanha ideológica da burguesia. VII. A ação de classe da elite orgânica: a campanha política da burguesia. VIII. A ação de classe da elite orgânica: O complexo IPES/IBAD e os militares. IX. O complexo IPES/IBAD no Estado - A ocupação dos postos estratégicos pela elite orgânica. X. Conclusão. Lembrando que por elite orgânica o autor entende a elite vinculada com os interesses multinacionais associados. São estratégias de conquista de hegemonia, essencialmente. O livro tem 814 páginas. As primeiras 495 são dedicadas ao texto e notas e as restantes, a diversos apêndices. 

Eu vivi este tempo. Me formei em filosofia, em dezembro de 1968. Morava em Porto Alegre, no olho furacão. Eu terminava o meu curso de filosofia, ainda junto aos padres, no seminário de Viamão. A mentalidade conservadora em nossa formação era dominante, mas já sopravam ventos de agiornamento da Igreja. Concílio Vaticano II e sopros da Teologia da Libertação. Em 1969 eu iniciei a minha vida profissional, em Umuarama, no Paraná. Fiquei bem afastado das contendas, numa cidade de interior. Dos tempos de Porto Alegre, tenho a memória viva da campanha: Família que reza unida, permanece unida, com a promessa da reza diária do terço, pedindo para que Nossa Senhora de Fátima, a anticomunista por excelência, salvasse o Brasil desse mal terrível (padre Patrick Peyton). Logo, logo, passei a não cumprir essa promessa. 

Algumas leituras paralelas: Reformas de base do governo de Jango:


Sobre os militares e a política, Utopia autoritária brasileira, de Carlos Fico:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/09/utopia-autoritaria-brasileira-carlos.html e, ainda, de Lira Neto, a biografia de Castello Branco.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

CASTELLO. A marcha para a ditadura. Lira Neto.

Passei por alguns contratempos. Cirurgia marcada para o dia 11 de fevereiro de 2026. A cirurgia seria simples. Em torno de uma hora e o serviço estaria concretizado. Em contraposição, a recuperação seria lenta, com dias intermináveis. Uma prótese de quadril. Na recuperação, muitas sessões de fisioterapia. A dependência pós cirurgia é quase total. Fiquei amparado na casa do meu filho, o Alexis, aonde permaneci até o dia 6 de abril, quando após uma consulta de revisão médica, retornei para casa e aqui para o meu posto. Tudo transcorreu sem dores. A todos os envolvidos, os meus melhores agradecimentos.

Castello - a marcha para a ditadura. Lira Neto. Companhia das Letras. 2020.

No preparo para a cirurgia e, especialmente para a recuperação, fiz a encomenda de alguns livros. Teriam que ser leituras simples, livros para serem lidos na cama. Eu teria que mudar um velho hábito meu. A leitura acompanhada por um caderno de anotações. O máximo que eu consegui foi o de anotar algumas páginas e o tema abordado. Entre os livros encomendados figuravam: Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e Castello - a marcha para a ditadura, do grande Lira Neto. Pai Firmino, em visita ao enfermo, ainda me trouxe A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, o primeiro que eu li. Leitura, por sinal, muito agradável.

Hoje é dia 25 de março, quase um mês e meio após a cirurgia. Terminei a leitura do livro do Lira Neto sobre o primeiro dos ditadores militares, da ditadura civil-militar, implantada no dia 1º de abril de 1964, mais militar do que civil. O golpe aplicado era para ser uma "correção de rumos" e duraria até o final do mandato de João Goulart, o presidente golpeado em razão de seu governo que propunha reformas de base, reformas estas, diga-se de passagem, que ainda estão para serem feitas. A "correção de rumos" visava exatamente impedir que estas reformas fossem transformadas em realidade. Esta é a centralidade da monumental obra de Lira Neto datada de 2004 e reeditada em 2019.

Recentemente li o livro do historiador Carlos Fico - Utopia autoritária brasileira - Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. O livro, como vemos no subtítulo, mostra o comportamento dos militares ao longo de toda a história política brasileira. Uma espécie de missão salvífica paira no ar ao longo de toda esta história. Ela tem um passado que nos remete à Guerra do Paraguai e à Proclamação da República. Trago esta lembrança para chamar a atenção da primeira página que eu anotei, a página 77. Junto a ela eu anotei - Os tenentes - salvadores da pátria. Eis o texto: "Os conspiradores (os tenentes), que não tinham programa de governo elaborado ou mesmo manifestos políticos definidos, eram movidos pela ideia comum de que caberia aos militares a missão natural de "guardiões" das instituições nacionais. Consideravam que os destinos do país corriam perigo nas mãos dos "paisanos", tidos por eles como uma corja corrupta, movida por interesses pessoais inconfessados. Não hesitaram em assumir eles próprios, os militares, o papel de "salvadores" da Pátria, inaugurando a tradição que irá vigorar nos quartéis ao longo de toda a história republicana brasileira e, mais tarde, irá desaguar no golpe de abril de 1964". Página 77.

Lembrando que o tenentismo foi um movimento da década de 1920, 1922 de modo particular, que visava derrubar o presidente Epitácio Pessoa e impedir a posse do presidente eleito, Arthur Bernardes.  Entre os tenentes figuravam nomes como Juarez Távora, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, nomes que, por muitos anos continuariam presentes como protagonistas na nossa política. A frase citada já faz parte do tempo da biografia de Castello, quando o encontramos como um jovem tenente de 25 anos no 12º Regimento sediado em Belo Horizonte. O capítulo em que encontramos a citação tem por título - um tenente contra os tenentes. Mas o fato de ser contra não significou um ato de despolitização do futuro ditador, de não sentir o gosto pela política. Castello nasceu em Fortaleza em 1897 e morreu no dia 18 de julho de 1967, em acidente aéreo, nas proximidades de Fortaleza. Exerceu o poder entre 15 de abril de 1964 e 15 de março de 1967.

O livro de Lira Neto, o seu primeiro livro biográfico, passa longe de ser a obra de um iniciante. Ele é profundo e meticuloso e extremamente abrangente, envolvendo a estrutura e a conjuntura brasileira e mundial de toda um época, como deu para perceber com a nota acima citada, dentro do contexto de nossa República Velha. O livro tem 460 páginas, que, para serem lidas, precisam praticamente ser acompanhadas por uma lente de aumento das letrinhas. A vida de Castello é bastante conhecida, mas não os seus bastidores. Por isso antes de dar uma visão geral do livro, vou me ater a fatos que mais de perto mereceram a minha atenção.

Primeiramente quero destacar a enorme rede de picuinhas e intrigas da vida da caserna. Ciumeiras nas promoções, artimanhas nas transferências de quartéis e nas posições e postos estratégicos de comando. Inúmera páginas são dedicadas às intrigas entre ele, Castello, e o seu arqui-inimigo Costa e Silva. Nesse sentido merece especial atenção a disputa entre os dois pelo comando do processo "revolucionário". É uma luta entre os considerados "moderados" (Castello, Geisel) e os da "linha dura" (Costa e Silva, Médici). Por que atento para isso?  Porque é um fato que permanece em nossa história. Basta lembrar o voto do então deputado Jair Bolsonaro, proferido na votação do impeachment da  presidente Dilma, junto com uma homenagem ao famoso torturador da "linha dura", Carlos Brilhante Ustra. Esta divisão no exército tem raízes profundas.

O livro passa pela visão das entranhas do governo daquele que pretendia apenas concluir o mandato do presidente deposto, João Goulart, mas, que na verdade, abriu o caminho para A marcha para a ditadura. Castello abriu, pelos Atos Institucionais, o caminho para os militares da "linha dura", ou melhor, para Costa e Silva, para o AI-5 e para os "anos de chumbo", como o período ficou caracterizado em nossa história. Castello pavimentou o caminho para A marcha para a ditadura para, como lemos no epílogo do livro, em seu penúltimo parágrafo: "De 1964 a 1985, os generais ficaram 21 anos à frente do poder. Deixaram um saldo de cerca de 10 mil exilados, 7.387 acusações formalizadas por subversão; 4.682 cassados e cerca de 300 mortos e desaparecidos". Página 428.

Também não poderia deixar passar em branco o fato da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nas campanhas da Itália, na tomada de Monte Castelo. Castello era um dos protagonistas brasileiros dessa expedição, de tanto heroísmo, como lemos nos livros de nossa história oficial, que, no entanto, teve inúmeras trapalhadas. Mas a minha atenção ao capítulo se dá por um outro motivo. Lutamos sob o comando do exército dos Estados Unidos, em uma aproximação dos comandantes dos dois exércitos. Essa aproximação será decisiva nos anos posteriores à Guerra. Os anos da Bipolaridade do mundo e da Guerra Fria. Como consequência dessa aproximação surge a Escola Superior de Guerra e a doutrina da Ideologia da Segurança Nacional. Esta doutrina, somada ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais)  e ao IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), órgãos da sociedade civil, foram fundamentos na formação da Opinião Pública favorável ao golpe. Também as medidas econômicas merecem um merecido destaque, como a desnacionalização da economia e a política de concentração de rendas.

Mas vamos à estrutura do livro: são nove capítulos, prefácio, prólogo e epílogo. Os capítulos tem por título passagens do hino nacional, em interação com o fato histórico abordado. Os capítulos são: Capítulo I. "As margens plácidas": infância e juventude (1897-1922); Capítulo II. "Um povo heroico": A rebeldia nos quartéis (1922-38); Capítulo III. "Filho teu não foge à luta": O Brasil e a Segunda Guerra Mundial (1939-45); Capítulo IV. "O sol da Liberdade": O frágil interlúdio democrático (1945-63); Capítulo V. "A Terra desce": O golpe contra a democracia (1963-64); Capítulo VI. "A clava forte": Os miliares no poder (1964-65); Capítulo VII. "És tu Brasil": À sombra da linha dura (1965); Capítulo VIII: "Entre outros mil": A Batalha da sucessão (1966-67). Capítulo IX. "À luz do céu profundo: A morte veio do ar (1967).

Vamos ainda à contracapa, uma parte do prefácio de Heloísa Starling: "Primeiro presidente da ditadura instaurada em 1964, Humberto de Alencar Castello Branco é um personagem-chave da história do Brasil contemporâneo. Seu curto mandato ainda hoje enseja reavaliações e revisionismos. Exercendo com habilidade e discrição o poder quase absoluto, Castello lançou as bases do regime de força que atormentou o país durante duas décadas. Ora visto como monstruoso e implacável, ora como tolerante e sensato, o estrategista do golpe civil-militar continua a levantar polêmicas, mas, contraditoriamente, sua trajetória tem sido pouco estudada. Em sua primeira grande biografia, agora em nova edição, Lira Neto apresenta uma visão abrangente e equilibrada sobre o homem, o militar e o político, munido da mais completa documentação já reunida sobre Castello. O autor da chamada trilogia Getúlio investiga em profundidade a vida e as lutas do general franzino que, sem disparar um tiro, derrotou inimigos e aliados na guerra sem quartel pelo poder máximo da República".

Deixo ainda dois posts, relacionados com o período do golpe: A Ideologia da Segurança Nacional  e sobre as reformas de base do governo de João Goulart.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/11/a-ideologia-da-seguranca-nacional-padre.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/01/jango-conversa-com-joao-vicente-12-1.html

sexta-feira, 10 de abril de 2026

VALE A PENA SONHAR. Apolonio de Carvalho.

A minha admiração por Apolonio de Carvalho é antiga. Ela vem ainda dos anos 1980. O que mais me impressionava era a sua vitalidade de militante, movida pelas suas convicções de luta por uma sociedade justa e igualitária. Me impressionava a sua luta, o seu engajamento ativo no combate às ditaduras. Primeiramente contra a de Getúlio Vargas, depois o seu alistamento nas Brigadas Internacionais na luta contra Franco na Guerra Civil Espanhola. E ainda, mais tarde, no seu engajamento na Resistência Francesa no combate à República de Vichy, um regime de colaboração com o nazismo de Hitler, comandado pelo Marechal Pétain. De volta ao Brasil, mais uma vez o encontramos na luta, dessa vez contra a feroz ditadura militar-civil implantada em 1964. Na volta à democracia o encontraremos como um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. 

Vale a pena sonhar. Apolonio de Carvalho. Rocco. 1998. 

Creio que muitos dos meus leitores se lembram de minha militância política nas lutas sindicais da APP-Sindicato e no Partido dos Trabalhadores, quando eu ainda morava em Umuarama, até o início dos anos 1990. Eu era dirigente sindical e promovíamos muitas atividades de formação. Em Umuarama eu tinha uma amizade profunda com o Dr. Ivo Sooma, então presidente da OAB regional. O Dr. Ivo conhecia pessoalmente o Apolonio e por muito pouco, por pequenos detalhes, não o levamos para fazer uma palestra em Umuarama. Teria sido, com certeza, um momento maravilhoso.

Quanto ao Vale a pena sonhar, conheci primeiramente o documentário. Depois comprei o livro. Este ficou na lista de espera e o li somente agora. O livro teve a sua primeira edição publicada no ano de 1977 e foi fruto de longas entrevistas concedidas pelo autor, que depois as trabalhou cuidadosamente para fazer delas a sua autobiografia. O grande destaque deste livro de memórias é a sua capacidade de provocar profundas reflexões. Apolonio prima pelas reflexões, pelas análises de conjuntura, que sempre o orientavam em suas ações, junto com as suas profundas convicções de vida e de seus significados. O que realmente faria valer a pena sonhar e quais eram os sonhos que o acalentavam?

O livro começa por um prefácio de uma outra lenda brasileira: Antônio Cândido. Ele destaca as qualidades de Apolonio. A sua coerência entre a sua concepção de vida e o seu fazer, o seu agir prático, a solidariedade humana como sentido e significado para a vida, a sua participação nas lutas, sempre movido pela sua consciência revolucionária e a sua crença profunda na vitalidade dos ideais socialistas no combate aos males intrínsecos contidos no sistema capitalista. 

O livro tem 257 páginas, acompanhadas de um rico acervo fotográfico. Ele possui nove capítulos, que seguem cronologicamente a sua vida. Vejamos os títulos. Os assinalo em negrito e dou alguns detalhes. I. A branca revoada das garças (Seu nascimento em Corumbá, em 1912, a herança familiar dos ideais de liberdade, democracia e direitos, apresentação do perfil de seus familiares, a sua formação escolar, uma conjuntura politica e os contrastes sociais da década de 1920. Os sonhos da mãe para que seguisse a carreira militar). II. Ombro, armas! (Formação militar no Realengo. As crises da República Velha. Seus contatos com a literatura libertária - José Ingenieros, Tomás Antônio Gonzaga (Marília de Dirceu), a literatura marxista que lhe chega através dos professores. Vargas e as oligarquias paulistas).

III. De Bagé ao Bagé. (A vida militar em Bagé, em 1934. Um entranhamento maior com a literatura marxista, o rótulo de "esquerdista", A ANL e a Intentona Comunista, expulsão do exército e a prisão. De Salvador a sua partida para a Espanha num navio de nome Bagé. IV. Histórias de Alto-mar. (peripécias da viagem. Alemães de Santa Catarina no rumo da Alemanha. O Sindicato dos Marinheiros). V. !No pasarán! Chega na Espanha em setembro de 1937 com a República praticamente derrotada. Uma conjuntura da situação espanhola. A Frente Popular; as divisões e uma análise das causas da derrota. No rumo da França. Frases de Dolores Ibárruri, La pasionaria).

VI. "Dans la nuit la liberté nous écoute". (A preferência do governo francês pelo nazismo - A República de Vichy - Pétain. As 200 famílias burguesas da França. A Resistência sob o comando do PCF. As divisões. As formas de luta. Encontro com Rennée. Chegada dos aliados; a volta ao Brasil. Uma brilhante análise das causas da República de Vichy. O capitalismo é fascista em suas raízes? VII. O Novo mergulho na clandestinidade. (A redemocratização brasileira do pós-guerra. A ilegalidade do Partidão, sob a Bipolaridade. O XX Congresso do PC soviético e as repercussões no Brasil. O monopólio do saber e da verdade. Começam as divisões no PC. O golpe de 1964, O PC e as reações dos dissidentes). 

VIII. O protesto armado. (A esquerda dissidente e a opção pela luta armada. Previsões. A partir de 1969 o recrudescimento da repressão. Mais uma prisão. Sequestro do embaixador alemão e a libertação. Argélia e Europa. As razões do insucesso da luta armada. As sucessivas quedas. A distância do povo). IX. A volta ao Brasil e as voltas que o mundo dá. (Em 1973, o domínio total do golpe, com a resistência destroçada. 10 anos de exílio em Paris. Os movimentos pela anistia. A volta ao Brasil. Fundação e engajamento no Partido dos Trabalhadores. Reflexões sobre o PT e as suas tendências. Em 1996, os poucos resistentes das Brigadas Internacionais, ainda vivos, são homenageados na Espanha com título de cidadania honorária. Os voluntários da Liberdade. Crenças e frustrações. A nova conjuntura mundial dos anos 1990, após o colapso soviético e o triunfo neoliberal). 

Dou ainda a contracapa do livro: "Dizem que o sonho e a realidade vivem brigando. E quem luta por uma sociedade mais igualitária, sem injustiças, é logo tachado de 'sonhador'. Apolonio de Carvalho é um desses.

Em 1935, então tenente, lutou contra a ditadura de Vargas; foi preso e expulso do exército; em 38, participou da Guerra Civil Espanhola, do lado da República, contra o fascismo; em 42, tornou-se membro da Resistência Francesa, que resistiu à invasão nazista; na década de 60, combateu a ditadura militar brasileira; foi preso e torturado.

Com a redemocratização do país, em 81, foi um dos fundadores do PT. O Brasil atual - dos assassinatos no campo, da violência e desemprego nas cidades, do contraste entre opulência e miséria - não é o de seus sonhos. Afinal, vale a pena sonhar? Em seu relato, ele diz que sim, se o sonho se associar sempre à luta pela sua concretização. Em tempos de globalização, como os que vivemos, em que os produtos e os capitais estão em toda parte, desconhecendo fronteiras, há os que lutam para que os ideais de justiça e igualdade também se globalizem. Apolonio é um desses".

Enfim, um livro sumamente importante para a história do Brasil. Um livro de memórias e de análise. Um livro profundamente impregnado do humano. Um homem a servir de inspiração, um modelo de coerência entre a concepção e o agir prático. Apolonio morreu em setembro de 2005, na cidade do Rio de Janeiro. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

EI, PROFESSOR. Frank McCourt.

Domingo (01.02.2026) foi um dia maravilhoso. Tive a oportunidade de receber na chácara um grupo de alunos, capitaneados pela Mari, formandos do ano de 2009, do curso Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Muita empatia, memórias e gratas lembranças. Entre os temas das conversas, por óbvio, estava a Universidade Positivo e peculiaridades do curso. Lembramos de cursos de leituras, de Ler e Ver, entre outros assuntos. Na época tínhamos, no meu entendimento, um bom grupo de professores e uma coordenação extraordinária (Professora Eveline e depois o professor André Tezza).

A leitura sempre é um tema fascinante. Lembro que entre nós professores trocávamos muitas leituras e até a mesa que aglutinava os professores do curso se tornou conhecida. Eu particularmente trocava as leituras com o professor Ferrari e com o professor Rafael. Trago esta memória para dizer que terminei de reler Ei, professor, de autoria de Frank McCourt, que por trinta e seis anos exerceu a função de professor do ensino médio na cidade de Nova York, em diferentes colégios, dos mais populares até em um dos mais elitizados. O livro é um relato de suas experiências, escritas já no seu tempo de aposentadoria, e que foi laureado com o Prêmio Pulitzer. Este conteúdo transparece num diálogo que o professor mantém, quase ao final do livro com um aluno seu. Vejamos.

Ei, professor. Frank McCourt. Intrínseca. 2006. Tradução: Rubens Figueiredo. Prêmio Pulitzer.

"Senhor McCourt, o senhor tem sorte. O senhor teve uma infância infeliz e então tem um assunto para escrever. Sobre o que a gente vai escrever? A gente só faz nascer, ir para a escola, ficar de férias, ir para a faculdade, se apaixonar ou coisas assim, formar-se na faculdade,  e começar uma carreira, casar, ter os dois vírgula três filhos em média de que o senhor vive falando, mandar os filhos para a escola, se divorciar como faz cinquenta por cento da população (Em outra passagem, o autor cita que o divórcio em Nova York é um esporte muito popular (Página 237), engordar, ter o primeiro ataque do coração, aposentar-se morrer.

Jonathan, essa é a mais lamentável sinopse da vida americana que já vi numa sala de aula do Ensino Médio. Mas você forneceu os ingredientes para se escrever o grande romance americano. Sintetizou os romances de Theodore Dreiser, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald" (Página 252). No capítulo 18, o Sr. McCourt dá a resposta. Transcrevo o capítulo por inteiro VOU TENTAR. E a tentativa se transformou num grande êxito literário americano.

Ao ver estes escritores, eu voltei a me lembrar de nossos círculos de leituras. Por eles eu entrei em contato com outro escritor, descritor da vida americana, Philip Roth. Dele lemos o maravilhoso A marca humana. E, depois li quase a sua obra por inteiro, ao menos no que diz respeito a seus livros traduzidos para o português. Ah sim! lembrando. O professor André Tezza, na qualidade de coordenador do curso, nos presenteou com o livro. Penso em relê-lo.

Antes de fazer alguns destaques, vamos a orelha do livro: "Agora, eis aqui o tão aguardado livro de McCourt no qual ele conta como seus 36 anos de carreira no magistério engendraram seu segundo ato como escritor (O primeiro - As cinzas de Ângela). Ei, professor é também um tributo pungente a todos os professores. Com uma prosa ousada e vivaz, em que se destaca seu humor irreverente, com uma franqueza tocante, McCourt registra as tentativas, os triunfos e as surpresas com que se deparou em escolas públicas na cidade de Nova York. Ao lançar mão de métodos que nada tem de convencionais. McCourt cria um impacto duradouro em seus alunos por meio de tarefas imaginativas (orienta uma turma a redigir "Um pedido de desculpas de Adão ou de Eva para Deus"), músicas (nas quais a lista de ingredientes de uma receita toma o lugar da letra original) e passeios (imagine levar 29 garotas agitadas para um cinema em Times Square!).

McCourt luta para encontrar o caminho correto nas aulas e consome as noites bebendo com escritores e sonhando em um dia pôr no papel sua própria história. Em Ei, professor, vemos McCourt demonstrando sua incomparável habilidade para contar uma história magnífica enquanto, cinco dias por semana, cinco aulas por dia, se esforça para prender a atenção e ganhar o respeito dos adolescentes indisciplinados, sobrecarregados de hormônios ou indiferentes. O periclitante casamento de McCourt, sua fracassada tentativa de obter um doutorado no Trinity College, em Dublin, e suas repetidas demissões causadas pela propensão a contestar os superiores acabam, ironicamente, por levá-lo a trabalhar na escola mais prestigiosa de Nova York, a Escola Secundária Stuyvesant, onde ele por fim encontra um lugar e uma voz. "A tenacidade", diz ele, "não é tão atraente quanto a ambição, ou o talento, ou o intelecto, ou o charme, mesmo assim foi o que me permitiu vencer os dias e as noites".

Para McCourt, contar histórias é em si mesmo a fonte da salvação e, em Ei, professor, a viagem para a redenção - e para a glória literária - é uma aventura muito divertida".

O livro tem 266 páginas. É dividido em três partes, mais um pequeno mas super interessante prólogo. Vamos aos títulos das partes, bastante auto explicativos: Parte 1. - O longo caminho até a pedagogia. Parte 2. - Um burro no meio dos espinhos. Um capítulo valioso sobre o que ocorre nas salas de aula. Os choques de gênero, geração, cultura e raça. Parte 3. - Renascendo na sala 205. Os seus êxitos na Escola de Stuyvesant.

No Prólogo McCourt praticamente se apresenta. Menino infeliz, nascido nos Estados Unidos, criado na maior pobreza na Irlanda e de volta aos Estados Unidos. É simplesmente maravilhosa a sua fala sobre a sua infância infeliz: "Eu poderia sair à procura de culpados. A infância infeliz não acontece à toa. Ela é criada. Existem forças sombrias. Se eu apontar culpados, o farei com um espírito de perdão. Portanto, perdoo às seguintes pessoas: ao papa Pio XII; aos ingleses em geral e ao rei Jorge VI em particular; ao cardeal Mac Rory, que dominava a Irlanda quando eu era criança; ao bispo de Limerick, que parecia achar que tudo era pecado; perdoo a Eamonn de Valera, ex-primeiro-ministro (cargo que os irlandeses chamam de Taoiseach) e presidente da Irlanda. O senhor de Valera era um fanático gaélico semi-espanhol (cebola espanhola num ensopado irlandês) que orientava os professores em toda a Irlanda a incutir em nós, à força, a língua nativa e a retirar de nós, à força, toda a curiosidade natural". O sublinhado é meu. Está já na primeira página.

Esta parte que sublinhei agitou minha memória. Fui à estante buscar uma biografia de Fellini - Fellini - uma biografia, de Túlio Kezich. Duas passagens sobre a infância dele: "Era uma criança como tantas outras, que fazia lindos desenhos, numa cidadezinha como tantas outras numa Itália ultra provinciana, oprimida de um lado fascismo e do outro pela Igreja" (Página 19). "É a mesma rebeldia de Richettino que persiste no jovem estudante, motivada pela impenetrabilidade do 'mundo dos adultos': a família de um lado, a escola do outro. Muitos foram esmagados por esta opressão. Na mesma página de Kafka, do qual já extraímos uma citação, lemos: 'Segundo minhas experiências, na escola como em casa faziam de tudo para apagar nossa peculiaridade'" (Página 25). E lembrando que no Ano de 2026 de nossa era cristã, em São Paulo e no Paraná existem escolas cívico militares. Eu defino estas escolas como O coturno pisando na poesia.

Da terceira parte existe uma passagem com a qual me diverti bastante. Sempre a citava nas aulas: "Quando eu debatia Retrato do artista quando jovem com minhas turmas descobria que eles desconheciam os Sete Pecados Capitais. Fisionomias perplexas na sala inteira. Eu escrevia no quadro: Orgulho, Avareza, Luxúria. Ira, Gula, Inveja, Preguiça. Se vocês não conhecem isso, como conseguem se divertir? (Página 201). E finalmente, uma coisa muito séria: A expectativa dos pais quanto à escola:

"Só sabem pensar em sucesso (Me permitam uma digressão - Eu assisti uma palestra motivacional em que a palestrante escreveu bem grande no quadro: $uce$$o. Disfarcei e me retirei) e dinheiro, diz Connie. Têm expectativas para seus filhos, muitas esperanças, e somos como trabalhadores numa linha de montagem colocando uma pecinha aqui e outra ali, até que o produto final saia prontinho para cumprir os desígnios dos pais e da empresa" (Página 240). E a CIDADANIA onde fica?

E para discutir um pouco mais a educação, recorro ao memorável professor Milton Santos:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

As obras-primas que poucos leram. BABBITT. Siclair Lewis.

Se você quiser fazer um verdadeiro passeio literário, passando pelas mais belas obras da literatura universal, seguramente o livro é este: As obras-primas que poucos leram, um livro organizado pela escritora Heloísa Seixas. São dois volumes. Mas eu tenho apenas o volume de número 2. No que consiste o livro? A análise de clássicos, feita por especialistas. Um exemplo: Otto Maria Carpeaux examina Crime e castigo de Dostoievski, ou R. Magalhães Júnior analisa Babbitt, de Sinclair Lewis, que passaremos a ver.

As obras-primas que poucos leram. Vol 2. Organização de Heloísa Seixas. Record. 2005.

O romance de Sinclair Lewis, Babbitt, me impressionou muito. O livro integra a memorável coleção de 50 livros, Os imortais da literatura universal, uma publicação da Abril Cultural do ano de 1972. O livro é o de número 44. A primeira edição do livro é do ano de 1922, poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos estão sendo governados pelo presidente Warren Harding (1921-1923), do Partido Republicano e sob os efeitos da Lei Seca. Babbitt é um comerciante (corretor de imóveis) de uma fictícia cidade do meio-oeste norte-americano e que se torna uma espécie de símbolo, uma caricatura do comerciante que apenas pensa em enriquecer, em ganhar dinheiro, muito dinheiro! Muito espírito do capitalismo e pouca ética protestante. Deixo a resenha do livro:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/babbitt-harry-sinclair-lewis-1922-nobel.html 

A cidade fictícia que Lewis retrata é a cidade de Zenith, que muitos cogitam ser a cidade de Minneápolis ou Cincinati, nos relata o resenhista Magalhães Júnior. A ela está reservada a glória e a grandeza do progresso. Seus cidadãos sentem muito orgulho dela. Ele também nos retrata a maneira peculiar que o escritor tinha para escrever. Ele se inseria dentro dos grupos que ele queria retratar e assim observá-los mais de perto. Babbitt sofreu um verdadeiro bombardeio de críticas. Foi considerado um livro anti Estados Unidos, contra os seus valores e a sua moralidade. Esses valores eram falsos. Ironia! Hipocrisia! Eram tempos de isolacionismo e protecionismo econômico. Tempos da Lei Seca (1920-1933) e da radical  segunda etapa da Ku Klux Klan.

O livro se centra no modo de atuação de Babbitt, de como ele se comporta para conquistar os seus clientes. Mostra suas frustrações, sonhos desfeitos e a ânsia de vender, vender e vender sempre mais. Vejamos o resenhista: "Para vender, precisava relacionar-se, ampliar cada vez mais o círculo social em que se agitava, fazer sempre contatos novos. Por isso, ingressa em tudo quanto é tipo de sociedades, clubes, fraternidades. É sócio da Ordem Protetora e Fraternal dos Alces, do Clube Atlético, da Associação Cristã de Moços, da Associação Estadual de Juntas de Bens Imóveis, do Boosters Club, bem como de vários outros, do tipo Rotary ou Lion's, um dos quais multava os sócios em meio dólar, quando estes não se tratavam por alcunhas ou diminutivos, o que era um meio artificial de forçar a intimidade e quebrar barreiras entre eles. Em cada sócio desses clubes, Babbitt via um freguês em potencial. Seus negócios, em geral, eram limpos, mas sendo necessário também entrava em conchavos ou dava golpes rendosos. Era honesto, mas subornava fiscais, para ajeitar situações difíceis, como a aprovação de loteamentos irregulares".

A descrição de seu anti-herói continua: "Contudo, Babbitt era virtuoso. Defendia, sem praticar, a proibição do álcool. Aprovava, sem lhes obedecer, as leis contra excessos de velocidade. Pagava suas dívidas. Contribuía para as despesas do culto, para a Cruz Vermelha e a Associação Cristã de Moços. Seguia os costumes de sua classe e não trapaceava senão quando isso era autorizado por um precedente, nunca descendo à fraude positiva e direta".

Vejamos mais uma caracterização do livro: "No seu romance, que constitui um painel sociológico dos Estados Unidos no início da década de 1920, Siclair Lewis satiriza a preocupação obsessiva do dinheiro na vida norte-americana e certos processos de iludir as massas ingênuas, semelhantes ao que usou o espertalhão Dale Carnegie, com o seu processo de self-help, em cursos, conferências e no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas". É um fervoroso adepto de cursos rápidos e práticos em vez de "latim e dramaturgia de Shakespeare". Em suma, um novo sistema educacional. Como são esses cursos aligeirados que hoje são tão comuns entre os governadores brasileiros de extrema direita Esse sistema tem também ojeriza à filosofia, à história e ás ciências sociais e artes. temem o pensar. Perda de tempo e tempo é dinheiro.

Babbitt, no entanto, teve dúvidas quanto a seus princípios. Passa a frequentar ambientes impróprios e as suas atividades comerciais entram em declínio. Então ele rapidamente se recompõe. Volta à família e aos negócios. E, alimenta uma esperança:

"Sua esperança é de que o filho possa romper o círculo das conveniências e dos interesses mesquinhos, para se afirmar como um indivíduo menos escravo das ideias feitas. Para ele próprio é que não há nenhuma esperança. Reconhece que sua vida foi vazia e fútil. É um homem oco, cujo dinamismo e eficiência não o levaram a lugar algum. Em todo caso, recupera a intermediação rendosa na nova negociata municipal com terrenos para a Companhia de Transportes Urbanos...".

Outro autor norte americano que eu aprecio muito é Philip Roth. Este é um crítico da cultura norte-americana ainda mais mais ácido do que Sinclair Lewis.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A - Mais-Valia - em pequenos tópicos. Explicada por Leo Huberman. - A história da Riqueza do Homem.

A finalidade deste post é a de explicitar de uma maneira simples e fácil, um conceito extremamente complexo e fundamental para a compreensão do funcionamento do modo de produção capitalista. Trata-se do conceito de MAIS-VALIA, conceito pelo qual Marx fez a sua maior denúncia sobre a exploração contida no sistema capitalista, qual seja - o não pagamento de todas as horas trabalhadas e a sua apropriação pelo dono do capital, ao comprar a força de trabalho dos trabalhadores. Esta explicitação se encontra no importante livro de Leo Huberman, História da riqueza do homem.

História da riqueza do Homem. Leo Huberman. Zahar. 1983. Tradução Waltensir Dutra.

O livro de Leo Huberman está dividido em duas partes. Na primeira - Do feudalismo ao capitalismo - ele relata a formação histórica do surgimento do sistema com a superação do sistema feudal. São séculos de história. Na segunda parte o autor se dedica à análise das contradições internas desse sistema, que são irreversíveis e que trazem como consequência uma infinidade de guerras. O sistema tem como principal finalidade a obtenção de lucro e este é obtido pela Mais-valia, ou seja, pelas horas de trabalho que não são pagas ao trabalhador. Este trabalhador foi forjado dentro do próprio sistema, ao  transformá-lo de um artesão em um trabalhador "livre". Livre de tudo, despojado de tudo, menos de sua força de trabalho, que ele é obrigado a vender, por necessidade de sobrevivência. O principal teórico do valor do trabalho foi David Ricardo. Foi sobre essa teoria que Marx se debruçou para desvendá-la. Agora sim, vamos ao livro, aos tópicos explicativos do conceito.

"A teoria da mais-valia de Marx resolve o mistério de como o trabalho é explorado na sociedade capitalista. Vamos resumir todo o processo em frases curtas:

O sistema capitalista se ocupa da produção de artigos para a venda, ou de mercadorias.

O valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário encerrado na sua produção.

O trabalhador não possui os meios de produção (terra, ferramentas, fábricas etc.).

Para viver, ele tem de vender a única mercadoria de que é dono, sua força de trabalho.

O valor de sua força de trabalho, como o de qualquer mercadoria, é o total necessário à sua produção - no caso, a soma necessária para mantê-lo vivo.

Os salários que lhe são pagos, portanto, serão iguais apenas ao que é necessário à sua manutenção.

Mas esse total que recebe, o trabalhador pode produzir em parte de um dia de trabalho.

Isso significa que apenas parte do tempo estará trabalhando para si.

O resto do tempo, estará trabalhando para o patrão.

A diferença entre o que o trabalhador recebe de salário e o valor da mercadoria que produz, é a mais-valia.

A mais-valia fica com o empregador - o dono dos meios de produção.

É a fonte do lucro, juro, renda - as rendas das classes que são donas.

A mais-valia é a medida da exploração do trabalho no sistema capitalista".

Está aí, - simples assim. Mas vale a pena seguir a leitura por mais um parágrafo. Nele encontramos uma perspicaz observação, da comparação entre Abraham Lincoln  e a teoria da mais-valia de Marx. Leo Huberman foi professor e diretor do Departamento de Ciências Sociais da famosa Universidade Colúmbia de Nova York. Vejamos:

"Kark Marx era um atento estudioso da história americana, e portanto é provável que conhecesse os escritos e discursos de Abraham Lincoln. Não sabemos se Lincoln teve a oportunidade de ler qualquer dos trabalhos de Karl Marx. Mas sabemos que sobre certos assuntos seus pensamentos eram idênticos. Vejamos esse trecho de Abraham Lincoln: 'Nada de bom tem sido, ou pode ser, desfrutado sem ter primeiro custado trabalho. E como a maioria das coisas boas são produzidas pelo trabalho, segue-se que todas essas coisas pertencem, de direito, àqueles que trabalharam para produzi-las. Mas tem ocorrido, em todas as eras do mundo, que muitos trabalharam e outros, sem trabalhar, desfrutaram uma grande proporção dos frutos. Isso está errado e não deve continuar. Assegurar a todo trabalhador o produto de seu trabalho, ou o máximo possível desse produto, é o objetivo digno de qualquer bom governo". In Leo Huberman. História da riqueza do homem. Zahar. 19ª edição. 1983. Páginas 232-234).

Deixo ainda o link da resenha do livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/01/historia-da-riqueza-do-homem-leo.html

E ainda a teoria dos modos de produção - da Contribuição à Crítica da Economia Política:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/prefacio-contribuicao-critica-da.html