"Um romance sem ficção". O jornalismo literário. A cobertura de um terrível assassinato de um fazendeiro e sua família, no interior dos Estados Unidos, na cidadezinha de Holcomb, no estado de Kansas. A família Clutter, marido, esposa, filho e filha. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon. Um assassinato cometido pelos ex presidiários Perry Smith e Dick Hickock. Esses são os personagens de um dos maiores best-sellers de todos os tempos. Estamos falando de A sangue frio, de Truman Capote. Junto ao título, um subtítulo. Ou seria uma nota explicativa: A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos, executados cinco anos depois. O crime ocorreu no ano de 1959 e o livro veio a público, através da revista The New Yorker, em 1965.
A sangue frio. Truman Capote. Tradução: Sérgio Flaksman. Companhia das Letras. 2006.
Uma pequena mudança de rumos em minhas leituras, ou melhor, releituras. Em agosto de 2006 eu li esse livro pela primeira vez. Essa leitura veio a reboque de debates que fizemos no curso de jornalismo da Universidade Positivo, a respeito do jornalismo literário. A releitura, agora, foi fruto de querer ler algo mais leve, que fugisse da teoria ou de biografias, uma leitura assim, meio entretenimento. Mas foi bem mais do que isso. No livro encontramos um retrato de época dos Estados Unidos e, especialmente, de seu sistema penitenciário. Muita descrença em meio a muitas crenças. Crenças embebidas de uma profunda moralidade. Ah! A moral.
No posfácio, Matinas Suzuki Jr. nos dá a origem do livro: "Em novembro de 1959, Capote, que estava em dívida com a revista (The New Yorker - recebera uma grande adiantamento para uma reportagem sobre a vida na Rússia da Guerra Fria e não escrevera a matéria), leu nas páginas internas do The New York Times a notícia em uma coluna do assassinato de um fazendeiro e sua família em algum lugar remoto do estado de Kansas. Em princípio, o título da notícia não despertou interesse especial em Capote. Mas, depois de remoer a história em sua cabeça por um dia e meio, viu ali a oportunidade que procurava para realizar um projeto que marcaria para sempre as relações entre o jornalismo e a literatura". Pouco depois ele dá a intenção dos editores:
"Uma das grandes sacadas da dupla (Ross e Shawn, os editores) foi ter percebido que havia uma sedutora zona cinzenta entre o jornalismo e a literatura - e ter feito dessa área de névoas um dos pilares editoriais de uma publicação de periodicidade semanal. Para Shawn, interessavam pouco os detalhes, a descrição ou mesmo a violência do crime 'naquelas planícies plantadas de trigo do oeste de Kansas'. Como editor de uma revista que precisava publicar mais do que fatos, ele queria uma história que mostrasse os efeitos do crime, 'a história de uma pequena cidade do Meio-Oeste respondendo a uma catástrofe sem precedentes'. Capote demorou sei anos para escrever essa história, na qual ele se envolveu profundamente. Ele se tornou o grande confidente dos dois assassinos na prisão. Com Perry Smith houve um envolvimento maior, nos conta Suzuki Jr. :
"Havia uma grande empatia entre o personagem real, Smith, e o escritor Capote. Os policiais estavam certos que os dois eram amantes e que Truman subornava guardas para encontrar Smith". Ivan Lessa, na apresentação do livro, também nos relata sobre os envolvimentos entre o autor e os seus personagens: "Presos os dois assassinos, conseguiu ter acesso a eles e - seria identificação? - aos trejeitos psicológicos que aproximam dois homossexuais, se um quê homossexual tivesse Perry Smith. Há teses a respeito - acabou íntimo de Perry, ele também pouco mais que um anão, como Capote.
"Capote passou ao todo um ano e meio no Kansas examinando aspectos da 'história' e conversando com quem podia, principalmente os 'dois meninos', como os chamava". O livro tem quatro capítulos, ao longo de 432 páginas, incluídos aí a apresentação e o posfácio. No primeiro capítulo - Os últimos a vê-los com vida - o cenário e os personagens protagonistas são apresentados aos leitores. No segundo capítulo - Pessoas desconhecidas - o pós crime nos é mostrado. O povo de Holcomb e os assassinos em fuga. No terceiro capítulo - Resposta - entramos em contato com as primeiras pistas de elucidação do crime e as investigações decorrentes. No quarto e último capítulo - O Canto - nos revela o local onde estão presos os condenados e as peripécias de seu julgamento. Muita atenção é dada ao histórico familiar dos assassinos. O que os teria levado a fazer o que fizeram. O passado revelando o presente...
Vamos ainda a uma aproximação maior com o livro e com o autor através das orelhas de capa e contracapa: "Com o objetivo de fazer uma reportagem sobre o assassinato do casal Clutter e seus dois filhos, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, Truman Capote passou mais de um ano na região, entrevistando os moradores e investigando as circunstâncias do crime. Sem gravador ou bloco de notas, munido apenas de sua prodigiosa memória e de um talento excepcional para observar detalhes, escarafunchar informações e, sobretudo, contar uma boa história, Capote produziu um clássico do jornalismo literário.
Para narrar a trajetória dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, da cena do crime ao corredor da morte a que terminariam condenados, o autor obteve a amizade e confiança irrestritas dos dois criminosos. Nada escapou ao olhar do repórter: o dia-a-dia da comunidade, os derradeiros instantes de cada vítima, a repercussão, a aridez arrebatadora das paisagens do Kansas. Os requintes narrativos empregados por Capote revolucionaram um gênero dos mais tradicionais - a reportagem policial - e puseram A sangue frio entre os grandes momentos da literatura americana do século XX,
Publicado em 1965 na revista The New Yorker, em quatro partes, e em livro no ano seguinte, o texto levou fama e prestígio ao autor. A chacina dos Clutter se tornou um desses crimes que volta e meia mobilizam a América. Ao conferir dimensão épica a um assassinato aparentemente revestido de banalidade, A sangue frio escancarou o lado sombrio do sonho americano no pós-guerra. As saídas são poucas, tanto para os assassinos, criados num ambiente pobre e fraturado, como para a família, abastada e exemplar, cujo ideal de realização parece não ir muito além de assar tortas de cereja para a feira do condado.
Nas mãos de Truman Capote, o exame exaustivo da realidade é mais que exemplo de jornalismo brilhante: é também um estímulo à capacidade de reinventá-la". A vida do autor também é uma história: "Truman Streckfus Persons (Truman Capote) nasceu em Nova Orleans, em 1924. Escreveu dez livros, entre peças de teatro, romances e perfis jornalísticos. Pretendia fazer um grande painel da burguesia americana em Answered prayers, romance que nunca seria concluído. Debilitado pelo álcool e pelas drogas, morreu em Los Angeles, em 1984, após uma parada cardíaca. Dele, a Companhia das Letras lançou Bonequinha de luxo e Música para camaleões".

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.