sexta-feira, 1 de maio de 2026

A milésima segunda noite da Avenida Paulista. Joel Silveira.

Como já falei em outro Post, no dia 11 de fevereiro de 2026, fui submetido a uma cirurgia de prótese de quadril. O mais complicado dessa cirurgia não é ela em si, mas o seu longo tempo de recuperação. A primeira semana de convalescença eu passei na chácara. A dependência é quase total. Um mês de andador. Nela recebi a visita dos amigos Valdemar e do pai Firmino. Pai Firmino ainda me presenteou com um livro de Joel Silveira - A milésima segunda noite da avenida Paulista. Junto a capa, uma nota explicativa: Reportagens, perfis, e entrevistas do repórter que mudou o jornalismo brasileiro. Duas curiosidades: o teor do livro e conhecer, mais de perto, o seu autor.

A milésima segunda noite da avenida paulista. Joel Silveira. Companhia das Letras. 2003.

Vamos então atender as curiosidades: Primeiro a do livro, por uma parte de sua contracapa: "De grã-finos em São Paulo", matéria publicada em 1943, que chega aos dias de hoje como um cult do jornalismo nacional, aos textos mais recentes, igualmente ferinos. A milésima segunda noite da avenida Paulista traz perfis de escritores, artistas e intelectuais e conta episódios dos bastidores da cultura, formando uma painel variado (e sempre divertido) da vida brasileira". E, em segundo, o autor, que nos é apresentado por Fernando Morais, no Posfácio em que apresenta o jornalista, sob o título "A víbora está viva". Este apelido ferino lhe fora dado por Assis Chateaubriand. Joel Silveira era sergipano, nascido na cidade de Lagarto, em 1918 e construiu a sua vida de jornalista no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 2007. Além da descrição das elites da avenida Paulista da década de 1940, também se destacou como ácido crítico da ditadura militar, instituída pelo golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.

Também traz uma série de mini biografias de intelectuais e escritores com os quais conviveu e entrevistou. Entre eles figuram o escritor e crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), retratado por uma entrevista realizada em 1943, 18 poetisas revoltadas contra um mundo em guerra, um trabalho jornalístico seu do ano de 1944, um retrato de Assis Chateaubriand, com quem mais tarde veio a trabalhar, inclusive como correspondente de seu império jornalístico, da Segunda Guerra Mundial, como enviado especial, direto do front. Outro perfil destacado é o do escritor Monteiro Lobato. No campo da reportagem ganharam destaque algumas conversas mantidas com alguns cangaceiros de Lampião.

Voltando aos perfis de intelectuais e escritores encontraremos um belo retrato de Graciliano Ramos, de Manuel Bandeira, de Nássara (Antônio Gabriel Nássara - 1910-1996, compositor e caricaturista), co-autor, com Haroldo Lobo, da clássica marchinha carnavalesca Allah-la-O e uma reportagem, já do ano de 1967, sobre Cândido Portinari, a partir de Brodósqui, sua cidade natal, no interior de São Paulo, além do relato de seus encontros com João Cabral de Mello Neto, com Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, Gilberto Freyre e o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Mas o destaque do livro são os retratos caricaturados da elite paulistana da década de 1940, das duas primeiras, digamos, reportagens. A primeira tem por título: 1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo e a segunda, que empresta o seu título ao livro: A milésima segunda noite da avenida Paulista. Da primeira destaco os quatro grupos de ricos e ricas paulistanas. Vejamos: "Além do 'quarto grupo', o grupo de Alfredo Mesquita e Roberto Moreira, existem outros três grupos, cada qual com suas características próprias. O primeiro grupo é formado pelos grã-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos, e representa o pináculo do grã-finismo. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heroicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades. Morreram todos, estão enterrados na história, mas deixaram aos seus descendentes um presente régio: deixaram um cartão de visita, espécie de permanente com o qual um Prado, um Leme e um Alves Lima podem entrar sem pagar nada" (página 12). Vamos ao segundo grupo.

"Cintilantes de joias, as senhoras do segundo grupo, o grupo 'reserva', tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos, o grupo de d. Odete Matarazzo, d. Débora Zampari, d. Rosa Frontini, d. Irene Crespi, d. Mimosa Pignatari, d. Helena Noquosi. O pai de d. Odete, por exemplo, veio ver o que havia por aqui, e por aqui havia muito. D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais: tem um sobrenome, e os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são os donos de São Paulo. D. Odete tem atrás de si fábricas e exércitos de operários. É uma senhora muito poderosa" (Páginas 12-13). E vamos ao terceiro grupo:

"Mas há o terceiro grupo, um grupo lamentável e melancólico. É uma gente que não vem lá de longe. Uma gente que nasceu por aí, de família recente, de médicos de Barretos ou comerciantes de Bauru. Uma gente que não tem dinheiro. Os homens vivem dos seus pequenos ganchos e comissões. Alguns escrevem em jornais uma literatura precária. Mas a serpente do grã-finismo tomou conta de todos, dos homens e das mulheres. As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento mensal - contanto que se tornem dignas do Roof ou do Jequiti. É o grupo do 'estribo' e o grupo do 'penacho'. Os homens se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser essa a características principal da grã-fina, como o dente de ouro é característico em todo turco" (Página 14). E por aí o cronista vai destilando o seu veneno de "víbora". Na segunda reportagem temos o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo com o 'pracinha' João Lage. Há peripécias deliciosas...

As duas reportagens são uma verdadeira aula de história... E que bela e agradável aula. Ela vai para muito além do conteúdo. Ela é recheada da mais fina ironia e do mais ácido humor. A formação histórica da cidade de São Paulo com os seus bandeirantes quatrocentões e os seus novos ricos, os Babbitts, só que com sobrenomes italianos. Que pintura dos anos 1940. Tempos de guerra e, sobretudo, tempos de grandes negócios. Vejamos ainda as orelhas do livro:

"Mulheres elegantes 'como as orquídeas que nascem de dezenas de enxertos' desfilam em alvoroço pelos 'salões carcamanos' da avenida Paulista. Para lá e para cá, industriais italianos, famílias quatrocentonas (e já meio falidas), cronistas de jornal e arrivistas de toda espécie frequentam 'noites lantejoulantes' em bares, casamentos, livrarias e festas mundanas. O grã-finismo paulistano ferve: é 1943, o mundo está em guerra, mas isso é um mero detalhe para quem cultiva os esplendores da 'vida em sociedade'.

Ao descrever o universo da elite paulistana numa reportagem publicada em Diretrizes, semanário dirigido por Samuel Wainer, Joel Silveira fez muito mais do que o retrato de um deslumbrado grupo de high society tupiniquim. Com seu texto fino, irônico, repleto de sutilezas, adjetivos matadores e metáforas pontiagudas, o então jovem repórter sergipano conseguiu ser original e ousado em meio a um noticiário burocrático, debilitado pela censura do Estado Novo. Por causa da matéria, Assis Chateaubriand lhe daria um emprego e um apelido - 'víbora'. O mérito maior daquele texto, no entanto, foi inaugurar no Brasil um tipo de reportagem que utilizava recursos da narrativa de ficção, e que abriria caminho para o moderno jornalismo brasileiro.

Nesta antologia, que reúne alguns de seus melhores trabalhos (alguns deles inéditos), Joel penetra duas vezes no mundo elegante de São Paulo; entrevista os companheiros de Lampião numa penitenciária de Salvador; colhe um depoimento político de Monteiro Lobato que causaria o fechamento de Diretrizes e o exílio de Samuel Wainer; mostra intelectuais, artistas e expoentes da cultura como João Cabral, Portinari, Manuel Bandeira, Agripino Grieco e Gilberto Freyre em momentos descontraídos e bem-humorados, muito diferentes da imagem solene que o tempo acabou lhes conferindo.

Estes perfis, entrevistas e reportagens dão uma ideia do que pode ser a melhor imprensa brasileira: cáustica, saborosa, provocativa, inteligente. E, é claro, venenosa, como convém a víboras incorrigíveis como Joel Silveira". Aos meus amigos o meu muito obrigado pela visita e ao Pai Firmino o meu melhor agradecimento pelo presente, uma verdadeira preciosidade. Hoje faz exatamente dois meses da minha cirurgia. A recuperação está dentro do esperado e estou me sentindo muito bem.