terça-feira, 26 de maio de 2026

A SANGUE FRIO. Truman Capote.

"Um romance sem ficção". O jornalismo literário. A cobertura de um terrível assassinato de um fazendeiro e sua família, no interior dos Estados Unidos, na cidadezinha de Holcomb, no estado de Kansas. A família Clutter, marido, esposa, filho e filha. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon. Um assassinato cometido pelos ex presidiários Perry Smith e Dick Hickock. Esses são os personagens de um dos maiores best-sellers de todos os tempos. Estamos falando de A sangue frio, de Truman Capote. Junto ao título, um subtítulo. Ou seria uma nota explicativa: A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos, executados cinco anos depois. O crime ocorreu no ano de 1959 e o livro veio a público, através da revista The New Yorker, em 1965.


A sangue frio. Truman Capote. Tradução: Sérgio Flaksman. Companhia das Letras. 2006.

Uma pequena mudança de rumos em minhas leituras, ou melhor, releituras. Em agosto de 2006 eu li esse livro pela primeira vez. Essa leitura veio a reboque de debates que fizemos no curso de jornalismo da Universidade Positivo, a respeito do jornalismo literário. A releitura, agora, foi fruto de querer ler algo mais leve, que fugisse da teoria ou de biografias, uma leitura assim, meio entretenimento. Mas foi bem mais do que isso. No livro encontramos um retrato de época dos Estados Unidos e, especialmente, de seu sistema penitenciário. Muita descrença em meio a muitas crenças. Crenças embebidas de uma profunda moralidade. Ah! A moral.

No posfácio, Matinas Suzuki Jr. nos dá a origem do livro: "Em novembro de 1959, Capote, que estava em dívida com a revista (The New Yorker - recebera uma grande adiantamento para uma reportagem sobre a vida na Rússia da Guerra Fria e não escrevera a matéria), leu nas páginas internas do The New York Times a notícia em uma coluna do assassinato de um fazendeiro e sua família em algum lugar remoto do estado de Kansas. Em princípio, o título da notícia não despertou interesse especial em Capote. Mas, depois de remoer a história em sua cabeça por um dia e meio, viu ali a oportunidade que procurava para realizar um projeto que marcaria para sempre as relações entre o jornalismo e a literatura". Pouco depois ele dá a intenção dos editores:

"Uma das grandes sacadas da dupla (Ross e Shawn, os editores) foi ter percebido que havia uma sedutora zona cinzenta entre o jornalismo e a literatura - e ter feito dessa área de névoas um dos pilares editoriais de uma publicação de periodicidade semanal. Para Shawn, interessavam pouco os detalhes, a descrição ou mesmo a violência do crime 'naquelas planícies plantadas de trigo do oeste de Kansas'. Como editor de uma revista que precisava publicar mais do que fatos, ele queria uma história que mostrasse os efeitos do crime, 'a história de uma pequena cidade do Meio-Oeste respondendo a uma catástrofe sem precedentes'. Capote demorou sei anos para escrever essa história, na qual ele se envolveu profundamente. Ele se tornou o grande confidente dos dois assassinos na prisão. Com Perry Smith houve um envolvimento maior, nos conta Suzuki Jr. :

"Havia uma grande empatia entre o personagem real, Smith, e o escritor Capote. Os policiais estavam certos  que os dois eram amantes e que Truman subornava guardas para encontrar Smith". Ivan Lessa, na apresentação do livro, também nos relata sobre os envolvimentos entre o autor e os seus personagens: "Presos os dois assassinos, conseguiu ter acesso a eles e - seria identificação? - aos trejeitos psicológicos que aproximam dois homossexuais, se um quê homossexual tivesse Perry Smith. Há teses a respeito - acabou íntimo de Perry, ele também pouco mais que um anão, como Capote.

"Capote passou ao todo um ano e meio no Kansas examinando aspectos da 'história' e conversando com quem podia, principalmente os 'dois meninos', como os chamava". O livro tem quatro capítulos, ao longo de 432 páginas, incluídos aí a apresentação e o posfácio. No primeiro capítulo - Os últimos a vê-los com vida - o cenário e os personagens protagonistas são apresentados aos leitores. No segundo capítulo - Pessoas desconhecidas - o pós crime nos é mostrado. O povo de Holcomb e os assassinos em fuga. No terceiro capítulo - Resposta - entramos em contato com as primeiras pistas de elucidação do crime e as investigações decorrentes. No quarto e último capítulo - O Canto - nos revela o local onde estão presos os condenados e as peripécias de seu julgamento. Muita atenção é dada ao histórico familiar dos assassinos. O que os teria levado a fazer o que fizeram. O passado revelando o presente...

Vamos ainda a uma aproximação maior com o livro e com o autor através das orelhas de capa e contracapa: "Com o objetivo de fazer uma reportagem sobre o assassinato do casal Clutter e seus dois filhos, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, Truman Capote passou mais de um ano na região, entrevistando os moradores e investigando as circunstâncias do crime. Sem gravador ou bloco de notas, munido apenas de sua prodigiosa memória e de um talento excepcional para observar detalhes, escarafunchar informações e, sobretudo, contar uma boa história, Capote produziu um clássico do jornalismo literário.

Para narrar a trajetória dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, da cena do crime ao corredor da morte a que terminariam condenados, o autor obteve a amizade e  confiança irrestritas dos dois criminosos. Nada escapou ao olhar do repórter: o dia-a-dia da comunidade, os derradeiros instantes de cada vítima, a repercussão, a aridez arrebatadora das paisagens do Kansas. Os requintes narrativos empregados por Capote revolucionaram um gênero dos mais tradicionais - a reportagem policial - e puseram A sangue frio entre os grandes momentos da literatura americana do século XX,

Publicado em 1965 na revista The New Yorker, em quatro partes, e em livro no ano seguinte, o texto levou fama e prestígio ao autor. A chacina dos Clutter se tornou um desses crimes que volta e meia mobilizam a América. Ao conferir dimensão épica a um assassinato aparentemente revestido de banalidade, A sangue frio escancarou o lado sombrio do sonho americano no pós-guerra. As saídas são poucas, tanto para os assassinos, criados num ambiente pobre e fraturado, como para a família, abastada e exemplar, cujo ideal de realização parece não ir muito além de assar tortas de cereja para a feira do condado.

Nas mãos de Truman Capote, o exame exaustivo da realidade é mais que exemplo de jornalismo brilhante: é também um estímulo à capacidade de reinventá-la". A vida do autor também é uma história: "Truman Streckfus Persons (Truman Capote) nasceu em Nova Orleans, em 1924. Escreveu dez livros, entre peças de teatro, romances e perfis jornalísticos. Pretendia fazer um grande painel da burguesia americana em Answered prayers, romance que nunca seria concluído. Debilitado pelo álcool e pelas drogas, morreu em Los Angeles, em 1984, após uma parada cardíaca. Dele, a Companhia das Letras lançou Bonequinha de luxo e Música para camaleões".

quarta-feira, 20 de maio de 2026

LULA - Biografia. Volume 2. Fernando Morais.

Um presente valioso. Mal e mal fiquei sabendo que o volume número 2 da biografia de Lula acabava de ser lançado, recebo um telefonema, me perguntando se eu já o havia comprado. Como disse que não, veio o pedido para não comprá-lo, que eu iria ganhá-lo de presente. Coisas da minha maravilhosa amiga Suzi. Sem demora recebi Lula - biografia. Volume 2, de autoria de seu consagrado biógrafo Fernando Morais. O Brasil está muito bem de biógrafos.

Lula - biografia. Volume 2. Fernando Morais. Companhia das Letras. 2026.

Como recentemente li a biografia de Castello Branco, de autoria de outro grande biógrafo, o Lira Neto, (Também autor dos três maravilhosos volumes sobre Getúlio), me veio a tentação de fazer uma comparação. Resultado: Empate. Estava maravilhado com a aula de história do Brasil dada pelo Lira Neto com a biografia do Castello, riquíssima em análise de conjuntura de época. Mas agora, com o término da leitura da biografia do Lula, também riquíssima em detalhes de bastidores, além de precisas  análises conjunturais, é que eu optei pelo empate, ou melhor, pela vitória dos dois.

O primeiro volume de Lula, lançado em 2021, não obedeceu ao ritmo normal de uma biografia, começando pela infância, anos de formação e primeiras atividades que lhe deram projeção. Começou pelos movimentos mais recentes de sua vida, pela sua prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018, por obra da nefasta ação em dupla de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dobradinha entre acusador e juiz. O movimento se tronou conhecido como Lava-jato, ou República de Curitiba. Apenas após a narrativa desses absurdos, é que começa a história da infância do filho de Dona Lindu, de sua vida de retirante, vindo para São Paulo, onde mais tarde o veríamos ascender como líder sindical e dar os seus primeiros passos na vida política. Apenas lembrando que em 2021 Lula foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal de todas as acusações de que fora vítima. Enquanto isso, a dupla Moro e Deltan continuam atormentando a vida política dos paranaenses.

Feita essa digressão vamos ao segundo volume. O seu teor abrange um dos momentos mais bonitos de nossa história, o período da saída dos intermináveis 21 anos da ditadura militar e o florescer dos maiores movimentos de participação popular, com a redemocratização. Por ela passamos pelo  movimento em favor das eleições diretas - Eu quero votar para presidente -, pelo movimento em favor da anistia e da constituinte e do retorno das eleições diretas para presidente da República. Água nova brotando e inúmeras novas demandas da democracia encontraram espaço de manifestação e realização. Demandas reprimidas, feito água caçando jeito, para usar a bela expressão do nosso querido poeta Manoel de Barros. E Lula, em todos esses movimentos, sempre protagonista. Este segundo volume termina com a sua eleição em 2002, o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil.

O próprio Fernando de Morais conta o teor deste segundo volume, ao seu final: "Neste segundo tomo eu reencontro Lula já refeito de sua primeira derrota, como candidato a governador de São Paulo, em 1982. Este volume acompanha os bastidores de sua trajetória na campanha das Diretas Já, a retumbante eleição para Constituinte e as Caravanas da Cidadania, em que ele esquadrinha o Brasil de cima a baixo. Trata também das três derrotas nas frustradas campanhas presidenciais, sua tentativa de aliança com o PSDB, na eleição presidencial de 1994, e encerra com o coroamento de sua carreira, na vitória para a Presidência da República de 2002".

O grande valor do livro está na narrativa dos bastidores, nos detalhes que não foram suprimidos, no cotidiano de uma pessoa viva e ativa participante dos fatos, assumindo postura e compromissos sem jamais se omitir. Responsabilidades enormes. O livro é de fácil compreensão por um motivo muito simples. É a narrativa de fatos contemporâneos. Eu pessoalmente, vivenciei esses fatos. Participei de todos esses movimentos. Em Umuarama, lembro perfeitamente da campanha pelas Diretas Já, da Constituinte (Junto com a companheirada da APP, estive três vezes em Brasília), dos comícios pró-Lula, de 1989, dos cara-pintadas e do Fora Collor. Naquele tempo já havia muito ódio contra Lula, um operário querendo disputar um lugar, sempre de exclusiva competência da classe patronal. Nesse tempo eu exercia funções de direção sindical, de direção no Partido dos Trabalhadores, de formação de quadros do PT na escola de Cajamar e na participação do processo eleitoral de 1990, como candidato a deputado federal, na única certeza de ajudar a somar votos para a bancada do PT. Em 1990 o Paraná elegeu três deputados federais: Edésio Passos, Paulo Bernardo e Nedson Nicheletti. Neste micromundo também fui um pouco protagonista. Com a leitura consegui me situar melhor no meu próprio mundo. E isso foi maravilhoso.

O capítulo que mais profundamente me marcou foi de número dez - Lula roda 30 mil quilômetros para fazer um doutorado sobre o Brasil profundo -. É o capítulo da primeira das Caravanas da Cidadania, na qual ele reproduz o seu caminho de retirante nordestino para o sudeste brasileiro, caminho percorrido por tantos outros brasileiros, em busca de trabalho e um pouco de dignidade humana em centros mais desenvolvidos, que, mais cedo que outras, receberam os investimentos do Estado. Essa caravana deve ter contribuído em muito na formação de toda a sensibilidade social da qual Lula é dotado. Não tem como ficar indiferente a tanta miséria sentida por Lula, na repetição de sua trajetória de vida. 

O livro, ao todo, contem 333 páginas, divididas em 14 capítulos. E, reforçado pela leitura da trajetória nada fácil da vida do Lula, de suas dificuldades e de seus êxitos, me confesso reconfortado e animado para mais uma batalha, a batalha deste ano de 2026. É luta por democracia. É luta por civilização. É luta por direitos e dignidade. É luta por humanidade. Vamos continuar construindo o terceiro volume da biografia do maior personagem contemporâneo de nossa história. Concluo como Fernando Morais termina este segundo volume, citando Gilberto Freyre, diante das transformações brasileiras de 1930. Não estranhem:

Eu ouço as vozes

Eu vejo as cores

Eu sinto os passos

De outro Brasil que vem aí. 

Este verso motivou a campanha de 2002 - (Duda Mendonça) da Esperança vencendo o medo.

E o post do volume I.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/lula-biografia-fernando-morais.html



terça-feira, 12 de maio de 2026

CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

Um tema necessário para quem, minimamente, quer acompanhar as estruturas políticas e econômicas do nosso mundo contemporâneo. É impossível não deter um olhar sobre o que está ocorrendo na China. Nesse sentido, entre os livros que comprei para serem lidos no período de recuperação de uma cirurgia de prótese de quadril, incluí China - o socialismo do século XXI. A autoria é de Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é resultante de uma tese acadêmica dos autores, realizado na Universidade da Campânia L. Vanitelli, de Nápoles, sob a supervisão de Francesco Schettino, que também prefaciou o livro e que assim o define:
China - o socialismo no século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele. Boitempo. 2021.

"Com uma abordagem bastante materialista, os autores vão ao cerne da questão, evidenciando as ligações existentes entre as relações de propriedade, por um lado, e, por outro, as formas e a eficácia das ferramentas de planejamento/projetamento, assim como o papel crucial que estas últimas podem desempenhar como alternativa realista à anarquia do capital". Os autores examinam a realidade chinesa que se iniciou com as reformas do ano de 1978, quando se inicia a nova formação econômica e social de um socialismo de mercado. Uma economia de planejamento e de projetamento para o socialismo, com a priorização dos resultados econômicos para o humano. Os autores são os primeiros a reconhecer a polêmica que o livro viria a causar, pelo fato de lançar um novo olhar sobre o socialismo, que eles denominam de O socialismo do século XXI. Creio que o seguinte parágrafo da introdução traduz, tanto esse novo olhar, quanto a própria estrutura do livro:

"Tínhamos clareza de que estávamos rompendo com uma forma de pensar arraigada não somente em duas ou três gerações de intelectuais comunistas ocidentais. Estávamos rompendo também com uma visão poderosa - porque quase mítica - do marxismo e do socialismo. A China e o 'socialismo de mercado' deveriam ser tratados como uma formação econômico-social nova, distinta. Essa observação pode ser considerada a primeira parte da história, e mais difícil. Uma vez convencidos disso, como são testemunha nossos caminhos particulares, observar e classificar as lógicas do funcionamento dessa nova formação econômico social passou a ser a nossa busca comum".

O livro, portanto está estruturado em duas partes: Parte I. Capitalismo e socialismo como modo de produção, com oito capítulos e Parte II, A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. São mais sete capítulos. Essa nova formação econômico-social se constitui em um metamodo de produção, com orientação para o socialismo. Um modo de produção híbrido, que vai se constituindo, sempre em busca, sempre em transformação, com objetivos muito claros e bem delineados. Devo também dizer que não é um livro para principiantes. Seria um livro apenas para economistas? Creio que não. Embora a leitura e a compreensão se tornem difíceis, quando não acompanhados de debate. Este é o verdadeiro sentido de uma aula em universidade. Expor as primeiras compreensões e a partir delas aprofundar as categorias trabalhadas.

Devo ainda dizer que um dos grandes objetivos dos autores foi a de desmentir a tese em voga na década de 1990, a do "fim da história". A tese de que não haveria alternativas e que todos deveriam se render às doutrinas liberais, revestidas e aprofundadas pelo neoliberalismo e impostas ao mundo pelos organismos internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A nova formação econômico-social chinesa é a prova viva do caráter dialético da história e a negação absoluta de que ela teria chegado ao seu fim, teria chegado ao seu estágio final de aperfeiçoamento. Outro ponto alto dos autores é o da constatação de que nessa nova formação econômico social o setor produtivo da economia deverá financiar o setor improdutivo. Em outras palavras, a produção de mercadorias deve financiar os serviços prestados pelo Estado, como educação, saúde, habitação e bens públicos. E, isso é muito importante, a China conseguiu fazer isso. Criou mecanismos para isso. Aí já estamos entrando na segunda parte do livro. 

Se você conseguiu atravessar as duas partes do livro, ao final você encontrará uma síntese fantástica sob o título de - conclusões -, que em muito facilitará a sua compreensão. São doze tópicos, dos quais dou os títulos: 1. Socialismo no século XXI?; 2. O básico; 3. O planejamento, seu potencial e limites; 4. O metamodo de produção; 5. Macrossetor produtivo e macrossetor não produtivo; 6. Estados desenvolvimentistas de orientação socialista; 7. Capacidades estatais; 8. Antes de tudo, reformas rurais; 9. A via chinesa: Estado, mercado e os grandes conglomerados empresariais estatais (GCEE); 10. A Comissão de  Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC) como a principal inovação institucional; 11. Partido Comunista da China; 12. O socialismo de mercado em nível superior: A 'nova economia do projetamento'.

Mais duas observações. Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas.

Outro destaque, além dos pontos que melhor atendem a curiosidade sobre o que a China fez para atingir tamanha grandeza, explicitados, nos itens 8, 9, 10 e 11. quero chamar atenção especial ao item 12. A teoria da economia do projetamento é de um brasileiro. Ela foi desenvolvida por Ignácio Rangel, em seu livro Elementos de economia do projetamento, um livro de 1959. Enquanto o planejamento atinge o macro, o projetamento atinge o micro, o nível das empresas.  Ignácio Rangel (1914- 1994) foi uma das pessoas mais influentes na formulação das políticas econômicas do Governo de Getúlio Vargas, as do nacional desenvolvimentismo, colaborando na formulação dos projetos da criação da Petrobras e da Eletrobras. Foi um dos pensadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, criado em 1955, para pensar projetos para o Brasil. O ISEB foi liquidado pelo governo da ditadura civil-militar ainda no ano de 1964 e Ignácio Rangel foi posto no ostracismo, um decreto de morte ao seu pensamento. Mas, a dialética... E o que não representou para o Brasil este mal fadado golpe?

Vamos buscar esclarecer um pouco mais sobre o livro, pela apresentação de Carlos Eduardo Martins, professor da UFRJ, nas orelhas do livro: " A ascensão acelerada da China no sistema mundial capitalista desde os anos 1980 - que, principalmente a partir da Guerra do Ópio, inverteu o longo declínio iniciado no século XIX - constitui o principal acontecimento geopolítico para a análise das ciências sociais e da economia política contemporâneas. O reencontro da China com a economia mundial capitalista, após a desconexão imposta pela revolução maoísta, não ensejou uma nova ocupação e vitória do imperialismo ocidental como Nixon e, posteriormente, os apologistas da globalização neoliberal imaginaram. Tampouco uma submissão ao dólar e ao poder financeiro estadunidense, que tanto impressionou parte da esquerda brasileira e mundial.

Ao contrário, por meio de um processo de hibridização, a China conserva sua soberania interna e mostra que o domínio científico e tecnológico é uma das fontes estratégicas de poder mundial. Impulsionando uma nova onda de crescimento econômico mundial, arranha a ilusão de totalidade do capital fictício, atravessando o seu espelho com a força dos valores de uso, aos quais o mundo da mercadoria está indissoluvelmente ligado.

Elemento chave nesse processo é a reinvenção do Estado, que em vez de se orientar para um processo de acumulação independente do mundo do trabalho - caminho aventureiro trilhado pelo eixo de poder anglo-saxão -, lidera a mais vasta erradicação da pobreza da história da humanidade. Além disso, uma imensa reorganização empresarial e um vasto desenvolvimento de capacidades de amplas massas lançam os pilares de uma potência territorial de escala muito superior à das potências marítimas ocidentais que lideraram a civilização capitalista.

Elias Jabbour e Alberto Gabriele estão entre os mais destacados estudiosos da China contemporânea e dos processos de transformação em curso, que ultrapassam suas fronteiras e abrem as perspectivas de novas formas de existência. Os autores entregam neste livro um rico material analítico e empírico e propõem uma síntese original entre o marxismo, o estruturalismo e o keynesianismo que não pode ser ignorada pelos cientistas sociais". Vejamos ainda Luiz Gonzaga Beluzzo na contracapa:

"Este livro magnificamente organizado e escrito por Elias Jabbour e Alberto Gabriele, gratificará o leitor com os sabores incomparáveis da aventura intelectual. Na vida do conhecimento e da compreensão da sociedade e da economia devemos sempre almejar à desconstrução do estabelecido e buscar os desafios do novo que nasce do movimento dos homens e de suas relações. É isso que o que nos oferecem Jabbour e Gabriele. A exploração dos autores empenha-se em descobrir no socialismo da China a construção de uma nova formação econômica e social que instiga a perplexidade dos conformistas que não se cansam de indagar: Capitalismo de Estado ou Socialismo de Mercado?". Do livro consta ainda um apêndice sob o título de - Os outros dois membros da nova classe de formações econômico-sociais de novo tipo: Vietnã e Laos. Acrescento também os posts de mais dois livros: Uma história da Revolução de 1949, e a da China sob a Revolução, até as grandes transformações, a partir de 1978.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos.

Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.

Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.

Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.

A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935.  O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história.  O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é  constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro). 

Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro). 

Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:

"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:

Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade". 

Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.

Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.

Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere". 

E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".

E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!

É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A milésima segunda noite da Avenida Paulista. Joel Silveira.

Como já falei em outro Post, no dia 11 de fevereiro de 2026, fui submetido a uma cirurgia de prótese de quadril. O mais complicado dessa cirurgia não é ela em si, mas o seu longo tempo de recuperação. A primeira semana de convalescença eu passei na chácara. A dependência é quase total. Um mês de andador. Nela recebi a visita dos amigos Valdemar e do pai Firmino. Pai Firmino ainda me presenteou com um livro de Joel Silveira - A milésima segunda noite da avenida Paulista. Junto a capa, uma nota explicativa: Reportagens, perfis, e entrevistas do repórter que mudou o jornalismo brasileiro. Duas curiosidades: o teor do livro e conhecer, mais de perto, o seu autor.

A milésima segunda noite da avenida paulista. Joel Silveira. Companhia das Letras. 2003.

Vamos então atender as curiosidades: Primeiro a do livro, por uma parte de sua contracapa: "De grã-finos em São Paulo", matéria publicada em 1943, que chega aos dias de hoje como um cult do jornalismo nacional, aos textos mais recentes, igualmente ferinos. A milésima segunda noite da avenida Paulista traz perfis de escritores, artistas e intelectuais e conta episódios dos bastidores da cultura, formando uma painel variado (e sempre divertido) da vida brasileira". E, em segundo, o autor, que nos é apresentado por Fernando Morais, no Posfácio em que apresenta o jornalista, sob o título "A víbora está viva". Este apelido ferino lhe fora dado por Assis Chateaubriand. Joel Silveira era sergipano, nascido na cidade de Lagarto, em 1918 e construiu a sua vida de jornalista no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 2007. Além da descrição das elites da avenida Paulista da década de 1940, também se destacou como ácido crítico da ditadura militar, instituída pelo golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.

Também traz uma série de mini biografias de intelectuais e escritores com os quais conviveu e entrevistou. Entre eles figuram o escritor e crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), retratado por uma entrevista realizada em 1943, 18 poetisas revoltadas contra um mundo em guerra, um trabalho jornalístico seu do ano de 1944, um retrato de Assis Chateaubriand, com quem mais tarde veio a trabalhar, inclusive como correspondente de seu império jornalístico, da Segunda Guerra Mundial, como enviado especial, direto do front. Outro perfil destacado é o do escritor Monteiro Lobato. No campo da reportagem ganharam destaque algumas conversas mantidas com alguns cangaceiros de Lampião.

Voltando aos perfis de intelectuais e escritores encontraremos um belo retrato de Graciliano Ramos, de Manuel Bandeira, de Nássara (Antônio Gabriel Nássara - 1910-1996, compositor e caricaturista), co-autor, com Haroldo Lobo, da clássica marchinha carnavalesca Allah-la-O e uma reportagem, já do ano de 1967, sobre Cândido Portinari, a partir de Brodósqui, sua cidade natal, no interior de São Paulo, além do relato de seus encontros com João Cabral de Mello Neto, com Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, Gilberto Freyre e o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Mas o destaque do livro são os retratos caricaturados da elite paulistana da década de 1940, das duas primeiras, digamos, reportagens. A primeira tem por título: 1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo e a segunda, que empresta o seu título ao livro: A milésima segunda noite da avenida Paulista. Da primeira destaco os quatro grupos de ricos e ricas paulistanas. Vejamos: "Além do 'quarto grupo', o grupo de Alfredo Mesquita e Roberto Moreira, existem outros três grupos, cada qual com suas características próprias. O primeiro grupo é formado pelos grã-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos, e representa o pináculo do grã-finismo. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heroicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades. Morreram todos, estão enterrados na história, mas deixaram aos seus descendentes um presente régio: deixaram um cartão de visita, espécie de permanente com o qual um Prado, um Leme e um Alves Lima podem entrar sem pagar nada" (página 12). Vamos ao segundo grupo.

"Cintilantes de joias, as senhoras do segundo grupo, o grupo 'reserva', tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos, o grupo de d. Odete Matarazzo, d. Débora Zampari, d. Rosa Frontini, d. Irene Crespi, d. Mimosa Pignatari, d. Helena Noquosi. O pai de d. Odete, por exemplo, veio ver o que havia por aqui, e por aqui havia muito. D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais: tem um sobrenome, e os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são os donos de São Paulo. D. Odete tem atrás de si fábricas e exércitos de operários. É uma senhora muito poderosa" (Páginas 12-13). E vamos ao terceiro grupo:

"Mas há o terceiro grupo, um grupo lamentável e melancólico. É uma gente que não vem lá de longe. Uma gente que nasceu por aí, de família recente, de médicos de Barretos ou comerciantes de Bauru. Uma gente que não tem dinheiro. Os homens vivem dos seus pequenos ganchos e comissões. Alguns escrevem em jornais uma literatura precária. Mas a serpente do grã-finismo tomou conta de todos, dos homens e das mulheres. As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento mensal - contanto que se tornem dignas do Roof ou do Jequiti. É o grupo do 'estribo' e o grupo do 'penacho'. Os homens se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser essa a características principal da grã-fina, como o dente de ouro é característico em todo turco" (Página 14). E por aí o cronista vai destilando o seu veneno de "víbora". Na segunda reportagem temos o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo com o 'pracinha' João Lage. Há peripécias deliciosas...

As duas reportagens são uma verdadeira aula de história... E que bela e agradável aula. Ela vai para muito além do conteúdo. Ela é recheada da mais fina ironia e do mais ácido humor. A formação histórica da cidade de São Paulo com os seus bandeirantes quatrocentões e os seus novos ricos, os Babbitts, só que com sobrenomes italianos. Que pintura dos anos 1940. Tempos de guerra e, sobretudo, tempos de grandes negócios. Vejamos ainda as orelhas do livro:

"Mulheres elegantes 'como as orquídeas que nascem de dezenas de enxertos' desfilam em alvoroço pelos 'salões carcamanos' da avenida Paulista. Para lá e para cá, industriais italianos, famílias quatrocentonas (e já meio falidas), cronistas de jornal e arrivistas de toda espécie frequentam 'noites lantejoulantes' em bares, casamentos, livrarias e festas mundanas. O grã-finismo paulistano ferve: é 1943, o mundo está em guerra, mas isso é um mero detalhe para quem cultiva os esplendores da 'vida em sociedade'.

Ao descrever o universo da elite paulistana numa reportagem publicada em Diretrizes, semanário dirigido por Samuel Wainer, Joel Silveira fez muito mais do que o retrato de um deslumbrado grupo de high society tupiniquim. Com seu texto fino, irônico, repleto de sutilezas, adjetivos matadores e metáforas pontiagudas, o então jovem repórter sergipano conseguiu ser original e ousado em meio a um noticiário burocrático, debilitado pela censura do Estado Novo. Por causa da matéria, Assis Chateaubriand lhe daria um emprego e um apelido - 'víbora'. O mérito maior daquele texto, no entanto, foi inaugurar no Brasil um tipo de reportagem que utilizava recursos da narrativa de ficção, e que abriria caminho para o moderno jornalismo brasileiro.

Nesta antologia, que reúne alguns de seus melhores trabalhos (alguns deles inéditos), Joel penetra duas vezes no mundo elegante de São Paulo; entrevista os companheiros de Lampião numa penitenciária de Salvador; colhe um depoimento político de Monteiro Lobato que causaria o fechamento de Diretrizes e o exílio de Samuel Wainer; mostra intelectuais, artistas e expoentes da cultura como João Cabral, Portinari, Manuel Bandeira, Agripino Grieco e Gilberto Freyre em momentos descontraídos e bem-humorados, muito diferentes da imagem solene que o tempo acabou lhes conferindo.

Estes perfis, entrevistas e reportagens dão uma ideia do que pode ser a melhor imprensa brasileira: cáustica, saborosa, provocativa, inteligente. E, é claro, venenosa, como convém a víboras incorrigíveis como Joel Silveira". Aos meus amigos o meu muito obrigado pela visita e ao Pai Firmino o meu melhor agradecimento pelo presente, uma verdadeira preciosidade. Hoje faz exatamente dois meses da minha cirurgia. A recuperação está dentro do esperado e estou me sentindo muito bem.