cultura, política e viagens __________________________________________________________________ "A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original" Albert Einstein
terça-feira, 26 de maio de 2026
A SANGUE FRIO. Truman Capote.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
LULA - Biografia. Volume 2. Fernando Morais.
Um presente valioso. Mal e mal fiquei sabendo que o volume número 2 da biografia de Lula acabava de ser lançado, recebo um telefonema, me perguntando se eu já o havia comprado. Como disse que não, veio o pedido para não comprá-lo, que eu iria ganhá-lo de presente. Coisas da minha maravilhosa amiga Suzi. Sem demora recebi Lula - biografia. Volume 2, de autoria de seu consagrado biógrafo Fernando Morais. O Brasil está muito bem de biógrafos.
Lula - biografia. Volume 2. Fernando Morais. Companhia das Letras. 2026.
Como recentemente li a biografia de Castello Branco, de autoria de outro grande biógrafo, o Lira Neto, (Também autor dos três maravilhosos volumes sobre Getúlio), me veio a tentação de fazer uma comparação. Resultado: Empate. Estava maravilhado com a aula de história do Brasil dada pelo Lira Neto com a biografia do Castello, riquíssima em análise de conjuntura de época. Mas agora, com o término da leitura da biografia do Lula, também riquíssima em detalhes de bastidores, além de precisas análises conjunturais, é que eu optei pelo empate, ou melhor, pela vitória dos dois.
O primeiro volume de Lula, lançado em 2021, não obedeceu ao ritmo normal de uma biografia, começando pela infância, anos de formação e primeiras atividades que lhe deram projeção. Começou pelos movimentos mais recentes de sua vida, pela sua prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018, por obra da nefasta ação em dupla de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dobradinha entre acusador e juiz. O movimento se tronou conhecido como Lava-jato, ou República de Curitiba. Apenas após a narrativa desses absurdos, é que começa a história da infância do filho de Dona Lindu, de sua vida de retirante, vindo para São Paulo, onde mais tarde o veríamos ascender como líder sindical e dar os seus primeiros passos na vida política. Apenas lembrando que em 2021 Lula foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal de todas as acusações de que fora vítima. Enquanto isso, a dupla Moro e Deltan continuam atormentando a vida política dos paranaenses.
Feita essa digressão vamos ao segundo volume. O seu teor abrange um dos momentos mais bonitos de nossa história, o período da saída dos intermináveis 21 anos da ditadura militar e o florescer dos maiores movimentos de participação popular, com a redemocratização. Por ela passamos pelo movimento em favor das eleições diretas - Eu quero votar para presidente -, pelo movimento em favor da anistia e da constituinte e do retorno das eleições diretas para presidente da República. Água nova brotando e inúmeras novas demandas da democracia encontraram espaço de manifestação e realização. Demandas reprimidas, feito água caçando jeito, para usar a bela expressão do nosso querido poeta Manoel de Barros. E Lula, em todos esses movimentos, sempre protagonista. Este segundo volume termina com a sua eleição em 2002, o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil.
O próprio Fernando de Morais conta o teor deste segundo volume, ao seu final: "Neste segundo tomo eu reencontro Lula já refeito de sua primeira derrota, como candidato a governador de São Paulo, em 1982. Este volume acompanha os bastidores de sua trajetória na campanha das Diretas Já, a retumbante eleição para Constituinte e as Caravanas da Cidadania, em que ele esquadrinha o Brasil de cima a baixo. Trata também das três derrotas nas frustradas campanhas presidenciais, sua tentativa de aliança com o PSDB, na eleição presidencial de 1994, e encerra com o coroamento de sua carreira, na vitória para a Presidência da República de 2002".
O grande valor do livro está na narrativa dos bastidores, nos detalhes que não foram suprimidos, no cotidiano de uma pessoa viva e ativa participante dos fatos, assumindo postura e compromissos sem jamais se omitir. Responsabilidades enormes. O livro é de fácil compreensão por um motivo muito simples. É a narrativa de fatos contemporâneos. Eu pessoalmente, vivenciei esses fatos. Participei de todos esses movimentos. Em Umuarama, lembro perfeitamente da campanha pelas Diretas Já, da Constituinte (Junto com a companheirada da APP, estive três vezes em Brasília), dos comícios pró-Lula, de 1989, dos cara-pintadas e do Fora Collor. Naquele tempo já havia muito ódio contra Lula, um operário querendo disputar um lugar, sempre de exclusiva competência da classe patronal. Nesse tempo eu exercia funções de direção sindical, de direção no Partido dos Trabalhadores, de formação de quadros do PT na escola de Cajamar e na participação do processo eleitoral de 1990, como candidato a deputado federal, na única certeza de ajudar a somar votos para a bancada do PT. Em 1990 o Paraná elegeu três deputados federais: Edésio Passos, Paulo Bernardo e Nedson Nicheletti. Neste micromundo também fui um pouco protagonista. Com a leitura consegui me situar melhor no meu próprio mundo. E isso foi maravilhoso.
O capítulo que mais profundamente me marcou foi de número dez - Lula roda 30 mil quilômetros para fazer um doutorado sobre o Brasil profundo -. É o capítulo da primeira das Caravanas da Cidadania, na qual ele reproduz o seu caminho de retirante nordestino para o sudeste brasileiro, caminho percorrido por tantos outros brasileiros, em busca de trabalho e um pouco de dignidade humana em centros mais desenvolvidos, que, mais cedo que outras, receberam os investimentos do Estado. Essa caravana deve ter contribuído em muito na formação de toda a sensibilidade social da qual Lula é dotado. Não tem como ficar indiferente a tanta miséria sentida por Lula, na repetição de sua trajetória de vida.
O livro, ao todo, contem 333 páginas, divididas em 14 capítulos. E, reforçado pela leitura da trajetória nada fácil da vida do Lula, de suas dificuldades e de seus êxitos, me confesso reconfortado e animado para mais uma batalha, a batalha deste ano de 2026. É luta por democracia. É luta por civilização. É luta por direitos e dignidade. É luta por humanidade. Vamos continuar construindo o terceiro volume da biografia do maior personagem contemporâneo de nossa história. Concluo como Fernando Morais termina este segundo volume, citando Gilberto Freyre, diante das transformações brasileiras de 1930. Não estranhem:
Eu ouço as vozes
Eu vejo as cores
Eu sinto os passos
De outro Brasil que vem aí.
Este verso motivou a campanha de 2002 - (Duda Mendonça) da Esperança vencendo o medo.
E o post do volume I.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/lula-biografia-fernando-morais.html
terça-feira, 12 de maio de 2026
CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Memórias do cárcere. Graciliano Ramos.
Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.
Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.
A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935. O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história. O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro).
Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro).
Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:
"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:
Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade".
Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.
Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.
Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere".
E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".
E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!
É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html




