Leituras de entretenimento. Um livro que guardo comigo desde o seu lançamento em 2002. Eny e o grande bordel brasileiro. O autor é Lucius de Mello, que foi repórter da TV Globo, na cidade de Bauru. Agora já poso contar que o famoso bordel brasileiro ficava na cidade de Bauru. Até hoje não se sabe quem ficou mais famoso, se foi o bordel ou o sanduíche que deu nome à cidade. E, eu cá, após me deliciar com a leitura, me indago: mas o que é que poderia transformar a história de um bordel e a de sua proprietária num belo e marcante livro. Para explicar, recorro a Fernando Morais, que prefacia o livro:
Eny e o grande bordel brasileiro. Lucius de Mello. Objetiva. 2002."Agora cai-me em mãos um novo Lucius de Mello, autor desse delicioso Eny e o grande bordel brasileiro - um livro em que o leitor não consegue descobrir onde termina a reportagem e onde começa a ficção. Se pudéssemos juntar em uma só obra uma personagem e quatro autores, teríamos Eny no papel central e Racine, Nelson Rodrigues, Gabriel García Marquez e Sófocles assinando este trabalho desconcertante que Lucius oferece aos leitores.
É pensando assim que me permito entender este conjunto deslumbrante de fatos, este chafariz surrealista que foi a vida de dona Eny - ou simplesmente, da 'Eny de Bauru', a proprietária de um dos mais célebres e festejados prostíbulos do Brasil. O fatalismo de tragédia grega, que põe sempre o destino à nossa frente, enquanto fugimos dele, parece confirmar todas as teses literárias, artísticas e psicológicas que colocam a trama da vida como uma folha ao vento, um cão morto na correnteza, à espera apenas do tempo para acontecer, para cumprir o determinismo".
A história de Eny é uma história comum a muitos brasileiros, ou, no caso, brasileiras. Remete à Itália, à bela região de Salerno. De lá, já casado, sai Nicolau Cezarino, em busca de um futuro melhor no Brasil. Depois traria ao Brasil, já com a situação consolidada, Rosa, sua esposa. É assim que começa a tragédia ítalo-brasileira familiar dos Cezarino. Entram em cena uma madrasta e uma Magdalena, personagens do mal, da tragédia. Quis o destino que Eny tivesse as suas origens como um fruto dessa tragédia. Uma semente do sempre atormentador demônio, que sempre assustou tanto a Rosa, amedrontada com as uvas. O nome Eni, explica Lucius, vem do grego oínos, que significa vinho, vinho da Campânia, a terra do nono. Ah, o vinho e seus efeitos.
Assim já entramos no enredo da reportagem romanceada com a qual Lucius nos presenteou. Eny, a protagonista já entrou em cena e, lembrem-se, ela será vista pela família como a portadora de genes maléficos. Rosa jamais se conformará com os caminhos por ela percorridos e jamais a perdoará por causa desses descaminhos. Inconformada com a pobreza e a cotidianidade da vida ela sai de casa em busca de outros caminhos. Estes começam pela própria São Paulo, passando depois pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paranaguá e terminando na florescente cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Em consequência, dinheiro e fama.
Um pequeno detalhe da vida de Eny não passa despercebido ao autor. Eny e sua irmã tiveram um professor de música, um professor particular, pago enquanto a família tinha condições para tal. Este professor ia para além da música. Falava de cultura e de política. Comentava sobre os acontecimentos do dia a dia, o que aguçava a curiosidade das meninas, suas alunas. É a deixa que o autor encontra para embelezar e revestir o seu livro de grandeza e de valor. Ele transformou seu relato num belo livro de história, de cultura, de psicologia e de sociologia, enfim, num belo livro de realidade brasileira. Uma viagem que começa na distante Itália e que vem ao Brasil, acompanhando a política do fim do Império, da abolição da escravização, da troca do regime imperial pelo republicano e, mais de perto, já envolvendo personagens que passaram pelo famoso Eny's Bar.
Eny gostava dos personagens políticos e afagava a todos. Eles em muito contribuíram para a fama de seu bordel. Assim como também os personagens da música, da literatura e da cultura brasileira. Sem dúvida nenhuma um dos pontos altos do livro. Assim como a história de Bauru, também envolvida em pecado e, por essa razão, carregava uma excomunhão desde o início do século. Evidentemente que a questão religiosa e moral também fazem parte do livro. Discriminação, exclusão e preconceito de um lado e benemerência, solidariedade e caridade do outro. A moral e a eterna hipocrisia que acompanha essa palavra. A generosidade de Eny não tinha tamanho.
Mas veio a decadência. Veio a concorrência dos motéis e a mudança nos padrões de comportamento. Uma aula de sociologia e de psicologia. As rebeliões do ano de 1968 ajudaram a transformar o mundo... A pílula anticoncepcional. Os dois últimos capítulos, os de número 20 e 21 são maravilhosos. O autor fala de sua percepção das mudanças, também percebidas por Eny.
"A cafetina referia-se à mudança dos costumes, inconformada com o grande número de moças que já estavam deitando com os namorados antes do casamento. Para a corretora de amores, ter aquela multidão de clitóris inexperientes como adversários era demais. Um desperdício de moeda. A empresária sabia o valor da matéria-prima dos seus negócios. Com suas meninas em baixa, o mercado desvalorizado, não restava mais nada a fazer senão falir com dignidade e um gole de esperança. Daria o que ainda resta do meu decadente patrimônio pela virgindade das donzelas, confidenciava ao silêncio. Elas abrem as pernas e eu fecho as portas. Será que o nosso tempo acabou mesmo? Será que minha vó Rosa tinha razão? Que o demônio quer se vingar da gente?". E em suas elucubrações procurava acertar as contas com São Jorge, o santo guerreiro, seu protetor (Página 272).
E, do último capítulo, uma frase síntese do tamanho da generosidade de Eny: "Eu sempre ajudei os coitadinhos, posso perder meu patrimônio, minha saúde, mas nunca o meu sentimento de solidariedade" (Página 283). A trajetória de Eny é contada ao longo de 21 capítulos, distribuídos ao longo de 292 páginas. Para corroborar a presença das análises de conjuntura política e cultural da época, ao final existem até as referências bibliográficas utilizadas.
Mauro Rasi, dramaturgo natural de Bauru, ocupa a orelha da contracapa do livro: "A Casa da Eny foi uma referência da cidade, quase tão famosa quanto o sanduíche. No tempo dos viajantes, era só falar de Bauru que se pensava em sacanagem. Até poucos anos atrás a associação era imediata. Devemos isso a ela. Mas naqueles pudicos anos, quando ia com minha mãe ao Mercado Municipal e éramos obrigados a cruzar a rua do pecado, como era conhecida a famosíssima rua Costa Ribeiro, ou 'aquela rua', como diziam lá em casa, mamãe me fazia baixar a cabeça. Deste modo, fiquei com a visão impressionista da zona do meretrício. Formas difusas, cores fugidias e muita imaginação. Devo ter sido uma das raras pessoas que foram à zona com a mente e não com o corpo. Eny nos faz ter saudade do pecado".
E como começamos com Fernando Morais, vamos também encerrar com ele. Da contracapa, a sua recomendação: "Prepare-se para levar um banho de beleza, de história e de maravilhosa literatura". E eu acabo de sair desse banho.
