terça-feira, 23 de junho de 2026

WINSTON CHURCHILL. Stuart Ball.

De volta às biografias. E dessa vez, uma toda especial. A de um dos homens mais importantes e influentes ao longo das seis primeiras décadas do século XX. Foi um personagem decisivo no entorno da Segunda Guerra Mundial e determinante na resistência aos avanços nazistas. A França já havia capitulado. Tornou-se um dos três grandes da época: Churchill, Roosevelt e Stálin. Estou falando de Winston Churchill, do livro Winston Churchill, de autoria de Stuart Ball, da coleção - British Library Historic Lives:  - Winston Churchill. 

Winston Churchill. Stuart Ball. Tradução de Gleuber Vieira. Nova Fronteira. 2006.

Winston Churchill (1874-1965) foi duas vezes Primeiro Ministro inglês. O foi de 1940 a 1945, pela primeira vez, no difícil período da Segunda Guerra Mundial e, pela segunda, de 1951 a 1955, quando foi fundamental na modelação da geopolítica mundial do pós-guerra e na reconfiguração da importância política da Inglaterra, até então a primeira potência mundial, agora, já não sendo mais o Império Britânico. Por óbvio que um personagem de tal tamanho só pode provocar a curiosidade em torno de sua vida. E, diga-se de passagem, que foi alguém extremamente controvertido.

O livro não é longo. São 252 páginas, muitas delas tomadas por fotografias. Está estruturado em seis capítulos, uma cronologia dos fatos e algumas indicações de outras biografias. Vejamos os títulos dos capítulos, que aparecem em sequência cronológica: I. Marcando a presença (1874-1904). II. Mudanças de rumo (1904-1915). III. Navegando os baixios (1915-1929). IV. Sozinho (1929-1940). V. Caminhando com o destino (1940-1945). VI. Refreando os anos (1945-1965). Ele renasce para a política, quando emerge de seu período de solidão dos anos 1930, quando tudo aparentemente parecia ter acabado. A determinação foi a grande marca de sua vida, especialmente nessa fase mais conturbada de todo o século. Vamos aos capítulos, que crescem em importância ao atingirem a fase final de sua vida. Mas ele tem origens, ele tem construção histórica, ele tem vida política ativa, embora um tanto avesso, especialmente a partidos e a fidelidade a eles.

I. Marcando a presença (1874-1904). Uma contextualização da Inglaterra da época e da inserção nela de sua família. Ele pertenceu a uma família aristocrática por parte do pai, de quem herdou o gosto pela política e de uma família de novos ricos dos Estados Unidos, por parte da mãe. Sempre foi um menino desejoso pelas 'luzes da ribalta'. Estes eram os tempos da poderosa Inglaterra, do domínio imperialista, da maior marinha mercante do mundo. Vivia-se ainda o espírito de grandeza da era vitoriana. Na escola nunca foi bom, nem nos estudos, nem nos esportes. Seus anos escolares foram considerados improdutivos, sob o rigor dos regimes de internato. Desejava a carreira militar. As leituras e as viagens o transformaram em autodidata. O jornalismo o levou para a literatura. Com ela ganhou muito dinheiro e ela o levou, inclusive, ao Nobel de Literatura no ano de 1953. Ingressou nos debates políticos e às primeiras instabilidades na fidelidade a eles. 

II. Mudanças de rumo (1904-1915). Na política já trocara o Partido Conservador pelo Liberal. Nela era tido como um aventureiro sem princípios. Em sua atuação política, convivia tranquilamente com as diferenças sociais, mas batalhava para elevar a condição dos pobres a níveis de decência e de boa saúde, mas odiava o termo "luta de classes". Já percebia o antagonismo anglo germânico que estava em formação. Batalhava pela manutenção da superioridade naval britânica. Ocupa e deixa cargos na formação do Ministério. Ocorre a Primeira Guerra. A saída do Ministério marca um aparente fim de sua carreira política. 

III. Navegando os baixios (1915-1929). Aos 40 anos recorre à pintura como fuga à solidão e à depressão. Se apavora com os acontecimentos da Rússia e passa a ter, no combate ao comunismo. uma de suas obsessões. Se mostra favorável às pretensões do sionismo. Escreve sobre a Primeira Guerra. Após reveses políticos, volta a ela como Ministro das Finanças. A crise de 1929. Novas derrotas na política.

IV. Sozinho (1929-1940).Se ocupa e se mantém com viagens, palestras e livros. Relação familiar sempre tumultuada. Problemas com a bebida. Muito uísque, que bebia lentamente. Se ocupa com a questão da Índia, que considerava como o coração do Império. Era contrário a sua independência, que irá ocorrer em 1947, no contexto do pós-guerra. Há suspeitas de que perdera a razão. Tem poucos seguidores. Declara a lealdade à monarquia por temor às ditaduras. Defende uma política armamentista, como precaução contra os alemães. Se declara contra o Acordo de Munique de 1938, de política de apaziguamento. Assiste e condena os avanços alemães e cresce em importância política. Com a queda de Chamberlain (1940), ocupa o cargo de Primeiro Ministro, formando um governo de coalizão. A guerra se expande.

V. Caminhando com o destino (1940-1945). Assume o governo com a famosa promessa de "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e com o brado de " nunca nos renderemos". Aos 65 enfrenta a Blitzkrieg alemã. O auge da resistência ocorre entre o mês de junho de 1940 e maio de 1941. É desse período a sua mais famosa frase: "Nunca na história dos conflitos humanos tantos deveram tanto a tão poucos". A sua aprovação sempre beirava os 80%. Conduzia a guerra como se ela fosse uma ciência, sempre buscando aperfeiçoamentos. A situação melhorou um pouco com a entrada dos Estados Unidos na guerra e com a URSS, retendo o exército alemão em seu território. É um dos estrategistas da guerra nesse período. A frente do governo, assiste ao famoso 7 de maio, o dia D. Participa de todas as difíceis negociações de paz, do pós-guerra, da fundação da ONU e do Conselho de Segurança. As negociações com a URSS o incomodam sobremaneira. Sai da guerra exausto, tanto quanto a exaustão da economia inglesa. Assiste ainda a liquidação do Império Britânico com o espírito anticolonialista pós-guerra. Participa da Conferência de Potsdam. Mas na Inglaterra perde poder e prestígio para os trabalhistas. Era um grande líder apena nos tempos de guerra. Renuncia ao cargo de Primeiro Ministro, aos 70 anos.

VI. Refreando os anos (1945-1965). Foi difícil para ele, depois do protagonismo, a inatividade, longe da política. Ocupou-se mais uma vez com as viagens e a escrita. Intensificou seus ataques a URSS e cuidou para que a Inglaterra, após o declínio de seu Império, se mantivesse alinhada aos Estados Unidos. Temia o armamento nuclear com o acirramento da Guerra Fria. Se ocupa com a narrativa da Segunda Guerra e com a sua autobiografia. Literatura e palestras o tornaram uma pessoa rica e proeminente. Em 1953 é agraciado com o Nobel de Literatura. Em 1951, aos 77 anos, volta ao cargo de Primeiro Ministro e nele permanece até 1955. Se preocupa com a Commonwealth e a manutenção das conquistas trabalhistas e, aos 90, em 1964, comparece pela última vez à Câmara dos Comuns. Morre em janeiro de 1965.

Da parte final, tomamos uma síntese de seus feitos: "A vida política de Winston Churchill abarcou as seis primeiras décadas do século XX e durante todo este tempo ele foi um dos mais conhecidos e importantes homens públicos. Mudou por duas vezes sua filiação partidária e sempre despertou suspeitas de ser um aventureiro ambicioso, diagnóstico aparentemente confirmado pelos equívocos políticos e estratégicos que marcaram sua carreira. A carreira de Churchill não teve paralelo em extensão e variedade. Ficou assinalada por incansável empenho, pensamento inovador, julgamentos imperfeitos e extraordinárias realizações. Tudo fluiu de suas notáveis qualidades e personalidade, mas seu progresso foi sempre atrapalhado pela desconfiança que despertou até chegar em 1940 à liderança, durante a guerra". E arremata:

"A liderança obstinada e triunfante de Churchill na Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, sua maior proeza. Sua 'hora mais bela' de 1940-42, quando a vitória total parecia estar quase ao alcance da mão para a Alemanha nazi, determinou o curso não apenas da Inglaterra mas da história do mundo. Muitas outras coisas na vida de Churchill mereceram bronze ou mesmo chumbo, mas esta façanha foi digna de ouro. É sobre ela que repousa sua posição como vulto mais importante da Inglaterra no século XX". 

terça-feira, 16 de junho de 2026

MINHAS HISTÓRIAS DOS OUTROS. Zuenir Ventura.

Ainda na fase de minhas releituras. E que livro maravilhoso. A crônica de uma época. E é também maravilhoso saber que o grande jornalista ainda continua testemunhando a nossa história, da qual é, simultaneamente, participante e narrador. Estou falando de Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura. Ventura é mineiro de Além Paraíba, mas toda a sua vida se desenvolveu no Rio de Janeiro. Anos de formação e de profissão. Ele nasceu no ano de 1931. Começo esse post com um testemunho seu, de um projeto que norteou a sua vida de jornalista, que encontramos na contracapa do livro:


Minhas histórias dos outros. Zuenir Ventura. Planeta. 2005.

"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhos de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica". Maravilhoso. Críticos foram também os maiores intérpretes da realidade brasileira e muitos deles, colegas seus de profissão. Muitos deles você conhecerá mais de perto através de seu livro. Eu continuo com a contracapa do livro, uma espécie de apresentação.

"Este livro traz o testemunho de Zuenir Ventura, um dos mais brilhantes jornalistas do nosso tempo, sobre um período que vai do final dos anos 50, quando publica suas primeiras reportagens, até os dias de hoje. Em meio a lembranças pessoais e coletivas, estão as principais mudanças comportamentais, políticas e sociais, revividas em episódios conhecidos e desconhecidos, em personagens famosos e anônimos.

Pela excelência do texto e a diversidade da narrativa, minhas histórias dos outros é como o romance real de uma época em que houve do melhor e do pior: revolução sexual e arrojadas aventuras existenciais, mas também flagelos planetários como a aids e o narcotráfico; depressão e euforia, choro de alegria e de tristeza.

Há momentos cômicos e surpreendentes, como a entrevista com Fidel Castro, que nunca pôde ser publicada ou a foto acidental da calcinha branca de Jacqueline Kennedy. E há dramas pungentes como a zaga de uma testemunha marcada pelo destino. Em suma, o livro de Zuenir é uma fascinante aventura humana". A "testemunha marcada pelo destino", adianto desde já, é um dos momentos mais marcantes do livro, já na sua fase final. Ela está presente no último capítulo e envolve profundamente o escritor. O "até os dias de hoje", chega ao início dos anos 2000. O livro foi lançado em 2005, pela Planeta. 

O livro, de 270 páginas está estruturado numa sequência mais ou menos cronológica dos fatos, citando os principais, como também "os outros", de quem conta as histórias. Lembra de sua primeira morada no Rio de Janeiro, na Vila Isabel, de seu ingresso no curso de Línguas Neolatinas da Universidade do Brasil (Hoje UFRJ), de seus professores, com destaque para Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. Da política fala do suicídio de Getúlio Vargas e de seu significado, de JK., da renúncia de Jânio Quadros, de Jango, dos cinco ditadores militares, de Tancredo e Sarney, de Collor, de FHC e de Lula. Vejamos um trechinho da primeira página:

"Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia. Saiu às ruas em várias ocasiões - para enfrentar a polícia, lutar contra a ditadura, exigir liberdade, entoar cantos à anistia, festejar a volta dos exilados, pedir eleições diretas e derramar pranto pela morte de um presidente.

Houve do melhor e do pior. Foram tempos de revolução comportamental, de liberdade sexual, de arrojadas aventuras existenciais, mas também de flagelos planetários como a aids, o narcotráfico, o terrorismo e a violência urbana. Descobriu-se a pílula anticoncepcional e enterrou-se a camisinha, para depois ir buscá-la como defesa contra a aids".

Na sequência, os capítulos em que são narrados os episódios mais marcantes desses acontecimentos anunciados. Os tópicos da apresentação - uma faculdade de bambas e - como se pega um vírus - deveriam ser textos levados a debates nos cursos de formação continuada de professores, em contraposição ao que hoje é apresentado como paradigmas pedagógicos (tecno burocracia, plataformas, militarização em nome da disciplina...). Um tributo aos professores e o gosto pelo desvendar. Quanto ao vírus, trata-se de um vírus bom, o gosto pelo jornalismo, como sendo a sua segunda natureza. 

Na sequência e no espírito de 1968, Zuenir nos leva a Paris, o grande centro das mudanças culturais e comportamentais que se irradiaram mundo afora. É um belo panorama dos acontecimentos do pós Segunda Guerra Mundial, da atuação do presidente Charles de Gaulle, da diplomacia desse período de Guerra Fria e da independência da Argélia. E como De Gaulle enfrentou os generais franceses da extrema direita. Segue um capítulo dedicado a Glauber Rocha e, na sequência, fatos do período: perdão para todos - anistia; um mártir da abertura - Vladimir Herzog; O pênis não preservado - o terrorismo no Riocentro; um verão colorido - uma nova moralidade, um novo comportamento sexual; a chegada da peste -a aids; Bumbum e carteira do PCB - 1985 e a abertura democrática que permitiu exibir bunda e carteira de filiação ao PCB; Se meu computador falasse - sobre a evolução da tecnologia e suas dificuldades em lidar com ela; Enfim, as pazes - um reatar de amizades entre Nelson Rodrigues e Alceu Amoroso Lima; um suicídio mal contado - o do memorialista Pedro Nava, ocultado pela imprensa, na época. A questão da sexualidade; Mostra a tua cara - "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo" (Ulysses Guimarães). Cazuza.

Na sequência, uma série de textos sob a denominação de - notícias de uma guerra civil - em que trata da violência urbana e do crescimento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras. O último tópico é dedicado a alguns temas que lhe mereceram especial atenção, como  a relação do Governo do Rio de Janeiro no combate ao crime (governo Garotinho), a sua relação e admiração por Darcy Ribeiro e a sua interpretação de Brasil (simplesmente magnífico), sobre uma entrevista com Fidel Castro, nunca publicada, sobre a sua relação com os patrões com quem trabalhou e o já referenciado capítulo final - A saga de uma testemunha - a de Genésio Ferreira da Silva, fundamental para condenar o mandante e o executor do assassinato de Chico Mendes. Com certeza, este capítulo faz crescer no leitor, a admiração pelo grande brasileiro, testemunho e protagonista em muitos fatos da história brasileira. Tive um prazer enorme com a releitura desse livro, que li pela primeira vez no ano de 2011. Outro livro imperdível de Zuenir Ventura é 1968, o ano que não terminou. Que livro e que ano!

terça-feira, 9 de junho de 2026

REPARAÇÃO. Ian McEwan.

"Ela (Briony) estava calma, pensando no que tinha de fazer. A carta para os pais e a declaração formal, ela as escreveria rapidamente. Então estaria livre o resto do dia. Sabia o que se exigia dela. Não apenas uma carta, mas um novo rascunho, uma reparação, e ela estava pronta para começar" (Página 418). Assim termina o romance Reparação, de 2001, do escritor inglês, Ian McEwan. Fiz agora uma releitura. Conforme a anotação ao fim do livro, a primeira leitura foi em março de 2006. Não me lembrava praticamente de nada da primeira leitura. 

Reparação. Ian McEwan. Tradução: Paulo Henrique Britto. Companhia das Letras. 2002.

Eis aí o teor do livro. Briony é a grande personagem, a protagonista. Vamos então ver quem é ela e o que lhe aconteceu. Por óbvio, o título a entrega, ela cometeu algo de errado e o seu erro exigia uma reparação. Um erro sempre envolve uma relação com outras pessoas. Quem seriam elas? O parágrafo final também nos dá a ideia de que ela estava disposta ao reparo, a reconsiderar algo errado de um longínquo passado. Briony não era uma menina fácil. Ela sonhava ser escritora. Pertencia a uma família, que tudo indica, pertencia a classe média alta. Os outros dois personagens mais diretamente envolvidos são, a sua irmã Cecília e Robbie, este filho da faxineira da casa. Ele era como alguém da casa. 

Lá pelos idos dos anos 1935, a família de Briony e Cecília recebem a visita de parentes vindos do norte da Inglaterra. Observar a data é importante, são os anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Muitos dos fatos narrados são decorrentes da guerra. Para as visitas, a menina prepara a apresentação de uma peça - Arabela em apuros. Ela queria se exibir. É nessa noite que ocorrem os fatos. Ela flagra Robbie beijando Cecília e também, pouco depois, Robbie estaria aos beijos com a prima Lola. Eis os fatos. Há a penalização em função das acusações fortes e convictas de Briony. Há, em função disso, uma mudança profunda nos destinos de todos.

O livro é dividido em três partes, mais uma espécie de apêndice, sob o título - Londres 1999. Isso ocupa as 444 páginas do livro. A primeira parte é dedicada a apresentação e o envolvimento dos principais personagens e as encrencas da família de Briony e Cecília e a visita de seus parentes. A segunda parte se ocupa especialmente de Cecília e Robbie, envolvidos já na Segunda Guerra. Como soldado ele ameniza a sua pena e Cecília trabalhará como enfermeira, atendendo aos feridos, os seres humanos esfarrapados pela guerra. Já a terceira parte é dedicada a descrever os passos de Briony, que também escolheu ser enfermeira e também envolvida no tratamentos dos feridos. No apêndice, encontraremos, no ano de 1999, uma homenagem a escritora Briony Tallis, onde muitos dos fatos do passado são novamente trazidos à memória. O valor do romance está na força da narrativa e na caracterização psicológica dos personagens. Seu passado, psicanálise...

Como não quero adiantar os relatos, me limito a apresentar ainda, apenas o exposto nas orelhas do livro: "O premiado autor inglês Ian McEwan arma em Reparação uma trama fascinante em torno de Briony Tallis, pré-adolescente que nutre a ambição de se tornar escritora.

No dia mais quente do verão de 1935, numa casa de campo na Inglaterra, Briony vê pela janela uma cena incompreensível: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, filho da arrumadeira da família, despe a saia e a blusa para mergulhar, de sutiã e calcinha, na fonte do quintal. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a aprendiz de romancista, movida por uma imaginação febril e pela inexperiência, comete um crime que marcará a vida de toda a família. Briony passará o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

No nível mais imediato, Reparação é um drama psicológico que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial e as tensões de classe da sociedade britânica. Como vários críticos já observaram, há semelhanças interessantes entre esta obra e Pelos olhos de Maisie, de Henry James: em ambas, o núcleo é uma menina inocente tentando entender o mundo adulto da paixão e da sexualidade. Só que aqui temos, além do ponto de vista da protagonista, também os dos outros personagens centrais, de modo que os mesmos episódios são apresentados sob vários ângulos.

Mas o romance ganha uma nova perspectiva com base num dado que só é revelado no epílogo. Retrospectivamente, o leitor percebe que o que estava em jogo ao longo de toda a obra, além da questão da culpa e do perdão, eram as relações entre estética e ética. E só então se dá conta de que o livro cuja leitura está terminando, à parte ser uma narrativa deslumbrante, é também uma reflexão sofisticada a respeito da natureza da literatura, seus poderes e limitações".

E mais duas apresentações do livro, agora da contracapa: "A narrativa, como sempre em McEwan, mantém uma tensão ameaçadora, lenta e incansável. A leitura é magicamente cativante, e nunca antes McEwan havia mostrado tanta compaixão para com a vulnerabilidade do coração humano" (The Sunday Times).

"McEwan é um contador de histórias irresistível, um criador de narrativas que prendem o leitor até a última página. Mesmo para seus padrões exigentes, este último romance é extraordinário. Marcas registradas do estilo de McEwan, as frases, de grande eloquência e delicadeza, que em obras anteriores por vezes racionalizavam em excesso a evocação dos sentimentos, ganham ressonâncias ainda mais profundas em Reparação" (The Times).

Do escritor temos também a resenha de Sábado. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/sabado-ian-mcewan.html

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Eny e o grande bordel brasileiro. Lucius de Mello.

Leituras de entretenimento. Um livro que guardo comigo desde o seu lançamento em 2002. Eny e o grande bordel brasileiro. O autor é Lucius de Mello, que foi repórter da TV Globo, na cidade de Bauru. Agora já poso contar que o famoso bordel brasileiro ficava na cidade de Bauru. Até hoje não se sabe quem ficou mais famoso, se foi o bordel ou o sanduíche que deu nome à cidade. E, eu cá, após me deliciar com a leitura, me indago: mas o que é que poderia transformar a história de um bordel e a de sua proprietária num belo e marcante livro. Para explicar, recorro a Fernando Morais, que prefacia o livro:

Eny e o grande bordel brasileiro. Lucius de Mello. Objetiva. 2002. 

"Agora cai-me em mãos um novo Lucius de Mello, autor desse delicioso Eny e o grande bordel brasileiro - um livro em que o leitor não consegue descobrir onde termina a reportagem e onde começa a ficção. Se pudéssemos juntar em uma só obra uma personagem e quatro autores, teríamos Eny no papel central e Racine, Nelson Rodrigues, Gabriel García Marquez e Sófocles assinando este trabalho desconcertante que Lucius oferece aos leitores.

É pensando assim que me permito entender este conjunto deslumbrante de fatos, este chafariz surrealista que foi a vida de dona Eny - ou simplesmente, da 'Eny de Bauru', a proprietária de um dos mais célebres e festejados prostíbulos do Brasil.  O fatalismo de tragédia grega, que põe sempre o destino à nossa frente, enquanto fugimos dele, parece confirmar todas as teses literárias, artísticas e psicológicas que colocam a trama da vida como uma folha ao vento, um cão morto na correnteza, à espera apenas do tempo para acontecer, para cumprir o determinismo".

A história de Eny é uma história comum a muitos brasileiros, ou, no caso, brasileiras. Remete à Itália, à bela região de Salerno. De lá, já casado, sai Nicolau Cezarino, em busca de um futuro melhor no Brasil. Depois traria ao Brasil, já com a situação consolidada, Rosa, sua esposa. É assim que começa a tragédia ítalo-brasileira familiar dos Cezarino. Entram em cena uma madrasta e uma Magdalena, personagens do mal, da tragédia. Quis o destino que Eny tivesse as suas origens como um fruto dessa tragédia. Uma semente do sempre atormentador demônio, que sempre assustou tanto a Rosa, amedrontada com as uvas. O nome Eni, explica Lucius, vem do grego oínos, que significa vinho, vinho da Campânia, a terra do nono. Ah, o vinho e seus efeitos.

Assim já entramos no enredo da reportagem romanceada com a qual Lucius nos presenteou. Eny, a protagonista já entrou em cena e, lembrem-se, ela será vista pela família como a portadora de genes maléficos. Rosa jamais se conformará com os caminhos por ela percorridos e jamais a perdoará por causa desses descaminhos. Inconformada com a pobreza e a cotidianidade da vida ela sai de casa em busca de outros caminhos. Estes começam pela própria São Paulo, passando depois pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paranaguá e terminando na florescente cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Em consequência, dinheiro e fama. 

Um pequeno detalhe da vida de Eny não passa despercebido ao autor. Eny e sua irmã tiveram um professor de música, um professor particular, pago enquanto a família tinha condições para tal. Este professor ia para além da música. Falava de cultura e de política. Comentava sobre os acontecimentos do dia a dia, o que aguçava a curiosidade das meninas, suas alunas. É a deixa que o autor encontra para embelezar e revestir o seu livro de grandeza e de valor. Ele transformou seu relato num belo livro de história, de cultura, de psicologia e de sociologia, enfim, num belo livro de realidade brasileira. Uma viagem que começa na distante Itália e que vem ao Brasil, acompanhando a política do fim do Império, da abolição da escravização, da troca do regime imperial pelo republicano e, mais de perto, já envolvendo personagens que passaram pelo famoso Eny's Bar.

Eny gostava dos personagens políticos e afagava a todos. Eles em muito contribuíram para a fama de seu bordel. Assim como também os personagens da música, da literatura e da cultura brasileira. Sem dúvida nenhuma um dos pontos altos do livro. Assim como a história de Bauru, também envolvida em pecado e, por essa razão, carregava uma excomunhão desde o início do século. Evidentemente que a questão religiosa e moral também fazem parte do livro. Discriminação, exclusão e preconceito de um lado e benemerência, solidariedade e caridade do outro. A moral e a eterna hipocrisia que acompanha essa palavra. A generosidade de Eny não tinha tamanho.

Mas veio a decadência. Veio a concorrência dos motéis e a mudança nos padrões de comportamento. Uma aula de sociologia e de psicologia. As rebeliões do ano de 1968 ajudaram a transformar o mundo... A pílula anticoncepcional. Os dois últimos capítulos, os de número 20 e 21 são maravilhosos. O autor fala de sua percepção das mudanças, também percebidas por Eny.

"A cafetina referia-se à mudança dos costumes, inconformada com o grande número de moças que já estavam deitando com os namorados antes do casamento. Para a corretora de amores, ter aquela multidão de clitóris inexperientes como adversários era demais. Um desperdício de moeda. A empresária sabia o valor da matéria-prima dos seus negócios. Com suas meninas em baixa, o mercado desvalorizado, não restava mais nada a fazer senão falir com dignidade e um gole de esperança. Daria o que ainda resta do meu decadente patrimônio pela virgindade das donzelas, confidenciava ao silêncio. Elas abrem as pernas e eu fecho as portas. Será que o nosso tempo acabou mesmo? Será que minha vó Rosa tinha razão? Que o demônio quer se vingar da gente?". E em suas elucubrações procurava acertar as contas com São Jorge, o santo guerreiro, seu protetor (Página 272).

E, do último capítulo, uma frase síntese do tamanho da generosidade de Eny: "Eu sempre ajudei os coitadinhos, posso perder meu patrimônio, minha saúde, mas nunca o meu sentimento de solidariedade" (Página 283). A trajetória de Eny é contada ao longo de 21 capítulos, distribuídos ao longo de 292 páginas. Para corroborar a presença das análises de conjuntura política e cultural da época, ao final existem até as referências bibliográficas utilizadas. 

Mauro Rasi, dramaturgo natural de Bauru, ocupa a orelha da contracapa do livro: "A Casa da Eny foi uma referência da cidade, quase tão famosa quanto o sanduíche. No tempo dos viajantes, era só falar de Bauru que se pensava em sacanagem. Até poucos anos atrás a associação era imediata. Devemos isso a ela. Mas naqueles pudicos anos, quando ia com minha mãe ao Mercado Municipal e éramos obrigados a cruzar a rua do pecado, como era conhecida a famosíssima rua Costa Ribeiro, ou 'aquela rua', como diziam lá em casa, mamãe me fazia baixar a cabeça. Deste modo, fiquei com a visão impressionista da zona do meretrício. Formas difusas, cores fugidias e muita imaginação. Devo ter sido uma das raras pessoas que foram à zona com a mente e não com o corpo. Eny nos faz ter saudade do pecado".

E como começamos com Fernando Morais, vamos também encerrar com ele. Da contracapa, a sua recomendação: "Prepare-se para levar um banho de beleza, de história e de maravilhosa literatura". E eu acabo de sair desse banho.