Ainda na fase de minhas releituras. E que livro maravilhoso. A crônica de uma época. E é também maravilhoso saber que o grande jornalista ainda continua testemunhando a nossa história, da qual é, simultaneamente, participante e narrador. Estou falando de Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura. Ventura é mineiro de Além Paraíba, mas toda a sua vida se desenvolveu no Rio de Janeiro. Anos de formação e de profissão. Ele nasceu no ano de 1931. Começo esse post com um testemunho seu, de um projeto que norteou a sua vida de jornalista, que encontramos na contracapa do livro:
Minhas histórias dos outros. Zuenir Ventura. Planeta. 2005.
"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhos de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica". Maravilhoso. Críticos foram também os maiores intérpretes da realidade brasileira e muitos deles, colegas seus de profissão. Muitos deles você conhecerá mais de perto através de seu livro. Eu continuo com a contracapa do livro, uma espécie de apresentação.
"Este livro traz o testemunho de Zuenir Ventura, um dos mais brilhantes jornalistas do nosso tempo, sobre um período que vai do final dos anos 50, quando publica suas primeiras reportagens, até os dias de hoje. Em meio a lembranças pessoais e coletivas, estão as principais mudanças comportamentais, políticas e sociais, revividas em episódios conhecidos e desconhecidos, em personagens famosos e anônimos.
Pela excelência do texto e a diversidade da narrativa, minhas histórias dos outros é como o romance real de uma época em que houve do melhor e do pior: revolução sexual e arrojadas aventuras existenciais, mas também flagelos planetários como a aids e o narcotráfico; depressão e euforia, choro de alegria e de tristeza.
Há momentos cômicos e surpreendentes, como a entrevista com Fidel Castro, que nunca pôde ser publicada ou a foto acidental da calcinha branca de Jacqueline Kennedy. E há dramas pungentes como a zaga de uma testemunha marcada pelo destino. Em suma, o livro de Zuenir é uma fascinante aventura humana". A "testemunha marcada pelo destino", adianto desde já, é um dos momentos mais marcantes do livro, já na sua fase final. Ela está presente no último capítulo e envolve profundamente o escritor. O "até os dias de hoje", chega ao início dos anos 2000. O livro foi lançado em 2005, pela Planeta.
O livro, de 270 páginas está estruturado numa sequência mais ou menos cronológica dos fatos, citando os principais, como também "os outros", de quem conta as histórias. Lembra de sua primeira morada no Rio de Janeiro, na Vila Isabel, de seu ingresso no curso de Línguas Neolatinas da Universidade do Brasil (Hoje UFRJ), de seus professores, com destaque para Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. Da política fala do suicídio de Getúlio Vargas e de seu significado, de JK., da renúncia de Jânio Quadros, de Jango, dos cinco ditadores militares, de Tancredo e Sarney, de Collor, de FHC e de Lula. Vejamos um trechinho da primeira página:
"Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia. Saiu às ruas em várias ocasiões - para enfrentar a polícia, lutar contra a ditadura, exigir liberdade, entoar cantos à anistia, festejar a volta dos exilados, pedir eleições diretas e derramar pranto pela morte de um presidente.
Houve do melhor e do pior. Foram tempos de revolução comportamental, de liberdade sexual, de arrojadas aventuras existenciais, mas também de flagelos planetários como a aids, o narcotráfico, o terrorismo e a violência urbana. Descobriu-se a pílula anticoncepcional e enterrou-se a camisinha, para depois ir buscá-la como defesa contra a aids".
Na sequência, os capítulos em que são narrados os episódios mais marcantes desses acontecimentos anunciados. Os tópicos da apresentação - uma faculdade de bambas e - como se pega um vírus - deveriam ser textos levados a debates nos cursos de formação continuada de professores, em contraposição ao que hoje é apresentado como paradigmas pedagógicos (tecno burocracia, plataformas, militarização em nome da disciplina...). Um tributo aos professores e o gosto pelo desvendar. Quanto ao vírus, trata-se de um vírus bom, o gosto pelo jornalismo, como sendo a sua segunda natureza.
Na sequência e no espírito de 1968, Zuenir nos leva a Paris, o grande centro das mudanças culturais e comportamentais que se irradiaram mundo afora. É um belo panorama dos acontecimentos do pós Segunda Guerra Mundial, da atuação do presidente Charles de Gaulle, da diplomacia desse período de Guerra Fria e da independência da Argélia. E como De Gaulle enfrentou os generais franceses da extrema direita. Segue um capítulo dedicado a Glauber Rocha e, na sequência, fatos do período: perdão para todos - anistia; um mártir da abertura - Vladimir Herzog; O pênis não preservado - o terrorismo no Riocentro; um verão colorido - uma nova moralidade, um novo comportamento sexual; a chegada da peste -a aids; Bumbum e carteira do PCB - 1985 e a abertura democrática que permitiu exibir bunda e carteira de filiação ao PCB; Se meu computador falasse - sobre a evolução da tecnologia e suas dificuldades em lidar com ela; Enfim, as pazes - um reatar de amizades entre Nelson Rodrigues e Alceu Amoroso Lima; um suicídio mal contado - o do memorialista Pedro Nava, ocultado pela imprensa, na época. A questão da sexualidade; Mostra a tua cara - "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo" (Ulysses Guimarães). Cazuza.
Na sequência, uma série de textos sob a denominação de - notícias de uma guerra civil - em que trata da violência urbana e do crescimento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras. O último tópico é dedicado a alguns temas que lhe mereceram especial atenção, como a relação do Governo do Rio de Janeiro no combate ao crime (governo Garotinho), a sua relação e admiração por Darcy Ribeiro e a sua interpretação de Brasil (simplesmente magnífico), sobre uma entrevista com Fidel Castro, nunca publicada, sobre a sua relação com os patrões com quem trabalhou e o já referenciado capítulo final - A saga de uma testemunha - a de Genésio Ferreira da Silva, fundamental para condenar o mandante e o executor do assassinato de Chico Mendes. Com certeza, este capítulo faz crescer no leitor, a admiração pelo grande brasileiro, testemunho e protagonista em muitos fatos da história brasileira. Tive um prazer enorme com a releitura desse livro, que li pela primeira vez no ano de 2011. Outro livro imperdível de Zuenir Ventura é 1968, o ano que não terminou. Que livro e que ano!

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