sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MAQUIAVEL. Newton Bignotto. - Filosofia Passo a Passo.

Vou fazer uma série de posts sobre Maquiavel. Isso se justifica, uma vez que foi Maquiavel, que nos tempos modernos, do Humanismo e do Renascimento, lançou um novo olhar sobre a política. Este novo olhar tornou-se a principal referência de toda a filosofia política da modernidade. Então, a primeira coisa a fazer é situar o autor no tempo e no espaço: Ele é um pensador da cidade italiana de Florença, que nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527. A biografia que hoje apresento é de autoria de Newton Bignotto, da coleção - Filosofia Passo a Passo -. Ela é uma biografia ensaio, focado na essência do pensamento do autor. É um pequeno, mas precioso livro, de apenas 76 páginas. Uma precisa síntese, possível apenas, a um profundo conhecedor. Bignotto é doutor pela École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Seu orientador foi ninguém mais, nem menos do que Claude Lefort.

Maquiavel. Newton Bignotto. Filosofia Passo a Passo. Jorge Zahar. 2003.

Antes de qualquer observação sobre tão importante personagem, quero registrar o que consta na página 9, logo no início do livrinho, ainda na introdução. Depois de constar que a sua família, embora das mais tradicionais de Florença, não pertencia à aristocracia, - lemos: "Tendo vivido sempre de maneira modesta e mesmo com dificuldades, ele transmitiu ao filho o grande amor pelos livros e pelas coisas do passado. Na casa de Maquiavel o grande luxo eram os volumes de Tito Lívio, historiador romano que era uma referência obrigatória para todos os jovens que se iniciavam no movimento humanista que imperava no período".  Interesse pelo passado e amor pelos livros, de maneira geral e, os livros de Tito Lívio, de modo todo particular. (O historiador Tito Lívio é autor de Ab urbe condita - que traduzido significa - Desde a fundação da cidade -, a mais completa história de Roma. Nos diz a Wikipédia que ela tinha originalmente 142 livros dos quais se preservaram 35). A história de Roma está onipresente no pensamento de Maquiavel.

A referência final da citação também nos lembra outra importante influência na origem do pensador florentino: o movimento humanista. Pelas aulas de história, certamente nos lembramos que o Renascimento e o Humanismo se caracterizaram por uma volta à cultura clássica, ao tempo dos gregos e dos romanos. Essa cultura foi um tanto abafada ao longo do período medieval, uma cultura toda centrada no teocentrismo. Lembremos apenas o título da obra política de santo Agostinho: A cidade de Deus. Com o Humanismo, o homem voltou a ser "a medida de todas coisas", inclusive da política. A política se  refere à Polis, à cidade. Assim a política ou a cidadania, os fatos que ocorrem na cidade, obedecem a determinações tomadas pelos homens, por seus dirigentes em disputa pelo poder. É algo relativo ao -  O Príncipe.

Ainda mais uma observação. Os tempos de Maquiavel são tempos de grande agitação comercial e política. As instituições eram frágeis à medida da volubilidade e das inconstâncias dos homens. Florença não fugia a essa realidade. Maquiavel procurou ler os desejos que a cidade queria ver de seus governantes, de seus príncipes, ou melhor, de seu O Príncipe. Nesses tempos de progresso e enriquecimento o povo queria que os governantes, além de chegarem ao poder, também nele se mantivessem, para assegurar aos cidadãos a paz social através de leis e instituições. A grandeza e o poder de Roma era a sua fonte de inspiração. 

O belo livrinho de Bignotto é de uma meada só. Ele não está separado em capítulos, mas ele tem títulos que servem de guia. Vou preservá-los, assinalando-os. Introdução. Nela é apresentado o pensador, seu meio, a sua cidade e a recepção de suas primeiras influências. César Bórgia e o moralista Savonarola. O secretário florentino. Sua primeira experiência e o contato com a realidade. A história como guia para a interpretação do presente. Como lidar com os povos conquistados - temor ou assimilação. A natureza humana é repetitiva e, portanto, é previsível. César Bórgia e o poder excessivo. A vida solitária: O nascimento de O Príncipe. Após uma derrocada política e pessoal seguem os tempos de reflexão e de escrita. A escrita obedece a forma do aconselhamento. Os conselhos para o príncipe dos novos tempos. Como conquistar o poder e nele se manter. Quando tiver de enfrentar os adversários, deverá conhecê-los. Isso é possível, uma vez que a sua natureza é repetitiva. As pessoas são más, ingratas, volúveis e ávidas de ganho. César Bórgia é uma espécie de modelo de governante. Savonarola, 'um profeta desarmado' e frágil. Alcançou o poder mas nele não se manteve.

A fortuna e a virtù. César Bórgia chegou ao poder pela Fortuna (a divindade grega da sorte, do destino) e nele se manteve pela virtù (a virilidade, a coragem, a energia). Fortuna e virtù são os dois grandes componentes da política, lembrando que a divindade grega Fortuna é feminina, condição que lhe confere o gosto pela virtù. Quando Maquiavel fala de virtu, ele nunca se refere às virtudes cristãs, próprias aos governantes da Cidade de Deus, do período medieval. Ela não provém da ética, nem da religião. É uma exigência do novo tempo. É preferível ser impetuoso a ser circunspecto. O governante não pode tremer ante os perigos. A Fortuna e a Virtù sempre andam juntas, são inseparáveis. A Fortuna sempre sorri e se deixa seduzir pela virtù.

Uma moral para a política. É um dos grandes temas da época e que ensejou grandes debates. Uma época, como já vimos, em que a política começa a se separar e a se distanciar do cristianismo. O príncipe deve se guiar pela - verdade efetiva - e não por uma verdade idealizada., é - o ser -, - o é -, e não o - deve ser -. Uma retomada de Aristóteles. O príncipe se autonomiza diante da ética. A política é um campo independente da moral. O Príncipe deverá decidir. O não uso do poder poderá ser nocivo ao bem, diante da natureza inconstante dos homens. Diante da situação objetiva, isto é, diante da realidade, é preferível ser temido do que amado. Porém, provocar temor em excesso e injustificável também ajudará na queda do príncipe. Os gastos públicos também não permitem muita liberalidade ao Príncipe O indivíduo e o governante obedecem a princípios distintos. O temor também não pode fazer uso constante da violência. O uso da astúcia faz parte da política. Os governados detestam serem enganados. O uso dos conceitos religiosos é bom, mas não podem servir de guia para a política. Lembrando que as melhores armas do Príncipe são o uso das leis e das instituições. Nesse contexto se insere a frase nunca dita por Maquiavel de que os fins justificam os meios.

Maquiavel republicano. O regime republicano tem a sua preferência porque ele enseja mais facilmente as mudanças. Mas, mais uma vez, a realidade dos fatos prevalece sobre a  realidade idealizada. Ele faz a defesa da vida política ativa. Um humanismo cívico no desejo da paz. Resguardar a liberdade e buscar a paz. Enfrentou grandes dificuldades por romper com as concepções do cristianismo medieval. Defende o apego a interesses republicanos (res publica). Liberdade e conflito. Como construir uma República e manter a sua estabilidade? Por uma série de instituições e o enfrentamento dos inimigos com destemor. Diante da assimetria dos desejos humanos, agir com equilíbrio, sem hesitações. Reduzir os conflitos, sem evitá-los quando necessário. A soberania da Lei.

A morte do corpo político. A degradação é um fenômeno natural. A imortalidade pertence aos deuses. Buscar sempre as instituições mais adequadas, dentro da perspectiva da circularidade do tempo. A corrupção é um fenômeno universal que degrada a tudo, seus efeitos são incontroláveis. É preciso criar boas leis no intuito da preservação do Estado. As instituições são o freio aos desejos irrefreáveis. Os dois eixos centrais da política são a liberdade e a igualdade. A não renovação da política corresponde à sua morte. 

Conclusão. Como político, Maquiavel não teve sucesso. Os seus êxitos se situam no campo da permanência de seus princípios ao longo dos tempos modernos. Ele lançou sobre a política um novo olhar, olhar com o qual continuamos a examinar a política até os dias atuais. 

Outro livro de Maquiavel são os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Neste livro Bignotto busca dois textos que em muito ajudam na compreensão geral de seu pensamento político. Nesses textos ele mostra toda a sua admiração por Roma, ao passado romano como possibilidade da interpretação do tempo presente.

No próximo post, recorreremos ao livro Os clássicos da política (volume 1)um livro organizado por Francisco Weffort. Dele tomaremos o primeiro capítulo que versa sobre Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna o intelectual da virtù, de autoria de Maria Tereza Sadek.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Movimento Operário no Brasil (1964-1984). Edgard Carone.

Entre os livros em minha biblioteca não lidos, encontrei este: Movimento operário no Brasil (1964-1984), do historiador Edgard Carone. Não faço ideia de como cheguei ao livro, bem como o motivo de não tê-lo lido. O ano de publicação é o de 1984. O livro integra uma trilogia do autor. Os dois volumes anteriores abrangem os períodos de  1877 a 1944, o primeiro volume e de 1945 a 1964, o segundo volume. Creio ser importante dar uma palavra sobre o teor do livro.

Movimento operário no Brasil. 1964 -1984. Edgar Carone. DIFEL. 1984.

Ele consiste em uma bela síntese do movimento operário a partir do golpe civil-militar de 1964, com a posterior hegemonia militar na condução do governo, apresentada como introdução. A partir daí, o autor se limita a apresentar documentos, como entrevistas, manifestos, textos de livros, resoluções de encontros e congressos dos diferentes grupos e suas versões sobre a realidade brasileira. Creio que a importância do livro para os dias de hoje se dá para os projetos de pesquisa do período. Como livro para simples leitura, é óbvio que ele é importante, mas ele se torna um pouco monótono em sua leitura, uma vez que ele é muito repetitivo, uma vez que as posições dos diferentes grupos são muito semelhantes, divergentes, na maior parte das vezes, nas formas de ação.

Pela importância do livro nos dias de hoje, eu destacaria uma entrevista do presidente Lula, encontrada na parte D do livro, que versa sobre os tempos atuais, lembrando que o livro apareceu no ano de 1984. A entrevista foi dada a Mário Morel, retirada do seu livro - Lula - o metalúrgico, das páginas 179-183. Ela tem por título Lula e a ideologia. Trata-se de uma questão em aberto até os dias de hoje. No livro, a entrevista encontra-se nas páginas 244-247. Uma preciosidade. Algo um tanto nebuloso, de um período de indefinições, com o declínio dos partidos comunistas e de ascensão do chamado socialismo democrático. Luta de classes versus sindicalismo de resultados?!

Apresento a estrutura básica do livro, de 314 páginas, de introdução e quatro capítulos: Capítulo A). Período da Guerrilha: Grupos originados do Partido Comunista Brasileiro (ALN, PCdoB, MR8 e PCBR); B). Período da Guerrilha: Grupos de Origem Diversa (VPR, POLOP, AP); C). Os Grupos de Origem Trotskista (O Posadismo, Convergência Socialista, Libelu); D). Os Tempos Atuais (Partido dos Trabalhadores; Partido Revolucionário Comunista, Movimentos Operários e Camponeses). 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, recorro a uma apresentação do mesmo, assinada por José Ênio Casalecchi, na orelha da capa e contracapa. "[...] O atual volume documenta o período após o golpe de 1964. Na Introdução há uma breve explicação deste momento histórico e da razão de cada um dos movimentos que existiram nestes anos. A seguir, temos a publicação de documentos que ilustram as posições ideológicas de cada um dos grupos.

A parte documentária se divide em quatro seções, obedecendo cada uma delas a uma dinâmica própria. Elas se denominam, respectivamente, Período da Guerrilha: grupos originados do Partido Comunista Brasileiro; Período da Guerrilha: grupos de origem diversa; Os Grupos de Origem Trotskista e Os Tempos Atuais.

Como o próprio título sugere, a primeira seção trata dos grupos dissidentes do PCB. A Ação de Libertação Nacional (ALN) é um dos mais importantes e é responsável por toda uma formulação ideológica da luta de guerrilha, cujo mentor é Carlos Marighela. Sua ação é ampla, traduzida em assalto a bancos, sequestros de embaixadores etc. Importante também é o papel do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de João Amazonas, cuja dissidência é de 1961, e que desenvolveu luta no campo, como no caso da Guerrilha do Araguaia. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) são outros grupos que defendem a tese das guerrilhas urbana e rural. A ação de ambos é importante, apesar de não serem tão amplas como a dos dois primeiros grupos.

A segunda seção trata também do período da guerrilha, mas expõe o pensamento dos grupos que não se originam do PCB. São os casos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da Política Operária (Polop) e da Ação Popular (AP). Na verdade, a matriz de cada um dele varia, indo do catolicismo (AP) até o luxemburguismo, isto é, às ideias de Rosa Luxemburgo (Polop). A esta gênese, eles acrescentam o pensamento de Regis Debray, fato que também se repete com os grupos originados do PCB.

A partir de 1971, começa o declínio dos movimentos de guerrilha. As razões são várias, indo do despreparo existente entre alguns grupos até a contra-ofensiva militar das forças de repressão. Neste momento, as esquerdas elaboram novas táticas, que variam de grupo para grupo. A ideia dominante, porém, é a de que a ditadura teria que ser derrotada através de instrumentos legais, já que se tornara impossível derrubá-la à força.

Com o recuo dos grupos de tendência stalinista, os Grupos de Origem Trotskista, título da terceira seção, ocupam espaços políticos momentaneamente vagos. O posadismo, a Convergência Socialista, a Liberdade e Luta (Libelu), por exemplo, começam a articular-se e pregam a necessidade de organização do movimento operário e até o boicote às estratégias eleitorais oposicionistas do MDB, atual PMDB.

A fraqueza orgânica destes grupos, no entanto, obriga-os a participarem de uma frente única dos trabalhadores, que é o PT. Este partido engloba tendências obreiristas e pequeno-burguesas e compõe-se de elementos sindicalistas, de facções da Igreja, de universitários e de grupos trotskistas. Esta composição leva o PT a comportar-se ideologicamente de maneira divergente em vários momentos, o que mostra, ao mesmo tempo, a sua complexidade e sua debilidade.

Afinal, na quarta seção, que trata dos Tempos Atuais, assinala-se o aparecimento de um grupo divergente do PT, que é o Partido Revolucionário Comunista, do deputado José Genuíno. A última parte, que trata dos Movimentos operários e Camponeses, reúne textos sobre a Reforma Agrária, as Comissões de Fábrica , a CUT e a CONCLAT". Lembrando que José Genuíno, posteriormente se reincorporou ao PT, tendo sido, inclusive, o seu presidente nacional, e ex deputado federal.

Em 1993 eu me mudei da cidade de Umuarama, para onde fui em 1969, após a formatura na Faculdade de Filosofia de Viamão (RS), para Curitiba, integrar a direção estadual da APP-Sindicato. A ida ao interior do Paraná me afastou do centro do furacão, nos anos de chumbo da ditadura. No sindicato havia pessoas com origem nas lutas do período retratado pelo livro. Havia enorme curiosidade. Mas eu creio ser mais importante compreender a origem mais longínqua que fundamentou as diferentes posições ideológicas dos trabalhadores. As Quatro Internacionais. Deixo o post dessas diferentes posições.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/02/proletarios-de-todos-os-paises-uni-vos.html

O livro representa uma bela fonte para a historiografia brasileira.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O sonho chinês X O sonho americano. O coletivo X O individual.

Ultimamente tenho lido bastante sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Dois livros me chamaram mais a atenção. São eles: China - O socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e China - Tradição e modernidade na governança do país, de Evandro Menezes de Carvalho. Fiz a resenha desses dois livros. Do primeiro eu chamei a atenção para um conceito todo especial. A desmistificação da economia clássica como um sistema natural, com a sua ênfase na competição. Assim me referi com relação à questão:


Os dois livros sobre a China.

"Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas". Somos mais felizes quando cooperamos do que quando competimos. E, lembrando, que no processo de competição sempre existirão infinitamente mais perdedores do que vencedores.

Mas o que me motivou a escrever este post é o que está na terceira parte do livro de Evandro Menezes de Carvalho. Esta terceira parte versa sobre o O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China, mais precisamente sobre o capítulo 20 - O sonho chinês: a revitalização da nação chinesa. No capítulo anterior já encontramos a provocativa frase "O sonho americano agora é encontrado na China", dita por um dirigente do Partido Comunista Chinês e, ante ela, o autor apresenta a não menos provocativa interrogação a respeito. "Mas será que o sonho chinês é idêntico ao sonho americano?" (Página 391). Vejamos então Xi Jinping (No poder desde 2012) e a abordagem do tema:

Encontramos uma primeira referência numa exposição temática "O caminho para a revitalização", no Museu Nacional, em 2012. Vejamos o seu contexto: "Ela abrangia o período de derrotas, sofrimentos e humilhações sofridas pelos chineses desde as Guerras do Ópio do século XIX até o fim da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente fundação da República Popular da China pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Falar em 'sonho chinês' no contexto desta exposição é associar esta expressão à restauração completa da soberania territorial e econômica do país e da dignidade do povo chinês. Para Xi Jinping, 'realizar a grande revitalização da nação constitui o maior sonho da nação chinesa desde o início da época moderna' (Página 397). Autoestima!

O tema é retomado por Xi Jinping no encerramento da Primeira Sessão da 12ª APN (Parlamento), em março de 2013. Foi o tema mais comentado do início do seu mandato. Vejamos a descrição dessa repercussão: "A mídia e as instituições acadêmicas chinesas discutiram o conteúdo deste sonho e a sua distinção em relação ao sonho americano. Na exposição dos contrastes entre um sonho e outro, destacava-se aquilo que é próprio da sociedade chinesa e que a colocava em uma trilha de desenvolvimento que lhe é peculiar. Não era um debate trivial naqueles primeiros anos do mandato de Xi, pois se tratava de um mote que tinha uma função mobilizadora da população ante um cenário de crescimento do PIB em torno de 6%. O objetivo do líder chinês era persuadir os chineses a se empenharem ainda mais na realização de seus projetos de vida e se unirem em torno do projeto de rejuvenescimento da nação. O 'sonho chinês' ressoou como um chamado patriótico ao buscar a sua força discursiva em uma ideia primordial do imaginário do povo chinês: a sua grandeza civilizacional.

O tema voltou ao debate num encontro de think tanks chineses e latino-americanos do PCCH, em Pequim, no ano de 2014. Uma das palestras versou sobre O sonho chinês e o mundo. Indagado sobre as diferenças do 'sonho chinês' do 'sonho americano', assim ele explicou: "que o sonho estadudinense consiste  no desenvolvimento do país através dos êxitos individuas; enquanto o 'sonho chinês dá mais atenção ao desenvolvimento integral da nação como foco, mas também estrutural". E o palestrante continuou evidenciando as diferenças.

"Na cultura chinesa, a proteção do interesse coletivo prevalece sobre o individual que, se preciso, deve ceder diante do bem comum. Na cultura estadunidense, refletindo a gramática política do Ocidente, a proteção dos indivíduos em torno da noção de propriedade privada rege a lógica de constituição normativa da sociedade.. Para Wasserstrom, 'o tipo de apego às tradições e fortalecimento do Estado que Xi exalta é às vezes visto como mais propensos a impedir do que ajudar os Sonhadores dos EUA'. Entretanto, para a China, os sonhos do Estado e dos indivíduos não se separam. Xi expressa esta compreensão do seguinte modo: 'a história nos ensina que o futuro e o destino de cada um estão estreitamente vinculados com os do país e da nação'. É o conceito de harmonia, imbricado com o de sonho. Vejamos:

" Nós estamos bem quando o nosso país está bem. Esta indissociabilidade entre nação e indivíduo é a base da já referida noção de 'Grande Harmonia' no pensamento confucionista. Gerenciar a Grande Harmonia de uma nação é uma tarefa de cada indivíduo dentro de uma rede social maior na qual está inserido e dela depende. [...] Para a realização da Grande Harmonia, não é bastante a virtude dos governantes, é preciso que cada indivíduo se dedique ao seu aperfeiçoamento. Diferentemente das sociedades ocidentais capitalistas, onde a virtude muitas vezes é associada  à riqueza material individual conquistada e da qual se pressupõe promover o bem comum, na cultura tradicional chinesa o desenvolvimento do bem-estar social provém do autocultivo da virtude por parte de cada indivíduo. Sem isto, a estabilidade social estaria ameaçada e, consequentemente, a sua riqueza material". 

O capítulo termina com a apresentação de pesquisas relativas à realização dos sonhos. Eles migram quando o estágio do atendimento das necessidades  básicas  já foi atendido. Aí surgem necessidades mais elevadas. O autor assim termina este capítulo: "O consumo passou a desempenhar um papel importante na satisfação das expectativas da população. Mas não é a única demanda do povo chinês. Observou Xie Chuntao que 'os cidadãos chineses já não estão simplesmente satisfeitos com o fato de serem alimentados e vestidos. Eles esperam mais direitos democráticos e um ambiente jurídico melhor', mas para ir ao encontro destas reivindicações, o governo chinês sabe que precisa fortalecer a sua capacidade de governança. Não é sem razão que o 'Pensamento de Xi Jinping' expôs que a tarefa de modernização do país para a grande revitalização da nação exige o desenvolvimento de uma 'governança baseada na lei'. Na China, ela terá qualidades distintas se comparada com as culturas jurídico-políticas ocidentais. É a chamada para o capítulo seguinte sobre A governança baseada na lei e no Estado de Virtude.

Neste capítulo aparecem importantes reflexões sobre a questão do Direito e da Justiça. Reflexões sobre os conceitos de racionalidade (do Iluminismo ocidental) e da relacionalidade e do Estado Democrático de Direito e do Estado de Virtude. Esta busca do Estado de Virtude provém do sonho chinês, do aperfeiçoamento de seu mundo de sonhos. 

E, cá comigo, eu verifico em minhas conversas que uma das maiores insatisfações brasileiras está no pagamento de impostos, que teoricamente poderiam melhorar a vida de toda a população através da ampliação das políticas públicas. Sei que é difícil entrar nesse debate em virtude de razões históricas de nossa formação cultural. E, eu me lembrando de Tom Jobim, de Wave. "É impossível ser feliz sozinho". Ah! A relacionalidade. Deixo ainda o post da resenha dos dois livros acima citados:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html?m=1

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html


sábado, 8 de agosto de 2026

CHINA - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho.

Nos dias atuais, quase toda a minha curiosidade está voltada para a China. A grande questão é a de como este país fez tão grandes transformações em tão pouco tempo. Busco explicações nas leituras. Há alguns dias recebi de presente, da minha amiga Suzi, um livro sobre a China. O livro é simplesmente fantástico. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor, Evandro Menezes de Carvalho, tem todas as credenciais para este empreendimento. Ele é, entre outros tantos atributos, professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim e condecorado com o Chinese Government Friendship Award, a mais alta honraria dada a estrangeiros pelo governo central da China.

China - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho. Batel. 2024.

Na contracapa encontramos o desvelar da hipótese desenvolvida ao longo das 498 páginas do livro: "A prática e a sabedoria chinesas influenciam o modo de organização da República Popular da China. Desde esta perspectiva, sustentamos a hipótese de que a China promove uma mudança gradual do 'sistema socialista com características chinesas' para uma governança chinesa com características socialistas. Invertemos os termos para despertar a reflexão. O 'socialismo' - naquilo que o substantivo possa ser referenciado, na forma e no conteúdo, às teorias e processos políticos do século XX - torna-se adjetivo qualificador do que se pretende ser um modelo de governança próprio e original da China para o século XXI. Há muitos aspectos relativos ao modo de organização política do país que antecedem em centenas de anos a fundação da República Popular da China e são reelaborados para acompanhar os novos tempos. E se o tempo der razão à tese que costura o conteúdo deste livro, estaremos diante de um fato que pode mudar totalmente o rumo dos debates e reflexões sobre a China, sobre o socialismo e sobre o papel deste país no sistema internacional daqui em diante".

Antes de mais nada, duas datas são fundamentais em todo esse processo de rápidas transformações: 1921 e 1949. A estas, uma terceira data pode ser acrescentada. Mas, o que aconteceu nestas datas para elas serem tão importantes? Em 1921, depois da Revolução russa de 1917, ocorre a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCH). Em 1949 ocorre a fundação da República Popular da China (RPC), após a Revolução vitoriosa, liderada por Mao Tsé-Tung. E em 1978, após o fim da chamada Revolução Cultural, a China inicia as reformas que a levaram para o seu atual modelo de governança, de abertura para o mercado mundial e para o que o mundo hoje designa como "Socialismo de mercado" ou "Socialismo para o Século XXI".

E, ainda antes de mais nada, afirmar que o órgão que define estas políticas é o Partido Comunista Chinês (PCCH). É ele que, através de seus Congressos define as políticas a serem efetivadas na República Popular da China. O PCCH é enorme e bem estruturado. Ele consiste em organizações centrais, locais e de base e possui aproximadamente cem milhões de filiados. Todo o capítulo 12 (Páginas 219 a 237) é dedicado à descrição de sua organização. Há ainda outros  oito partidos, órgãos de cooperação e consulta política. São remanescentes do período pré-Revolução de 1949. Não são antagônicos. Bem, mas vamos à estrutura do livro. 

Ele se divide em três partes. Primeira parte: Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; Segunda parte: Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; Terceira parte: O governo de Xi Jinping e a "Nova Era" pela revitalização da China.

Na primeira parte é apresentada a longa história da China, especialmente a sua história moderna de dominações e sofrimentos impostos pelo colonialismo e imperialismo ocidental. Esta história é apresentada ao longo de nove capítulos: 1. Introdução: entre o céu e a terra, as entrelinhas; 2. A continuidade ameaçada: invasões estrangeiras e revoltas internas; 3. A dinastia agonizante e as reformas tardias; 4. A República nascente: o declínio dos conservadores e a ascensão dos reformadores e revolucionários; 5. GMD (Guomindang - burguesia) e PCCH: alianças e disputa pelo destino da nação; 6. A reconquista da independência da nação chinesa pelo Partido Comunista da China (PCCH); 7. A República Popular da China de 1949 a 1976: as contradições na era maoísta; 8. Mao Zedong e Fei Xiaoping: o marxismo e o confucionismo na interpretação da sociedade chinesa; 9. Deng Xiaoping e a nova longa marcha para o auto fortalecimento da China: a conciliação dos antagonismos.

Na segunda parte são apresentadas as instituições básicas que governam a China, os chamados pilares institucionais. São mais nove capítulos: 10. A República Popular de uma Nação-Família; 11. A busca por talentos e virtude na nova burocracia; 12. O Partido Comunista da China; 13 A República Popular da China: a divisão administrativa do Estado chinês; 14. O sistema de Autonomia Étnica Regional; 15. Órgãos centrais do poder do Estado (cinco sub-itens); 16. Sistema de cooperação multipartidária e consulta política (dois sub-itens); 17. Os Partidos não comunistas e a questão democrática na China; 18. A democracia popular de processo integral.

A terceira parte é dedicada a uma análise do governo de Xi Jinping. Tem sete capítulos. 19. Xi Jinping e a Nova Era do Socialismo Chinês; 20. O Sonho Chinês: a revitalização da nação chinesa; 21. A governança baseada na Lei e no Estado de Virtude; 22. A Política Externa de Xi Jinping e a Comunidade Global do Futuro Compartilhado; 23. A iniciativa Cinturão e Rota: uma Nova Rota da Seda para o século XXI; 24. A nova diplomacia chinesa, sabedoria milenar; 25. Conclusão: Uma nova governança chinesa com características para o século XXI.

Desta terceira parte, sublinhei alguns traços que merecem uma reflexão mais cuidadosa. O mundo deve ser governado pela racionalidade ou pela relacionalidade? O mundo é uma mera soma de indivíduos com apregoava a senhora Thatcher, ou o fruto de uma complexa relacionalidade? "O sonho americano, agora é na China", diz um dirigente do PCCH. Mas o que distingue o sonho americano do sonho chinês? O Estado democrático de Direito é suficiente? Ele não necessita também da busca de um Estado de Virtude? Influências cristãs e confucionistas! E um grande questionamento da Racionalidade ocidental do Iluminismo. Chamo uma atenção toda especial para o capítulo 20, onde são apresentadas as características do sonho chinês, um sonho coletivo, sem o submergir do indivíduo.

E uma frase final: "A sabedoria milenar chinesa tem séculos de acúmulo intelectual e prática social, e o modo como os chineses lidam com os problemas e buscam soluções nem sempre é coincidente com aquele com o qual os ocidentais estão acostumados. O relativo desengajamento das potências ocidentais na defesa de um multilateralismo inclusivo reforça a adesão internacional à globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional mais diversificada em diversos aspectos, e, portanto, mais complexa. Compreender a história da China, os mecanismos institucionais de governança no âmbito interno, suas raízes filosóficas e culturais, bem como a nova orientação diplomática do país, será crucial para entendermos este século XXI que tende a ser um século cada vez menos ocidentalizado" (Paginas 467-8). E para a Suzi, um beijo, junto com os meus agradecimentos pelo maravilhoso presente. 

Como eu tenho outras leituras sobre o tema, eu apresento os posts. Nele encontramos análises sobre a China do século XX, sobre a era das guerras civis e estrangeiras, sobre os triunfos de Mao, sobre a Revolução Cultural e sobre as reformas a partir dos anos 1980. Destaque todo especial para o último -China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ATENEU (1888). Raul Pompeia.

O livro da vez - O Ateneu, de Raul Pompeia. Devo dizer que  ainda não tinha lido esse clássico, embora o livro figurasse em uma de minhas estantes. Coisas do tempo em que ainda estava em sala de aula. Fatos mais urgentes e prementes relegavam as leituras, remetendo-as para o futuro. No título do post grifei a data da publicação do livro, o ano de 1888. Uma data significativa de nossa história e de fundamental importância para a compreensão da leitura. Para além do contexto brasileiro, da abolição do regime de escravização e da transição do regime da monarquia para a República, imperava no mundo um espírito de euforia, a ideia, - ainda hoje me lembro de aulas do ano de 1968, dadas pelo inesquecível professor D. Antônio Cheuiche, - do progresso indefinido,  do triunfo da racionalidade, do entendimento humano. Se o passado é marcado pelo progresso, o futuro será a continuidade desse mesmo progresso. Raciocínio perfeito. A realidade nem tanto.

O Ateneu. Raul Pompeia. Penguin & Companhia das Letras. 2013.

Esse progresso seria assegurado, acima de tudo, pela educação. O Ateneu é um livro que fala de educação, ele figura entre os chamados romances de formação. O romance termina em tragédia. Um incêndio consome o educandário. Raul Pompeia é um especialista em caricaturar, exímio no uso de metáforas: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas" (Página 276). Tudo termina num "De profundis". também a vida de Raul Pompeia (1863-1895), aos 32 anos.

A edição da Penguin & Companhia das Letras, que eu li, é primorosa. Ela mantém as 44 ilustrações originais da publicação. Ela tem também duas contextualizações extraordinárias: A introdução - o domínio do sujeito: O Ateneu, de Pedro Meira Monteiro e o posfácio - Sobre as ilustrações d'O Ateneu, de José Paulo Paes. Vou me ater aos seus comentários, nesse post. A primeira das vinhetas é uma espécie de síntese do que iremos ler ao longo livro. Vejamos o comentário de José Paulo Paes:

"Começa a série na primeira página do livro, numa vinheta mostrando Sérgio (narrador e protagonista) e o pai, de costas para o observador, parados diante do portal de entrada do Ateneu; o pai tem a mão protetoramente espalmada nas costas do filho, como que a impeli-lo e a confortá-lo ao mesmo tempo; a legenda da figura é a abertura do romance: 'vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta'"(Página 291). 

E assim continua o comentário: "Daí por diante, Sérgio terá de caminhar sozinho, Dante sem nenhum Virgílio a guiá-lo pelos círculos infernais da vida do internato. A menos que se queira ver tal Virgílio em Rebelo, o colega veterano que aparece ao lado de Sérgio numa das vinhetas do capítulo II, a adverti-lo dos perigos à sua espera: 'Olhe, um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se, [...] os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo'. A vinheta seguinte da série, no capítulo VIII, mostra dois colegas ajoelhados, com o rosto oculto pelo braço dobrado. Trata-se de Tourinho e Cândido, obrigados por Aristarco (o proprietário e diretor do Ateneu) a ajoelharem-se em pleno refeitório, diante de todos os colegas, como 'acólitos da vergonha'. Interceptara o diretor uma carta amorosa assinada "Cândida' e, após rigorosa devassa, apura ter sido escrita por Cândido a Tourinho, marcando um encontro secreto no bosque. Uma frase da página contígua da vinheta serve-lhe à maravilha de legenda: 'Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confrontando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno'" (Página 291-292).

É possível esse caminhar? Ou essa pedagogia tenderia para o malogro. Vejamos outro comentário: "Com isso, a pequena vinheta do capítulo II tem o seu alcance grandemente ampliado, num efeito de eco ou ressonância, passando a servir de índice do próprio malogro da pedagogia do Ateneu e do seu diretor. Contra a hipocrisia dessa pedagogia e desse pedagogo, cujo moralismo palavroso não alcança esconder-lhe a rapacidade de essência, o incêndio final ateado por um dos alunos constitui, tanto quanto os vícios e as abjeções de outros alunos evocados ao longo do livro, um gesto prometeico de rebeldia. Rebeldia da natureza humana, selvagem que seja, mas autêntica, contra tudo que busque falseá-la; revolta da criatura imperfeita contra o criador ainda mais imperfeito do que ela" (Página 290). Ah! a hipocrisia. Ah! a falsidade.

Da introdução sublinhei alguns traços: "O que talvez se possa dizer, para auxiliar a leitura, é que seu autor está todo impregnado do espírito do tempo, e que em 1888, quando O Ateneu vinha a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente das forças que nos ultrapassam? Mas de onde viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza?" (Página 7-8).

O comentarista prossegue: "Um leitor informado verá aí as marcas do século XIX. O pensamento científico, que prevalecera e se multiplicava em inúmeras tendências, pretendi explicar o mundo a partir de um materialismo mais ou menos estrito. Não poucas mentes brilhantes se deixaram seduzir pela ideia de que havia um progresso necessário, inelutável, que nos conduziria a todos, como se o gênero humano fosse o natural portador e combatente da civilização. Evidentemente, no quadro mental que então prevalecia, uns eram mais civilizados que outros e, no limite, caberia ao homem branco carregar às costas o 'fardo' do atraso que se espalhava nas zonas para além do mundo culto, isto é, da Europa com suas luzes. Em sua inflexão imperialista, vemos aqui o princípio expansivo e otimista do progresso, cujas raízes apontam para o Iluminismo do século anterior. Mas o século XIX ofereceria entraves importantes para a seta invencível da civilização" (Página  8).

Dentro desse contexto Pedro Meira Monteiro também volta um olhar sobre o Brasil: "No Brasil, a própria escravidão era a marca do debacle civilizador, nódoa incômoda que razões econômicas justificavam e perpetuavam. O Império brasileiro, nesse sentido, sustentou uma ordem iníqua que a República falharia em consertar. A escravidão está praticamente fora do romance de Raul Pompeia, embora possamos senti-la como uma 'presença ausente', ou como a base inconfessável da riqueza familiar de quase todos os meninos que se ilustram no Ateneu. E como ser otimista com um monstro desses no armário?" (Página 8).

Pedro Meira Monteiro assim termina a sua introdução: "Talvez O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha" (Páginas 18-19).

Raul Pompeia era republicano e abolicionista. Foi, inclusive, amigo do Dr. Luiz Gama. Era fervoroso adepto do Marechal Floriano Peixoto. Seus dissabores lhe abreviaram os sofrimentos da vida. Ah! a educação. Ah! a escola. Ah! os internatos. Ah! a formação do ser humano. Raul Pompeia estudou no colégio Ateneu, ops, desculpem, no colégio Abílio, o colégio da elite do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O romance é profundamente autobiográfico. Uma pequena síntese, na contracapa:

"A inesquecível galeria de tipos humanos imortalizada por Raul Pompeia no microcosmo do Colégio Ateneu constitui o centro deste romance, publicado originalmente em 1888 como folhetim na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e até hoje um marco de nossa prosa.

A partir das memórias do autor como aluno do Colégio Abílio no bairro das Laranjeiras, onde estudou entre 1873 e 1877, o romance narra as experiências de Sérgio, um tímido garoto de onze anos como aluno interno no Colégio Ateneu.

Esta edição de O Ateneu conta com texto introdutório de Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria e História Literária pela Unicamp e professor no Departamento de Espanhol e Português na Universidade Princeton, além de detalhada cronologia biográfica do autor". Um imenso mal- estar.