segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ATENEU (1888). Raul Pompeia.

O livro da vez - O Ateneu, de Raul Pompeia. Devo dizer que  ainda não tinha lido esse clássico, embora o livro figurasse em uma de minhas estantes. Coisas do tempo em que ainda estava em sala de aula. Fatos mais urgentes e prementes relegavam as leituras, remetendo-as para o futuro. No título do post grifei a data da publicação do livro, o ano de 1888. Uma data significativa de nossa história e de fundamental importância para a compreensão da leitura. Para além do contexto brasileiro, da abolição do regime de escravização e da transição do regime da monarquia para a República, imperava no mundo um espírito de euforia, a ideia, - ainda hoje me lembro de aulas do ano de 1968, dadas pelo inesquecível professor D. Antônio Cheuiche, - do progresso indefinido,  do triunfo da racionalidade, do entendimento humano. Se o passado é marcado pelo progresso, o futuro será a continuidade desse mesmo progresso.

O Ateneu. Raul Pompeia. Penguin & Companhia das Letras. 2013.

Esse progresso seria assegurado, acima de tudo, pela educação. O Ateneu é um livro que fala de educação, ele figura entre os chamados romances de formação. O romance termina em tragédia. Um incêndio consome o educandário. Raul Pompeia é um especialista em caricaturar, exímio no uso de metáforas: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas" (Página 276). Tudo termina num "De profundis". também a vida de Raul Pompeia (1863-1895), aos 32 anos.

A edição da Penguin & Companhia das Letras, que eu li, é primorosa. Ela mantém as 44 ilustrações originais da publicação. Ela tem também duas contextualizações extraordinárias: A introdução - o domínio do sujeito: O Ateneu, de Pedro Meira Monteiro e o posfácio - Sobre as ilustrações d'O Ateneu, de José Paulo Paes. Vou me ater aos seus comentários, nesse post. A primeira das vinhetas é uma espécie de síntese do que iremos ler ao longo livro. Vejamos o comentário de José Paulo Paes:

"Começa a série na primeira página do livro, numa vinheta mostrando Sérgio (narrador e protagonista) e o pai, de costas para o observador, parados diante do portal de entrada do Ateneu; o pai tem a mão protetoramente espalmada nas costas do filho, como que a impeli-lo e a confortá-lo ao mesmo tempo; a legenda da figura é a abertura do romance: 'vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta'"(Página 291). 

E assim continua o comentário: "Daí por diante, Sérgio terá de caminhar sozinho, Dante sem nenhum Virgílio a guiá-lo pelos círculos infernais da vida do internato. A menos que se queira ver tal Virgílio em Rebelo, o colega veterano que aparece ao lado de Sérgio numa das vinhetas do capítulo II, a adverti-lo dos perigos à sua espera: 'Olhe, um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se, [...] os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo'. A vinheta seguinte da série, no capítulo VIII, mostra dois colegas ajoelhados, com o rosto oculto pelo braço dobrado. Trata-se de Tourinho e Cândido, obrigados por Aristarco (o proprietário e diretor do Ateneu) a ajoelharem-se em pleno refeitório, diante de todos os colegas, como 'acólitos da vergonha'. Interceptara o diretor uma carta amorosa assinada "Cândida' e, após rigorosa devassa, apura ter sido escrita por Cândido a Tourinho, marcando um encontro secreto no bosque. Uma frase da página contígua da vinheta serve-lhe à maravilha de legenda: 'Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confrontando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno'" (Página 291-292).

É possível esse caminhar? Ou essa pedagogia tenderia para o malogro. Vejamos outro comentário: "Com isso, a pequena vinheta do capítulo II tem o seu alcance grandemente ampliado, num efeito de eco ou ressonância, passando a servir de índice do próprio malogro da pedagogia do Ateneu e do seu diretor. Contra a hipocrisia dessa pedagogia e desse pedagogo, cujo moralismo palavroso não alcança esconder-lhe a rapacidade de essência, o incêndio final ateado por um dos alunos constitui, tanto quanto os vícios e as abjeções de outros alunos evocados ao longo do livro, um gesto prometeico de rebeldia. Rebeldia da natureza humana, selvagem que seja, mas autêntica, contra tudo que busque falseá-la; revolta da criatura imperfeita contra o criador ainda mais imperfeito do que ela" (Página 290). Ah! a hipocrisia. Ah! a falsidade.

Da introdução sublinhei alguns traços: "O que talvez se possa dizer, para auxiliar a leitura, é que seu autor está todo impregnado do espírito do tempo, e que em 1888, quando O Ateneu vinha a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente das forças que nos ultrapassam? Mas de onde viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza?" (Página 7-8).

O comentarista prossegue: "Um leitor informado verá aí as marcas do século XIX. O pensamento científico, que prevalecera e se multiplicava em inúmeras tendências, pretendi explicar o mundo a partir de um materialismo mais ou menos estrito. Não poucas mentes brilhantes se deixaram seduzir pela ideia de que havia um progresso necessário, inelutável, que nos conduziria a todos, como se o gênero humano fosse o natural portador e combatente da civilização. Evidentemente, no quadro mental que então prevalecia, uns eram mais civilizados que outros e, no limite, caberia ao homem branco carregar às costas o 'fardo' do atraso que se espalhava nas zonas para além do mundo culto, isto é, da Europa com suas luzes. Em sua inflexão imperialista, vemos aqui o princípio expansivo e otimista do progresso, cujas raízes apontam para o Iluminismo do século anterior. Mas o século XIX ofereceria entraves importantes para a seta invencível da civilização" (Página  8).

Dentro desse contexto Pedro Meira Monteiro também volta um olhar sobre o Brasil: "No Brasil, a própria escravidão era a marca do debacle civilizador, nódoa incômoda que razões econômicas justificavam e perpetuavam. O Império brasileiro, nesse sentido, sustentou uma ordem iníqua que a República falharia em consertar. A escravidão está praticamente fora do romance de Raul Pompeia, embora possamos senti-la como uma 'presença ausente', ou como a base inconfessável da riqueza familiar de quase todos os meninos que se ilustram no Ateneu. E como ser otimista com um monstro desses no armário?" (Página 8).

Pedro Meira Monteiro assim termina a sua introdução: "Talvez O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha" (Páginas 18-19).

Raul Pompeia era republicano e abolicionista. Foi, inclusive, amigo do Dr. Luiz Gama. Era fervoroso adepto do Marechal Floriano Peixoto. Seus dissabores lhe abreviaram os sofrimentos da vida. Ah! a educação. Ah! a escola. Ah! os internatos. Ah! a formação do ser humano. Raul Pompeia estudou no colégio Ateneu, ops, desculpem, no colégio Abílio, o colégio da elite do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O romance é profundamente autobiográfico. Uma pequena síntese, na contracapa:

"A inesquecível galeria de tipos humanos imortalizada por Raul Pompeia no microcosmo do Colégio Ateneu constitui o centro deste romance, publicado originalmente em 1888 como folhetim na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e até hoje um marco de nossa prosa.

A partir das memórias do autor como aluno do Colégio Abílio no bairro das Laranjeiras, onde estudou entre 1873 e 1877, o romance narra as experiências de Sérgio, um tímido garoto de onze anos como aluno interno no Colégio Ateneu.

Esta edição de O Ateneu conta com texto introdutório de Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria e História Literária pela Unicamp e professor no Departamento de Espanhol e Português na Universidade Princeton, além de detalhada cronologia biográfica do autor". Um imenso mal- estar.