segunda-feira, 27 de julho de 2026

ITAPIRANGA. Minha terra. Recorte histórico e memórias. José Nedel.

Recebi do meu irmão Hédio José o belo livro Itapiranga - Minha terra. Recorte histórico e memórias. A autoria é de José Nedel, sem dúvida um dos cidadãos mais ilustres da terra, filho de pioneiros dessa então tão promissora terra. A história nos remete aos idos da década de 1920 para apresentar os seus primeiros registros. Na época havia, no extremo oeste de Santa Catarina, dois portos no rio Uruguai, que formaram os núcleos iniciais da colonização: o Porto Feliz, atual Mondaí (10.066 hab.) e o Porto Novo, atual Itapiranga (16.638 hab. censo IBGE - 2022). Essa colonização foi uma extensão da colonização alemã do Rio Grande do Sul, iniciada em 1824. O tema remonta às minhas origens, à minha formação primeira em Harmonia e depois continuada em Bom Princípio, Gravataí e Viamão. 

Itapiranga. Minha terra. Recorte histórico e Memórias. José Nedel. Oikos.

A história da colonização alemã é bastante conhecida. Os primeiros colonos se estabeleceram em São Leopoldo e São José do Hortêncio, expandindo-se depois pelos vales dos rios dos Sinos, Caí, Taquari e Pardo. As famílias foram se multiplicando e novas frentes de colonização foram sendo abertas. Isso se transformou em uma necessidade. As famílias eram muito numerosas. Cito o exemplo dos meus avós. A família dos avós paternos teve nove filhos e a dos avós maternos quatorze. Alguns dos seus filhos, meus tios, estão nessa saga de pioneiros em Itapiranga. Meu irmão foi para essa região nos anos 1950, como professor. Passou por Palmitos, Linha Catres e Cambucica. Hoje mora em Mondaí.

A história do autor, José Nedel, é bastante semelhante a minha. A diferença é que meus pais ficaram nas chamadas colônias velhas, Harmonia no caso, e os dele, foram para Itapiranga, emigrados da região de Nova Petrópolis. Ele é mais velho do que eu. Nasceu em 1934 e eu em 1945. A semelhança entre nós se deu pela ida ao seminário. Ele, com os jesuítas, em Salvador do Sul e eu com os seculares, em Bom Princípio. A semelhança se dá também pelo exercício da função de professor. José Nedel, além de professor, foi também juiz de direito no Rio Grande do Sul. Mas essa história, a de juiz, ele não conta nesse livro. A diferença é a de que,  enquanto eu me estabelecia no Paraná, ele voltou ao Rio Grande do Sul.

Mas vamos ao livro. Ele é maravilho e, como se trata de recortes históricos e de memórias, ele é de leitura fácil e agradável. Adotou uma narrativa num estilo jornalístico, fugindo do academicismo. Ele consta de apresentação, cinco capítulos, considerações finais e preciosas referências bibliográficas. Os cinco capítulos tem os seguintes títulos: I. Aspectos da ação dos jesuítas no sul; II. Porto Novo - Itapiranga: Do início à emancipação política; III. Itapiranga: autonomia e desenvolvimento; IV. Linha Jaboticaba: Paulo e Catarina Nedel pioneiros; V. Memórias pessoais: tópicos seletos. Os três primeiros capítulos remetem à história, enquanto que os dois últimos à crônica familiar e pessoal.

Para mim, o capítulo de maior interesse foi o primeiro. Confesso que me senti um tanto jesuíta, tal foi a sua influência em minha formação, embora eu tenha ido para o seminário dos padres seculares e o padre Oscar Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos, também fosse um padre secular, mas de formação jesuítica.

José Nedel nos oferece um panorama sobre a ordem dos padres jesuítas, desde a sua fundação em 1534, sua vinda e expulsão do Brasil, o seu retorno em 1842, as suas intensas atividades no sul do Brasil, a fundação dos colégios, até hoje colégios de formação de elite. O aspecto mais interessante do capítulo é a sua forma de atuação, sempre interligando a igreja com a escola. Como, com a República, o Brasil se tornou um país laico, as paróquias se encarregaram da criação de escolas paroquiais, sob o seu comando. No início dos anos 1950, foi numa dessas escolas que eu fui alfabetizado. As paróquias tinham também a seu encargo a organização da vida da comunidade. O termo Verein se tornou onipresente: Lehrerverein, Bauersverein, Volksverein. Dessas instituições, o Volksverein se tornou a instituição mais interessante. Ela preservou a língua alemã (foi ela a minha primeira língua), os costumes e impulsionou a formação de novas colônias, tendo o cuidado de mantê-las sob a influência alemã e católica. Itapiranga é um exemplo dessa colonização.

Da organização da vida comunitária e a unidade em sua manutenção eu teria dois destaques a fazer. As colônias se intercomunicavam através de dois veículos de comunicação, praticamente presentes em todas as comunidades. O St. Paulus Blatt e o anuário Ignatius Kalender, escritos em alemão. Creio que o St. Paulus Blatt continua circulando até os dias de hoje. Ele foi um importante veículo de propaganda da colonização de Porto Novo - Itapiranga. O outro aspecto é o da organização cooperativa, especialmente no setor financeiro. A poupança dos colonos, depositada nas Sparkasse, financiavam especialmente os novos casais que vinham se formando, ajudando-os, especialmente na aquisição de um pedaço de terras. Nesse setor teve grande destaque o padre Theodor Amstad. Essa forma de crédito deu origem as atuais cooperativas de crédito como a Sicredi e a Sicoob. A Sicredi, em Linha Imperial (Nova Petrópolis e a Sicoob, em Itapiranga. Vejam bem que o espírito cooperativo acompanhou os colonos em sua migração para o extremo oeste catarinense. Sobre esse tema também tenho a recomendação de um interessante livro, do qual eu ofereço uma resenha. Trata-se de A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

O segundo capítulo nos leva ao extremo oeste de Santa Catarina, ao Porto Novo, hoje Itapiranga. Como vimos, a sua colonização é uma extensão da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Após cem anos, ela precisava de uma expansão. O St. Paulus Blatt se encarregou da propaganda da nova terra prometida. A narrativa passa pela organização das empresas colonizadoras, das possibilidades econômicas oferecidas e das dificuldades encontradas. O rio Uruguai garantia o fluxo das riquezas. Ganham destaque na narrativa as famílias dos pioneiros e a presença dos padres jesuítas que vivamente acompanharam os colonos em seu processo migratório. Esse núcleo pioneiro fez surgir três municípios: Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis. O grande destaque desse capítulo é o da atuação do Volksverein, em todo esse processo e no espírito da preservação do germanismo e do catolicismo. O germanismo ocasionou sérios problemas no entorno da Segunda Guerra Mundial. Nos mesmos moldes, só que sob o comando dos luteranos, alguns anos antes houve a colonização do Porto Feliz, atual Mondaí. Também tenho a resenha de dois livros sobre o tema. Os livros também me foram remetidos pelo meu irmão.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/08/porto-feliz-mondai-o-centenario-da.html

No terceiro capítulo já adentramos na segunda metade do século XX. O foco está no desenvolvimento da região. Os antigos lugarejos agora se transformam em municípios, desmembrados de Chapecó, o grande município mãe. O desenvolvimento ocorre com a abertura de estradas, com a chegada da energia elétrica, do saneamento básico, de estabelecimentos educacionais, comerciais e industriais. A presença do Estado se tornou efetivamente presente: CELESC, TELESC... Também o espírito cooperativo se fez presente. E, ao que parece, em meio a isso, tem uma história um tanto complicada. A da cooperativa SAFRITA - agropecuária, que ainda hoje existe, sob o domínio da JBS, me informa uma consulta Google. O espírito do cooperativismo creditício se fez presente com a Creditapiranga, raiz da atual SICOOB.

O quarto capítulo é dedicado à família do autor. Paulo e Catarina Nedel são os pioneiros, que se estabeleceram na Linha Jaboticaba, hoje pertencente ao município de São João do Oeste. Nesse capítulo, meu irmão sublinhou dois nomes que adquiram lotes na referida colônia: Pedro Rech e Arnoldo Fridolino Reichert. Reichert é o sobrenome de minha mãe, de quem Arnoldo Fridolino era irmão. me lembro vagamente de uma visita sua, numa de suas vindas para Harmonia. Não tenho lembranças de Pedro Rech. Meu irmão os visitava constantemente.

O quinto capítulo é de foro particular do autor, suas memórias pessoais. Foi aí que estabeleci muitas de suas memórias com as minhas, especialmente a vida de seminaristas. O seminário foi o grande elemento constituidor de nossas vidas. Acima de tudo, ele nos deu uma sólida formação humanística e nos fez portadores de virtudes que felizmente preservamos. Também numa rápida consulta ao Google, vi que José Nedel faleceu no dia 14 de junho de 2025, e que ainda em seus tempos derradeiros manteve intensa produção cultural. O presente livro é um exemplo disso. A sua edição é do ano de 2025.

Recomendo ainda as ricas indicações bibliográficas, que interessam a todos os que tem interesse na colonização alemã no Rio Grande do Sul, que 2024 festejou o seu bicentenário. Dessa bibliografia me chamou especial atenção um livro sobre esse bicentenário. Trata-se de Duzentos anos de imigração alemã: flagrantes - de autoria de Arthur Blásio Rambo. Editora Oikos, 2023. A essa bibliografia eu tenho um acréscimo a fazer. Uma indicação de Antônio Cândido sobre a colonização alemã. A aculturação dos alemães no Brasil - de Emílio Willens, da Companhia Editora Nacional, 1980. Tenho uma resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-aculturacao-dos-alemaes-no-brasil.html

E como essas leituras me provocam um enorme saudosismo também deixo um post do blog sobre Harmonia, a minha querida terrinha natal. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/11/tributo-harmonia-i-terra-em-que-eu-nasci.html



segunda-feira, 20 de julho de 2026

SHAKESPEARE. UMA VIDA. Park Honan.

Várias leituras me levaram a retomar um contato com Shakespeare. Sempre me intrigou o fato de que dois dos maiores gênios das letras fossem praticamente contemporâneos, embora vivessem em países em guerra. Acredita-se até que eles tenham morrido no mesmo dia, qual seja, o de 22 ou 23 de abril de 1616. Vejamos as datas, de acordo com uma rápida pesquisa Google. Shakespeare: abril - 1564 - 22 de abril de 1616. Cervantes: setembro - 1547 - 22 de abril de 1616. Formas diferentes de escrever, mas, ambos se ocupam, com toda a profundidade, do tema do humano.

Shakespeare - uma vida. Park Honan. Companhia das Letras. 2001. Tradução: Sonia Moreira.

Em 2016 me detive mais de perto com o Dom Quixote. Agora, para me deter em Shakespeare, tomei a biografia escrita pelo biógrafo norte americano, Park Honan. A primeira frase que lemos na contracapa do livro não é nada modesta: A mais completa e precisa biografia de Shakespeare já publicada. E, já que começamos com a contracapa, vamos continuar a ver a apresentação da obra:

"Em 1709, um texto de quarenta páginas esboçava o perfil de um poeta, ator e dramaturgo que, um século antes, entusiasmara o público inglês. Foi essa a primeira biografia que se fez de William Shakespeare. De lá para cá, escreveram-se milhares de páginas para compreender esse homem genial, autor de uma obra que a cada geração suscita novas perguntas e novas interpretações. 'Ser ou não ser: eis a questão': bastaria reunir as versões, citações e comentários dessa frase dita por Hamlet, o personagem shakespeareano mais célebre, e já se teria uma respeitável biblioteca.

Park Honan reúne virtualmente tudo o que se conseguiu saber até hoje sobre William Shakespeare. Surpreendendo mesmo os estudiosos, recorre a materiais inéditos e apresenta inúmeras informações novas e relevantes, estabelecendo com precisão o que é fato e o que é mito ou equívoco. As lendas imaginam o dramaturgo envolvido com tantas damas sombrias, rapazes pobres e conspirações em tabernas, que só um milagre poderia explicar como ele encontrou tempo para o teatro. Por outro lado, descobrimos que os fatos são mais empolgantes e sugestivos do que tudo o que já se fantasiou.

A crônica histórica, social e política da Inglaterra dos séculos XVI e XVII - incluindo o movimento das companhias teatrais, o poder dos mecenas e as características dos teatros e do público da época - também constitui um dos grandes méritos deste livro. Tal como apresentada por Honan, ela não apenas ilumina a vida de Shakespeare, como amplia efetivamente a compreensão de seus escritos: entendemos melhor por que eles nos fascinam".

Nunca trabalhei com a literatura de Shakespeare. Já participei de grupos de leitura, onde examinamos uma de suas peças históricas, Ricardo III. Também estudei um pouco mais de perto Ricardo II. Li biografias, mas nada comparado ao livro de Park Honan. Sempre tive muitas curiosidade com relação ao dramaturgo. O que sempre mais me intrigou foi a questão de como se formou este gênio, qual a sua formação, quais foram as suas fontes e como ele acumulou tanto conhecimento. Desde a leitura de Romeu e Julieta soube que ele não tirava do nada as suas histórias, mas que ele as adaptava de histórias já existentes. Isso está plenamente confirmado na obra de Honan. Na obra também fica muito claro que ele teve uma boa formação escolar.

Essa formação escolar ele teve em sua própria cidade natal, Stratfort-Upon-Avon, onde, além da escola básica fundamental, ele frequentou a escola de latim, que deveria se constituir num profundo mergulho na cultura clássica, da literatura, na filosofia e na política de gregos e romanos. Isso lhe foi fundamental. Plutarco sempre foi uma de suas grandes fontes. Lembrando que - de Plutarco recebemos em torno de cinquenta biografias. Outro dado fundamental. Shakespeare encomendava estudos históricos junto a historiadores profissionais. Isso explica as suas peças sobre as monarquias, especialmente sobre a monarquia inglesa. Sempre foi também antenado ao seu tempo, o tempo do Renascimento. Hamlet, o seu personagem principal, fora estudante na Universidade alemã de Wittenberg.

Outro fator fundamental em sua obra foi o debate coletivo. Shakespeare, além de autor das peças, era também ator. E junto aos colegas atores discutia o teor das peças, formas de expressão que fossem em direção ao agrado do público. Agradar ao público sempre foi o grande motivo da escrita de suas peças. Tanto Shakespeare, quanto os atores, eram profissionais que viviam do teatro. Era praticamente a sua única forma de sobrevivência. O teatro era, seguramente, a maior forma de entretenimento da época. Havia vários teatros em Londres, bem como, companhias teatrais profissionais. Observem bem o tempo da maior produção do autor, a passagem do século XVI, para o XVII, dos anos 1590 em diante, até a sua morte em 1622. Anos em pleno Renascimento.

A biografia de Park Honan também é rica em detalhes da sua vida pessoal. Sua família, pais, irmãos, filhos, posses, relações, sexualidade, ida a Londres, convivência com os artistas, bebidas. Uma vida, é importante dizer, muito ativa. Muito conhecimento da vida humana, conhecida através de suas experiências. Tudo isso está presente em sua obra e se constitui no seu maior êxito, uma expressão viva dos mais diferentes, contrários e contraditórios sentimentos e afetos humanos. Por óbvio, Shakespeare, ao longo de sua vida, passou por inúmeros perrengues. 

Outro fator interessante a ser observado na obra, é a convivência constante com as pestes. Elas eram fatais e intermitentes. Para além do que elas representavam por si só, uma convivência com a morte, elas também fechavam os teatros. Isso obrigava as companhias a serem ambulantes, indo para o interior, para cidades pequenas, com menores índices de contaminação e expansão das doenças. A própria causa mortis do dramaturgo, suspeita-se, tenha sido uma febre tifoide.

Como biografia, o livro segue a linha cronológica de sua vida, intercalando-a com a sua produção artística. As peças principais merecem capítulos inteiros. Entre notas, bibliografia, introdução e descendentes de sua família, o livro está dividido em quatro fases, a saber: I. Um jovem em Stratford; II. Ator e poeta do teatro londrino; III. A maturidade do gênio; IV. A última fase. Ao todo são 18 capítulos, assim distribuídos: A parte I tem seis capítulos; a parte II, mais seis; a parte III, quatro e a parte final mais dois capítulos. Ao todo são 557 páginas.

Por seu alto poder de síntese e de importância, embora um tanto longo deixo alguns parágrafos da parte final do livro. Eles nos dão um panorama de seu tempo, de sua obra e de sua herança para os nossos tempos:

"Por que tivemos a sorte de que tantos trabalhos de Shakespeare chegassem até nós? A quantidade de obras escritas em sua época que se perderam é imensa. Dos 175 títulos de peças registrados por Henslowe do Rose, apenas 37 peças sobrevivem hoje. O número total de peças escritas entre 1560 e 1642 deve ser pelo menos seis vezes maior do que o número de peças que sobreviveram. As peças de Shakespeare chegaram até nós porque ele era imensamente popular e, também, porque era afortunado. Afinal, a população da Inglaterra crescera cerca de 3 milhões de habitantes na época em Shakespeare nasceu para cerca de 4,5 milhões cinquenta anos depois. Apesar dos muitos problemas que tiveram de enfrentar, os atores de sua trupe puderam contar, com o passar do tempo, com um público atento e cada vez mais numeroso. Além disso, embora sua plateia fosse constituída por gente de todas as classes e formações, nesse público estavam incluídas aquelas pessoas que Milton louva em Areopagitica: os londrinos que estão 'tentando tudo, atendendo à força da razão e do convencimento', como afirma o ensaísta, 'questionando, examinando, inventando, debatendo [...] coisas sobre as quais nunca ninguém debateu ou escreveu antes'.

Londres ajudou Shakespeare a criar as peças mais profundas e exigentes já oferecidas a uma cidade. Não há dúvida de que as pressões comerciais forçaram seu talento a vir à tona, enquanto ele trabalhava para atender às necessidades  dos atores. Mas sua receptividade e extraordinária sensibilidade deram-lhe uma compreensão única da experiência humana, de modo que todas as obras dele transcendem seu tempo. Suas peças são inesgotavelmente férteis em seu estímulo a novas ideias e interpretações - e o fato de terem o poder de transformar as vidas dos espectadores e leitores é prova não de um 'milagre', mas das qualidades únicas da arte e do intelecto do autor.  Esse poder intelectual pode ser sentido, por exemplo, nas estruturas fortes, sutis e complexas de seus trabalhos, na enorme diversidade de seus mais de mil personagens e até mesmo no caráter perturbador de suas percepções e de sua arte. Seu humor e senso de comédia são incomparáveis, mas, longe de reconfortar o público, Shakespeare retrata a natureza humana de formas que são ao mesmo tempo verossímeis e profundamente inquietantes. Sua curiosidade com respeito à natureza humana era de certa maneira impiedosa, muito embora nunca superasse sua solidariedade para com o quinhão humano.

 As maiores modificações que faz em suas fontes têm a ver com motivação e emoção; Shakespeare rejeita toscas simplificações do sentimento e da violência, embora se empenhe em fazer com que a sua própria representação da violência no palco alcance o máximo de efeito. Encorajado por seus colegas, ele lhes dava o que queriam e sempre mais, no sentido de que suas peças geram de forma brilhante a sua própria renovação e afetam as pessoas como nenhuma outra peça fizera antes. Shakespeare desafia as maiores habilidades de uma trupe, mas também é verdade que recompensa amplamente aqueles que atuam em suas peças. Uma de suas características típicas é complicar o texto alternando atmosfera, o tom e o ritmo de uma fala para a outra, e, na verdade, ele oferece a cada ator uma diversificada superfície interna para explorar.

Tudo isso atesta sua proximidade cotidiana com os atores e também, provavelmente, a necessidade que sentia de fazer parte de um grupo. Mas essa 'miríade de pontos de vista' advém de seu próprio esforço intelectual e espiritual, de seus questionamentos, esperanças e insatisfações. Na dialética de suas peças, ele busca o que é válido, digno ou possível na natureza humana e chega, enfim, a uma visão sombria. Henrique VIII, como Palamon e Arcite de Dois parentes nobres, representam a mediocridade, a banalidade de nossa falta de percepção, de nossa falta de fé e de nossa paixão cega e egoísta, como se o passado triste e decepcionante da humanidade fosse ceder espaço a um futuro ainda mais triste e trágico. E, no entanto, nas falas de Teseu no final de Dois parentes nobres, Shakespeare talvez implicitamente dê graças pela vida em si" (Páginas 487-489). Seguramente Park Honan escreveu uma biografia à altura do valor do seu biografado.

Deixo ainda o post que fiz sobre Hamlet, a sua obra maior:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html



quinta-feira, 9 de julho de 2026

COMO E POR QUE LER. Harold Bloom.

Que vontade de voltar a ser aluno! Mas com um detalhe. Ter a compreensão e a visão que tenho hoje. Mas, o que me leva a esse devaneio? A leitura e, mais do que a leitura, o debate em torno do lido. E eu prometeria, com toda a aplicação do mundo, ser o mais dedicado entre todos. Nunca deixaria de lado nenhuma tarefa, não deixaria de ler nenhuma das leituras sugeridas. É que terminei de ler, Como e por que ler, do professor Harold Bloom (1930 -2019), que simplesmente foi professor de Crítica Literária da Universidade de Yale. Mas por que este livro me causou tal sensação? Na contracapa, creio, existe a explicação:

Como e por que ler. Harold Bloom. Tradução:José Roberto O'Shea. Objetiva. 2001.

"Um clicar no mouse pode levar-nos, em segundos, a saber do que se passa em outro extremo do planeta. Museus do mundo todo podem chegar até nós nos monitores de nossos computadores. A cada dia recebemos a informação de forma mais veloz. Entretanto, o livro permanece com seu público cativo. Escritores, leitores, críticos, uma legião de apaixonados que não abre mão do bom e velho exercício de criar e ler histórias.

Harold Bloom, um dos mais importantes nomes da crítica literária contemporânea, convida-nos nesse livro a uma deliciosa viagem por grandes textos da literatura universal. Turgenev, Borges, Whitman, Shakespeare são alguns dos autores que o texto inspirado de Bloom ilumina, com suas sensíveis e inteligentes percepções". Essa viagem passa por muitos outros escritores de diferentes formas e gêneros literários, como o conto, a poesia, as peças teatrais e o romance.  Vou me limitar neste post, com o intuito de despertar a curiosidade, a fazer referência aos autores apresentados.

Nos contos teremos encontros com Turgenev, Tchekhov, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Flannery O'Connor, Vladimir Nobokov, Jorge Luis Borges, Tommaso Landolfi e Italo Calvino. Já na poesia veremos A. E. Housman, William Blake, Walter Savage Landor, Alfred Tennyson, Robert Browning, Walt Whitman, Emily Dickinson, Emily Brontë, William Shakespeare, John Milton, William Wordsworth, Samuel Coleridge, Shelley e Keats. Devo confessar duas coisas: O mundo da poesia me é bem estranho enquanto que manifesto muito apreço pelos romances, aos quais o autor dedica dois capítulos. Vejamos os do primeiro:

De Miguel de Cervantes, o Dom Quixote, de Stendhal - A cartuxa de Parma, de Jane Austen - Emma, de Charles Dickens - Grandes esperanças, de Fiodor Dostoiévski - Crime e castigo, de Henry James - Retrato de uma senhora, de Marcel Proust - Em busca do tempo perdido e de Thomas Mann - A montanha mágica. Por óbvio, a preponderância recai sobre Dom Quixote, os diálogos entre o Dom e o Sancho. E o que há de tão importante nesses diálogos? Bloom nos conta: "Se abrirmos, aleatoriamente, o livro, é provável que nos deparemos com uma dessas conversas - zangadas, sonhadoras, em última análise, sempre afáveis, fundadas em respeito mútuo. Mesmo quando discutem com veemência, jamais faltam com a cortesia, e sempre aprendem, a partir daquilo que o outro tem a dizer. E ouvindo, ambos se modificam" (Página 140).

Três são as peças teatrais analisadas: Hamlet de William Shakespeare, Helda Gabler de Ibsen e A  importância de ser prudente, de Oscar Wilde. Bloom dá um destaque todo especial à importância de Hamlet. Depois desse interlúdio para a dramaturgia, Bloom retorna ao romance, mais precisamente para o romance nos Estados Unidos:

De Herman Melville examina Moby Dick; de William Faulkner, Enquanto agonizo; de Nathanael West, Miss corações solitários; de Thomas Pinchon, O leilão do lote 49; de Cormac McCarthy, Meridiano de sangue; de Ralph Ellison, O homem invisível e de Toni Morrison, A canção de Solomon. Sublinhei um trecho da análise de Meridiano de sangue: "Cujo frêmito incessante de violência descreve com tanta acuidade nosso passado, representa tão bem nosso presente obcecado por armas, e, sem dúvida, pressagia nosso futuro sangrento. Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer" (Página 266).

Sublinhei ainda, para responder a questão do título, o parágrafo final, antes do epílogo: "Não cabe à leitura nos alegrar, nem, antecipadamente, nos consolar. Mas quero concluir afirmando que todas essas visões norte-americanas do Final dos Tempos nos oferecem mais, muito mais do que uma negatividade purificadora. Se o leitor reler o que vale a pena ser relido, haverá de guardar na memória aquilo que lhe fortaleceu o espírito. Quando me lembro de Moby Dick, penso, antes de mais nada, no amor fraternal entre Ismael e Queequeg, e, em seguida, comovo-me diante de Ahab, o Prometeu americano. Em última análise, o efeito causado pelos seis romances melvillianos aqui discutidos não é niilista, mas ambíguo, e essa ambiguidade reserva extraordinária gratificação à pessoa do leitor. Ahab, Addie Bundren, Shrike, os anônimos agentes de Tristero, o malévolo juiz Holden, Ras, o Exortador/Destruidor, Rinehart, o Traficante/Reverendo e Guitar constituem um grande pesadelo, mas não obstruem, para o leitor, as buscas (por mais frustrantes que sejam) de Ismael, Darl Bundren, Miss Corações Solitários, Édipa Maas, Kid, o Homem Invisível e Milkam Dead. Entre estes últimos há sobreviventes: Ismael, Édipa, e o Homem Invisível. Por que Ler? Para ser assombrado por grandes visões: de Ismael, o sobrevivente que escapa para poder nos contar a história; de Édipa Maas, embalando nos braços o velho indigente; do Homem Invisível, preparando-se para emergir, como Jonas, do interior da baleia. Todos eles, nas frequências mais altas, falam ao leitor, e pelo leitor" (Página 267).

Pela importância que o autor conferiu a Hamlet, deixo  a resenha, inclusive com um adendo desse livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÉTICA da libertação. Introdução: História mundial das eticidades. Enrique Dussel.

Em minhas rodas de conversa o tema das raízes de nossa cultura sempre estão vivamente presentes. Quais teriam  sido os mitos fundadores dessa cultura, que costumamos chamar de ocidental, capitalista e cristã. Que ela é eurocêntrica e, mais particularmente, helenocêntrica. Estamos até tentando formar um grupo, para uma imersão no tema. Por óbvio, essa questão passa pela religião e pela moral. Moral ou ética? As religiões sempre procuraram assumir a paternidade das doutrinas morais. A moral sempre enseja  em si, todo um complexo de paixões, interpretações e, porque não dizer, hipocrisias. Já a ética, é um acerto de contas, contigo mesmo. Creio não existir um tema mais atual do que esse, que possa ser merecedor de estudos em tempos tão conturbados como os que estamos vivendo.

Ética da libertação - na idade da globalização e da exclusão. Enrique Dussel. Vozes. 2002.

Pois bem. Revendo em minha biblioteca alguns títulos, separei o livro Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, do filósofo argentino, Enrique Dussel (1934-2023). Tenho este livro em meu poder desde 2002, mas ele foi apenas folheado e não lido. Agora eu vejo que ele vai para muito além de ser lido. É um livro para ser estudado. É um livro que preenche todos os requisitos para ser uma das fontes para o grupo de estudos a que nos referimos no parágrafo acima: as origens do nosso modo de pensar, ou seja, as origens e os fundamentos da cultura ocidental. 

Estou impressionado com o livro. E desde já, tenho a certeza de que será impossível fazer uma resenha. Talvez sim - um texto centrado em provocações para a sua leitura. E olha..., eu terminei apenas a leitura da primeira seção da introdução e já quero deixar registradas as minha primeiras anotações de leitura. E digo bem, anotações de leitura. Não pretendo fazer comentários, apenas situar algumas citações para fundamentar diferentes concepções bem como o seu enfoque fundamental. Então vamos lá. Elas estão na introdução: História mundial das eticidades. Seção 1. As altas culturas e o sistema inter-regional. Além do helenocentrismo (Das páginas 25 a 50). Essa seção aborda quatro tópicos, a saber: 01. A origem do sistema inter-regional: O Egito africano-bantu e os semitas do oriente médio. 02. Culturas sem relação direta com o sistema. O mundo meso-americano e inca. 03. O mundo "indo-europeu": Do império chinês ao romano. 04. O mundo bizantino, a hegemonia muçulmana e o Oriente. A Idade Média europeia periférica. 

Os tópicos 1 e 2, privilegiam as necessidades de um ser indiviso, privilegiando as necessidades corporais, as do viver e do manter-se vivo e saudável. Já os itens 3 e 4 nos apresentam o ser dividido entre corpo e alma, com toda a centralidade focada na salvação da alma e com o menosprezo ao corpo.

Do primeiro tópico, tomamos uma citação do Livro dos Mortos, uma coletânea reunida em torno de 1500 anos antes de Cristo. Um ser, o Ka (o princípio individual da pessoa) assim se apresenta diante do Juízo Final e exclama: "Não cometi iniquidade contra os homens... Não empobreci um pobre em seus bens... Não fiz padecer fome... Não acrescentei peso à medida da balança... Não roubei com violência... Não roubei pão... Satisfiz a Deus cumprindo o que ele desejava. Dei pão ao faminto, água ao sedento, vesti o que estava nu e uma barca ao náufrago... Fazei-o vir, dizem os deuses falando de mim. Quem és tu? me dizem. Qual é o teu nome? me perguntam".

O autor assim comenta essa passagem: "A existência humana concreta, individual, com nome próprio vivida responsável e historicamente à luz do Juízo de Osíris, constitui a 'carnalidade' real (a sua materialidade) da vida do sujeito humano como referência ética suprema: dar de comer, de beber, de vestir, hospedagem... à carne faminta, sedenta, nua, exposta às intempéries" (Página 27).

Do segundo tópico tomamos um texto com o qual os astecas promoviam a sua arte de educar: Mesmo que fosse pobre ou miserável //  mesmo que sua mãe e seu pai fossem os pobres dos pobres // não se via a sua linhagem, // só se atendia ao seu gênero de vida, // à pureza de seu coração, // a seu coração bom e humano, firme, // dizia-se que tinha o divino em seu coração, // que era sábio nas coisas divinas. 

Vejamos o comentário do autor: "A partir dos costumes (Huehuetlamanitiliztli - a antiga regra da vida) que juridicamente alcançaram um alto grau de precisão, com códigos de leis e tribunais de justiça, sempre entre os astecas - os tlamantinime racionalizaram uma doutrina unitária sobre o sentido da práxis humana individual e comunitária" (Página 32).

Do terceiro tópico tomamos duas passagens de Plotino, um dos adaptadores da filosofia de Platão ao cristianismo:

Se as almas (individuais) tivessem permanecido no Inteligível com a Alma do mundo, teriam evitado o sofrimento... Permanecendo durante longo tempo no afastamento e na separação do Todo, sem dirigir seu olhar para o Inteligível, tornaram-se um fragmento, isoladas, debilitadas, multiplicaram-se em ação.

Vejamos o comentário do autor:

"Toda a ética consiste agora num 'retorno' ascendente para o Um, quer dizer, 'a necessidade que a alma sente de fugir de seu trato com o corpo... que consiste em se libertar das gerações a fim de se  encaminhar para a Substância (divina Ousian)'. Este ato de retorno é a dialektike da ascensão para a Ideia de Bem em Platão, a bios theoretikós do exercício do noús em Aristóteles, a apatheia dos estoicos, a ataraxia de Epicuro, a gnose dos gnósticos, o 'conhecimento' do monge maniqueu, o êxtase final do monge budista pelo qual se liberta do samsara (eterno retorno da ensomatose ou reincorporação da alma) no estado de nirvana, e a via contemplativa como perfeição humana na Idade Média Latina.

E, uma segunda frase de Plotino: A purificação consiste - escreve ainda Plotino - em isolar a alma, não a deixando se unir às coisas, não as olhar mais; não ter mais opiniões estranhas à sua natureza [divina]. Quanto  à separação [o êxtase] , é o estado da alma que não se encontra mais no corpo, como a luz que não se encontra mais nas trevas.

Assim o autor comenta essa passagem: 

"É assim que desde a Grécia e Roma, até os persas, os reinos da Índia e da China taoísta, uma ontologia  do absoluto como o Um, uma antropologia dualista da superioridade da alma sobre o corpo (de alguma maneira, sempre causa do mal), instaura uma ética ascética de 'libertação' da pluralidade material como 'retorno' à Unidade original - movimento da ontologia neoplatônica e, posteriormente, do idealismo alemão, especialmente da Lógica de Hegel. É a lógica ética da Totalidade" (Páginas 35-36).

Do quarto tópico, por ser mais complexo e já, com muitas interconexões e de um período de tempo de longa duração, deixo uma transcrição de caracterização mais geral do período, um período marcado por crises, mas com a "ontologia indo-europeia e a eticidade dualista" já estabelecidas. 

Assim o autor comenta esse quarto tópico: "A visão de mundo do primeiro estágio do sistema inter-regional, o egípcio mesopotâmico-semita, voltará a se fazer presente, embora realizando, por seu lado, um desenvolvimento universalizador expansivo (tanto pelo fenômeno do cristianismo como pelo islamismo) e, talvez, como vimos acima, pela insuportável situação dos oprimidos dos impérios. A ética crítica de um pequeno povo dominado e escravo nas mãos do poder dos que dominavam a técnica da guerra e da agricultura, como o cavalo e o ferro (os filisteus e seu simbólico guerreiro "Golias nos tempos de Amarna) é reformulada numa região periférica do Império Romano, oportuna para explorados e excluídos...".

Não vou fazer outro post a partir desse livro. Creio que com essas quatro visões do mundo dá para deduzir e explicar muito do que se dá com as religiões e a sua pretensão de serem as donas das doutrinas morais. Salvar a alma, sem antes criar as condições de uma vida decente não faz o menor sentido. Esses dia vi um comentário interessante sobre os sete pecados capitais, a saber: Soberba (orgulho), avareza (ganância), inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Faltaria um oitavo, que seria o que efetivamente se chama de pecado capital, o pecado do capital, embora ele esteja implícito no pecado da avareza, ou da ganância. Semana passada tivemos a notícia de que um único ser humano alcançou, como propriedade sua, uma riqueza calculada em um trilhão de dólares, o que equivale quase a metade do PIB brasileiro. É óbvio que isso tem consequências. Libertação, emancipação...

Ainda quero fazer uma recomendação especial. No capítulo quinto do livro - A validade anti-hegemônica da comunidade das vítimas, temos no sub item 5.2. Processo ético-crítico em Paulo Freire, uma das melhores interpretações que eu já vi do principal livro que fundamenta o seu pensamento Pedagogia do oprimido. São 16 páginas (Da 427 a 443) de extrema valia. Vale demais uma conferida.