quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÉTICA da libertação. Introdução: História mundial das eticidades. Enrique Dussel.

Em minhas rodas de conversa o tema das raízes de nossa cultura sempre estão vivamente presentes. Quais teriam  sido os mitos fundadores dessa cultura, que costumamos chamar de ocidental, capitalista e cristã. Que ela é eurocêntrica e, mais particularmente, helenocêntrica. Estamos até tentando formar um grupo, para uma imersão no tema. Por óbvio, essa questão passa pela religião e pela moral. Moral ou ética? As religiões sempre procuraram assumir a paternidade das doutrinas morais. A moral sempre enseja  em si, todo um complexo de paixões, interpretações e, porque não dizer, hipocrisias. Já a ética, é um acerto de contas, contigo mesmo. Creio não existir um tema mais atual do que esse, que possa ser merecedor de estudos em tempos tão conturbados como os que estamos vivendo.

Ética da libertação - na idade da globalização e da exclusão. Enrique Dussel. Vozes. 2002.

Pois bem. Revendo em minha biblioteca alguns títulos, separei o livro Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, do filósofo argentino, Enrique Dussel (1934-2023). Tenho este livro em meu poder desde 2002, mas ele foi apenas folheado e não lido. Agora eu vejo que ele vai para muito além de ser lido. É um livro para ser estudado. É um livro que preenche todos os requisitos para ser uma das fontes para o grupo de estudos a que nos referimos no parágrafo acima: as origens do nosso modo de pensar, ou seja, as origens e os fundamentos da cultura ocidental. 

Estou impressionado com o livro. E desde já, tenho a certeza de que será impossível fazer uma resenha. Talvez sim - um texto centrado em provocações para a sua leitura. E olha..., eu terminei apenas a leitura da primeira seção da introdução e já quero deixar registradas as minha primeiras anotações de leitura. E digo bem, anotações de leitura. Não pretendo fazer comentários, apenas situar algumas citações para fundamentar diferentes concepções bem como o seu enfoque fundamental. Então vamos lá. Elas estão na introdução: História mundial das eticidades. Seção 1. As altas culturas e o sistema inter-regional. Além do helenocentrismo (Das páginas 25 a 50). Essa seção aborda quatro tópicos, a saber: 01. A origem do sistema inter-regional: O Egito africano-bantu e os semitas do oriente médio. 02. Culturas sem relação direta com o sistema. O mundo meso-americano e inca. 03. O mundo "indo-europeu": Do império chinês ao romano. 04. O mundo bizantino, a hegemonia muçulmana e o Oriente. A Idade Média europeia periférica. 

Os tópicos 1 e 2, privilegiam as necessidades de um ser indiviso, privilegiando as necessidades corporais, as do viver e do manter-se vivo e saudável. Já os itens 3 e 4 nos apresentam o ser dividido entre corpo e alma, com toda a centralidade focada na salvação da alma e com o menosprezo ao corpo.

Do primeiro tópico, tomamos uma citação do Livro dos Mortos, uma coletânea reunida em torno de 1500 anos antes de Cristo. Um ser, o Ka (o princípio individual da pessoa) assim se apresenta diante do Juízo Final e exclama: "Não cometi iniquidade contra os homens... Não empobreci um pobre em seus bens... Não fiz padecer fome... Não acrescentei peso à medida da balança... Não roubei com violência... Não roubei pão... Satisfiz a Deus cumprindo o que ele desejava. Dei pão ao faminto, água ao sedento, vesti o que estava nu e uma barca ao náufrago... Fazei-o vir, dizem os deuses falando de mim. Quem és tu? me dizem. Qual é o teu nome? me perguntam".

O autor assim comenta essa passagem: "A existência humana concreta, individual, com nome próprio vivida responsável e historicamente à luz do Juízo de Osíris, constitui a 'carnalidade' real (a sua materialidade) da vida do sujeito humano como referência ética suprema: dar de comer, de beber, de vestir, hospedagem... à carne faminta, sedenta, nua, exposta às intempéries" (Página 27).

Do segundo tópico tomamos um texto com o qual os astecas promoviam a sua arte de educar: Mesmo que fosse pobre ou miserável //  mesmo que sua mãe e seu pai fossem os pobres dos pobres // não se via a sua linhagem, // só se atendia ao seu gênero de vida, // à pureza de seu coração, // a seu coração bom e humano, firme, // dizia-se que tinha o divino em seu coração, // que era sábio nas coisas divinas. 

Vejamos o comentário do autor: "A partir dos costumes (Huehuetlamanitiliztli - a antiga regra da vida) que juridicamente alcançaram um alto grau de precisão, com códigos de leis e tribunais de justiça, sempre entre os astecas - os tlamantinime racionalizaram uma doutrina unitária sobre o sentido da práxis humana individual e comunitária" (Página 32).

Do terceiro tópico tomamos duas passagens de Plotino, um dos adaptadores da filosofia de Platão ao cristianismo:

Se as almas (individuais) tivessem permanecido no Inteligível com a Alma do mundo, teriam evitado o sofrimento... Permanecendo durante longo tempo no afastamento e na separação do Todo, sem dirigir seu olhar para o Inteligível, tornaram-se um fragmento, isoladas, debilitadas, multiplicaram-se em ação.

Vejamos o comentário do autor:

"Toda a ética consiste agora num 'retorno' ascendente para o Um, quer dizer, 'a necessidade que a alma sente de fugir de seu trato com o corpo... que consiste em se libertar das gerações a fim de se  encaminhar para a Substância (divina Ousian)'. Este ato de retorno é a dialektike da ascensão para a Ideia de Bem em Platão, a bios theoretikós do exercício do noús em Aristóteles, a apatheia dos estoicos, a ataraxia de Epicuro, a gnose dos gnósticos, o 'conhecimento' do monge maniqueu, o êxtase final do monge budista pelo qual se liberta do samsara (eterno retorno da ensomatose ou reincorporação da alma) no estado de nirvana, e a via contemplativa como perfeição humana na Idade Média Latina.

E, uma segunda frase de Plotino: A purificação consiste - escreve ainda Plotino - em isolar a alma, não a deixando se unir às coisas, não as olhar mais; não ter mais opiniões estranhas à sua natureza [divina]. Quanto  à separação [o êxtase] , é o estado da alma que não se encontra mais no corpo, como a luz que não se encontra mais nas trevas.

Assim o autor comenta essa passagem: 

"É assim que desde a Grécia e Roma, até os persas, os reinos da Índia e da China taoísta, uma ontologia  do absoluto como o Um, uma antropologia dualista da superioridade da alma sobre o corpo (de alguma maneira, sempre causa do mal), instaura uma ética ascética de 'libertação' da pluralidade material como 'retorno' à Unidade original - movimento da ontologia neoplatônica e, posteriormente, do idealismo alemão, especialmente da Lógica de Hegel. É a lógica ética da Totalidade" (Páginas 35-36).

Do quarto tópico, por ser mais complexo e já, com muitas interconexões e de um período de tempo de longa duração, deixo uma transcrição de caracterização mais geral do período, um período marcado por crises, mas com a "ontologia indo-europeia e a eticidade dualista" já estabelecidas. 

Assim o autor comenta esse quarto tópico: "A visão de mundo do primeiro estágio do sistema inter-regional, o egípcio mesopotâmico-semita, voltará a se fazer presente, embora realizando, por seu lado, um desenvolvimento universalizador expansivo (tanto pelo fenômeno do cristianismo como pelo islamismo) e, talvez, como vimos acima, pela insuportável situação dos oprimidos dos impérios. A ética crítica de um pequeno povo dominado e escravo nas mãos do poder dos que dominavam a técnica da guerra e da agricultura, como o cavalo e o ferro (os filisteus e seu simbólico guerreiro "Golias nos tempos de Amarna) é reformulada numa região periférica do Império Romano, oportuna para explorados e excluídos...".

Não vou fazer outro post a partir desse livro. Creio que com essas quatro visões do mundo dá para deduzir e explicar muito do que se dá com as religiões e a sua pretensão de serem as donas das doutrinas morais. Salvar a alma, sem antes criar as condições de uma vida decente não faz o menor sentido. Esses dia vi um comentário interessante sobre os sete pecados capitais, a saber: Soberba (orgulho), avareza (ganância), inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Faltaria um oitavo, que seria o que efetivamente se chama de pecado capital, o pecado do capital, embora ele esteja implícito no pecado da avareza, ou da ganância. Semana passada tivemos a notícia de que um único ser humano alcançou, como propriedade sua, uma riqueza calculada em um trilhão de dólares, o que equivale quase a metade do PIB brasileiro. É óbvio que isso tem consequências. Libertação, emancipação...

Ainda quero fazer uma recomendação especial. No capítulo quinto do livro - A validade anti-hegemônica da comunidade das vítimas, temos no sub item 5.2. Processo ético-crítico em Paulo Freire, uma das melhores interpretações que eu já vi do principal livro que fundamenta o seu pensamento Pedagogia do oprimido. São 16 páginas (Da 427 a 443) de extrema valia. Vale demais uma conferida.