Várias leituras me levaram a retomar um contato com Shakespeare. Sempre me intrigou o fato de que dois dos maiores gênios das letras fossem praticamente contemporâneos, embora vivessem em países em guerra. Acredita-se até que eles tenham morrido no mesmo dia, qual seja, o de 22 ou 23 de abril de 1616. Vejamos as datas, de acordo com uma rápida pesquisa Google. Shakespeare: abril - 1564 - 22 de abril de 1616. Cervantes: setembro - 1547 - 22 de abril de 1616. Formas diferentes de escrever, mas, ambos se ocupam, com toda a profundidade, do tema do humano.
Shakespeare - uma vida. Park Honan. Companhia das Letras. 2001. Tradução: Sonia Moreira.Em 2016 me detive mais de perto com o Dom Quixote. Agora, para me deter em Shakespeare, tomei a biografia escrita pelo biógrafo norte americano, Park Honan. A primeira frase que lemos na contracapa do livro não é nada modesta: A mais completa e precisa biografia de Shakespeare já publicada. E, já que começamos com a contracapa, vamos continuar a ver a apresentação da obra:
"Em 1709, um texto de quarenta páginas esboçava o perfil de um poeta, ator e dramaturgo que, um século antes, entusiasmara o público inglês. Foi essa a primeira biografia que se fez de William Shakespeare. De lá para cá, escreveram-se milhares de páginas para compreender esse homem genial, autor de uma obra que a cada geração suscita novas perguntas e novas interpretações. 'Ser ou não ser: eis a questão': bastaria reunir as versões, citações e comentários dessa frase dita por Hamlet, o personagem shakespeareano mais célebre, e já se teria uma respeitável biblioteca.
Park Honan reúne virtualmente tudo o que se conseguiu saber até hoje sobre William Shakespeare. Surpreendendo mesmo os estudiosos, recorre a materiais inéditos e apresenta inúmeras informações novas e relevantes, estabelecendo com precisão o que é fato e o que é mito ou equívoco. As lendas imaginam o dramaturgo envolvido com tantas damas sombrias, rapazes pobres e conspirações em tabernas, que só um milagre poderia explicar como ele encontrou tempo para o teatro. Por outro lado, descobrimos que os fatos são mais empolgantes e sugestivos do que tudo o que já se fantasiou.
A crônica histórica, social e política da Inglaterra dos séculos XVI e XVII - incluindo o movimento das companhias teatrais, o poder dos mecenas e as características dos teatros e do público da época - também constitui um dos grandes méritos deste livro. Tal como apresentada por Honan, ela não apenas ilumina a vida de Shakespeare, como amplia efetivamente a compreensão de seus escritos: entendemos melhor por que eles nos fascinam".
Nunca trabalhei com a literatura de Shakespeare. Já participei de grupos de leitura, onde examinamos uma de suas peças históricas, Ricardo III. Também estudei um pouco mais de perto Ricardo II. Li biografias, mas nada comparado ao livro de Park Honan. Sempre tive muitas curiosidade com relação ao dramaturgo. O que sempre mais me intrigou foi a questão de como se formou este gênio, qual a sua formação, quais foram as suas fontes e como ele acumulou tanto conhecimento. Desde a leitura de Romeu e Julieta soube que ele não tirava do nada as suas histórias, mas que ele as adaptava de histórias já existentes. Isso está plenamente confirmado na obra de Honan. Na obra também fica muito claro que ele teve uma boa formação escolar.
Essa formação escolar ele teve em sua própria cidade natal, Stratfort-Upon-Avon, onde, além da escola básica fundamental, ele frequentou a escola de latim, que deveria se constituir num profundo mergulho na cultura clássica, da literatura, na filosofia e na política de gregos e romanos. Isso lhe foi fundamental. Plutarco sempre foi uma de suas grandes fontes. Lembrando que - de Plutarco recebemos em torno de cinquenta biografias. Outro dado fundamental. Shakespeare encomendava estudos históricos junto a historiadores profissionais. Isso explica as suas peças sobre as monarquias, especialmente sobre a monarquia inglesa. Sempre foi também antenado ao seu tempo, o tempo do Renascimento. Hamlet, o seu personagem principal, fora estudante na Universidade alemã de Wittenberg.
Outro fator fundamental em sua obra foi o debate coletivo. Shakespeare, além de autor das peças, era também ator. E junto aos colegas atores discutia o teor das peças, formas de expressão que fossem em direção ao agrado do público. Agradar ao público sempre foi o grande motivo da escrita de suas peças. Tanto Shakespeare, quanto os atores, eram profissionais que viviam do teatro. Era praticamente a sua única forma de sobrevivência. O teatro era, seguramente, a maior forma de entretenimento da época. Havia vários teatros em Londres, bem como, companhias teatrais profissionais. Observem bem o tempo da maior produção do autor, a passagem do século XVI, para o XVII, dos anos 1590 em diante, até a sua morte em 1622. Anos em pleno Renascimento.
A biografia de Park Honan também é rica em detalhes da sua vida pessoal. Sua família, pais, irmãos, filhos, posses, relações, sexualidade, ida a Londres, convivência com os artistas, bebidas. Uma vida, é importante dizer, muito ativa. Muito conhecimento da vida humana, conhecida através de suas experiências. Tudo isso está presente em sua obra e se constitui no seu maior êxito, uma expressão viva dos mais diferentes, contrários e contraditórios sentimentos e afetos humanos. Por óbvio, Shakespeare, ao longo de sua vida, passou por inúmeros perrengues.
Outro fator interessante a ser observado na obra, é a convivência constante com as pestes. Elas eram fatais e intermitentes. Para além do que elas representavam por si só, uma convivência com a morte, elas também fechavam os teatros. Isso obrigava as companhias a serem ambulantes, indo para o interior, para cidades pequenas, com menores índices de contaminação e expansão das doenças. A própria causa mortis do dramaturgo, suspeita-se, tenha sido uma febre tifoide.
Como biografia, o livro segue a linha cronológica de sua vida, intercalando-a com a sua produção artística. As peças principais merecem capítulos inteiros. Entre notas, bibliografia, introdução e descendentes de sua família, o livro está dividido em quatro fases, a saber: I. Um jovem em Stratford; II. Ator e poeta do teatro londrino; III. A maturidade do gênio; IV. A última fase. Ao todo são 18 capítulos, assim distribuídos: A parte I tem seis capítulos; a parte II, mais seis; a parte III, quatro e a parte final mais dois capítulos. Ao todo são 557 páginas.
Por seu alto poder de síntese e de importância, embora um tanto longo deixo alguns parágrafos da parte final do livro. Eles nos dão um panorama de seu tempo, de sua obra e de sua herança para os nossos tempos:
"Por que tivemos a sorte de que tantos trabalhos de Shakespeare chegassem até nós? A quantidade de obras escritas em sua época que se perderam é imensa. Dos 175 títulos de peças registrados por Henslowe do Rose, apenas 37 peças sobrevivem hoje. O número total de peças escritas entre 1560 e 1642 deve ser pelo menos seis vezes maior do que o número de peças que sobreviveram. As peças de Shakespeare chegaram até nós porque ele era imensamente popular e, também, porque era afortunado. Afinal, a população da Inglaterra crescera cerca de 3 milhões de habitantes na época em Shakespeare nasceu para cerca de 4,5 milhões cinquenta anos depois. Apesar dos muitos problemas que tiveram de enfrentar, os atores de sua trupe puderam contar, com o passar do tempo, com um público atento e cada vez mais numeroso. Além disso, embora sua plateia fosse constituída por gente de todas as classes e formações, nesse público estavam incluídas aquelas pessoas que Milton louva em Areopagitica: os londrinos que estão 'tentando tudo, atendendo à força da razão e do convencimento', como afirma o ensaísta, 'questionando, examinando, inventando, debatendo [...] coisas sobre as quais nunca ninguém debateu ou escreveu antes'.
Londres ajudou Shakespeare a criar as peças mais profundas e exigentes já oferecidas a uma cidade. Não há dúvida de que as pressões comerciais forçaram seu talento a vir à tona, enquanto ele trabalhava para atender às necessidades dos atores. Mas sua receptividade e extraordinária sensibilidade deram-lhe uma compreensão única da experiência humana, de modo que todas as obras dele transcendem seu tempo. Suas peças são inesgotavelmente férteis em seu estímulo a novas ideias e interpretações - e o fato de terem o poder de transformar as vidas dos espectadores e leitores é prova não de um 'milagre', mas das qualidades únicas da arte e do intelecto do autor. Esse poder intelectual pode ser sentido, por exemplo, nas estruturas fortes, sutis e complexas de seus trabalhos, na enorme diversidade de seus mais de mil personagens e até mesmo no caráter perturbador de suas percepções e de sua arte. Seu humor e senso de comédia são incomparáveis, mas, longe de reconfortar o público, Shakespeare retrata a natureza humana de formas que são ao mesmo tempo verossímeis e profundamente inquietantes. Sua curiosidade com respeito à natureza humana era de certa maneira impiedosa, muito embora nunca superasse sua solidariedade para com o quinhão humano.
As maiores modificações que faz em suas fontes têm a ver com motivação e emoção; Shakespeare rejeita toscas simplificações do sentimento e da violência, embora se empenhe em fazer com que a sua própria representação da violência no palco alcance o máximo de efeito. Encorajado por seus colegas, ele lhes dava o que queriam e sempre mais, no sentido de que suas peças geram de forma brilhante a sua própria renovação e afetam as pessoas como nenhuma outra peça fizera antes. Shakespeare desafia as maiores habilidades de uma trupe, mas também é verdade que recompensa amplamente aqueles que atuam em suas peças. Uma de suas características típicas é complicar o texto alternando atmosfera, o tom e o ritmo de uma fala para a outra, e, na verdade, ele oferece a cada ator uma diversificada superfície interna para explorar.
Tudo isso atesta sua proximidade cotidiana com os atores e também, provavelmente, a necessidade que sentia de fazer parte de um grupo. Mas essa 'miríade de pontos de vista' advém de seu próprio esforço intelectual e espiritual, de seus questionamentos, esperanças e insatisfações. Na dialética de suas peças, ele busca o que é válido, digno ou possível na natureza humana e chega, enfim, a uma visão sombria. Henrique VIII, como Palamon e Arcite de Dois parentes nobres, representam a mediocridade, a banalidade de nossa falta de percepção, de nossa falta de fé e de nossa paixão cega e egoísta, como se o passado triste e decepcionante da humanidade fosse ceder espaço a um futuro ainda mais triste e trágico. E, no entanto, nas falas de Teseu no final de Dois parentes nobres, Shakespeare talvez implicitamente dê graças pela vida em si" (Páginas 487-489). Seguramente Park Honan escreveu uma biografia à altura do valor do seu biografado.
Deixo ainda o post que fiz sobre Hamlet, a sua obra maior:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html

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