sexta-feira, 24 de abril de 2026

1964. A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss.

Na esteira da leitura de Castello - a marcha para a ditadura, de Lira Neto, lembrei de outro livro, que trago comigo desde o ano de 1981, o ano de sua publicação. O li, mas com os meus limites desse tempo. Considerei que agora seria um bom momento para a sua releitura. Trata-se de 1964 - A conquista do Estado - ação política, poder e golpe de classe, do cientista político uruguaio René Armand Dreifuss. O foco do livro está, portanto, do final dos anos 1950 e dos primeiros da década de 1960. Antes de entrar na análise, algumas questões da conjuntura política deste período.
1964: A conquista do Estado - Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss. Vozes. 1981.

Retrocedendo um pouco, ao primeiro governo Vargas (1930-1945) quero destacar dois fatos muito significativos. O primeiro refere-se ao modelo econômico dos governos Vargas, incluindo agora, também o segundo (1950-1954), obedecia a um modelo nacional desenvolvimentista, com ênfase na industrialização, pela substituição de importações. Havia nele uma forte participação do Estado, tanto como órgão de planejamento, quanto de implementação. Uma necessidade do capitalismo tardio. O segundo fato diz respeito a participação do exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial, com a expedição da FEB para a Itália, no combate às forças do Eixo, sob o comando do exército dos Estados Unidos. Daí nasce uma sólida amizade entre os comandantes dos dois exércitos, amizade que perdurará, posteriormente, nos tempos da Bipolaridade e da Guerra Fria. Disso resulta uma injunção do exército dos Estados Unidos sobre o exército brasileiro, sob a Doutrina da Segurança Nacional. Força ideológica muito mais forte do que mera amizade. Dela resultará a criação da ESG (Escola Superior de Guerra em 20 de agosto de 1949).

Vamos agora nos aproximar do tempo do livro. Getúlio, após o seu suicídio, tem um conturbado processo de sucessão, reflexo dos interesses conflitantes em disputa. O mineiro JK sai vitorioso nesse processo eleitoral, mas só tomará posse, após dois golpes de Estado, comandados pelo Marechal Lott, golpes preventivos para assegurar a legalidade e garantir a posse do presidente eleito.

JK quer a continuidade do desenvolvimentismo, aliás, quer acelerá-lo. Promete cinquenta anos em cinco. Para isso seria necessário um novo modelo econômico. O nacional desenvolvimentismo já não bastava. Ele precisaria ser aprofundado. Deveria vir capital estrangeiro e o modelo passaria a ser chamado de desenvolvimentismo dependente. Novos atores econômicos necessariamente adquiririam protagonismo. Os empresários das empresas multinacionais, consorciados ou associados aos nacionais. Especialmente os das multinacionais dos Estados Unidos. O desenvolvimentismo de JK ganharia novos contornos de ideologia política e a necessária busca de afirmação junto aos poderes do Estado. Estas empresas querem lucro, lucro máximo. Alguém teria que pagar por isso. Empresários e trabalhadores sabem disso e passam a se organizar. Interesses populares de JK não o tornam inteiramente confiável e ele sofre duas tentativas de golpe - Jacareacanga e Aragarças. JK tenta se equilibrar no poder. Sua sucessão complicará o jogo. Dele sairá vitorioso, como presidente, Jânio Quadros e, como vice, João Goulart. Estavam em campos opostos. Jânio, inesperadamente, renuncia. Jango não deveria assumir, diziam seus inimigos, mas as suas forças o sustentam. Primeiramente sob o regime parlamentarista e, depois, sob o presidencialismo. O conflito está perfeitamente desenhado. O cenário da luta de classes se evidencia.

Jango faz o seu Plano Trienal de governo, acenando para as reformas de base, reformas todas elas voltadas para a classe trabalhadora, de melhorias em suas condições de vida, no campo e na cidade: Reforma tributária, agrária, educacional, eleitoral. Do outro lado, ao longo do governo JK e mais acentuadamente, agora no de Jango, as forças do poder multinacional e associado já contavam com maior organização. Dreifuss chama a estas forças de elites orgânicas. Elas querem a chamada modernização conservadora, com a continuidade do processo de industrialização, mas com a exclusão de seus benefícios para a classe trabalhadora. Deveria ser implantado um regime de eficiência burocrática, de racionalidade administrativa. Se apoderariam dos aparelhos do Estado e implementariam a sua ideologia política, dentro do contexto do capitalismo multinacional associado. Eis o teor do livro.

As entidades de classe ligadas ao novo modelo de desenvolvimento dependente (dos investimentos estrangeiros, das multinacionais) são o Instituto de Pesquisas Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), do lado civil e a Escola Superior de Guerra (ESG), do lado militar. Serão estas entidades as responsáveis pela Conquista do Estado, pelo golpe de classe desferido no 31 de março ou primeiro de abril de 1964. Alguns detalhes dessas entidades civis:

O IPES foi uma entidade civil ativa na desestabilização do governo de João Goulart. Seu financiamento ficou a cargo, tanto das empresas nacionais, quanto das multinacionais. Ela também se encarregou da organização das entidades classistas nos estados, como as associações, federações e confederações patronais da indústria e do comércio. Já o IBAD foi importante peça, junto com o IPES, na preparação para o golpe de 1964. Foi criado em 1959 e extinto em 1963, sob a acusação de corrupção eleitoral. Aproveito também o espaço para apresentar outra instituição muito ativa, bastante presente no livro de Dreifuss, que é a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), uma organização cívica feminina, composta principalmente por mulheres de militares e responsável por grandes mobilizações, marchas, contra Jango e a favor do golpe.

A capa do livro, além do título e subtítulo bem explícitos e objetivos, tem também uma caricatura fantástica. Num tabuleiro de xadrez aparecem três homens, dois em trajes civis e um em traje militar, além de uma mulher. Os dois homens em trajes civis ostentam placas com as siglas - IPES e IBAD e a mulher com a de CAMDE. O militar não ostenta sigla nenhuma, mas que bem poderia ser a da ESG. Estas figuras estão de pé, vitoriosas. Abaixo aparece um civil, com a faixa presidencial. Ele aparece deitado, derrubado, simbolizando a queda de Jango pelo golpe e mais dois peões, com as siglas UNE e CGT, entidades derrotadas, dos estudantes e dos trabalhadores. É, mais uma vez, o teor do livro.

O livro é resultado de uma exaustiva pesquisa, minuciosa e rica em detalhes bibliográficos, como está expresso nas orelhas do livro: "Este livro é o resultado de uma pesquisa realizada entre 1976 e 1980 para uma tese de doutorado na Universidade de Glasgow, Inglaterra. Um período fundamental da história brasileira foi reconstituído em bases documentais. Os fatos e os personagens foram indicados a partir de registros concretos e não de hipóteses ou suposições. O objetivo central desse trabalho foi identificar as forças sociais que emergiram na sociedade brasileira com o processo de internacionalização, em sua etapa moderna, e acompanhar a intervenção no Estado e na sociedade brasileira. Essa história passa pela mediação de atores concretos, de pessoas ou instituições, que respondem a valores, objetivos e estratégias das forças sociais que atuam no cenário político, em conjunturas determinadas. Aqui o que interessa não é tanto identificar o ator, suas intenções e características pessoais, mas descobrir no processo histórico o papel e a função das forças sociais e de que formas concretas elas fazem prevalecer seus interesses e suas concepções no confronto com as demais.

Nessa pesquisa, no entanto, foi possível documentar a relação entre os atores e as forças sociais, em cenários públicos e privados, através da reconstituição da história feitos em grande parte pelos próprios atores. É necessário advertir que a leitura do passado deve ser feita no contexto do presente e com sentido do futuro, onde tanto os atores como os cenários e a dinâmica das forças sociais estão em permanente transformação, podendo não estar hoje no mesmo lugar e nem desempenhando os mesmos papéis. A relação entre os atores e as forças sociais não é imutável. No processo político e econômico tanto podem mudar o sentido e os objetivos das forças sociais, como o papel e a função dos atores. A compreensão deste aspecto é fundamental para o entendimento deste livro".

Ele está estruturado em dez capítulos, dos quais passo a dar os títulos. Eles são bastante ilustrativos para se ter uma primeira noção do teor dos mesmos. Vejamos: I. A formação do populismo. II. A ascendência econômica do capital multinacional e associado. III. A estrutura política de poder do capital multinacional e seus interesses associados. IV. A crise do populismo. V. A elite orgânica: Recrutamento, estrutura decisória e organização para a ação. VI. A ação de classe da elite orgânica: a campanha ideológica da burguesia. VII. A ação de classe da elite orgânica: a campanha política da burguesia. VIII. A ação de classe da elite orgânica: O complexo IPES/IBAD e os militares. IX. O complexo IPES/IBAD no Estado - A ocupação dos postos estratégicos pela elite orgânica. X. Conclusão. Lembrando que por elite orgânica o autor entende a elite vinculada com os interesses multinacionais associados. São estratégias de conquista de hegemonia, essencialmente. O livro tem 814 páginas. As primeiras 495 são dedicadas ao texto e notas e as restantes, a diversos apêndices. 

Eu vivi este tempo. Me formei em filosofia, em dezembro de 1968. Morava em Porto Alegre, no olho furacão. Eu terminava o meu curso de filosofia, ainda junto aos padres, no seminário de Viamão. A mentalidade conservadora em nossa formação era dominante, mas já sopravam ventos de agiornamento da Igreja. Concílio Vaticano II e sopros da Teologia da Libertação. Em 1969 eu iniciei a minha vida profissional, em Umuarama, no Paraná. Fiquei bem afastado das contendas, numa cidade de interior. Dos tempos de Porto Alegre, tenho a memória viva da campanha: Família que reza unida, permanece unida, com a promessa da reza diária do terço, pedindo para que Nossa Senhora de Fátima, a anticomunista por excelência, salvasse o Brasil desse mal terrível (padre Patrick Peyton). Logo, logo, passei a não cumprir essa promessa. 

Algumas leituras paralelas: Reformas de base do governo de Jango:


Sobre os militares e a política, Utopia autoritária brasileira, de Carlos Fico:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/09/utopia-autoritaria-brasileira-carlos.html e, ainda, de Lira Neto, a biografia de Castello Branco.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

CASTELLO. A marcha para a ditadura. Lira Neto.

Passei por alguns contratempos. Cirurgia marcada para o dia 11 de fevereiro de 2026. A cirurgia seria simples. Em torno de uma hora e o serviço estaria concretizado. Em contraposição, a recuperação seria lenta, com dias intermináveis. Uma prótese de quadril. Na recuperação, muitas sessões de fisioterapia. A dependência pós cirurgia é quase total. Fiquei amparado na casa do meu filho, o Alexis, aonde permaneci até o dia 6 de abril, quando após uma consulta de revisão médica, retornei para casa e aqui para o meu posto. Tudo transcorreu sem dores. A todos os envolvidos, os meus melhores agradecimentos.

Castello - a marcha para a ditadura. Lira Neto. Companhia das Letras. 2020.

No preparo para a cirurgia e, especialmente para a recuperação, fiz a encomenda de alguns livros. Teriam que ser leituras simples, livros para serem lidos na cama. Eu teria que mudar um velho hábito meu. A leitura acompanhada por um caderno de anotações. O máximo que eu consegui foi o de anotar algumas páginas e o tema abordado. Entre os livros encomendados figuravam: Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e Castello - a marcha para a ditadura, do grande Lira Neto. Pai Firmino, em visita ao enfermo, ainda me trouxe A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, o primeiro que eu li. Leitura, por sinal, muito agradável.

Hoje é dia 25 de março, quase um mês e meio após a cirurgia. Terminei a leitura do livro do Lira Neto sobre o primeiro dos ditadores militares, da ditadura civil-militar, implantada no dia 1º de abril de 1964, mais militar do que civil. O golpe aplicado era para ser uma "correção de rumos" e duraria até o final do mandato de João Goulart, o presidente golpeado em razão de seu governo que propunha reformas de base, reformas estas, diga-se de passagem, que ainda estão para serem feitas. A "correção de rumos" visava exatamente impedir que estas reformas fossem transformadas em realidade. Esta é a centralidade da monumental obra de Lira Neto datada de 2004 e reeditada em 2019.

Recentemente li o livro do historiador Carlos Fico - Utopia autoritária brasileira - Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. O livro, como vemos no subtítulo, mostra o comportamento dos militares ao longo de toda a história política brasileira. Uma espécie de missão salvífica paira no ar ao longo de toda esta história. Ela tem um passado que nos remete à Guerra do Paraguai e à Proclamação da República. Trago esta lembrança para chamar a atenção da primeira página que eu anotei, a página 77. Junto a ela eu anotei - Os tenentes - salvadores da pátria. Eis o texto: "Os conspiradores (os tenentes), que não tinham programa de governo elaborado ou mesmo manifestos políticos definidos, eram movidos pela ideia comum de que caberia aos militares a missão natural de "guardiões" das instituições nacionais. Consideravam que os destinos do país corriam perigo nas mãos dos "paisanos", tidos por eles como uma corja corrupta, movida por interesses pessoais inconfessados. Não hesitaram em assumir eles próprios, os militares, o papel de "salvadores" da Pátria, inaugurando a tradição que irá vigorar nos quartéis ao longo de toda a história republicana brasileira e, mais tarde, irá desaguar no golpe de abril de 1964". Página 77.

Lembrando que o tenentismo foi um movimento da década de 1920, 1922 de modo particular, que visava derrubar o presidente Epitácio Pessoa e impedir a posse do presidente eleito, Arthur Bernardes.  Entre os tenentes figuravam nomes como Juarez Távora, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, nomes que, por muitos anos continuariam presentes como protagonistas na nossa política. A frase citada já faz parte do tempo da biografia de Castello, quando o encontramos como um jovem tenente de 25 anos no 12º Regimento sediado em Belo Horizonte. O capítulo em que encontramos a citação tem por título - um tenente contra os tenentes. Mas o fato de ser contra não significou um ato de despolitização do futuro ditador, de não sentir o gosto pela política. Castello nasceu em Fortaleza em 1897 e morreu no dia 18 de julho de 1967, em acidente aéreo, nas proximidades de Fortaleza. Exerceu o poder entre 15 de abril de 1964 e 15 de março de 1967.

O livro de Lira Neto, o seu primeiro livro biográfico, passa longe de ser a obra de um iniciante. Ele é profundo e meticuloso e extremamente abrangente, envolvendo a estrutura e a conjuntura brasileira e mundial de toda um época, como deu para perceber com a nota acima citada, dentro do contexto de nossa República Velha. O livro tem 460 páginas, que, para serem lidas, precisam praticamente ser acompanhadas por uma lente de aumento das letrinhas. A vida de Castello é bastante conhecida, mas não os seus bastidores. Por isso antes de dar uma visão geral do livro, vou me ater a fatos que mais de perto mereceram a minha atenção.

Primeiramente quero destacar a enorme rede de picuinhas e intrigas da vida da caserna. Ciumeiras nas promoções, artimanhas nas transferências de quartéis e nas posições e postos estratégicos de comando. Inúmera páginas são dedicadas às intrigas entre ele, Castello, e o seu arqui-inimigo Costa e Silva. Nesse sentido merece especial atenção a disputa entre os dois pelo comando do processo "revolucionário". É uma luta entre os considerados "moderados" (Castello, Geisel) e os da "linha dura" (Costa e Silva, Médici). Por que atento para isso?  Porque é um fato que permanece em nossa história. Basta lembrar o voto do então deputado Jair Bolsonaro, proferido na votação do impeachment da  presidente Dilma, junto com uma homenagem ao famoso torturador da "linha dura", Carlos Brilhante Ustra. Esta divisão no exército tem raízes profundas.

O livro passa pela visão das entranhas do governo daquele que pretendia apenas concluir o mandato do presidente deposto, João Goulart, mas, que na verdade, abriu o caminho para A marcha para a ditadura. Castello abriu, pelos Atos Institucionais, o caminho para os militares da "linha dura", ou melhor, para Costa e Silva, para o AI-5 e para os "anos de chumbo", como o período ficou caracterizado em nossa história. Castello pavimentou o caminho para A marcha para a ditadura para, como lemos no epílogo do livro, em seu penúltimo parágrafo: "De 1964 a 1985, os generais ficaram 21 anos à frente do poder. Deixaram um saldo de cerca de 10 mil exilados, 7.387 acusações formalizadas por subversão; 4.682 cassados e cerca de 300 mortos e desaparecidos". Página 428.

Também não poderia deixar passar em branco o fato da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nas campanhas da Itália, na tomada de Monte Castelo. Castello era um dos protagonistas brasileiros dessa expedição, de tanto heroísmo, como lemos nos livros de nossa história oficial, que, no entanto, teve inúmeras trapalhadas. Mas a minha atenção ao capítulo se dá por um outro motivo. Lutamos sob o comando do exército dos Estados Unidos, em uma aproximação dos comandantes dos dois exércitos. Essa aproximação será decisiva nos anos posteriores à Guerra. Os anos da Bipolaridade do mundo e da Guerra Fria. Como consequência dessa aproximação surge a Escola Superior de Guerra e a doutrina da Ideologia da Segurança Nacional. Esta doutrina, somada ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais)  e ao IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), órgãos da sociedade civil, foram fundamentos na formação da Opinião Pública favorável ao golpe. Também as medidas econômicas merecem um merecido destaque, como a desnacionalização da economia e a política de concentração de rendas.

Mas vamos à estrutura do livro: são nove capítulos, prefácio, prólogo e epílogo. Os capítulos tem por título passagens do hino nacional, em interação com o fato histórico abordado. Os capítulos são: Capítulo I. "As margens plácidas": infância e juventude (1897-1922); Capítulo II. "Um povo heroico": A rebeldia nos quartéis (1922-38); Capítulo III. "Filho teu não foge à luta": O Brasil e a Segunda Guerra Mundial (1939-45); Capítulo IV. "O sol da Liberdade": O frágil interlúdio democrático (1945-63); Capítulo V. "A Terra desce": O golpe contra a democracia (1963-64); Capítulo VI. "A clava forte": Os miliares no poder (1964-65); Capítulo VII. "És tu Brasil": À sombra da linha dura (1965); Capítulo VIII: "Entre outros mil": A Batalha da sucessão (1966-67). Capítulo IX. "À luz do céu profundo: A morte veio do ar (1967).

Vamos ainda à contracapa, uma parte do prefácio de Heloísa Starling: "Primeiro presidente da ditadura instaurada em 1964, Humberto de Alencar Castello Branco é um personagem-chave da história do Brasil contemporâneo. Seu curto mandato ainda hoje enseja reavaliações e revisionismos. Exercendo com habilidade e discrição o poder quase absoluto, Castello lançou as bases do regime de força que atormentou o país durante duas décadas. Ora visto como monstruoso e implacável, ora como tolerante e sensato, o estrategista do golpe civil-militar continua a levantar polêmicas, mas, contraditoriamente, sua trajetória tem sido pouco estudada. Em sua primeira grande biografia, agora em nova edição, Lira Neto apresenta uma visão abrangente e equilibrada sobre o homem, o militar e o político, munido da mais completa documentação já reunida sobre Castello. O autor da chamada trilogia Getúlio investiga em profundidade a vida e as lutas do general franzino que, sem disparar um tiro, derrotou inimigos e aliados na guerra sem quartel pelo poder máximo da República".

Deixo ainda dois posts, relacionados com o período do golpe: A Ideologia da Segurança Nacional  e sobre as reformas de base do governo de João Goulart.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/11/a-ideologia-da-seguranca-nacional-padre.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/01/jango-conversa-com-joao-vicente-12-1.html

sexta-feira, 10 de abril de 2026

VALE A PENA SONHAR. Apolonio de Carvalho.

A minha admiração por Apolonio de Carvalho é antiga. Ela vem ainda dos anos 1980. O que mais me impressionava era a sua vitalidade de militante, movida pelas suas convicções de luta por uma sociedade justa e igualitária. Me impressionava a sua luta, o seu engajamento ativo no combate às ditaduras. Primeiramente contra a de Getúlio Vargas, depois o seu alistamento nas Brigadas Internacionais na luta contra Franco na Guerra Civil Espanhola. E ainda, mais tarde, no seu engajamento na Resistência Francesa no combate à República de Vichy, um regime de colaboração com o nazismo de Hitler, comandado pelo Marechal Pétain. De volta ao Brasil, mais uma vez o encontramos na luta, dessa vez contra a feroz ditadura militar-civil implantada em 1964. Na volta à democracia o encontraremos como um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. 

Vale a pena sonhar. Apolonio de Carvalho. Rocco. 1998. 

Creio que muitos dos meus leitores se lembram de minha militância política nas lutas sindicais da APP-Sindicato e no Partido dos Trabalhadores, quando eu ainda morava em Umuarama, até o início dos anos 1990. Eu era dirigente sindical e promovíamos muitas atividades de formação. Em Umuarama eu tinha uma amizade profunda com o Dr. Ivo Sooma, então presidente da OAB regional. O Dr. Ivo conhecia pessoalmente o Apolonio e por muito pouco, por pequenos detalhes, não o levamos para fazer uma palestra em Umuarama. Teria sido, com certeza, um momento maravilhoso.

Quanto ao Vale a pena sonhar, conheci primeiramente o documentário. Depois comprei o livro. Este ficou na lista de espera e o li somente agora. O livro teve a sua primeira edição publicada no ano de 1977 e foi fruto de longas entrevistas concedidas pelo autor, que depois as trabalhou cuidadosamente para fazer delas a sua autobiografia. O grande destaque deste livro de memórias é a sua capacidade de provocar profundas reflexões. Apolonio prima pelas reflexões, pelas análises de conjuntura, que sempre o orientavam em suas ações, junto com as suas profundas convicções de vida e de seus significados. O que realmente faria valer a pena sonhar e quais eram os sonhos que o acalentavam?

O livro começa por um prefácio de uma outra lenda brasileira: Antônio Cândido. Ele destaca as qualidades de Apolonio. A sua coerência entre a sua concepção de vida e o seu fazer, o seu agir prático, a solidariedade humana como sentido e significado para a vida, a sua participação nas lutas, sempre movido pela sua consciência revolucionária e a sua crença profunda na vitalidade dos ideais socialistas no combate aos males intrínsecos contidos no sistema capitalista. 

O livro tem 257 páginas, acompanhadas de um rico acervo fotográfico. Ele possui nove capítulos, que seguem cronologicamente a sua vida. Vejamos os títulos. Os assinalo em negrito e dou alguns detalhes. I. A branca revoada das garças (Seu nascimento em Corumbá, em 1912, a herança familiar dos ideais de liberdade, democracia e direitos, apresentação do perfil de seus familiares, a sua formação escolar, uma conjuntura politica e os contrastes sociais da década de 1920. Os sonhos da mãe para que seguisse a carreira militar). II. Ombro, armas! (Formação militar no Realengo. As crises da República Velha. Seus contatos com a literatura libertária - José Ingenieros, Tomás Antônio Gonzaga (Marília de Dirceu), a literatura marxista que lhe chega através dos professores. Vargas e as oligarquias paulistas).

III. De Bagé ao Bagé. (A vida militar em Bagé, em 1934. Um entranhamento maior com a literatura marxista, o rótulo de "esquerdista", A ANL e a Intentona Comunista, expulsão do exército e a prisão. De Salvador a sua partida para a Espanha num navio de nome Bagé. IV. Histórias de Alto-mar. (peripécias da viagem. Alemães de Santa Catarina no rumo da Alemanha. O Sindicato dos Marinheiros). V. !No pasarán! Chega na Espanha em setembro de 1937 com a República praticamente derrotada. Uma conjuntura da situação espanhola. A Frente Popular; as divisões e uma análise das causas da derrota. No rumo da França. Frases de Dolores Ibárruri, La pasionaria).

VI. "Dans la nuit la liberté nous écoute". (A preferência do governo francês pelo nazismo - A República de Vichy - Pétain. As 200 famílias burguesas da França. A Resistência sob o comando do PCF. As divisões. As formas de luta. Encontro com Rennée. Chegada dos aliados; a volta ao Brasil. Uma brilhante análise das causas da República de Vichy. O capitalismo é fascista em suas raízes? VII. O Novo mergulho na clandestinidade. (A redemocratização brasileira do pós-guerra. A ilegalidade do Partidão, sob a Bipolaridade. O XX Congresso do PC soviético e as repercussões no Brasil. O monopólio do saber e da verdade. Começam as divisões no PC. O golpe de 1964, O PC e as reações dos dissidentes). 

VIII. O protesto armado. (A esquerda dissidente e a opção pela luta armada. Previsões. A partir de 1969 o recrudescimento da repressão. Mais uma prisão. Sequestro do embaixador alemão e a libertação. Argélia e Europa. As razões do insucesso da luta armada. As sucessivas quedas. A distância do povo). IX. A volta ao Brasil e as voltas que o mundo dá. (Em 1973, o domínio total do golpe, com a resistência destroçada. 10 anos de exílio em Paris. Os movimentos pela anistia. A volta ao Brasil. Fundação e engajamento no Partido dos Trabalhadores. Reflexões sobre o PT e as suas tendências. Em 1996, os poucos resistentes das Brigadas Internacionais, ainda vivos, são homenageados na Espanha com título de cidadania honorária. Os voluntários da Liberdade. Crenças e frustrações. A nova conjuntura mundial dos anos 1990, após o colapso soviético e o triunfo neoliberal). 

Dou ainda a contracapa do livro: "Dizem que o sonho e a realidade vivem brigando. E quem luta por uma sociedade mais igualitária, sem injustiças, é logo tachado de 'sonhador'. Apolonio de Carvalho é um desses.

Em 1935, então tenente, lutou contra a ditadura de Vargas; foi preso e expulso do exército; em 38, participou da Guerra Civil Espanhola, do lado da República, contra o fascismo; em 42, tornou-se membro da Resistência Francesa, que resistiu à invasão nazista; na década de 60, combateu a ditadura militar brasileira; foi preso e torturado.

Com a redemocratização do país, em 81, foi um dos fundadores do PT. O Brasil atual - dos assassinatos no campo, da violência e desemprego nas cidades, do contraste entre opulência e miséria - não é o de seus sonhos. Afinal, vale a pena sonhar? Em seu relato, ele diz que sim, se o sonho se associar sempre à luta pela sua concretização. Em tempos de globalização, como os que vivemos, em que os produtos e os capitais estão em toda parte, desconhecendo fronteiras, há os que lutam para que os ideais de justiça e igualdade também se globalizem. Apolonio é um desses".

Enfim, um livro sumamente importante para a história do Brasil. Um livro de memórias e de análise. Um livro profundamente impregnado do humano. Um homem a servir de inspiração, um modelo de coerência entre a concepção e o agir prático. Apolonio morreu em setembro de 2005, na cidade do Rio de Janeiro. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

EI, PROFESSOR. Frank McCourt.

Domingo (01.02.2026) foi um dia maravilhoso. Tive a oportunidade de receber na chácara um grupo de alunos, capitaneados pela Mari, formandos do ano de 2009, do curso Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Muita empatia, memórias e gratas lembranças. Entre os temas das conversas, por óbvio, estava a Universidade Positivo e peculiaridades do curso. Lembramos de cursos de leituras, de Ler e Ver, entre outros assuntos. Na época tínhamos, no meu entendimento, um bom grupo de professores e uma coordenação extraordinária (Professora Eveline e depois o professor André Tezza).

A leitura sempre é um tema fascinante. Lembro que entre nós professores trocávamos muitas leituras e até a mesa que aglutinava os professores do curso se tornou conhecida. Eu particularmente trocava as leituras com o professor Ferrari e com o professor Rafael. Trago esta memória para dizer que terminei de reler Ei, professor, de autoria de Frank McCourt, que por trinta e seis anos exerceu a função de professor do ensino médio na cidade de Nova York, em diferentes colégios, dos mais populares até em um dos mais elitizados. O livro é um relato de suas experiências, escritas já no seu tempo de aposentadoria, e que foi laureado com o Prêmio Pulitzer. Este conteúdo transparece num diálogo que o professor mantém, quase ao final do livro com um aluno seu. Vejamos.

Ei, professor. Frank McCourt. Intrínseca. 2006. Tradução: Rubens Figueiredo. Prêmio Pulitzer.

"Senhor McCourt, o senhor tem sorte. O senhor teve uma infância infeliz e então tem um assunto para escrever. Sobre o que a gente vai escrever? A gente só faz nascer, ir para a escola, ficar de férias, ir para a faculdade, se apaixonar ou coisas assim, formar-se na faculdade,  e começar uma carreira, casar, ter os dois vírgula três filhos em média de que o senhor vive falando, mandar os filhos para a escola, se divorciar como faz cinquenta por cento da população (Em outra passagem, o autor cita que o divórcio em Nova York é um esporte muito popular (Página 237), engordar, ter o primeiro ataque do coração, aposentar-se morrer.

Jonathan, essa é a mais lamentável sinopse da vida americana que já vi numa sala de aula do Ensino Médio. Mas você forneceu os ingredientes para se escrever o grande romance americano. Sintetizou os romances de Theodore Dreiser, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald" (Página 252). No capítulo 18, o Sr. McCourt dá a resposta. Transcrevo o capítulo por inteiro VOU TENTAR. E a tentativa se transformou num grande êxito literário americano.

Ao ver estes escritores, eu voltei a me lembrar de nossos círculos de leituras. Por eles eu entrei em contato com outro escritor, descritor da vida americana, Philip Roth. Dele lemos o maravilhoso A marca humana. E, depois li quase a sua obra por inteiro, ao menos no que diz respeito a seus livros traduzidos para o português. Ah sim! lembrando. O professor André Tezza, na qualidade de coordenador do curso, nos presenteou com o livro. Penso em relê-lo.

Antes de fazer alguns destaques, vamos a orelha do livro: "Agora, eis aqui o tão aguardado livro de McCourt no qual ele conta como seus 36 anos de carreira no magistério engendraram seu segundo ato como escritor (O primeiro - As cinzas de Ângela). Ei, professor é também um tributo pungente a todos os professores. Com uma prosa ousada e vivaz, em que se destaca seu humor irreverente, com uma franqueza tocante, McCourt registra as tentativas, os triunfos e as surpresas com que se deparou em escolas públicas na cidade de Nova York. Ao lançar mão de métodos que nada tem de convencionais. McCourt cria um impacto duradouro em seus alunos por meio de tarefas imaginativas (orienta uma turma a redigir "Um pedido de desculpas de Adão ou de Eva para Deus"), músicas (nas quais a lista de ingredientes de uma receita toma o lugar da letra original) e passeios (imagine levar 29 garotas agitadas para um cinema em Times Square!).

McCourt luta para encontrar o caminho correto nas aulas e consome as noites bebendo com escritores e sonhando em um dia pôr no papel sua própria história. Em Ei, professor, vemos McCourt demonstrando sua incomparável habilidade para contar uma história magnífica enquanto, cinco dias por semana, cinco aulas por dia, se esforça para prender a atenção e ganhar o respeito dos adolescentes indisciplinados, sobrecarregados de hormônios ou indiferentes. O periclitante casamento de McCourt, sua fracassada tentativa de obter um doutorado no Trinity College, em Dublin, e suas repetidas demissões causadas pela propensão a contestar os superiores acabam, ironicamente, por levá-lo a trabalhar na escola mais prestigiosa de Nova York, a Escola Secundária Stuyvesant, onde ele por fim encontra um lugar e uma voz. "A tenacidade", diz ele, "não é tão atraente quanto a ambição, ou o talento, ou o intelecto, ou o charme, mesmo assim foi o que me permitiu vencer os dias e as noites".

Para McCourt, contar histórias é em si mesmo a fonte da salvação e, em Ei, professor, a viagem para a redenção - e para a glória literária - é uma aventura muito divertida".

O livro tem 266 páginas. É dividido em três partes, mais um pequeno mas super interessante prólogo. Vamos aos títulos das partes, bastante auto explicativos: Parte 1. - O longo caminho até a pedagogia. Parte 2. - Um burro no meio dos espinhos. Um capítulo valioso sobre o que ocorre nas salas de aula. Os choques de gênero, geração, cultura e raça. Parte 3. - Renascendo na sala 205. Os seus êxitos na Escola de Stuyvesant.

No Prólogo McCourt praticamente se apresenta. Menino infeliz, nascido nos Estados Unidos, criado na maior pobreza na Irlanda e de volta aos Estados Unidos. É simplesmente maravilhosa a sua fala sobre a sua infância infeliz: "Eu poderia sair à procura de culpados. A infância infeliz não acontece à toa. Ela é criada. Existem forças sombrias. Se eu apontar culpados, o farei com um espírito de perdão. Portanto, perdoo às seguintes pessoas: ao papa Pio XII; aos ingleses em geral e ao rei Jorge VI em particular; ao cardeal Mac Rory, que dominava a Irlanda quando eu era criança; ao bispo de Limerick, que parecia achar que tudo era pecado; perdoo a Eamonn de Valera, ex-primeiro-ministro (cargo que os irlandeses chamam de Taoiseach) e presidente da Irlanda. O senhor de Valera era um fanático gaélico semi-espanhol (cebola espanhola num ensopado irlandês) que orientava os professores em toda a Irlanda a incutir em nós, à força, a língua nativa e a retirar de nós, à força, toda a curiosidade natural". O sublinhado é meu. Está já na primeira página.

Esta parte que sublinhei agitou minha memória. Fui à estante buscar uma biografia de Fellini - Fellini - uma biografia, de Túlio Kezich. Duas passagens sobre a infância dele: "Era uma criança como tantas outras, que fazia lindos desenhos, numa cidadezinha como tantas outras numa Itália ultra provinciana, oprimida de um lado fascismo e do outro pela Igreja" (Página 19). "É a mesma rebeldia de Richettino que persiste no jovem estudante, motivada pela impenetrabilidade do 'mundo dos adultos': a família de um lado, a escola do outro. Muitos foram esmagados por esta opressão. Na mesma página de Kafka, do qual já extraímos uma citação, lemos: 'Segundo minhas experiências, na escola como em casa faziam de tudo para apagar nossa peculiaridade'" (Página 25). E lembrando que no Ano de 2026 de nossa era cristã, em São Paulo e no Paraná existem escolas cívico militares. Eu defino estas escolas como O coturno pisando na poesia.

Da terceira parte existe uma passagem com a qual me diverti bastante. Sempre a citava nas aulas: "Quando eu debatia Retrato do artista quando jovem com minhas turmas descobria que eles desconheciam os Sete Pecados Capitais. Fisionomias perplexas na sala inteira. Eu escrevia no quadro: Orgulho, Avareza, Luxúria. Ira, Gula, Inveja, Preguiça. Se vocês não conhecem isso, como conseguem se divertir? (Página 201). E finalmente, uma coisa muito séria: A expectativa dos pais quanto à escola:

"Só sabem pensar em sucesso (Me permitam uma digressão - Eu assisti uma palestra motivacional em que a palestrante escreveu bem grande no quadro: $uce$$o. Disfarcei e me retirei) e dinheiro, diz Connie. Têm expectativas para seus filhos, muitas esperanças, e somos como trabalhadores numa linha de montagem colocando uma pecinha aqui e outra ali, até que o produto final saia prontinho para cumprir os desígnios dos pais e da empresa" (Página 240). E a CIDADANIA onde fica?

E para discutir um pouco mais a educação, recorro ao memorável professor Milton Santos:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html