sexta-feira, 17 de abril de 2026

CASTELLO. A marcha para a ditadura. Lira Neto.

Passei por alguns contratempos. Cirurgia marcada para o dia 11 de fevereiro de 2026. A cirurgia seria simples. Em torno de uma hora e o serviço estaria concretizado. Em contraposição, a recuperação seria lenta, com dias intermináveis. Uma prótese de quadril. Na recuperação, muitas sessões de fisioterapia. A dependência pós cirurgia é quase total. Fiquei amparado na casa do meu filho, o Alexis, aonde permaneci até o dia 6 de abril, quando após uma consulta de revisão médica, retornei para casa e aqui para o meu posto. Tudo transcorreu sem dores. A todos os envolvidos, os meus melhores agradecimentos.

Castello - a marcha para a ditadura. Lira Neto. Companhia das Letras. 2020.

No preparo para a cirurgia e, especialmente para a recuperação, fiz a encomenda de alguns livros. Teriam que ser leituras simples, livros para serem lidos na cama. Eu teria que mudar um velho hábito meu. A leitura acompanhada por um caderno de anotações. O máximo que eu consegui foi o de anotar algumas páginas e o tema abordado. Entre os livros encomendados figuravam: Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e Castello - a marcha para a ditadura, do grande Lira Neto. Pai Firmino, em visita ao enfermo, ainda me trouxe A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, o primeiro que eu li. Leitura, por sinal, muito agradável.

Hoje é dia 25 de março, quase um mês e meio após a cirurgia. Terminei a leitura do livro do Lira Neto sobre o primeiro dos ditadores militares, da ditadura civil-militar, implantada no dia 1º de abril de 1964, mais militar do que civil. O golpe aplicado era para ser uma "correção de rumos" e duraria até o final do mandato de João Goulart, o presidente golpeado em razão de seu governo que propunha reformas de base, reformas estas, diga-se de passagem, que ainda estão para serem feitas. A "correção de rumos" visava exatamente impedir que estas reformas fossem transformadas em realidade. Esta é a centralidade da monumental obra de Lira Neto datada de 2004 e reeditada em 2019.

Recentemente li o livro do historiador Carlos Fico - Utopia autoritária brasileira - Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. O livro, como vemos no subtítulo, mostra o comportamento dos militares ao longo de toda a história política brasileira. Uma espécie de missão salvífica paira no ar ao longo de toda esta história. Ela tem um passado que nos remete à Guerra do Paraguai e à Proclamação da República. Trago esta lembrança para chamar a atenção da primeira página que eu anotei, a página 77. Junto a ela eu anotei - Os tenentes - salvadores da pátria. Eis o texto: "Os conspiradores (os tenentes), que não tinham programa de governo elaborado ou mesmo manifestos políticos definidos, eram movidos pela ideia comum de que caberia aos militares a missão natural de "guardiões" das instituições nacionais. Consideravam que os destinos do país corriam perigo nas mãos dos "paisanos", tidos por eles como uma corja corrupta, movida por interesses pessoais inconfessados. Não hesitaram em assumir eles próprios, os militares, o papel de "salvadores" da Pátria, inaugurando a tradição que irá vigorar nos quartéis ao longo de toda a história republicana brasileira e, mais tarde, irá desaguar no golpe de abril de 1964". Página 77.

Lembrando que o tenentismo foi um movimento da década de 1920, 1922 de modo particular, que visava derrubar o presidente Epitácio Pessoa e impedir a posse do presidente eleito, Arthur Bernardes.  Entre os tenentes figuravam nomes como Juarez Távora, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, nomes que, por muitos anos continuariam presentes como protagonistas na nossa política. A frase citada já faz parte do tempo da biografia de Castello, quando o encontramos como um jovem tenente de 25 anos no 12º Regimento sediado em Belo Horizonte. O capítulo em que encontramos a citação tem por título - um tenente contra os tenentes. Mas o fato de ser contra não significou um ato de despolitização do futuro ditador, de não sentir o gosto pela política. Castello nasceu em Fortaleza em 1897 e morreu no dia 18 de julho de 1967, em acidente aéreo, nas proximidades de Fortaleza. Exerceu o poder entre 15 de abril de 1964 e 15 de março de 1967.

O livro de Lira Neto, o seu primeiro livro biográfico, passa longe de ser a obra de um iniciante. Ele é profundo e meticuloso e extremamente abrangente, envolvendo a estrutura e a conjuntura brasileira e mundial de toda um época, como deu para perceber com a nota acima citada, dentro do contexto de nossa República Velha. O livro tem 460 páginas, que, para serem lidas, precisam praticamente ser acompanhadas por uma lente de aumento das letrinhas. A vida de Castello é bastante conhecida, mas não os seus bastidores. Por isso antes de dar uma visão geral do livro, vou me ater a fatos que mais de perto mereceram a minha atenção.

Primeiramente quero destacar a enorme rede de picuinhas e intrigas da vida da caserna. Ciumeiras nas promoções, artimanhas nas transferências de quartéis e nas posições e postos estratégicos de comando. Inúmera páginas são dedicadas às intrigas entre ele, Castello, e o seu arqui-inimigo Costa e Silva. Nesse sentido merece especial atenção a disputa entre os dois pelo comando do processo "revolucionário". É uma luta entre os considerados "moderados" (Castello, Geisel) e os da "linha dura" (Costa e Silva, Médici). Por que atento para isso?  Porque é um fato que permanece em nossa história. Basta lembrar o voto do então deputado Jair Bolsonaro, proferido na votação do impeachment da  presidente Dilma, junto com uma homenagem ao famoso torturador da "linha dura", Carlos Brilhante Ustra. Esta divisão no exército tem raízes profundas.

O livro passa pela visão das entranhas do governo daquele que pretendia apenas concluir o mandato do presidente deposto, João Goulart, mas, que na verdade, abriu o caminho para A marcha para a ditadura. Castello abriu, pelos Atos Institucionais, o caminho para os militares da "linha dura", ou melhor, para Costa e Silva, para o AI-5 e para os "anos de chumbo", como o período ficou caracterizado em nossa história. Castello pavimentou o caminho para A marcha para a ditadura para, como lemos no epílogo do livro, em seu penúltimo parágrafo: "De 1964 a 1985, os generais ficaram 21 anos à frente do poder. Deixaram um saldo de cerca de 10 mil exilados, 7.387 acusações formalizadas por subversão; 4.682 cassados e cerca de 300 mortos e desaparecidos". Página 428.

Também não poderia deixar passar em branco o fato da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nas campanhas da Itália, na tomada de Monte Castelo. Castello era um dos protagonistas brasileiros dessa expedição, de tanto heroísmo, como lemos nos livros de nossa história oficial, que, no entanto, teve inúmeras trapalhadas. Mas a minha atenção ao capítulo se dá por um outro motivo. Lutamos sob o comando do exército dos Estados Unidos, em uma aproximação dos comandantes dos dois exércitos. Essa aproximação será decisiva nos anos posteriores à Guerra. Os anos da Bipolaridade do mundo e da Guerra Fria. Como consequência dessa aproximação surge a Escola Superior de Guerra e a doutrina da Ideologia da Segurança Nacional. Esta doutrina, somada ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais)  e ao IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), órgãos da sociedade civil, foram fundamentos na formação da Opinião Pública favorável ao golpe. Também as medidas econômicas merecem um merecido destaque, como a desnacionalização da economia e a política de concentração de rendas.

Mas vamos à estrutura do livro: são nove capítulos, prefácio, prólogo e epílogo. Os capítulos tem por título passagens do hino nacional, em interação com o fato histórico abordado. Os capítulos são: Capítulo I. "As margens plácidas": infância e juventude (1897-1922); Capítulo II. "Um povo heroico": A rebeldia nos quartéis (1922-38); Capítulo III. "Filho teu não foge à luta": O Brasil e a Segunda Guerra Mundial (1939-45); Capítulo IV. "O sol da Liberdade": O frágil interlúdio democrático (1945-63); Capítulo V. "A Terra desce": O golpe contra a democracia (1963-64); Capítulo VI. "A clava forte": Os miliares no poder (1964-65); Capítulo VII. "És tu Brasil": À sombra da linha dura (1965); Capítulo VIII: "Entre outros mil": A Batalha da sucessão (1966-67). Capítulo IX. "À luz do céu profundo: A morte veio do ar (1967).

Vamos ainda à contracapa, uma parte do prefácio de Heloísa Starling: "Primeiro presidente da ditadura instaurada em 1964, Humberto de Alencar Castello Branco é um personagem-chave da história do Brasil contemporâneo. Seu curto mandato ainda hoje enseja reavaliações e revisionismos. Exercendo com habilidade e discrição o poder quase absoluto, Castello lançou as bases do regime de força que atormentou o país durante duas décadas. Ora visto como monstruoso e implacável, ora como tolerante e sensato, o estrategista do golpe civil-militar continua a levantar polêmicas, mas, contraditoriamente, sua trajetória tem sido pouco estudada. Em sua primeira grande biografia, agora em nova edição, Lira Neto apresenta uma visão abrangente e equilibrada sobre o homem, o militar e o político, munido da mais completa documentação já reunida sobre Castello. O autor da chamada trilogia Getúlio investiga em profundidade a vida e as lutas do general franzino que, sem disparar um tiro, derrotou inimigos e aliados na guerra sem quartel pelo poder máximo da República".

Deixo ainda dois posts, relacionados com o período do golpe: A Ideologia da Segurança Nacional  e sobre as reformas de base do governo de João Goulart.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/11/a-ideologia-da-seguranca-nacional-padre.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/01/jango-conversa-com-joao-vicente-12-1.html

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