A minha admiração por Apolonio de Carvalho é antiga. Ela vem ainda dos anos 1980. O que mais me impressionava era a sua vitalidade de militante, movida pelas suas convicções de luta por uma sociedade justa e igualitária. Me impressionava a sua luta, o seu engajamento ativo no combate às ditaduras. Primeiramente contra a de Getúlio Vargas, depois o seu alistamento nas Brigadas Internacionais na luta contra Franco na Guerra Civil Espanhola. E ainda, mais tarde, no seu engajamento na Resistência Francesa no combate à República de Vichy, um regime de colaboração com o nazismo de Hitler, comandado pelo Marechal Pétain. De volta ao Brasil, mais uma vez o encontramos na luta, dessa vez contra a feroz ditadura militar-civil implantada em 1964. Na volta à democracia o encontraremos como um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.
Vale a pena sonhar. Apolonio de Carvalho. Rocco. 1998.
Creio que muitos dos meus leitores se lembram de minha militância política nas lutas sindicais da APP-Sindicato e no Partido dos Trabalhadores, quando eu ainda morava em Umuarama, até o início dos anos 1990. Eu era dirigente sindical e promovíamos muitas atividades de formação. Em Umuarama eu tinha uma amizade profunda com o Dr. Ivo Sooma, então presidente da OAB regional. O Dr. Ivo conhecia pessoalmente o Apolonio e por muito pouco, por pequenos detalhes, não o levamos para fazer uma palestra em Umuarama. Teria sido, com certeza, um momento maravilhoso.
Quanto ao Vale a pena sonhar, conheci primeiramente o documentário. Depois comprei o livro. Este ficou na lista de espera e o li somente agora. O livro teve a sua primeira edição publicada no ano de 1977 e foi fruto de longas entrevistas concedidas pelo autor, que depois as trabalhou cuidadosamente para fazer delas a sua autobiografia. O grande destaque deste livro de memórias é a sua capacidade de provocar profundas reflexões. Apolonio prima pelas reflexões, pelas análises de conjuntura, que sempre o orientavam em suas ações, junto com as suas profundas convicções de vida e de seus significados. O que realmente faria valer a pena sonhar e quais eram os sonhos que o acalentavam?
O livro começa por um prefácio de uma outra lenda brasileira: Antônio Cândido. Ele destaca as qualidades de Apolonio. A sua coerência entre a sua concepção de vida e o seu fazer, o seu agir prático, a solidariedade humana como sentido e significado para a vida, a sua participação nas lutas, sempre movido pela sua consciência revolucionária e a sua crença profunda na vitalidade dos ideais socialistas no combate aos males intrínsecos contidos no sistema capitalista.
O livro tem 257 páginas, acompanhadas de um rico acervo fotográfico. Ele possui nove capítulos, que seguem cronologicamente a sua vida. Vejamos os títulos. Os assinalo em negrito e dou alguns detalhes. I. A branca revoada das garças (Seu nascimento em Corumbá, em 1912, a herança familiar dos ideais de liberdade, democracia e direitos, apresentação do perfil de seus familiares, a sua formação escolar, uma conjuntura politica e os contrastes sociais da década de 1920. Os sonhos da mãe para que seguisse a carreira militar). II. Ombro, armas! (Formação militar no Realengo. As crises da República Velha. Seus contatos com a literatura libertária - José Ingenieros, Tomás Antônio Gonzaga (Marília de Dirceu), a literatura marxista que lhe chega através dos professores. Vargas e as oligarquias paulistas).
III. De Bagé ao Bagé. (A vida militar em Bagé, em 1934. Um entranhamento maior com a literatura marxista, o rótulo de "esquerdista", A ANL e a Intentona Comunista, expulsão do exército e a prisão. De Salvador a sua partida para a Espanha num navio de nome Bagé. IV. Histórias de Alto-mar. (peripécias da viagem. Alemães de Santa Catarina no rumo da Alemanha. O Sindicato dos Marinheiros). V. !No pasarán! Chega na Espanha em setembro de 1937 com a República praticamente derrotada. Uma conjuntura da situação espanhola. A Frente Popular; as divisões e uma análise das causas da derrota. No rumo da França. Frases de Dolores Ibárruri, La pasionaria).
VI. "Dans la nuit la liberté nous écoute". (A preferência do governo francês pelo nazismo - A República de Vichy - Pétain. As 200 famílias burguesas da França. A Resistência sob o comando do PCF. As divisões. As formas de luta. Encontro com Rennée. Chegada dos aliados; a volta ao Brasil. Uma brilhante análise das causas da República de Vichy. O capitalismo é fascista em suas raízes? VII. O Novo mergulho na clandestinidade. (A redemocratização brasileira do pós-guerra. A ilegalidade do Partidão, sob a Bipolaridade. O XX Congresso do PC soviético e as repercussões no Brasil. O monopólio do saber e da verdade. Começam as divisões no PC. O golpe de 1964, O PC e as reações dos dissidentes).
VIII. O protesto armado. (A esquerda dissidente e a opção pela luta armada. Previsões. A partir de 1969 o recrudescimento da repressão. Mais uma prisão. Sequestro do embaixador alemão e a libertação. Argélia e Europa. As razões do insucesso da luta armada. As sucessivas quedas. A distância do povo). IX. A volta ao Brasil e as voltas que o mundo dá. (Em 1973, o domínio total do golpe, com a resistência destroçada. 10 anos de exílio em Paris. Os movimentos pela anistia. A volta ao Brasil. Fundação e engajamento no Partido dos Trabalhadores. Reflexões sobre o PT e as suas tendências. Em 1996, os poucos resistentes das Brigadas Internacionais, ainda vivos, são homenageados na Espanha com título de cidadania honorária. Os voluntários da Liberdade. Crenças e frustrações. A nova conjuntura mundial dos anos 1990, após o colapso soviético e o triunfo neoliberal).
Dou ainda a contracapa do livro: "Dizem que o sonho e a realidade vivem brigando. E quem luta por uma sociedade mais igualitária, sem injustiças, é logo tachado de 'sonhador'. Apolonio de Carvalho é um desses.
Em 1935, então tenente, lutou contra a ditadura de Vargas; foi preso e expulso do exército; em 38, participou da Guerra Civil Espanhola, do lado da República, contra o fascismo; em 42, tornou-se membro da Resistência Francesa, que resistiu à invasão nazista; na década de 60, combateu a ditadura militar brasileira; foi preso e torturado.
Com a redemocratização do país, em 81, foi um dos fundadores do PT. O Brasil atual - dos assassinatos no campo, da violência e desemprego nas cidades, do contraste entre opulência e miséria - não é o de seus sonhos. Afinal, vale a pena sonhar? Em seu relato, ele diz que sim, se o sonho se associar sempre à luta pela sua concretização. Em tempos de globalização, como os que vivemos, em que os produtos e os capitais estão em toda parte, desconhecendo fronteiras, há os que lutam para que os ideais de justiça e igualdade também se globalizem. Apolonio é um desses".
Enfim, um livro sumamente importante para a história do Brasil. Um livro de memórias e de análise. Um livro profundamente impregnado do humano. Um homem a servir de inspiração, um modelo de coerência entre a concepção e o agir prático. Apolonio morreu em setembro de 2005, na cidade do Rio de Janeiro.

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