sábado, 21 de agosto de 2021

Água por todos os lados. Leonardo Padura.

No dia 19 de agosto de 2019 - (olhem o acaso, começo a escrever este post, exatamente dois anos após, no dia 19 de agosto de 2021), fui assistir a uma fala de Leonardo Padura, no espaço cultural Capela Santa Maria, aqui em Curitiba. Tive enormes dificuldades em entender o idioma, mas lembro que falava muito de Cuba, de Mário Conde, personagem de muitos de seus romances, de ser um escritor cubano, que morava e escrevia em Cuba, da sua insularidade, do Malecón e da "Água por todos os lados". Na oportunidade comprei o seu livro Hereges, pensando em ganhar um autógrafo do escritor.

A minha foto com o Leonardo Padura, agosto de 2019.
 

Como havia longas filas, contentei-me em tirar uma foto a seu lado. Por esses dias, visitando a sua obra, deparei com o título Água por todos os lados. Lembrei-me da palestra e não tive dúvidas, comprei o livro e, de imediato, comecei a sua leitura. Eu sempre leio acompanhado de um caderno para fazer apontamentos. Entre os meus apontamentos sobre este livro de Padura, tem inúmeros adjetivos, junto às anotações sobre os capítulos: fantástico, maravilhoso, esplêndido, extraordinário, e por aí vai. Que livro maravilhoso! Estou falando de Água por todos os lados, de Leonardo Padura, numa edição da Boitempo, de 2020.

Creio que na terceira parte do livro - Vocação e possibilidade - temos uma síntese da intenção do autor com este seu livro: "Ser cubano. Ser um escritor cubano. Ser um escritor cubano que vive em Cuba. Creio que a esta altura é evidente que essa é a divina trindade entre cujas condicionantes se moveu e se move toda a minha vida e em torno das quais, de um modo ou de outro, giram todos os textos que reuni neste livro, escritos num período de quinze anos e selecionados entre muitos outros de caráter jornalístico ou ensaístico, redigidos no período em que comecei a escrever O romance da minha vida, por volta do ano 2000, até o dia em que Lucía e eu fechamos o cadeado desta coletânea, em 2018" (Página 229).

Água por todos os lados. Leonardo Padura. Boitempo, 2020. Tradução: Monica Stael.

Leonardo Padura é um escritor cubano, com profundo sentimento de pertencimento. Nasceu em Havana, num bairro periférico da cidade, numa casa em que já haviam nascido seus avós e seus pais. É desta relação que nasce o seu sentimento de Cubania. É todo um envolvimento cultural, e a cultura cubana, segundo Padura, ultrapassa em muito os limites geográficos da ilha. Havana, desde cedo, foi a terceira cidade da América espanhola, perdendo apenas para as cidades do México e de Lima. Este é o fator local, particular, por onde inicia a sua gigantesca literatura de abrangência universal. O ser humano em suas circunstâncias.

O livro tem uma breve apresentação sob o título - Descomedimento, singularidade e escrita. Cuba é realmente um país singular: independência tardia (1898), tutela militar americana, a revolução de 1959 e a sua afirmação socialista, em 1961. E, acima de tudo, uma forte identidade cultural, oriunda em grande parte, de sua rica literatura. Sentimento de pertencimento.

O cerne do livro é constituído por três partes: I. A maldita circunstância da água por todos os lados (Padura define: "Porque o muro do Malecón havanês constitui a evidência mais palpável de nossa insularidade geográfica e existencial: nessa longa serpente pétrea, sente-se como em nenhum outro lugar, a evidência de que vivemos cercados de água, contidos pela água, condição que ninguém definiu melhor que o poeta Virgílio Pinera: "A maldita circunstância da água por todos os lados"" (Página19). O Malecón é um paredão de 8 quilômetros de extensão, que vai do centro histórico até o Vedado, passando pelo Centro Habana. Ele tem um metro de altura e 60 cm. de largura. É ladeado por quatro metros de calçada e seis pistas em sua avenida. Foi construído em 1901. Ele marca o começo e o fim. A terra e o mar.  

Esta primeira parte tem sete subtemas: 1. A cidade e o escritor (O Malecón, Mantilha, o seu bairro e mais outros onze tópicos de seu envolvimento com Havana, os seus escritores de um modo todo especial); 2. O reguetón de Havana (Um profundo lamento sobre os valores da juventude de Havana. Cantam uma música "plástica, maçante, agressiva e grosseira". Traça ainda um excelente panorama histórico da Revolução, focando na crise dos anos 1990, com o fim da URSS e sobre os jeitos de driblar os problemas que persistem); 3. A maldita circunstância da água por todos os lados (um dos focos é a busca por saídas da ilha, especialmente a de seus escritores); 4. A geração que sonhou com o futuro (É a geração dos anos 1970, a da educação massiva do ensino superior e os seus sonhos, suas decepções e o enfrentamento da crise dos anos 1990. É um dos pontos altos do livro; 5. Sonhar em cubano: crônica em nove innings. (O grande tema é o beisebol, o esporte nacional, que é uma de suas paixões); 6. Fotos de Cuba (Como se vive em Cuba, hoje em dia); 7. Eu gostaria de ser Paul Auster (Sobre a relação com os Estados Unidos, especialmente a de seus escritores).

A segunda parte leva por título - Para que se escreve um romance? Esta parte é bastante autobiográfica. Conta de sua trajetória profissional e a sua opção em ser romancista e de como vive um romancista que vive e escreve em Cuba. Tem cinco tópicos principais que focam os seus principais livros. 1. O sopro divino: criar um personagem (Mário Conde é este personagem, presente em oito de seus romances); 2. O romance que não foi escrito. Adendos a O homem que amava os cachorros (um rico relato de suas pesquisas para a construção dos principais personagens desse romance: Trótski e o seu assassino Ramón Mercader. Este deve ser o seu livro mais conhecido. Cinco anos para escrevê-lo); 3. A liberdade como heresia (segue o mesmo esquema de mostrar as pesquisas sobre os personagens e situações do romance - Hereges -, no caso, os judeus da Amsterdã, dos meados do século XVII. Dois ganham um destaque maior: Rembrandt e Espinosa); 4. O romance de sua vida. José María Heredia ou a escolha da pátria. (mais uma vez o foco é a construção do personagem do romance - O romance da minha vida); 5. Para que se escreve um romance? (Trata-se de um verdadeiro passeio pela literatura universal, buscando os motivos pelos quais grandes autores escreveram os seus romances. Também aparecem os motivos pelos quais ele, Padura, escreve. Outro ponto alto do livro). O romance da minha vida será a minha próxima leitura. Os outros dois mencionados eu já li e passo o link da resenha ao final do post.

A terceira parte leva por título - Vocação e possibilidade. São quatro tópicos analisados. 1. Cuba e a literatura: vocação e possibilidade (uma análise muito objetiva do que foi a Revolução cubana, o seu projeto de alfabetização massiva, o facilitar o acesso ao ensino superior e a sovietização da cultura a partir dos anos 1970, sob o lema de "Dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada". Teriam sido os piores anos para os escritores. A partir da crise dos anos 1990 e com o fim da URSS, os controles foram afrouxados); 2. Revolução, utopia e liberdade em "O século das luzes"  (O século das luzes é um romance político/histórico, escrito por Alejo Carpentier em 1958, portanto, antes da Revolução cubana. Nele o autor mostra suas decepções com as revoluções e a degradação das utopias. Vislumbrei aí um novo romance de Padura, tendo Carpentier como protagonista. Também já localizei o romance para a sua compra); 3. Virgílio Pinera: história de uma salgação (Salgar, no caso, tem o significado de amaldiçoar. Pinera foi, segundo Padura, um "morto civil", o mais proibido dos autores cubanos); 4. Havana nossa de cada dia (são mostradas as diferentes fases da literatura cubana e a sua relação com a Revolução, que termina com "as narrativas do desencanto").

Sem favor nenhum, considero Leonardo Padura um dos maiores escritores vivos de nossos tempos. Ele tem muito claro o porquê da escrita de seus romances. É um dos autores que melhor expressa as angústias existenciais e circunstanciais do ser humano universal, que tem na liberdade o seu bem maior. Deixo a resenha dos dois livros dele, que eu já li:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/o-homem-que-amava-os-cachorros-leonardo.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.html



sábado, 14 de agosto de 2021

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen.

Pelo dia dos pais, recebi de um dos meus filhos, o Iuri, o livro da monja Coen, O que aprendi com o silêncio. De imediato fui acometido de uma enorme curiosidade. O meu maior contato com a cultura budista foi através do Livro de Hermann Hesse, Sidarta. Da monja Coen, além de algumas boas referências, ouvi falar dela, mais precisamente, quando ela visitou o ex-presidente Lula, injustamente preso no prédio da Polícia Federal em Curitiba. Não iria nem mencionar este fato em tempos de tanta intolerância, mas ela mesma se refere ao fato, de uma maneira muito bonita por sinal. Ao Iuri, pelo presente, os meus agradecimentos.

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen. Academia. 2020.

Com certeza, um belo livro, de difícil resenha. Começo então pelo que não encontrei no livro e que foi o que mais me encantou e bem me fez. Nenhuma lição de moral, nenhuma admoestação do que deve ou precisa ser feito, nenhuma manifestação de arrependimento ou sensação de culpa. Apenas um convite ao silêncio para uma busca e um encontro consigo mesmo. Nietzsche se fez presente ao longo da agradável leitura, de seu livro, digamos de memórias, além de muitas reflexões. O "torna-te quem tu és" está onipresente. Mas mais presente ainda esteve o primeiro livro do filósofo alemão, O nascimento da tragédia ou o Helenismo e o Pessimismo. Um clamor pela unidade entre o dionisíaco e o apolínio e um clamor ainda mais forte contra a racionalidade, da bipartição do mundo em bem e mal. Isso não me impediu de ver também um Nietzsche oposto e distante.

Também o agora centenário Edgar Morin, se fez presente pelo seu livro Minha Paris - minha memória, no seu primeiro encontro com a complexidade e da ruptura com o binário: "Embora o conceito de complexidade ainda não estivesse no meu horizonte, era um trabalho complexo que eu realizava ali: conexão entre conhecimentos distintos, em geral compartimentados, identificação de contradições que meu espírito hegeliano-marxista me levava a detectar em lugares onde são ignorados pelo pensamento binário". No rumo da superação, do complexo, do unitário.

Já na apresentação do livro, a monja nos ensina: "Pausas e notas musicais. Como poderia uma existir sem a outra? Somos o pluriverso em movimento. Tudo que existe é o consurgir interdependente e simultâneo. Nada tem uma autoexistência individual, substancial e independente. Cada ser é o todo manifesto e não parte do todo. Surge a responsabilidade, a ternura, o cuidado, a compaixão e, assim espero, a sabedoria perfeita". Vejam bem, não a moral, normalmente uma prescrição para os outros.

O livro é de memórias. Adoro livros de memórias. Anos de formação, raízes históricas e familiares, anos do brotar da vida, tempos de insubordinação, tempos de busca, tempos de interrogações existenciais, tempos de angústias profundas. nada parece ter sentido. Tudo é experimentado. Nada parece satisfazer. Muitos buscam a acomodação, as pessoas mais irrequietas buscam saídas. Coen se tornou a monja Coen. Ela se encontrou no silêncio da reflexão, nos exercícios de domínio do corpo e da mente. Isso foi em Los Angeles, depois de já ter percorrido mundo e mundos.

Este é o relato de seu livro. Cinco capítulos, num vai e vem incessante. Memórias da intensidade de sua vida. De uma infância relativamente tranquila, de um primeiro casamento, já aos 14 anos, da experiência da maternidade, de presenças e ausências, de perdas e de danos, de buscas mundo afora. O Zen Center de Los Angeles modificou a sua vida. Aprendeu a meditar, aprendeu o significado de gestos e rituais e, sobretudo, aprendeu a encontrar-se no silêncio. Leu os mestres históricos do budismo e buscou seus mestres atuais. Foi ao Japão e para a Índia, em busca de aperfeiçoamento. Voltou para São Paulo. Teve dissabores e incompreensões em seu trabalho. É hoje uma grande influenciadora, com canal no You Tube, programa de rádio, palestras e ensinamentos.

O livro tem prefácio de Clóvis de Barros Filho, apresentação da autora, que representa o primeiro encontro com o O que aprendi com o silêncio e cinco capítulos. No primeiro, O instante Zen, ela mostra o seu encontro com o Zen, quando morava em Los Angeles e trabalhava no Banco do Brasil. No segundo, Aprendizados, ela mesma o apresenta - "Saí decidida a abandonar marido, apartamento, cachorro, emprego e me alistar como trainee - aprendiz". É o grande encontro com os mestres do budismo e as suas lições. Buda, Sidarta e os seus continuadores. Tornou-se vegana e a ver a grandeza da natureza e a importância da água. Em duas frases, uma síntese: "Tendemos a separar o misticismo da realidade, como se houvesse uma ruptura entre sagrado e profano. Essa dicotomia no pensar e no viver nos leva a incontáveis conflitos e sofrimentos". 

No terceiro, Novas comunidades, ela apresenta a continuidade de suas experiências de vida, tanto no Japão, quanto no Brasil. um novo casamento e uma nova separação. Novos instantes Zen. No quarto, Memórias inacabadas ela memoriza fatos de sua vida, antes de ser monja. São Paulo, a ditadura militar, sua vida de jornalista, a ida a Londres, memórias de sua infância, sexualidade, puberdade, os avós, a irmã. Neste capítulo ela se desnuda. Mostra a sua vida como de fato ela fora. Deixo uma passagem de sua vida anterior a ser monja, quando vivia em Los Angeles, com marido americano. Uma percepção da cultura, da contabilidade do modo americano de viver:

"Quando fui morar em Los Angeles não sabia exatamente o que iria acontecer. Enquanto meu marido norte-americano procurava trabalho na indústria musical eu o esperava no apartamento de uma jovem atriz. Essa jovem, cujo nome e rosto já não sei, tinha uma filha pequena. Algumas vezes ela saía e me pedia para ficar com a menina. Eu adorava brincar com ela. Mas meu marido ficava furioso.

Se era para ser babysitter ela deveria me pagar ou descontar do aluguel. Ainda mais quando eu divida minha refeição congelada com a criança. Foi a primeira vez que me dei conta da maneira que norte-americanos se tratam mutuamente, como tudo pode ser negócio e precisa ser pago". Neste capítulo ela também apresenta reflexões suas, em forma de poemas.

 No quinto, Da adolescência à vida monástica, ela reconta a sua vida, apresentando novos fatos e situações. Ela assim sintetiza o capítulo: "Mas se tudo é este eu, se tudo está incluído e faz parte, mesmo a procura, mesmo a dúvida, mesmo a ignorância. É possível acessar esse estado mental, chamado de Samadhi. Um estado de tranquilidade serena, que nos permite ver a realidade assim como é e atuar de forma decisiva e clara, com dignidade e compostura. É também neste capítulo que ela relata a visita que fez ao ex-presidente Lula: "Fui visitar o ex-presidente Lula. Adorei conhecê-lo, ouvir e ver seus olhos. Meditamos juntos. Foi antes de seu netinho morrer. Continuaria ele meditando? Nunca mais nos falamos. Pessoas me insultaram por tê-lo visitado. Outras me agradeceram. Não agradamos a todos o tempo todo, já disse Lincoln. Acredito firmemente que a meditação será um dos elementos de transformação social e política de toda a humanidade".

Termino este pequeno interregno do mundo da racionalidade, e pior, da racionalidade, instrumental, que é, infelizmente o nosso mundo real, com uma frase da monja, aposta na contracapa do livro: "Aprendi muito com o silêncio, ensinou-me a ouvir dentro e fora de mim mesma. Ensinou-me a quietude viva e excitante de jamais repetir um instante".

Li hoje (12.08.2021) na página do UOL. Monja Coen, um dos principais nomes ligados à filosofia budista no país será "embaixadora da moderação" da Ambev. A monja com mais de 2,7 milhões de seguidores no Instagram e mais de 500 mil livros vendidos, ajudará à cervejaria a falar sobre "limites e autoconhecimento".  As mensagens falarão de saúde e limites do corpo - e, segundo a empresa, não abordarão produtos e marcas. Seria a necessidade da materialidade do espírito?


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O Quilombo dos Palmares nos tempos do Brasil holandês.

Gostei muito do livro do historiador Evaldo Cabral de Mello, O Brasil holandês. Cabral de Mello reúne e comenta  os principais documentos da época, dando aos historiadores e aos interessados de maneira geral uma obra quase definitiva sobre este período (1630-1654). Mas o objetivo deste post é outro. É o de dar uma visão do que foi o Quilombo de Palmares, sob o domínio e da ótica dos holandeses. Antes do relato deixo o link da resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/08/o-brasil-holandes-evaldo-cabral-de-mello.html

A descrição do Quilombo está na parte II, do livro, O interregno nassoviano (Maurício de Nassau), no capítulo 12, As populações do Brasil holandês. A visão, por óbvio, que os holandeses tinham dos quilombos, era o de sua destruição. Mas vamos à descrição, antecipada de um pequeno comentário do organizador: "A formação de um quilombo nos Palmares precedeu a ocupação holandesa, mas os anos da guerra de resistência permitiu-lhe crescer perigosamente para a segurança das populações da área canavieira. Barleus reportou as providências tomadas ao tempo do governo de Nassau. (Gaspar Barleus é historiador holandês. O texto é retirado do livro História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. O livro está disponível para compra na Amazon).

O Brasil holandês de Evaldo Cabral de Mello. Penguin & Companhia das Letras. 2016.

"Resolveu-se também destruir os quilombos dos Palmares, para onde se dirigia uma aluvião de salteadores e escravos fugidos, ligados numa sociedade de latrocínios e rapinas, os quais eram dali mandados às Alagoas para infestarem as lavouras.

Os palmares são povoações e comunidades de negros. Há dois desses quilombos, os Palmares grandes e os Palmares pequenos. Estes são escondidos no meio das matas, às margens do rio Gungouí, afluente do célebre Paraíba. Distam de Alagoas vinte léguas e da Paraíba, para o norte, seis. Conforme se diz, contam seis mil habitantes, vivendo em choças numerosas mas de construção ligeira, feitas de ramos de capins. Por trás dessas habitações, há hortas e palmares. Imitam a religião dos portugueses, assim como o seu modo de governar: àquela presidem os seus sacerdotes e ao governo, os seus juízes. Qualquer escravo que leva de outro lugar um negro cativo fica alforriado, mas consideram-se emancipados todos quanto espontaneamente querem ser recebidos na sociedade.

As produções da terra são os frutos das palmeiras, feijões, batatas-doces, mandioca, milho, cana de açúcar. Por outro lado, o rio setentrional das Alagoas fornece peixes com fartura. Deleitam-se aqueles negros com a carne de animais silvestres, por não terem a dos domésticos. Duas vezes por ano, faz-se o plantio e a colheita do milho. Colhido este, descansam catorze dias, entregando-se soltamente ao prazer. A esses Palmares se vai margeando a Alagoa do Norte. Certo Bartolomeu Lins vivera entre eles para que, depois de ficar-lhes conhecendo os lugares e o modo de vida, atraiçoasse os antigos companheiros e servisse de chefe da presente expedição.

Os chamados Palmares grandes, à raiz da serra Behé, distam trinta léguas de Santo Amaro. São habitados por cerca de 5 mil negros, que se estabeleceram nos vales. Moram em casas esparsas por eles construídas nas próprias entradas das matas, onde há portas escusas que, em casos duvidosos, lhes dão caminho, cortado através das brenhas, para fugirem e se esconderem. Cautos e suspicazes, examinam por espias se o inimigo se aproxima. Passam o dia na caça e, ao entardecer, voltam para casa e se inquietam com os ausentes. Espalhando primeiro vigias, prolongam uma dança até a meia-noite, e com tanto estrépito batem com os pés no chão que se pode ouvir de longe. Dão ao sono o resto da noite e dormem até as nove ou dez hora da manhã.

Cenas do cotidiano nos quilombos.

O caminho destes Palmares é do lado das Alagoas. Encarregara-se um tal Magalhães, morador nas Alagoas, de comandar uma expedição contra estes Palmares, mas deveria ser tentada só em setembro, porque, adiantando-se o estio, há falta d'água. Assim calcularam os holandeses que poderiam subjugar aquelas populações com uma força de trezentos soldados, armados de mosquetes e espingardas, cem mulatos e setecentos índios guerreando com as suas próprias armas. Os petrechos bélicos eram machados, enxadas, bipenes (machadinha de dois gumes), facões, que serviriam para abrir e aplainar os caminhos, fora os instrumentos empregados nas nossas guerras. Prometiam-se recompensas aos índios, único meio de animá-los para o perigo. Entretanto, a rebelião de São Tomé e os aprestos de Brouwer, que ia partir para o Chile, fez fracassar esta expedição traçada pelo conde e pelo Conselho". Páginas 273-275.

E o quilombo ganhou sobrevida, até o ano de 1694. Uma resistência de mais de cem anos. As primeiras povoações surgiram a partir de 1580. Durante o domínio holandês, outros focos de interesse trouxeram o afrouxamento da vigilância e a consequente expansão do quilombo.

Um adendo. 22.09.2021. "E se aqueles intentos haviam sido efêmeros, sessenta e cinco anos haveria de durar o forte Quilombo dos Palmares, fundado em plena selva brasileira pelo grande chefe Ganga-Zumba, em cujas brandas fortificações de madeira e fibra se arrebentaram mais de vinte expedições militares, holandesas e portuguesas, dotadas de uma artilharia inoperante contra estratégias que renovavam velhos ardis de guerra númidas, usando-se animais, às vezes, para por em pânico o ânimo dos brancos. Invulnerável às balas era Zumbi, sobrinho do rei Zumba, marechal de Exércitos, cujos homens podiam andar pelos tetos das matas, caindo sobre as colunas inimigas como frutos maduros...". Extraído de: CAPENTIER, Alejo. O século das luzes. São Paulo. Global. 1985 (Páginas 242-3).



terça-feira, 10 de agosto de 2021

O Brasil holandês. Evaldo Cabral de Mello.

Por duas vezes já estive nas cidades de Recife e Olinda. A curiosidade sempre fora muito grande. Em Recife andei muito pelo Marco Zero e arredores, pela rua dos judeus, sinagoga, observatório astronômico e por todo o centro histórico. Por óbvio, passei também pelas pontes e fiz passeio fluvial pela cidade. Por Olinda, andei em todas as igrejas, mosteiros e ruas centrais. Fiz uma visita toda especial a Dom Hélder Câmara, por quem nutro uma devoção toda especial, que descansa na catedral.

O Brasil holandês. Evaldo Cabral de Mello (organizador). Penguin & Companhia das Letras. 2016.

Há poucos dias terminei de ler o o mais recente livro do Lira Neto, Arrancados da terra. Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York. A leitura deste maravilhoso livro me aguçou por demais a curiosidade e comprei, de Evaldo Cabral de Mello o livro O Brasil holandês. Devo dizer que Evaldo é o organizador e comentador do livro. O seu trabalho é de primeira grandeza. Ele recolheu e comenta as crônicas e textos que formam a historiografia desse período de 24 anos, de 1630 a 1654, que foi o tempo de O Brasil Holandês. O livro teve a sua publicação no ano de 2010, pela Penguin & Companhia das Letras.

O livro tem ao todo 527 páginas e é dividido em três grandes partes, precedidas de uma apresentação e, após o corpo do trabalho, as notas em que são indicadas as fontes originais dos documentos citados, um glossário, uma rica cronologia e as referências bibliográficas. As três partes levam os seguintes títulos: Parte I. A guerra de resistência; Parte II. O interregno nassoviano (Maurício de Nassau) e a parte III. A guerra de restauração.

Ao todo são apresentados 19 capítulos. Vou apresentá-los junto às respectivas partes do livro. Na parte I temos seis capítulos, a saber: 1. Por que o Brasil? Por que o Nordeste?; 2. A conquista de Olinda e do Recife; 3.  O impasse militar, 1630-2; 4. A ruptura do impasse, 1632-4; 5. A ofensiva final, 1635-6 e 6. Entradas e excursões. Essa parte nos dá uma visão da geografia da ocupação e das formas de resistência espanhola, já que Portugal era dominado nesse período pela Espanha (1580-1640). Adotavam as terríveis táticas de guerrilha, sem enfrentamentos decisivos. Um horror! Impedia-se a produção.

A segunda parte é ocupada por oito capítulos. Vamos a eles. 7. Nassau assume o governo do Brasil holandês; 8.  Do sítio da Bahia (1638) à restauração de Portugal (1640). 9. Governar o Brasil  holandês; 10. Os amigos portugueses de Nassau; 11.  Nassau urbanista e arquiteto; 12. As populações do Brasil holandês; 13. A economia do Brasil holandês e 14. Os últimos tempos de Nassau no Brasil. Em sete anos de governo viveu-se o período de ouro do Brasil holandês. Mas, mesmo um bom governo enfrenta grandes desgastes e dificuldades. É o grande período da Companhia das Índias Ocidentais, uma gigantesca empresa da época. A Holanda é considerada como a primeira grande economia moderna do mundo. 

O local da famosa ponte e o seu pedágio.

Na terceira parte temos mais cinco capítulos: 15. A conjura luso-brasileira; 16. A insurreição; 17. A rotina do cerco do Recife; 18. Rumo aos Guararapes e 19. A capitulação do Recife. Mostra a restauração portuguesa e o problema de lidar com a ocupação holandesa e as dificuldades que isso representou. As hostilidades em muito se deram por conta dos conflitos religiosos entre os portugueses católicos e os holandeses calvinistas e os judeus, temendo a restauração portuguesa e a volta dos Tribunais da Inquisição. Também foi um tempo de surgimento de muitos quilombolas, que se aproveitaram da situação dos conflitos entre lusos e holandeses. Faço um post em separado sobre o Quilombo dos Palmares, o maior de todos, que surgiu nesse período.

Na contracapa do livro temos três parágrafos que dão uma ideia mais precisa do livro. Vamos a eles: "Este volume dá voz aos trechos mais importantes dos livros, crônicas, documentos e cartas do domínio holandês no Brasil (1630-1654), desde as primeiras invasões até a derrota e expulsão dos batavos. Fontes primárias para o entendimento de um dos mais ricos períodos da história brasileira, os textos foram selecionados e comentados pelo historiador Evaldo Cabral de Mello, uma autoridade no período.

Como se estivesse fazendo um documentário, Evaldo Cabral de Mello optou por uma narrativa clara e bem escrita, que conduz o leitor pelos mais importantes escritos da época - com os quais goza de uma rara familiaridade. Com este procedimento, além de produzir uma obra fundamental para historiadores e pesquisadores, Cabral de Mello criou um livro de fácil leitura e de grande interesse geral.

E como pano de fundo, acompanhamos a radical modernização do Recife - que se torna a cidade mais desenvolvida do Brasil -, com a sua nova arquitetura, seus novos costumes e sua nova diversidade populacional, que incluía os calvinistas e os judeus de origem portuguesa vindos para os Países Baixos". Este desenvolvimento custou à cidade de Olinda ser totalmente preterida.


 Uma paisagem revitalizada do Brasil holandês.

Como uma espécie de frase em epígrafe, o autor traz a apresentação do Recife, feita por Gilberto Freyre: "Com o domínio holandês e a presença, no Brasil, do conde Maurício de Nassau [...] o Recife, simples povoado de pescadores em volta de uma igrejinha, e com toda a sombra feudal e eclesiástica de Olinda para abafá-lo, se desenvolvera na melhor cidade da colônia e talvez do continente. Sobrados de quatro andares. Palácios de rei. Pontes. Canais. Jardim botânico. Jardim Zoológico. Observatório. Igrejas da religião de Calvino, Sinagoga. Muito judeu. Estrangeiros das procedências mais diversas. Prostitutas. Lojas, armazéns, oficinas. Indústrias urbanas. Todas as condições para uma urbanização intensamente vertical. Fora esta a primeira grande aventura de liberdade, o primeiro grande contato com o mundo, com a Europa nova - burguesa e industrial - que tivera a colônia portuguesa da América, até então conservada em virgindade quase absoluta. Uma virgindade agreste, apenas arranhada pelos ataques de piratas franceses e ingleses e pelos atritos de vizinhança e de parentesco, nem sempre cordial, com os espanhóis". 

Deixo ainda o link da resenha do livro do Lira Neto, Arrancados da terra.

 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/arrancados-da-terra-lira-neto.html