terça-feira, 27 de maio de 2014

O homem que amava os cachorros. Leonardo Padura.

Ao final de seu magnífico livro, O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura faz uma "nota muito agradecida". Nela conta sobre a concepção e a execução de seu projeto sobre o livro. O ano da concepção é o de 1989, ano profundamente simbólico, com a derrubada de um dos símbolos daquilo que fora uma das principais utopias do século XX , o sonho de Marx, a construção de uma sociedade socialista.  Uma viagem ao México começou a dar forma ao seu projeto. Lá percorreu os lugares por onde se movimentou, por sinal muito pouco, um dos personagens deste sonho, o "renegado" Trotski.
O livro memorável de 589 páginas de Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. Os sonhos do século XX são revisitados. Terminam no Apocalipse.
Quinze anos depois, o livro ocupa efetivamente o cotidiano do escritor, para vir à publico em 2009. O romance chega ao Brasil em 2013, pela Boitempo. Já no início do livro, à página 36, nós lemos num entre parênteses, uma frase que me chamou bastante a atenção: "Falava-se até do 'fim da história', justamente quando nós começávamos a fazer uma ideia do que tinha sido a história do século XX". O século XX e, em especial a grande utopia deste século, é o grande tema da narrativa deste livro. Veja o autor falando da concepção: "Ao enfrentar-me com a sua concepção, passados mais de quinze anos, já no século XXI, morta e enterrada a União Soviética, quis usar a história do assassinato de Trotski para refletir sobre a perversão da grande utopia do século XX, esse processo em que muitos investiram as suas esperanças e tantos de nós perderam sonhos, anos e até sangue e vida. Por isso me ative com toda a fidelidade possível (é um romance) aos episódios e à cronologia da vida de Leon Trotski nos anos em que foi deportado, acossado e, finalmente, assassinado e tentei resgatar o que sabemos com toda a certeza da vida ou das vidas de Ramón Mercader".
A trilogia de Isaac Deutscher, Trotski, o profeta armado, desarmado e banido facilita a compreensão da narrativa do romance.
Assim estão delineados os dois principais personagens do livro, Trotski e o seu assassino, Ramón Mercader. Um terceiro se faz óbvio. É aquele que estará por trás da deportação e do assassinato, ou seja o "grande guia dos povos", Joseph Stalin. Além destes, a lente do narrador está presente ao longo de toda a obra. O autor, ao falar do objetivo do livro destaca colaborações recebidas e que houve a mediação de "anos para refletir, ler, investigar, discutir e sobretudo, penetrar com assombro e horror pelo menos numa parte da verdade de uma história exemplar do século XX e da biografia destes personagens obscuros mas reais que aparecem no livro". Destaca ainda, nas contribuições recebidas, as muitas pessoas que "chegaram a partilhar comigo as próprias vivências e, inclusive, incertezas acerca de uma história em sua maior parte sepultada ou pervertida pelos líderes que, durante setenta anos, foram os donos do poder e, evidentemente, da história".
O escritor cubano, Leonardo Padura

No agradecimento à sua Lúcia fala da generosidade no compartilhamento de "cinco anos de tristezas, alegrias, dúvidas e medos em que dediquei manhãs, tardes, noites e madrugadas a gerar, dar forma e arrancar do meu íntimo esta história exemplar de amor, loucura e morte que, espero, possa explicar um pouco sobre como e por que a utopia se perverteu e, até mesmo, causar compaixão". (págs. 587-9).

No encadeamento do livro estão sempre presentes três focos narrativos que se alternam. O primeiro é o do narrador, que tem o seu posto de observação a partir de Havana, onde ele se encontra repetidamente com O homem que amava os cachorros, que é o personagem de Ramón Mercader. O segundo foco narrativo é o do personagem central, Liev Davidovitch, em suas desventuras na Turquia, na França, na Dinamarca e, especialmente, no México. Nesta parte, entram em cena Diego Rivera e Frida Kallo e relações complicadas. Quem leu a trilogia de Isaac Deutscher, O profeta armado, desarmado e banido tem a leitura deste romance bastante facilitada. O terceiro foco é do assassino Ramón Mercader. Este personagem se reveste de muitos personagens, de acordo com os interesses de Stalin. Sobre estas transmutações farei um post à parte. Mercader é de Barcelona e é descoberto pelos soviéticos stalinistas na Guerra Civil Espanhola. Esta guerra ganha uma das mais belas descrições do livro. Teria sido a URSS a responsável pela derrota dos republicanos?
Segunda capa do livro, ou capa interna. Trotski em 1919, Mercader em 1936 e Trotski e Natália, no México

Na terceira parte do livro - Apocalipse - existe o encontro entre Ramón Mercader e o seu principal mentor, Kotov ou Eitingon, ou mais outros dez nomes que ele teve ao longo da vida. O encontro se dá em 1968 e é dedicado à reminiscências. Dos horrores dos expurgos de Stalin, as denúncias contra ele no XX° PCUS., em 1956 e, como o ano é o de 1968, entra também a desventura da primavera de Praga. Estas retrospectivas é que constituem a riqueza histórica do livro. Mas as descrições dos dramas psicológicos vividos pelos principais personagens são o outro ponto alto deste livro.

O livro recebeu vários prêmios internacionais e já teve tradução para o português, alemão, francês e inglês. Da contracapa do livro eu destaco a apresentação do El Mundo: "Um excelente romance sobre a condição humana e sobre nosso mundo, que vai além da história narrada". e a do L'Humanitè: "Este é um livro construído sobre as ruínas de um sonho".

Na orelha da capa existe uma apresentação do livro feita pelo frei Betto. Existe uma bela contextualização dos fatos históricos deste período, na introdução, escrita pelo historiador Gilberto Moringoni. O autor Leonardo Padura, mora em Havana e o nome dos cachorros, dois barzois, é Ix e Dax.

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