segunda-feira, 5 de maio de 2014

1968. Eles só queriam mudar o mundo.

Entre os vários livros lançados por ocasião da passagem dos cinquenta anos do golpe civil/militar que implantou a ditadura no Brasil, o que mais apreciei foi o livro dos jornalistas Regina Zappa e Ernesto Soto 1968. Eles só queriam mudar o mundo, um lançamento da Zahar. É um livro completo sobre tão complicado e complexo tema, que está enunciado no título, "mudar o mundo". 1968 deve ter sido o ano mais cheio de acontecimentos de toda ordem, que o mundo conheceu. Ano em que os jovens do mundo inteiro brigaram contra um ambiente "insatisfatório, autoritário e injusto". Ano em que o mundo vivia o auge da "Guerra Fria", cada vez mais efervescente no Vietnã. O ano da instauração do terror, da violência e da tortura como prática de estado no Brasil, pelo AI-5.
O livro de Regina Zappa e Ernesto Soto que retrata os grandes fatos do ano de 1968.

O leque de informações é extraordinário. Ora os autores narram os fatos, ora os analisam ou convidam especialistas ou participantes para que também eles opinem. Ainda são apresentados  e contextualizados autores e fatos deste ano. Os meses do ano dão os diferentes capítulos do livro. Para provocar os leitores apresento alguns destes fatos, que compõe o rico calendário deste significativo e emblemático ano, que a tudo contestou e revolucionou, sob o signo da palavra "Liberdade". Vejamos:

Para o mês de janeiro a atenção recai sobre a Guerra do Vietnã e um bom texto sobre o seu grande líder, Ho Chi Minh. No Brasil o foco é sobre a revolução cultural com textos de Chico Buarque de Holanda e José Celso Martinez Corrêa. Nos Estados Unidos é lançado o filme Bonnie and Clide. As atenções do mês de fevereiro estão voltadas, ainda para o Vietnã, para a luta em torno dos Direitos Civis nos Estados Unidos e a radicalização destas lutas com o movimento do Black Power e dos Panteras Negras. No Brasil são analisadas as diferentes dissidências entre a esquerda brasileira, os principais grupos e as opções pela luta armada. Os Beatles se orientalizarão num estágio na Índia.
O livro contem muitas das frases com as quais os muros das principais cidades do mundo eram pichadas. Gostei muito desta.


O mês de março é marcado pela morte do estudante Edson Luís no Calabouço, o massacre americano de My Lai, no Vietnã, com um depoimento de Antônio Callado, correspondente para a cobertura desta guerra. Nos Estados Unidos Lyndon Johnson desiste de disputar a reeleição. Ainda tem um texto de análise dos movimentos de contracultura, e já em abril existe um texto sobre as artes no Brasil, bem como sobre Marighella e Honestino Guimarães. Nos Estados Unidos os Panteras Negras se tornam cada vez mais violentos.

Maio é o mais famoso dos meses deste ano, devido aos acontecimentos ocorridos na França, com a grande rebelião estudantil iniciada na Universidade de Nanterre. No famoso maio de 1968 se uniram todos os estudantes e, possivelmente, pela primeira vez, com os operários. O país simplesmente paralisou. O caos estava implantado. Tem uma entrevista extraordinária com o filósofo Alcione Araújo sobre o significado e as consequências deste emblemático mês. Em junho, na França já começa a dispersão do movimento, enquanto que no Brasil ocorre a famosa passeata dos cem mil, uma das maiores manifestações estudantis de nossa história. Tem texto especial de Fernando Gabeira e sobre a utopia estudantil no Brasil. Nos Estados Unidos ocorre o assassinato de Bob Kennedy.
O mundo mata os líderes do BEM. Comoção no enterro de Martin Luther King.
No mês de julho o encontro do diário de Chê ganha destaque, enquanto que no Brasil a ditadura perde completamente a compostura, apelando cada vez mais para a repressão. O mundo também vê as cenas da mais brutal fome no mundo, a de Biafra/Nigéria. Enquanto isso Hair faz sucesso na Broadway. Em agosto dois grandes episódios deste ano: O esmagamento, pelas forças do Pacto de Varsóvia, da Primavera de Praga e nos Estados Unidos, a Convenção do Partido Democrata em Chicago, sob uma das mais violentas repressões policiais contra os estudantes. Aqui no Brasil ocorre a invasão na Universidade de Brasília. Tem ainda, texto especial sobre o destino dos sete de Chicago.

Em setembro, Márcio Moreira Alves faz o discurso que, em dezembro levaria ao fechamento do Congresso Nacional. Em Portugal o salazarismo continuará, mesmo sem o ditador. Será a vez de Marcello Caetano. Tem texto sobre os avanços do feminismo e sobre a Revolução Cultural na China. Em outubro ocorre a briga dos estudantes da USP contra os da Mackenzie e o CCC nela instalados. Tem relato sobre o Congresso estudantil de Ibiúna, com análise do episódio, feito por José Dirceu. No México ocorre uma das mais violentas repressões contra estudantes, um pouco antes da realização dos Jogos Olímpicos na capital mexicana. Os Jogos Olímpicos foram marcados por atletas americanos negros protestando no pódio de premiação contra a segregação racial no país. Tem texto especial sobre os pensadores da escola de Frankfurt e a sua relação com os movimentos de 1968. E Jacqueline Kennedy vira J. Onassis.
O espírito libertário de Chê Guevara esteve presente em todos os fatos do ano. Eis a sua mais famosa foto, a de Alberto Korda.


Em novembro o republicano Richard Nixon é eleito presidente dos Estados Unidos e são feitas análises sobre o comportamento hippie e sobre o endurecimento da ditadura no Brasil, que culmina com a edição do abominável AI-5, já em dezembro. Ganham destaque as prisões de Caetano e Gil, e texto sobre os avanços na conquista do espaço e uma bela análise de Frei Betto sobre a Teologia da Libertação.  Seguramente 1968 é um dos mais belos livros que li nestes últimos tempos. O destaque do livro é a quantidade de informações que ele traz e a beleza de suas análises.

2 comentários:

  1. Perfeito o seu comentário. Assino em baixo com os meus agradecimentos pelo comentário.

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