terça-feira, 2 de março de 2021

Racismo estrutural. Sílvio Almeida.

A leitura necessariamente chama ou clama por novas leituras. Lendo sobre a questão da escravidão, e a sua permanência dentro da realidade brasileira, mais cedo ou mais tarde, você se depara com o livro de Sílvio Almeida, Racismo estrutural. O livro é extraordinário e, como o título define, o fenômeno do racismo é visto em sua forma estrutural, isto é, ele está nas entranhas do sistema capitalista, colonialista, imperialista, sistema em que estamos inseridos, quer queiramos ou não.
Racismo estrutural. Sílvio Almeida. Jandaíra. 2020. Coleção Femismos Plurais.

Na orelha do livro, Marcelo Paixão, professor do Departamento de Estudos Africanos e Afro-diaspóricos da Universidade de Austin, do Texas, e que foi debatedor com o Sílvio Almeida numa comunicação sobre o movimento negro na Universidade de Harvard, assim se expressou sobre o livro: "O livro Racismo estrutural reflete o que ouvi naquela apresentação. E, como tal, é uma importante contribuição de um jovem intelectual negro para o avanço do pensamento social do país rumo a novas abordagens mais críticas e ousadas sobre os antigos, novos e novíssimos problemas enfrentados pelo Brasil". A partir disso eu faço a minha confissão: com a leitura do livro, pela primeira vez, também eu me senti nesta Universidade, entre os presentes à palestra.

O livro todo é maravilhoso. O encanto me veio já a partir das primeiras páginas, quando o autor fala sobre raça e racismo, de uma perspectiva histórica. Assinalo dois parágrafos que para mim se constituíram na chave para a compreensão do livro. Eles põem em cheque o processo civilizatório do mundo moderno, do projeto do iluminismo. A fundamentação está em Achile Mbembe. São eles: "Achile Mbembe afirma que o colonialismo foi um projeto de universalização, cuja finalidade era 'inscrever os colonizados no espaço da modernidade'. Porém, a 'vulgaridade, a brutalidade tão habitualmente desenvolvida e sua má-fé fizeram do colonialismo um exemplo perfeito de anti-liberalismo'. No século XVIII, mais precisamente a partir do ano de 1791, o projeto de civilização iluminista baseada na liberdade e igualdade universais encontraria sua grande encruzilhada: a Revolução Haitiana". E continua:

"O povo negro haitiano, escravizado por colonizadores franceses, fez uma revolução para que as promessas de liberdade e igualdade universais fundadas na Revolução Francesa fossem estendidas a eles, assim como foram contra um poder que consideraram tirano, pois negava-lhes a liberdade e não lhes reconhecia a igualdade. O resultado foi que os haitianos tomaram o controle do país e proclamaram a independência em 1804" p. 27. Pronto estava instaurado o mundo moderno. O iluminismo virou capitalismo, colonialismo, nacionalismo, imperialismo, escravidão, racismo, apartheid e toda a sorte de dominações e sofrimentos.

A negação dos princípios da liberdade e da igualdade se instauraram nas entranhas da estrutura capitalista em seu todo. Logo o iluminismo se consorciou com o positivismo e procurou legitimar todo o sistema de opressão em nome do processo civilizatório. Além de mostrar essas preciosas observações históricas, o cerne do livro está ancorado em quatro capítulos essenciais, dos quais apresento a estrutura. São eles: 1. Racismo e Ideologia; 2. Racismo e Política; 3. Racismo e Direito; 4.Racismo e Economia. Vamos começar pelo primeiro: racismo e ideologia: Como naturalizamos o racismo; racismo, ideologia  e estrutura social; racismo ciência e cultura; branco tem raça?; racismo e  meritocracia.

O segundo desses capítulos é racismo e política: Mas o que é o Estado?; Estado e racismo nas teorias liberais; Estado poder e capitalismo; raça e nação; representatividade importa?; da biopolítica à necropolítica; racismo e necropolítica. O terceiro capítulo aborda: racismo e o direito. O que é direito?; o direito como justiça; o direito como norma; o direito como poder; o direito como relação social; raça e legalidade; direito e antirracismo.

O quarto capítulo é dos mais importantes, mostrando o entrelaçamento entre o racismo e a economia. As questões levantadas e debatidas são: racismo e desigualdade; uma visão estrutural do racismo e da economia; racismo e subsunção real do trabalho ao capital; o racismo e sua especificidade; sobre a herança da escravidão; classe ou raça?; racismo e desenvolvimento; crise e racismo; o que é a crise, afinal?; o racismo e as crises; o 'grande pânico' de 1873; o imperialismo e neocolonialismo; a crise de 1929, o Welfare State e a nova forma do racismo; neoliberalismo e  racismo.

É a essência do livro, mostrando as interligações do racismo com a ideologia, com a política, com o direito e com a economia. Depois disso é impossível não dizer que o racismo é efetivamente estrutural. O livro é acompanhado de muitas análises históricas e dos melhores referenciais teóricos sobre os temas abordados.

A leitura me fez lembrar de aulas de filosofia que eu dei e me fez buscar duas anotações que fiz ao pé da página do manual de filosofia da Marilena Chauí, Convite à Filosofia, que eu usava muito. A primeira é a frase de Marx, que chama para a necessidade do estudo e da investigação científica; "Se a aparência fosse igual à essência, não haveria a necessidade da ciência" e a segunda é a anotação de quatro palavras, com as quais pode ser instaurada ou explicitada uma base para a dominação e a submissão. São elas: dividir, hierarquizar, naturalizar e universalizar.

E como aperitivo provocativo para a leitura do livro, um parágrafo que fala do atualíssimo tema da austeridade fiscal e de suas consequências: "Chama-se por austeridade fiscal o corte das fontes de financiamento dos direitos sociais a fim de transferir parte do orçamento público para o setor financeiro privado por meio dos juros da dívida pública. Em nome de uma pretensa 'responsabilidade fiscal', segue-se a onda de privatizações, precarização do trabalho e desregulamentação de setores da economia. Do ponto de vista ideológico, a produção de um discurso justificador da destruição de um sistema histórico de proteção social revela a associação entre parte dos proprietários dos meios de comunicação de massa e o capital financeiro: o discurso ideológico do empreendedorismo - que, na maioria das vezes, serve para legitimar o desmonte da rede de proteção social de trabalhadoras e trabalhadores -, da meritocracia, do fim do emprego e da liberdade econômica como liberdade política são diuturnamente  martelados nos telejornais e até nos programas de entretenimento.

Ao mesmo tempo naturaliza-se a figura do inimigo, do bandido que ameaça a integridade social, distraindo a sociedade que, amedrontada pelos programas policiais e pelo noticiário, aceita a intervenção repressiva do Estado em nome da segurança, mas que, na verdade, servirá para conter o inconformismo social diante do esgarçamento provocado pela gestão neoliberal do capitalismo. Mais do que isso, o regime de acumulação que alguns denominam de pós-fordista dependerá cada vez mais da supressão da democracia". p. 206. O livro, entre capítulos e notas, tem 255 páginas.

Por fim a contracapa do livro, por ser bem ilustrativa: "Racismo estrutural traz reflexões inovadoras acerca da construção das noções de raça e racismo.  Depois de fornecer argumentos e tecnologias para a escravidão e o colonialismo, tais conceitos desafiam as sociedades contemporâneas como o Brasil, onde crescem anseios por igualdade racial. A indagação central da obra exige resposta complexa, englobando aspectos históricos, políticos, sociais, jurídicos, institucionais. O autor nos convida à sua demonstração, tecida em análises feitas à luz da Filosofia, da Ciência Política, da Economia e da Teoria do Direito. Com escrita sedutora e admirável erudição, Sílvio Almeida finca o produtivo conceito de racismo estrutural. 

Seu livro constitui-se, desde já, em importante referência para a educação antirracista, calcada nos valores da igualdade, da liberdade e do direito à vida". A referência é da professora Lígia Fonseca Ferreira, da UNIFESP. Sílvio Almeida é professor e advogado, com pós doutorado pela Faculdade de Direito da USP, do Largo de São Francisco.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A República das milícias. Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Bruno Paes Manso.

Normalmente quando converso com o deputado Tadeu Veneri, trocamos ideias sobre livros que estamos lendo. Desta vez não foi diferente. Eu falava para ele do livro do Rubens Casara, Bolsonaro - o mito e o sintoma e ele me falou de A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso. Já conhecia o autor por outro livro seu, sobre a formação e ascensão do PCC, A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, escrito em parceria com Camila Nunes Dias. Deixo o link dos dois livros. Primeiro o de A Guerra - http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/06/a-guerra-ascensao-do-pcc-e-o-mundo-do.html e em segundo, o fantástico livro do Rubens Casara. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/02/bolsonaro-o-mito-e-o-sintoma-rubens.html. Na troca de leituras nunca se tem a perder.

A República das milícias. Bruno Paes Manso. todavia. 2020.

O livro de Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da violência da USP, é estarrecedor. Poucas vezes o título e o subtítulo de um livro conseguem expressar tão bem a síntese de uma obra: A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Na contracapa do livro temos dois depoimentos imperdíveis, junto com a recomendação de Fernanda Torres, de que a leitura do livro se constitui numa obrigação. Os depoimentos são de Luiz Eduardo Soares, autor de Meu casaco de general e de Paulo Lins, autor de A Cidade de Deus. Começamos com o ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro:

"Esta obra rouba a inocência à boa consciência nacional. Ninguém mais poderá dizer que não sabia. A história da Nova República (após a Constituição de 1988) terá de ser contada de outro modo depois deste livro". Uma verdade. Já o autor de A Cidade de Deus, um dos palcos do livro de Manso, nos diz: "Com uma pesquisa primorosa, Bruno Paes Manso nos revela como o crime organizado chegou aos Poderes Legislativo e Executivo, tornando o Brasil um dos países mais violentos do mundo". Nada mais do que uma triste verdade.

Voltamos ao título e subtítulo, por outras palavras: Como as milícias, representadas por Bolsonaro, chegaram ao Poder. Uma longa história de violência. Tudo começou na ditadura militar, com a ala extremada das Forças Armadas, inconformada com a abertura política. A justificativa era a caça aos comunistas, para eles verdadeiros terroristas. Contra eles, toda a violência se justificaria. Violência, tortura e mortes seriam justificadas em nome da manutenção da ordem. Isso fez surgir os chamados esquadrões da morte, que rapidamente migraram para flagrar outros inimigos, que não os comunistas, mas todos os que perturbavam a ordem das "pessoas de bem". O livro se desenvolve, numa sequência lógica irretocável, ao longo de oito capítulos e uma conclusão, divididos entre as 302 páginas do livro. Eis os capítulos:

1. Apenas um miliciano; 2. Os elos entre o passado e o futuro; 3. As origens em Rio das Pedras e na Liga da Justiça; 4. Fuzis, polícia e bicho; 5. Facções e a guerras dos tronos; 6. Marielle e Marcelo; 7. As milícias 5G e o novo inimigo em Comum; 8. Cruz, Ustra, Olavo e a ascensão do capitão - e a conclusão sob o nome de Ubantu, a filosofia que inspirou Nelson Mandela e o bispo Desmond Tutu.

O primeiro capítulo é marcado por uma entrevista com um miliciano, que expõe toda a filosofia que inspira estes grupos de contravenção em nome da manutenção da ordem, da justificativa da violência para impor a ordem. Fala do nascimento das milícias, com a junção de alas ressentidas do exército com as bandas podres das polícias militares, de suas alianças no combate ao Comando Vermelho.  Também mostra as formas de arrecadação que dão sustentação à organização. Fala também da intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. O segundo capítulo é dedicado à formação das milícias na cidade do Rio de Janeiro, a partir da expansão da cidade para Jacarepaguá e Cidade de Deus. Mostra ainda os principais envolvidos, dando destaque para o clã familiar de Bolsonaro. A comoção pela morte de Tim Lopes cria um clima favorável à existência dos justiceiros.

No terceiro capítulo entra em cena a organização da entidade em torno de Rio das Pedras e da Liga da Justiça, como os embriões e cernes da organização. Mostra as formas da organização, da arrecadação e da sua "aliança" com o povo para lhe oferecer proteção. Invasão de áreas, transporte clandestino, construção de lajes, gatonet, venda de gás, achaques e subornos são as principais formas de arrecadação. Tudo em nome da autodefesa das comunidades, contra o poder dos traficantes. No quarto capítulo é mostrada a sua constituição com a união de militares ressentidos com os policiais da banda podre e o jogo do bicho e também com os traficantes não pertencentes ao Comando Vermelho. O pesado mercado de armas também entra em cena. É nesse tempo que nasce o bordão "Bandido bom é bandido morto", nem que seja morto por outro bandido.

No quinto capítulo são mostradas as principais organizações criminosas, como o Comando Vermelho, a ADA e o Terceiro Comando. Ao contrário de São Paulo, onde o PCC se tornou hegemônico no mundo do crime, no Rio de Janeiro nenhuma organização conseguiu se impor. Em meio a essas disputas surge a organização das milícias em aliança com os demais grupos, mais o jogo do bicho,. Todos contra o Comando Vermelho, o que é mostrado no sétimo capítulo. Nesse sétimo capítulo também são mostrados os traficantes evangélicos e os 'Bondes de Jesus', uma verdadeira e inimaginável história de horrores. Também é mostrada a relação com os governadores e as suas políticas de Segurança Pública. Voltando um pouco, o sexto capítulo é dedicado a Marielle e Marcelo, e por extensão, ao PSOL e Marcelo Freixo, em particular. Este sexto capítulo termina com as eleições de 2018 e a ascensão de Bolsonaro, Witzel, Flávio e, o hoje em evidência, Daniel Silveira.

O oitavo capítulo, creio que foi o motivo maior do comentário de Luiz Eduardo Soares, de que ninguém mais poderia se confessar inocente. São devassadas as vidas do entorno de Jair Bolsonaro, as bases de sua formação e o seu sujo e antidemocrático projeto político. No seu entorno estão o general Newton Cruz, Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho e o general Mourão, uma síntese de Ustra e Olavo. Bem pior do que se imagina. 

De Ubantu tomo uma frase, entre as mais significativas: "Bolsonaro venceu a eleição em 2018 porque parte dos brasileiros foi seduzida pela ideia da violência redentora. Diante da crise econômica e da descrença na política, os eleitores escolheram um justiceiro para governá-los. Como se o país decidisse abandonar suas instituições democráticas para se tornar uma enorme Rio das Pedras gerida por princípios milicianos.

Sem dúvida, há espaço para aprender e amadurecer depois do surto bolsonarista. A tristeza e a depressão chegaram porque o Brasil prometido pela Nova República não aconteceu. Bolsonaro foi o sintoma dessa desesperança". Que sintoma! O momento final do livro é uma homenagem a Marielle: 'Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe'? "Bolsonaro veio com a proposta de acirrar a guerra. O surto que levou os eleitores a optar por essa via já faz parte da história brasileira, mas, se tudo der certo, será passageiro. Permanece a mensagem deixada por Marielle, a apontar o único caminho possível".

Concluo com a convocação de Fernanda Torres: "A República das milícias é leitura obrigatória" e a citação de uma frase de Leonardo Boff: "Se os pobres deste país soubessem o que estão preparando para eles, não haveria rua onde coubesse tanta gente para protestar". Este livro faz saber o que estão preparando.


 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Admirável mundo novo. Aldous Huxley.

Quem lê Contraponto, de Aldous Huxley, também lê, do mesmo autor, Admirável Mundo Novo. Huxley é um dos mais refinados e eruditos escritores que a literatura universal conheceu. Há muito que eu pretendia lê-lo, mas sempre adiava o projeto. Desde os tempos da leitura do Érico Veríssimo eu me interessava no Contraponto, em virtude da tradução ser do próprio Veríssimo. Deixo a resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/01/contraponto-aldous-huxley.html. Admirável mundo novo possivelmente seja a sua obra mais conhecida e famosa.

Admirável mundo novo. Biblioteca azul da editora Globo. Tradução de Vidal de Oliveira.

O livro é famoso e todos sabem que fala sobre a sociedade do futuro e sobre condicionamentos. Em geral o seu conhecimento para por aí. Não é leitura fácil. É obra para leitores. Descreve sim, a sociedade do futuro, mais precisamente, a sociedade a partir do ano de 632, depois de Ford. Ford, com certeza, é uma das inspirações maiores da obra, a linha de produção em série de seu Ford T. Creio ser fácil imaginar a associação dessa ideia para uma transposição para os humanos. É disso que se ocupam os primeiros capítulos, o centro de incubação e condicionamentos, a sala de decantação, aceitações por repetição à exaustão, uso de psicóticos para a felicidade, o onipresente soma.

O livro foi escrito no ano de 1931. Contraponto é anterior, de 1928. Que tempos! Um mundo entre duas guerras, a grande debacle econômica e a ascensão do nazi fascismo no seu entorno europeu. Vivia, nessa época, em Londres. Mais tarde irá morar nos Estados Unidos. Lembrando que O mal estar na civilização, de Freud, é de 1930. É o clima. Um mundo de automações, de mecanização, de massificação e padronização de comportamentos, que começam a ser ditados pelo famoso modo de viver dos Estados Unidos.

Para a presente resenha, apresento primeiramente três parágrafos da orelha da capa para depois apresentar alguns trechos que julguei mais relevantes para a compreensão do livro. Vamos à contracapa: "A terra agora se divide em dez grandes regiões administrativas. A população de dois bilhões de seres humanos é formada por castas com traços distintivos manipulados pela engenharia genética: nos laboratórios são definidos os pouco dotados, destinados aos rigores do trabalho braçal, e também os que crescem para comandar. Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O slogan 'comunidade, identidade e estabilidade' sustenta a trama do tecido social. Estamos no ano de 632 depois de Ford - aquele da linha de produção de automóveis -, quando o amor é proibido e o sexo, estimulado.

Tais ingredientes levaram Admirável mundo novo a figurar ao lado de 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, como uma das principais obras antiutópicas do século XX, em que um futuro sombrio aguarda a humanidade. Alguns ainda veem a ficção de Huxley, esse inglês refinado e cultíssimo, uma crítica à crescente influência americana no período entreguerras, que trazia a reboque a cultura de massas e o american way of life.

Este é, acima de tudo, um romance de ideias, que descreve as formas mais sutis e engenhosas que o pesadelo do totalitarismo pode assumir, e que resiste inexpugnável às interpretações político-ideológicas de esquerda ou direita suscitadas desde seu lançamento. Mundialismo, controle genético, adestramento comportamental e intoxicação coletiva não são dados soltos para a mente construir com eles uma utopia: são os órgãos solidários e inseparáveis de um único sistema. Onde quer que apareça um deles, os outros seguirão, mais cedo ou mais tarde. A lógica deste romance imita e condensa a lógica da História. E Huxley, desenvolvendo a sensibilidade a ponto de criar esse retrato ainda hoje tão perturbador, tornou-se o autor de um dos grandes clássicos da literatura mundial".

Bem, vamos aos trechos selecionados, lembrando antes, alguns personagens centrais e uma pequena contextualização. Lenina e Bernard Marx. Estes tiram férias no Novo México e encontram Linda e o seu filho (uma palavra proibida) John e os levam para lhes apresentar o Admirável mundo novo (o termo aparece pela primeira vez na página 171). Destacaria ainda Helmholtz, o amigo de Bernard e Mustafá Monde, o administrador de Sua Fordeza. Eu diria que Ford ocupa, mais ou menos, a figura de Jesus, nessa nova civilização. A religião, como tudo o que é antigo, está condenado a desaparecer. Na página 284 encontramos uma explicação importante: "O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma". Soma é o remédio que anestesia todos os problemas. Mas vamos aos trechos selecionados. No primeiro, Mustafá Mond explica ao selvagem John, o que é o admirável mundo novo:

"...Porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de Otelo (Shakespeare - onipresente na obra). Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não tem medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregados de pais e mães; não tem esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, senhor Selvagem. Da liberdade! - riu. Espero que os Deltas saibam o que é a liberdade! E agora quer que eles compreendam Otelo! Meu caro jovem". p. 264.

Também há solução para os que não se adaptam ao sistema. Mustafá  Mond conta ao Selvagem a experiência do Chipre: "Pois, se quiser, pode chamar-lhe de experiência de reenfrascamento. Começou no ano de 473 d.F. Os administradores fizeram evacuar a ilha de Chipre e, uma vez retirados todos os seus habitantes, recolonizaram-na com um lote especialmente preparado de vinte e dois mil Alfas. Entregaram-lhes todo um equipamento agrícola e industrial, e deixaram-lhes a responsabilidade de dirigir os negócios. O resultado correspondeu exatamente a todas as predições teóricas. A terra não era convenientemente trabalhada; houve greves em todas as fábricas; as leis eram desrespeitadas, as ordens, desobedecidas; todas as pessoas destacadas para um serviço inferior passavam o tempo fazendo intrigas para obter cargos mais elevados e todas as pessoas que ocupavam cargos mais elevados tramavam contraintrigas para, a qualquer preço, ficar onde estavam. Em menos de seis anos, viram-se às voltas com uma guerra civil de primeira ordem. Quando, dos vinte e dois mil, dezenove mil tinham sido mortos, os sobreviventes fizeram uma petição unânime aos Administradores Mundiais para que estes retomassem o governo da ilha, o que foi feito. E assim acabou a única sociedade de Alfas que o mundo viu. p.267-8.

Também a redução da jornada de trabalho não deu certo: "Que mais poderiam pedir? É verdade - acrescentou - que poderiam pedir uma jornada de trabalho mais curta. E, por certo, nós poderíamos concedê-la. Do ponto de vista técnico, seria perfeitamente possível reduzir a três ou quatro horas a jornada  de trabalho das castas inferiores.. Mas isso as faria mais felizes? Não, de modo algum. A experiência foi tentada há mais de século e meio. Toda a Irlanda foi  foi submetida ao regime de quatro horas de trabalho diário. Qual o resultado? Perturbações e um acréscimo considerável do consumo de soma, nada mais....p. 268-9.

Uma última observação. Os principais temas humanos são tratados ao longo dos 18 capítulos do livro. Temas como o amor, a família, o luto e a morte ganham capítulos inteiros. Seria este o motivo da onipresença de citações de Shakespeare ao longo da obra? Tudo a ver. Não foi Shakespeare o escritor que melhor retrata as emoções e os sentimentos humanos? Ainda em tempo. Em 1946 o livro ganhou um prefácio do próprio autor. Nele ele explica as razões pelas quais não iria reescrever essa história. Observem bem a data. 1946. Em suma, uma das obras primas da literatura universal, com a preocupação do humano no futuro da humanidade.



sábado, 13 de fevereiro de 2021

Bolsonaro - O mito e o sintoma. Rubens Casara.

É impressionante o quanto o Rubens Casara se supera a cada livro que publica. Dele já li Estado Pós-democrático - neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, livro de 2017 e Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, de 2018. Deles fiz a resenha no blog. Agora, um pouco tardiamente, li Bolsonaro - o mito e o sintoma, uma publicação de 2020. Sob a luz da psicanálise e da teoria do neoliberalismo, redesenhado e reconfigurado aos tempos atuais, em seu mais elevado grau de perversidade, ele analisa o mito e o fenômeno Bolsonaro.

Bolsonaro - o mito e o sintoma. Contracorrente. 2020.

O neoliberalismo, na sua versão mais recente, alterou profundamente a subjetividade humana, fazendo uma verdadeira reconfiguração antropológica. Nela os seres humanos, as pessoas, ou de forma mais apropriada, os indivíduos se transformam em empresas, o "eu empresa" e a partir disso se lançam no mercado e praticam os seus valores, sendo a competição o mais elevado. É a barbárie sem nenhum limite. Nesse mercado concorrencial desaparecem todos os valores da boa convivência, a começar pelo destroçar da solidariedade, da afetividade, da compaixão, entre outros tantos valores humanos e humanizadores. São substituídos pelo ódio, pelos preconceitos enraizados em nossa formação histórica, preconceitos inconfessáveis, mas que se manifestam sorrateiramente e com orgulho incontido, pelo voto no "mito". 

Essa é a temática central do livro. Muita psicanálise, muita teoria econômica (neoliberalismo) e, acima de tudo, muita análise política, do triste momento que estamos vivendo. A obra obedece a uma lógica impecável, tanto na formal, pela sequência ordenada dos temas, quanto na dialética, pelas intricadas análises das contradições que o bolsonarismo apresenta. Isso nos explica, tanto a eleição, quanto a possibilidade de reeleição, que nos é indicada pelos permanentes 30% de aprovação, obtidos em qualquer circunstância, independentes de bom ou mau governo. Mito é a realidade fantasiosa, fora dos parâmetros da racionalidade.

Os livros anteriores aparecem, especialmente nos primeiros capítulos. Eles nos facilitam o entendimento do momento presente. Na sequência aparece a conjuntura, a análise da realidade que permitiu a ascensão do "mito", um personagem que permite a fantasia da realidade, para ao final, apresentar em dois capítulos a realidade do título, a do mito e a do sintoma. O livro termina com uma convocação para a luta em torno do "comum", palavra com a qual podemos reabilitar a convivência civilizada da humanidade. As grandes referências teóricas que perpassam o livro são os teóricos do neoliberalismo, Pierre Dardot e Christian Laval, Adorno quando se refere a questões do comportamento de massa e personalidade autoritária e Lacan, nos assuntos pertinentes à psicanálise.

Para oferecer um panorama provocativo para a leitura, apresento os títulos dos capítulos. Eles são bastante autoexplicativos. Ao final do post elenco algumas frases em destaque. Os capítulos são relativamente curtos e, como já frisamos, obedecem a uma extraordinária sequência lógica. São 20 capítulos, incluída a conclusão, que, por óbvio, é uma conclamação à reação. Os 20 capítulos estão alinhados ao longo de 157 páginas. Muitas das referências teóricas são de autores que a pouco desembarcaram no Brasil. Vamos aos capítulos, mas desde já, manifesto preferência pelo primeiro, que fala do empobrecimento subjetivo. (É uma questão particular minha, de reflexões sobre a educação em Paulo Freire, no ano de seu centenário. Reflexões sobre a construção do ser humano, pelo desvelar provocativo de todas as suas potencialidades, de uma eterna busca do "ser mais", que necessariamente passa pelo enriquecimento subjetivo, pela soma de alteridades). Mas voltemos à resenha, aos capítulos:

1.O empobrecimento do subjetivo; 2. Da "democracia de baixa intensidade" ao "Estado pós-democrático"; 3. O ponto zero: a criação do monstro Behemoth (personagem da mitologia judaica e explorado na obra de Thomas Hobbes); 4. O combate à corrupção; 5. Propaganda bolsonarista; 6. A nova obscuridade; 7. A paranoia como condição de possibilidade do bolsonarismo; 8. O desejo por autoritarismo; 9. Em busca de um líder; 10 A "nova" política.

11. A defesa do indefensável (o mito conflita com o real, com o racional e, por isso, negacionista); 11.A defesa do indefensável; 12. A autoridade populista; 13. A ignorância como matéria prima; 14. A naturalização das opressões; 15. A revolução cultural bolsonarista (uma naturalização do autoritarismo com muitas aproximações de teses nazistas. É estarrecedor); 16. O bolsonarismo judicial: a tradição autoritária e o modo neoliberal de julgar; 17. Um sub-Trump nos Trópicos; 18. Bolsonaro como mito (realizador dos sonhos infantis, ou infantilizados, de seus eleitores, sonhos fora do real, do racional - isso explica muito de sua aprovação); 19. Bolsonaro como sintoma ("A vitória eleitoral de Bolsonaro permite conhecer algo da sociedade brasileira que ela mesmo se recusa a reconhecer. A crença na violência, o racismo, o machismo, a homofobia, e o antiintelectualismo retornam na forma de voto e apoio a Bolsonaro" p. 147); 20. Conclusão: Pensar em alternativas. O governo Bolsonaro é ou não é um programa para a instauração da barbárie? Assustador.

Pelo fato de Rubens Casara ser mais conhecido no meio jurídico, apresento alguns traços biográficos que constam na orelha da contracapa do livro: "Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais. Estudos de pós-doutoramento na Universidade de Paris X. Professor universitário, Juiz de Direito do TJ do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia "... Seleciono ainda três parágrafos do livro, transcritos na contracapa:

"O que há de novo, e revela a engenhosidade do modelo, é que essa nova forma de governabilidade que surge da crise produzida pelos efeitos do neoliberalismo (desagregação dos laços sociais, demonização da política, potencialização da concorrência/rivalidade, construção de inimigos, desestruturação dos serviços públicos etc.) promete responder a essa crise com medidas que não interferem no projeto neoliberal e, portanto, não alcançam a causa dos danos sociais que levam a cólera e ao ressentimento da população".

"Pode-se dizer que com ele (Olavo de Carvalho) nasce o 'intelectual orgânico' da ignorância. No lugar do 'marxismo cultural', Olavo faz surgir o oxímoro 'ignorância cultural'". E, "Bolsonaro é, de fato, um mito. Vota-se em Bolsonaro porque não se pode dizer o que se quer conseguir com esse voto. O apoio manifesto a Bolsonaro esconde o que não pode ser dito e justifica esse apoio".

E para concluir, tomo a convocação final: "Em suma, para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade, uma normatividade e um imaginário do 'comum', daquilo que vale por ser construído 'por' e 'para' todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável. Por isso é preciso insistir na força do comum, desdemonizar a palavra e refundar o conceito de comum como objeto da política. Não é impossível". p.154. A leitura desse livre se constitui num verdadeiro ato político.

P.S. Eu iria abrir o post, com uma publicação atribuída a Emir Sader, mas não a localizei. Como a acabo de receber, a publico como um P.S. Ela nada tem a ver com o livro, mas bem reflete a irracionalidade do sistema capitalista em sua forma neoliberal: "Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto a maioria dos outros macacos morresse de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da FORBES".

Deixo também a resenha de A nova razão do mundo. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html Comum. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/comum-ensaio-sobre-revolucao-no-seculo.html


I


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Raízes do conservadorismo brasileiro. Juremir Machado da Silva.

Em novembro de 2020, o coletivo de formação da APP-Independente, em conjunto com o NESEF, da UFPR., deram início a mais um trabalho de formação. Dessa vez o curso se destinaria à formação de lideranças para a atividade sindical. O professor Gaudêncio Frigotto fez a palestra de abertura. O tema trabalhado foi "Estado, educação e sindicalismo no contexto da regressão social". Em sua fala, Frigotto fez uma série de recomendações de leitura e isso me fez retomar uma série delas. Já li e resenhei Octávio Ianni, Guido Mantega e o padre Joseph Comblin.

Entre as indicações, me chamou particular atenção a indicação de Raízes do conservadorismo brasileiro - A abolição na imprensa e no imaginário social, de Juremir Machado da Silva. Conhecia o autor pela sua biografia de Jango e pelas suas participações nos programas da Rádio Guaíba e artigos no Correio do Povo. Vi, agora, que ele não está mais na Rádio Guaíba, mas que continua no Correio do Povo. Depois que esses órgãos da imprensa gaúcha passaram a ser controlados pelo Edir Macedo, eu deixei de acompanhá-los. Vi também que ele é professor na PUC/RS, nos programas de pós-graduação nos cursos de Comunicação Social. É formado em História e em jornalismo pela mesma instituição. É mestre e doutor pela Sorbonne, tendo trabalhado sob a orientação do professor Edgar Morin.

Raízes do conservadorismo brasileiro. Juremir Machado da Silva. Civilização brasileira. 2018.


Na capa do livro, encontramos uma imagem que está no Instituto Moreira Salles - "Negra com criança nas costas", Bahia,c. 1870. Registro isso, para dizer que o tema central do livro é a escravidão, ou como lemos no subtítulo, mais precisamente a abolição. É um mergulho no antes, no fato em si da abolição e também um pouco no seu período posterior. Daí o belo título Raízes do conservadorismo brasileiro. Foram quatro anos de pesquisa, 38 capítulos, divididos entre as 446 páginas do livro. 

Ao longo da obra o autor examina essencialmente os discursos parlamentares e os artigos da imprensa que foram proferidos e escritos na época da abolição, começando pelas leis que a antecederam e que basicamente tinham o interesse em protelá-la. Foi um trabalho árduo. Entre os parlamentares o grande destaque - a favor da abolição - foram os discursos de Rui Barbosa e de Joaquim Nabuco. Já entre os contrários, vou me ater a três nomes, o escritor José de Alencar, o paulista Senador Paulino de Souza e o barão de Cotegipe. Nas atividades de imprensa o destaque vai para três personagens negros: Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio.

Perpassa todo o livro o desmonte do argumento principal em favor da escravidão, que é a defesa do "inviolável" direito de propriedade. Todos os protelamentos se basearam nessa argumentação. E, em seu nome, ainda lutaram até as últimas forças, pelo direito de indenização pelo Estado. Neste ato não foram bem sucedidos. O argumento em favor da abolição sempre foi o de que não pode haver "mercadorias humanas". Os horrores do tráfico e da escravidão estão bem presentes e ganha também destaque a atuação das forças institucionais como o exército e o Poder Judiciário a favor da manutenção de tão nefasto e imoral privilégio. Esse contexto todo merece muito a leitura do livro. É uma entrada nos meandros jurídicos.

Também a literatura ganha um capítulo, com atenção especial para Machado de Assis, José Lins do Rego e Josué Montello. É, como lemos no subtítulo, A abolição na imprensa e no imaginário social. Para uma melhor visão da obra, destaco um parágrafo da orelha do livro: "Ciente de que a liberdade não foi uma concessão, mas uma árdua conquista das pessoas negras, o autor demonstra como a estrutura do capitalismo comercial escravista se traduziu - e ressoa ainda hoje - numa intrincada legislação, elaborada para atender a determinados interesses, e num imaginário cultural e ideológico, edificado para justificar a manutenção de privilégios - mesmo que isso implicasse, na época, a desumanização e a coisificação das pessoas".

Para dar uma melhor ideia em torno do livro, dou o nome dos capítulos, embora eles sejam muitos: 1.  Manchetes da segunda feira, 14 de maio de 1888; 2. Parasitas pedem medidas contra a 'vagabundagem'; 3. Lei áurea - 'Inconstitucional, antieconômica e desumana'; 4. Como a cria de qualquer animal e cotas de negros para brancos; 5. Sofismas escravistas de José de Alencar, o escritor e político que votou contra o Ventre Livre; 6. O antiescravismo precoce de José Bonifácio, o velho; 7. A abolição na Câmara dos Deputados e no Senado: a vontade política contra as manobras regimentais; 8. A doença do imperador refém da imprensa; 9. Seis dias inesquecíveis em maio de 1888; 10. Seis senadores votaram contra a abolição.

11. Lenta, gradual e infame; 12. A retórica fulminante de Joaquim Nabuco; 13. Lenda da criação do preto; 14. O emancipacionismo temeroso de Perdigão Malheiro; 15. O grito de guerra de Rui Barbosa; 16. leis antiescravistas que nunca 'pegaram', projetos de abolição e africanos livres que não eram livres; 17. Direito à infâmia; 18.Não se nascia livre pela lei do ventre Livre; 19. Não se ficava livre aos 60 anos pela Lei dos sexagenários; 20. Lutas no campo jornalístico; 21. Jornais abolicionistas e jornais na abolição; 22. A hipótese radical: por que os escravos não mataram todos os seus donos; 23. Senhores e feitores assassinos, um crime exemplar.

24.Os caifazes de Antônio Bento; 25. Heróis negros da abolição (Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio); 26. Matar um senhor de escravos é sempre legítima defesa; 27. Províncias abolicionistas e tráfico interprovincial; 28. Tráfico na bolsa de valores; 29. Abolição, imigração e racismo; 30.Abolição com ou sem negros? 31. O 13 de maio na ficção ou como ficção; 32. Escravizar como missão sagrada e alforria para morrer pela pátria; 33. Commodities humanas e marfim; 34. A cerimônia da sanção da Lei Áurea; 35. Festa nas ruas; 36. Holocausto negro: raízes do racismo e do conservadorismo brasileiros; 37. O ponto de virada. 38. O papel de dom Pedro II na abolição. Acompanha ainda uma rica relação bibliográfica.

Do capítulo 36, escolhi uma frase que bem sintetiza o título do livro As raízes do conservadorismo: "Depois da explosão da alegria do dia 13 de maio de 1888, o pior aconteceu. A imprensa voltou a ser dominada pelo conservadorismo com horror das massas. O racismo espalhou-se com um novo impulso. A justiça retomou sua função ideológica tradicional e sua tarefa rasteira de punir as camadas menos favorecidas economicamente da população sem lhes conceder o benefício do desespero. Um setor do exército, no entanto, cumpriria, nos anos 1920, com o chamado tenentismo, um papel revolucionário, ajudando a abrir caminho para a ruptura institucional de 1930. Em 1932, porém, parte dessa força rebelde se enfileiraria com os 'saudosos do antigo regime', sob a cobertura de uma pretensa reconstitucionalização do país. Os revoltosos de 1932 gerariam os golpistas de 1964. A incorporação dos excluídos - os descendentes dos escravos transplantados de terras africanas - seria postergada a cada governo". pp. 418-9.

E o que dizer do Golpe de 2016? Sempre a presença dos mesmos, do golpe que sempre paira no ar. Sem dúvida, a leitura desse livro (Civilização Brasileira, 2018) é um ato de grandeza política.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Sonho de professor do Paraná. Sebastião Donizete Santarosa.

Hoje, mais uma vez, pedi permissão para o meu amigo Sebastião, para a publicação de um texto seu. Esse texto é uma perfeita análise de conjuntura sobre o que está acontecendo com a educação pública no estado do Paraná, sob o comando de um homem de negócios, profissão de origem do secretário. Quanto ao texto, me abstenho de tecer comentários por considerá-los desnecessários, tal a sua força. Vou me permitir apenas uma observação e uma epígrafe. A observação, a tomo da memória das aulas de teorias pedagógicas, que nos apresentam três vertentes fundamentais: a escola tradicional, a escola nova e a escola tecnicista. A escola tradicional se centra no professor; a escola nova, no aluno e a escola tecnicista - nem no professor, nem no aluno, mas nos meios. Que escola é essa?

Quanto a epígrafe, que creio refletir bem os ideais e sonhos de formação humana do professor Sebastião, a retiro da revista CULT, ano 24 - Janeiro 2021 - edição 265.

"Não sou de forma alguma um otimista [...] sou um prisioneiro da esperança". Cornel West, filósofo e ativista estadunidense. Afrodescendente. 1993.

Sonho de professor do Paraná.

Hoje, vésperas de início de ano letivo em tempos de pandemia, tive um sonho como se fosse uma fotografia. A sala de aula estava cheia. Conversas, risos, reflexões provocativas, brilho nos olhos, esperanças brotando à flor da pele. Era a magia do ensinar e do aprender. Era a escola da alegria, do culto à liberdade e ao direito de criação e de recriação da própria vida.

Mas, em um de repente, de forma muito rápida sem que ninguém esperasse, se fez um silêncio nebuloso. A porta da sala de aula se abriu e uma sombra gelada invadiu corpos e mentes dos estudantes. Pela mesma porta, entrou um sujeito magro, cheiroso e muito bem vestido. Em seu rosto se estampava um sorriso. Um sorriso estranho e assustador. Ele deu um bom dia a todos quase gritado. Em uma de suas mãos, o sujeito sorridente segurava uma corda. Em trejeitos de uma dança macabra, começou a puxar essa corda. Presos a ela pelos pescoços, começaram a surgir na sala os professores da escola. Cabeças caídas, corpos amarelados, mãos amarradas atrás das costas, bocas amordaçadas. "Entrem, queridos mestres. Vocês são o que a escola tem de mais importante. Sem vocês, jamais atingiremos nossos objetivos", bradava a voz do sujeito sorridente, dominando todos os espaços da sala e congelando o tempo. "Entrem. Entrem. Vejam o que eu lhes ofereço. Nosso estado, graças a vocês, terá a melhor educação do Brasil".
Procurei no Google uma imagem que correspondesse com a do sonho do Sebastião. Sombria.


De uma grande sacola de supermercado, ele foi retirando equipamentos eletrônicos e colocando-os à frente dos professores amarrados. Eram celulares, computadores, câmeras, telefones, antenas, microfones, lâmpadas, televisores, coisas que nem sabíamos o que eram de verdade. "Vejam a maravilha dos recursos que trago para vocês. Nunca mais vocês precisarão se aborrecer preparando aulas e corrigindo provas". Como mágico em um palco, ele tentou ligar um dos equipamentos para demonstrar a maravilha que era. Mexeu em um e em outro botão. Não funcionou. O sorriso em seu rosto deu uma encrespada, amarfanhou-se. Uma teia de rugas se formaram ao redor de seus olhos. Parecia estar ficando muito irritado, mas rapidamente retomou a postura inicial de confiança e disse que os professores iriam ter formação para trabalhar com aquele equipamento, eram só detalhes.

Voltou -se para os alunos: "O que falta para nossos professores é domínio tecnológico. Muitos, infelizmente, ainda são verdadeiros analfabetos. Faremos testes seletivos anualmente para contratar novos professores, mais capacitados. Vamos criar meios para demitir aqueles que não se atualizarem.

Queremos construir a melhor educação do Brasil. Isso se faz com tecnologia e com gente preparada para lidar com ela". Os alunos, em silêncio petrificado, pairavam os olhares ao horror da presença dos corpos dos professores mortificados. O sujeito sorridente e bem vestido voltou -se novamente para eles: "A escola é para vocês. O mais importante é vocês aprenderem. Estou organizando muitos conteúdos, slides e exercícios que vocês receberão pela internet na casa de vocês todos os dias. Vocês farão quatro provas de avaliação por ano. Vou colocar a polícia na escola para garantir a disciplina. Vou ensinar educação financeira pra vocês deixarem de ser consumistas. Vou tirar da escola essas disciplinas chatas que obrigam vocês a ter que pensar. Eu vou, eu vou..."

E, como um disco riscado, uma fita enroscada, uma carta mal escrita ou um live com falhas de conexão, o sujeito sorridente começou a gaguejar. Raios de sofrimento inundaram seu rosto. Fazia um esforço enorme para articular as palavras. De sua boca saiam grunhidos que ninguém entendia. Ele era agora uma máquina enguiçada, um motor estragado. De sua cabeça começou a sair fumaça. Começam a saltar parafusos e molas das pernas, dos braços, do abdômen. Do peito brotou uma lâmina afiada derretendo.

Sob os olhares atentos e estupefatos dos estudantes, os professores começaram a levantar as cabeças, soltavam um a um os nós que prendiam as mãos e tiravam as cordas dos pescoços. Seus rostos começavam a ganhar cor e seus olhos voltavam a brilhar. Juntos, de mãos dadas, fizeram um círculo em torno do monte de peças soltas que até há alguns minutos formavam o sujeito sorridente e bem vestido. Com uma vassoura e uma pá de lixo, colocaram o monte de molas e de parafusos queimados no saco plástico do supermercado, aquele mesmo onde estavam os equipamentos eletrônicos. A sombra fria foi se desfazendo.

Reecantados, professores e estudantes estampavam em seus rostos um sorriso alegre de quem ama a vida, de quem quer ensinar e aprender para torná-la ainda mais alegre e mais bonita. Dia 18 de fevereiro começa a nossa greve. #forarenatofeder é um imperativo ético.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Sobre educação - gratidão - invisibilidade e imensurabilidade de seus resultados.

Confesso que os tempos que estamos vivendo não são os melhores. São tempos meio depressivos. Tempos de afirmação de cloroquina e ivermectina, símbolos maiores dos tempos negacionistas que se instalaram nas altas esferas de poder desse "pobre país". Estamos assistindo o triunfo das nulidades e das indecências morais e éticas. Na educação - então! A formação humana, na concepção de Bildung ou Aussbildung se transformou em inimiga dos governantes dessa geração cloroquina no poder. Tempos de triunfo do antiintelectualismo.

"Constituído de modo correto e sem falha, nas mãos, nos pés e no espírito" (Página 13). Um conceito símbolo retirado de um livro símbolo sobre a educação como formação integral do ser humano. Paideia - a formação do homem grego, de Werner Jaeger. Martins Fontes.

Particularmente, no campo da educação, as forças do mercado instaladas no poder estão reduzindo a nobre função de formar o ser humano em um mero adestramento em "habilidades e competências", uma redução à qual, creio, nem mesmo os adeptos das teorias do "Capital humano" conseguem se conformar. Particularmente, no Paraná, os destinos da formação humana estão sendo entregues ao coturno e à continência. A beleza e a leveza do ser humano estão sendo pisadas pelas botinas e entregues à sanha das marchas e dos uniformes. Bem ao gosto...

E, ainda mais particularmente, no campo da educação um dos setores mais minados é o campo da avaliação. Movido pela sanha do controle externo, de setores estranhos ao processo educativo, os  seus resultados são milimetricamente observados e servem, inclusive, de parâmetro para financiamentos. Todo o processo educativo, de longa construção histórica, é submetido à avaliação, ao IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Em nome dele, todo um sistema de falsificação de dados é instituído. 

Mas chega de lamentações! Ante esses tristes valores dominantes - a força do humano resiste e, qual "água nova brotando", estão se formando novos fluxos de esperança e de humanidade para os quais não haverá forças que os consigam conter. São as lições da história.

Em meio a esse estado psicológico que estamos vivendo, aprofundado por uma consciência social e desejo de humanidade, recebi um confortável e animador afago. Ele, de forma inesperada, me veio pelo Messenger e, confesso, me fez um bem enorme. Acima de tudo fortaleceu as minhas convicções de que a educação, acima de tudo, é presença, presença interativa, de encontro, soma e absorção de alteridades. As diferenças que se somam e se multiplicam. É óbvio que o sistema educacional não prescinde de planejamento, estabelecimento de objetivos e de avaliação. Mas deixo aqui a minha crença de que os seus melhores resultados serão sempre intangíveis e inalcançáveis pelo olhar dos sistemas avaliativos. Os seus melhores resultados penetram nas entranhas do ser humano e nele se instalam definitivamente para orientarem e darem direção a vidas. São as raízes.

Como estou tecendo considerações para além do conteúdo da mensagem recebida e, como esta me veio de forma privada, mantenho o missivista no anonimato mas, quero publicamente retomar o agradecimento que já manifestei privadamente. Fica aqui registrada a minha gratidão e o meu agradecimento. Eis o teor do afago recebido:

"Oi, professor, tudo bom? Fiz aula contigo nos anos de 2009/2010, curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo (na época Unicenp ainda).

Estou passando para te agradecer. Levei comigo duas grandes lições suas (na verdade foram muito mais, mas essas duas foram as mais marcantes). A primeira é que você sempre falava: “tem um monte de curso ensinando aí: leia 200 páginas em uma hora. Vou lançar um curso: leia 5 páginas em duas horas”. Isso mudou profundamente meu contato com a leitura e o estudo. Não fico mais ansioso ao passar um longo tempo apreciando e entendendo poucas páginas. Saber valorizar a profundidade de cada palavra e frase com certeza foi um grande ensino que você me passou. O segundo ensinamento foi uma frase linda: “só voa livre quem tem raízes em algum lugar”. Volta e meia essa frase volta a minha vida, e se encaixa perfeitamente em diversas situações. Era isso. Acredito que a gratidão move o universo e queria te agradecer por ter me presenteado com esses valiosos ensinamentos, mais de 10 anos atrás. Abraço!"

Contextualizando um pouco, relembrando as situações em que esses fatos ocorreram. As minhas aulas sempre foram entremeadas de muitas conversas sobre os momentos vividos. A primeira situação, lembro bem. Era comum que nas feiras universitárias de livros que eu frequentava, sempre havia os "ofertadores" desses cursos de "leitura dinâmica". Creio que era assim que se chamavam. Faz parte da pressa e do aligeiramento da formação. O mundo tem pressa. É a pressão por resultados. A pressão tem consequências.

O segundo fato, também o tenho muito presente. É a presença de Paulo Freire em minha formação. É dele esta frase norteadora. Voar implica em liberdades. Voar exige desprendimentos, exige experimentar inseguranças, desassossegos e desconfortos. Voar está acima das planuras. Mas, com certeza, raízes nos impedem de nos perdermos nos imensos temporais da vida.

Assim está registrado meu agradecimento ao querido aluno dessa mensagem e também a minha indignação diante dos rumos que a formação humana está tomando pelas mãos dos homens unidimensionais do mercado. Afinal, sem a indignação, oriunda da tomada de consciência da situação, não haverá reação. Reação necessária para que o humano e não o econômico volte a ser o princípio norteador de nossas vidas.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Samuel Wainer. O homem que estava lá. Karla Monteiro

Cheguei ao livro Samuel Wainer - o homem que estava lá, de Karla Monteiro, através da coluna do "Ultrajano", numa nota em que ele falava sobre a atuação dos militares brasileiros nos atribulados anos que se seguiram ao golpe civil/militar de abril de 1964, relatada no livro. Não tive dúvidas. Fui em busca do livro. Quando vi que era um lançamento (edição de 2020), não hesitei em comprá-lo. O livro é denso, mas a sua leitura flui espontaneamente, de forma especial para aqueles que, de uma forma ou de outra, acompanharam os fatos deste tão conturbado período de nossa história.

Samuel Wainer - o homem que estava lá. Karla Monteiro. Companhia das Letras. 2020.

Como falei, trata-se de um livro denso. São 583 páginas, divididas ao longo de 29 capítulos, entremeados de um belo bloco de fotografias. Além do tema específico, retratando a vida do ilustre biografado, temos também um passeio (não tão agradável) pela nossa história, dos anos 1930 até os anos 1980. Três presidentes são retratados vivamente. Três presidentes, de quem podemos seguramente dizer, que conviveram e desfrutaram da intimidade com o famoso jornalista, de quem tomaram inúmeros conselhos. Três presidentes que marcaram profundamente a nossa história. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Adentra também na vida dos presidentes generais, até Ernesto Geisel. Lula já aponta lá no horizonte, com as greves dos metalúrgicos no ABC.

Samuel Wainer foi um personagem ímpar em nossa história. Sabe-se, com certeza, que nasceu na Bessarábia, atual República da Moldávia, pequeno país de 3,5 milhões de habitantes, exprimida entre a Romênia e a Ucrânia. Esse fato marcou profundamente a sua vida, pois, os seus documentos provam ter nascido no Brasil. Mas - essa já é uma parte da sua biografia. A descendência é judaica. Seus pais fugiram das tempestades que já se prenunciavam na Europa, logo no início do século XX. Em seu registro oficial, consta que nasceu em São Paulo em 1912. Seus pais se estabeleceram no Bom Retiro, mas Samuel logo se mudou para o Rio de Janeiro, se estabelecendo na Praça Onze, tido como o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro. Iniciou-se no jornalismo, nos periódicos judaicos da cidade. 

O maior feito de sua vida foi, com certeza, a fundação do jornal Última Hora, um jornal de cunho nacionalista e popular, ao contrário da tão elitizada e colonizada mídia brasileira. Seu jornal, estabelecido nas principais capitais brasileiras, teve uma duração de vinte anos e revolucionou a imprensa brasileira em tudo, desde a parte gráfica até o salário dos jornalistas. Era apaixonado por lindas mulheres, pelo poder, mas acima de tudo, pelas redações de seus jornais.

Como é um livro longo, a resenha se torna difícil de fazer. Como o objetivo desse post é dar uma ideia do livro e provocar a sua leitura, passo a relatar alguns depoimentos que se encontram na contracapa e orelhas do livro O primeiro deles é da historiadora Heloísa Starling: "Um livro sensacional. Não só pela articulação da história de Samuel Wainer com o Brasil e a imprensa, mas por seu engenho narrativo. Karla Monteiro põe os personagens e os acontecimentos em cena com autonomia e grande sensibilidade, sem aliviar para o lado de ninguém, nem mesmo para o de Wainer. O homem estava lá mesmo - e ganhou uma grande biógrafa para mostrar isso". O segundo é de outro biógrafo famoso, o biógrafo de Marighella, Mário Magalhães: "Samuel Wainer, um dos gigantes da história do jornalismo brasileiro, encontrou em Karla Monteiro uma biógrafa à altura do biografado. Sorte dos leitores".

Da orelha, tomo três parágrafos, que focam na importância do biografado: "Um dos mais influentes e poderosos personagens brasileiros do século XX, Samuel Wainer apareceu para o Brasil nos anos 1940 com o semanário Diretrizes, uma revista que marcou época, reunindo em suas páginas nomes como Jorge Amado, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Moacir Werneck de Castro. Mas foi nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, que começou a deixar sua marca: Getúlio Vargas, recluso após sua deposição em 1945, aceitou quebrar o silêncio e anunciar, em uma entrevista ao jovem repórter, seu retorno à arena política. Cercado de controvérsias, por décadas, trata-se de um dos furos míticos da imprensa brasileira.

Da relação entre fonte e jornalista nasceu uma sólida aliança. De volta ao Catete como presidente eleito, no pleito de 1950, Getúlio deu a Samuel um jornal, financiado pelas benesses da alta burguesia que rondava o poder: a Última Hora, publicação que transformaria a indústria da notícia no país. Primeiro e único diário de orientação trabalhista e nacionalista da grande imprensa, a UH revolucionou em várias frentes: no design; na cobertura de futebol e causas sociais; e, sobretudo, nas relações de trabalho, ao aumentar substancialmente o soldo dos repórteres. Ao longo de duas décadas, Wainer  transformou a UH numa gorda cadeia, chegando a sete capitais, além de manter sucursais em Brasília e no interior de São Paulo.

A trajetória de Samuel reúne fatos incomuns para um barão da nossa imprensa. Nos anos 1950, protagonizou a primeira CPI midiática da história do Brasil, instaurada para investigar a origem do dinheiro que permitiu a um repórter sem vintém fundar uma rede de jornais. O adversário Carlos Lacerda chegou às últimas consequências, tentando lhe cassar, inclusive a nacionalidade brasileira. Na década de 1960, esteve ao lado de Jango até o momento em que o presidente deixou o Palácio das Laranjeiras para voar rumo à queda. Verdadeira  caixa-preta do poder - foi o homem de três presidentes: Vargas, Kubitschek e Goulart -, Wainer defendeu, ao longo da conturbada carreira, uma ideia peculiar: jornal tem lado. Para ele nunca houve dúvida - embora, em questão de dinheiro, ele jamais tenha sido exatamente kosher".

Karla Monteiro, a biógrafa, nasceu em Diamantina, a cidade de JK. Formou-se em jornalismo na PUC/Minas Gerais e já trabalhou nos maiores órgãos da imprensa brasileira. Também é escritora. O livro é uma publicação da Companhia das Letras, do ano de 2020. Um livro para os brasileiros, especialmente para historiadores e jornalistas. Alô meus ex-alunos do curso de jornalismo! É a leitura do próximo bimestre! Uma leitura necessária e, da minha parte, quero expressar um grande desejo: que o charme do Wainer te seduza à leitura do livro.

Não poderia também deixar de citar, de Amós Oz, a frase em epígrafe no início do livro: "às vezes o pior inimigo da verdade são os fatos".



sábado, 9 de janeiro de 2021

O Sol também se levanta. Ernest Hemingway.

Mais uma leitura sem uma grande definição de escolha. Sem livros novos para a leitura, recorro a minha estante. Ainda sobram alguns volumes da coleção "Os Imortais da Literatura Universal". Entre eles puxei O Sol também se levanta. É óbvio que foi pelo autor. Ernest Hemingway teve a mais forte influência. O livro é de sua primeira fase, a fase que ele passou em Paris. Os livros de Hemingway se confundem com a vida do autor, ou seja, são totalmente autobiográficos.

O Sol também se levanta (1924). Tradução de Berenice Xavier.

Para melhor situar o livro vamos a uma contextualização do autor e da obra. Ele nasce em Illionois em 1899, vindo a morrer em Idaho, em 1961. A sua morte foi por suicídio, o mesmo fator de morte, que já fora o de seu pai. Sua vida sempre foi extremamente agitada, vivendo grande parte dela na Europa, uma Europa agitada por guerras e, entre elas, a ascensão dos regimes fascistas, como a do ditador Franco, da Espanha. Essa ascensão do fascismo espanhol o envolveu profundamente, sendo tema de um  de seus grandes livros, Por quem os sinos dobram. Foi voz forte no seu combate e também não faltou a sua ajuda financeira.

A profissão de Hemingway sempre foi o jornalismo. Depois migrou para a literatura. No livro de biografias que acompanha a coleção encontramos alguns dados valiosos da sua maneira de viver e de se defrontar com o mundo. Isso mesmo, se "defrontar" com o mundo. Como viver num mundo desses? Depois de uma participação na Primeira Guerra Mundial ele viverá nos Estados Unidos a situação que levará o país à sua grande debacle econômica, com a quebra da Bolsa de Valores em 1929. Antes porém, ele já se mandara para a Europa, onde integrará o famoso grupo de escritores da chamada "geração perdida", dos anos 1920, comandada por Gertrud Stein. Em Paris, onde chega em 1921, divide o tempo entre a observação dos acontecimentos que relata para a imprensa dos Estados Unidos, a escrita de romances e a beber com os amigos.

Por influência de Gertrud Stein abandona o jornalismo para se dedicar integralmente à literatura. Já em seu primeiro livro Nosso Tempo estão presentes os temas que o acompanharão por toda a sua vida de escritor: os horrores da guerra, a hipocrisia da classe média americana, a coragem dos toureiros... Vamos acompanhar o livro biográfico: "Para se documentar sobre touradas, havia viajado à Espanha, onde entrevistou espectadores, críticos e toureiros. Voltaria outras vezes a esse país, onde assistiu a dezenas de touradas a que se refere em O Sol também se levanta, ou em À tarde". O primeiro livro data de 1924 e o segundo de 1932. O livro de biografias segue na indicação da paixão por este tema: "A luta entre o homem e o animal, afirma, é uma ressurreição do paganismo, um espetáculo mágico que demonstra a naturalidade dos espanhóis em face da morte. Eles 'sabem que a morte é a realidade inevitável... a única certeza que está além de todos os confrontos modernos'".

Sobre o livro especificamente lemos o seguinte: "Os acontecimentos que originaram O Sol também se levanta tiveram lugar na Espanha, no verão de 1924. Hemingway viajara para Pamplona, afim de participar da fiesta, ao acontecimento tradicional que consiste de uma semana de danças, procissões, missas e touradas. A principal atração é soltar os touros pelas ruas para que os populares assumam o papel de toureiros improvisados. Durante a fiesta de 1924, um amigo de Hemingway saiu ferido e o escritor, indo salvá-lo, foi arremessado à distância, com ferimentos generalizados. Só não morreu porque os chifres estavam envoltos em panos que suavizaram o choque. A partir desse fato escreveu o romance, que tem como personagens alguns americanos 'exilados' em Paris que se dirigem a Pamplona em busca de fortes emoções".

A partir daí, segue o que no meu entendimento é o motivos da escrita do livro: "Mas nada consegue tirá-los do vazio interior". E continua: " Ao terminar a fiesta, as personagens se separam, voltando cada qual ao seu marasmo. Barnes (Jake), narrador do livro, e sua amada Brett ( Lady Ashley), permanecem juntos, lamentando a infelicidade da guerra que incapacitara o rapaz para o amor. A reação do público e da crítica deixou-o aborrecido. Ao contrário do que julgavam, Hemingway, não queria fazer a apologia da 'geração perdida'. Sua ambição visava ao problema vital de saber como a perspectiva da morte sem transformar a vida num inferno". Haja bebida! Quanto ao tema das touradas, fico com a declaração de um garçom de Pamplona: "Gravemente ferido por diversão". "morto por pura diversão".

Outros temas da predileção do autor aparecem também no livro, como a paixão pelo box. Cohn (que triste personagem!) quase nocauteia um toureiro (Pedro Romero) pelo seu envolvimento com Brett, sua paixão não correspondida. Aparece também a pesca. Antes da fiesta os personagens se envolvem numa pescaria de trutas. Daí envereda para as touradas, com uma rica descrição de toda esta consagrada festa mundial. Acompanhei bem a viagem de Paris para Bayonne e as passagens por Biarritz e San Sebastian. Só não acompanhei as bebidas que esse grupo tomou, É inimaginável que alguém consiga beber tanto, quanto essa turma bebeu: vinho, cerveja, absinto, conhaque, whisky e... no dia seguinte sempre dispostos a novas aventuras, bebedeiras e vazios depressivos. Para quem não gosta desses temas, fica a beleza da descrição da festa, da paisagem e o tema das conversas. Quando estive em Havana aproveitei a companhia de Hemingway para com ele tomar um mojito, no Floridita, restaurante bar, que ele tornou famoso. Eu provo.

No Floridita - em Havana - tomando um mojito com o famoso e notável escritor.


 


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Contraponto. Aldous Huxley.

Há muito que eu desejava ler Contraponto de Aldous Huxley. Esse desejo me veio especialmente ao ler Solo de clarineta, o notável livro de memórias de Érico Veríssimo. Nele o escritor fala de seu trabalho nas Livrarias e na editora do Globo (Porto Alegre) e dá uma especial atenção ao seu trabalho de tradução desse clássico ímpar do escritor inglês Aldous Huxley. Ao apagar-se o ano 2020 retirei o livro da estante, entre os livros da coleção "Os Imortais da Literatura Universal". A leitura sofreu alguns prejuízos em virtude de interrupções devidas às festas de final de ano. Isso não é bom, uma vez que o livro tem uma estrutura complexa e exige concentração total.


Contraponto. Da coleção "Imortais da literatura universal". Abril. Tradução de Érico Veríssimo e Leonel Vallandro.

A resenha desse livro, necessariamente começa por um olhar sobre o título - Contraponto. O termo deriva do mundo musical e na Wikipedia encontramos a seguinte explicitação: "O contraponto, na música, é uma técnica usada na composição onde duas ou mais vozes melódicas são compostas levando-se em conta, simultaneamente: o perfil melódico de cada uma delas; e a qualidade intervalar e harmônica gerada pela sobreposição das duas ou mais melodias". Daí para a literatura é fácil fazer a transposição, ainda segundo a enciclopédia: "Aquilo que, embora apresente contraste ou oposição, complementa um assunto ou texto. [Figurado] Tema que acrescenta, adiciona uma informação ao assunto, ou apresenta contraposições, opiniões opostas, em relação ao mesmo".

Aí está a chave para o início da leitura. Contraponto é um livro de ideias, de muitas ideias. Ideias essas apresentadas e entremeadas de muito pessimismo e ironia. Os principais contrapontos apresentados são os da aristocracia inglesa, os do mundo intelectual, os do mundo da arte e da ciência em evolução e dos que com ela trabalham e a dos Ingleses livres - os camisas negras da Inglaterra, representando o fascismo em ascensão. Esses ideais fascistas morrem assassinados, com Everard Webley. Longas e fantásticas discussões são apresentadas ao longo de 37 capítulos. O debate entre as diferentes ideias encontram um paralelo no famoso livro de Thomas Mann A Montanha Mágica (1924).

Já que localizamos a obra de Mann no ano de 1924, vamos a algumas contextualizações de Huxley e de seu grandioso livro. O escritor nasceu no Reino Unido no ano de 1894 e morreu na Califórnia nos Estados Unidos em 1963. A primeira edição de Contraponto é de 1928. O ano da escrita do livro -1928 - é extremamente significativo. A euforia inicial trazida pelo século XX com a ideia do progresso indefinido e pela evolução do mundo da ciência, da técnica e da diplomacia no mundo da política caíra por terra, com a eclosão da  Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e com as crises do entre guerras e o prenúncio das ascensões fascistas e dos regimes totalitários. A análise da cultura dominante que provocou esse mundo em ruínas é o grande teor do livro. Seguramente uma das preciosidades maiores da literatura universal.

Aldous Huxley se livrou da participação da guerra por ter sido acometido de uma cegueira passageira no tempo em que era para ser convocado. Tornou-se assim um observador extremamente atento e com um olhar profundamente investigativo. Moral, religião, economia, política, morte, arte, música, tecnologia, evolução, emancipação feminina, sexualidade, decadência são os temas onipresentes nessa polifonia de ideias. A primeira impressão que eu tive com a leitura foi a de estar lendo uma grande crônica da época.

No livro de biografias que acompanha a coleção lemos o seguinte sobre o livro: "Contraponto (1928) foi uma inovação saudada e combatida apaixonadamente em sua época, constituindo, de qualquer forma, um foco de discussão em todo o mundo literário. É uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não tem coragem de exprimir o seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele - ou daquela - que um dia escolheram. Nem Philip Quarles consegue desligar-se de Elinor, apesar de não conseguir comunicar-se com ela, nem Walter Bidlake abandona Marjorie, a quem odeia.

Além do problema sexual e afetivo, que está no centro de cada um destes dramas conjugais, há o problema particular do artista, vivido por Philip, o escritor, e por John Bidlake, o pintor. São pessoas inteligentes, mas frias, incapazes de sentir - qualidades incompatíveis com as que um verdadeiro criador necessita para se comunicar com o seu público. Philip permanece um novelista medíocre, e o pintor só pode realizar obras de arte quando abandona o intelectualismo pedante e se faz um homem simples e despretensioso.

Contraponto transmite uma percepção da vida em geral, com o eterno problema da comunicação e do amor, os quais Huxley considera impossíveis na sociedade tal qual ela existe, excessivamente materializada, racionalizada, sofisticada. Neste ponto, a problemática de Huxley se particulariza, localizando-se no tempo e no espaço: o período entre duas guerras, numa sociedade decadente e pervertida, da qual escolhe a intelectualidade britânica, para dissecá-la até a alma, irônico, mordaz e implacável.

[...] Huxley, neste sentido, acompanha os escritores de sua época, passando do ceticismo e da angústia do pós-guerra ao desespero trágico por um mundo que a técnica e a guerra moderna tornaram impessoal. O autor, com a destruição das injustiças e da hipocrisia, postula desesperadamente um mundo melhor, onde o homem volte aos princípios básicos de sua natureza". Quatro anos depois, em 1932, aparece outra obra prima sua Admirável Mundo Novo. 

E um pequeno trecho selecionado - sem propósito: "Uma esquadra se compõe apenas de dez homens e é neutra sob o ponto de vista emotivo. O coração só começa a bater à vista de uma companhia. As evoluções dum batalhão são inebriantes. E uma brigada já é um exército com bandeiras, o que equivale - como sabemos pelo 'Cântico dos Cânticos' - a ficar apaixonado. A emoção é proporcional ao número. Admitindo-se o fato de termos mais de 1 metro e 75 de altura por dois pés de largura, e de sermos solitários, uma catedral é por força mais impressionante do que uma cabana e um quilômetro de homens em marcha é mais imponente do que uma dúzia de vagabundos numa esquina. Mas não é tudo. Um regimento é mais impressionante do que uma multidão.  O exército com bandeiras equivale ao amor apenas quando manobra impecavelmente. As pedras que constituem um edifício são mais belas do que umas pedras amontoadas à toa.. O exercício e o uniforme impõem uma arquitetura à turba. Um exército é bonito.. Mas não é ainda tudo; ele satisfaz instintos mais baixos que o instinto estético. O espetáculo de seres humanos reduzidos ao automatismo satisfaz o o desejo de força".  Página 349-350.

Ao fazer as resenhas eu não costumo ver ou ler comentários. Mas devido a complexidade extrema de Contraponto eu, em minhas buscas, encontrei esta preciosidade de comentário sobre a  memorável obra, que como está disponibilizada no Google, creio não ter problemas em ajudar na sua divulgação e por à sua disposição . Segue o link da entrevista de um grande professor de literatura - Jorge Almeida.

 https://www.youtube.com/watch?v=PrrvFKpzJdY

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

2010. A década da infâmia. Luís Nassif.

Faço questão absoluta, pela gravidade da crise em que estamos envolvidos, de que o primeiro post de 2021 aborde a questão política brasileira, uma vez que é ela a raiz mais profunda do difícil momento em que o país está envolvido. Faço isso na intenção de mostrar toda a importância do voto num sistema de democracia representativa, uma vez que o presidente que destrói e infelicita a Nação, emergiu do profundo da cloaca em que estava submergido, para ser alçado à condição de mandatário supremo do país. Para que isso acontecesse, foi necessário antes, a falência das instituições brasileiras ligadas à democracia e à República.

O valoroso e intrépido jornalista Luís Nassif.  A análise da década 1910-1920.


Tenho profunda admiração pelo jornalista Luís Nassif, valoroso e intrépido, que na virada de ano e da década fez uma análise real do que efetivamente se passa no país. Recebi o link de seu texto pela mão de um grande amigo. O texto de Nassif tem um significativo título: A década da infâmia. O texto tem um preâmbulo, para depois entrar na análise dos partidos políticos, da mídia, das corporações públicas, do PT e, - termina com um chamado de atenção para o caos instalado. Vamos por partes:

No preâmbulo Nassif faz referência à hecatombe institucional que o país está vivendo, com a destruição das conquistas da Constituição de 1988. Essa hecatombe desmontou o modelo político, destruiu as fontes geradoras de emprego, desmantelou as políticas sociais, educacionais e cientifico-tecnológicas e assim, "matou-se o futuro". Essa destruição foi iniciada no governo Temer e está sendo consumada por Bolsonaro. Caberá aos historiadores do futuro relatar a história do suicídio de uma nação.

Depois desse preâmbulo, dois parágrafos são destinados aos partidos políticos, ao PT e ao PSDB, por óbvio. Tudo começou quando o PT se movimentou para a centro-esquerda, para a social democracia, usando para isso, os instrumentos que o aspirante à Social Democracia (PSDB) não havia utilizado quando no governo, quais sejam os movimentos sociais e os sindicatos. Essa utilização provocou contra o PT uma infame oposição por parte da mídia.

Mas por que o PSDB deixou de ser um partido social democrata? Nassif aponta para a financeirização da economia no governo FHC, pela morte de lideranças como Mário Covas e Franco Montoro, pela "ascensão de duas lideranças inescrupulosas" como José Serra e Aécio Neves e uma liderança inexpressiva como Geraldo Alckmin pela perda de protagonismo do PSDB e por sua transformação, que sob a liderança de FHC, Serra e Aécio afastaram o partido de qualquer veleidade pragmática, passando a adotar um único princípio e bandeira: o delenda PT. Sob essas lideranças do PSDB, a popularidade de Lula explodiu.

O próximo parágrafo de Nassif é dedicado à mídia. Esta passava por uma crise financeira e não dispunha de uma estratégia para enfrentar as novas mídias. Sem alternativas em seu campo, buscou o protagonismo político, assim expresso por Roberto Civita, o pai do novo modelo: "Nós somos a verdadeira oposição". Inicia-se então o "jornalismo de esgoto", na expressão de Nassif. Esse jornalismo abdicou dos princípios, tanto do jornalismo, quanto da democracia e passou a plantar o ódio que contaminou  de maneira irreversível a democracia brasileira.

Na sequência, Nassif dedica quatro parágrafos ao STF., começando pelo entrelaçamento entre a mídia e a instituição. A mídia atacou pesadamente os juízes recalcitrantes, da mesma forma que lisonjeou os que aderiram ao sistema, passando a controlar as suas ações. Tudo se agravou com a imprudência dos julgamentos televisivos e pela transformação dos ministros em celebridades. Assim os ministros dignos passaram a ser escrachados e os medíocres saudados como "grandes poetas  e frasistas" e, dessa forma, com " cenoura e chicote" o Supremo foi se moldando "aos novos tempos de incúria".

Como resultado teve-se então um partido que trocou a Social Democracia pelo ódio, uma mídia que aspirava ao poder político para se salvar e um Supremo querendo atuar  sem os limites impostos pela Constituição. E pior, não ficou apenas nisso, "o vírus inicial espalhou-se por todos os poros da República.

Os três parágrafos seguintes são dedicados às Corporações Públicas: Entre os servidores públicos formou-se uma elite com elevados salários. Esses abdicam da função de servidores públicos para assumirem o espírito de CEOs do  mercado. Nessa condição frequentam cursos superiores, MBAs e ganham bolsas de estudos fora do país. Em troca querem os seus nacos de poder, afirma Nassif, nesse primeiro parágrafo. Continua, depois, afirmando que esses servidores adquiriram "poder de caneta" e se transformaram no poder civil armado da República. Esses poderes, como o TCU, a CGU e o Ministério Público Federal passaram a controlar a República, especialmente após a Lava Jato, com o seu princípio de que o fim justifica os meios. Por fim, até as forças armadas entraram nesse jogo pelo seu comandante, o general Villas Boas.

A análise segue, por cinco parágrafos, examinando o PT.  Este sofreu as suas primeiras investidas com o chamado "Mensalão". Foi o início do macabro jogo de falsificação de notícias e da fabricação de escândalos e manipulação de provas.  Lula vence esse primeiro round pela forma como enfrentou a crise mundial de 2008, transformando-se no líder político mais popular do planeta.

Lula resgata, como nos tempos de JK, a auto estima do povo, a maneira de ser do brasileiro, pelo êxito das políticas sociais, pelo soft power, pela liderança  diplomática sobre os povos do sul, pelo avanço diplomático sobre a África e o Oriente Médio, os sucessos do etanol, do agronegócio e a mediação de conflitos no Oriente Médio. É o nascimento de uma Nova Nação, na percepção popular.

Mas se Lula se transforma em líder imbatível em processos eleitorais, também se transformou em vítima desse seu sucesso. Diante dessa situação a oposição investe ainda mais fortemente na conspiração e Lula e o PT se desarmam, confiantes na intuição política de Lula. Descuidou-se na indicação de ministros para o STF e abriu-se mão de qualquer tentativa de influência nos poderes sob responsabilidade da Presidência, como a Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República e foi "terrivelmente" imprudente na negociação de cargos na Petrobras. E Lula fez mais do que isso, ao cometer dois erros fatais: a indicação de sua sucessão e ao abrir mão de concorrer nas eleições de 2014.

A instalação do "CAOS" ganha os restantes oito parágrafos de sua análise. A partir do "mensalão" todos os pecados passaram a ser permitidos. O caminho do "vale tudo" estava aberto. Ministros do STF concordam em participar de armações grosseiras em grampos, ministros que assumiram como legalistas passaram a se encantar com a nova onda e jogaram a Constituição na lata do lixo e saíram "rodando a baiana". Tudo diante de um PT desarmado e inepto para enfrentar as disputas de poder. Assim qualquer quinquilharia virou "explosão" de escândalo. Assim foi a compra de tapioca no cartão corporativo, a troca do perfil de jornalista na Wikipedia e até factoides óbvios como a invasão das FARCs, de dólares em garrafas de rum e outras obscenidades ganharam notoriedade e se transformaram nas "marcas registradas da mídia brasileira".

Como exemplo dessas tramas infames Nassif cita o suicídio do reitor da UFSC, e o aponta como "a síntese macabra das libações da Justiça" numa obra conjunta  de uma Delegada da Polícia Federal, de um Procurador do Ministério Público Federal, de uma Juíza Federal e da Controladoria Geral da República. E até hoje, continua Nassif, "uma imprensa invertebrada, medrosa, foi incapaz de conferir ao episódio a gravidade de que se revestia, para não atrapalhar  a estratégia do 'delenda quem pensa diferente'".

E quando a crise se instalou com a queda das commodities, perdeu-se o bônus político dado pela economia. O país se encontrava então "nas mãos honestas, sinceras, mas inexperientes e auto suficientes de Dilma Rousseff". E assim não houve condições para a reorganização da resistência política. E agora José?, pergunta Nassif, encerrando a sua análise com a seguinte resposta: " A noite chegou, o monstro surgiu, o custo dessa irresponsabilidade pode ser contabilizado no próprio número de mortes evitáveis do Covid, frutos do negacionismo do Frankenstein político que emergiu do cemitério em que foram enterradas as instituições e as esperanças de construir uma Nação digna. O que será daqui para frente?".

Creio que comentários a essa brilhante análise são desnecessários, mas gostaria de lembrar que Aécio Neves, após a derrota de 2014, prometeu a obstrução ao governo de Dilma até chegar à impossibilidade de governar. E uma lembrança de Paulo Freire. Em 1992, em Umuarama, assisti presencialmente a frase dele sobre a elite brasileira. Dizia ele ser a elite brasileira a elite mais perversa do mundo. "O que será daqui para frente?

Na TV GGN a matéria ganhou um subtítulo bem ilustrativo: "2010 - a década da infâmia, ou de como o Brasil, na união da Casa Grande com setores do judiciário, mídia, conservadorismo político, militares e interesses internacionais se suicidou como Nação".

Deixo ainda o link que te põe em contato com o texto de Nassif na sua íntegra.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/xadrez-de-2010-a-decada-da-infamia-por-luis-nassif/