quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Se o passado não tivesse asas. Pepetela.

Este é um livro que faz encompridar os dias e diminuir as noites. Ao menos para aqueles que não trocam a noite pelo dia. Você não para ler, nem mesmo para fazer pequenas interrupções. Tal é a força narrativa desse romance do Pepetela. Estou falando de Se o passado não tivesse asas, o seu romance de 2015, que veio a público, no Brasil, em 2017. Pepetela, em sua literatura, procura retratar Angola, o seu país. O seu sofrido país.

Se o passado não tivesse asas. Pepetela. Leya. 2017.

O meu primeiro contato com o escritor foi através da indicação de livros para o vestibular da FUVEST. O livro indicado era Mayombe, livro que proporciona ao leitor um mergulho nas profundezas do país, que após a proclamação de sua independência, mergulha numa violenta e interminável guerra civil. Duas grandes forças disputam o poder (MPLA e UNITA), reproduzindo o ambiente da bipolaridade, mas, que no caso, não coincidia com a guerra fria. Foi uma guerra quentíssima, avivada constantemente pelas lutas tribais, sempre alimentadas pelo jugo colonial. A guerra civil, que durou longos 27 anos, teve três duras fases: de 1975 a 1991, de 1992 a 1994 e de 1998 a 2002. Deixo a resenha de Mayombe.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/07/mayombe-pepetela.html

Se o passado não tivesse asas, tem dois focos narrativos, em tempos diferentes, tempos que se alternam ao longo de cada capítulo. Se observarmos bem, no primeiro capítulo, temos, logo no seu início, a data de 1995 e, lá pelo meio, a de 2012. Detalhando, 1995, nos tempos da Guerra Civil e 2012, já dez anos após a mesma. Os personagens da primeira parte, dos fatos ocorridos a partir de 1995, dos tempos da guerra, são Himba, uma menina extremamente cativante e Kassule, não menos querido que a menina. Já os da segunda parte (2012) são Sofia, uma jovem empreendedora, do ramo de restaurantes e o seu irmão Diego, artista, pintor de paisagens e realidades de seu país. Luanda e as suas contradições são o cenário para o romance. Uma Luanda que se modernizava.

A parte referente à guerra civil é, até certo ponto, previsível: dor, mutilações, sofrimento, fome, violência, miséria, desesperança e desumanidade. E também, por outro lado, compaixão, afabilidade, carinho, proteção, afagos e solidariedade. São comoventes os personagens como os de tia Isabel, a tia das trancinhas, a do padre Adão e a do arquiteto argentino Radamel, seguidor de Chê Guevara. Nessa lista dá para ser incluído também o Tobias. O ponto alto é, sem dúvida, a amizade, a cumplicidade, o cuidado e a doação mútua, forjada no reino necessidade, entre Himba e Kassule. Bonito de se ver. Tudo isso em meio a uma violenta degradação social.

Por outro lado, na Angola pacificada e na Luanda a se modernizar, outros valores fazem parte dos personagens. O espírito empreendedor de Sofia a torna egoísta, menos compreensiva e até trapaceira. Seria? Os jovens que frequentam o restaurante da Mama Ester são jovens balados, porém vazios de simbolizações, de significados e de perspectivas. Cheios de kumbú dodós, bebidas e liamba. As permissões tornadas possíveis pelo dinheiro formam uma nova tábua de valores. Parece que apenas Diego se mantem incorruptível. A igreja do demônio do dízimo forjado, da exploração da miséria, também está fortemente presente.

A fluente narrativa ocorre ao longo de 16 capítulos e 361 páginas. O final é extraordinário. Os tempos se cruzam, se encontram e se desencontram. Os sentimentos humanos afloram. Alguns são abafados. Estes causam dores profundas. O passado, por maiores que sejam os esforços empenhados, insistem em continuar presentes e a atormentar a consciência. Como seria, afinal o tempo se o passado não tivesse asas?

Como não posso adiantar expectativas, deixo o relato da orelha do livro: "Duas personagens femininas: Himba e Sofia. Dois momentos da história de um país: a guerra civil e o pós-guerra.

Himba tem apenas treze anos, perdeu sua família num ataque na estrada, ao tentar fugir da guerra. Foi violada por um bando de meninos nas areias da praia da Ilha. Junto a Kassule, um jovem também órfão e vítima da guerra, lhe resta revirar o lixo dos restaurantes para encontrar comida.

Sofia sempre sonhou em mudar de vida. Agora, depois de uma aposta arriscada, é sócia num restaurante em ascensão, frequentado por clientes da alta burguesia de Luanda. Sem muito tempo para vida social e amorosa, Sofia preocupa-se apenas com seu irmão Diego - um artista de rua que sonha expor em galerias - e com suas ambições profissionais, que vai atingindo pouco a pouco.

Com um desfecho imprevisível, Se o passado não tivesse asas conjuga as trajetórias de Himba, a menina que, sozinha no mundo, tenta sobreviver à guerra, e de Sofia, que deseja uma vida melhor em tempos de 'paz' e crescimento econômico. Histórias que se completam, nos fazendo pensar sobre os últimos vinte anos de Angola, mas sobretudo, nos fazendo perceber a fragilidade do ser humano e nossas mais aterradoras contradições".

Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Pertenceu ao MPLA, foi professor universitário e governante. Hoje se dedica exclusivamente à literatura. É detentor do Prêmio Camões - 1997.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.