sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Conversa no Catedral. Mario Vargas Lhosa.

Uma investida na literatura latino-americana. Comecei com o Leonardo Padura, com o seu fabuloso Água por todos os lados. Dele fui para Alejo Carpentier, O século das luzes, uma cacetada nos princípios do Iluminismo, que não são universais e agora terminei de ler Conversa no Catedral, do Nobel de Literatura de 2010, Mário Vargas Lhosa. Que livro complicado! A sua estrutura narrativa! Procurei ajuda e já no Google, na Wikipédia, encontrei algo bem significativo, a respeito do romance. Diz assim:

"Há um encontro, num botequim chamado "La Catedral" entre dois personagens: o filho de um ministro e um motorista particular. O romance caracteriza-se por uma sofisticada técnica narrativa, alterando a conversa dos dois com cenas do passado". Os dois personagens são Santiago Zavala, o Zavalita, que é jornalista e Ambrósio, o motorista. Já no primeiro capítulo, quando Santiago vai a um canil, em busca de um cachorrinho que fora levado, pela carrocinha, diríamos nós, ele se encontra com Ambrósio, que ali trabalhava. Santiago Zavalita o reconhece, era o motorista de seu pai, e vão tomar cervejas no La Catedral. Aí iniciam as suas conversas, as suas reminiscências.

Conversa no Catedral. Mário Vargas Lhosa. Alfaguara. 2021. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht.

A respeito, lemos na contracapa do livro editado pela Alfaguara o que segue: "Estamos no Peru, em meados dos anos 1960. Zavalita, jornalista e filho de uma família de classe média alta, e Ambrósio, antigo motorista de seu pai, se encontram num pequeno bar chamado Catedral. Enquanto bebem e desfilam recordações fragmentárias sobre suas vidas e seus conhecidos, recompõem, como um mosaico, o panorama político peruano nos anos 1950". O livro teve a sua primeira publicação no ano de 1969. O grande tema do livro é o Peru. No primeiro parágrafo do primeiro capítulo já lemos: "Da porta do La Crônica (jornal em que Zavalita trabalha) Santiago observa a avenida Tacna, sem amor: carros, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio-dia cinzento. Em que momento o Peru tinha se fodido? [...] Ele era como o Peru, Zavalita, tinha se fodido em algum momento, Pensa: em qual? [...] O Peru fodido, pensa, Carlitos fodido, todos fodidos. Pensa: Não há solução".

Em 1998, o próprio autor escreve um prólogo de dois parágrafos. Ei-los: "Entre 1948 e 1956 o Peru foi governado por uma ditadura militar encabeçada pelo general Manuel Apolinário Odría. Nesses oito anos, em uma sociedade encurralada, em que os partidos e as atividades cívicas eram proibidos, a imprensa censurada, e havia muitos presos políticos e centenas de exilados, os peruanos da minha geração passaram de meninos a jovens, e de jovens a homens. Pior ainda que os crimes e abusos que o regime cometia impunemente era a profunda corrupção que se irradiava do centro do poder para todos os setores e instituições, degradando a vida por completo. 

Esse clima de cinismo, apatia, complacência e podridão moral do Peru nesse período de oito anos foi a matéria prima desse romance, que recria, com as liberdades que são privilégio da ficção, a história política e social daqueles anos sombrios. Comecei a escrevê-lo dez anos depois de padecê-los [...]. Nenhum outro romance me deu tanto trabalho; por isso, se tivesse que salvar do fogo só um dentre os que escrevi, salvaria este". Lembrando, Vargas Lhosa nasceu no ano de 1936, em Arequipa. 

O livro se compõe de diálogos e de narrativas, especialmente de diálogos das memórias dos dois personagens centrais. Zavalita com Ambrósio, com Carlitos, seu colega de La Cronica, de Ambrósio com D. Fermín, o pai de Zavalita, de quem era motorista (uma relação, diríamos, no mínimo, complicada e complacente) e de Ambrósio com Queta, uma das várias "meninas", do romance. Também de Ambrósio com Amália, sua companheira. A familia de Zavalita era formada por seus pais (D. Fermín e Dona Zoila), por Chispas e Cary, Popéye e Teté e ele, Santiago e Ana. Santiago era o mais complicado. Ele próprio se deserdou. Santiago fez do La Crônica o seu "deserto dos tártaros". O seu personagem deve ser bastante autobiográfico.

O livro é longo, dividido em quatro partes. A primeira tem dez capítulos, a segunda, nove, a terceira, quatro e a quarta, oito. Ao todo são 581 páginas de penetração no Peru profundo, num Peru fodido. A corrupção dos militares. Aliás são dois dos focos narrativos mais interessantes, o dos militares e o dos jornalistas. A corrupção dos primeiros e a bebida e os porres dos segundos. Os bordéis de ambos.

Dou ainda um panorama dos presidentes do período de abrangência do romance  e anos posteriores. São eles: José Luis Bustamante y Rivero - 1945-1948 (derrubado por golpe militar). General Manuel Odría - 1948-1956. Manuel Prado Ugarteche - 1956- 1962. Fernando Belaúnde Terry - 1962-1968 (derrubado por golpe militar). General Juan Velasco Alvarado - 1968- 1975 e Francisco Morales Bermudez - 1975- 1980. Belaúnde ainda aparece no romance. Popéye, o filho de D. Fermín, trabalhará com ele.

Também li sobre as influências literárias recebidas por Vargas Lhosa. Tolstoi, Flaubert, Sartre, Joyce... e de William Faulkner. Desse eu li o mais incompreensível dos livros já lidos. Trata-se de O som e a fúria. Ainda bem que não houve os tais de fluxos de consciência. Também li sobre a sua trajetória política. De admirador da revolução cubana passou a ser um liberal conservador. Chegou a ser candidato a presidente do Peru, tendo sido derrotado por Alberto Fujimori, em 1990. Estudou Letras e Direito na famosa Universidade San Marcos, onde também esteve matriculado, no curso de Direito, o seu personagem Santiago Zavalita.

Vou voltar ao Leonardo Padura. Já tenho em mãos O romance da minha vida. Como eu gosto de ler o Leonardo Padura. E, ainda, uma pergunta final, Há ou não há solução para o Peru? Há ou não há solução para a América Latina? Todos fodidos?

 

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