sábado, 13 de novembro de 2021

O Romance da minha vida. Leonardo Padura.

Escrevo sob a emoção da leitura, terminada nesse instante! São das páginas mais bonitas e sublimes que já li ao longo de toda a minha vida. Uma ode ao amor, amor maior que os ímpetos portentosos da precipitação da água do Niágara, do seu poema mais famoso. Uma ode ao amor ou aos amores, juvenis e maduros do poeta. Uma ode ao amor de José María por Betinha, de José María por Dolores Junco, de José María por Jacoba. De José María pela liberdade e pelos melhores sentimentos de compaixão e humanidade, contra a tirania, a servidão e a opressão e, sobretudo de José María Heredia por Cuba, de cujo amor nasceu um filho muito querido, o do sentimento de pertencimento, de cubania, sempre tão cultivado pelo povo da ilha, com água por todos os lados.

Com Leonardo Padura, no Espaço Cultural Santa Maria.  Curitiba - 2019.

Estou falando do livro O Romance da minha vida, de Leonardo Padura. Este título é uma referência ao livro escrito pelo poeta cubano José María Heredia (1803-1839), livro que traça todo o roteiro que serviu de inspiração para a escrita do livro. O livro é, portanto, uma biografia romanceada, misto de realidade e ficção, do poeta cubano, de sua breve mas intensa vida de apenas 35 anos. Uma vida trágica, de infortúnios marcados por uma traição, pela qual sofre a pena do exílio, do desterro de sua pátria, à qual, ele queria ajudar a traçar o destino. Uma vida trágica mas intensa, intensidade que lhe fez brotar a sua poesia. Se observarmos o tempo de sua existência (1803-1839), veremos que são os conturbados anos dos movimentos independentistas das colônias americanas do jugo colonial e escravocrata europeu. Esses movimentos envolvem o poeta. Seu exílio ocorreu no ano de 1823.

Em 2016 tive a oportunidade de visitar Cuba. Na visita ao Palácio de los Capitanes Generales, na Habana Vieja, entrei em contato com a sua história e o fato que mais me impressionou foi o da sua independência tardia. Ela aconteceu apenas em 1898, após três guerras contra a Espanha e a República foi proclamada apenas em 1902. A influência dos Estados Unidos foi total. Ah se apenas tivesse sido influência! Foi dominação implacável. A questão Guantânamo data desse período. Por outro lado, poucos países cultivam tanto o sentimento de cubania, como o povo cubano. Basta ver o majestoso monumento dedicado a José Martí (1853-1895), o herói da independência. Essa independência tardia sempre me intrigou muito. O romance de Padura entra um pouco nesse terreno e, na absolutamente singular história de Cuba, uma história também de muitos exílios, como a história dos dois principais personagens, de tempos diferentes do romance; José María Heredia e Fernando Terry.

O romance da minha vida. Leonardo Padura. Boitempo. 2019. Tradução: Mônica Stahel.

E já que falamos dos personagens vamos ao romance. O romance da minha vida  é dividido em duas partes. A vida do poeta em Cuba, antes do exílio, ocorrido em 1823, e o do depois, quando Heredia se refugia nos Estados Unidos,  no México e numa breve volta a Cuba, consentida pelo governo por um período de dois meses. Mas os focos narrativos, complexos, são vários.  A suposição básica é a de que o poeta deixara escrito "o romance de sua vida", que, no entanto, só poderia ser publicado cem anos após a sua morte. Fernando Terry, um poeta da geração universitária dos anos 1980, integrante de um grupo de "sabichões", de novos escritores cubanos, se dedica à busca dessa história. Fernando começara uma promissora carreira de professor universitário, na área de literatura. Todas as suas pesquisas se dedicam à vida do poeta  e de modo todo especial em encontrar o livro nunca publicado. Fernando tem a sua carreira universitária, recém iniciada, interrompida pelos rompantes autoritários da Revolução. Ele havia ou não sido delatado? Uma questão que paira na consciência de Fernando, que o acompanha ao longo de todo o romance.

A trama tem tempos históricos diferentes, num constante ir e vir. Mas a trama te enreda e você não quer interromper a leitura. Você se localiza facilmente, você não se perde nos diferentes tempos. O suspense é constante, até as suas últimas páginas, que somam um total de 333. Mas o romance vai para além do seu roteiro para se centrar na força dos personagens e nos diálogos. A narrativa da biografia se dá na primeira pessoa. O narrador encarna o biografado. Usa a sua voz para falar com grandeza, de grandezas de um ser humano marcado pela dignidade. Por outro lado, existem também os personagens infames. Por que "o romance da minha vida" só deveria ser publicado cem anos após a morte de seu autor? Não se preocupe, você ficará sabendo de todos esses mistérios. Deixo uma pequena dica. Fique de olho num tal de Domingo.

Mas para falar do romance, chamo duas vozes mais habilitadas para falar do mesmo. A primeira é a de Juca Kfouri, que assim se expressa, na orelha do livro: "De tanto ser mandado para Cuba, fui. Visitei-a no século XIX, sob o jugo colonialista espanhol, e no século XX, como quintal ianque, até a revolução que a dignificou para o mundo e exagerou no autoritarismo, herança de monarcas e caudilhos que fazem parte da história da América. Quem serviu como guia de tão esplendorosa viagem não poderia ter sido outro senão Leonardo Padura, que, por amar seu país como poucos, não se furta de revelá-lo sem disfarces, com todos os encantos e os desencantos. Ao novamente misturar ficção e realidade com a maestria de sempre, Padura consegue fazer seu leitor sentir até o cheiro de Havana, num misto de nostalgia e crítica revelador, também da coragem do poeta José María Heredia (1803-1839), cuja tormentosa autobiografia se apresenta em O romance da minha vida, e do jovem, não menos atormentado, professor Fernando Terry, desterrado nos anos 1980 - ambos vítimas de perseguição política e eventuais traições.

Padura não economiza palavras para descrever o exílio: "No dia seguinte começariam meu desterro e, com ele, a verdadeira aprendizagem de quanto a felicidade costuma ser efêmera e de quanto a dor pode ser incomensurável". Nem floreia para seu horror às ditaduras: "Como todas as ditaduras contra as quais eu tinha jurado lutar, aquela se apropriava sem escrúpulos da lei para oprimir a vontade dos cidadãos, e com isso a dissidência, a inteligência, o ato individual se transformaram em delitos, e o poder esmagou impiedosamente seus opositores".

A eterna tensão entre a arte e a política está permanentemente presente em mais de trezentas páginas cujo único defeito é não dar descanso ao leitor ávido pelo desenlace de histórias paralelas - por mais que o principal, a busca de Terry pelo testemunho de Heredia, esteja revelada desde o início deste romance, escrito em 2001 e felizmente ora lançado em português (A edição brasileira é de 2019).

Sem sair de casa, fui a Cuba. Com imenso prazer. Quisera ser capaz de contar meu amor pelo Brasil como Padura conta o dele por sua ilha". Eu sinto falta dessa literatura, na nossa literatura brasileira.

A segunda é de Milton Hatoum, na contracapa do livro: "Neste romance, o leitor se depara com histórias que se passam em tempos distintos. Na primeira metade do século XIX, quando o poeta José María Heredia, após envolver-se no movimento de independência de Cuba, é desterrado. Um século depois, quando os herdeiros de Heredia tentam salvar um valioso manuscrito do poeta: O romance da minha vida. Por fim, a busca obstinada, detetivesca, desse manuscrito desdobra-se na história e no destino de um grupo de escritores cubanos contemporâneos, com ênfase na trajetória do protagonista Fernando Terry, poeta exilado que retorna à ilha.

Nessa trama complexa, as histórias do passado dialogam com as do presente, e o centro simbólico comum é Cuba, com seus esplendores, suas misérias, seus assombros e suas quimeras. Num jogo especular de luzes e sombras, a obra e a vida do poeta Heredia refletem as do escritor Fernando Terry, dando forma artística à matéria lida e vivida.

O resultado é um fascinante romance histórico, no qual Leonardo Padura explora, com muita habilidade, temas recorrentes na literatura : o amor, a morte, a traição, o exílio e o anseio pela liberdade". Incluiria entre esses temas o da escravidão. Ainda uma observação, por amor aos seus princípios, ao final de sua intensa e curta vida, ele não encontrou pessoas a quem poderia escrever, nem amigos, nem inimigos. Solidão total.

Cheguei ao livro por outro livro seu. Água por todos os lados. O mesmo sentimento nobre do autor pela sua ilha, o sentimento da cubania, de pertencimento à sua terra. O romance também dá bela amostra das elites cubanas, pelo fato de tolherem as escolhas, as liberdades e a busca de autonomia de seu povo, para atender a seus vis e mesquinhos interesses privados, como, no caso, a manutenção da escravidão, fato que sempre foi um impedimento para a proclamação da independência. Esse é um traço comum às elites de origem ibérica. E, cá comigo, quando eu quiser uma boa leitura, tenho a certeza de que a encontrarei nos livros de um dos melhores escritores de nossos tempos. Deixo ainda o link de seus livros já lidos: Pela ordem:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/o-homem-que-amava-os-cachorros-leonardo.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/08/agua-por-todos-os-lados-leonardo-padura.html

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