quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

AMOR - Um retrato seu na velhice. O Filme de Haneke.

Fevereiro está chegando e com ele o dia 24. Neste dia saberemos quem serão os grandes vencedores do Oscar 2013. A agitação cultural, cada vez mais fortemente, estará centrada em torno deste fato. Nesta semana saíram mais dois prêmios. As indicações dos atores e dos produtores de cinema foram para Argo, de Ben Affleck. Estes prêmios o creditam como o principal favorito ao Oscar. Será? Eu assisti a este filme, ainda em dezembro e, sobre ele publiquei post, no dia 03.12.2012. Comentei que era um filme bem ao gosto dos americanos. Ele retrata a retirada heroica de membros da embaixada americana no Irã, em 1979, quando da revolução islâmica.

Na terça feira (29), fui assistir ao filme sobre o qual, eu particularmente, tinha as maiores expectativas. Amor, sob a direção de Michael Haneke. A Fita Branca tinha me impressionado demais. Amor já recebeu a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro, como o melhor filme estrangeiro.
Cartaz do Filme Amor. O semblante de Anne. Um retrato dos problemas da velhice, da doença e da morte.

Talvez o ponto culminante deste filme seja a cena em que Georges, recebendo a visita da filha Eva, tranca o quarto de Anne, para que Eva não veja o sofrimento da mãe. "Nada disso deve ser mostrado", fala Georges para a sua filha. O sofrimento de Anne é o tema do filme, que concorre, inclusive, aos prêmios de melhor roteiro original e de melhor atriz.

Georges e Anne formam um casal de músicos aposentados que levam uma vida aparentemente maravilhosa. As dificuldades chegam com a velhice e a doença. Anne sofre um primeiro e um segunde derrame e a sua situação vai se deteriorando a cada dia, com a paralisia do lado direito, a perda da fala, de toda a autonomia física e a total descoordenação psíquica. Uma situação de total desconforto. Se sucedem cenas lentas, muito lentas, de ternura, de carinho, de comprometimento cúmplice, de suportabilidade e insuportabilidade, de paciência e de impaciência, de veemência e de ternura. Uma situação vivida a dois e que, ao que parece, era absolutamente indesejada para ela. Dessa situação vem o título do filme: Amor. Amor acima de tudo como comprometimento. Uma situação, à qual não se contrapõe outra situação.

Esta inevitabilidade gera os atritos com Eva, a filha. Ela pertence a uma outra geração. Ela não sabe viver no desconforto. Tem que haver outra solução..., um outro médico..., um internamento em uma clínica..., mais uma enfermeira. Tem que haver uma solução que, no entanto, não é vislumbrada por Georges. Eva consegue até discutir aplicações financeiras, em meio a essa situação. As relações se tornam ásperas.

Muita ternura no filme Amor. Em cena Georges (Jean Louis Trintignat) e Anne (Emmanuelle Riva).

Anne, depois de uma crise muito forte, é acalmada por Georges, numa cena de ternura e encanto ímpar e, quando consegue o seu intento, deixando Anne em repouso completo e absoluto recorre a uma solução fatal, inesperada, ao menos neste momento do filme.

O filme é um retrato real da velhice, das restrições que ela impõe ao ser humano, de seus limites físicos e psíquicos e da total perda da autonomia, ou em outras palavras, fica-se na dependência total. Paralelo a este drama se desenrola o de como as pessoas lidam com isso e o desconforte que isso causa. Uma cena forte é o descaso e o desprezo com que uma enfermeira trata de Anne, e a reação indignada de Georges.

Amor é uma produção francesa, austríaca e alemã. Pertence ao cinema de "diretor", ou ao cinema "cabeça". Durante o filme e, ele dá espaços para isso, lembrei-me do documentário de João Jardim - A Janela da Alma. Nele existe uma fala monumental de Wim Wenders, falando sobre o cinema, o cinema lento de antigamente, que era lento e pausado, para que sobrassem espaços para a tua imaginação, para a tua reflexão. Não era tudo show, tudo espetáculo, tudo entretenimento. Amor é isso. Um filme que causa desconforto e reflexão, diante de um dos mais graves temas que a humanidade sempre enfrentou, mas que hoje enfrenta de uma maneira muito particular: a doença, a velhice, a perda da autonomia e a morte.O filme tem cinco indicações para o Oscar.

Melhor filme.
Melhor filme estrangeiro.
Melhor direção. - Michael Haneke
Melhor atriz: Emmanuelle Riva, no papel de Anne. A atriz recebe esta indicação aos 85 anos de idade.
Melhor roteiro original.- Michael Haneke.

O filme nasce de uma experiência particular de seu roteirista e diretor, a partir de uma tia sua, de 92 anos, que lhe teria pedido ajuda para morrer e, como ele não a deu, ela foi encontrar a morte com o suicídio.

O filme que concorre às cinco indicações acima apontadas para o Oscar, representa uma reverência e um reconhecimento a uma outra forma de fazer cinema. Que bonito. Fiquei muito intrigado, quando li o comentário de Luiz Zanin, do Estadão blogs, quando ele fala de críticas que Michael Haneke, seu diretor, recebeu do Cahiers du Cinéma, em função do teor moral que o filme envolve. Assim se manifesta Luiz Zanin: "Seria incrível o filme ser reconhecido pela Academia de Hollywood e não pelo Cahiers, uma revista fundada, nos anos 50, pelo grande intelectual católico André Bazin. O paradoxo dos paradoxos".

Aos moralistas, a esta gente arrogante, que simultaneamente pregam o livre arbítrio, bem como a sua negação, pela obrigatoriedade de seguir ao monopólio de suas determinações, recomendo Nietzsche. Dois de seus livrinhos em particular: Genealogia da Moral - Uma polêmica e Além do Bem e do Mal - Prelúdio a uma filosofia do futuro.

Uma recomendação importante. Como o filme foi revestido de um certo glamour, com as suas indicações para o Oscar, muita gente o está assistindo. Em meio a todo o silêncio que o filme tem e exige para ser visto, ouviam-se ruídos dos sacos de pipoca, do mastigar das pipocas, de chamadas no celular e até, por incrível que pareça, risadas. Também teve gente, estes inteligentes, que saíram durante o filme. Por muito pouco eu não me retirei (eu fui numa sessão das 18:30hs.), para voltar a assisti-lo numa sessão por volta de 14:00 hs., quando não tem quase ninguém no cinema. E olha que o filme não está passando nos cinemas do circuito comercial.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jorge Amado e a Liberdade Religiosa.

Creio que é sabido de todos, que entre muitas coisas, Jorge Amado também foi Deputado Constituinte em 1946, pelo estado de São Paulo e pelo Partido Comunista, o partidão. Ele confessa que nunca teve a menor vocação parlamentar, mas lá ficou de janeiro de 1946 até janeiro de 1948, quando toda a bancada do partidão foi cassada. Relata que o dia da cassação foi um dia triste, de derrota política, mas que para ele foi "um dia alegre, pois me livrei da deputação, não nasci para parlamentar, sou refratário às tribunas e aos discursos, só amo fazer o que me dá alegria, o que me diverte".

Considerou esta sua atividade parlamentar uma tarefa difícil e chata, mas guarda dela uma lembrança da qual muito se orgulhava. A aprovação da emenda, nesta constituinte, e que continua vigorando, ainda hoje, na Constituição atual: O inciso VI do artigo 5º, que garante a liberdade de crença no Brasil. Hoje ele tem a seguinte redação: "VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias."
O Romancista do povo, candidato a deputado federal por São Paulo, pelo partidão.

Jorge Amado relata detalhes das artimanhas necessárias para a sua aprovação. Observa que o Brasil, com a República, separou a igreja do Estado, mas a Igreja Católica continuou todo poderosa e a liberdade religiosa não se concretizara. Observa que, ainda não existindo a teologia da libertação, a igreja católica estava colocada por inteiro "a serviço da riqueza e do obscurantismo dos senhores de terras e do poder" e que se empenhou em conservar todas as regalias e privilégios. "O Senhor Bispo mandava e desmandava", continua Jorge e "os governadores beijavam-lhe reverentes o anel episcopal. As demais religiões, cristãs ou não, comiam o pão que o diabo amassou". Para os protestantes, tendas espíritas e os cultos de origem africana sobrava a discriminação, as restrições e a perseguição policial. Os padres fanatizavam os fiéis  e estes respondiam orgulhosos, como fiéis cruzados.

Se protestantes e espíritas sofriam perseguições, na Bahia ocorriam coisas bem piores, afirma: "foi-me dado testemunha a violência desmedida com que os poderes do Estado e da Igreja tentaram aniquilar os valores culturais provenientes da África. Buscavam exterminar tradições, costumes, línguas tribais, os deuses, eliminar por completo as crenças da gente mais pobre e mais sofrida". Muita violência foi praticada e testemunhada por Jorge que convivia com a cultura negra desde os quatorze anos. 

"A emenda da liberdade religiosa", conta ele, "custou-me muito trabalho e astúcia". No partidão era inadmissível discutir a questão, uma vez que eram ateus. Em conversa com Giocondo Dias, conseguem o aval de Prestes para a sua apresentação. Se a tivesse apresentado à bancada, teria sofrido todos os impropérios: "sendo a religião o ópio do povo, droga ainda pior era o candombé, barbaria primitiva, incompatível com o socialismo, nossa meta", teriam lhe dito. Da bancada, a única assinatura era a sua. Junto aos demais partidos, qualquer coisa que viesse dos comunistas era visto com repulsa. Até nesta emenda, viam o famigerado dedo de Moscou e o perigo comunista.

Primeiramente atraiu assinatura de notáveis. Luiz Vianna Filho e Gilberto Freyre, Otávio Mangabeira e Milton Campos, Hermes Lima e Café Filho e dos líderes, Cirilo Júnior, do PSD e de Prado Kelly, da UDN. Com o apoio dos líderes, a aprovação tornou-se fácil. Jorge Amado assim avalia a sua participação no processo constituinte:
Mãe Menininha do Gantois. Uma expressão cultural possível, pela garantia da liberdade religiosa.

"Essa a minha contribuição para a Constituição Democrática de 1946. Transformada em artigo de lei a emenda funcionou, a perseguição aos protestantes, a violação de seus templos, das tendas espíritas, a violência contra o candomblé e a umbanda tornaram-se coisas do passado. Para algo serviu minha eleição, a pena de cadeia que cumpri no Palácio Tiradentes (sede do Parlamento), constituinte apagado, deputado de pouca valia".

Esta contribuição com a civilização e a cultura brasileira devemos a Jorge Amado. A sua baianidade o fez sentir o problema, e encaminhá-lo para a solução. Gilberto Freyre lhe teria dito: "Por que não pensei nisso?"

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

E o Sertanejo entrou na Universidade. E na de Brasília, na UNB.

Esta história é, no mínimo, engraçada. Eu a ouvi num programa de rádio. É a seguinte. Entre as exigências para prestar o vestibular na famosa universidade de Brasília, aquela concebida pelo Darcy Ribeiro, está relacionada a música da dupla sertaneja Munhoz e Mariano, Camaro Amarelo. Quando eu ouvi isso, falei comigo: "Isso não pode ser verdade". Pesquisei e constatei, não somente a sua indicação, mas também, todas as justificativas em torno.

Como eu tenho muitos pecados para pagar, resolvi expiar alguns deles e, ouvi a música: Eu to do...do...do... doce....caramelo..... Camaro amarelo. A rima não é rima pobre! É fantástica! Amarelo com caramelo.         "Agora eu fiquei doce igual a caramelo - Tô tirando onda de Camaro amarelo".

 A história é a seguinte: O rapaz namorava a moça e ele era pobre. Só tinha uma CG, uma moto. E ela não dava bola. Depois os pais dele morreram e, lhe deixaram uma herança, e então ele se desfez da CG e comprou um Camaro amarelo e ficou doce como um caramelo e passou a esnobar a moça, pois, estava assim... assim de moça atrás dele.

Entre as justificativas da universidade, está a de que os jovens tem que ter um real contato com a sua cultura e a partir dela fazer uma análise crítica da realidade em que eles vivem. Até aí eu até concordo. Eu posso fazer uma análise da sociedade a partir dessa letra. A minha dúvida reside, se eu de fato tenho que chegar a esse nível para ter contato com a realidade. Posso levantar temas sobre valores, sobre o amor, sobre a herança e até flagrar a contradição de que ele não precisaria esperar os pais morrerem, para comprar o Camaro amarelo. Mas a academia sempre teve uma clima sério e de austeridade necessária. A academia tem as suas liturgias.

Poderia evocar os estudos de Adorno sobre a indústria cultural, o famoso capítulo da Dialética do Esclarecimento, onde aparece o tema da indústria cultural, ela como mistificação das massas e é lançado o conceito de que a arte virou entretenimento e que não mais é o veículo para as ideias e para o pensar, mas um puro produto para o consumo de massa... A arte obedece a mesma lógica da produção de mercadorias para o consumo imediato.
A indústria Cultural - A dialética como mistificação das massas. Seria válido! E se Adorno ressuscitasse?

Poderia evocar Bauman e seus estudos sobre a pós-modernidade. Discutir o seu livro Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos, ou o último de seus livros - Danos colaterais - Desigualdades sociais numa era global, mas creio que tudo isso seria um forçar a barra, que não sei se faria muito sentido. Sempre que existe uma contradição, dá para fazer uma contextualização, mas a academia sempre prezou um certo nível. O nível acadêmico.
Os laços líquidos e os efeitos colaterais da sociedade capitalista global. Os tempos pós-modernos. Camaro amarelo no vestibular! Ah! Isso é pós-moderno.

Da minha parte, já que agora temos a certeza de que o sertanejo efetivamente entrou na universidade, e numa universidade de boa qualidade, fico aqui na torcida de que ele se forme rapidamente e encontre uma boa colocação no mercado de trabalho. E fico aqui a imaginar o que estariam pensando sobre isso os nossos grandes formuladores sobre o significado e o papel da universidade e sobre essa própria excrescência sua, que é a instituição do vestibular. Enfim, o que estaria a pensar Darcy Ribeiro, idealizador e fundador dessa universidade, que, assim como a própria cidade de Brasília, era o símbolo do novo neste Brasil.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

LINCOLN - Um Gigante nas Telas.

Este filme eu fui ver no dia de seu lançamento nacional. O filme retrata os bastidores do poder, na votação da emenda 13 da Constituição Americana e as dificuldades em sua aprovação. Me lembrei de Maquiavel, da realpolitik e, ao mesmo tempo, da superação desta realpolitik, pelo efetivo exercício do poder que Lincoln usou, praticamente sem nenhum escrúpulo, para impor o seu objetivo maior e que o consagrou como o grande presidente da unidade americana: a aprovação, contra quase tudo e todos, da emeda número 13.
Lincoln : poster
Poster do filme Lincoln. Adorocinema.

Também me lembrei do mensalão. Lincoln deu fortes motivos para sofrer um processo de empeachment, em suas ações em favor da aprovação da emenda. Isso daria uma belíssima discussão política, não daria? Certamente que elementos não faltariam. Existe uma espécie de eu não sabia presidencial, ocorrido no dia da sua aprovação.

O roteiro do filme é adaptado do livro Team of Rivals: The Political genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns  Goodwin, lançado no Brasil, simultaneamente com o filme (25.01.2013), em edição resumida autorizada, em audiolivro, pela editora Record. O título é uma referência aos principais auxiliares do presidente, recrutados entres os seus políticos rivais. A adaptação tem indicação para o Oscar.

Lincoln, interpretado pelo premiado ator Daniel Day Lewis, é um filme lento e detalhista, mas não arrastado. Retrata os últimos dias do presidente, já reeleito, em sua bela obstinação, por uma tarefa tida como impossível: a aprovação da emenda treze. Esta emenda já tinha aprovação no Senado, mas não tinha condições objetivas para acontecer o mesmo na Câmara. Precisaria de todos os votos de seu partido, o republicano, além de avançar sobre alguns votos dos democratas, para entre eles, obter os que faltavam. Os esforços para isso foram para além do imaginável: pura obstinação. As cenas em que ocorre o debate no Congresso são uma página impecável, tanto para mostrar a história, quanto a sordidez humana, na defesa de seus interesses materiais.

Lincoln era um homem solitário. A sua convivência praticamente se limitava aos seus principais assessores. Era extremamente exigente com eles. É notável a atuação destes, nos bastidores da política. A autora da biografia diz que Lincoln procurava se livrar da melancolia (este termo é forte) contando histórias e piadas e insistia com o roteirista para que isso aparecesse no filme, como de fato aparece. Em momentos tensos, está aí o Lincoln a contar histórias, ou piadinhas. Uma piada é notável, envolvendo um herói da guerra da independência, usando um banheiro em Londres, onde está pendurado um quadro de George Washington, -  como provocação. Moral da história: "Nada como um retrato de George Washington para fazer os ingleses se cagarem todos". Esta era uma de suas piadas preferidas, nos conta a biógrafa. Acertos e desacertos com a sua esposa também aparecem bem. Ela também tem indicação ao Oscar.
Lincoln : foto Daniel Day-Lewis
Uma foto impressionante do presidente Linclon. Seria um retrato da melancolia? Adorocinema.

Por falar em Oscar, o filme é o que mais indicações tem, vamos ver as suas doze indicações:
1) melhor filme - deverá levá-lo. A academia dificilmente deixará de premiar o seu herói, e com méritos.
2) melhor direção: Steven Spielberg. Um diretor consagrado para apresentar o herói. Forte candidato.
3) melhor ator: Daniel Day Lewis. Candidatíssimo.
4) melhor ator coadjuvante: Tommy Lee Jones, como Thadeus Stevens, líder dos republicanos na Câmara.
5) melhor atriz coadjuvante: Sally Field, como Mary Tood, a esposa do presidente.
6) melhor roteiro adaptado: Tony Kushner, do livro de Doris Kearns Goodwin.
7) melhor trilha sonora: John Williams. A música é uma imperceptível extensão das tuas emoções.
8) melhor fotografia.
9) melhor figurino.
10) melhor edição.
11) melhor direção de arte.
12) melhor mixagem de som.

Embora o filme se ocupe já da parte final da Guerra da Secessão, a guerra pela libertação dos escravos, merece uma contextualização para uma melhor compreensão do filme. Para conter o avanço dos estados do norte, onde a emancipação já ocorrera, 11 estados do sul se unem, na defesa de sua economia - monoculturas, latifúndio e escravidão, - e impedir que esta onda também chegue aos seus estados. A guerra se inicia com o ataque sulista ao Fort Sumpter, na Carolina do Sul. A guerra se inicia em 1860 e só terminará em 1865, com a morte de 970.000 seres humanos. A correlação de forças era totalmente favorável aos estados do norte. Em termos de população, eram 20 milhões contra 11 milhões, do sul e, entre eles, a população escrava. Economicamente, a desproporção era ainda maior. Claramente se dá a luta do mais fraco contra o mais forte e com derrota à vista. Mas a obstinação em torno de seus interesses injustificáveis, de sua arrogância e preconceitos os leva à guerra e a ações posteriores que deixaram marcas negativas até hoje. Alabama e Mississipi concorrem com histórias como as narradas em A Resposta, livro do qual se originou o filme Histórias Cruzadas.

Pela importância histórica transcrevo esta emenda treze, de seis de dezembro de 1865:

Seção 1. Não haverá nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição por um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.
Seção 2. O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias.

Em 9 de abril de 1865, os estados confederados do sul assinam a sua rendição, mas já no dia 14 de abril, numa sexta feira santa, no Teatro Ford, em Washington, o Presidente Lincoln será assassinado e passará a viver para a história.

Um gigante nas telas. Não somente pelos 1,89 metros de Daniel Day Lewis, mas pelo esforço, grandeza e empenho com que uma grande equipe, levou a vida deste grande presidente, às telas do cinema. Em menos de quatro meses ocorrem estes fatos históricos significativos retratados no filme: a votação da emenda; a rendição sulista e o assassinato do presidente no Teatro Ford.

Depois da abolição os Estados Unidos seguiram o seu caminho. Assim caminha a humanidade... O sul continuou em muito com a sua arrogância e prepotência. Ali surgiram instituições, seguramente entre as mais horrorosas da história mundial e que refletem toda a maldade de que o ser humano é capaz, como a Ku Klux Klan, tão bem ironizada no outro grande filme - também indicado ao prêmio de melhor filme, - Django Livre, na cena dos encapuzados.

E por falar em Django Livre, certamente se cometerá uma grande injustiça nesta premiação para o melhor filme: Não dá para premiar Django Livre e Lincoln ao mesmo tempo, e nenhum dos dois merece perder. É nisso que dá a formação de rankings. Uma certeza, no entanto, eu tenho: Nós já fomos premiados com a possibilidade de assistir a esses dois maravilhosos espetáculos: Lincoln pela sua grandeza e majestade e Django Livre, pela ousadia, irreverência e sutileza de suas ironias.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Isso é Significativo. A Redução das Tarifas de Energia Elétrica.

Ontem à noite (23.01.2013) a Presidente da República Dilma Rousseff, em pronunciamento nacional, em cadeia de rádio e televisão, anunciou a redução das tarifas de energia elétrica, a partir de hoje (24.01.2013), numa média de 20,2%, para o consumo residencial e em torno de 32% para o consumo industrial. A medida foi festejada pelos políticos de situação, tripudiada pelo PSDB (sua forma de divulgação) e meio em silêncio pelo DEM. A medida tornou-se possível em função do vencimento dos contratos de concessão que estão por vencer nos próximos dois anos. A oposição viu no ato de Dilma um ato em favor de sua reeleição em 2014. As tarifas residenciais da COPEL, a companhia paranaense, será de 18,2%, no consumo residencial.



Presidente Dilma - foto reprodução. O anúncio da redução das tarifas de energia elétrica.

Com certeza estamos diante de um fato novo, inusitado e extremamente significativo. Quem se opõe, só tem a perder. Dilma, em vez de fazer uma reforma tributária mais ampla, vem optando por uma reforma mais pontual, promovendo exonerações fiscais pontuais, com medidas que privilegiam certos setores da economia, como a indústria automobilística, pelo seu poder de pressão e, de setores que mais necessitam de competitividade, como a industrial. Assim já houve redução nas taxas de IPI, desonerações na folha de pagamento e agora a redução das tarifas sobre o consumo da energia elétrica.

Por que é significativo e quais são os seus possíveis impactos? Existe a possibilidade de se obter resultados negativos com a medida? A fórmula para se obter a redução está contida na Medida Provisória 579, de 11 de setembro de 2012. Ela dispõe sobre a redução das tarifas e sobre as condições para a prorrogação das concessões de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.

"Caso essa expectativa se confirme" (e já se confirmou), afirmam o economista Gustavo  Teixeira Ferreira e o Presidente Nacional dos Urbanitários, Franklin Moreira, em matéria publicada no Le Monde Diplomatique, em sua edição de janeiro de 2013, "a redução do preço da energia elétrica permitirá um aumento do poder aquisitivo da população, estimulando, portanto, o consumo, a produção e o emprego, ao mesmo tempo que reduzirá o custo de produção do setor industrial, podendo levar ao aumento da produção e à diminuição do custo dos produtos finais". 

O artigo ainda considera positiva a medida sobre o controle da inflação e o consequente afrouxamento sobre as políticas monetárias, dando maior liberdade ao governo para estimular investimento e consumo. Já se fala que a medida terá um impacto de 0,5% sobre a inflação, para menos, obviamente. O controle da taxa da inflação vem sendo uma das maiores dificuldades do governo, ainda mais, que se antevê um aumento no preço dos combustíveis, que há muito vem sendo prorrogado. Além disso, a maioria das empresas desses setores continuarão sob a esfera do Estado, consideram os articulistas.

Os resultados positivos são inquestionáveis. Mas existem temores. Os mesmos articulistas do Le Monde Diplomatique, apontam para os riscos dos ajustes que serão feitos pelas empresas do setor, com possíveis demissões. Outro risco é apontado pela questão da pressão de outros custos sobre as tarifas, como as questões climáticas, e a consequente redução do uso de energia hidroelétrica e aumento das termoelétricas, de custo mais elevado. Outra preocupação mostrada e, já vencida, seria a não adesão das companhias ligadas aos governos do PSDB e as suas possíveis tentativas de privatização.

Já na conta de fevereiro, possivelmente, dependendo das datas da medição, poderemos sentir algo inédito em nossas vidas, qual seja, a redução significativa de uma despesa mensal, relativamente alta. O debate em torno, certamente se prolongará até as eleições presidenciais de 2014, e deverá ter significativo impacto no resultadodas mesmas. É uma das primeiras vezes que vejo ser tomada uma medida estrutural e não meramente conjuntural. Aplausos para a presidente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Django Livre. - Quantos prêmios irá levar?

Quarta feira, 23 de janeiro, foi o dia escolhido para ver Django Livre. Com esse filme inicio um tour para ver os principais filmes indicados para o Oscar de 2013. Amor, de Michael Haneke, diretor do inesquecível  A Fita Branca e - Lincoln, de Steven Spielberg serão os próximos. Já tinha assistido antes a Argo e lamento profundamente que Os Intocáveis não conste de nenhuma indicação.
O cartaz de Django Livre, do AdoroCinema.

Django Livre gira em torno do tema da escravidão e o cenário dessa trama será o sul dos Estados Unidos. Dois dos principais personagens já aparecem nas cenas iniciais do filme: o alemão Dr. Schultz (Christopher Waltz - globo de ouro como melhor ator coadjuvante), um dentista caçador de recompensas, aparece em seu trabalho, se defrontando com traficantes de escravos, que tem as cabeças a prêmio. Um dos escravos, Django, é libertado e recebe a proposta de ser uma espécie de sócio do Dr. Schultz. Lhe agrada o papel de matar brancos e ainda ser recompensado por esse trabalho.

Nas conversas entre o dentista (é espetacular a sua carroça, com o dente) e o escravo liberto emerge a mitologia alemã. A esposa de Django se chama de Brunhilde e fora escrava em casa de alemães, sabendo inclusive falar alemão. Brunhilde e Siegfried são personagens permanentes desta mitologia, tão presentes nas óperas de Wagner. Da busca de Siegfried por Brunhilde, por analogia, Django estará atrás de sua Brunhilde, em versão de escravos negros. Tarantino gosta de subverter a história. Um Faroeste com herói negro.
Django Livre : foto Christoph Waltz, Jamie Foxx
O Dr. Schultz e Django, juntos. Foto de AdoroCinema.

O Dr. Schultz, já em sociedade com Django, primeiramente irão acertar contas com Calvin Candie, um latifundiário e escravocrata dos maiores. Neste momento são introduzidos no filme outros dois personagens notáveis. Calvin (Leonardo DiCaprio) e Stephen (Samuel Jackson). Calvin é o vilão, símbolo da decadência provocada pela escravidão. O seu divertimento preferido é o de assistir lutas entre humanos, até a morte de um dos contendores. O outro vilão é um negro caseiro, que cumpre importante papel na dominação sobre a sua raça, a raça negra. Mostra inclusive uma inteligência superior a de Candie, o vilão branco. Cenas horrorosas, mas em nada supérfluas. Os diálogos entre o Dr. Schultz e Candie são notáveis. É o momento do filme em que ocorrem as cenas de maior violência. DiCaprio, em entrevistas, declarou até um certo constrangimento em fazer o papel, exigindo, inclusive algumas mudanças.
Leonardo DiCaprio, como o vilão, símbolo da decadência sulista, Calvin Candie. Foto: AdoroCinema

Existe uma cena anterior, que é de uma ironia memorável. A cena dos encapuzados, numa alusão ao surgimento da Ku Klux Klan. O humor ácido atinge aí um de seus clímax.

Quando Django aparece absolutamente sozinho e irremediavelmente perdido, os dois negros, Django e Stevie, entravam a sua luta. Stevie é uma amostra do que o negro é capaz, contra o seu próprio povo, quando se disputa algum espaço de poder. Mas, como Django é o mocinho deste faroeste, ele obviamente será o vencedor, mas não antes de uma nova sequência de cenas de absoluta violência, aliás uma das marcas registradas de Tarantino. Brunhilde será resgatada.
Django Livre : foto Kerry Washington
A bela Brunhilde negra, a ser ser resgatada pelo Siegfried negro, Django. Foto: AdoroCinema.

Tarantino é um roteirista, diretor e até ator (aparece neste filme com um pequeno e insignificante papel, que logo leva a pior) e, é um homem ainda novo. Ele nasceu em março de 1963, estando portanto, agora com 49 anos, o que significa que ainda teremos muito Tarantino em nossos cinemas. O seu envolvimento com o cinema começa muito cedo, quando aos dois anos a sua família se muda do Tenesse, onde nasceu, para Los Angeles. Desde cedo é habitual frequentador das sessões de cinema. Um de seus primeiros empregos na vida foi trabalhar numa famosa locadora de filmes em Manhatan Beach, sendo balconista na vídeo Archives. É o seu contato vivo com o cinema.

Como profissional se destaca desde cedo como roteirista e todos facilmente percebem o seu conhecimento enciclopédico (Veja em Django a relação com a mitologia e a referência a D'Artagnan, personagem de Alexandre Dumas) e a notabilidade de seus diálogos. A fama já lhe vem nos anos 90 e se consagra, especialmente, com Os Bastardos Inglórios, de 2009. Certamente estamos agora diante de sua melhor obra.

Tarantino, como diretor deve ser extremamente exigente na formação de seu elenco e deve cobrar uma característica sua, dos atores escolhidos: o absoluto envolvimento com a trama e paixão no empenho, condições sem as quais não se faz um grande filme e um grande cinema.

Ganhará Oscar? Com certeza. Ele deverá repetir o Globo de Ouro como o melhor roteiro. Dê uma olhada nos concorrentes. Neste dá para apostar com firmeza. Também não será nenhuma surpresa se Christopher Waltz repetirá o Oscar de melhor ator coadjuvante, já ganho com Bastardos Inglórios. O resto é aguardar. Não concorre como melhor diretor, nem como a melhor trilha sonora, que é simplesmente memorável. As cinco indicações são:

Melhor filme.
Melhor ator coadjuvante, com Christopher Waltz, no papel de Dr. Schultz.
Melhor roteiro original, do próprio Quentin Tarantino.
Melhor fotografia, com Robert Richardson.
Melhor edição de som.

Se não ganhar nada, o que dificilmente ocorrerá, certamente a causa residirá no tema abordado pelo filme, uma chaga ainda não totalmente cicatrizada na cultura americana, que é a questão da escravidão e a questão racial e, ainda, a forma da abordagem. A ironia é difícil de ser suportada e tolerada. Um grande filme a ser visto e certamente com direito a bis, em tela de cinema.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

José Pepe Mujica. O Presidente mais pobre do Mundo.

Um dos maiores destaques da mídia internacional neste começo de 2013, foi sem nenhuma dúvida, o presidente uruguaio José Pepe Mojica. Mas qual foi o motivo desta agitação? Mojica é considerado o presidente da república mais pobre do mundo. A sua pobreza é, em grande parte voluntária. O seu jeito simples de ser, ganhou as páginas dos grandes jornais do mundo.
José Pepe Mojica, presidente do Uruguai. O presidente mais pobre do mundo.

O jornal que lhe deu maior destaque foi o New York Times, que o entrevistou e fez chamada da matéria em sua capa. Ao repórter, que o entrevistou, ofereceu uma cachaça uruguaia e o brindou com citações de Espinoza e de D. Quixote. Desta entrevista, uma frase ganhou logo as agências internacionais: Este dinheiro me basta e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com menos. A que estavam se referindo?

José Pepe Mojica tem hoje 77 anos de idade, dos quais mais de uma década foi vivida nas terríveis prisões do regime militar de seu país, nos anos setenta e oitenta. Fora guerrilheiro Tupamaro, com notável liderança. Foi anistiado em 1985 e, sempre, a sua luta o manteve em evidência, até se tornar Presidente da República nas últimas eleições. Mas o que o faz ser o presidente mais pobre do mundo?

Ao longo de sua vida acumulou um patrimônio material de um pequeno sítio nos arredores de Montevidéu, o Rincon del Cerro. Além do pequeno sítio, um velho fusca azul e um trator para o seu uso agrícola, completam os seus bens.. Já quanto ao seu patrimônio imaterial, ele é imensurável e admirado pelo mundo inteiro.
A propriedade do presidente uruguaio. Um fusca azul, ano 1987.
O presidente,  que já fora deputado e ministro de Estado, doa 90% de seu salário de U$ 12.500,00, ficando com apenas  U$ 1.250,00, ou seja, algo em torno de R$ 2.5000,00. A sua mulher, a senadora Lúcia Topolansky faz o mesmo. Os 90% de seu salário são destinados a projetos de habitação popular. Esta é a origem da frase que ganhou o mundo, de que este dinheiro lhe basta.
O palácio presidencial vem sendo ocupado com projetos sociais e a residência de verão, da presidência, foi vendido. Isto não ganha a unanimidade dos uruguaios. Entre os mais ricos se encontram as maiores taxas de rejeição ao seu governo.
O Uruguai é um país pequeno. Possui uma população de 3.250,000 habitantes e um PIB de U$ 47 bilhões,  que vem crescendo já a nove anos consecutivos. Tem no Brasil o seu maior parceiro comercial com as trocas, atingindo a casa dos U$ 4 bilhões. As taxas de desemprego hoje são baixas e a qualidade de vida é boa.
Outra frase muito comentada foi a de que "os políticos devem dar um respiro para a democracia poder funcionar". Evidentemente que esta frase foi destinada aos políticos da América Latina, sempre preocupados com a reeleição em seus países. O presidente uruguaio descarta qualquer possibilidade de ele vir a fazer isso.
Creio que o único político brasileiro com o qual se poderia traçar um paralelo, seria o Florestan Fernandes que doente, em função de uma transfusão de sangue, foi retirado da fila da saúde pública pelo seu filho, e que recusou um tratamento nos Estados Unidos, que lhe fora oferecido pelo seu ex-aluno, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Talvez o jeito simples e desapegado de ser de Olívio Dutra, também possa merecer uma comparação.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Adelar Bertussi - Um Gaiteiro de bem com a Vida.

Nas minhas caminhadas, de vez em quando dou uma passada pelos supermercados que ficam no caminho. Quando faço isso, normalmente dou uma espreitada nos vinhos, para ver se tem alguma boa oferta. As vezes também dou uma chegada na seção dos CDs e DVDs. Neste final de semana, entre os DVDs encontrei um de Adelar Bertussi, que eu imediatamente comprei, sem nem mesmo ver direito o preço.
O DVD - Adelar Bertussi - O tropeiro da música gaúcha. Na verdade o DVD é um documentário sobre a vida e a carreira dos Irmãos Bertussi.

Dos meus tempos de infância me lembro de duas duplas, que a gente ouvia no rádio, lá em casa.Uma era Tonico e Tinoco e a outra era os Irmãos Bertussi. Muito mais tarde, em Umuarama formamos um CTG.(Centro de Tradições Gaúchas) e, na inauguração do nosso galpão, a animação do baile ficou por conta de Os Bertussi - Pai e Filho - Adelar e Gilnei. Na época tínhamos um belo costume de não hospedar os conjuntos em hotéis, Isso era feito em nossas casas. Coube a mim a honra de hospedar o próprio Adelar. O que posso dizer dele? Uma das pessoas mais cativantes que eu já conheci. Em poucos minutos de conversa, já parecíamos amigos, há um longo tempo.

Guardo comigo o LP que ganhei de presente do Adelar, com dedicatória. - Ao amigo Elói e família. Nosso abraço. Adelar Bertussi. 21.10.1989. Foi um baile maravilhoso, fandango para ninguém botar defeito. Depois fiquei sabendo que Adelar estava morando em Curitiba, mas nunca mais nos encontramos. Fui até professor de um aluno com o sobrenome Bertussi e perguntei para ele: O que tu és do Adelar? É o meu tio, me respondeu ele. Mas ficou nisso.
O LP que ganhei do Adelar, por ocasião da inauguração do galpão do CTG de Umuarama.

Sabia que os Irmãos Bertussi eram de São Francisco de Paula, pois cantaram loas a sua cidade natal. No DVD documentário isto está confirmado. Eles nasceram num lugar chamado Criúva, hoje distrito de Caxias do Sul, entre Caxias e São Marcos. Os pais eram fazendeiros.

Eu sempre fico intrigado diante de gênios. Fico sempre a perguntar. Como é que ele começou? Quais foram as influências? Ele estudou ou isso foi meio espontâneo? Isso tudo está respondido no documentário. Ao que tudo indica a família tinha posses: eram fazendeiros. A mãe - Juvelina - era letrada. Fora aluna de colégio interno em Ana Rech, nas proximidades de Caxias do Sul e o pai - Fioravante - era italiano com boa formação musical. O seu instrumento era a clarineta. Chegaram a formar uma banda em família, - que tocava especialmente nas festas e nas procissões da igreja, - fato que, não deixa de ser a origem da dupla, que seria tão famosa.

Os guris estudaram música em Caxias. Primeiro Honeide e depois Adelar. Adelar teve até professor que veio da Itália. Deste complexo de coisas, surgiu efetivamente a dupla - Os Irmãos Bertussi: a música, uma marca da família e os estudos musicais com professores em Caxias do Sul. O campo lhes deu o tema. Incorporaram à música gaúcha, as lides de campo dos serranos. Eu incorporaria mais uma coisa: Os caminhoneiros de São Marcos, de quem sempre foram caroneiros para ir para São Paulo e ao Rio de Janeiro, para se entreverarem com as artes da gravação.

No documentário existe uma preciosidade que deveria integrar todas as aulas sobre a história do rádio. Adelar conta, não somente como chegou em sua casa o primeiro rádio - um caixão que fala - mas o incêndio que ele provocou na imaginação deles. Eles ouviam a rádio El Mundo de Buenos Aires, com seus tangos e, depois a rádio Record de São Paulo. Na Record escutavam o programa da famosa dupla Raul Torres e Florêncio. Não saía da cabeça do Honeide, um pouco mais velho que Adelar, ir para São Paulo e seguir na carreira musical, para além dos bailes e das procissões religiosas em sua terra.

Em São Paulo chegaram a ser anunciados por Raul Torres, que mandou até um alô para a família, mas não houve abertura para uma apresentação. Dele receberam o conselho de que deveriam ir para o Rio de Janeiro, pois lá é que gostavam da acordeona. E o inusitado aconteceu. Apareceu em Caxias um sobrinho do Mário Mascarenhas, para estudar afinação numa fábrica de gaitas e que meio perdera o contato com o tio. Honeide encarregou-se de sua volta ao Rio, com os caminhoneiros de São Marcos. A dupla, porém, foi junto.

Adelar tocou para Mascarenhas, num evento de sua academia. Tocou também a dupla. Adelar lembra até da música, La Cumparsita. Uma semana depois estavam tocando para David Nasser, dono de O Cruzeiro e foram logo apresentados para Emílio Vitali, diretor artístico da Copacabana Discos. Em dezembro de 1955, sai, em lançamento nacional, o LP - Coração Gaúcho. Depois veio um atrás do outro. A dupla se separou no auge do sucesso, depois de uma apresentação na Festa da Uva, em 1966, quando cantaram e tocaram para um público de mais de 40.000 pessoas.

Depois formou dupla com Itajaíba Mattana e formou conjuntos com os nomes: Adelar e os reis do fandango, - Coração Gaúcho, - Os Bertussi - Pai e Filho - Adelar e Gilnei. Hoje o conjunto está sob o comando de Gilnei, mas Adelar ainda os acompanha. Adelar se diz inspirado no famoso gaiteiro catarinense Pedro Raimundo, na alegria de tocar e de cantar.

Em 2008 foi inaugurado na Fazenda Bertussi, em Criúva, no município de Caxias do Sul o memorial irmãos Bertussi, onde está a lápide de Honeide. O memorial é um museu e consta também de um busto de bronze dos dois irmãos gaiteiros. A dupla que aparece no memorial é tirada de uma capa de um de seus LPs. e tem 3,20 metros de altura. Na minha próxima ida ao Rio Grande, já incluí uma visita ao memorial.
Vista do Memorial Irmãos Bertussi, em Criúva, um distrito de Caxias do Sul.

A minha dúvida com relação a formação deste gênio está respondida. Tem música na origem, na família, e especialmente na sua formação com professores de música, em Caxias do Sul. No DVD tem um belo depoimento de seu professor, o italiano Eleonardo Caffi, que diz que havia no Adelar poesia e musicalidade, facilidade e intuição e muita predisposição."Era fácil para ele - ele tinha uma destreza incrível", diz o professor.

Me deu muita satisfação fazer este post, ele me avivou a memória de um belo dia em que o conheci e tenho certeza absoluta de que ele cumpriu com a sua inspiração de gaiteiro alegre, ele transpira esta alegria, que está reservada aos homens que estão de bem com a vida. Sim, para lembrar, no dia em que conheci o Adelar, eu literalmente toquei em sua gaita. E provo. Vejam a foto.
"Tocando" na gaita do famoso gaiteiro, Adelar Bertussi.

Em tempo: Um dos diplomas que ostento com gosto. O título de sócio remido do CTG. Querência da Amizade - de Umuarama. Ele fez parte da campanha de arrecadação de fundos para a construção do galpão.
O título remido nº 02.






terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Inacreditável. Alcione Saliba estaria voltando.

Há tempos se fala na reforma do secretariado do governador Beto Richa. Isso se deve fundamentalmente à derrota que o governo levou nas últimas eleições municipais, quando Luciano Ducci, o seu candidato, nem sequer chegou ao segundo turno. A reforma visa melhorar a imagem do governo e pretende basicamente incorporar mais o PMDB em seu governo. Ainda mais que Requião foi alijado do processo, com a sua derrota interna, nas eleições para o Diretório do PMDB. Sem Requião o PMDB pode cumprir mais facilmente a sua vocação adesista e fisiológica.

Mas não é só isso. O governador estaria insatisfeito com o secretário da educação, Flávio Arns, especialmente, em função da anunciada greve dos professores da rede pública estadual, para o dia 13 de março. Época de reforma de secretariado sempre é um tempo de muitos boatos e um deles é o de que Alcione Saliba voltaria a ocupar a pasta da Secretaria da Educação, cargo por ela ocupado, no segundo governo de Jaime Lerner. Jaime Lerner foi o maior governo neoliberal da história do Paraná e o desmonte público só não foi maior, por causa da mobilização do povo paranaense, em geral (Lembrem o caso da venda da COPEL) e dos professores, pelo seu sindicato, na questão da educação, em particular.

O tempo de Saliba na secretaria foi de beligerância total. A todo custo quis implantar a terceirização na escola. Até mesmo os professores não seriam mais funcionários públicos. Os professores seriam  contratados e administrados por uma empresa privada e, adeus plano de cargos, salários e carreira. Dos funcionários então, nem se fala. O mesmo com a merenda e... Os diretores perderiam a sua função pedagógica e seriam treinados, uma das palavras preferidas, (Vejam os animais treinados - como ficam dóceis) para serem gestores educacionais, isto é, seriam treinados para gastar menos dinheiro com a educação pública, ou então, o arrecadariam junto à comunidade.

Se Beto Richa quis declarar guerra  aos professores, se quis implantar um regime de terror nas escolas, ele não poderia ter se saído melhor. Imagina se esses boatos se confirmarem. Estaria Beto Richa querendo tirar Álvaro Dias de seu pedestal, de "querido dos professores" e ter um 30 de agosto, ano a ano comemorado para nunca ser esquecido. Álvaro Dias praticou a violência física contra os professores, mas a violência simbólica que Beto está promovendo é infinitamente maior, e para isso, até mesmo este boato já é suficiente.

É desnecessário lembrar o que essa representante do Banco Mundial quis fazer com educação pública do Paraná, junto aos professores que viveram a sua gestão, mas é preciso alertar os mais novos.

Deixo aqui para os professores refletirem, especialmente, na semana pedagógica que antecede o ano letivo sobre os projetos que o neoliberalismo tem para a educação. O grande intelectual orgânico do neoliberalismo em educação é o Banco Mundial. Creio que todos sabem o que é um banco e quais são os seus mecanismos de funcionamento. Só esta concepção já basta, para saber que um banco não é a melhor instituição para definir os objetivos e rumos da educação.
A Bíblia do neoliberalismo, onde é pregada a destruição da educação pública.

O Banco Mundial, por sua vez, copiou as suas propostas de Milton Friedman. Em seu livro, Capitalismo e Liberdade, existe o capítulo VI,  "O Papel do Governo na Educação", onde estão contidos todos os mandamentos da destruição, isto mesmo, da destruição da educação pública. Ele defende que todas as escolas sejam particulares e as crianças pobres receberiam então vauchers, para estudarem nas escolas particulares. É para isso que se calcula o custo/aluno e é por isso que são feitos os famosos rankings, para  que ninguém escolha uma escola ruim para os seus filhos. A competição faria com todas as escolas fossem boas... A competição jamais traria exclusão. Seria uma sociedade só de vencedores, sem os perdedores. E vai por aí o blá...blá...blá...
O capítulo VI, a famosa cartilha de como destruir a educação pública

Convoco os professores para alerta máximo, de perigo total à vista. É mais fácil lutar agora, para que ela  não seja nomeada do que lutar depois, para tirá-la da função. Os filhos das classes trabalhadoras, que na educação pública, tem o seu grande instrumento de formação, ficarão muito agradecidos, se não forem submetidos a esta tragédia anunciada. Também é bom lembrar ao governo, que Jaime Lerner perdeu as eleições, depois de manter esta senhora na secretaria. Ou o governador teria tomado gosto por derrotas eleitorais!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Paulo Freire no Caderno G da Gazeta do Povo.


Publico hoje o texto que saiu no Caderno G da Gazeta do Povo, de sábado, dia 19 de janeiro de 2013. A Gazeta me solicitou este texto e o limitou a, entre três e quatro mil caracteres, o que eu fiz. O texto foi publicado na íntegra. Aqui o link para a matéria toda.
A matéria do Caderno G.


Paulo Freire: Entre a Utopia e a Transcendência.

Creio que o renovado interesse em torno de Paulo Freire e de seu legado se deve a conjugação de dois fatores: a recente lei que o declara Patrono da Educação Brasileira (Lei 12.612 – 2012) e o recrudescimento de uma nova onda conservadora no Brasil.

O que tem a obra de Freire de tão provocadora, diante da qual ninguém permanece indiferente? É o que procuraremos ver neste pequeno texto.

 Freire nasce em Recife em 1921. Conhecerá a realidade nordestina, agravada pela da crise de 1929. O problema que mais o toca é o do analfabetismo. De um total de 25 milhões de habitantes no nordeste, 15 milhões padecem desta chaga. As oligarquias tiram proveito da situação.

Advogado, ele abandona a profissão já na primeira causa. A urgência da questão educacional concentra toda sua energia e vitalidade. Empreende toda uma luta contra o analfabetismo, que tem em Angicos – RN. – seu primeiro marco e símbolo. Não pretendia transformar analfabetos em eleitores, acusação recebida já nesse tempo. Queria transformar analfabetos em ativos sujeitos históricos, construtores de uma realidade que não lhes fosse tão opressiva.

 Sua obra é sustentada numa concepção filosófica, que move toda a estrutura de sua pedagogia. A primeira delas é o processo de conscientização. A ela chega pelos pensadores do ISEB, gigantes na interpretação da realidade brasileira. D. Hélder Câmara popularizará este conceito. O cristianismo, pela via da teologia da libertação, será outra de suas marcas.

Mas qual é o significado de conscientização? Freire responde: “A conscientização não está baseada sobre a consciência, de um lado, e o mundo, de outro; [...] Ao contrário, está baseada na relação consciência-mundo.” 

O que vem a ser esta relação consciência-mundo? Que o mundo não é uma realidade estática e imutável, construída por agentes naturais ou sobrenaturais, mas uma construção histórica, portanto, uma construção humana. Explico: está na mão (trabalho) e na mente (pensamento), não separadas, a construção da realidade em que vivemos. E isso ocorrerá na exata medida em que deixamos de ser passivos, nos tornando, partícipes e artífices da realidade. Está aí outra herança do educador, oriunda da filosofia de Marx, especialmente de A Ideologia Alemã. Aí está a parte mais explosiva de sua obra: o ser humano constrói, ele mesmo, a realidade e não as elites e as tradicionais invocações à vontade divina.

Esta parte explosiva forma o conteúdo de sua obra e é expressa em títulos como: Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Conscientização e Pedagogia da Esperança. A outra parte explosiva se refere ao método.

Aí se soma a maiêutica socrática, do parto das ideias por perguntas/problema, com a curiosidade da mente, ávida na investigação e compreensão. Isso se confronta com o método tradicional de transmissão de valores e de conformação à realidade, pelos métodos catequéticos e conteúdistas que, antes de qualquer curiosidade, já pregam valores, sempre eternos, imutáveis e universais e, em assim sendo, inquestionáveis. Intervenção na realidade é agitação, é subversão.

 Outra herança é a da dialética, vista como contradição/superação. A realidade tem dentro de si, sua contradição. A percepção da contradição é a tomada de consciência e esta leva à ação para a superação.

Em síntese, poderíamos dizer que a pedagogia freireana faz acreditar que vivemos numa realidade construída por nós mesmos, mas, isso só será percebido se tomarmos consciência de que ela pode ser mudada, por ser o próprio homem, o agente desta construção. Creio ser desnecessário explicitar porque ele produz tantos e tão profundos ódios em todos aqueles que querem uma sociedade intransitiva, que não transita e que quer a manutenção de privilégios. Outras críticas procedem de teorias economicistas e produtivistas de educação.

Ouvi pessoalmente de Paulo Freire as seguintes palavras: A denúncia precede o anúncio. Não existe anúncio sem denúncia. A denúncia é a percepção da realidade injusta em que vivemos e o anúncio é a profecia de um novo tempo, a ser construído pelos sujeitos que emergirão de seu modelo pedagógico.

 O anúncio, além do novo tempo, nos anuncia também a transcendência, a impermanência. Por sermos limitados e movidos pela curiosidade, trans – ascenderemos, sempre na busca do aperfeiçoamento máximo. A utopia e a transcendência sempre ocuparão o espaço do nosso horizonte.
Pedro Elói Rech.
 Mestre em História e Filosofia da Educação. PUC-SP

 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Paulo Freire no Caderno G da Gazeta do Povo.

Hoje remeto os meus leitores para a Gazeta do Povo, mais precisamente, para o Caderno G - Ideias, com três páginas sobre Paulo Freire, apresentado na matéria de capa, como o pai do dialogismo. Ainda na apresentação se lê: "Um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, Paulo Freire, defensor do aprendizado em um contexto dialógico e crítico, tem seu legado redescoberto pelas novas gerações.
O caderno G - Ideias, da gazeta do Povo, ano 94, nº 30377, de 19.01.2012.

A matéria é editada pela jornalista Adriana Brum, que faz uma apresentação do educador, falando da importância de seu legado "fundamentado no diálogo como base para a tomada de consciência do indivíduo". Adriana faz também uma entrevista com a professora Maria Aparecida Zanetti, professora do setor de educação da UFPR., com atuação na educação de jovens e adultos e especialista em Paulo Freire. Já tive a honra e a alegria de ter trabalhado ao seu lado.

A editora também seleciona algumas frases do mestre educador. São elas: "O nosso grande desafio prosseguia e transcendia a superação do analfabetismo e se situava na necessidade de superarmos também a nossa inexperiência democrática. Ou tentamos simultaneamente as duas coisas". O combate ao analfabetismo foi o grande mote que levou Freire a se dedicar tanto à educação. Pelo combate ao analfabetismo se inicia um processo de emancipação. As outras frases destacadas são:

Não há educação neutra. Toda neutralidade afirmada é uma opção escondida.

Nos 16 anos de exílio, em que vivi andarilhando pelo mundo, meu tempo se desdobrou em múltiplos espaços. E durante todo esse tempo eu tentei sempre caminhar muito carinhosamente e, ao mesmo tempo, ser fiel às minhas marcas de brasileiro.

Porque amo a justiça e amo o mundo espero que a justiça social se implante antes da caridade.

Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. Esta é uma das frases mais famosas de seu pensamento.

Também compareci nesta reportagem, com um artigo: - Entre a utopia e a transcendência. Hoje remeto para a leitura na Gazeta do Povo, depois o publicarei aqui no Blog.

Jornalismo é isso. É uma verdadeira torre de Babel. Contestei, no meu blog, os detratores de Paulo Freire em artigos na Gazeta e, hoje me foi dada a oportunidade de expor a base de seu pensamento e de sua filosofia.
Agradeço a editora do Caderno G-, a jornalista Marleth Silva, com quem fiz os primeiros contatos e a Adriana Brum, que me entrevistou e editou a matéria. A elas o meu agradecimento pela oportunidade de divulgar o pensamento do grande mestre.

Quero ainda registrar a efetiva importância e reconhecimento mundial ao grande educador, evidenciado pela concessão de 41 títulos de Doutor Honoris Causa, pelas mais renomadas universidades do mundo, entre elas a mais famosa de todas, A Universidade de Harvard. O educador também recebeu, como merecimento ao seu trabalho, uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Brasil de 1964 estaria se repetindo? 3.

Na segunda reportagem da Carta Capital, sobre a velha cara da nova direita, o foco está centrado nos jovens e nos meios de difusão das sementes reacionárias. Redes sociais, livros e até a criação de partidos políticos fazem parte de suas ofensivas. A reportagem tem por título: As sementes reacionárias - Redes sociais, livros e até partidos: não há limites para os jovens conservadores.
Carta Capital, edição de 12 de dezembro de 2012. Ano XVIII,  nº 727. As sementes reacionárias.

A primeira parte da reportagem é dedicada à jovem gaúcha Cibele Baginski, de Caxias do Sul, que quer refundar a ARENA, o partido que sustentou a ditadura militar. Ela é estudante de direito e prega a redução do Estado e a "abolição de quaisquer sistemas de cotas" ou "condições especiais", para favorecer os indivíduos. Com a refundação da ARENA, se diz pronta para atender  aos anseios de "muitas pessoas que estavam sem voz, como eu" e pretende empreender a "luta contra a comunização do Brasil" e crê que "ao permitir a divergência de opinião, a ARENA vá trazer um novo horizonte para a democracia no país". Creio que com essas afirmações, especialmente a relativa a democracia, já haveria motivo suficiente para internar essa menina num centro de estudos de lógica e de coerência mínima,. Mas, conhecendo a sua situação por inteiro, as coisas se complicam ainda mais. Não é que a menina é bolsista do ProUni. Ela está fazendo o curso de direito que, segundo o seu modo de pensar, representa uma abominável ação do Estado, em sua vida e que, sem a qual, ela certamente não estaria  cursando a universidade.

A reportagem continua a se ocupar com a fundação de novos partidos. Todos eles são encabeçados por jovens entre 20 e 30 anos e que não estão satisfeitos com o conservadorismo do DEM, do PSDB e similares. São eles o Federalista, o Libertários e o Partido Novo. Todos pretendem tirar o peso do Estado de suas vidas. Do Partido Novo é o lema da gestão eficiente, tão a gosto dos governantes paranaenses, apenas o slogan, obviamente.

A matéria avança sobre as novas instituições que estão surgindo, até entre estudantes de ciências sociais da USP., como a UCC. (União Conservadora Cristã), que chegou a disputar a eleição do Diretório Central dos estudantes daquela instituição. Também os partidos convencionais como o DEM, o PSDB e PSD, tem as suas alas jovens. Mas, quem mais cresce, diz a reportagem, são os movimentos extremistas. Eu particularmente joguei no Google o termo "Cons" e apareceu o Conservadores do Brasil. Nele vi velhas figuras da direita como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, este um dos preferidos da elite curitibana. O destilar... é de arrepiar. 

A pesquisadora Márcia Carneiro, com tese de doutoramento sobre o integralismo brasileiro, vê nestes jovens uma volta dos camisas verdes e no uso da mídia um forte meio de agregação. "Ser de direita", afirma ela, "passou a ser atrativo ao jovem no momento em que a divulgação de tais mensagens nas redes sociais ganhou aspectos modernos" e continua: "Estar incluído em um grupo que acolha suas raivas, recalques e intolerâncias faz-lhes sentir confortáveis em um mundo que a abertura de oportunidades fere as suas arrogâncias" e em que os filhos de uma "velha classe média que se recusa a compartilhar os ganhos econômicos e sociais com a nova classe média". Encontram nestas redes sociais a satisfação para os seus egos. Recentemente eu ouvi alguém dizer: "Ali eu leio aquilo, com o que eu realmente concordo". Isto basta. Certamente você já ouviu falar (mal) da nova condição das empregadas domésticas, que até vem trabalhar de carro. Imaginem só! Esta é apenas uma das manifestações, das mais corriqueiras, desse novo conservadorismo.

Já ao final, a matéria avança para os livros. Entre eles fazem sucesso os dois Guias do politicamente incorreto: um sobre a história do Brasil e outro sobra a América Latina de Leandro Narloch, que a revista considera como deliriografia - sucessos em país ignorante. E não se fala aqui dos iletrados das periferias brasileiras. Outro livro de sucesso é o Privatize já, do economista Rodrigo Constantino, que pretende ser uma resposta ao A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Também já existe um livro sobre o Mensalão do Marco Antonio Villa.

Em suma, a reportagem mostra os jovens com a cara da velha direita. De fato aparecem muitas caras velhas como ideólogos dessa juventude. Plínio Salgado e Plínio Correia de Oliveira são as caras mais velhas que reconfiguram a cara dos jovens conservadores. Os retoques finais, os agiornamentos, são dados por pessoas, como os citados nestes dois posts sobre a matéria da Carta Capital. 

Samantha Quadrat, historiadora da UFF. atribui este renascer da nova onda conservadora, entre outras causas, ao fato de os torturadores terem sido anistiados neste país. Isso lhes abre a possibilidade de, sem constrangimento e sem temores, externarem as suas ideias, cujas consequências abomináveis a história já nos mostrou.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Brasil de 1964 estaria se repetindo? 2.

A revista Carta Capital, em sua edição de 12 de dezembro de 2012, traz como matéria de capa  uma reportagem sobre a velha cara da nova direita - do Instituto Millenium aos jovens reacionários, o Brasil volta ao passado. A reportagem tem dois focos: uma no Instituto Millenium e a outra nos jovens reacionários, anunciados no subtítulo da reportagem. Neste primeiro texto vamos focar o Instituto.
A revista com a sua reportagem de capa. Ano XVIII, nº 727, de 12 de dezembro de 2012.

Creio que aqueles que viram mais de perto o golpe de 1.964 devem estar lembrados do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação democrática) e do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Eu particularmente me lembro, - eu estudava no seminário em Gravataí - RS., que circulava livremente entre nós, apesar de todos os controles exercidos pelos padres sobre as nossas leituras, a revista Ação Democrática, do IBAD. As assinaturas eram gratuitas. O IBAD foi organizado e mantido por anticomunistas com financiamentos da CIA. e teve papel orgânico com o movimento golpista de 1964.

O IBAD não sobreviveu às investigações de corrupção - por uma CPI.- e foi fechado pelo governo em 1963. Porém o IPES., sob o comando do General Golbery do Couto e Silva, sobreviveu, chegando a reunir ao seu redor, mais de trezentos colaboradores, geralmente empresários ligados ao golpe. Durante a ditadura foram eles que produziram os materiais ufanistas que visavam respaldar a ditadura. Foi fechado em 1972, pelo próprio regime golpista.

A revista publica matéria sobre o Instituto Millenium e o compara a estas instituições do nosso passado conservador. O grupo, creio que o poderíamos considerar como a Mont Pèlerin Society brasileira, começou a se estruturar em 2005, ganhando porém, maior notoriedade a partir de 2009, com o título de  OSCIP. (Organização Social de Interesse Público), que lhe foi conferido pelo Ministério da Justiça. A matéria da Carta Capital foca especialmente o encontro realizado em primeiro de março de 2010, em São Paulo e o seu site na Internet.

Os seus fundamentos são os ligados ao conservadorismo de sempre: liberdade dos mercados, livre iniciativa, contra as intervenções do Estado,  liberdade de imprensa. Como não existe ideologia sem inimigos bem visíveis, estes foram encontrados no comunismo soviético, em Cuba e em Fidel, no passado e, hoje reinventados nos movimentos latino americanos de Chávez, Evo Morales e Rafael Caldeira e no discurso "tosco", segundo a Carta Capital, de criminalização dos movimentos sociais, das políticas sociais do governo e de todos os movimentos de esquerda, em geral.

Seus membros fundadores e apoiadores cresceram - os mais antigos - à sombra da ditadura militar, sendo que os mais novos são aqueles que sustentam o seu discurso, diariamente, na mídia, afirma a reportagem. Muitos deles são figuras bem conhecidas, pois atuam nas empresas de comunicação que sustentam o Instituto. Os mantenedores líder são destacados como a Editora Abril, a Statoil (uma petroleira norueguesa), a Gerdau e a Localiza. Suas molas propulsoras são o grupo Abril, o Estadão e a RBS..

Entre os mais conhecidos de seus participantes, a revista destaca os seus especialistas e os qualifica: "Giambiagi, o argentino das contas públicas; Lamounier, o figurino dos anos 1960 no século XXI, e Villa, o 'intelectual' preferido da mídia". Entre os economistas, também com suas qualificações, figuram: "Franco - o poeta das finanças e Fraga - dinheiro privado, vícios públicos", Também existe a lista dos comediantes, também devidamente qualificados: "Madureira, o principal jornalista da turma; Mainardi - sua covardia o levou a se esconder em Veneza e Azevedo - hilário"). Outros nomes conhecidos aparecem na reportagem: Arnaldo Jabor, José Nêumanne Pinto, Roberto da Matta, Rodrigo Constantino (do livro Privatize já) e outros menos conhecidos. No site aparecem nomes como os de Dênis Rozenfield e Demétrio Magnolli, entre outros.

Na sua Câmara de fundadores e curadores (22 integrantes) a reportagem indica a presença do ex presidente do Banco Central, Gustavo Franco e a do jornalista Pedro Bial. Deste, procurei no Google sobre a sua formação - para além do jornalismo, - mas encontrei apenas referências relativas a formação de paredão. Quanta utilidade social! Eu sempre imaginei que, para o perfeito equilíbrio da pessoa, deveria haver uma sincronia na escolha da profissão, com a sua utilidade social.

Em sua parte catequética, selecionam jovens jornalistas para estudos no exterior, fornecendo bolsas para especializações e mestrados. Esta seleção, aponta a reportagem, é feita por um de seus agregados, o Instituto Ling. Em seu primeiro ano, os agraciados foram cinco: um da revista Época (Globo), um da Veja, um do Estadão, um da Folha e um da Zero Hora. No segundo ano os agraciados estavam assim distribuídos: dois da Época, um do Estadão, dois da Folha, um da Zero Hora e um da revista Galileu (Globo). Em 2012 foram acrescentados, aos órgãos já tradicionais, mais um da rádio CBN e outro da revista Capital Aberto.

O Instituto movimenta anualmente em torno de um milhão de reais. Ah, sim! O Millenium é uma  instituição de brancos, nenhum negro a integra, afirma a reportagem.






quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Brasil de 1964 estaria se repetindo? 1.

Uma das mais bonitas comparações relativas ao Brasil, que eu vi recentemente, é a do economista Márcio Pochmann, que por muito pouco não se elegeu prefeito de Campinas, na última eleição municipal. Diz ele que o Brasil recente pode ser comparado a um moderno prédio. Nele se sobre, ou de elevador, ou então pelas escadas. O que tem de particular nessa definição? É que se sobe de duas maneiras: uma bem rápida e sem grandes esforços, pelo elevador e, a outra, lenta e com bem maiores dificuldades, pelas escadas. Mas todos estão subindo.

A afirmação contrasta com outros períodos históricos, em que isso não ocorria. Muitos, especialmente os mais antigos, devem estar lembrados da famosa frase de Delfim Netto que dizia que o bolo primeiramente deveria crescer para depois ser distribuído. Isso é, primeiramente, só se sobe de elevador, para depois então, abrir as escadarias. Vocês já viram distribuição de renda desse jeito. Lembrando Marx, vocês já viram distribuir renda com a bolsa do burguês?

Qual era o clima existente no Brasil nos anos anteriores a 1964? Internamente havia um crescimento da renda nacional e esta era, minimamente distribuída, partilhada nacionalmente. Jango quando ministro do trabalho concedeu um reajuste no salário mínimo de 100% e ao longo do governo JK. tivemos o mais alto poder de compras do salário mínimo. O acesso aos bens básicos de consumo estava em expansão, mas chegara ao seu limite. Para ele se expandir e atingir níveis de mercado interno como o das sociedades americana e europeia, reformas de maior profundidade precisariam ser feitas: as tais das reformas de base, reformas estruturais, que constavam no plano trienal, elaboradas por Celso Furtado, no governo Jango. Essas reformas jamais seriam aprovadas pelo Congresso, fato que provocou os movimentos populares de que o povo estaria acima de seu Congresso, de sua casa elaboradora de leis.
Um dos livros fundamentais para a compreensão do ocorrido em 1964. Padre Joseph Comblin. A Ideologia da segurança nacional - O poder Militar na América Latina. Pela Civilização Brasileira.

Externamente imperava a guerra fria e que, internamente, ganhava os contornos da ideologia da segurança nacional, que pregava a necessidade da eterna vigilância contra o perigo da permanente ameaça comunista sobre o povo brasileiro. A indústria da ideologia do anticomunismo estava em alta. Os movimentos populares foram rotulados de perigosíssima agitação subversiva sob o comando de Moscou. O imperialismo americano por sua vez era visto como o amigo que nos ajudava. Quem não se lembra da "Aliança para o progresso"?

Que semelhanças com 1964 temos hoje? Começaria a analisar pelas diferenças. A oposição política não tem nem vozes e nem organização como aquela de 1964. O PSDB não é nenhuma UDN. e o seu líder, Álvaro Dias, está a anos luz do que fora Carlos Lacerda. O comunismo, na sua versão de socialismo real, stalinista, não existe mais. Nem há padres organizando marchas com terços na mão, rezando para que Nossa Senhora de Fátima salve o Brasil do comunismo. Não há mais a bipolaridade da guerra fria e, nem a ideologia de segurança nacional faz mais qualquer sentido. Os níveis de inflação também não são os mesmos daquela época.

Mas quais seriam as semelhanças? Sim elas existem. Existe a articulação de uma onda conservadora, representada pela mídia e pelos partidos políticos de oposição e uma organização moralista que perpassa todas as instituições. Há tentativas de golpe? Creio que elas nunca deixaram de existir mas, no momento, elas tem pouca visibilidade. Mas a questão é mais profunda. Para analisar semelhanças e diferenças deve se olhar para o econômico.

Semelhante ao período anterior a 1964, vivemos um período de distribuição de renda, tímido é verdade, mas inegável. É consistente? Aí residem as dúvidas. O que ocasionou a recente distribuição? Rapidamente poderíamos enunciar alguns fatores: elevação real do poder aquisitivo do salário mínimo, ganhos salariais reais nas negociações por ocasião das datas-base, diminuição das taxas de desemprego, programas assistenciais do governo, mais acesso a educação e acima de tudo a facilidade de acesso aos mecanismos de crédito, especialmente pela via dos empréstimos consignados.

Como vimos em nosso primeiro parágrafo, esses fatores somados possibilitaram a subida de muita gente pelo caminho da escada. A economia brasileira atingiu um novo patamar de consumo, mas existe no ar uma pergunta intrigante. Isso é suficiente para continuar a crescer? Ou estamos diante de um impasse. Para continuar a crescer novas mediadas distributivistas teriam que ser feitas? Haverá reações políticas, caso essas medidas sejam implantadas?
Estão surgindo as primeiras interpretações do que foram os dois governos de Lula. André Singer. Os sentidos do lulismo - reforma gradual e pacto conservador. Pela Companhia das Letras.

Tenho para mim o seguinte: Estamos vivendo um impasse. Para continuar a crescer novas reformas precisam ser feitas e de forma estrutural. Elas estão sendo feitas apenas conjuntural ou pontualmente. Além da continuidade de todas as políticas públicas anteriores, novos esforços estão sendo feitos, como a redução de impostos, redução da tarifa da energia elétrica, desoneração da folha de pagamento... Tudo isso visando  dar para a economia uma maior competitividade.

Um vaticínio. Aprendi com Maquiavel, que com o surgimento do mundo moderno, a política se transformou numa técnica social e que esta, cada vez mais, se submeteu aos interesses da nova economia em surgimento e em expansão. A política passa a agir cada vez mais em função do econômico e por isso mesmo o econômico passa a ser cada vez mais determinante. Não gosto de fazer afirmações, especialmente as mais categóricas. Por isso vou lançar o meu vaticínio sob forma de pergunta: O PT e a atual base aliada ganharão as eleições em 2014 se não houver um substancial crescimento econômico, facilmente perceptível, até lá? Ou mais: esta base se manterá aliada se não houver este crescimento?

Amanhã continuarei esta análise. Tomarei como base a revista Carta Capital de 12 de dezembro de 2012, com a sua reportagem assim intitulada: A velha cara da nova direita - Do Instituto Millenium aos jovens reacionários, o Brasil volta ao passado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pensar Pela Própria Cabeça. Jorge Amado.

Neste final de semana não teve post. Por várias razões. Recebi visitas e me ocupei com outras coisas sobre as quais ainda escreverei. Mas o principal motivo, não vou contar, eu simplesmente vou mostrar e vocês vão avaliar se valeu, ou não, a pena.
Olha os viventes preparando o fogo de chão. Costela da melhor qualidade.

Mas... voltando a literatura. Eu estou na fase de ler memórias. Agora estou lendo as de Jorge Amado. Como ele diz que as suas foram de muito curta navegação, ele as intitulou como Navegação de cabotagem. Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei. Já separei muita coisa interessante, a partir dele.

Mas uma preciosidade é esta em que ele fala sobre o pensar com a própria cabeça. Todos acham que isso é muito fácil e coisa e tal. Já escrevi sobre o livro de Jonathan Franzen que leva o título de Liberdade. A conclusão a que ele chega é a de que o único de seus inúmeros personagens, que era realmente livre, era um bêbado que não ligava a mínima para a vida. Os outros todos estavam profundamente enredados nos mais diferentes liames da vida, tecidos pela sociedade. Pelo livre pensar se paga um preço muito elevado.
Mas, vejamos Jorge Amado:

Pensar pela própria cabeça custa caro, preço alto. Quem se decidir a fazê-lo será alvo do patrulhamento feroz das ideologias, as de direita e as de esquerda e as volúveis: há de tudo e todas implacáveis. Ver-se-á acusado, xingado, caluniado, renegado, posto no pelourinho, crucificado. Ainda assim vale a pena, seja qual for o pagamento, será barato: a liberdade de pensar pela própria cabeça não tem preço que a pague. Isso se encontra na página 51.

Se você já se manifestou em público, por mínimo que seja, ou se você já tomou posições e atitudes que exigiram uma certa firmeza, você certamente está sabendo do que o Jorge Amado está falando.
Como não é todo dia que se faz uma costela dessas, vai mais uma amostra aqui, junto com o seu artífice, o Paulo, meu vizinho e amigo como poucos.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A Educação. - Em torno de seus resultados.

Um dos conceitos mais importantes para quem estuda a educação é o conceito de cultura e o que envolve a formação desta mesma cultura. Marx, junto com Engels, trata disso em A Ideologia Alemã. Eu aprecio muito o conceito enunciado por Freud em O Futuro de uma Ilusão, que em nada contraria o enunciado dos dois. Ei-lo:
Freud define a cultura.

 "Como se sabe, a cultura humana - me refiro a tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos; e eu me recuso a separar cultura e civilização - mostra dois lados ao observador. Ela abrange, por um lado, todo o saber e toda a capacidade adquiridos pelo homem com o fim de dominar as forças da natureza e obter seus bens para a satisfação das necessidades humanas e, por outro todas as instituições necessárias para regular as relações dos homens entre si e, em especial, a divisão dos bens acessíveis".

No belo manual de filosofia de Antônio Joaquim Severino, já em seu primeiro capítulo, são apresentadas as três esferas da existência humana, que são estabelecidas nas diferentes relações que os seres humanos travam: relações com a natureza, com os outros e as que ele estabelece consigo mesmo. Estas relações ou práticas são assim sintetizadas por Severino:

"Prática produtiva: Ao produzir seus meios de subsistência, os homens interferem na natureza com vistas a prover os meios de sua existência material, garantindo a produção de bens e a reprodução da espécie". Assim se forma a parte material da cultura.
"Prática social: Ao produzir seus meios de subsistência, os homens estabelecem entre si relações que são funcionais e caracterizadas por um coeficiente de poder". Estas relações produzem as diferentes instituições da sociedade.
"Prática simbolizadora: As relações produtivas e sociais são simbolizadas em nível de representação e de apreciação valorativa, no plano subjetivo visando a significação e a legitimação da realidade social e econômica vivida pelos homens". Esta relação que eu estabeleço comigo, cria o mundo dos valores, das crenças e das simbolizações. Em, outras palavras, o mundo da subjetividade.

Em suma, os seres humanos, ao estabelecerem relações criam eles próprios o seu mundo, criam a cultura e forjam o caminho de sua história. A cultura, em síntese, é uma produção dos próprios homens. Esta cultura é cumulativa e possível de transmissão.É isso que forma as visões de mundo. Uma das das principais formas de transmitir a cultura e formar uma visão de mundo é a da educação escolar. Os meios de comunicação hoje exercem um papel preponderante. É isso que gera todo o debate sobre os currículos - o que ensinar - e também a tão propalada liberdade de imprensa - mecanismos de controle, ou não, sobre ela. Antes esse papel era exercido dogmaticamente pela igreja.

A educação escolar assim integra o campo da socialização, em que a criança é inserida no mundo da cultura dos adultos. A educação assim tem objetivos bem definidos, resultados a serem buscados. Isso forma o campo dos paradigmas educacionais.

Para refletir em torno disso trago duas afirmações bombásticas. A primeira é de autor desconhecido, mas bem poderia integrar os textos de Adorno em suas terríveis reflexões sobre a educação após Auschwitz:

" Sou sobrevivente de um campo de concentração.
Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver:
Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.
Crianças envenenadas por médicos diplomados.
Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.
Mulheres e bebês fuzilados por graduados em colégios e universidades.

Assim tenho minhas dúvidas a respeito da educação.
Meu pedido é este: ajudem seus alunos a tornarem-se humanos.
Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados.
Aprender a ler, escrever, aprender aritmética só são importantes quando servem para fazer os nossos jovens tornarem-se cidadãos mais humanos".

A outra é de Gautier,(1811- 1872) poeta e escritor francês que afirmava o culto à arte pela arte. É, portanto, a negação do utilitário e do pragmático em favor da afirmação do belo, daquilo que é imensurável e intangível. O útil e o pragmático é exaltado pelas pedagogias tecnicistas, produtivistas, mediadas pelo treinamento, e que vêem o ser humano como um mero capital a se transformar numa máquina de alta tecnologia. Bela reflexão para uma época de loucura por mensuração de habilidades e competências, de busca desenfreada de resultados e estabelecimento de competitivos rankings. Formação para a cidadania e para o mundo do trabalho são indissociáveis. Mas vejamos Gautier:

"Nada é verdadeiramente belo a não ser aquilo que nunca pode ser útil para coisa alguma. Tudo o que é útil é feio, pois é expressão de alguma necessidade, e as necessidades humanas são ignóbeis e reflexivas, como a própria natureza pobre e fraca dos homens. O lugar mais útil numa casa é a latrina".

Como é complexa a questão da educação. Não é por nada que Paulo Freire tanto insiste na necessidade de uma sólida formação política, científica e pedagógica do educador.