terça-feira, 29 de abril de 2014

A Alegoria da Caverna. A República de Platão.

Como obtive êxito ao publicar o texto de Kant sobre o que é a ilustração, repito hoje a experiência com o texto de Platão, retirada de A República. É um texto básico da filosofia e ele abre os caminhos para o mundo da racionalidade. Vamos ao texto, sem delongas e sem comentários.
Uma representação. Se a aparência fosse igual a essência não haveria a necessidade da ciência.

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma espécie de morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.
Glauco: Entendo.
Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.
Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros.
Sócrates: Eles são semelhantes a nós. primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?
Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?
Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?
Glauco: É claro.
Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que veem, pensariam nomear seres reais.
Glauco: Evidentemente.
Sócrates: E se, além disso houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?
Glauco: Sim, por Zeus.
Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições, não poderiam concluir nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.
Glauco: Não poderia ser de outra forma.
Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer, ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras, anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o, com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.
Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram agora?
Glauco: Sem dúvida alguma.
Sócrates:E se o tirassem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.
Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.
Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.
Glauco: Sem dúvida.
Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, o sol tal como é.
Glauco: Certamente.
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.
Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?
Glauco: Claro que sim.
Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o heroi de Homero, que mais vale "viver como escravo de um lavrador" e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?
Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.
Sócrates: reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?
Glauco: Naturalmente.
Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?
Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.
Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Texto extraído de Textos Básicos de Filosofia - dos pré-socráticos a Wittgenstein, de Danilo Marcondes. O livro é da Zahar.Se você dividir esta história em três partes, ela ficará mais fácil de ser entendida. O que acontece dentro da caverna, o que acontece na saída e, finalmente, o que acontece na sua volta.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Em Busca de Iara.

Iara era filha de uma rica família judaica de São Paulo. Sua educação escolar ocorrera em escola judaica e ela tinha todas as perspectivas e condições de viver uma vida absolutamente normal. Aos 16 anos já estava casada com um estudante de medicina. No documentário Em Busca de Iara,um irmão seu dá o depoimento de que em sua educação básica não havia nenhuma preocupação com a formação política. A grande transformação em sua vida ocorreu, quando foi estudar psicologia, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A famosa, aquela localizada na rua Maria Antônia. O casamento logo deu vez para os debates políticos.
 
Cartaz promocional do filme documentário, Em busca de Iara. Sessão especial em São Paulo.

Iara Iavelberg e também o seu irmão se envolveram profundamente na efervescência política que se seguiu ao golpe de 1964 e que instaurou a ditadura militar. Com o endurecimento do regime, a partir de 1968, passou a integrar organizações clandestinas, que optaram pela guerrilha e a luta armada para combater a ditadura que ingressava em seus anos de chumbo. Sucessivamente pertenceu à POLOP, à VAR-Palmares e finalmente ao MR-8. Treinou para a guerrilha, junto com o capitão Lamarca, no Vale do Ribeira e por ele se apaixonou perdidamente. Viveram como companheiros ao final de suas vidas, abreviadas pela implacável ditadura. Iara foi a grande professora de marxismo e de política de seu companheiro.

Com o cerco se fechando em São Paulo, eles partem para a Bahia, para iniciar a fase final, a guerrilha rural que fatalmente derrubaria o regime opressivo, segundo suas esperanças. Iara vai viver em Salvador e Lamarca irá para o interior. Nesta fase já integram o MR-8. O aparelho em que Iara se encontrava em Salvador cai em mãos da polícia e ela morre nestas circunstâncias, em 1971. Lamarca morrerá executado, mais ou menos, um mês depois. Segundo a versão oficial, Iara optou pelo suicídio, em vez de se entregar para a polícia. O laudo cadavérico nunca foi encontrado, apenas algumas anotações.
Divulgação

O seu enterro ocorreu em São Paulo, na ala dos suicidas do cemitério israelita. A versão do suicídio nunca foi aceita pela família e o fato de ser enterrada na ala dos suicidas causou muitos constrangimentos aos familiares. Alguns, inclusive, abandonaram o Brasil, em consequência. Esta é a história. E é aí que começa a luta em busca da verdadeira versão da morte de Iara. Desmentir a versão oficial e estabelecer a verdade é a grande finalidade deste documentário, Em busca de Iara.

Mariana, filha de Rosa, irmã de Iara e, portanto, sobrinha de Iara, é que se empenhou na realização do documentário do qual é produtora, junto com o diretor Flávio Frederico. Sete anos foram consumidos em pesquisa para a sua realização. Parece ser uma questão de honra familiar estabelecer a verdade em torno da morte de Iara. As pesquisas buscaram documentos históricos, notícias da imprensa da época, entrevistas com os jornalistas que fizeram a cobertura, com os familiares e com os companheiros irmanados na mesma luta. Chamou-me muita atenção nestes depoimentos, especialmente os da irmã e de um médico simpatizante, sobre as convicções que ela alimentava e a crença absoluta de que, em muito breve, sairiam vitoriosos nesta empreitada.

Em 2003, por decisão judicial, o corpo de Iara é exumado. O corpo de Iara, quando de sua morte fora entregue à família em urna lacrada. Na exumação os legistas desmentem a versão do suicídio, constatando a distância em que o tiro que a vitimou foi dado. A distância era incompatível com o fato de ela mesmo ter atirado em si. Assim, a família obteve a remoção de sua sepultura, da ala dos suicidas, para repousar junto a seus pais. Creio que, para a família, esta foi a maior vitória.
Capitão Lamarca
Iara foi ainda mais procurada pela organismos da repressão depois de ser a companheira de Lamarca.

Mas resta ainda uma questão muito maior. Hoje é fartamente sabido que no período da ditadura militar a tortura era uma política de Estado e uma prática comum, assim como houve também pessoas desaparecidas e outras versões de suicídio, como a do jornalista Vladimir Herzog, por sinal também judeu, e que, pela ação do rabino Henry Sobel, que, recusando a versão do suicídio, não o enterrou na ala dos suicidas do cemitério judaico, num episódio memorável. Em nome da lei da Anistia, de agosto de 1979, todas as ações praticadas neste período, de ambos os lados, seriam beneficiados com a lei. Mas existe uma legislação superior, que estabelece crimes imprescritíveis, como é o caso dos crimes de tortura cometidos pelo Estado.

Outra coisa é a questão da verdade. Muitas verdades já desmentiram versões falsas e que foram falseadas exatamente em nome do ocultamento de atos hediondos praticados. A Comissão Nacional da Verdade, bem como as comissões estaduais estão desenvolvendo um trabalho memorável de restauração da memória e da verdade, mas ainda não se sabe sobre o que será feito após a verdade restabelecida. Em outros países que também sofreram horrores semelhantes a legislação já está mais avançada.

Neste sentido o documentário é notável. Ele resgata não só a verdade para o círculo familiar de Iara, o que por si só já é bastante, mas ele presta uma enorme contribuição para que o Brasil, ao conhecer a sua verdade, não mais repita a possibilidade de que tamanhas atrocidades e tormentos possam se repetir. O diretor Flávio Frederico e, especialmente a Mariana Pamplona, produtora e sobrinha de Iara, merecem um tributo de gratidão de todos os brasileiros que prezam  os valores da democracia, da liberdade e da verdade.





quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dianópolis. Goiás. O campo de treinamento de guerrilha das ligas Camponesas.

O ano de 1963 era para ser o grande ano do presidente João Goulart. Ele finalmente governaria o Brasil sob o regime presidencialista. O plebiscito realizado em 6 de janeiro foi muito mais do que a consagração popular de Jango. Foi uma vitória fora de qualquer parâmetro e proporção. Até farto dinheiro da FIESP irrigou a campanha do Não. Do não ao parlamentarismo e do sim ao presidencialismo. De um total de 11,5 milhões de eleitores 9,5 milhões votaram no não, ou seja, 5 em cada grupo de 6 eleitores queriam ver Jango presidente do Brasil, sob o regime presidencialista. Uma consagração popular inimaginável.
O episódio de Dianópolis é narrado neste livro de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes.
Mas em dezembro de 1962 aconteceu um fato totalmente inesperado e que daria muita dor de cabeça ao presidente, especialmente no campo de sua política externa. Esta era autônoma, na medida do possível. Não havia um alinhamento automático à política americana. Jango já havia contrariado Kennedy, especialmente, com referência a questão cubana.  Uma notícia foi publicada no jornal O Estado de S.Paulo, o único órgão da grande mídia, contrário ao presidencialismo, no dia 4 de dezembro e dava conta do descobrimento de um campo de treinamento de guerrilha das Ligas Camponesas, na cidade de Dianópolis, em Goiás. Nada ainda estava esclarecido, mas a notícia foi dada. Foram encontrados alguns livros com ensinamentos em técnicas de guerrilha, munições e propaganda comunista.

Depois se ficou sabendo que o coronel José de Seixas ficara encarregado de apurar denúncias de um contrabando de geladeiras, que eram descarregadas em um lugar onde nem sequer havia energia elétrica. O coronel facilmente tomou o lugar, não conseguindo prender ninguém, mas encontrando as "geladeiras". O coronel descobriu que tinha descoberto um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas. As caixas continham bandeiras cubanas, manuais de instrução de combate, retratos e textos de Fidel e de Julião, planos de sabotagem e de implementação de outros focos guerrilheiros no país. Além disso havia registros de contabilidade, que demonstravam a origem do apoio cubano para o aparelhamento guerrilheiro no país.
Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas.

O coronel Seixas entregou o material apreendido diretamente ao presidente Jango, que imediatamente convocou o embaixador cubano e lhe mostrou toda a sua indignação. O governo de Cuba, que fora ajudado por Jango, recebe deste armas para desestabilizá-lo no poder. Mas Jango agiu com toda a discrição, devolvendo o material, diretamente para o governo cubano. Aí acontece o pior. O avião da VARIG, que levava o material apreendido de volta para Cuba, sofreu um acidente no aeroporto de Lima, no Peru, e a CIA descobre o material. Assim o governo dos Estados Unidos está munido de provas concretas  do treinamento de guerrilha urbana no Brasil, com o patrocínio cubano. A revolução cubana estava se expandindo na América latina. Era a prova que os Estados Unidos precisavam.
Jango em Washington. Relações complicadas com o presidente Kennedy.

Nada de pior poderia ter ocorrido para Jango. No exato momento em que estava às vésperas de reaver a plenitude de seu mandato presidencial ele ganha um enorme problema internacional, pelo qual passa a ser visto, sempre com desconfiança pelos Estados Unidos. Já internamente os seus inimigos conseguem colar mais facilmente nele o estigma de ser um perigoso comunista que queria transformar o Brasil numa enorme Cuba. A vida de Jango foi uma vida nada fácil. Dianópolis foi uma enorme pedra no sapato do presidente. E, como incomodou.  Este post foi elaborado a partir do livro: 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, do capítulo 9. O plebiscito: a hora e a vez de João Goulart.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Almanaque 1964. Ana Maria Bahiana.

O que é, afinal de contas um almanaque? O Aurélio nos dá a resposta precisa. Almanaque "publicação que, além de um calendário completo, contém matéria científica, literária, informativa e, às vezes, recreativa e humorística". O livro de Ana Maria Bahiana  Almanaque 1964 - Fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo (e nem sempre para melhor) se encaixa perfeitamente na definição do grande dicionário do Aurélio. É um calendário que esmiúça o ano de 1964, mês a mês e dia a dia, contém muita informação sobre os acontecimentos e fatos históricos daquele ano e tudo narrado com um leveza que leva você a deslizar por suas páginas, sempre com um ah! para soltar e com um risinho meio irônico nos lábios.
Lançamento do mês de março, da Companhia das Letras - Almanaque 1964 - da jornalista cultural e escritora Ana Maria Bahiana.

O caráter científico do Almanaque está garantido pelo uso de fontes primárias, numa pesquisa de fôlego pelos jornais e revistas do ano e com o complemento do uso de bons livros de história que se ocupam deste ano em que o Brasil conheceu um golpe que, infelizmente, o levou a sua mais longa e mais horrorosa ditadura. O livro é fartamente ilustrado, como o eram as revistas daquele ano. Os anos 1960 foram realmente anos extraordinários, cravados com o signo da mudança, e nem sempre para melhor, como nos adverte a autora, já no título do livro. As mudanças tiveram um caráter essencialmente conservador. Se tivéssemos que escolher o ano mais representativo dentro dos anos 1960, certamente escolheríamos o ano de 1968, mas as mudanças ocorridas já em 1964 também foram extremamente significativas.
 1964, o recrudescimento da mais terrível guerra dos Estados Unidos, a guerra do Vietnã.

Ana Maria Bahiana é jornalista cultural. É muito conhecida dos brasileiros pelos seus trabalhos no Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo e na Rede Globo de Televisão. Mora em Los Angeles. Sobre o Almanaque, ela mesma revela a intenção de escrevê-lo: "O que quero, aqui, é dar uma visão o mais completa possível de como se vivia, como se pensava, como se falava em 1964, no Brasil e no mundo" e já nos dá, na apresentação do livro, uma valiosa dica do contexto do cenário internacional: "A Guerra Fria, os direitos civis, a nova geopolítica, as novas estéticas, os Beatles e os Rolling Stones". 

A autora nos conta que, ao refazer a viagem ao tempo passado, de cinquenta anos atrás, que "as descobertas foram muitas" e que deseja que o mesmo se repita com os leitores, ao lerem este Almanaque. Confesso que, ao menos comigo, o objetivo foi alcançado. Fiz inúmeras descobertas e as maiores estão realmente no campo cultural. Pela minha reclusão ao seminário, neste ano de 1964, concluindo o meu ensino médio em Gravataí -RS, percebo o quanto os padres nos mantinham à distância dos fatos do mundo real.
1964, O ano notável do surgimento dos Beatles.
Como se trata efetivamente de um almanaque, o livro é, em primeiro lugar, um calendário e este calendário lhe confere a sua estrutura básica. Depois de uma introdução sobre os anos 1960, os doze meses do ano formam os doze capítulos do livro. Cada mês ganha, digamos uma manchete, com destaques do noticiário e com fotografias de página inteira. Segue a observação pessoal da autora na captação e interpretação de cada mês, para na sequência, apresentar a linha do tempo, onde são apresentados os fatos mais importantes ocorridos no mês. Praticamente não escapa nenhum dia, em que não tenha ocorrido um fato relevante. Tudo é fartamente ilustrado com memoráveis fotografias e com recortes de jornais e revistas.

A própria autora, numa espécie de introdução Os 60 até aqui, seleciona os grandes temas que ocuparam as manchetes. Assim o cenário das guerras e conflitos está dominado pelo Vietnã, pela Argélia, pela África portuguesa em suas lutas pela descolonização, pelo Congo, pelo Chipre e por Cuba. Sob o tópico Sociedade e Cultura os grandes fatos serão o Muro de Berlim e a divisão da Alemanha, a afirmação dos direitos civis e o assassinato de John Kennedy (1963) nos Estados Unidos, a continuidade da realização do Concílio Vaticano II, e a juventude que surge no contexto do pós-guerra.
Martin Luther King, o mais jovem ganhador de um Nobel da Paz, no ano de 1964.

Enquanto isso o cenário brasileiro passa pela eleição e renúncia de Jânio Quadros e a ascensão de João Goulart ao poder e o seu conturbado governo que termina com o golpe que o depõe. As interferências do governo no contexto golpista ganham um merecido destaque. Já ao longo do ano de 1964 dá para perceber, acompanhando a narrativa dos fatos, os descaminhos do golpe e a consequente ditadura, cada vez mais aterradora.

Alguns fatos para aguçar a curiosidade. É o anos dos Beatles e dos Rolling Stones, o ano do Nobel de Literatura para Sartre e do Nobel da paz para Martin Luther King, o ano do discurso de Che Guevara na ONU, da realização dos jogos olímpicos em Tóquio e do lançamento do primeiro trem bala, ligando Tóquio a Osaka, ano de lançamento do filme, Zorba o grego. No Brasil, a vila de pescadores de Búzios entra no mapa brasileiro com a vinda de Brigitte Bardot, foi o ano da morte de Ary Barroso, em pleno domingo de carnaval, e o ano do lançamento da Enciclopédia Barsa, que foi a enciclopédia básica para a realização de tarefas escolares de toda uma geração, que tinha um mínimo poder aquisitivo. E numa coincidência, quando Lyndon Johnson abole a segregação racial nos Estados Unidos, aqui no Brasil é eleita a primeira mulata num concurso de beleza. Vera Lúcia Couto Santos é eleita Miss Guanabara.
1964 também foi o ano do memorável discurso de Che Guevara na Assembleia das Nações Unidas.

O livro tem um complemento intitulado Trivial Variado, com as principais músicas, discos, filmes e livros que foram destaque neste ano de 1964. Ana Maria Bahiana já publicou um outro livro, entre muitos, Almanaque anos 70. Poderia muito bem lançar um almanaque do ano de 1968, o mais emblemático de todos e assim formar a sua trilogia.

Almanaque 1964 - Fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo (e nem sempre para melhor) de Ana Maria Bahiana é lançamento da Companhia das Letras, do mês de março. Quando recebi o livro e dei uma primeira olhada, a ideia que imediatamente me veio à cabeça é a de que o livro é especial para ser dado de presente. É um livro da leveza de uma almanaque mas que em momento algum deixa de ser um livro de elevado valor e qualidade, sem o caráter massivo de muitos livros da academia.  






















quinta-feira, 17 de abril de 2014

Audiência Pública na Câmara dos Deputados sobre a Petrobras.

Mais uma tarde acompanhando a questão da Petrobras. Desta vez, a Audiência Pública realizada pela Câmara dos Deputados, em uma de suas Comissões. Hoje o convidado foi o ex diretor, Nestor Cerveró, que em 2006, ocupava o cargo de diretor da área internacional da empresa. Isto é relevante, pois toda a celeuma em torno do caso Pasadena, passou por suas mãos. Foi dele o relatório que deu base para que o Conselho Diretor da empresa aprovasse, por unanimidade, a hoje questionada compra da refinaria americana.
 foto: Agência BrasilNestor Cerveró justifica a deputados compra de refinaria
Nestor Cerveró, calmo, tranquilo e acima de tudo transparente, na Audiência Pública de hoje na Câmara dos Deputados.

Vamos contextualizar um pouco. Em 1998, quando FHC ainda era presidente da República, houve a decisão  sobre a internacionalização da Petrobras e da compra de uma refinaria nos Estados Unidos. Ela foi comprada em 2006. Agora, em 2014 esta compra está sendo trucidada, a tal ponto que a bancada oposicionista está pedindo uma CPI, sobre o caso. Foi um bom negócio, ou não foi um bom negócio? Eis a questão. A questão se agravou quando a presidente Dilma, que presidia o Conselho em 2006, afirmou que não teria aprovado a compra, se no relatório apresentado pela empresa, constassem todas as cláusulas essenciais do contrato. Estas cláusulas eram realmente essenciais?

Ontem, na Audiência Pública no Senado, Graça Foster disse que sob o olhar de hoje, Pasadena não foi um bom negócio. Que a entrada em cena do Pré-sal alterou profundamente o mercado do petróleo e que, a partir de 2008, houve novas alterações na conjuntura, com a grave e longa crise da economia mundial. Mas que isso não poderia ser visto, não era previsível, em 2006. Falou da complexidade do mercado do petróleo, um mercado de muitas variáveis. O essencial, em 2006, envolvia o refino de petróleo pesado que o Brasil tinha sobrando. Que hoje, Pasadena perdeu o caráter de prioridade nos investimentos da empresa, que hoje ela está em operação, refina cem mil barris dia e que ela gera lucros.
Graça Foster e o senador Lindbergh Farias, presidente da CAE e da reunião conjunta desta terça (Geraldo Magela/Agência Senado)
Graça Foster no Senado ontem. Houve contradições entre os depoimentos? Pasadena foi um bom negócio, ou não.

Hoje (16.04.2014) foi a vez de Nestor Cerveró. Ele foi na qualidade de convidado, mas os que lhe fizeram o convite, não foram nada cordiais para com o convidado. Cerveró, a exemplo de Graça Foster, é um quadro técnico da empresa, que ascendeu à diretoria, e que tem 39 anos de serviços prestados. Primeiro fez uma explanação técnica, relatando todo o caso da compra da refinaria americana. Aí começou o seu calvário e a sua crucifixação, afinal de contas, estamos em plena semana santa. Em minhas observações cheguei a quatro conclusões sobre o objetivo dos tucanos e de seus asseclas menores, mas não menos irados. Em primeiro lugar, tentaram incriminar de todas as formas a presidente da República Dilma Rousseff; em segundo lugar, tentaram por todos os meios qualificar Pasadena como um negócio desastrado e malfadado; em terceiro, incriminar Cerveró, se ele não entregasse a presidente Dilma e, finalmente, criar uma CPI seletiva, que investigasse única e exclusivamente a Petrobras.

Cerveró se comportou de forma absolutamente digna, em nenhum momento se exaltou, embora provocado permanentemente e se absteve de qualquer ilação de caráter pessoal. Sobre a sua troca de diretoria e a posterior aposentadoria, disse que estes são procedimentos absolutamente normais dentro da empresa. Que chegou a condição de diretor por seus méritos e não por indicação política, como os deputados procuravam insinuar. Disse não haver contradição entre as suas declarações e as de Graça Foster de que na época, tudo indicava que a compra seria um grande negócio. De certa forma invejou os comentaristas esportivos, que podem comentar um jogo, após o seu término. Falou das mesmas alterações na conjuntura de mercado que a presidente Foster apontara no dia anterior. A mídia já está apontando contradições entre as falas. Olhares contaminados, todos certamente. Poucas vezes vi tanta parcialidade, certamente em nome da neutralidade, na cobertura de um fato, como os comentários de Josias de Sousa, na transmissão pela UOL, cheio de interjeições, exclamações e interrogações, Viu isso! -  hum!?! - hã!?! Ah bom! e por aí afora.
Esta logomarca, criada no governo de FHC, preparava o caminho para a privatização da Petrobras. Esta logomarca fala mais do que todo o estardalhaço que a oposição está fazendo e revela as suas intenções mais profundas.

Cerveró se mostrou visivelmente cansado, de tanto responder as mesmas perguntas. É que os deputados queriam ouvir, não o que Cerveró tinha para dizer, queriam ouvir respostas que se encaixassem em seus objetivos, que favorecessem a sua sanha em desmerecer a Petrobras. Enquanto não ouviam o que queriam, procuravam tumultuar todo o processo. A condução dos trabalhos, embora imparcial, foi no mínimo, frágil. Nos dois primeiros blocos, apenas deputados oposicionistas fizeram questionamentos. Apenas no último bloco é que deputados da situação vieram em defesa do ex diretor. Entre eles esteve o deputado Dr. Rosinha, aqui do Paraná, que falou do comprometimento dos deputados oposicionistas com o imperialismo internacional. Pintou no ar, por um pequeno momento, um certo clima pré 1964. Por pouco tempo, mas que permeia todo o cenário brasileiro, desde o FLA X FLU entre a UDN entreguista e o PTB nacionalista.

No último bloco também houve a intervenção do ex comunista Roberto Freire, que se dirigiu ao convidado, lhe fazendo horríveis ameaças, do que será a sua vida, após a instauração da CPI. O que eu concluo disso tudo? Há 16 anos é que o governo está nas mãos do PT e que ao longo destes dezesseis anos houve avanços econômicos e sociais enormes. Isto ocorreu porque fomos governados sob o princípio de que o Brasil é uma Nação, uma Pátria e não um mercado, como os tucanos o fizeram no governo FHC. Mercado é uma lugar em que existe espaço para a competição e a seleção/exclusão, enquanto que a Nação ou a Pátria é um local de acolha de todos os filhos desta Pátria. Um local em que os excluídos do processo de seleção também se sentem acolhidos.
 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Audiência Pública no Senado sobre a Petrobrás.

Dediquei a tarde de ontem a acompanhar a Audiência Pública no Senado Federal sobre a Petrobras, em que mais de trinta senadores (as) questionaram  Graça Foster, a presidente da empresa. De uma maneira geral houve equilíbrio nas questões levantadas e os senadores oposicionistas, aproveitando o holofote, pediam a CPI exclusiva da Petrobras, enquanto que a situação dizia que a empresa já estava sendo suficientemente investigada, ou então defendiam a CPI ampliada, envolvendo também denúncias contra administrações do PSDB e do PSB. É compreensível que o assunto ganhe grande ressonância, em vista das eleições de outubro, cada vez mais próximas.
 
Graça Foster na Audiência Pública no Senado, sobre a Petrobras. Calma tranquila e transparente.

A Petrobras é uma empresa criada em 1953, no governo de Getúlio Vargas, após forte campanha nacionalista, sob o lema O Petróleo é Nosso. A maioria das consultorias apontava pelo menos três motivos para o insucesso do empreendimento: Não havia petróleo no Brasil; não havia um quadro técnico que poderia dar sustentação ao empreendimento e que não havia dinheiro para financiar o projeto. Em contrapartida, havia vontade política e determinação para criá-la. Como resultado, temos aí, hoje, a maior entre as empresas brasileiras.

A Petrobras entra em cena cada vez que o calendário eleitoral se aproxima. O governo de Fernando Henrique Cardoso foi um governo altamente privatista, defendendo uma economia absolutamente em consonância com o mercado e o Brasil era apresentado ao mundo, não mais como uma Nação, mas sim, como um mercado emergente. Houve até uma proposta de troca do nome da empresa, para que o seu nome soasse mais facilmente para os operadores do mercado e tivesse retirada a lembrança de Brasil, com o final bras, em seu nome. Passaria a se chamar Petrobrax. Alguns milhões chegaram a ser gastos com o desenho da nova logomarca da empresa. A reação foi enorme e FHC amarga índices de popularidade inexpressiva até hoje.
A logomarca da Petrobras, quando sob o governo de FHC, ela esteve para ser privatizada.

Em 2002 Lula vence as eleições. A situação da Petrobras tem pouca repercussão na mídia. A politização na eleição de 2006, ocorre através da CPI dos Correios, que termina com o escândalo do chamado mensalão, que empurra a eleição para um segundo turno. Aí a Petrobras entra em cena. A campanha é politizada. Em menos de um mês, Geraldo Alckmin perde três milhões de eleitores, que tivera na primeiro turno, para Lula. Na politização do debate a questão da Petrobras foi decisiva. Em 2010, José Serra tentou levar a Petrobras ao debate, mas sem êxitos.

Endividamento, baixa das ações da empresa no mercado e a compra de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos se transformaram num vulcão de denúncias contra a empresa, que já teve dois desenlaces. O afastamento de um seus diretores e a prisão de outro.  A questão central é a compra da refinaria americana por um valor x, junto com uma empresa belga e a compra posterior desta empresa, por uma cláusula do contrato, por um valor muito mais alto.

Escolados e escaldados com a CPI que levou ao dito mensalão, a situação está tentando de todas as formas evitar a CPI. Por sua vez, animados com a perspectiva eleitoral, a oposição quer desgastar o governo até às últimas consequências, contando com os holofotes da TV Senado. Pois bem, numa tentativa de evitar a CPI, Graça Foster compareceu a uma Audiência Pública no Senado, realizada no dia de ontem (15.04.2014).    
 Outra imagem de Graça Foster, durante a Audiência Publica no Senado, sobre a Petrobras.

Graça Foster iniciou por uma exposição técnica, que eu não assisti. Vi isso sim, desde as primeiras, até as últimas intervenções dos senadores (as) e as respostas da presidente. Alguns senadores foram mais agressivos ou até indelicados, como o senador Álvaro Dias, que falou em abismo econômico e ético na empresa e o líder da oposição, o senador Mário Couto, que acusou Graça, lendo matéria da Folha de S.Paulo, que fazia pesadas incriminações ao marido de Graça, em contratos com a empresa. Como o senador não se conformava com a resposta negando a acusação, o senador Suplicy ajudou ao Senador oposicionista a ler corretamente a matéria. Mário Couto omitia na sua leitura um "não". Dias atrás ele já havia pedido impeachment, da presidente Dilma.

A celeuma, no momento, está diretamente relacionada a refinaria de Pasadena. Em 2006, quando Dilma comandava o Conselho Administrativo da Petrobras, foi aprovado, por unanimidade, a compra desta refinaria. Hoje esta compra está sendo apontada como um mau negócio. Dilma se justificou de que o Conselho aprovou a compra, em função de um relatório incompleto, que omitia dados. Esta compra já causou a demissão do então diretor internacional da empresa, que omitiu os dados, Miguel Cerveró. Em torno deste fato é que houve os maiores questionamentos na Audiência Pública.

Muito tranquila, calma, sem em momento algum elevar a voz, Graça foi respondendo aos diversos questionamentos. A compra de Pasadena foi planejada em 1998, no governo FHC, para a expansão internacional da empresa. Que a compra, com os dados omitidos, parecia ser um bom negócio, devido a complexidade do negócio do petróleo, (exportação/importação/refino) e da economia mundial em expansão. Depois o quadro mudou e sob a ótica de hoje, este negócio não seria prioritário. Que o valor da compra não foi de $ 42 milhões, (como afirma a mídia e a oposição) e sim, mais de $ 370 milhões. Que a refinaria recebeu os investimentos de manutenção necessários a todas as refinarias e que hoje ela dá lucro.

Graça Foster esclareceu a todos os questionamentos com muita firmeza e transparência. A Petrobras não é administrada como uma quitanda.

Diz que a Petrobras não é administrada como uma quitanda (em resposta ao senador Pedro Taques), que ela é séria e distinta de muitas empresas do setor, em todo o mundo. Reconheceu erros de planejamentos, que levam a revisão de contratos e que o endividamentos está em torno de 270 bilhões de reais, endividamento todo ele de caráter produtivo, de investimento. Disse ainda, que de quinze bancos internacionais que acompanham a empresa, cinco recomendam a compra de ações e os outros dez recomendam àqueles que as possuem, para que não as vendam. Enfim, procurou tranquilizar a todos de que a situação da empresa é boa e que vem ao Senado, para dar explicações, por um dever de sua função.


Graça Foster se saiu muito bem e houve, praticamente, unanimidade em tecer elogios a sua conduta a frente da empresa. Qualificativos generosos não faltaram em nenhum momento. Ela e funcionária de carreira da empresa, tendo ingressado nela como estagiária. Carreira brilhante, que certamente, palestrantes da área transformariam em case de sucesso.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Brizola e os "comandos nacionalistas" de 11 companheiros. 1963.

Um dos maiores protagonistas do ocorrido nos idos de 1964, sem dúvida nenhuma, foi Leonel Brizola. O seu feito maior ocorrera em 1961, quando, como governador do Rio Grande do Sul, garantiu a posse de João Goulart, com a chamada campanha da legalidade. Foi um ato de bravura ímpar, heroico e épico.  Depois se elegeu deputado federal pela Guanabara, mas mirava chegar à presidência da República. Disputava com o próprio Jango, o seu cunhado, a liderança do PTB, um partido em ascensão. Brizola foi o líder de maior expressão que existiu na esquerda brasileira.
Os fatos ocorridos entre agosto de 1961 e abril de 1964 estão detalhados neste belo livro.

No interminável ano de 1963, Brizola articulava em todas as frentes e a sua radicalização crescia a cada dia que passava. Certamente causou mais dissabores a Jango do que efetivamente apoio partidário sólido. Tanto Jango, quanto Brizola já miravam a sucessão presidencial que ocorreria em outubro de 1965. Pela legislação em vigor, nenhum dos dois poderia ser candidato. Não havia o instituto da reeleição e Brizola não podia, por ser cunhado do presidente. Brizola lançou o slogan de que cunhado não era parente e, portanto, Brizola  para presidente.

Brizola agitava a vida política brasileira. Criou, no Parlamento brasileiro e a Frente de Mobilização Popular e o seu grupo tinha um jornal com o nome Panfleto. Tinha um programa diário de rádio, transmitido em cadeia e às sextas feiras ficava horas seguidas em suas conversas com o povo, na rádio Mayrink Veiga. Mas as suas atividades não paravam aí. Temendo ser ofuscado pelo presidente Jango, dentro do PTB, organiza o seu próprio partido, que vai para muito além de um simples partido político. Organiza os grupos formados por 11 companheiros. Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, os autores do livro em exame, assim apresentam estes grupos:
 
Leonel Brizola, protagonista dos fatos políticos do início dos anos 1960.

"A 'organização do povo', em sua proposta, seria conseguida com a formação dos 'grupos de 11 companheiros' ou 'comandos nacionalistas'. O líder trabalhista queria reunir os trabalhadores, das mais distantes localidades do país, em pequenos grupos. Por meio deles haveria uma articulação com organizações maiores e já existentes, como  a FMP, o CGT, a UNE, a FPN, as Ligas Camponesas, o PTB e o PSB. Segundo Brizola, o povo compreenderia facilmente do que se tratava. A correlação estava no futebol, esporte praticado por 11 jogadores, cada um atuando em uma posição e com uma função complementar na equipe, sendo um deles escolhido como capitão". Brizola definiu os objetivos destes seus grupos, no manifesto de fundação da organização, ainda de acordo com os historiadores:


Como se manter no poder numa correlação de forças tão complicada como no governo de Jango. Com quem sustentar a governabilidade?

"Os objetivos dos 'comandos nacionalistas' eram a defesa das conquistas democráticas do povo, a resistência contra tentativas de golpes, a luta pelas reformas de base, a determinação em libertar a Pátria da espoliação estrangeira e a 'instauração de uma democracia autêntica e nacionalista'". Havia também uma ata padrão para a fundação de novos grupos. Ela  tinha o seguinte teor:

Nós, os 11 brasileiros abaixo assinados, constituímos um "Comando Nacionalista" (Rua__________, n.________, telefone__________________). Escolhemos para líder e comandante o companheiro___
____________e, nesta data, estamos também comunicando nossa decisão ao líder nacionalista Leonel Brizola de nossos objetivos: Defesa das conquistas democráticas de nosso povo, realização imediata das Reformas de Base (principalmente a Reforma Agrária), e a libertação de nossa Pátria da espoliação internacional, conforme a denúncia que está na Carta-Testamento do Presidente Getúlio Vargas.

Pelos cálculos do deputado Neiva Moreira, entre 60 e 70.000 militantes integraram os "grupos de 11 companheiros". Segundo o próprio Brizola, se formaram no Brasil em torno de 24.000 grupos. Formaram o embrião de um Partido Revolucionário. Todos estes movimentos foram contidos pela violência do regime implantado em 1964. Os dados para este post foram retirados do livro: 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu uma ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, da Civilização Brasileira.

O livro é uma monumental peça para entender o período e proporciona uma bela reflexão do que, efetivamente, se entende por ordem e por legalidade. Nos obriga a buscar as suas origens, a sua constituição. Quem a constituiu e nos interesses de quem, é uma pergunta fundamental a ser feita. Ao longo de minha vida, repeti à exaustão o pensamento de Brecht que diz mais ou menos assim: "O que é violento: A água revolta e agitada de um rio ou as calmas e tranquilas margens que as comprimem?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

José Mujica - El Pepe. No Canal Livre.

Poucos programas de televisão tiveram tanta repercussão quanto o Canal Livre, apresentado pela TV Bandeirantes, com a entrevista de José Pepe Mujica, o presidente do Uruguai. El Pepe é uma das figuras mais humanistas e, como político, é apresentado para o mundo como um modelo. A sua filosofia de vida é algo a ser copiado por todos aqueles que efetivamente se empenham na busca de uma vida mais feliz, dedicada ao que é realmente essencial, com o desapego às coisas materiais. Os entrevistadores, embora as perguntas fossem elaboradas em cima de pesquisas, permitiram que o presidente expressasse bem as suas ideias e a sua maneira de viver. A TV  cumpriu assim, uma bela função.
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Os jornalistas do "Canal Livre" na entrevista com o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica.

A primeira pergunta foi sobre a liberação da produção e do comércio da maconha. A resposta não poderia ser mais extraordinária e esclarecedora. A primeira ideia que passou, e ele estava preocupado com isso, foi a de que a liberação é feita com muito controle, um controle do Estado e que tudo vem sendo cuidadosamente acompanhado por equipes de especialistas, com avaliações constantes. Não existe nenhum estímulo com esta liberação, pelo contrário. Sobre os motivos que levaram o governo a tomar esta atitude, soltou outra frase memorável, mais ou menos assim: "Se queres mudar, não podes continuar fazendo o mesmo". E tinha que mudar. Foi constatado que houve enorme aumento nos índices da violência, da criminalidade e dos homicídios no Uruguai e que, a causa disso era o narcotráfico. O narcotráfico alterou toda a estrutura do crime, tornando a todos iguais, não escolhendo as suas vítimas. Não poderíamos continuar fazendo o mesmo para enfrentar o problema.

O usuário de drogas não é visto como um criminoso. Ele é visto pelo aspecto da saúde e da segurança pública. O controle sobre a droga é feito pelo Estado. A maconha é cultivada em áreas restritas, pertencentes ao exército e a comercialização é feita em farmácias credenciadas pelo Estado e que já mexem com a venda de drogas controladas, nem todas, portanto. Os controles existem, não para incriminar, mas para dar a assistência humana necessária. É coisa de saúde pública. Não houve necessidade de gastos adicionais. Foram aproveitadas as estruturas de Estado já existentes.
  Presidente do Uruguai, José Mujica
Em seu sítio, em sua vida simples. Se dedica ao que é essencial à vida e não ao acúmulo da riqueza.

Disse que são inimigos da maconha, como também o são do álcool e do tabaco. Que retiraram a droga da clandestinidade para melhor conhecer a sua realidade. Que toda a inovação gera medos, mas que as inovações não devem ser temidas. É preciso tirar o fascínio que a proibição gera, especialmente para os mais jovens. Que existem no Uruguai em torno de 150.000 consumidores e que, a aprovação popular ao programa de sua liberação sob controle sofre resistência popular. Que é inimaginável que o Uruguai queira produzir para vender.  

Quando o repórter relatou a experiência de outras restrições do Estado na vida das pessoas, como a não colocação de sal, nas mesas dos restaurantes, como resposta veio uma consideração, que por si só, valeu todo o programa. A única coisa que não podemos comprar neste mundo é a vida, mas ela pode ser melhorada com atitudes perante ela. Por isso, se você quiser se servir de sal no restaurante, você terá que pedir. O seu uso não é proibido, apenas dificultado, em função da vida. Maravilhoso.

Falou do Uruguai como um país laico e que isto já faz parte de uma cultura laica por parte de seu povo e que isso permite muitos avanços na legislação. Assim a prostituição é regulamentada já há mais de cem anos, o país foi um dos primeiros a adotar a lei do divórcio e do aborto em favor da vida. Não porque gostamos do aborto, mas para retirá-lo da clandestinidade. Os programas do Estado conseguem evitar muitos abortos, que seriam cometidos na clandestinidade, sem a sua legalização. O mesmo ocorreu também na legislação anti homofobia e casamentos homoafetivos.
Mujica
De tão simples que ele é,  é considerado até como um ser exótico. Vive realmente o espírito da igualdade.

Outro ponto marcante da entrevista foi quando falou da sua disposição em receber prisioneiros de Guantánamo. Afirmou que o Uruguai é um país de imigrantes, imigrantes que fugiram das necessidades produzidas pela fome ou pela guerra, em busca de oportunidades e que a todos o país recebeu com muita hospitalidade e que a maioria sempre se deu bem. Citou os exemplos de jango e de Brizola. Ele reforçou muito a ideia das prisões injustas e sem julgamento e da disposição uruguaia em dar a essas pessoas oportunidades e perspectivas em suas vidas. A questão suscitou o problema das ditaduras da América Latina e dos julgamentos dos crimes de Estado praticados. A sua posição é a de que a verdade precisa ser estabelecida, o que é muito difícil pelos pactos de silêncio que foram firmados.

Também a questão econômica foi abordada. Por volta do ano 2.000, 40% da população uruguaia vivia abaixo da linha de pobreza. Falou dos programas de auto-gestão e das dificuldades de implementar esta mentalidade. Falou do sistema bancário e dos rigorosos controles exercidos sobre os bancos. Os bancos públicos dominam os setores vitais da economia e que estes tem, como grande finalidade, viabilizar os programas de auto-gestão na economia. Não existe mais a lavanderia dos bancos uruguaios. A Suíça latina, que tinha o Brasil e a Argentina como clientes não existe mais, pois, era uma grande injustiça. Os bancos causam grandes dissabores.
Segundo a imprensa uruguaia, o presidente José Mujica considera que Lula tem muito o que ver com o processo de integração da Unasul.
Palavras extremamente elogiosas para Lula. Lula é um grande amigo.Vocês, pelo cotidiano, não conseguem ver sua grandeza.

Nunca vi alguém falar tão claramente sobre a Venezuela. A sua posição é a de que se cumpra a lei, que se sigam os princípios constitucionais. Falou do ineditismo da situação da existência de um exército de esquerda, de um exército Chavista. Falou das relações com a Argentina e sobre a copa do mundo, para terminar com uma referência sobre as relações com o Brasil. A sua resposta foi enfática: As relações são excelentes. Que Lula é um grande amigo, que tem uma grande preocupação com a América Latina e que é um personagem fora de série, cuja grandeza vocês do Brasil, envolvidos no cotidiano, não tem condições de perceber. O Brasil nunca teve um presidente com tanto prestígio mundial quanto Lula. Que Lula age em favor da verdadeira integração, para concluir que as relações são excelentes e que em breve as fronteiras entre o Uruguai e o Brasil estarão totalmente abertas.

Falou ainda das expectativas uruguaias em torno de um porto comum, em águas profundas, que seria também um porto regional e brasileiro, assim como o rio Paraná também é um rio regional, fato já admitido, desde o tempo dos portugueses. O programa terminou com uma questão de humor, mas também de economia. O preço da erva mate. Disse que o Brasil prefere cultivar soja, favorecer o agronegócio, em vez de produzir erva-mate. O Uruguai é o grande consumidor da erva mate brasileira. Isso ainda vai se transformar num problema para a ONU.

Acima de tudo, o que efetivamente encanta em José Pepe Mujica é a sua simplicidade perante a vida, que as pessoas até o consideram como uma figura exótica. Vive da forma mais humilde e doa a maior parte de seu salário. Diz não ter necessidade de muitas coisas e que assim tem tempo para se dedicar ao que é essencial. Que busca viver da mesma forma e, com o quanto ganha, a maioria do povo uruguaio. Diz ainda, que nada tem contra os ricos, mas que abomina aqueles que buscam a riqueza através da política, porque isso trai os princípios republicanos. Se quiser buscar a riqueza que a busquem pelo comércio, pela indústria, pelos bancos... mas não com a atividade política.

Pepe Mujica me lembra outra figura em ascensão no mundo. O papa Francisco. Talvez não trilhem a mesma fé católica mas se irmanam numa vida orientada pelos princípios do humanismo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A Ditadura que mudou o Brasil. 50 anos do golpe de 1964.

Não se assuste com o título do livro. Normalmente associamos a palavra mudança com melhoras, mas não é este o sentido do título deste livro. Ele faz análise das mudanças, das transformações, das consequências de um regime que demorou um tão longo tempo. Afinal, governar durante 21 anos e, da forma como eles bem entendiam, não poderia deixar de provocar mudanças. O regime militar interferiu em todos os setores da vida brasileira e provocou mudanças no que poderíamos chamar de  modernização conservadora autoritária, com profundas implicações sobre todos os setores da vida brasileira. O livro foi escrito no sentido de se entenderem estas mudanças.

Desta nova bibliografia que está surgindo e que até agora eu li, este é o livro mais significativo e objetivo. Cada um dos seus treze capítulos daria, perfeitamente, um livro inteiro. Então ele é marcado pela síntese dos temas que aborda, numa estrutura de conjunto. Ótimo material didático. São treze capítulos de umas 15 páginas, mais ou menos. Como são sínteses também fica difícil fazer o trabalho de resenha, pelos limites do texto. Mas vamos ver se conseguimos dar, ao menos, uma pequena ideia de cada capítulo. Alguns dos capítulos ganharão um post especial.
A Ditadura que Mudou o Brasil
Capa do livro organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, A Ditadura que mudou o Brasil - 50 anos do golpe de 1964, da Zahar.

Capítulo 1. A ditadura faz cinquenta anos: história e cultura política nacional estatista. Este capítulo leva a assinatura de Daniel Aarão Reis. Ele explana o conceito da cultura política nacional-estatista, mostra a sua gênese na ditadura do Estado Novo, sua continuidade com o governo JK, a sua retomada na ditadura civil-militar (Médici-Geisel) e ainda pela política econômica do governo Lula. Um texto interessantíssimo. O contraponto ao nacional-estatismo só poderia ser o internacionalismo liberal.

Capítulo 2. As oposições à ditadura: resistência e integração. A assinatura é de Marcelo Ridenti. Mostra as diferentes oposições que se formaram contra o golpe, como as pessoas identificadas e comprometidas com o regime anterior, demorando-se em descrever a oposição clandestina que se formou e que optou pela luta armada. Na sequência vem a abertura e toda a história da relação com a oposição institucional e os caminhos para a redemocratização.

Capítulo 3. A modernização autoritário-conservadora nas universidades e a influência da cultura política. A autoria é de Rodrigo Patto Sá Motta. Um capítulo extraordinário em que a palavra fundamental é modernização. Esta modernização necessitaria de suportes que foram buscados nas instituições universitárias e de pesquisa. Aparentemente uma grande contradição. Mas a pesquisa recebeu estímulos.

Capítulo 4. Mudanças sociais no período militar (1964-1985). Este capítulo leva duas assinaturas; Francisco Vidal Luna e Herbert S. Klein. A análise é bem abrangente e vai além das análises dos simples arrochos salariais. Mortalidade infantil, expectativa de vida, deslocamentos populacionais também entram na análise.

Capítulo 5. Transformações econômicas no período militar (1964-1985). Este capítulo leva as mesmas assinaturas do capítulo anterior. A análise mostra os diferentes modelos econômicos que foram adotados, bem como as divergências dentro do próprio sistema. O "milagre econômico" e o seu esgotamento também recebe a sua análise e de quebra, estes modelos dentro da conjuntura internacional também são destacados.

Capítulo 6. Revisitando o tempo dos militares. O texto de Renato Ortiz. No meu livro eu fiz uma anotação junto ao texto: Indústria cultural. Aqui vale de novo uma observação fundamental. A ditadura teve um caráter modernizador. O modernizador deste período foi a televisão como instrumento de comunicação de massa. Também a propaganda ganha destaque.

Capítulo 7. Para onde foi o "novo sindicalismo"? Caminhos e descaminhos de uma prática sindical. Duas assinaturas: Ricardo Antunes e Marco Aurélio Santana. Um capítulo para todos os sindicalistas lerem. Relata desde as origens do sindicalismo no Brasil, na era Vargas e o seu controle nos tempos da ditadura. Desta ditadura emanou o chamado "novo sindicalismo", fundamental na redemocratização do país e que forneceu ao país o seu líder mais popular e o seu ator político maior. Já no poder, os descaminhos. A verticalização.

Capítulo 8. A grande rebelião: os marinheiros de 1964 por outros farois. O capítulo é assinado por Anderson da Silva Almeida e ganhou no meu livro a seguinte anotação: memorável. A descrição é dos antecedentes do golpe. Uma história da elitizada marinha e a sua relação com os marinheiros, que eram os serviçais dos navios. Talvez a mais justificada de todas as revoltas e a que mais problemas causou para Jango.

Capítulo 9. O aparato repressivo: da arquitetura ao desmantelamento. A assinatura é de Mariana Joffily. Vejam a clareza de um título. Nele são mostrados os meios de repressão já existes e os novos que foram criados, bem como os meios de tortura que foram mais utilizados e de como ela virou política e prática de Estado. Os novos organismos estavam diretamente vinculados à presidência. Com a redemocratização desaparece a sua nomenclatura.

Capítulo 10. A Anistia de 1979 e seus significados, ontem e hoje. Outro título muito bem colocado por Carla Simone Rodeghero, a autora do texto. Ela trata de conceitos e de história de anistia no Brasil, a de 1945 e a de 1979 e faz belas análises sobre a anistia, que poupou os torturadores do regime militar, de seus crimes. Isto está sendo novamente discutido. Tenho a lembrar que o Brasil é o país que está mais atrasado na investigação dos crimes de Estado cometidos ao longo do regime.

Caricatura do General Médici, o homem de Bagé. Os anos de chumbo soterraram os anos de ouro. A memória negativa prevaleceu sobre os efeitos da propaganda e do milagre econômico.

Capítulo 11. Por que lembrar? A memória coletiva sobre o governo Médici e a ditadura em Bagé. Adorei este capítulo assinado por Janaína Martins Cordeiro. Ela analisa o comportamento dos cidadãos de Bagé em relação ao seu conterrâneo presidente. O presidente dos anos de ouro do regime, do milagre econômico, mas que foram sobrepostos e soterrados pelos anos de chumbo da repressão.

Capítulo 12. O engajamento, entre a intenção e o gesto: o campo teatral brasileiro durante a ditadura militar. O texto é de autoria de Miriam  Hermeto. A análise do teatro brasileiro é feita tendo como base a peça Gota D'Água, de Chico Buarque de Holanda.

Capítulo 13. Política externa do Brasil: continuidade em meio à descontinuidade, de 1961 a 2011. Um texto muito rico de análise das diferentes teses da diplomacia brasileira, entre tentativas de autonomia e de atrelamento à política americana. Como o título dá a entender, houve idas e voltas nestas políticas. O texto tem a autoria de Miriam Gomes Saraiva e Tullo Vegevani.

É muito difícil, num livro desta amplitude, você não ter algo mais específico, que te chame a atenção mais diretamente. Ele contém ótimos elementos para serem debatidos em sala de aula e em outros grupos de estudos e de debates. 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Fernando Gabeira vê a influência da TV na formação da subjetividade dos trabalhadores.

Um dos relatos contidos no livro O que é isso companheiro?, do Fernando Gabeira, que mais me impressionou foi aquele que diz respeito à chegada da televisão na casa dos trabalhadores brasileiros. Fernando Gabeira, depois da participação do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, foi designado pela organização em que militava, o MR-8, para se deslocar do Rio de Janeiro para São Paulo, para iniciar um movimento de arregimentação da classe operária para a luta revolucionária.

Assim Gabeira sairia do foco do Rio, em função da evidência alcançada pela participação do sequestro do embaixador e, iniciaria uma nova fase na luta contra a ditadura, conquistando a adesão dos operários. O entusiasmo maior provinha de uma greve operária realizada  em Diadema. Depois, finalmente, viria a adesão dos camponeses. Mas isto não aconteceu. Um dos motivos foi o fato de os militares se aperfeiçoarem tecnicamente para fazerem frente à luta armada urbana, e aos poucos, todos os pontos foram tomados e a ordem foi estabelecida. Gabeira foi hóspede de uma família operária e, deste seu posto, observou as transformações de comportamento do operariado. Vejam o seu relato. Antes ainda, para lembrar. A TV que já era meio de comunicação de massa, agora já tinha ganho novos atrativos, com a transmissão em cores. Vejamos as observações:
Um aparelho de televisão dos anos 1970, já colorida. A minha primeira, era uma Colorado RQ, com reserva de qualidade.

"Naquelas poucas semanas em que foi dado viver entre aquela família, fui aprendendo outras realidades, que mais tarde tornaram-se cristalinas, mesmo para um conservador. A principal delas era a presença da televisão. Dormíamos todos na sala, mas até as dez e meia da noite a casa era presidida por aquele pequeno aparelho, que polarizaria todos os sonhos, atenuava todos os cansaços da fábrica. Primeiro víamos o jornal, com notícias de todo o mundo. Era um locutor bonito, com uma voz cheia e solene que ia nos comunicando o curso das coisas, enquanto as imagens passavam  diante dos nossos olhos. O que ele dizia não era tão importante  quanto a forma como dizia, a cara com que dizia, as imagens que iam se projetando na tela.

O mundo era um espetáculo, mil vezes mais fascinante e rico do que nossas vidas monótonas e incolores. Depois do jornal, vinha a novela, se me lembro bem da ordem. A novela trazia uma outra dimensão: o amor interpessoal, a ternura, o romantismo e, por que não? alguns sofrimentos e lágrimas. As pessoas choravam, se comoviam, ali naquela sala, e isso até uma certa hora. Quando o aparelho se apagava, o peso do mundo se abatia sobre nós. Éramos de novo reduzidos às nossas vidas pequenas, aos problemas prosaicos daquela sala: dali a pouco dormiríamos; a avó roncaria; os filhos choravam; ruídos e secreções noturnas humanas, muito humanas, ocupavam o lugar dos suspiros da heroína, da música tranquilizante de um anúncio imobiliário. Quando acordávamos, os nossos problemas estavam indissoluvelmente ligados: a febre do garoto, o ciúme do heroi, a dor nas costas produzida pelos teares e a dúvida sobre se a heroína, realmente, está interessada em outro homem.
Neste livro do Fernando Gabeira encontramos este relato sobre as influências da televisão. 

O que era realidade, o que era fantasia? Aquelas semanas foram importantes para desenvolver algumas ideias que, certamente, mais tarde seriam execradas pela esquerda de Neanderthal. O avanço na televisão aparecia para mim como um avanço do nível de vida material dos trabalhadores, ou, pelo menos, do nível de vida. Antes, o que nos provia do sonho era o circo, no máximo a novela de rádio. A televisão entrara com algo muito novo. Não era apenas um aparelho que se comprava: comprava-se também o veículo para mercadorias culturais extremamente sofisticadas, produzidas no exterior e colocadas na sua sala sem nenhum acréscimo no preço. Os trabalhadores experimentavam a televisão como uma melhoria real de vida, e a televisão avançou celeremente durante os anos da ditadura".

Apenas um lembrete final, para melhor compreensão. O livro de Gabeira foi escrito logo após a sua volta ao Brasil, em agosto de 1979, com a lei da anistia. O período que ele descreve é ano de 1970, o mais terrível da repressão e o ano da copa, do tri campeonato brasileiro, sob a forte influência da televisão.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil.

Um dos livros mais completos que apareceu sobre o entorno do golpe civil militar de 31 de março, 1º de abril de 1964 é o livro de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instaurou a ditadura no Brasil. O autor e a autora são historiadores. A edição é da Civilização Brasileira. É um, entre tantos livros, que apareceram por ocasião da passagem dos cinquenta anos deste triste evento do golpe, que se transformou na mais brutal e na mais longa ditadura no Brasil.
Um relato minucioso do que foi o Brasil de 1961 a 1964, ou seja, do governo de Jango.

O livro, de 419 páginas, faz um retrato amplo e detalhado do que foi o governo de João Goulart, em seus quase três anos a frente do governo brasileiro, primeiro sob o regime parlamentarista e depois com os poderes amplos do regime presidencialista, poderes que lhe foram restituídos por plebiscito. Este foi um dos períodos mais conturbados de nossa história, em que nenhum único fato, foi obra do acaso. Havia forças políticas em disputa, tão díspares, que um equilíbrio para a sustentação no poder, era uma tarefa quase impossível. A narrativa abrange, desde o mês de agosto de 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, até os idos de abril de 1964, quando já se vislumbrava que o golpe desembocara numa ditadura, de desfechos imprevisíveis. A história é contada ao longo de 23 capítulos.

As fontes usadas pelos historiadores são os editoriais da imprensa deste período, pronunciamentos oficiais dos governantes e parlamentares, das lideranças sindicais e dos líderes dos movimentos sociais, como as Ligas Camponesas. O olhar dos historiadores observa a dinâmica histórica do período, com a movimentação das forças que disputavam o poder, em busca da construção de hegemonia. Assim, eles se detém no governo de Jânio Quadros, especialmente na sua renúncia e no quadro de sua sucessão. Para o ministro da guerra de Jânio, o marechal Odílio Denys, Jango não era um homem confiável e, portanto, não deveria assumir. Coisas da guerra fria e da ideologia da segurança nacional.

A historiadora Angela de Castro Gomes, uma das autoras do livro, no seu lançamento no RJ.

Jango, nestes dias de turbulência, se encontrava em missão diplomática na China. Poderosas forças articulam no sentido de que Jango não tomasse posse. Jango tinha todo um passado vinculado a Vargas e ao trabalhismo e o seu nome causava fortes reações. O marechal Odílio Denys, ministro da guerra de Jânio, tudo fez para que Jango não assumisse o poder, o que implicava numa quebra da constitucionalidade. Leonel Brizola garante a legalidade, num movimento heroico e épico. Em negociações posteriores Jango concorda em assumir o poder de forma limitada, sob o regime parlamentarista, para a irritação de Brizola. Um plebiscito popular devolve a Jango o poder sob o sistema presidencialista. A marca registrada que Jango queria deixar de seu governo, seriam as reformas de base, em especial, a reforma agrária. As forças em disputa se tornaram então beligerantes.
 
Os historiadores, autores de 1964, Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, no lançamento do livro no RJ.

Jango procurava conciliar, o que convenhamos, não é nada fácil, quando as diversas forças já se encontravam em estado de guerra. Este clima ocupa muitas e muitas das páginas do livro. De um lado estão os grupos há muito tempo conhecidos na história brasileira, que são as forças do liberalismo internacional e os seus asseclas brasileiros, capitaneados pela UDN, de Carlos Lacerda e dos governadores Magalhães Pinto e Ademar de Barros, que tinha um partido próprio. A estas forças somavam-se as instituições do IBAD e do IPES, amplamente financiadas pela CIA e que se encarregavam da propaganda e da agitação política. Eram as forças civis que se articulavam com setores do exército e que estariam, mais tarde, à frente do golpe.

 Jango buscava a governabilidade e a maioria parlamentar para viabilizar as reformas de base, com o seu PTB, aliado ao PSD.  Mesmo dentro destes blocos não havia unidade. Interesses particulares, egos inflados e a sucessão fazia com que cada um guiasse os seus próprios passos. As esquerdas, numa expressão de San Tiago Dantas, eram divididas em esquerda positiva (Jango, Arraes e o próprio Dantas) e a esquerda negativa (Brizola, Prestes e Francisco Julião e, ainda, a poderosa CGT)). Os dias começam a ficar mais difíceis para Jango, quando ele se aproxima da esquerda negativa, usando a expressão de Dantas. Antes Jango já abandonara o Plano Trienal, o seu plano de governo, elaborado por San Tiago Dantas e Celso Furtado. A inflação começa a pesar contra Jango. No cenário externo, Jango terá em John Kennedy, um "mui amigo".
Jorge Ferreira também é autor de uma bela biografia de João Goulart, lançada em 2011.

Jango começa a perder o aparelho militar com a questão dos sargentos em Brasília, ainda em 1963, e com a questão dos marinheiros, já em março, quase às vésperas, no Rio de Janeiro. Estes dois episódios são preponderantes para a compreensão da sequência da crise. O Comício da Central do Brasil, o levante dos marinheiros e as últimas tentativas de se manter no poder ocupam as páginas finais do livro, quando também envereda pelos primeiros e desastrados movimentos do golpe, do qual derivou a mais longa e a mais violenta ditadura da história brasileira.  Volto ao livro, em novos posts, com alguns temas mais específicos.
É um livro imprescindível para quem efetivamente quiser fazer um julgamento criterioso deste período, sem se deixar levar pelo senso comum, normalmente eivado de paixões, tanto pelo lado dos defensores de Jango, bem como por parte de seus detratores. Se me permitirem, apresento a sugestão de verem o documentário deste período, intitulado Jango,dirigido por Sílvio Tendler. Este documentário é narrado pelo José Wilker. Desta forma também homenageamos este grande nome do cinema e da televisão brasileira, que acabamos de perder.

O que é isso companheiro? Fernando Gabeira.

Um importante fator na compra de livros, sem dúvida, é o seu preço, especialmente, quando esta compra tem que caber dentro de apertados orçamentos. Neste sentido, as editoras estão lançando as edições de bolso. Certamente estão contando com bons resultados. A mais recente edição de bolso que eu comprei, foi o livro do Fernando Gabeira, O que é isso companheiro?, da Companhia de Bolso. O livro foi escrito em 1979, assim que o seu autor voltou ao Brasil, após completar 9 anos no exílio, beneficiado com a lei da Anistia, de agosto daquele ano.  O livro fez imenso sucesso e foi também levado ao cinema.

O livro é estruturado em 16 capítulos, dos quais 14 são muito breves e os dois últimos são mais longos. São também os mais importantes, os que foram mais elaborados. Nos primeiros ele conta um pouco de sua vida, desde os tempos de sua natal Juiz de Fora e das suas andanças pelo Rio de Janeiro, onde ganhava a vida como jornalista, desde os 17 anos, no Jornal do Brasil. A uma certa distância conta do ocorrido em 1964, da inconformidade com a não resistência de Jango e dos rumos tomados pelo Brasil, já em mãos dos militares golpistas.
A edição econômica do livro de Fernando Gabeira, pela Companhia de Bolso.

Do seu posto de observação privilegiado, na sua condição de jornalista, que cobria e analisava os acontecimentos, até o seu gradativo envolvimento com a resistência, ocupa toda a primeira parte do livro. O seu envolvimento maior se dá pela participação de uma dissidência do PCB, no Rio de janeiro, o partidão, que deu origem ao MR-8.  Traça um excelente panorama sobre o que significava ser oposição ao golpe e os fatos que levaram estes oposicionistas a se enredarem na luta armada, única forma de resistência que lhes parecia ser possível. Um enorme credo lhes dava as convicções necessárias. Por sempre ouvirem o mesmo e dos mesmos, praticamente não tinham dúvidas.

A resistência, em sua base, era formada por estudantes, alguns intelectuais e outros militares dissidentes. O primeiro movimento foi a detonação da guerrilha urbana, responsável por uma série de atos espetaculares e também a sua fonte de financiamento, com os assaltos a bancos. A partir dessa base o movimento teria que se expandir, penetrando no meio operário e atingir o campo. Do campo é que viriam os libertadores, como ocorrera com os herois da Sierra Maestra e como ensinava o mestre da guerrilha, Regis Debret. Algumas páginas também são dedicadas à análise do Partido Comunista e as suas discussões sobre o caráter feudal ou capitalista da sociedade brasileira, essencial para traçar as estratégias para a revolução. Visto com os olhares de hoje, tende mais para uma história de humor.
O livro de Gabeira levado para o cinema.

A primeira grande tarefa da qual Gabeira participa ativamente é a ação do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. A ação foi conjunta, entre o MR-8 e a Aliança Nacional Libertadora, a maior e a mais organizada das organizações, comandada por Marighella. Na mesma proporção em que fora uma ação exitosa, ela também profissionalizou os serviços de repressão e, em pouco tempo, toda a resistência estava liquidada. O embaixador ganha até páginas simpáticas pelo seu comportamento. Isto aliás não é exclusivo em Gabeira. Outros autores também lhe concedem créditos. Era um progressista e não estava imbuído do espírito da guerra fria, então dominante.

Depois desta ação, a vida clandestina de Gabeira passa a ser total, assim como a dos outros companheiros, mais diretamente envolvidos. Gabeira vai para São Paulo, em missão. Arregimentar a classe operária. A irrupção de uma greve em Osasco alimentava a fé revolucionária de todos. A queda não demora. Daí para frente é só tortura. Em São Paulo será na Operação Bandeirantes. As descrições da tortura são acompanhadas de interessantes reflexões sobre o caráter geral deste instrumento que se transformou numa política de Estado. Quando Gabeira foi preso, ele ficou muito debilitado, em função de um tiro que levou, que lhe afetaram profundamente o estômago e o rim. Em função disto as torturas por ele sofridas não foram normais, foram um pouco mais leves, se é que isso é possível.  Havia o medo de que morresse ao longo das sessões.

De São Paulo ele é levado de volta para o Rio de Janeiro, onde passa pela Polícia do Exército, pela Ilha Grande e pelo DOPS. O único lugar, segundo ele, em que eram melhor tratados era no DOPS. Creio que o ponto alto do último capítulo é a descrição do quadro da tortura. Mostra diferentes perfis de torturadores e também as diferentes reações dos torturados. O maior medo era não resistir e entregar algo de valioso, que levasse a descoberta de novos aparelhos e a novas prisões. Alguns torturados se fechavam e não falavam nada e eram os que mais apanhavam. Outros "colaboravam", entregando pontos, aparelhos e nomes, dos quais já tinham a certeza de que tinham caído, isto é , já eram do conhecimento dos organismos repressivos.

Gabeira barbarizando os costumes após a volta do exílio, em 1979.

A libertação de Gabeira veio com o sequestro do embaixador alemão. 40 "terroristas" ganhavam a liberdade, num voo para a Argélia. Mas a partir daí nada é falado, o livro se encerra por aí. Sabe-se que Gabeira passou a maior parte de seu exílio na Suécia e na sua volta, militou politicamente no PT e no PV e hoje trabalha na TV Globo e, digamos, tem um perfil conservador.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Clube de Compras Dallas.

Existem no mínimo três motivos fundamentais para você assistir Clube de Compras Dallas: 1. Saber como era vista a AIDS, a doença maldita nos anos 1980, quando se acreditava que ela só atingia homossexuais e drogados e era vista como uma espécie de vingança divina contra a má conduta moral e pecaminosa dos homens, 2. a manipulação da indústria farmacêutica que, com a ajuda dos instrumentos do Estado, como o poder judiciário e a agência reguladora de remédios protegiam o lucro, eliminando remédios alternativos e, finalmente, 3. ver em ação uma dupla de atores, Matthew McChonaugey e Jared Leto, vencedores do Oscar de melhor ator e melhor ator coadjuvante, respectivamente, na premiação de 2014.

O cartaz promocional do filme e as suas premiações. Em cena, o texano Ron

A história é dramática e real. Em 1986 o cawboy e eletricista texano Ron Woodroff sofre um acidente de trabalho e em consequência recebe um atendimento médico, quando é diagnosticado positivamente como portador do HIV. Está, portanto, com a AIDS.  Ron é um tipo grotesco, fanfarrão que levava a sua vida em meio a rodeios, drogas, jogos e mulheres e era um machista inveterado. A primeira reação é a de querer bater no médico, por havê-lo julgado como veado. Como já vimos, era crença dominante na época, que a doença era exclusiva de quem mantinha relações homossexuais ou era usuário de drogas injetáveis. Ron cai na realidade, quando os sintomas da doença se manifestam. Ganhara, dos médicos, 30 dias para fazer os acertos com a vida, os seus ajustes de contas. 

Ron começa o tratamento com AZT no hospital. Lá mesmo, através do enfermeiro sabe de outras drogas que também poderiam ajudá-lo. Com estas drogas, conseguidas através do enfermeiro, efetivamente se sente melhor. No hospital, todavia, o único tratamento era com o AZT, devidamente protegido pela FDA, a agência reguladora americana que controla alimentos e remédios. Os lucros do laboratório são astronômicos. Ron, de usuário destes remédios alternativos, passa a traficá-los para uma rede enorme de portadores da doença, que ele conheceu nos hospitais. Como sócio nesta empreitada conta com a participação de Rayon, uma travesti, a quem, a princípio odiava, em sua posição machista. Em certos momentos apenas Rayon o ampara em seus desesperos. E aí, pela via da convivência, os preconceitos vão sendo superados. Ron passa a ser mal visto em todos os ambientes que antes frequentava. A força dos preconceitos contra a sua doença.
O diagnóstico positivo e a reação contra a "doença maldita".

Ron e Rayon fundam o clube de compras Dallas, daí o nome do filme. Mediante o pagamento mensal de 400 dólares o portador do vírus passaria a receber os remédios alternativos. Pelos resultados positivos destes tratamentos o clube se tornou, ou se tornaria um sucesso, não fosse a ação governamental e do poder judiciário, em favor do monopólio do AZT. Ron trafica estes remédios, primeiramente do México, buscando-os depois também em Amsterdã, na China e no Japão. A perseguição é implacável, primeiramente pelos órgãos de repressão e depois pela justiça. Nesta luta, Ron perde seu sócio, Rayon, para a morte. Ron obtém uma única vitória na justiça, quando individualmente ganha o direito de usar os remédios do tratamento alternativo.

Ao final do filme Ron já aparece novamente participando de rodeios e das esbórnias dos tempos anteriores a sua doença. E um letreiro explicativo nos conta que ele viveu, ainda, por mais sete anos. A grande crítica que se fazia ao AZT é que ele afetava o sistema imunológico ao combater o vírus do HIV. As outras drogas fortaleciam este sistema. O filme sustenta com muita força a proteção que o Estado dava ao laboratório que produzia o AZT, conferindo-lhe o monopólio de droga única no combate ao vírus. Se Ron tivesse sido apenas um pacato cidadão, certamente os prazos, ou o prazo de trinta dias, certamente teria sido cumprido.

A premiada dupla, Jared Leto, melhor ator coadjuvante como Rayon e Matthew McConaugey, o melhor ator, como Ron.

Já em casa pesquisei um pouco e entendi melhor o problema. Já nos anos 1990, as outras drogas passaram a ser admitidas. Estas drogas são o DDI e o D4T. Inicialmente eram ministradas separadamente. Depois formaram o chamado coquetel antiaids. Segundo o Dr. Dráusio Varella, a AIDS é hoje vista como uma doença crônica, controlada por remédios, como a hipertensão e a diabetes. No campo dos preconceitos, no entanto, creio que estas doenças não são vistas ainda com tanta similaridade. A carga da moral sexual ainda não está totalmente transposta e muita gente se esforça para que estas barreiras sejam mantidas.

O filme levara seis indicações ao Oscar 2014. Melhor filme, melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original, melhor cabelo e maquiagem e melhor edição. Levou três estatuetas. A de melhor ator, a de melhor ator coadjuvante e cabelo e maquiagem. A atuação da dupla é realmente impecável e, se por cabelo e maquiagem se entende dar aos atores a aparência de doença, vai aí um dado. Matthew, para interpretar Ron, emagreceu 22 quilos. Quando Matthew foi premiado com o Globo de Ouro ele falou que o filme não pretendia mostrar como uma pessoa estava morrendo, mas como uma pessoa estava continuando a viver.