quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dianópolis. Goiás. O campo de treinamento de guerrilha das ligas Camponesas.

O ano de 1963 era para ser o grande ano do presidente João Goulart. Ele finalmente governaria o Brasil sob o regime presidencialista. O plebiscito realizado em 6 de janeiro foi muito mais do que a consagração popular de Jango. Foi uma vitória fora de qualquer parâmetro e proporção. Até farto dinheiro da FIESP irrigou a campanha do Não. Do não ao parlamentarismo e do sim ao presidencialismo. De um total de 11,5 milhões de eleitores 9,5 milhões votaram no não, ou seja, 5 em cada grupo de 6 eleitores queriam ver Jango presidente do Brasil, sob o regime presidencialista. Uma consagração popular inimaginável.
O episódio de Dianópolis é narrado neste livro de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes.
Mas em dezembro de 1962 aconteceu um fato totalmente inesperado e que daria muita dor de cabeça ao presidente, especialmente no campo de sua política externa. Esta era autônoma, na medida do possível. Não havia um alinhamento automático à política americana. Jango já havia contrariado Kennedy, especialmente, com referência a questão cubana.  Uma notícia foi publicada no jornal O Estado de S.Paulo, o único órgão da grande mídia, contrário ao presidencialismo, no dia 4 de dezembro e dava conta do descobrimento de um campo de treinamento de guerrilha das Ligas Camponesas, na cidade de Dianópolis, em Goiás. Nada ainda estava esclarecido, mas a notícia foi dada. Foram encontrados alguns livros com ensinamentos em técnicas de guerrilha, munições e propaganda comunista.

Depois se ficou sabendo que o coronel José de Seixas ficara encarregado de apurar denúncias de um contrabando de geladeiras, que eram descarregadas em um lugar onde nem sequer havia energia elétrica. O coronel facilmente tomou o lugar, não conseguindo prender ninguém, mas encontrando as "geladeiras". O coronel descobriu que tinha descoberto um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas. As caixas continham bandeiras cubanas, manuais de instrução de combate, retratos e textos de Fidel e de Julião, planos de sabotagem e de implementação de outros focos guerrilheiros no país. Além disso havia registros de contabilidade, que demonstravam a origem do apoio cubano para o aparelhamento guerrilheiro no país.
Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas.

O coronel Seixas entregou o material apreendido diretamente ao presidente Jango, que imediatamente convocou o embaixador cubano e lhe mostrou toda a sua indignação. O governo de Cuba, que fora ajudado por Jango, recebe deste armas para desestabilizá-lo no poder. Mas Jango agiu com toda a discrição, devolvendo o material, diretamente para o governo cubano. Aí acontece o pior. O avião da VARIG, que levava o material apreendido de volta para Cuba, sofreu um acidente no aeroporto de Lima, no Peru, e a CIA descobre o material. Assim o governo dos Estados Unidos está munido de provas concretas  do treinamento de guerrilha urbana no Brasil, com o patrocínio cubano. A revolução cubana estava se expandindo na América latina. Era a prova que os Estados Unidos precisavam.
Jango em Washington. Relações complicadas com o presidente Kennedy.

Nada de pior poderia ter ocorrido para Jango. No exato momento em que estava às vésperas de reaver a plenitude de seu mandato presidencial ele ganha um enorme problema internacional, pelo qual passa a ser visto, sempre com desconfiança pelos Estados Unidos. Já internamente os seus inimigos conseguem colar mais facilmente nele o estigma de ser um perigoso comunista que queria transformar o Brasil numa enorme Cuba. A vida de Jango foi uma vida nada fácil. Dianópolis foi uma enorme pedra no sapato do presidente. E, como incomodou.  Este post foi elaborado a partir do livro: 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, do capítulo 9. O plebiscito: a hora e a vez de João Goulart.


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