terça-feira, 15 de abril de 2014

Brizola e os "comandos nacionalistas" de 11 companheiros. 1963.

Um dos maiores protagonistas do ocorrido nos idos de 1964, sem dúvida nenhuma, foi Leonel Brizola. O seu feito maior ocorrera em 1961, quando, como governador do Rio Grande do Sul, garantiu a posse de João Goulart, com a chamada campanha da legalidade. Foi um ato de bravura ímpar, heroico e épico.  Depois se elegeu deputado federal pela Guanabara, mas mirava chegar à presidência da República. Disputava com o próprio Jango, o seu cunhado, a liderança do PTB, um partido em ascensão. Brizola foi o líder de maior expressão que existiu na esquerda brasileira.
Os fatos ocorridos entre agosto de 1961 e abril de 1964 estão detalhados neste belo livro.

No interminável ano de 1963, Brizola articulava em todas as frentes e a sua radicalização crescia a cada dia que passava. Certamente causou mais dissabores a Jango do que efetivamente apoio partidário sólido. Tanto Jango, quanto Brizola já miravam a sucessão presidencial que ocorreria em outubro de 1965. Pela legislação em vigor, nenhum dos dois poderia ser candidato. Não havia o instituto da reeleição e Brizola não podia, por ser cunhado do presidente. Brizola lançou o slogan de que cunhado não era parente e, portanto, Brizola  para presidente.

Brizola agitava a vida política brasileira. Criou, no Parlamento brasileiro e a Frente de Mobilização Popular e o seu grupo tinha um jornal com o nome Panfleto. Tinha um programa diário de rádio, transmitido em cadeia e às sextas feiras ficava horas seguidas em suas conversas com o povo, na rádio Mayrink Veiga. Mas as suas atividades não paravam aí. Temendo ser ofuscado pelo presidente Jango, dentro do PTB, organiza o seu próprio partido, que vai para muito além de um simples partido político. Organiza os grupos formados por 11 companheiros. Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, os autores do livro em exame, assim apresentam estes grupos:
 
Leonel Brizola, protagonista dos fatos políticos do início dos anos 1960.

"A 'organização do povo', em sua proposta, seria conseguida com a formação dos 'grupos de 11 companheiros' ou 'comandos nacionalistas'. O líder trabalhista queria reunir os trabalhadores, das mais distantes localidades do país, em pequenos grupos. Por meio deles haveria uma articulação com organizações maiores e já existentes, como  a FMP, o CGT, a UNE, a FPN, as Ligas Camponesas, o PTB e o PSB. Segundo Brizola, o povo compreenderia facilmente do que se tratava. A correlação estava no futebol, esporte praticado por 11 jogadores, cada um atuando em uma posição e com uma função complementar na equipe, sendo um deles escolhido como capitão". Brizola definiu os objetivos destes seus grupos, no manifesto de fundação da organização, ainda de acordo com os historiadores:


Como se manter no poder numa correlação de forças tão complicada como no governo de Jango. Com quem sustentar a governabilidade?

"Os objetivos dos 'comandos nacionalistas' eram a defesa das conquistas democráticas do povo, a resistência contra tentativas de golpes, a luta pelas reformas de base, a determinação em libertar a Pátria da espoliação estrangeira e a 'instauração de uma democracia autêntica e nacionalista'". Havia também uma ata padrão para a fundação de novos grupos. Ela  tinha o seguinte teor:

Nós, os 11 brasileiros abaixo assinados, constituímos um "Comando Nacionalista" (Rua__________, n.________, telefone__________________). Escolhemos para líder e comandante o companheiro___
____________e, nesta data, estamos também comunicando nossa decisão ao líder nacionalista Leonel Brizola de nossos objetivos: Defesa das conquistas democráticas de nosso povo, realização imediata das Reformas de Base (principalmente a Reforma Agrária), e a libertação de nossa Pátria da espoliação internacional, conforme a denúncia que está na Carta-Testamento do Presidente Getúlio Vargas.

Pelos cálculos do deputado Neiva Moreira, entre 60 e 70.000 militantes integraram os "grupos de 11 companheiros". Segundo o próprio Brizola, se formaram no Brasil em torno de 24.000 grupos. Formaram o embrião de um Partido Revolucionário. Todos estes movimentos foram contidos pela violência do regime implantado em 1964. Os dados para este post foram retirados do livro: 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu uma ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, da Civilização Brasileira.

O livro é uma monumental peça para entender o período e proporciona uma bela reflexão do que, efetivamente, se entende por ordem e por legalidade. Nos obriga a buscar as suas origens, a sua constituição. Quem a constituiu e nos interesses de quem, é uma pergunta fundamental a ser feita. Ao longo de minha vida, repeti à exaustão o pensamento de Brecht que diz mais ou menos assim: "O que é violento: A água revolta e agitada de um rio ou as calmas e tranquilas margens que as comprimem?

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