Que vontade de voltar a ser aluno! Mas com um detalhe. Ter a compreensão e a visão que tenho hoje. Mas, o que me leva a esse devaneio? A leitura e, mais do que a leitura, o debate em torno do lido. E eu prometeria, com toda a aplicação do mundo, ser o mais dedicado entre todos. Nunca deixaria de lado nenhuma tarefa, não deixaria de ler nenhuma das leituras sugeridas. É que terminei de ler, Como e por que ler, do professor Harold Bloom (1930 -2019), que simplesmente foi professor de Crítica Literária da Universidade de Yale. Mas por que este livro me causou tal sensação? Na contracapa, creio, existe a explicação:
Como e por que ler. Harold Bloom. Tradução:José Roberto O'Shea. Objetiva. 2001."Um clicar no mouse pode levar-nos, em segundos, a saber do que se passa em outro extremo do planeta. Museus do mundo todo podem chegar até nós nos monitores de nossos computadores. A cada dia recebemos a informação de forma mais veloz. Entretanto, o livro permanece com seu público cativo. Escritores, leitores, críticos, uma legião de apaixonados que não abre mão do bom e velho exercício de criar e ler histórias.
Harold Bloom, um dos mais importantes nomes da crítica literária contemporânea, convida-nos nesse livro a uma deliciosa viagem por grandes textos da literatura universal. Turgenev, Borges, Whitman, Shakespeare são alguns dos autores que o texto inspirado de Bloom ilumina, com suas sensíveis e inteligentes percepções". Essa viagem passa por muitos outros escritores de diferentes formas e gêneros literários, como o conto, a poesia, as peças teatrais e o romance. Vou me limitar neste post, com o intuito de despertar a curiosidade, a fazer referência aos autores apresentados.
Nos contos teremos encontros com Turgenev, Tchekhov, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Flannery O'Connor, Vladimir Nobokov, Jorge Luis Borges, Tommaso Landolfi e Italo Calvino. Já na poesia veremos A. E. Housman, William Blake, Walter Savage Landor, Alfred Tennyson, Robert Browning, Walt Whitman, Emily Dickinson, Emily Brontë, William Shakespeare, John Milton, William Wordsworth, Samuel Coleridge, Shelley e Keats. Devo confessar duas coisas: O mundo da poesia me é bem estranho enquanto que manifesto muito apreço pelos romances, aos quais o autor dedica dois capítulos. Vejamos os do primeiro:
De Miguel de Cervantes, o Dom Quixote, de Stendhal - A cartuxa de Parma, de Jane Austen - Emma, de Charles Dickens - Grandes esperanças, de Fiodor Dostoiévski - Crime e castigo, de Henry James - Retrato de uma senhora, de Marcel Proust - Em busca do tempo perdido e de Thomas Mann - A montanha mágica. Por óbvio, a preponderância recai sobre Dom Quixote, os diálogos entre o Dom e o Sancho. E o que há de tão importante nesses diálogos? Bloom nos conta: "Se abrirmos, aleatoriamente, o livro, é provável que nos deparemos com uma dessas conversas - zangadas, sonhadoras, em última análise, sempre afáveis, fundadas em respeito mútuo. Mesmo quando discutem com veemência, jamais faltam com a cortesia, e sempre aprendem, a partir daquilo que o outro tem a dizer. E ouvindo, ambos se modificam" (Página 140).
Três são as peças teatrais analisadas: Hamlet de William Shakespeare, Helda Gabler de Ibsen e A importância de ser prudente, de Oscar Wilde. Bloom dá um destaque todo especial à importância de Hamlet. Depois desse interlúdio para a dramaturgia, Bloom retorna ao romance, mais precisamente para o romance nos Estados Unidos:
De Herman Melville examina Moby Dick; de William Faulkner, Enquanto agonizo; de Nathanael West, Miss corações solitários; de Thomas Pinchon, O leilão do lote 49; de Cormac McCarthy, Meridiano de sangue; de Ralph Ellison, O homem invisível e de Toni Morrison, A canção de Solomon. Sublinhei um trecho da análise de Meridiano de sangue: "Cujo frêmito incessante de violência descreve com tanta acuidade nosso passado, representa tão bem nosso presente obcecado por armas, e, sem dúvida, pressagia nosso futuro sangrento. Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer" (Página 266).
Sublinhei ainda, para responder a questão do título, o parágrafo final, antes do epílogo: "Não cabe à leitura nos alegrar, nem, antecipadamente, nos consolar. Mas quero concluir afirmando que todas essas visões norte-americanas do Final dos Tempos nos oferecem mais, muito mais do que uma negatividade purificadora. Se o leitor reler o que vale a pena ser relido, haverá de guardar na memória aquilo que lhe fortaleceu o espírito. Quando me lembro de Moby Dick, penso, antes de mais nada, no amor fraternal entre Ismael e Queequeg, e, em seguida, comovo-me diante de Ahab, o Prometeu americano. Em última análise, o efeito causado pelos seis romances melvillianos aqui discutidos não é niilista, mas ambíguo, e essa ambiguidade reserva extraordinária gratificação à pessoa do leitor. Ahab, Addie Bundren, Shrike, os anônimos agentes de Tristero, o malévolo juiz Holden, Ras, o Exortador/Destruidor, Rinehart, o Traficante/Reverendo e Guitar constituem um grande pesadelo, mas não obstruem, para o leitor, as buscas (por mais frustrantes que sejam) de Ismael, Darl Bundren, Miss Corações Solitários, Édipa Maas, Kid, o Homem Invisível e Milkam Dead. Entre estes últimos há sobreviventes: Ismael, Édipa, e o Homem Invisível. Por que Ler? Para ser assombrado por grandes visões: de Ismael, o sobrevivente que escapa para poder nos contar a história; de Édipa Maas, embalando nos braços o velho indigente; do Homem Invisível, preparando-se para emergir, como Jonas, do interior da baleia. Todos eles, nas frequências mais altas, falam ao leitor, e pelo leitor" (Página 267).
Pela importância que o autor conferiu a Hamlet, deixo a resenha, inclusive com um adendo desse livro.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html

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