segunda-feira, 27 de julho de 2026

ITAPIRANGA. Minha terra. Recorte histórico e memórias. José Nedel.

Recebi do meu irmão Hédio José o belo livro Itapiranga - Minha terra. Recorte histórico e memórias. A autoria é de José Nedel, sem dúvida um dos cidadãos mais ilustres da terra, filho de pioneiros dessa então tão promissora terra. A história nos remete aos idos da década de 1920 para apresentar os seus primeiros registros. Na época havia, no extremo oeste de Santa Catarina, dois portos no rio Uruguai, que formaram os núcleos iniciais da colonização: o Porto Feliz, atual Mondaí (10.066 hab.) e o Porto Novo, atual Itapiranga (16.638 hab. censo IBGE - 2022). Essa colonização foi uma extensão da colonização alemã do Rio Grande do Sul, iniciada em 1824. O tema remonta às minhas origens, à minha formação primeira em Harmonia e depois continuada em Bom Princípio, Gravataí e Viamão. 

Itapiranga. Minha terra. Recorte histórico e Memórias. José Nedel. Oikos.

A história da colonização alemã é bastante conhecida. Os primeiros colonos se estabeleceram em São Leopoldo e São José do Hortêncio, expandindo-se depois pelos vales dos rios dos Sinos, Caí, Taquari e Pardo. As famílias foram se multiplicando e novas frentes de colonização foram sendo abertas. Isso se transformou em uma necessidade. As famílias eram muito numerosas. Cito o exemplo dos meus avós. A família dos avós paternos teve nove filhos e a dos avós maternos quatorze. Alguns dos seus filhos, meus tios, estão nessa saga de pioneiros em Itapiranga. Meu irmão foi para essa região nos anos 1950, como professor. Passou por Palmitos, Linha Catres e Cambucica. Hoje mora em Mondaí.

A história do autor, José Nedel, é bastante semelhante a minha. A diferença é que meus pais ficaram nas chamadas colônias velhas, Harmonia no caso, e os dele, foram para Itapiranga, emigrados da região de Nova Petrópolis. Ele é mais velho do que eu. Nasceu em 1934 e eu em 1945. A semelhança entre nós se deu pela ida ao seminário. Ele, com os jesuítas, em Salvador do Sul e eu com os seculares, em Bom Princípio. A semelhança se dá também pelo exercício da função de professor. José Nedel, além de professor, foi também juiz de direito no Rio Grande do Sul. Mas essa história, a de juiz, ele não conta nesse livro. A diferença é a de que,  enquanto eu me estabelecia no Paraná, ele voltou ao Rio Grande do Sul.

Mas vamos ao livro. Ele é maravilho e, como se trata de recortes históricos e de memórias, ele é de leitura fácil e agradável. Adotou uma narrativa num estilo jornalístico, fugindo do academicismo. Ele consta de apresentação, cinco capítulos, considerações finais e preciosas referências bibliográficas. Os cinco capítulos tem os seguintes títulos: I. Aspectos da ação dos jesuítas no sul; II. Porto Novo - Itapiranga: Do início à emancipação política; III. Itapiranga: autonomia e desenvolvimento; IV. Linha Jaboticaba: Paulo e Catarina Nedel pioneiros; V. Memórias pessoais: tópicos seletos. Os três primeiros capítulos remetem à história, enquanto que os dois últimos à crônica familiar e pessoal.

Para mim, o capítulo de maior interesse foi o primeiro. Confesso que me senti um tanto jesuíta, tal foi a sua influência em minha formação, embora eu tenha ido para o seminário dos padres seculares e o padre Oscar Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos, também fosse um padre secular, mas de formação jesuítica.

José Nedel nos oferece um panorama sobre a ordem dos padres jesuítas, desde a sua fundação em 1534, sua vinda e expulsão do Brasil, o seu retorno em 1842, as suas intensas atividades no sul do Brasil, a fundação dos colégios, até hoje colégios de formação de elite. O aspecto mais interessante do capítulo é a sua forma de atuação, sempre interligando a igreja com a escola. Como, com a República, o Brasil se tornou um país laico, as paróquias se encarregaram da criação de escolas paroquiais, sob o seu comando. No início dos anos 1950, foi numa dessas escolas que eu fui alfabetizado. As paróquias tinham também a seu encargo a organização da vida da comunidade. O termo Verein se tornou onipresente: Lehrerverein, Bauersverein, Volksverein. Dessas instituições, o Volksverein se tornou a instituição mais interessante. Ela preservou a língua alemã (foi ela a minha primeira língua), os costumes e impulsionou a formação de novas colônias, tendo o cuidado de mantê-las sob a influência alemã e católica. Itapiranga é um exemplo dessa colonização.

Da organização da vida comunitária e a unidade em sua manutenção eu teria dois destaques a fazer. As colônias se intercomunicavam através de dois veículos de comunicação, praticamente presentes em todas as comunidades. O St. Paulus Blatt e o anuário Ignatius Kalender, escritos em alemão. Creio que o St. Paulus Blatt continua circulando até os dias de hoje. Ele foi um importante veículo de propaganda da colonização de Porto Novo - Itapiranga. O outro aspecto é o da organização cooperativa, especialmente no setor financeiro. A poupança dos colonos, depositada nas Sparkasse, financiavam especialmente os novos casais que vinham se formando, ajudando-os, especialmente na aquisição de um pedaço de terras. Nesse setor teve grande destaque o padre Theodor Amstad. Essa forma de crédito deu origem as atuais cooperativas de crédito como a Sicredi e a Sicoob. A Sicredi, em Linha Imperial (Nova Petrópolis e a Sicoob, em Itapiranga. Vejam bem que o espírito cooperativo acompanhou os colonos em sua migração para o extremo oeste catarinense. Sobre esse tema também tenho a recomendação de um interessante livro, do qual eu ofereço uma resenha. Trata-se de A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

O segundo capítulo nos leva ao extremo oeste de Santa Catarina, ao Porto Novo, hoje Itapiranga. Como vimos, a sua colonização é uma extensão da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Após cem anos, ela precisava de uma expansão. O St. Paulus Blatt se encarregou da propaganda da nova terra prometida. A narrativa passa pela organização das empresas colonizadoras, das possibilidades econômicas oferecidas e das dificuldades encontradas. O rio Uruguai garantia o fluxo das riquezas. Ganham destaque na narrativa as famílias dos pioneiros e a presença dos padres jesuítas que vivamente acompanharam os colonos em seu processo migratório. Esse núcleo pioneiro fez surgir três municípios: Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis. O grande destaque desse capítulo é o da atuação do Volksverein, em todo esse processo e no espírito da preservação do germanismo e do catolicismo. O germanismo ocasionou sérios problemas no entorno da Segunda Guerra Mundial. Nos mesmos moldes, só que sob o comando dos luteranos, alguns anos antes houve a colonização do Porto Feliz, atual Mondaí. Também tenho a resenha de dois livros sobre o tema. Os livros também me foram remetidos pelo meu irmão.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/08/porto-feliz-mondai-o-centenario-da.html

No terceiro capítulo já adentramos na segunda metade do século XX. O foco está no desenvolvimento da região. Os antigos lugarejos agora se transformam em municípios, desmembrados de Chapecó, o grande município mãe. O desenvolvimento ocorre com a abertura de estradas, com a chegada da energia elétrica, do saneamento básico, de estabelecimentos educacionais, comerciais e industriais. A presença do Estado se tornou efetivamente presente: CELESC, TELESC... Também o espírito cooperativo se fez presente. E, ao que parece, em meio a isso, tem uma história um tanto complicada. A da cooperativa SAFRITA - agropecuária, que ainda hoje existe, sob o domínio da JBS, me informa uma consulta Google. O espírito do cooperativismo creditício se fez presente com a Creditapiranga, raiz da atual SICOOB.

O quarto capítulo é dedicado à família do autor. Paulo e Catarina Nedel são os pioneiros, que se estabeleceram na Linha Jaboticaba, hoje pertencente ao município de São João do Oeste. Nesse capítulo, meu irmão sublinhou dois nomes que adquiram lotes na referida colônia: Pedro Rech e Arnoldo Fridolino Reichert. Reichert é o sobrenome de minha mãe, de quem Arnoldo Fridolino era irmão. me lembro vagamente de uma visita sua, numa de suas vindas para Harmonia. Não tenho lembranças de Pedro Rech. Meu irmão os visitava constantemente.

O quinto capítulo é de foro particular do autor, suas memórias pessoais. Foi aí que estabeleci muitas de suas memórias com as minhas, especialmente a vida de seminaristas. O seminário foi o grande elemento constituidor de nossas vidas. Acima de tudo, ele nos deu uma sólida formação humanística e nos fez portadores de virtudes que felizmente preservamos. Também numa rápida consulta ao Google, vi que José Nedel faleceu no dia 14 de junho de 2025, e que ainda em seus tempos derradeiros manteve intensa produção cultural. O presente livro é um exemplo disso. A sua edição é do ano de 2025.

Recomendo ainda as ricas indicações bibliográficas, que interessam a todos os que tem interesse na colonização alemã no Rio Grande do Sul, que 2024 festejou o seu bicentenário. Dessa bibliografia me chamou especial atenção um livro sobre esse bicentenário. Trata-se de Duzentos anos de imigração alemã: flagrantes - de autoria de Arthur Blásio Rambo. Editora Oikos, 2023. A essa bibliografia eu tenho um acréscimo a fazer. Uma indicação de Antônio Cândido sobre a colonização alemã. A aculturação dos alemães no Brasil - de Emílio Willens, da Companhia Editora Nacional, 1980. Tenho uma resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-aculturacao-dos-alemaes-no-brasil.html

E como essas leituras me provocam um enorme saudosismo também deixo um post do blog sobre Harmonia, a minha querida terrinha natal. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/11/tributo-harmonia-i-terra-em-que-eu-nasci.html



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